segunda-feira, 27 de julho de 2020

A pandemia e os cabeças civis e militares do governo movem-se na mesma direção, por Janio de Freitas

Bolsonaro cometeu ato de improbidade ao ordenar produção, compra e distribuição de cloroquina
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 Se restar um mínimo de respeito pelas leis e pela chamada coisa pública, Jair Bolsonaro será processado para ressarcir o desvio e desperdício de altas verbas. 

É a resposta legal às ordens abusivas e conscientes de sua improbidade, para a produção, compra e distribuição injustificáveis, e suspeitas, da substância hidroxicloroquina. 
O argumento de que a ineficácia de cloroquina/hidroxicloroquina contra a Covid-19 provinha de pesquisas estrangeiras e duvidosas esvaiu-se, em definitivo. 
Está divulgada a pesquisa em 55 conceituados hospitais brasileiros com duas confirmações: a da ineficácia e a dos efeitos colaterais indesejáveis daqueles produtos. 
Já mais do que consolidada a inutilidade da hidroxicloroquina para os contaminados pela pandemia, por determinação de Bolsonaro os laboratórios do Exército fabricaram ao menos 2,5 milhões desses comprimidos. Somadas outras encomendas, como a de 4 milhões ao Farmaguinhos, o jornalista José Casado chegou a 9,5 milhões de doses produzidas e compradas por decisão de Bolsonaro, além dos 2 milhões de doses doadas pelo excedente dos EUA. 
O próprio Bolsonaro tornou-se uma contra-propaganda ambulante da droga que apregoa. Logo disse, quando forçado a admitir sua queda na contaminação, estar se medicando com hidroxicloroquina. 
Mas os 14 dias da persistência do vírus se passaram e Bolsonaro só agora fala em teste negativo. 
O montante de gasto perdulário e deliberado de Bolsonaro não está revelado. 
Dois ex-ministros da Saúde são testemunhas da improbidade insistente para se comprometerem também, ou saírem.
Seja qual for o gasto a que outros cederam, inclusive no Exército, está coberto com dinheiro público. E a legislação prevê que gastos por improbidade, contrários a pareceres autorizados, sejam reconhecidos como crimes e sujeitos a ressarcimento às contas públicas. Bolsonaro foi mais longe na improbidade. 
Acompanhado, nessa extensão, por Paulo Guedes, pelo general do Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello, e pelos dois chefes que se sucederam no Tesouro Nacional. 
Em paralelo ao gasto previstamente inútil com cloroquina/ hidroxicloroquina, indica o Tribunal de Contas da União que aqueles figurantes retiveram 71% da verba disponível para combate à pandemia e socorro aos vitimados —sobretudo aos carentes, que, mais uma vez, fazem a maioria dos mais atingidos. 

O dinheiro aplicado não chegou a um terço do existente. Aproximam-se os 100 mil mortos. O general especialista em organização de abastecimentos faz faltarem até analgésicos, tão vulgares, para os contaminados. 

Mais do que senso de justiça, é um saldo de senso de vergonha que pode impedir a perpetuação dessa impunidade vagabunda. Covarde. Apátrida. Mas o saldo é incerto, para dele dizer pouco. 

POIS É, SÃO CANDIDATOS
As manobras de Davi Alcolumbre para se manter na presidência do Senado, expirado o seu mandato, viajam para o Supremo. 
Seria melhor que acabassem no meio da rua. Não há esteio moral para que o presidente da Casa de feitura das leis não se sujeite aos regramentos que a vitalizam. E que devia ser ele a reger. 

Aspirante a trocar um auditório chacrinhoso pela Presidência da República —sinal de que não lhe parecem muito diferentes—, Luciano Huck sumiu das páginas e da TV de todos os dias assim que a crise política se acentuou. 
Nem uma palavra sobre ela, sobre os Bolsonaro e Queiroz, sobre o descaso do governo com a pandemia. De repente se faz lembrar, outra vez em página inteira (Folha, 20.7)(https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2020/07/luciano-huck-atrilha.shtml)
Com uma ideia nova: o Brasil pode ser a potência alimentar do mundo. Tema sem lado. E novidade de mais ou menos 500 anos. 

João Doria arroga-se pronto para enfrentar os desafios do país. Mas não tem coragem de enfrentar uma reunião com organizações civis, artistas e outros, para conversar sobre o racismo implícito na mortandade de negros pela Polícia Militar de São Paulo. Logo, esse racismo não é só de PMs.

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