terça-feira, 21 de julho de 2020

Como empréstimos ocultos a países em desenvolvimento ajudaram China a se tornar 'grande credor' do mundo , por Cecilia Barría



'Os empréstimos chineses têm repercussões econômicas gigantescas no mundo em desenvolvimento', diz economista Imagem: Getty 

"Metade do dinheiro que a China empresta a países em desenvolvimento corresponde a créditos ocultos", afirma à BBC Mundo o economista Christoph Trebesch, do Instituto Kiel para Economia Global, na Alemanha. 

Essa foi uma das conclusões da investigação feita por Trebesch, Carmen Reinhart e Sebastian Horn ao analisar as características de 5 mil empréstimos feitos pela China a 152 países entre 1949 e 2017. 

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O trio pesquisou dados de diversas fontes para dimensionar o papel de fato da China no sistema financeiro internacional e sua relação com países em desenvolvimento, onde o gigante asiático consolidou sua presença por meio de empréstimos milionários (ou bilionários) aos setores público e privado. 

Esses créditos ocultos, que têm essa denominação porque não foram informados a nenhum órgão internacional, são feitos por entidades chinesas diversas — que deixam rastros difíceis de seguir. O estudo estima que o montante total desses chamados empréstimos ocultos cresceu substancialmente nas últimas duas décadas e passa de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão, em valores nominais convertidos nos dias de hoje). 

Está cifra inclui o valor acumulado de dívidas ainda pendentes. Ao considerar somente os 50 países mais endividados com a China, o levantamento aponta que a dívida média aumentou para mais de 15% do PIB (Produto Interno Bruto, ou a soma de todas as riquezas produzidas num país em um período) dessas nações, segundo dados disponíveis até 2016. Ainda que o grosso dos empréstimos diretos seja canalizado por meio de grandes instituições controladas pelo Estado chinês, como o Banco de Desenvolvimento da China, existem muitos outros mecanismos indiretos por meio dos quais o país asiático "exporta crédito". 

Seguir essas pegadas é complexo porque os empréstimos raramente assumem claramente a forma de "governo para governo". A maior parte deles provém de entidades controladas pelo governo chinês, e, do outro lado, muitas vezes quem recebe o empréstimo é uma empresa cujo principal dono é o Estado. "Conhecer o nível de dívida de um país e com quem tem dívidas e obrigações é fundamental para o próprio governo, para os contribuintes e para que se possa fazer uma análise de risco de sua estabilidade financeira", explica Trebesch à BBC Mundo, serviço da BBC em espanhol. 

A única citação feita ao Brasil no estudo trata do montante que a China detém em títulos de dívida pública de países como os EUA (US$ 1,4 trilhão, ou 7% do PIB americano) e a Alemanha (US$ 370 bilhões, ou 10% do PIB alemão). 

O Brasil surge no grupo de países em desenvolvimento — entre eles, Indonésia, México e África do Sul — de quem a China comprou quase US$ 30 bilhões em papéis do Tesouro. 

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Para especialistas, os objetivos de Pequim passam por garantir o abastecimento de recursos e matérias-primas  para suas próprias mercadorias. : Getty Images 

A expansão chinesa no sistema financeiro global 
O papel da China como credor global começou a tomar força faz duas décadas, à medida que o país adotou uma política de maior abertura ao exterior. 
Isso coincidiu com o boom econômico da China e sua crescente importância no cenário econômico internacional. "A China se transformou no maior credor governamental do mundo. Não há outro país que empreste tanto dinheiro quanto a China", afirmou Trebesch. 
Com dados de 2018, o estudo aponta que os países (incluindo os desenvolvidos) devem à China mais de US$ 5 trilhões (quase R$ 27 trilhões, em valores nominais convertidos atualmente), o que corresponde a quase 6% do PIB global — há 20 anos, girava em torno de 1%. 
Créditos costumam estar ligados a exportações chinesas ou à construção de obras por empresas chinesas: Getty Images

Embora a China empreste recursos para todos os tipos de economias (incluindo os EUA com a compra de títulos do tesouro por meio de seus bancos), o escopo de sua influência é mais poderoso entre os países de baixa renda, onde empréstimos chineses são maiores que empréstimos de organizações como o Banco Mundial, o FMI (Fundo Monetário Internacional) ou qualquer outro governo. Se considerarmos o grupo dos 50 países mais endividados com a China, a dívida média cresceu de menos de 1% em 2005 para mais de 15% do PIB em 2017. 
Num outro ângulo, 40% da dívida externa desse grupo correspondem à dívida contraída com a China. Há três países latino-americanos entre esses 50 países (Venezuela, Equador e Bolívia), e os mais endividados estão na Ásia (Laos, Camboja e Quirguistão). 
Para Trebesch, o aumento do poder da China no sistema financeiro é "pouco compreendido". "Poucas vezes se pensa a China como um país central para grande parte do mundo. Os empréstimos chineses têm repercussões econômicas gigantescas no mundo em desenvolvimento. Seu impacto vem crescendo ao longo do tempo, e por isso demanda ainda mais estudos.

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