segunda-feira, 13 de julho de 2020

Disputa por vaga no Supremo virou uma gincana, por Josias de Souza


 Imagem: Ricardo Moraes 

A roda de fogo para a escolha do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal converteu-se numa gincana constrangedora e antagônica. 
Nela, postulantes não-declarados denunciam o interesse pela vaga numa corrida para impressionar o dono da caneta. 
A coreografia subverte o sagrado mecanismo do ocultamento. Tamanho é o desejo dos não-pretendentes de se qualificar perante Jair Bolsonaro que eles terminam se desqualificando diante do espelho. Falta ao processo uma noção qualquer de recato. 
André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico da Justiça, esgrime o artigo 26 da Lei de Segurança Nacional (calúnia e difamação) contra jornalista que escreveu artigo intitulado "Por que torço para que Bolsonaro morra"
Não se deu conta de que desejo ainda não é crime. Após atear em Bolsonaro um "amor à primeira vista", o presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio Noronha, sinaliza que o sentimento é correspondido. 
Livrou da cadeia o Queiroz. Libertou até a mulher dele, que nem chegou a ser presa. Ele ganhou reclusão domiciliar porque está doente. Ela foi condenada a interromper a fuga para cuidar do marido. 
Num cenário em que futuras delações são abatidas em pleno voo, restou ao procurador-geral da República Augusto Aras reescrever o passado. Munido de autorização suprema, Aras se equipa para fazer uma excursão pelos arquivos sigilosos da Lava Jato. 
É como se o chefe da Procuradoria desejasse dessacralizar uma logomarca associada à figura de Sergio Moro, o ex-ministro que percorre a conjuntura com aparência de adversário do mito na sucessão de 2022. 
Há em Brasília uma atmosfera de novidade burlesca. Antes, era feio o presidente preencher uma vaga no Supremo com alguém que pudesse agradecer o gesto posteriormente com a toga. Agora, a feiura está no risco de Bolsonaro selecionar o primeiro colocado de uma gincana a ser vencida por aquele que se revelar mais grato pela deferência que ainda nem recebeu.

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