quarta-feira, 29 de julho de 2020

Com suas críticas ao "lavajatismo", Augusto Aras leva a plateia ao delírio, por Thaís Oyama


O procurador-geral da República, Augusto Aras: contra o "lavajatismo" Imagem: GOOGLE 

Em live feita ontem para seletíssima plateia, o procurador-geral da República esculhambou a Lava Jato. A operação que levou 293 pessoas à prisão e resultou em 253 condenações, a maior parte delas por corrupção, é, para Augusto Aras, uma "caixa de segredos" com "50 mil documentos sob opacidade".  
O procurador também vituperou contra o fato de a força-tarefa de Curitiba ter reunido 350 terabytes de informações, com dados de 38 mil pessoas, "que ninguém sabe como foram colhidos". 
Nada disso deveria provocar tanta inquietação no procurador. Ele não explicou direito o que entende por "opacidade" (seriam documentos clandestinos? Secretos? Obtidos ao arrepio da lei? Ou apenas arquivos cuja existência ele desconhecia?). Mesmo assim, se o caso é de preocupação, bastava deixá-lo entregue à Corregedoria-Geral da Procuradoria-Geral da República, que está lá para isso mesmo: apurar eventuais irregularidades de procedimentos por parte de procuradores. 
Aras certamente sabe que não cabe ao procurador-geral sair por aí levantando suspeitas sobre o órgão que chefia. O procurador também não deveria se espantar com os números que citou com tantos pontos de exclamação, como os tais 350 terabytes. 
Segundo o site da Polícia Federal, só entre computadores e tablets, a perícia do órgão analisou até agora 822 equipamentos apreendidos pela força-tarefa, sem falar nos 967 telefones celulares e 1.592 pendrives (lembrando que, hoje em dia, um único pendrive é capaz de conter até dois terabytes de informação). 
No discurso em que pregou a necessidade de uma "correção de rumos" a fim de que "o lavajatismo não perdure", Aras salpicou palavras pesadas, como "bisbilhotice", "chantagem" e "extorsão". O procurador estava mesmo exaltado. Ou talvez estivesse simplesmente tentando agradar à sua audiência. 
A plateia de Aras era formada pela fina flor dos advogados criminalistas do país, daqueles que só topam se sentar para conversar a partir de sete dígitos. 
Para os causídicos das bancas de ouro, a fala do procurador-geral caiu como um som mavioso, quase tão agradável quanto o tilintar de moedas, dado que quase todos eles têm clientes pendurados na Lava Jato — além de estarem em guerra aberta com Sergio Moro. 
No que depender desses advogados, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça "não terá vida fácil", como já disse Marco Aurélio de Carvalho. Carvalho é um dos fundadores do grupo Prerrogativas, que promoveu a live. 
Ele e seus colegas certamente se congratularam pelo resultado da iniciativa. Com sua conferência, afinal, Aras conseguiu o que muitos integrantes do grupo tentaram fazer sem sucesso nos últimos seis anos:transformar a Lava Jato em palavrão.

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