segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Brasil sem Lula nem Moro, por Juan ARIAS

O juiz mais famoso do mundo e o presidente mais carismático eram as estrelas brasileiras que mais brilhavam recentemente dentro e fora do país. De repente, começaram a ser esquecidos
Cartaz escrito em vermelho, cor associada ao PT, diz "Somos todos Moro", no dia em que ex-juiz anunciou demissão do Governo Bolsonaro, em 24 de abril. RAHEL. REUTERS

Quem um dia escrever a tão convulsionada politicamente, e com as incógnitas que esse importante país latino-americano esconde, história atual do Brasil terá de lembrar dois personagens cuja fama ultrapassou suas fronteiras. Se um dia os famosos Pelé e Garrincha eram associados mundialmente aos brasileiros, juntamente com o samba e a Bossa Nova, desta época serão lembrados dois nomes ligados umbilicalmente à história moderna do país: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro metalúrgico a chegar ao alto comando da República, e o ex-mítico juiz da Lava Jato, Sergio Moro, que colocou na cadeia a nata da vida política e empresarial do país condenada por corrupção e sangrou o Partido dos Trabalhadores, coração da esquerda moderada do país.
Quis o destino que esses dois grandes personagens que monopolizaram a atenção brasileira deste século tivessem hoje praticamente saído de cena. Sem eles a esquerda deixou de ter peso político no país e os dois personagens começam a entrar no esquecimento. 
Lula, depois de sua experiência na prisão, hoje livre e talvez amanhã até absolvido dos crimes que lhe foram imputados, já não será mais, entretanto, o Lula que organizou as grandes greves de trabalhadores e que mais tarde a rainha da Inglaterra convidou para dormir no Palácio Real.

Moro, que chegou a ser o juiz mais famoso do mundo, e Lula, o presidente mais carismático, eram as novas estrelas brasileiras que mais brilhavam recentemente dentro e fora do país. De repente, ambos começaram a ser esquecidos. Lula, porque sempre ficará para muitos a ideia de que o grande líder acabou se corrompendo e corrompendo o Congresso para garantir o poder. 
E Moro porque sua ida ao Governo nazifascista de Jair Bolsonaro como ministro da Justiça queimou suas asas e evidenciou sua sede de poder político, corroborada por sua ruidosa saída do Governo quando viu que era Bolsonaro quem mandava e seus sonhos políticos se frustraram.
Hoje não se trata de procurar culpados, nem isso cabe a este colunista, mas de verificar que o Brasil sem Lula e Moro e hoje com a Lava Jato sendo desarticulada já não é o glorioso e luminoso de ontem. O país perdeu peso e prestígio internacional, bem como convivência pacífica, com suas inevitáveis sequelas de crise econômica e social.

O Brasil de Lula não existe mais e não existirá novamente, nem sequer se ele fosse absolvido das acusações que o levaram à prisão e que ainda podem fazê-lo voltar para trás das grades, pois vários de seus processos ainda estão em andamento. 
Nem existe, de acordo com especialistas em política, o Brasil de Moro, o novo Savonarola que parecia ter chegado para resgatar o Brasil de seus políticos corruptos. 
Aquele Moro, certamente tentado pelo demônio da ambição política, começou a se apagar e a cair em consenso depois de ter chutado o Governo e saído dele atirando.
E se é verdade que o Brasil de Lula e Moro em breve será esquecido e que sua ausência ainda hoje é difícil de prever, a verdade é que estamos diante de um novo Brasil mais lúgubre, com fortes tonalidades de fascismo, imprevisível em sua economia e com grandes questões sobre seu futuro político. Sua classe política ficou destruída, desprestigiada e perdida sem encontrar um líder moderado capaz de reunificar as forças mais saudáveis para retomar um caminho de redemocratização do país depois do furacão autoritário em que o mergulha o presidente Bolsonaro, desnorteado, sem sequer saber por onde caminha.
Basta o último exemplo para descobrir o absurdo deste Governo. Um presidente que confessa publicamente que o ensino no Brasil “é horrível”, esquecendo-se de que em menos de dois anos de Governo já houve três ministros da Educação, cuja incompetência era tal que ele próprio se viu obrigado a expulsá-los. 
Um foi acusado de querer mudar a experiência da ditadura nos livros de História e disse que os brasileiros se comportavam como canibais no exterior roubando objetos nos hotéis; outro cometia erros de gramática em seus escritos nas redes sociais, confessou que os 11 magistrados do Supremo Tribunal Federal deveriam “ser fuzilados” e se divertia zombando de como os chineses falavam português, revelando uma grande insensibilidade em matéria de política externa; e o terceiro nem sequer tomou posse dias atrás, quando se descobriu que havia falsificado seu currículo inventando um doutorado e um pós-doutorado que nunca existiram. 
E se espera um novo ministro da Educação. O ensino é horrível ou eram horríveis os ministros escolhidos por ele?
Não menos pavorosa foi a experiência com o ministério da Cultura, questão de tanta importância no Brasil. Bolsonaro rebaixou o ministério a uma simples secretaria, pela qual já passaram cinco personagens em um ano e meio, um mais estrambótico do que o outro. Um deles chegou a imitar os métodos nazistas de propaganda.
A melhor fotografia do Brasil atual, dominado por uma extrema direita inculta que acabou renegando todas as suas bandeiras eleitorais e que, com a desculpa de acabar com a esquerda acabou copiando seus piores vícios, está sendo a desastrosa gestão da pandemia, uma das mais virulentas do mundo, que já teve três ministros da Saúde, sendo que o atual é um militar interino sem experiência no assunto que afastou médicos para encher o ministério de militares.
É de Bolsonaro o Governo que se uniu no Parlamento à pior direita, a mais corrupta e rançosa, usando os velhos pecados da esquerda de Lula de “comprar” congressistas com cargos e vantagens. Por isso, a eleição de 2022 já está nas ruas. 
Ela, à qual um Lula desgastado já disse que nem mesmo podendo, mas por enquanto não poderia, deseja se candidatar, e à qual Bolsonaro está vendendo a alma para poder se reeleger, e Moro lutando para entrar na briga, será definitiva para saber qual o caminho o gigante americano tomará e qual será seu futuro político.
Enquanto isso, o Brasil vai dessangrando. Mas como os brasileiros não são fatalistas, mas vitalistas que não renunciam à vida e às suas pequenas ou grandes felicidades, encontrarão uma saída, talvez inesperada, aos atropelos democráticos e ao obscurantismo cultural ao qual está sendo arrastado por um Governo militarizado, incapaz de governar, que sonha até acordado com as armas e se alimenta de incompetências, medos, ódios e ameaças de sabres.

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