terça-feira, 14 de julho de 2020

NÃO VERÁS PAÍS NENHUM --Ficção de Ignácio de Loyola Brandão previu o futuro, mas ele desconversa: 'a realidade foi me copiando' , Entrevista a MARIE DECLERCQ

Além dos contos, romances e livros infanto-juvenis,  Loyola Brandão foi jornalista e editor de revistas como Cláudia e a mítica Planeta. 
                                                          Arte: Marcel Lisboa
Loyola Brandão está isolado com a esposa, a arquiteta Márcia Gullo, em um apartamento na zona oeste da capital de São Paulo, e vem descobrindo a inutilidade de alguns hábitos. "Pra que passar roupa?", pergunta o jornalista, cronista e imortal das Letras. 

Viu o regime militar nascer enquanto trabalhava no jornal Última Hora, em 1964. Sofreu a censura duplamente, como jornalista e como escritor. Escreveu o premiado (e censurado) "Zero" (1974) a partir de reportagens que nunca saíram graças à canetada do censor — o autor descreve a obra como sua "bomba atômica" em resposta à repressão. "Não verás país nenhum" (1981), da fase final do regime, segue um de seus livros mais vendidos.
"Não verás país nenhum" fala de um futuro quente, seco e desolado em que a Amazônia virou um deserto e o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, deu lugar a um estacionamento. 
Em um Brasil loteado, o governo nega a ciência e maquia dados, enquanto milícias armadas fazem as vezes de polícia. O realismo brutal da história do protagonista encontra respiros na sátira e na capacidade de Loyola de injetar na narrativa um talento típico do brasileiro: rir de si mesmo. 
A obra se tornou atemporal e assustadora. Mesmo com elementos de ficção científica, Loyola dispensa o rótulo. "Fiz uma ficção político-burocrática", afirma, sucinto. O Brasil distópico e a capacidade de imaginar um futuro tão possível quanto estranho continuou na mente de Loyola, como em seu último romance, "Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela", publicado em 2018.
Profética e áspera, a extensa obra de Loyola lhe garantiu em 2019 a nomeação como imortal na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 11, no lugar do jurista Hélio Jaguaribe. Durante o isolamento, ele participa de transmissões ao vivo para conversar sobre suas obras e segue publicando suas crônicas quinzenais no Estadão. Um tema é recorrente: o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), criticado sem melindres. Na entrevista de mais de uma hora, Loyola falou sobre o rótulo de profeta do Brasil, a visão romantizada da figura do escritor, e fez até uma paródia. "Se eu fosse reescrever 'Metamorfose', faria assim: 'Quando certa manhã um inseto repulsivo acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em Jair Bolsonaro'", disse, rindo.
TAB: Como tem passado a quarentena?
Ignácio de Loyola Brandão: Desde que deixei as redações, passei a viver de palestras e de fazer livros institucionais. De alguma forma já estou isolado há alguns anos, estava um pouco acostumado. Evidente que às vezes sinto falta de ir a um bar ou restaurante, porque era nesses momentos que eu saía de casa, conversava com pessoas e recolhia assuntos para crônicas. Não estamos os dois malucos, estressados, de maneira alguma, mas mantemos a casa como se a qualquer momento pudesse chegar alguém. Me surpreendo, pensando "nossa, tem um sapato no meio da sala. E se chega alguém?". Só que não vai chegar. Vez ou outra vem uma neurazinha, mas vai passar.
TAB: Em maio, entrevistamos o escritor Michel Laub e outros artistas sobre isolamento social e produção artística, e ele desmistificou um pouco essa ideia romântica do escritor isolado que produz sem parar. ILB: Ele está certo. Essa coisa de solidão do escritor é uma besteira. Escritor escreve em qualquer lugar, escreve em avião, às vezes escreve no bar. São as pessoas que me dão assunto para as crônicas, e agora, mais do que nunca, tenho que recorrer à imaginação ou ao que está guardado nas cadernetinhas.
TAB: Recentemente a Penguin Random House publicou uma nova tradução de "Memórias póstumas de Brás Cubas" nos EUA. Esse tipo de iniciativa pode renovar o interesse pela literatura brasileira lá fora? ILB: Machado de Assis sempre foi um autor lido e traduzido, porque é o nosso maior -- ainda que eu prefira o Graciliano Ramos, mas cada um tem seu favorito. A literatura brasileira conseguiu até ser mais traduzida do que era antes. A partir dos anos 1980, com a vinda de alguns agentes literários dos EUA, a coisa funcionou um pouco melhor. Fui muito traduzido na Alemanha, em 14 ou 15 países; minha geração foi muito traduzida. Morando em outros países, eu via que muitos, como a Espanha, mantinham departamentos culturais, patrocinavam institutos da língua espanhola, mandavam professores, pagavam bolsas para tradutores, mandavam obras em espanhol para bibliotecas de toda a Europa. Livros, gramáticas, jornais, revistas, tudo isso. No governo brasileiro se fez muito pouco. Cada vez se começa do zero. Depende de cada governo, de cada ministro. E, agora que não temos nem ministro da Cultura, complicou ainda mais. Quando um país teve um analfabeto, racista, maluco como Ministro da Educação, o que você espera? A cultura agora vai ter que retomar tudo. 
TAB: Em artigo para a Folha de S.Paulo, o escritor Joca Reiners Terron relata problemas para quem vive de escrever, em especial durante a pandemia. Será que isso não vai refletir negativamente na nossa produção literária?
ILB: Não tem nada a ver uma coisa com a outra. A vida inteira fui jornalista para sobreviver, e a vida inteira eu escrevi. Na verdade, os que vendem muito e só vivem de literatura são poucos. A grande maioria, eu diria que uns 80% dos escritores do mundo, sobrevive com trabalhos à parte. E tem os que sobrevivem com dificuldade, mas continuam escrevendo. O ato de escrever independe da sua capacidade de sobreviver. [Franz] Kafka trabalhava em uma companhia de seguros e escreveu aqueles livros. Não precisa abandonar a escrita por dificuldade. O escritor não é mais aquele tipo que ficava em uma torre fechada alheia a tudo. O escritor de hoje tem que se virar, ir pra vida, tem que se movimentar, conversar, formar leitor, tem que fazer tudo.
TAB: Na introdução à edição comemorativa de "Zero", você fala do processo de escrita e das matérias censuradas no "Última Hora", a partir de 1964. Considerando os ataques frequentes à imprensa, você encontra semelhanças do Brasil de 2020 com essa época?
ILB: Durante a ditadura era uma coisa oficial, cada redação tinha seu censor. Não eram só militares. Tinham cooptado civis também, e esses senhores, funcionários públicos, sentavam ao lado na redação, liam tudo que era produzido e aprovavam ou não. Cada livro a ser publicado deveria ser enviado ao Ministério da Justiça. Nenhum editor fazia isso: eles se arriscavam a publicar o livro, correndo o risco de ver a obra ser proibida depois. Foram mais de 500 obras proibidas, grandes livros. Era terrível, você podia ser preso por um livro, como o Renato Tapajós. Era meu amigo, sumiu. [Renato Tapajós ficou preso de 1969 a 1974. Lançou "Em Câmera Lenta" em 1974 sobre sua experiência na prisão e, em 1977, voltou a ser preso pelo regime militar.]
Os filmes eram mandados para a censura, as peças teatrais também, era uma máquina oficial. Essa máquina ainda não existe, mas tentam instalá-la de alguma maneira. Por enquanto, as redes sociais fazem a vigilância e a perseguição, de alguma forma fazem parte do trabalho que a censura fazia. Hoje você tem "fake news", o clima é muito ruim.
TAB: A censura da época parece meio contraditória. A pornochanchada foi contemporânea da ditadura militar, por exemplo. Seria o Brasil tão caótico por essência que um estado totalitário não teria como funcionar da forma tradicional? 
ILB: Mas foi feito um regime totalitário organizado. Na pornochanchada você não via uma transa, não via um pau, uma xoxota. Não era pornô, era mais chanchada do que pornô, era o que conseguiam. Às vezes não tinha nem erotismo, porque era grotesco. Na editora Três, onde trabalhei, tínhamos revistas que publicavam mulheres nuas. Tinha regras como não poder aparecer dois seios ao mesmo tempo, aí a modelo tinha que cobrir um deles. Era uma coisa maluca, uma dor de cabeça, assistir à sessão para escolher fotos. Não podia pelos pubianos, não podia bunda frontal. Era um pouco brasileiro mesmo, uma censura à brasileira. Você tem razão, era meio caótico. A gente ficava louco. A literatura foi minha válvula de escape. Coloquei tudo que quis no "Zero".
TAB: Em uma entrevista à revista Cult você diz que nunca se envolveu com guerrilha ou organizações subversivas, mas que "Zero" foi sua guerrilha. 
ILB: Ele foi minha bomba. Eu não era de violência, de jogar bomba. Fiz uma bomba atômica literária.
TAB: Em uma live com o neurocientista Sidarta Ribeiro, você disse que sua inspiração vem de sonhos e delírios. Muita gente vem relatando que a pandemia da Covid-19 rouba o sono e os sonhos. Como escrever nessa situação?
ILB: A realidade já virou um pesadelo, e o pesadelo também é um sonho. Pronto. Meu livro "Desta terra nada irá sobrar" é um pesadelo. O sonho ainda está aí, mas a realidade é muito mais absurda. Vou atrás da realidade, só que parece uma fábula, uma fantasia, quando não é. A gente vive, minha querida amiga, na anormalidade. A anormalidade virou normalidade. Essa é a questão.
TAB: Não é de hoje que as obras "Zero", "Não verás..." e "Desta terra" são resgatadas por leitores pela terrível semelhança com a realidade. Chamam até de trilogia. 
ILB: Isso foi puro acaso, não foi algo proposital como Érico Veríssimo fez em "O tempo e o vento". Escrevi, continuei e depois de anos os três se encaixaram. Eu estava escrevendo a história do Brasil.
TAB: Você se incomoda ao ser chamado de profeta? 
  

ILB: Não, só dou risada. (risos) Nunca pretendi ser profeta, eu queria fazer literatura. As coisas acontecem e a gente não sabe o porquê. Talvez porque você tenha um olhar, porque olhando pela janela e sendo observador, você vê o que está acontecendo. Olhei pela janela, apenas, e bateu com esse olhar. Escrevo o que eu quero. TAB: Em um trecho de "Não verás país nenhum" você menciona "um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica". 
ILB: É, era isso. Mas não quis escrever uma ficção científica. Fiz uma ficção político-burocrática. Se eu fosse reescrever "A metamorfose" eu diria assim: "Naquela manhã um repulsivo inseto acordou de sonhos intranquilos transformado em Jair Bolsonaro". Esse anda com sonhos intranquilos mesmo, está se cagando de medo de ser impichado. A essa altura imagino que deve dar um desespero, porque ele não sabe se vai ser preso. Estão todos acuados de todos os lados, porque aqueles cachorros malandros de Brasília estão lá para morder.
TAB: "Não verás..." fala de negação da ciência, de um governo desorganizado e autoritário. Algum tipo de circunstância desencadeou o conto "O homem com um furo na mão", e depois o romance? 
ILB: (risos) É muito engraçado, vou contar. Eu estava na editora Abril e fui transferido para a Realidade, uma publicação fantástica que foi esmagada pela censura. Mas não tinha trabalho nenhum, porque a revista não estava saindo, não podia publicar nada. Em uma manhã, entediado, peguei uma caneta esferográfica azul e fiquei girando a ponta na palma de minha mão. "e as pessoas diferentes incomodam". Aí eu escrevi o conto. No dia seguinte, como não tinha o que fazer no trabalho, escrevi esse conto sobre o cara que sai de casa e tem um furo na mão. Era um conto de dez páginas, publicado em uma revista chamada Homem Vogue. Cada vez que escrevo uma coisa e publico, nunca mais penso nela. Mas, depois de publicado, continuei a pensar no conto por anos, até que em 1976, 1977, sentei e escrevi "Não verás país nenhum". Eu vi o país sendo dividido, sendo loteado, e a cada momento descobria notícias e mais notícias, piranhas nascendo sem olhos, buraco na camada de ozônio, um capitalista norte-americano que tinha planos de abrir uma reserva particular na Amazônia. Fiz um arquivo de quatro mil recortes e o livro nasceu. O início foi uma brincadeira. TAB: Essa obra é uma das mais vendidas da sua carreira. Você até chama os leitores de "masoquistas" por gostarem tanto do livro. ILB: Comecei a escrever e pensei, "Quem vai ler esse livro? Ninguém". Mudei um pouco o tom trazendo uma sátira, punha coisas que eram para ser absurdas, para espantar. E foi cativando. A primeira edição se esgotou em uma semana. Nem eu e nem a editora entendemos o que estava acontecendo. Daí pra frente o livro nunca mais parou de vender, já foi traduzido para 11 línguas, e de 1982 pra cá vendeu mais de 1 milhão de cópias. É um livro totalmente atemporal. Aconteceu muito antes do ano de 2050 que imaginei na minha cabeça. A realidade foi me copiando, não tenho culpa.
TAB: Se os sociólogos ociosos que você descreve no romance pudessem batizar o Brasil de 2020 que estamos vivendo, que nome eles dariam? 
ILB: O "Brasil do Foda-se" (risos). Porque está fodido o Bolsonaro, estamos nós fodidos, está fodido quem está com Covid-19. Está tudo fodido. Não se sabe o que vai sair. Ninguém consegue fazer uma previsão, mas as maluquices estão funcionando.
TAB: Até que ponto esse momento, marcado pelo descaso com a cultura e um desejo de apagar feitos anteriores, pode afetar a produção artística no Brasil? Essa fase vai deixar sequelas na arte brasileira? 
ILB: Vai se fazer necessária uma grande convalescença, porque eles estão destruindo tudo que podem. Vi que o presidente da Fundação Zumbi dos Palmares está retirando do site todas as biografias de pessoas que o incomodam, porque acha que eram de esquerda. Zumbi dos Palmares era de esquerda? O que é isso? Querem fazer um revisionismo da história, um revisionismo da cultura. Tiraram da Ancine todos os cartazes de cinema, de clássicos do cinema brasileiro. Uma coisa nazista mesmo, de reescrever a história. Eles se esquecem que o nazismo pretendia durar mil anos, mas durou doze. Eles vão durar dois. Estamos sujeitos a rever e reviver de novo. Não sei se o Brasil tem azar ou se somos culpados de tudo.
Nesse momento passou pela minha mesa o dramaturgo Jorge Andrade, encarregado dos grandes perfis na Realidade. "O que é isso, Ignácio? Um furo na sua mão? Como isso aconteceu?". Olhei e disse: "Não sei, Jorge, eu vinha no táxi e minha mão começou a coçar. Quando cheguei no elevador, fui coçar e saíram os pedacinhos. Ficou esse furo na mão." Ele me disse: "Ficou ótimo, nem o Pitanguy faria tão bem feito. Toma cuidado." Perguntei o porquê. Ele respondeu: "Por que estão demitindo da Abril quem tem um furo na mão". Era o começo dos anos 1970, eu tinha acabado de me casar. Fui pra casa, esqueci de lavar a mão, e minha esposa na época, psicóloga, olhou e disse "Ih, Ignácio, o que é isso?". Contei a história toda e ela disse: "Toma cuidado, que aqui no prédio estão despejando quem tem furo na mão." De novo, perguntei o porquê. "Porque quem tem furo na mão é uma pessoa diferente", ela respondeu,

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