terça-feira, 31 de março de 2020

Arte de BETO

Comentario excepcionalmente cético--....mas, como na "politica" do bananão so mudam as moscas, qualquer surpresa seria SURPREENDENTE!!!....
------------------------------------------------------------

Lima Duarte critica Regina Duarte: 'Chapeuzinho se encantou pelo Lobo Mau' , nas folhas

Lima Duarte completa 90 anos hoje (29/03/2020) e segue ativo no trabalho, assim como com seus pensamentos. Ele relembrou as amizades que fez ao longo da carreira, disse que nunca pensou em parar, além de alfinetar a ex-colega de profissão Regina Duarte. 
Lima Duarte (@RealLimaDuarte) | Twitter
Lima Duarte completa 90 anos Foto Twitter
 "Me aposentar me daria mais tempo para pensar, mas há tanto a se fazer ainda", disse o ator em entrevista.. 
Com uma respeitável lista de personagens marcantes, como o Sinhozinho Malta de "Roque Santeiro" (1985) e Sassá Mutema de "O Salvador da Pátria" (1989), ele guarda com carinho nomes de amigos que fez em seus trabalhos. "São tantos. Minha companheira Fernanda [Montenegro], a querida Laura [Cardoso], A Bianca [Bin] e o [Sergio] Guizé", disse. 
O casal citado se tornou vizinho de Lima em um sítio no interior de São Paulo. "Faz tempo que não os vejo. Combinei de fazer um churrasco para eles, mas não sabemos se vai haver mais churrascos e amigos... 
Ou sairemos dessa mais gordos ou mais loucos", avaliou sobre a atual situação mundial com a pandemia do novo coronavírus. 
Já sobre Regina Duarte, atual secretária de Cultura do governo, ele não poupou críticas: "Convivemos um bom tempo, mas nunca consegui realmente penetrar na alma dela. Quando a vi seduzida pelo atual presidente e vi aquele sorrisinho dela que virou patrimônio nacional, pensei: 'A Chapeuzinho Vermelho se encantou pelo Lobo Mau' 
Lima Duarte critica Bolsonaro: 'Quer que eu morra'!!  
A Regina parece a Chapeuzinho. Tomara que não venha um filho disso daí, já pensou que tragédia?". 
O ator também comentou como tem lidado com o período de quarentena que o país passa, afastado das pessoas. 
"Estou acostumado. Pela forma como nasci e fui criado, minha grande alegria é o pensamento. Eu gosto muito de pensar e tudo o que eu vivo e vejo no mundo são subsídios para o meu pensar", contou. 
"Gosto de ficar com minhas plantas, meus livros. São eles que me fazem companhia. Às vezes, olho e vejo a morte na esquina. A morte quer me pegar, mas eu fujo dela. Ela fica me esperando: 'Cadê aquele fdp?'. Ninguém vai viver para sempre. O que me interessa é deixar meus ensinamentos, é saber que, enquanto estive aqui, me diverti", completa.

Bolsonaro, o presidente mórbido que sabota o Brasil, por CARLA JIMÉNEZ

“Por que fechar escolas?”, questionou o presidente em mensagem nacional. Nem mesmo as crianças confinadas hoje seriam capazes de repetir algo assim
Homem caminha diante de grafite do presidente Bolsonaro, no Rio.MAURO PIMENTEL / AFP

Cada dia de verborragia do presidente Bolsonaro, como o que foi visto em rede nacional nesta noite de terça, é um dia a menos para ver a solução da crise em que o Brasil se vê inserido. 
Uma crise sem precedentes. 
Cada conflito auto-inflingido e de emulação da tática do presidente Donald Trump é mais um dia de sabotagem para o Brasil. 
E de auto-sabotagem do presidente que poderia estar unindo as pessoas na dor das mortes que estão chegando pelo coronavirus, —e vão se multiplicar —, e em propostas para encontrar um ponto de intersecção entre a economia e esta tragédia anunciada.
Seus acertos evaporam diante da quantidade de fel que ele injeta em suas palavras que deveriam serenar uma nação assustada. 
Mas Bolsonaro não quer que o brasileiro perca o medo. É o método do choque para neutralizar quem ele julga adversários. 
Se acerta ao deixar o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e sua equipe, assumirem o protagonismo para orientar a população sobre o ritmo de expansão do vírus, faz questão de contrariar morbidamente as diretrizes que a Organização Mundial da Saúde (OMS). “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas?”, questionou ele em vídeo.
Uma afirmação inacreditável, que nem mesmo as crianças confinadas hoje no Brasil poderiam repetir. 
A OMS já declarou que os pequenos são vetores de propagação do coronavírus, como mostrou a experiência chinesa. Se as crianças pegam, seus pais vão pegar, e quem estiver circulando e encontrar os pais, vai pegar. O motorista da van escolar, o vendedor da cantina. Podem-se isolar idosos, mas algum contato com o mundo externo eles terão. Seja na farmácia, no mercado, ou para receber um delivery. Bolsonaro sabe, ou deveria saber, o que Mandetta repete diariamente, sobre como funciona o vírus e seu contágio.

Mas o presidente tem maldade, enquanto a maioria dos brasileiros já se confinou sob a consciência admirável de entender que pode se contagiar, mas também ser fonte de contágio de alguém mais vulnerável que ele. 
Idoso ou alguém com menos recursos para se tratar em hospital. 
Ninguém quer essa responsabilidade para si, de ter contribuído para a morte de alguém. O presidente do Brasil, com seus 23 contagiados ao redor, nem consegue alcançar esse sentimento. “Esse cara é irresponsável, vai matar todo mundo, como quer abrir as escolas?”, gritava indignada uma mulher do balcão de uma janela em São Paulo.

Retórica para chocar. E não adianta se iludir. Bolsonaro vai seguir sendo isso. E o país precisa funcionar, apesar de Bolsonaro. Suas reações intempestivas, minuciosamente calculadas – quase sempre seguindo as de Trump —, já foram mapeadas e ele não vai sobreviver à crise do coronavírus. Não tem como. Deveria olhar também para seu ídolo e entender o que vem por aí. O presidente norte-americano lida hoje com mais de 52.000 infectados e 675 mortes. Nova York, com quase 26.000 infectados, virou o atual epicentro do coronavírus no mundo. 
No dia 13 de março, os EUA tinham 2.179 infectados e 47 mortos, quase o mesmo número que o Brasil nesta terça: 2.201 brasileiros infectados e 46 mortes.

Nesta terça, Trump também chocou o país ao sugerir que poderia abrir o confinamento a que o país se submeteu em duas semanas. Horas depois, moderou o tom, ao dizer que o mais importante “é a saúde dos norte-americanos”. Trump é Trump, e já anunciou pacotes trilionários para segurar seu prestígio junto à sociedade. Bolsonaro não tem esse dinheiro. E virão mais vítimas do coronavírus, e um luto profundo, que o presidente brasileiro prefere ignorar. Como ignora o capital criativo que poderia dispor para colocar o país com foco apenas na saúde. A indústria voltada a isso, puxada pela necessidade de investir na no fim da crise do coronavírus. Uma população consciente, disposta a se sacrificar por um bem maior. Mas Bolsonaro só enxerga 30%.
Perde a chance de relembrar que o Brasil já mostrou resiliência para outros desafios, como a própria propagação da Aids, nos anos 90. Também já trabalhou em conjunto com diversos setores da sociedade para vencer a recessão e a inflação quando o ex-presidente Itamar Franco pegou o país em frangalhos depois do impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992. Um ano depois, indústria, sindicatos, varejo e Governo sentavam à mesa para eleger um motor que colocasse a economia em pé. O símbolo daquele momento foi o fusca, e os carros populares, em que todos cediam um pouco, para garantir que a economia reagisse.

Imagina se Bolsonaro fosse o estadista que gostaria e se inspirasse em exemplos assim... Ele já não sabe fazer outra coisa se não fomentar o caos. Só que, agora, ele é engolido pelo mesmo caos que inventa. Não haverá rede social, nem narrativa que o salve do seu próprio desastre como presidente, criando factoides quase diários, para ganhar palmas dos seus 30% de apoiadores. Eles ainda resistem, embora haja fissuras nesse grupo. Mas virão as mortes, e com elas, a percepção de que muitas poderiam ser evitadas. E não foram porque Bolsonaro é arrogante. Não há como sair ileso. Nesta crise, ele assinou a própria sentença de morte política.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Arte de Tiago Recchia

random image

Um mundo em quarentena busca saídas para a crise, por MARC BASSETS

Tripla perturbação causada pelo coronavírus – sanitária, econômica e política – une a humanidade sob a mesma ameaça, mas a divide nas respostas
O vírus que bloqueia o mundo

O planeta, para um extraterrestre que aterrissasse nos últimos dias, ofereceria uma imagem estranha, entre aprazível e inquietante. Mais de um terço da humanidade está em casa, privada da liberdade de ir e vir, algo tão essencial e que todos nós damos como garantido. As ruas vazias, como as estradas sem carros. Os céus claros, sem aviões. As fronteiras, fechadas. 
Os líderes? Encerrados também e administrando como podem —primeiro cada um por sua conta, atabalhoadamente, quase sempre tarde apesar dos sinais— a maior crise que certamente lhes caberá enfrentar em suas vidas. 
Os cidadãos? Desconcertados pelo vírus que foi detectado na China em dezembro passado e que já matou mais de 28.900 pessoas, afetando 200 países. 
Angustiados por sua saúde e a de seus próximos, e pelo golpe econômico que, segundo a unanimidade dos especialistas, se avizinha. O mundo entrou em hibernação.

“Vivemos um momento histórico de desaceleração, como se freios gigantes detivessem as rodas da sociedade”, compara, falando do seu confinamento na Floresta Negra, o filósofo alemão Hartmut Rosa, que dedicou boa parte de sua obra a estudar o que ele chama de “aceleração” desenfreada das sociedades capitalistas. “Nos últimos duzentos anos ou mais, o mundo ia cada vez mais rápido”, argumenta. “Se você observar o número de carros, trens, navios, aviões, o tráfego e o movimento aumentavam sem cessar. É verdade que havia bolsões de desaceleração, por exemplo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001: o tráfego aéreo foi menor durante algumas semanas. Mas tudo isto se interrompeu. Vivemos um momento único de calma”.
O eletrochoque deixou os humanos aturdidos, num estado que mistura a calma, como diz Rosa, com o desassossego, sem espaço físico para se movimentar nem espaço mental para saber como será a vida, a cidade, o país, o mundo em dois ou três meses, ou em um ano. É um triplo abalo. Primeiro, de cunho sanitário: a doença desconhecida, a Covid-19, e o vírus que a causa, o temível SARS-Cov-2. Não existe uma vacina, por isso as medidas aplicadas são as chamadas não farmacêuticas, em sua modalidade mais extrema: o confinamento. Não só dos infectados ou suspeitos de está-lo, mas sim, inicialmente, de cidades e regiões inteiras —Wuhan na China, desde janeiro, a Lombardia e boa parte do norte da Itália desde 8 de março— e, nos dias seguintes, como se as peças de dominó caíssem uma após as outras, países grandes e pequenos, desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Da Itália inteira à Índia, passando pela Espanha, França, Reino Unido e uma parte considerável dos Estados Unidos e da América Latina: três bilhões de pessoas quietas e trancadas.
O segundo abalo é econômico. Os Governos assumem que o freio na atividade provocará uma recessão global —as rotas do comércio mundial, já interrompidas quando o coronavírus parecia ser apenas um mal chinês, estão bloqueadas. 
Em 2020, a contração do PIB será de 2,2% na zona euro, segundo a agência de qualificação Moody’s, e de 2% nos Estados Unidos. As cifras de solicitantes de subsídios de desemprego neste país bateram um recorde: nunca, em meio século desde o início dos registros, tinha sido tão alta, mais de três milhões. As somas que foram ou serão injetadas para amortecer o tranco para empresas e trabalhadores —cinco trilhões de dólares só para os países do G20— e as intervenções dos bancos centrais dão uma ideia das dimensões do desastre que se tenta evitar, ou suavizar. Volta a soar o “whatever it takes” (“o que for preciso”), bordão mágico que Mario Draghi, então presidente do Banco Central Europeu, pronunciou em 2012 para salvar o euro, e funcionou. Todos, não só os bancos centrais, prometem “o que for preciso”, mas, oito anos depois da intervenção de Draghi, o primeiro ato da crise encena uma resposta em ordem dispersa. As fraturas da União Europeia reaparecem em toda sua crueldade. O vírus é global; as reações, nacionais.

Cogita-se uma mudança de modelo econômico. O fim da globalização? “Talvez seja inevitável passar por uma fase de desglobalização, ou seja, de comércio e fluxo de capitais reduzidos entre os países”, escreve o economista francês Thomas Piketty em um e-mail. “Continuar como se nada tivesse acontecido não é uma opção. Caso contrário, o nacionalismo triunfará”, alerta.Aviões da American Airlines estacionados no aeroporto internacional de Pittsburgh, esta semana.JEFF SWENSEN/AFP

O terceiro golpe, além do sanitário e econômico, é político. O vírus irrompeu num momento de retraimento dos EUA e de afirmação nacionalista da China. 
A batalha, que não distingue fronteiras e ao menos no papel une o mundo em torno de uma mesma causa, é uma batalha pela influência entre as potências mundiais. “Agora a luta é contra o vírus. Mas o vírus será derrotado. E as pessoas voltarão a trabalhar e a embarcar em aviões. Quando isso acontecer, a posição da Rússia e da China terá se reforçado comparativamente, enquanto a dos Estados Unidos se debilitou”, analisa o ensaísta norte-americano Robert D. Kaplan. “Como a China é autoritária”, acrescenta Kaplan, “foi capaz de impor quarentenas extremas como nenhuma democracia é capaz. Ao ter tantas empresas estatais, estas puderam absorver o choque econômico do vírus. E a Rússia, por já estar submetida a sanções, foi capaz de ser mais autossuficiente do ponto de vista econômico. Já os Estados Unidos e a Europa, totalmente imersos no sistema de livre mercado, sofreram uma devastação econômica pelo vírus”.
Em poucas semanas a história se acelerou, como em 1989 ao cair o Muro de Berlim, ou em 1914 com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando. E, ao mesmo tempo, congelou-se. Nunca a humanidade estancou tão de repente. 
Nunca se tinha visto uma decisão coletiva semelhante, embora, paradoxalmente, não coordenada: cada país ia se confinando no seu ritmo, ignorando as lições do vizinho, repetindo seus erros e tropeços e, finalmente, confluindo, com variações na intensidade do confinamento e exceções em países como a Coreia do Sul, que o administraram com medidas menos drásticas.

Não houve longas discussões parlamentares nem tampouco pressão social antes que fosse decretada aquela que é, talvez, a decisão mais relevante deste século. A pressão que conduziu ao fechamento das fronteiras e à clausura dos cidadãos não era a dos eleitores, e sim a da locomotiva sem freios que, temia-se, acabaria por causar centenas de milhares ou milhões de mortes.

“Esta é uma pandemia, pela primeira vez na história, em que o mundo está interconectado tecnologicamente e onde os mercados financeiros estão interconectados. Por isso causou uma perturbação como nunca se viu”, diz Kaplan.

A política soberana —o Estado— retoma um papel central. 
Paralelamente, atropelada pelo inimigo invisível, ficou exposta sua impotência. 
Daí as críticas pela lenta reação das autoridades. “Nos países democráticos, os Governos são tão fracos que não podiam impor a decisão antes que esta se impusesse por si mesma. Por isso chegamos tarde”, defende em Paris a socióloga Dominique Schnapper. “Imagine o que teria acontecido se há vinte dias o Governo tivesse decretado o confinamento? Não teria sido aplicado e teria causado um escândalo. Agora o acusam de ter demorado.”

O mundo hiberna, é verdade, mas os contornos do mundo posterior ao coronavírus começam a se desenhar. Enquanto os profissionais da saúde lutam pelas vidas dos doentes e os pesquisadores correm contra o relógio atrás da vacina, os dirigentes enfrentam o diabólico dilema entre a preservação da saúde pública e a sobrevivência da economia. “Este é o verdadeiro problema”, afirma Schnapper. “É preciso encontrar um equilíbrio entre ambos os imperativos: o sanitário, que é imediato, e a necessidade de que a sociedade continue funcionando: continuar alimentando as pessoas e que não haja uma falência econômica. Não há fórmula simples. A política consiste em conciliar dimensões contraditórias”.

Quanto mais durarem os confinamentos, mais probabilidades de atenuar a pandemia e menos de evitar a depressão econômica: este é um dos debates. 
Não o único. O vírus e a corrida para derrotá-lo disparam uma competição entre modelos políticos. Confronta autoritários (China) e democráticos (Europa e EUA). E, dentro dos democráticos, opõe populistas a moderados. A gestão dos Trumps ou Bolsonaros se medirá com a da alemã Angela Merkel e do francês Emmanuel Macron.

Ao erguer novas fronteiras e responsabilizar a globalização pela propagação da epidemia, poderia ser o caso de que o populismo e o nacionalismo saiam fortalecidos. Não está tão claro. Porque o medo —neste caso, a uma ameaça real, não imaginária— reforça a confiança nos cientistas e médicos: não é hora de experimentos nem de soluções fáceis.

“Poderíamos dizer que a crise gera os anticorpos do populismo”, diz por telefone Laurence Morel, cientista política na Universidade de Lille. “Não digo que o fará desaparecer: será decisiva a capacidade dos Governos para resolver a epidemia e evitar consequências econômicas muito graves. Serão os resultados. Sabemos que os populistas prosperam quando os Governos são impotentes”.
Tudo é incerto por enquanto. O historiador britânico Thomas Carlyle sustentava, no século XIX, que a história da humanidade era a história dos “grandes homens”. Karl Marx lhe corrigiu e escreveu que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem arbitrariamente, sob as condições que eles escolhem, e sim sob as condições diretamente recebidas e herdadas do passado". Hoje o protagonista da história é outro. Nem um grande homem ou mulher —um líder, um herói, um ditador— nem a luta de classes. É o vírus invisível, que assusta e ao mesmo tempo unifica e divide a humanidade.

‘Va, pensiero!’ (vá, pensamento, é preciso repensar tudo), por ANDREA RIZZI

A pandemia obriga à maior reflexão de sete décadas, do papel dos indivíduos nas famílias ao do mercado e do Estado
Trabalhadores com macacão de proteção verificam os documentos dos passageiros prestes a embarcar, na estação de Kiev, em um trem para Moscou.Foto--SERGEY DOLZHENKO

Vá, pensamento, nas asas douradas. Vá, pousa nas colinas. As palavras e notas do famoso coral de Nabucco, em Verdi, possivelmente nunca tiveram tanto significado e emoção para tanta gente. É claro que, no confinamento generalizado em que vivem os seres humanos, só o pensamento pode voar livre. Mas, além disso, como a crise é totalitária —afeta tudo— terá efeitos prolongados e, portanto, nos obriga a repensar tudo, em todas as esferas.

Na pessoal, claro: papéis familiares que devem ser redefinidos e reacomodados à velocidade da luz, compactados em uma nova dimensão espacial-temporal que os distorce; solidões que de repente não são mais como antes, arranham, se petrificam e toca a amansar com novos estratagemas da alma e da vida cotidiana; até a própria concepção de si mesmos, que irá se esvaindo diante de olhos sensíveis, com personalidades agora desprovidas de projeção social física e, quem sabe por quanto tempo, de um certo tipo de escopo relacional que é uma parte definidora do ser de todos nós.

No profissional, evidentemente: um imenso esforço em digitalização e eficiência remotas; a engenhosidade de cada um para redirecionar, revitalizar atividades paralisadas ou corroídas pela crise do vírus.
E, como não, na vida pública: o papel dos Governos e do mercado.
O mundo entrou em coma e a respiração assistida —de doentes humanos, de empresas em crise, de milhões de pessoas em dificuldades financeiras— só pode ser propiciada pelo conglomerado de instituições públicas. A célebre mão invisível de Adam Smith —a metáfora do mercado inteligente que ajusta as coisas quase como se fosse por algum tipo de lei física— é esmagada nestas circunstâncias. A mão invisível não serve para nada, estrangulada e tremendo em meio ao vendaval.
As administrações públicas são o pilar da salvação nas duas frentes: a econômica e a da saúde. 
Nos dois casos, a ação de agora determinará nosso futuro em múltiplos aspectos e é necessário evitar que o salvator mundi de hoje se torne um leviatã (o temível monstro bíblico) amanhã. Isto é especialmente evidente na União Europeia.

Na frente da saúde, o objetivo é proteger a vida dos cidadãos e o reforço das estruturas hospitalares é uma questão óbvia e não problemática em termos morais (é claro que é em termos logísticos). 
O que pode ser problemático são os sistemas de vigilância telemática dos movimentos de cidadãos e os poderes excepcionais nas mãos dos Governos com o objetivo de deter a propagação do contágio. 
Nas democracias mais maduras isso não causa muita inquietação. Nas menos consolidada, os riscos são evidentes. A perspectiva de Governos e forças de segurança com poderes exorbitantes ou fora de controle não deve ser subestimada.

Na frente econômica, o objetivo é evitar uma depressão brutal. Para isso, é necessário injetar dinheiro na economia para, antes de tudo, preservar empregos e a capacidade produtiva e, quando isso não for possível, apoiar os desamparados. Isso exigirá uma brutal acumulação de dívida pública para compensar o colapso do faturamento privado. Essa dinâmica inevitável gerará Estados-leviatã com enormes níveis de dívida e inextricavelmente ligados ao destino de inúmeras empresas privadas. A manobra vai requerer, necessariamente, a participação ativa de todo o sistema financeiro, a irrigação de sangue melhor posicionado para bombear vida, complicando ainda mais a equação.

Encontrar o equilíbrio ideal nesse cenário é um dos maiores desafios intelectuais que a humanidade enfrentou até hoje. 
Ainda mais na UE, onde aos problemas comuns se soma a conjugação dos interesses nacionais dentro de um aparato supranacional de que cada membro necessita, como comprovamos na cúpula de quinta-feira. O habitual conflito entre o bloco sudoeste e nordeste agora está assumindo conotações existenciais.
Como alertou Mario Draghi em um texto publicado pelo Financial Times na quarta-feira, “o preço da hesitação pode ser irreversível”. Va pensiero, veloz, com asas douradas.

Advertência de Jeca Tatu ao presidente da República, por XICO SÁ

No país do amarelão, da febre do rato e outras doenças primitivas, o mito caipira combate o ´liberou geral´ do Palácio do PlanaltoPresidente Jair Bolsonaro ao sair o Palácio do Alvorada, na sexta-feira, 28 de março.JOÉDSON ALVES

A essa altura da carreata da ignorância, só resta ao Jeca Tatu emancipado ―representante da gente na sala de televisão da quarentena― chamar na chincha o bocó lá de Brasília. Direto da Refazenda gilbertiana, cabe ao nosso Jeca Total mostrar que até o amarelão (ancilostomose) ainda faz estrago no Vale do Ribeira e em outras freguesias desprotegidas. Só o Jeca Tatu, o guru do Almanaque Biotônico Fontoura, para contar ao espertalhão do Planalto que o brasileiro, ao contrário do que ele folcloriza, não resiste meia hora ao esgoto e à falta de saneamento.
A febre do rato (leptospirose) segue castigando nos mocambos e palafitas, adverte o Jeca, sorumbático e macambúzio, saindo de pés-descalços do “Urupês” (livro de 1918) de Monteiro Lobato. Quem tem que ser estudado, o capiau segue na prosa, é Vossa Excelência, com todo respeito deste caipira. 
O brasileiro pega de tudo, não me venha com seus arroubos de vilão Vaca-Brava, pois até a lepra (hanseníase), daquela mais primitiva, campeia solta no mato e nos arrabaldes.

A criatura corre do mosquito e não escapa do caramujo, foge da dengue e vem a zika, na mesma terra onde ainda persistem sarampo, caxumba e rubéola. O sujeito acha que é apenas mais uma ressaca existencialista e lá vem o diagnóstico: chikungunya na caveira. 
Na roça, para a tristeza do Jeca, resistem a doença de Chagas, a peste bubônica, a curuba... Agora dá licença que vou tomar meu elixir de salsa, caroba e cabacinha, ave!, tesconjuro.

Jeca Total deve ser Jeca Tatu, presente, passado, memória das enfermidades brasileiras, com sua garrafa de pinga para enxotar o saturno dos trópicos, xô melancolia, arreda tristeza, vade retro perdigotos do Belzebu, do Cramulhão, do Pé-de-Pato, do Coxo, do Temba, do Coisa Ruim, do Mafarro, do Tristonho, do Não-Sei-Que-Diga, do Que-Nunca-Se-Ri, do Pai-da-Mentira, do Capeta, do Tendeiro, do Mafarro, do Capiroto, do Diacho, do Gabinete-do-Ódio, do Rei-Diabo, do Demonião, do Satanazim, do Língua-Solta e da vasta assembleia lucrativa sem fim.

Jeca Tatu, que saiba Vossa Excelência, pode ser da roça, mas não é besta, em matéria de coronavírus rumina o seu capinzim metafísico guardado na sua choupana, pita o seu cigarrinho de palha ouvindo Cascatinha & Inhana, mais precisamente a faixa “Índia”, sou Jeca mas não sou imbecil de marcar touca, de que vale o milharal depois de bater as botas?

Preguiçoso uma disgrama, repara se fui eu e minha família que passamos uma vida toda de flozô no parlamento, com direito a esquema de “rachadinha” e quetais, mordendo um naco do contracheque dos barnabés das cercanias. 
Desculpa aí, presidente, não queria desafinar a viola, mas seu exército de tabaréus não toca outra moda, a não ser xingar a gente de indolente e vagaba. Nem o amigo Mazzaropi escapou dessa, foi barrado na cancela, virou comunista simplesmente por ter filmado “O Corintiano”, vê se pode! Imagina se os papa-capins tivessem visto A banda das Velhas Virgens, que fita de cinema.

No Brasil das amarelidões, Jeca Tatu pode ser a cor tingida na crônica de Renato Carneiro Campos que serviu de guia ao filme Amarelo manga, do diretor Claudio Assis: “Amarelo é a cor das mesas, dos bancos, dos tambores, dos cabos, das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos. Da charque! 
Amarelo das doenças, das remelas, dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarreias, dos dentes apodrecidos... Tempo interior amarelo. Velho, desbotado, doente.”

Trump diz que pico de mortes por coronavírus será daqui a 2 semanas e pede para população ficar em casa até 30 de abril, nas folhas

COMENTARIO ANUNCIO---- ESTADISTAS PRECISA-SE--URGENTE!!! 
INDIGENTES MENTAIS e CASCATEIROS--- DEMISSÃO!!!
------------------------------------------------------------
Presidente, que vinha defendendo o afrouxamento das medidas de isolamento, altera discurso e pede isolamento mais longo. País já tem mais de 2 mil mortes e mais de 100 mil casos confirmados de covid-19.

Trump anuncia que diretrizes de isolamento social nos EUA vão até o fim de abril

O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, mudou de discurso e pediu, neste domingo (29), para a população ficar em casa até 30 de abril. A diretriz anterior era de encerrar o isolamento na Páscoa, no dia 12.

Trump vinha defendendo o afrouxamento das medidas de isolamento e chegou a declarar no sábado (28) que uma quarentena não seria necessária em Nova York, New Jersey e Connecticut.
Na coletiva deste domingo, o presidente dos EUA disse também que o pico de mortes por coronavírus no país será daqui a duas semanas. Os Estados Unidos são o país com mais casos confirmados de coronavírus. São mais de 2 mil mortes e mais 100 mil casos confirmados, segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins.

Trump defendeu a flexibilização do isolamento em diversos momentos. No dia 24 de março, por exemplo, o presidente dos EUA havia afirmado que a meta do governo, até aquele momento, era retomar aos poucos as atividades no país.

“Nossa meta é afrouxar as diretrizes e abrir grandes partes do país enquanto nos aproximamos do final desta histórica batalha contra o inimigo invisível. Estamos há um tempo nisso, mas vamos vencer, vamos vencer. [...] ", disse Trump durante coletiva de imprensa, na ocasião.
Já neste domingo, ele afirmou: "Nada pior do que decretar vitória antes que ela aconteça".
Teste rápido
Na coletiva deste domingo, Trump prometeu que irá disponibilizar, "dentro de alguns dias", um teste rápido para detectar o covid-19. Este teste será utilizado não somente em pacientes com sintomas graves, como também em pessoas com sintomas leves que estejam em atendimento médico. Esses testes serão disponibilizados para todos os hospitais dos EUA.

O infectologista Anthony Fauci, dos EUA

Neste domingo (29), o infectologista Anthony Fauci, um dos mais respeitados do mundo, declarou em um programa da rede de televisão americana CNN que calcula que haverá entre 100 e 200 mil mortes por Covid-19 nos Estados Unidos. Fauci faz parte da força-tarefa montada por Trump para tentar conter a doença.

"Eu diria entre 100 mil e 200 mil casos", disse Fauci, que em seguida se corrigiu para dizer que se referia ao número de mortes. "Teremos milhões de casos", disse, acrescentando que não queria ficar preso aos números porque a pandemia é um "alvo em movimento".

domingo, 29 de março de 2020

Pandemia desnuda a Saúde falida nos EUA, por Guido Vassallo--Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

País já é o epicentro do coronavírus. Não há sistema público, consultas são caríssimas e cerca de 70 milhões estão sem assistência ou com planos precários. Desastre é iminente — assim como repensar a mafiosa indústria dos seguros de saúde

“É uma gripe”, dizia Donald Trump sobre o coronavírus há menos de um mês, com essa tão própria mistura de ignorância e arrogância que lhe é característica. 
Desde essa singela definição até o presente momento ocorreram mais de mil mortes, 70 mil contágios e uma declaração de emergência nacional nos Estados Unidos. A propagação da pandemia exibe, como poucas vezes, os notáveis fracassos do sistema de saúde norte-americano: boa parte da população não tem seguro médico e não existe, em muitos Estados da federação, a licença de saúde no trabalho. Para completar, as dificuldades ficaram evidentes no momento de implementar os primeiros testes de coronavírus no âmbito público. Ainda que a declaração de emergência nacional pretenda estender sua aplicação aos laboratórios privados, não está claro ainda quantos norte-americanos poderiam fazer frente aos custos. 
Enquanto isso, os pré-candidatos democratas à presidência, Bernie Sanders e Joe Biden, buscam capitalizar os erros de Trump e de sua gestão, como plataforma para apresentar seus programas de saúde.

Nas suas primeiras aparições públicas após os primeiros casos de coronavírus no país, Trump mostrou-se cético e subestimou o alcance real da crise. O presidente, no máximo, deixou de pensar que o coronavírus era um problema exclusivamente chinês (chamou-o de “um vírus estrangeiro”) para passar a desconsiderá-lo como uma armação do partido democrata.

No dia 11/3, quando já choviam as queixas a respeito da condução do governo na gestão da pandemia, Trump declarou intempestivamente a suspensão da entrada no país dos estrangeiros que tivessem passado por algum dos 26 países europeus do espaço Schengen. O anúncio da emergência nacional chegou no momento de encerramento de una semana particularmente difícil para a bolsa norte-americana. Ainda que em 13/3 tenha registrado uma sutil recuperação, os principais índices sinalizaram a pior queda desde a crise financeira de 2008. E essa, sim, parece ser a maior preocupação do mandatário norte-americano.
A saúde em estado crítico
Basta um elemento para alimentar a hipótese pessimista (mas realista) de que o coronavírus vai continuar se expandindo no país: a inexistência de um sistema público de saúde consolidado e abrangente.
Em um artigo interessante publicado em The Guardian, o ex-secretário [“ministro”] do Trabalho durante o governo Clinton, Robert Reich, afirma que: “Em lugar de um sistema de saúde público, temos um sistema privado com fins de lucro, para as pessoas que têm a sorte de pagá-lo, e um sistema de seguro social desarranjado, para as pessoas que ainda têm a sorte de possuírem um trabalho em tempo integral”.

Na atualidade, 30 milhões de pessoas não possuem seguro médico, e outros 40 milhões só têm acesso a planos deficientes, com a exigência de pagamentos complementares e seguros com custos de tal forma elevados que só podem ser utilizados em situações de extrema gravidade, de acordo com a Kaiser Family Foundation, uma organização dedicada a pesquisar questões de saúde pública. O medo das pessoas de não poder pagar as caríssimas consultas e tratamentos conspira para impedir que os contágios pelo coronavírus sejam detectados e que, assim, a doença continue se propagando.

Diante desse contexto, ressurgiram no cenário político os programas de saúde dos pré-candidatos democratas Bernie Sanders e Joe Biden. O Medicare For All, proposto por Sanders, é a base da sua plataforma progressista. Esse projeto deixaria intacta a infraestrutura atual de médicos, hospitais e outros provedores de atenção médica, mas nacionalizaria a indústria dos seguros de saúde. Quase todo o dinheiro que as pessoas e os empregadores pagam atualmente através das seguradoras, assim como grande parte do dinheiro que os Estados pagam, de acordo com o projeto de Sanders, passaria a ser pago pelo governo federal.

O programa de Biden, por outro lado, é menos ambicioso. Não tocaria no atual Medicare, bem como nos planos das seguradoras privadas, que oferecem os chamados Medicare Advantage, mas daria aos americanos mais jovens a opção de se inscreverem em uma nova apólice administrada pelo governo. O foco é colocado na juventude, à diferença de Sanders, que acredita que a prioridade são as pessoas de terceira idade. Não é casual que se trate, este, do grupo etário mais castigado pelo coronavírus.
Falta de kits
Mas além do diagnóstico cínico de Trump, durante várias semanas faltou nos Estados Unidos um estoque suficiente de kits de exame para comprovar quem estaria infectado, o que significa que muitos casos potenciais podem ter passado desapercebidos. Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgãos capitais da saúde pública do país, só permitiram inicialmente os testes nos seus próprios laboratórios.

Durante mais de um mês, cada Estado devia enviar, por correio, as amostras de possíveis contágios para a sede dos CDC em Atlanta, único lugar autorizado para realizar os exames. Foi apenas na semana passada que os 50 Estados do país começaram a contar com capacidade técnica para realizar os exames de forma autônoma.

Segundo cifras oficiais, até 10/3 só 79 laboratórios estatais ou do sistema de saúde pública tinham capacidade para fazer os testes, em um país de mais de 327 milhões de habitantes. Só com a circulação de recursos oriunda da declaração de emergência nacional é que se espera que os laboratórios privados consigam se habilitar para a tarefa.
O alto custo de ficar doente
Em teoria, os CDC oferecem o teste de coronavírus gratuitamente, sempre e quando um médico o prescreva. As grandes seguradoras [empresas de “planos de saúde”] afirmam que também não vão cobrar por esse serviço em alguns Estados. Mas a presumida gratuidade não é suficiente para esconder o restante das dificuldades.

Osmel Martinez Azcue contou ao Miami Herald como, ao voltar de uma viagem à China com sintomas de gripe, buscou um hospital em Miami para fazer o exame do coronavírus. O teste indicou que não era mais que uma gripe, mas, ao chegar em casa, uma fatura de 3.270 dólares o esperava. “Como se pode esperar que os cidadãos contribuam para reduzir o risco de contágio entre as pessoas se os hospitais vão nos cobrar mais de 3 mil dólares por um exame de sangue e um teste nasal?”, perguntava-se indignado esse jovem de origem cubana.

O caso de Shefali Luthra, membro da Kaiser Family Foundation, não chegou a ser doloroso, mas também expõe o fracasso do sistema e a sua falta de coordenação. Três dias após retornar de uma conferência em Nova Orleans, ela foi avisada que pelo menos um dos participantes da reunião tinha testado positivo para o coronavírus. “Como jornalistas e divulgadores da medicina estamos em teoria bem equipados para saber o que acontece. Mas na vida real, descobrir se estamos em risco e, depois, fazermos o exame é quase impossível. Tanto o acesso ao médico quanto aos exames variam dramaticamente, dependendo do lugar onde alguém vive e quem ele é, e não está claro quais seriam os parâmetros”.

O que mais chamou a atenção de Luthra foi uma evidente discriminação. O deputado republicano Matt Gaetz foi o único desse grupo de trabalho que conseguiu ser examinado. “Inicialmente, eu não tinha os sintomas, mas decidi que deveria tentar fazer o exame, como Gaetz. Além disso, Trump prometeu que os exames estariam disponíveis para qualquer um que precisasse”, observa Luthra, com uma sutil inflexão de ironia. “Até hoje, mesmo possuindo um excelente plano de saúde, não pude ter acesso ao tão desejado exame”.

A crise do coronavírus também traz à luz a fragilidade do sistema laboral norte-americano. Os CDC recomendam a todos os americanos que fiquem em casa se estiverem doentes. Mas como poderiam fazer isso, se em muitos casos isso significa automaticamente deixar de ser remunerado? À diferença do que acontece na maior parte dos países industrializados, nos Estados Unidos não há nenhuma lei federal que obrigue as empresas a pagar licença por doença aos seus trabalhadores.

Sherry Leiwant, co-presidente da organização A Better Balance, que faz campanha por uma maior proteção nos locais de trabalho, comenta: “Uma boa quantidade de pesquisas demonstra que o contágio pode ser contido com a licença de saúde paga”. 
Mas acrescenta que os trabalhadores preferem “não ficar em casa em isolamento se isso significa colocar em risco seu emprego”. Segundo recente levantamento da firma YouGov, quase a metade dos trabalhadores admitiram que no ano passado compareceram doentes aos seus locais de trabalho.

Pela primeira vez na história e movido pela urgência da situação, o Congresso norte-americano está abordando o problema. O projeto de lei aprovado na última sexta-feira prevê “10 dias de licença por doença e 12 semanas de licença paga para aqueles que estiverem doentes com o covid-19 ou cuidando de um familiar próximo em quarentena ou afetado pelo fechamento das escolas”, detalha Leiwant. Mas a medida, que agora passará pelo Senado, exime dessa responsabilidade as grandes empresas do país. Mais uma vez, os maiores favorecidos serão os mais poderosos.

Arte de PELICANO

Preocupada com reação de Bolsonaro ao coronavírus, cúpula militar acende alerta e sinaliza apoio a Mourão, por AFONSO BENITES

Representantes das Forças Armadas têm realizado encontros em Brasília para discutir cenários de médio e longo prazo sobre afastamento do presidente. Possibilidade de saída imediata é remota
O vice Mourão e o presidente Bolsonaro em 5 fevereiro, no Palácio do Planalto.ADRIANO MACHADO / REUTERS

A cúpula das Forças Armadas acendeu um sinal de alerta nos últimos dias diante das reações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à crise do novo coronavírus. 
Nesta semana, representantes da Aeronáutica, Exército e Marinha sinalizaram ao até então nem tão bem-quisto vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), que poderiam contar com o apoio deles, caso o ocupante do Palácio do Planalto deixasse o cargo por meio de um impeachment ou renúncia.

Apesar de o debate ter se intensificado desde que a crise sanitária se agravou, as chances de que Bolsonaro saia da presidência são remotíssimas. Em mais de uma ocasião ele disse indiretamente que não deixaria o cargo. “Nunca abandonarei o povo brasileiro, para o qual devo lealdade absoluta!”, afirmou em seu Twitter. E o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), responsável por dar o pontapé inicial a um eventual processo de impeachment, declarou nesta semana que o assunto não está na pauta do Congresso, por ora.
Isolado, Bolsonaro vê Exército, vice Mourão e 27 governadores marcarem distância na crise

Ainda assim, os militares têm feito seguidas reuniões em Brasília, inclusive com aliados de Bolsonaro e membros civis de seu primeiro escalão. Nesta semana, ao menos dois encontros ocorreram. Neles foram debatidos cenários hipotéticos para o médio e longo prazo.

Dois participantes dessas reuniões relataram que o grupo está preocupado com um possível aumento repentino de registros e mortes provocadas pela doença e que isso seja vinculado ao discurso negacionista feito por Bolsonaro sobre a gravidade da Covid-19. 
Ressaltaram que, quando o mandatário sugere o fim das quarentenas e dos isolamentos sociais decretados por governadores e prefeitos, pode soar insensível.

Nesse cenário, avaliam que a popularidade do presidente poderia despencar e que fosse colada nele a pecha de um fracassado líder que prefere alavancar a economia do que salvar vidas. “É um discurso de que estamos em guerra. Mas quem está na linha de frente da guerra é um soldado que sabe que pode morrer. Em uma pandemia, não podemos colocar todos na mesma situação que os soldados”, afirmou, em caráter reservado, um dos membros do grupo. Responsável por atrair a maçonaria à campanha de Bolsonaro, o vice-presidente já garantiu o apoio dela, caso tenha de assumir o Planalto.

Na terça-feira, o comandante do Exército, o general Edson Leal Pujol, tratou de vacinar as forças de qualquer responsabilidade sobre a crise. Na contramão do defendido pelo presidente, declarou que os militares devem, sim, se preocupar com a Covid-19 e disse que o combate à disseminação da doença “talvez seja a missão mais importante de nossa geração”.

Tem circulado em Brasília também a tese de que o presidente poderia dar uma cartada extrema e decretar um estado de sítio ou de defesa – ambos dependem de aprovação do Congresso Nacional, onde ele não tem maioria – e criam uma série de restrições de liberdade, de comunicação e a suspensão de garantias constitucionais. São atos radicais, mas que podem ser usados politicamente com base no discurso voltado para os seus, de que ele tenta “salvar o Brasil”, mas a velha política não o ajuda.

Oficialmente, o presidente nega que decretará estado de sítio ou de defesa sob a justificativa de que causaria uma sensação de pânico no país. “Acho que estaríamos avançando, dando uma sinalização de pânico para a população”, disse em entrevista coletiva na semana passada. Nas entrelinhas, porém, manda recados. Nesta sexta-feira, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da TV Band, ele foi indagado se pretendia dar um golpe e fechar o país. A resposta: “Quem quer dar o golpe jamais vai falar que quer dar”.

Principalmente por essas sinalizações, os militares se aproximaram do vice-presidente. Entre os fardados, o próprio Mourão está longe de ser uma unanimidade. No meio militar, ele passou as ser visto como um radical quando, em 2015, sugeriu que as Forças Armadas poderiam fazer uma intervenção. Na ocasião, a presidenta Dilma Rousseff (PT) estava em crise e a Lava Jato começava a revelar escândalos de corrupção em série. No campo político, Mourão era a quinta opção de Bolsonaro para compor sua chapa. Foi escolhido de última hora, diante das negativas de outros políticos, dos partidos deles ou por desconfiança do próprio presidente.

Entre a família Bolsonaro, Mourão também não é bem visto. Seu principal inimigo entre o clã é o vereador pelo Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PSC). Logo no início da gestão, ele passou a receber embaixadores estrangeiros para mostrar que o Brasil não se fecharia para o mundo. Também foi o principal articulador da aproximação com a China, principal parceira comercial do Brasil. A partir de então, passou a ser visto como uma voz moderada em um governo de ultras. Entre o núcleo ideológico do governo, a aproximação com a China foi interpretado como uma traição ao presidente, que queria se afastar comunistas. Na prática, a ideologia foi colocada de lado e o comércio entre as duas nações foi mantido a pleno vapor.

Mourão foi colocado de lado. Atuou em poucos momentos-chaves, como na crise da Venezuela, quando se discutia se o Brasil apoiaria ou não uma intervenção militar para apoiar Juan Guaidó no embate com o presidente Nicolas Maduro e, mais recentemente, passou a coordenar o Conselho Amazônia, um colegiado recriado após a crise dos incêndios florestais.

Nesta semana, o vice voltou a emergir quando contrariou o seu chefe e disse que ele havia sido mal interpretado ao defender em um pronunciamento à nação que o país deveria priorizar a economia. “Pode ser que ele (Bolsonaro) tenha se expressado de uma forma, digamos assim, que não foi a melhor, mas o que ele buscou colocar é a preocupação que todos nós temos com a segunda onda como se chama nesta questão do coronavírus”.

Bolsonaro reagiu nesta sexta. Na entrevista à Band, disse que Mourão se sentia à vontade para se pronunciar por ser “indemissível”. “Com todo o respeito ao Mourão, ele é muito mais tosco do que eu. Não é porque é gaúcho, não. Alguns falam que eu sou até muito cordial perto do Mourão. Ele é o único que não é demissível no Governo, então pode ficar à vontade”.

Soma-se ainda a esse contexto, a aposta de Bolsonaro em confrontar governadores e se isolar politicamente e a ouvir panelaços contrários ao seu governo há dez dias seguidos nas principais cidades do país. Nesta semana, ele perdeu o apoio de um aliado de primeira hora, o governador goiano Ronaldo Caiado (DEM). 
Mas o xadrez político está distante de estar definido. Depois da pressão do presidente, três governadores autorizaram a abertura parcial do comércio em seus Estados: Rondônia, Santa Catarina e Mato Grosso. 
Os dois primeiros Marcos Rocha e Carlos Moisés são filiados ao PSL, antigo partido do presidente e eleitos na onda conservadora das eleições de 2018. Já o mato-grossense Mauro Mendes é emparedado pelo setor agrícola, mola propulsora da economia local. Os próximos movimentos no planalto central ainda dependerão mais da questão sanitária do que dos discursos de um lado ou de outro.

Arte de VASQS

random image

BALAIO DO KOTSCHO---Ricardo Kotscho--27/03/2020 12h07

"O presidente sou eu!": Bolsonaro declara guerra ao Brasil e ao mundo
Propostas de Bolsonaro emperram na Câmara dos Deputados
Imagens Google
Com o "discurso da morte" de terça-feira e o vídeo suicida que prega o fim do confinamento contra a pandemia, lançado hoje nas redes sociais, em confronto aberto com o Congresso, os governadores, a OMS e a ONU, cada vez mais isolado em seus palácios, cercado de generais por todos os lados, mas ouvindo só os filhos Zero Um, Zero Dois e Zero Três, o presidente Zero Zero encerra a semana declarando guerra ao Brasil e ao mundo.

É tudo tão louco que, ao mesmo tempo em que lança a campanha #obrasilnãopodeparar, para todo mundo sair de casa, Bolsonaro apoia caminhoneiros que ameaçam parar o país, como aconteceu na última greve.

Diverte-se divulgando vídeos de carreatas de carrões promovidos pela seita, que fecham as ruas desertas e pregam o negacionismo radical.

Faz isso na mesma semana em que o Brasil bate recordes de infectados e mortos pelo coronavírus, mesmo com grande parte da população em suas casas, respeitando as recomendações da OMS e do seu próprio Ministério da Saúde.

Para Bolsonaro, a pandemia de coronavírus, que se alastra pelo mundo em progressão geométrica, simplesmente não existe _ assim como garante que nunca houve ditadura militar no Brasil.

Em seu mundo particular, a realidade é uma fantasia e seus delírios são reais. Não tem limites, não tem noção do que está fazendo, não pensa nos outros.

Só ele, os filhos e o guru Olavo de Carvalho estão certos. E o mundo inteiro está errado.

Bolsonaro debocha dos riscos da pandemia, dá risada quando fala barbaridades, como essa numa entrevista na quinta-feira:

"Até porque o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali. Ele sai, mergulha e não acontece nada com ele".

Se alguém o contraria, como fez o seu vice, general Mourão, que defendeu o isolamento, limita-se a repetir:"O presidente sou eu!"

Se Bolsonaro tem instintos suicidas, problema dele. Mas estão em jogo as vidas de 210 milhões de brasileiros, ameaçados de morrer de coronavírus, de fome ou de raiva.

Inimigo declarado da ciência e da cultura, orgulhoso da sua ignorância abissal, esta semana mandou incluir na lista de serviços essenciais os templos, para agradar os bispos da grana, e as lotéricas, para o povo continuar vivendo na ilusão.

Como diz que não lê jornal, não deve ter visto a manchete da Folha de hoje: "Explode número de internações por problemas respiratórios, diz Fiocruz".

Na semana passada, havia 2.250 pacientes internados com insuficiência respiratória grave.

"É um número dez vezes maior do que a média histórica de cerca de 250 casos de hospitalização nos meses de fevereiro e março nos meses anteriores", diz o coordenador do sistema de monitoramento da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Marcelo Ferreira da Costa Gomes.

Na cabeça doente do ainda presidente da República, a Fiocruz deve ser apenas mais um antro de comunistas que querem desestabilizar o seu governo.

Algum assessor não aloprado, se ainda houver, poderia mostrar a Bolsonaro a notícia que saiu hoje sobre o prefeito de Milão, em que ele agora, após 4.400 mortes, admite ter errado ao apoiar campanha para a cidade não parar, preocupado apenas com a economia. Ontem, ele pediu desculpas aos mortos.

Exatamente a mesma campanha que o capitão está bancando agora, para atender aos empresários amigos, que choram a perda da freguesia, sem se importar com o resto.

Ao trocar o "gabinete de crise" do Planalto, montado para o enfrentamento da pandemia, pelo "gabinete do ódio", comandado pelos filhos para declarar guerra ao Brasil e ao mundo, Bolsonaro tomou um caminho sem volta.

Ou Bolsonaro acaba com o Brasil ou o Brasil acaba com essa praga do boçalnarismo, mais letal do que o coronavírus.
Antes que seja tarde. Depois, não adianta pedir desculpas. Vida que segue.

Espanha tem 832 mortes por Covid-19 em 24 horas; número é o mais alto registrado em um único dia no país, nas folhas

País tem 5.690 mortes causadas pelo novo coronavírus, segundo maior número do mundo. Foram mais de 8 mil infecções em um dia; país é o quarto com mais casos.
Em novo recorde, Espanha registra 832 mortes pelo novo coronavírus em 24 horas

A Espanha registrou 832 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas, informou neste sábado (28) o Ministério da Saúde espanhol. É o número mais alto registrado em um único dia desde que o novo coronavírus chegou ao país.

Segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e do Ministério da Saúde espanhol, o país é o segundo com o maior número de mortes pela doença no mundo, 5.690, ficando atrás apenas da Itália:
Países com maior número de mortes por Covid-19
Itália 9134
Espanha 5690
China 3299
Irã 2517
França 1997
Estados Unidos 1711
Reino Unido 761
Holanda 547
Austrália 460
Alemanha 395
Fonte: Universidade Johns Hopkins, Ministério da Saúde da Espanha
 (em 28/03 às 08h53)
Mais de 70 mil casos
Duas pessoas usam máscaras protetoras contra a Covid-19 em um cemitério durante um enterro em Madri, na Espanha, na sexta-feira (27). O país registrou 832 mortes entre a sexta e o sábado (28). — Foto: Bernat Armangue/AP

Com 8.189 novas infecções entre a sexta-feira (27) e este sábado, a Espanha ultrapassou a marca dos 72 mil casos, colocando-a em quarto lugar com o maior número de registros. À frente estão Estados Unidos, Itália e China:
Países com mais casos de Covid-19
Estados Unidos 104.837
Itália 86.498
China 81.996
Espanha 72.248
Alemanha 53.340
Irã 35.408
França 33.414
Reino Unido 14.754
Suíça 13.187
Coreia do Sul 9.478
Fonte: Universidade Johns Hopkins, Ministério da Saúde da Espanha 
(em 28/03 às 08h22)

'Falta de ar deve chamar atenção', diz David Uip; médico em isolamento por Covid-19 explica os sintomas--nas folhas

Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, Uip diz que não tem coriza, mas que doença mudou olfato e paladar.

O médico David Uip, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, enviou um áudio a amigos na sexta-feira (27) e o conteúdo fez que o arquivo circulasse entre médicos: na mensagem, Uip pede atenção à falta de ar como principal sintoma de Covid-19, a doença causada pelo coronavírus Sars-Cov-2.
Uip está em isolamento domiciliar desde que foi diagnosticado com a doença, na segunda-feira (23).
"O que deve chamar a atenção de qualquer um, que deve procurar imediatamente o serviço de saúde: é a falta de ar. Aumenta o número de respirações, diminui a amplitude", destacou Uip.
"Então isto é um motivo de procura imediata do serviço de saúde - mais do que a febre. A febre já não está tão recorrente como em outros processos virais. O sintoma de agravo e de ida imediata ao sistema de saúde é o desconforto, a insuficiência respiratória", disse Uip.

Ele também listou outros sintomas, e disse que a febre nem sempre aparece:
"Os sintomas são curiosos. (...) Eu pouco espirrei, não tenho coriza. São fatos novos, do tipo: mudou meu olfato, mudou meu paladar; são dois sintomas novos que eu já vinha vendo nos meus pacientes, agora tô sentindo isso no dia a dia. A febre já não está tão recorrente como em outros processos virais", afirmou Uip.
Cansaço e medo
O médico diz estar bem em seu 5º dia de isolamento. "A sensação é de que eu estou cansado, mas não tenho tido febre, não tenho tido tosse", diz Uip.

O médico declarou ainda que a intenção da mensagem não era gerar medo, mas que ele próprio teve que lidar com temores em relação à doença.

"Eu tive medo. Eu acho que, como qualquer outra pessoa, eu tive medo. Mas acho que eu controlei este meu medo de duas formas: uma, com fé. E a outra, paz na alma. Eu acho que ainda tenho uma missão para cumprir, eu acho que preciso voltar a trabalhar e eu acredito que as pessoas podem ajudar umas às outras. É sofrido? É sofrido. É doído? É doído. Mas nós vamos em frente", disse.
Pedido para população: distanciamento social
Uip também comenta que acredita que o pico da pandemia deve ocorrer durante o mês de abril e maio. "Teremos grandes dificuldades - tanto pro sistema público como privado de saúde", alerta.

"Se nós conseguirmos, através de distanciamento das pessoas, achatar a curva de ascensão, nós teremos menos infectados, menos impacto no serviço de saúde. Se as pessoas não entenderem que esse confinamento nesse momento é importante, nós vamos ter uma subida rápida do pico de doentes e isso vai ter repercussão em todo o sistema. Não tem sistema do mundo que aguente o pico de ascensão de uma pandemia, ainda mais para um vírus que é infectante." - 
David Uip, também é diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, da USP. No mesmo dia em que ele foi diagnosticado com a doença, o governador de São Paulo, João Doria, e o prefeito da capital paulista, Bruno Covas, também foram testados, mas os resultados de ambos foram negativos.

Tire suas dúvidas sobre os sintomas do coronavírus
O médico David Uip, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do governo do estado de São Paulo, está infectado com coronavírus

sábado, 28 de março de 2020

Arte de AMARILDO

A manifestação de Jair Bolsonaro (e a carta do coronavírus na manga), por Carlos Andreazza--em 11/03/2020 • 13:58

Faz alguns dias que as manifestações do dia 15 de março deixaram de ser bolsonaristas – contra o Congresso Nacional – para se converterem em inequívocas manifestações de Jair Bolsonaro (contra o Congresso Nacional).
Bolsonaro cumprimentou manifestantes Foto: Reprodução Facebook
Incontornavelmente: as manifestações são dele, de Bolsonaro.

A transformação se deu no exato instante em que o presidente da República convocou, abertamente, desde Roraima, para os atos. Não o fez à toa. E não sem saber o que tal movimento implica. Se as manifestações são dele, dele serão as consequências. Têm de lotar. Donde se explica por que até um perfil oficial do governo – que aniquilou o princípio republicano da impessoalidade – ora chame para as ruas. Vem mais por aí. É all-in.

(E como – insisto – as instituições da República, os Poderes da República, não reagem a esses progressivos arreganhos autoritários, não tardará até que Bolsonaro, o presidente ele mesmo, apareça sobre um dos carros de som que animam os protestos.)

De novo: Bolsonaro sabe – colocou-se em tal situação – que o desempenho das manifestações (do próximo domingo) será desempenho seu. Foi também (afora a mão de chantagem contra o Parlamento) para vascularizar o evento que falou em deter provas de que a eleição de 2018 fora fraudada. Está valendo tudo; qualquer embuste.

Deve-se esperar mais dessas atraentes irresponsabilidades até domingo.

Mas, como as consequências serão dele (e populista, sabemos, não fracassa ao levar seus liderados às ruas), que não se descarte a possibilidade de o presidente – medindo o pulso das adesões permanentemente, e percebendo a incapacidade de até as mentiras mobilizarem – pedir ao povo que não compareça; e isto, claro, com a desculpa, mais falsa que a moderação de general Heleno, de que convém evitar ajuntamentos em função do coronavírus. E logo – quem duvida? – acorrerão os de sempre para difundir o texto de que não se poderia esperar outra atitude de um estadista. Eles sabem fazer.

Fosse essa, entretanto, uma preocupação real – e não uma saída, guardada na manga, para se descolar de um fracasso de público – e Bolsonaro não estaria fazendo o que faz, usando a estrutura do Estado para chamar aos atos, desde o último fim de semana; isto enquanto, no mundo todo, há mais de dez dias, a palavra oficial vem para desencorajar, e mesmo proibir, aglomerações.

Aqui, porém, é Bolsonaro e bolsonarismo. Vale tudo.

E que nos acostumemos, aliás: esse vírus será – já é – escusa para muita impostura e muita incompetência.

Casos no mundo não convencemo Planalto Peça publicitária prova que exemplos como o da Itália são desconsiderados pelo presidente--Editorial

O lançamento nas redes sociais de um vídeo sob a chancela do governo federal com o slogan “o Brasil não pode parar” reforça o discurso feito pelo presidente Bolsonaro na noite de terça-feira contra a indicação de médicos, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para que as populações pratiquem o isolamento social e a quarentena, a fim de conter a disseminação global da Covid-19. 
Confirma-se que o clássico mecanismo do aprendizado pela observação não tem sido usado no Planalto. Se a realidade factual fosse levada em conta, essa questão não existiria para o governo, tampouco inspiraria peças de manipulação política.

O tempo não para, e os fatos se sucedem, a despeito do desejo de autoridades. De acordo com as previsões do Ministério da Saúde e conforme o padrão seguido nos demais países, os casos de coronavírus no Brasil começam a acelerar e assim ficarão durante algum período. 
A curva da epidemia está na fase de “subir a ladeira”, dizem os técnicos. Segundo o secretário de Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, o número de mortes pela Covid-19 no estado subiu para 68 ontem, um óbito a cada duas horas e 20 minutos. O total de casos confirmados era de 1.223, um acréscimo de 14% em relação a quinta.

O tempo de ascensão e o ângulo da subida dependerão das precauções tomadas pelas pessoas, razão direta da consciência e empenho das autoridades. Por coincidência infeliz para o presidente, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, liberou ontem um vídeo em que pede desculpas por haver apoiado a campanha “Milão não para”, talvez uma das fontes inspiradoras dos publicitários do Planalto. 
A Lombardia, região do Norte italiano em que se localiza Milão, a mais rica cidade do país, contabilizava 250 contaminados pela Covid-19 e 12 mortos. Empresários preocupados com a recessão que seria agravada pelos protocolos médicos ajudaram a financiar a campanha. 
O coronavírus se alastrou pela Lombardia, e até ontem havia contaminado 37.298 pessoas e causado 5.402 mortes, uma devastação. Que deverá contaminar a carreira política do prefeito e outros. 
A Itália como um todo ultrapassou a China, o berço da pandemia, com 86.498 casos, 5 mil a mais. Por enquanto. Bateu outro recorde ontem: quase mil mortos em um dia (919).

É uma perigosa falácia a ideia de que se pode liberar os jovens para o trabalho e manter o idosos protegidos em quarentena. Como na Itália, devido a razões diferentes, as diversas gerações das famílias vivem juntas. Em um caso, razões culturais; no outro, financeiras. Mesmo que assim não seja, a China demonstrou, é criminoso não isolar toda a população. 
Um governante que desdenhou das precauções contra o coronavírus, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, testou positivo e se isolou. Mas antes deve ter ouvido conselheiros que o levaram a recuar no “isolamento vertical” (só os grupos de risco). Até decretou quarentena. 
Mas hoje em Brasília médicos e cientistas não são ouvidos.

Governo proíbe entrada por avião de estrangeiros de qualquer nacionalidade no Brasil por 30 dias, por Daniel Gullino

Comentario sofisma---Depois da casa arrombada "trancas à porta"!!!!
-------------------------------------------------------------
Medida abre algumas exceções, como para cônjuges, pais e filhos de brasileiros
Passageiros desembarcam no Aeroporto Tom Jobim com máscaras de prevenção da Covid-19-Foto: Gabriel de Paiva

BRASÍLIA — O governo federal proibiu nesta sexta-feira a entrada, por via área, de estrangeiros de qualquer nacionalidade. A medida passa a valer na próxima segunda-feira e tem validade de 30 dias e é destinada a frear a propagação do novo coronavírus. Na quinta-feira, o país já havia imposto a mesma restrição nos portos. E, na semana passada, as fronteiras terrestres com 10 países da América do Sul também há haviam sido fechadas.

A restrição de entrada não se aplica a: brasileiro, nato ou naturalizado; estrangeiro cônjuge, filho, pai ou curador de brasileiro; imigrante com residência de caráter definitivo; profissional estrangeiro em missão a serviço de organismo internacional; funcionário estrangeiro acreditado junto ao governo brasileiro; estrangeiros cujo ingresso seja autorizado pelo governo brasileiro em vista do interesse público ou portador de Registro Nacional Migratório.

Também não se aplica a passageiro que esteja fazendo escala no país, desde que não saia da área internacional e que o país de destino admita seu ingresso, para o transporte de cargas e para um pouso técnico para abastecimento de combustível.

O descumprimento das regras levará à deportação ou repatriação imediata e à inabilitação de pedido de refúgio além de responsabilização penal, civil e administrativa.

A portaria que determina a restrição é assinada pelos ministros Walter Braga Netto (Casa Civil), Sergio Moro (Justiça), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) e Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU).

Na semana passada, o governo havia barrado a entrada de cidadãos europeus e de alguns países da Ásia com mais casos de coronavírus. Com a ampliação da restrição, a portaria anterior foi revogada. "Como houve uma disseminação do coronavírus por vários outros países, nós entendemos por bem tomar essa iniciativa", disse Sergio Moro, de acordo com comunicado divulgado pela pasta.

Coronavírus: Frente Nacional de Prefeitos diz que fim da 'contenção social' pode levar a colapso do SUS, nas folhas

Gestores municipais dizem que posicionamento do governo federal é dúbio e gera insegurança na população, e prometem ir à Justiça para transferir para o governo federal as 'responsabilidades cíveis e criminais' pelas ações de saúde e suas consequências.
27/03: Jonas Donizette, prefeito de Campinas, fala sobre aumento de casos de coronavírus. — Foto: Reprodução/EPTV

A Frente Nacional de Prefeitos (FNP) voltou a criticar, nesta sexta-feira (27), a postura do presidente Jair Bolsonaro em relação ao combate ao novo coronavírus e alertou que o fim da "contenção social" pode levar ao colapso no Sistema Único de Saúde (SUS).

Em ofício enviado a Brasília (DF), a entidade promete que governadores municipais vão à Justiça para transferir responsabilidades cíveis e criminais ao governo federal em relação às ações adotadas e suas consequências. Leia o ofício da FNP na íntegra.

O Ministério da Saúde divulgou novo balanço de Covid-19, às 16h30, com 92 mortes e 3.417 casos confirmados da doença no Brasil.

No texto, a FNP, presidida pelo prefeito de Campinas (SP) Jonas Donizette, a entidade lista um cronograma das ações adotadas pelo governo federal desde o início da pandemia.

Pontua que, desde que o governo federal afirmou que a quarentena foi "precipitada e feita de forma desorganizada", houve insegurança na população. O governo federal chegou a lançar em suas redes sociais a campanha #brasilnaopodeparar. Por esses motivos, a Frente Nacional cobra medidas oficiais sobre a suspensão das restrições nos municípios.
Máscara N95, usada por Bolsonaro, é uma das mais avançadas, mas não protege os olhos — Foto: Ueslei Marcelino/ Reuters

Questionamentos da FNP ao presidente Bolsonaro
  1. O Governo Federal orienta os entes subnacionais a suspender imediatamente as restrições de convívio social? 
  2. Caso positivo, por meio de qual instrumento oficial?
  3. Caso o convívio social seja suspenso, há previsão de diálogo federativo para a construção de uma estratégia para concretizar tal medida?
  4. Quais as evidências científicas foram consideradas para motivar a mudança repentina no posicionamento do Governo Federal quanto às medidas de isolamento social?
  5. Caso o Governo Federal suspenda a contenção social, o que poderá levar ao colapso do Sistema Único de Saúde (SUS), o Governo Federal assumirá todas as responsabilidades da Atenção Básica, Média e Alta complexidades, incluindo todos os atendimentos? 
  6. Como estaremos na contramão do que indica e recomenda a OMS, o Governo Federal assumirá as responsabilidades de todo o atendimento à população?
  7. Está entre as medidas do Governo Federal a federalização do SUS?
"A depender da resposta do Governo Federal ao presente ofício, pois o posicionamento até o momento tem sido dúbio e gerado insegurança na população, não restará outra alternativa aos prefeitos se não recorrer à justiça brasileira com pedido de transferência ao Presidente da República das responsabilidades cíveis e criminais pelas ações locais de saúde e suas consequências", diz o ofício.

A FNP informou que a carta foi encaminhada também para presidentes do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal, ao procurador-geral Ministério Público Federal e ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Evolução: 1 mês do novo coronavírus na China, Itália, 
Coreia do Sul, EUA e Brasil 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Influência de filhos de Bolsonaro no Planalto aumenta com a crise do coronavírus, por Naira Trindade e Gustavo Maia

Isolado e assistindo ao crescimento de uma onda de desgaste, o presidente decidiu radicalizar o discurso
O vereador Carlos Bolsonaro participa de reunião com o presidente no Palácio do Planalto 

BRASÍLIA —Isolado e assistindo ao crescimento de uma onda de desgaste na própria militância bolsonarista, o presidente Jair Bolsonaro decidiu radicalizar o discurso. Pressionado pelas redes sociais, buscou apoio de quem lhe ajudou a chegar à Presidência: o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). A presença de Carlos no Palácio do Planalto, inclusive, assusta profissionais que lá trabalham. Há preocupação de que o “pitbull do pai” busque identificar assessores “desalinhados” ao governo.

A mudança de tom de Bolsonaro ganhou evidência com a repercussão negativa da medida provisória enviada ao Congresso que permitia empresários suspenderem contratos de trabalho por quatro meses. Até aquele momento, Bolsonaro tentava uma conciliação com membros do Congresso e do Supremo. Porém, as críticas duras após o envio da MP colocaram um ponto final no diálogo. Aconselhado pelos filhos, Bolsonaro se amparou no discurso ideológico para reverter sua base de apoio.
A produção do conteúdo do polêmico pronunciamento relativo ao novo coronavírus na última terça-feira contou com a ajuda do “gabinete do ódio”, como é chamado o grupo que monitora suas redes sociais, muito ligado a Eduardo e, principalmente, a Carlos. A ausência forçada da cúpula da Secretaria de Comunicação (Secom) — Fabio Wajngarten e o seu adjunto, Samy Liberman, tiveram que entrar em quarenta após contraírem o novo coronavírus — deixou um vácuo que logo foi ocupado por Carlos e integrantes desse gabinete.

No episódio do pronunciamento, por exemplo, o texto ficou restrito a esse grupo até praticamente o horário da veiculação. Filho 02 do presidente, o vereador carioca circula pelo local de trabalho do pai desde a última segunda-feira, e já foi incluído cinco vezes na sua agenda oficial. Ele esteve em três das cinco videoconferências de Bolsonaro com empresários, prefeitos e governadores do Brasil, sentando-se à mesa das autoridades do governo federal, assim como seu irmão Flávio.

Antes de definir o texto do pronunciamento, Bolsonaro assistiu a dois vídeos mostrados por seus assessores. Um deles trazia um empresário que dizia ser dono de uma rede de hotéis de Poços de Caldas (MG) e, que, de forma direta, pedia ao presidente para reverter a situação de isolamento alegando que a população começaria a enfrentar dificuldades financeiras se a paralisação se estender por muito tempo.

A outra gravação que, segundo interlocutores, sensibilizou o presidente mostrava um caminhoneiro chorando dentro de sua carreta, estacionada na beira da estrada. O homem de barba ruiva e cerca de 40 anos relatava a “humilhação” de ter sido barrado por empresas quando tentava entregar produtos e fazia um “alerta” que as pessoas iriam sofrer com desabastecimento de mantimentos nas prateleiras dos supermercados.

Ministros da ala militar chegaram a entrar na sala durante a produção do conteúdo do pronunciamento. Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), foi um dos que deram palpites na confecção do texto. Porém, segundo assessores próximos, Bolsonaro não teria acatado. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não foi consultado.
O estilo de Carlos
Carlos, chamado de pitbull pelo pai, é temido no Planalto. Ele mantém contato com um grupo muito restrito de assessores e conquistou respeito de ministros militares. Segundo aliados de Bolsonaro, os três filhos trocam mensagens de telefone com dois ministros que são amigos do pai: Jorge Oliveira (Secretaria Geral da Presidência) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).
Integrantes da Presidência têm atribuído parte da mudança de discurso do ministro da Saúde sobre o novo coronavírus a um “papo reto” que Mandetta teve com Carlos há poucos dias, como mostrou a colunista Bela Megale. No domingo, o vereador acompanhou o pai até o Ministério, onde ocorreu a teleconferência com prefeitos.

Na sua passagem por lá, Carlos teve uma conversa informal com o ministro sobre a comunicação dos temas ligados à doença, segundo pessoas próximas a Mandetta. No mesmo dia, o titular da Saúde afirmou que será inviável manter todas as atividades do país completamente paradas durante todo o período da crise. E desde então se alinhou ainda mais seu discurso com o do presidente.