quarta-feira, 22 de julho de 2020

Sem toga e sem partido, Moro perde fôlego nas redes, por Thaís Oyama

O ex-ministro Sergio Moro: enquanto ele pensa na vida, Bolsonaro só pensa naquilo-Andre Coelho/Getty Images 

Sem toga, sem cargo e sem partido, o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro está perdendo relevância nas redes sociais. Julho ainda não terminou, mas Moro já registra uma queda 61% no número de menções ao seu nome no Twitter em relação aos trinta dias anteriores de junho.  

O levantamento, feito com exclusividade para esta coluna, é da AP Exata. Ele traz o número de publicações com o termo "Sérgio Moro" feitas na plataforma a partir de uma amostra de 145 cidades em todos os estados brasileiros:
Eis a evolução: A tabela indica que, neste ano, o pico de menções a Moro no Twitter se deu em abril, quando o ex-juiz pediu demissão do governo e acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir nos trabalhos da Polícia Federal. 
No mês seguinte, maio, as citações ao nome do ex-ministro ainda foram altas (434 314), mas despencaram em junho (111 724), e agora ficaram abaixo dos números registrados nos dois  Janeiro: 197 066 
Fevereiro: 66 152 
Março: 51 529 
Abril: 604 241 
Maio: 434 314 
Junho: 111 724 
Julho: 42 862 (até o dia 21) 
meses que antecederam a sua saída da pasta da Justiça (a consultoria atribui o alto número de citações ao juiz registrado em janeiro, 197 066, à sua participação no programa Roda Viva, da TV Cultura). 
Oratória fria e inimigos poderosos: obstáculos para um eventual candidato Moro 
Desde que deixou o ministério da Justiça, Moro repete em entrevistas que quer "participar do debate público", mas que não pensa, "no momento", em candidatar-se à Presidência da República ou a qualquer outro cargo eletivo em 2022. Caso o momento mude, ou mude Moro de ideia, o ex-juiz enfrentará alguns problemas para se tornar um candidato competitivo. 
A oratória fria e engessada que lhe legaram os anos na magistratura é um deles — não empolga e não funciona para o palanque. 
Tampouco ajuda o ex-juiz o fato de seu nome estar associado a uma única bandeira — a luta contra a corrupção continua relevante, mas não sustenta sozinha uma campanha. 
Por fim, há que se levar em conta a quantidade de inimigos poderosos que Moro amealhou ao longo da sua atuação na Lava Jato: políticos, empresários e também advogados — estes últimos são os que mais têm feito questão de mostrar publicamente seu desapreço àquele que foi o algoz de tantos e graúdos clientes da turma do primeiro time. 
"Eu saí do governo e não posso voltar para a magistratura", afirmou Sergio Moro em entrevista no início deste mês. "Vou ter que me reinserir, vou ter que me reinventar", disse. 
A opção a se "reinserir" e a se "reinventar" é cair no esquecimento, como ocorreu com o também ex-magistrado do STF e ex-presidenciável Joaquim Barbosa. 
Por meio dos ministérios da Cidadania e do Desenvolvimento Social, Bolsonaro prepara-se para lançar um programa de ações dirigidas ao semiárido nordestino, por ora batizado de "Sertão Forte". 
Não por coincidência, a região Nordeste tem a maior concentração das classes D e E, as maiores beneficiárias do auxílio emergencial de 600 reais distribuído pelo governo federal e hoje as principais responsáveis pela sustentação da popularidade do presidente. 
Bolsonaro tem a máquina e está decidido a partir para a reeleição. Moro, por enquanto, não tem nada.

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