terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Art de MRIC

Arte de DUKE

random image

Ano de queda da balança comercial, à espera de boas notícias do exterior, por AFONSO BENITES

Crise na Argentina interfere na balança brasileira. CNI estima que déficit em transações correntes deve chegar a 3% do PIB
Xi e Bolsonaro em encontro no Itamaraty, em novembro.ADRIANO MACHADO (REUTERS)

A balança comercial brasileira registrou até o fim de novembro uma queda de 4,7% entre os meses de janeiro e novembro deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018. 
Dados do Ministério da Economia mostram que o país exportou 6 bilhões de dólares em produtos no ano de 2019, contra 388,2 bilhões de dólares no ano passado. Quando se separa exportação de importação, nota-se que houve uma queda de 6,8% nas vendas ao exterior e de 2,1% nas compras.

Na avaliação de economistas e da Confederação Nacional da Indústria, a redução é uma tendência mundial, principalmente por causa do conflito comercial entre os Estados Unidos e a China. Além disso, crises políticas ou econômicas de parceiros regionais do Brasil interferiram nessa queda da balança. “A Argentina está em crise econômica. O Chile enfrenta uma instabilidade política forte. E a Venezuela está há quatro anos numa crise profunda. Uma hora essa conta chegaria ao Brasil”, afirmou o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB).

As vendas para a Argentina entre janeiro e novembro caíram de 14,2 bilhões de dólares em 2018 para 9 bilhões de reais no mesmo período deste ano. As importações, por sua vez, ficaram em 9,6 bilhões, contra 10 bilhões em 2018. Assim, passamos de um saldo comercial com os argentinos no ano passado, para um déficit. A Argentina também caiu de terceiro para quarto parceiro comercial este ano. Em dois anos, houve uma perda de 50% nas vendas para o país vizinho.

Os chineses, por sua vez, seguem sendo os principais parceiros comerciais do Brasil. Eles movimentaram 370,6 bilhões de dólares neste ano. Parte disso, contudo deve se reduzir nos próximos meses, em cerca de 10 bilhões de dólares, pelo menos. A projeção foi feita pela Universidade Insper, e leva em conta os principais produtos agrícolas brasileiros que deixariam de ser vendidos para a China caso seja cumprido o acordo entre chineses e americanos. Uma das medidas anunciadas pelos dois governos foi o de que a China deveria elevar a importação do agronegócio americano. O impacto ao Brasil seria direto.

Analisando a redução dos valores das importações, surgem duas hipóteses, na avaliação de Oreiro. A primeira é que o câmbio desfavorável tem feito com que os compradores substituam produtos importados por nacionais equivalentes. O dólar sofreu uma brusca variação no Brasil. Começou o ano valendo R$ 3,80 e agora terminou novembro custando R$ 4,24. A segunda hipótese, que ele aponta ser menos provável, é que o Brasil pode ter conseguido fazer melhores negócios, comprando a mesma quantidade de produtos com preços mais baixos.

Os dados oficiais demonstram que os negócios caíram com oito dos dez principais parceiros comerciais brasileiros. Só houve um aumento nos negócios com os Estados Unidos, que cresceu 4,3% e com o Japão, elevação de 7,2%. No caso dos japoneses, o resultado se deve principalmente a um aumento de 18% nas exportações. Já com relação aos americanos, seu segundo principal parceiro, Brasil passou a importar 5,9% a mais neste ano. “Quando o governo Jair Bolsonaro se aliou ao de Donald Trump, esperava-se que houvesse uma elevação considerável dos negócios entre os países, mas isso não aconteceu e nem vai acontecer. A preocupação de Trump é a China”, avaliou Oreiro.

Nesse cenário, o informe conjuntural da CNI publicado na semana passada chegou à seguinte conclusão: “O fraco desempenho da balança comercial ao longo do ano comprometeu as contas do balanço de pagamento e acentuou o déficit em conta corrente. O déficit em transações correntes deve alcançar 55 bilhões de dólares, aproximadamente 3% do PIB”. O déficit corrente é a diferença entre o que o país gastou e recebeu em suas transações internacionais (relativos ao comércio exterior, renda e transferências/empréstimos internacionais).

Assim, o ano deve fechar com os piores dados desde dezembro de 2015, quando o déficit era de 3,03% do PIB, conforme dados do Banco Central . Ou seja, há quatro anos, o Brasil não registrava dados tão negativos nas importações e exportações de bens e serviços. Os dados são tabulados pelo BC desde o ano de 2009.
Inércia em 2020, futuro promissor
José Augusto Castro, presidente da Associação Brasileira das Empresas Exportadoras (AEB) projeta que em 2020 o país vai manter essa inércia, com queda nas importações e exportações. “Temos de buscar outros mercados para este momento, ainda mais com a Argentina em crise”, diz Castro. Apesar do momento de baixa, o presidente da AEB está otimista com o longo prazo. Para ele, o acordo da União Europeia e Mercosul, firmado em maio, traz uma perspectiva decisiva para mudar o padrão do comércio internacional do Brasil. Ele ainda precisa ser ratificado para que entre em vigor e o Brasil tenha acesso aos 200 milhões de consumidores do Velho Continente. Além disso, o Governo está de olho em novos acordos que poderiam dar fôlego às exportações brasileiras, ao mesmo tempo em que a facilitação das importações de outros países vai obrigar as companhias nacionais a se reinventarem para os novos desafios. (Colaborou Carla Jiménez)

Dá para pedalar no frio? O exemplo de Montreal para o uso da bicicleta no inverno, por JAIME PORRAS FERREYRA

Milhares de pessoas se preparam com roupa adequada e rodas especiais para se deslocar nos meses mais frios do ano na cidade canadense
Ciclista em Montreal, no Canadá.MARC BRUXELLE (GETTY IMAGES)

A cidade canadense de Montreal aparece anualmente nas listas dos melhores destinos mundiais para os adeptos da bicicleta. A metrópole do Québec também é conhecida por suas gélidas temperaturas durante boa parte do calendário, mas isso não freia os ciclistas. 
Cada vez mais gente pedala por suas vias nos meses frios —de fato, 17% dos ciclistas da cidade optam por utilizar este meio de transporte o ano inteiro, segundo cálculos da prefeitura.
Quer mais tempo, dinheiro e saúde? Vá de bike

No outono de 2007, François Démontagne decidiu continuar usando sua bicicleta enquanto fosse suportável. Passaram-se os dias e, quando percebeu, tinha chegado o mês de março e ele não tinha renunciado ao seu objetivo. Sua experiência naquele inverno o levou a criar o Vélo d’Hiver-Montréal (“bicicleta de inverno – Montreal”), um grupo no Facebook que se impôs como a referência urbana para essa prática. “Já temos quase 10.000 membros. Está comprovado que a bicicleta é um meio de transporte eficaz, não polui e contribui para a boa forma física. Mas representa também uma atividade importante para que os meses frios não pareçam tão longos, sobretudo num período onde as pessoas estão em pouco contato com a luz solar. Pedalar no inverno é muito prazeroso”, comenta.

Entre janeiro e fevereiro —os meses mais frios no hemisfério norte—, Montreal tem uma temperatura média de -8,7°C. A isso se soma a sensação térmica, ou seja, o frio sentido na pele exposta. O termômetro pode marcar -12°C numa manhã, mas é possível que, com o vento e a umidade, a sensação seja de -20°C. Além disso, a cidade recebe em média 2,6 metros de neve por ano. 
Apesar disso, Démontagne afirma que os ciclistas vão para o asfalto em “80% dos dias de frio”.
O grupo que Démontagne criou no Facebook divulga informações sobre as melhores rotas a seguir, organiza eventos e aconselha os neófitos. A rede de ciclovias de Montreal tem 800 quilômetros de extensão entre 1º de abril e 15 de novembro. No resto do ano, parte do circuito é fechado devido ao inverno. Porém, nos últimos anos as autoridades locais dedicam especial atenção às condições para que as bicicletas continuem rodando no frio. Atualmente, 75% dessas vias (575 quilômetros) permanecem abertas nos períodos gélidos.

Montreal conta com o Bixi, um sistema de aluguel de bicicletas de grande demanda, mas que não opera durante o inverno. Como a bicicleta normal não é apta para a neve, o mais comum para os ciclistas é adaptar a que se usa durante os meses de calor, adquirir outra especialmente para climas frios, ou comprar uma velha unidade e lhe incorporar o que for necessário.
Está comprovado que a bicicleta é um meio de transporte eficaz, não polui e contribui para a boa forma física. Mas representa também uma atividade importante para que os meses frios não pareçam tão longos, sobretudo num período onde as pessoas estão em pouco contato com a luz solar
FRANÇOIS DÉMONTAGNE, CRIADOR DE GRUPO NO FACEBOOK PARA CICLISTAS DE INVERNO

Hugo Roy se decantou por esta terceira opção. Professor de literatura em um colégio de Montreal, Roy se define com orgulho como um fã das pedaladas invernais. “Vou trabalhar de bicicleta diariamente e sempre procuro qualquer tipo de pretexto para usá-la nesta estação”, conta. Sai sempre de capacete e óculos especiais para esqui alpino, além de luvas e outras peças que o ajudam a se manter aquecido. Ele acrescenta que, nos meses de frio, a maioria dos ciclistas se beneficia da aderência adicional dos pneus com ranhuras grossas. É importante ter para-lamas e uma luz que permita que os motoristas distingam a bicicleta, acrescenta.

Roy admite que às vezes hesita em pedalar quando as temperaturas caem vertiginosamente. “O frio não é o problema. Na verdade, sinto calor por estar bem agasalhado e realizar um esforço físico. Minhas restrições têm mais a ver com os motoristas, já que pode se formar uma camada de gelo no asfalto que torna difícil frear ou girar o volante com precisão”, afirma.

O uso da bicicleta no inverno ganha cada vez mais adeptos em Montreal. Mas nem tudo é alegria. Alguns comentários nas redes sociais e em artigos jornalísticos dizem que se trata de uma atividade muito perigosa. “Nos meus anos como ciclista, vi mais acidentes no verão que no inverno. As pessoas tomam suas precauções, estão bem equipadas, mostram prudência e têm uma relação de muitos anos com a bicicleta”, reage Démontagne. “Também há cada vez mais conscientização entre os motoristas”.

Este é o terceiro ano que Roy sai de bicicleta no frio. Admite que não conhecia o grupo “Vélo d’Hiver Montréal”, porque não usa o Facebook, mas agora o segue pelo Twitter. “Interessa-me compartilhar minhas experiências com eles, dar e receber conselhos. Tem uma coisa que aprecio ao me deslocar em bicicleta no inverno: passamos muito tempo trancados e, assim, chego mais motivado ao trabalho depois de pedalar. As endorfinas atuam”.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Arte de DALCIO

Arte de AROEIRA

random image

DESIGUALDADE ECONÔMICA-- Renda do trabalhador mais pobre segue em queda e ricos já ganham mais que antes da crise, por HELOÍSA MENDONÇA

Desemprego depois da recessão de 2015/2016 derrubou em 20% ganhos dos mais vulneráveis e ampliou a desigualdade no mercado de trabalho apesar do quadro de recuperação da economia
Gilvan Santos, a filha caçula e a mulher.FERNANDO CAVALCANTI

A recessão que o Brasil atravessou entre 2015 e 2016 afetou ricos e pobres, mas passados três anos desde o fim da "pior crise do século", como foi batizada à época, fica claro que os efeitos deletérios desse período foram diferentes para os dois grupos. Os brasileiros mais abastados já viraram a página das vacas magras. Os pobres, ainda não. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas revela que depois da tempestade, os 10% mais ricos já acumulam um aumento de 3,3% de renda do trabalho, ou seja, além de superar as perdas, já ganham mais que antes da recessão. Enquanto isso, os brasileiros mais vulneráveis amargam uma queda de mais de 20% da renda acumulada. Se somarmos os últimos sete anos, a renda do estrato mais rico aumentou 8,5% e a dos mais pobres caiu 14%.
A depressão econômica e a tímida recuperação que se seguiu pegou em cheio famílias como a de Gilvan Alves dos Santos, de 44 anos. Assistente de logística de uma empresa há 17 anos, ele viu seu salário se transformar na única renda fixa de uma família de seis pessoas. Três dos seus quatro filhos estão desempregados (a caçula de 15 anos é estudante do ensino médio) e a mulher que trabalhava como estoquista foi demitida. Hoje sua parceira estuda fotografia. Para completar a situação financeira complicada, Santos não conseguiu durante muito tempo pagar um empréstimo e se viu enrolado numa dívida de 10.000 reais. 
Após renegociar com o banco, logrou pagar um décimo do que devia, e saiu das estatísticas da inadimplência. Uma das filhas também tem ajudado com a renda da casa fazendo bicos de babá. “A situação na família apertou e a renda per capita diminui muito”, lamenta. Com o orçamento apertado, a família de Santos engrossou o grupo dos 50% mais pobres - contabilizando menos de 754 reais por pessoa.

Diferentemente de Santos, Elisa Guimarães Figueiredo, de 33 anos, que também trabalha com logística seguiu um caminho de crescimento nos últimos anos mantendo-se no estrato mais rico da sociedade. “A crise, na verdade, foi uma oportunidade”, conta. Como trabalhava no setor de ferrovia e, depois em um porto, ela abriu mercado oferecendo soluções de redução de custos a pessoas que utilizavam o transporte rodoviário. Entre 2015 e 2017, ela conseguiu dobrar o salário e hoje se tornou consultora de logística em uma importante consultoria global.

O retrocesso de Gilvan e o crescimento de Elisa são os dois lados da moeda da economia brasileira. A retomada da atividade brasileira é bastante desigual entre os trabalhadores. Segundo o levantamento do Ibre/FGV, as oscilações na relação entre a renda média do trabalho dos 10% mais ricos e dos 40% mais pobres mostram que, desde 2015, essa desigualdade vem crescendo, e atingiu em março o maior patamar desde 2012, quando começou a ser feita uma série histórica sobre o assunto. O indicador utilizado pelo levantamento é o índice de Gini, que monitora a desigualdade de renda em uma escala de 0 a 1 - sendo que, quanto mais perto do 1, maior é a desigualdade. O Brasil atingiu o valor de 0,6257 em março.
Renda efetiva leva em conta além do salário habitual, rendas variáveis como bônus, 13o salário, comissões.
Para o pesquisador Daniel Duque, os mais pobres sentem muito mais o impacto da crise pela vulnerabilidade social e pela dinâmica do mercado de trabalho. “Há menos empresas contratando e demandando trabalho, ao passo que há mais pessoas procurando. Essa dinâmica reforça a posição social relativa de cada um. Quem tem mais experiência e anos de escolaridade acaba se saindo melhor do que quem não tem”, disse o pesquisador em nota.
Quanto mais perto de 1, maior é a desigualdade.

Na avaliação do Marcelo Medeiros, vinculado à Universidade de Princeton nos Estados Unidos, a recuperação até agora quase não gera empregos e praticamente só favorece os trabalhadores de renda mais alta. “Os mais pobres estão sendo deixados para trás”, diz.
Medeiros começou a estudar de que forma as oscilações macroeconômicas afetaram a desigualdade de renda do trabalho que cresceu nos últimos anos. Junto com Rogério Barbosa, pesquisador pós-doutor do Centro de Estudos da Metrópole (USP) e visitante da Universidade Columbia, Medeiros detectou que, entre 2014 e 2015, há uma interrupção da queda da desigualdade. “Em boa medida o desemprego é o carro chefe da tendência de aumento da desigualdade recente. Em questão de um ano e meio, o trabalho distributivo passa a ser desfeito na mesma velocidade em que ele tinha sido feito", explica Barbosa. Ele conta que nos anos 2000, o índice Gini caía 7 pontos ao ano, justamente quando o país vivia um boom de empregos.
Renda efetiva leva em conta além do salário habitual, rendas variáveis como bônus, 13o salário, comissões.

A desigualdade se acentua em 2016, com a renda menor entre os trabalhadores. "A partir daí temos um aumento de 20 pontos no Gini devido à desigualdade dentro do mercado, instabilidade, e insegurança para quem sobreviveu", diz. No fim de março, 13,4 milhões de pessoas estavam desempregadas no Brasil, segundo dados do IBGE.
Analisando a série dessazonalizada (quando se exclui os efeitos das variações típicas de cada período do ano), é possível observar que, em meados de 2014, os 50% mais pobres se apropriavam de 5,74% de toda renda efetiva do trabalho. No primeiro trimestre de 2019, a fração cai para 3,5%. Para esse grupo que controla uma quantia pequena do montante existente, essa redução de apenas 2.24 pontos percentuais representa, em termos relativos, uma queda de quase 40%.
Enquanto isso, o grupo dos 10% mais ricos da população, na metade de 2014, recebia cerca de 49% do total da renda do trabalho - e vinha apresentando redução nessa parcela, ao longo dos anos anteriores. No início de 2019, sua fração chega a 52%. Para Barbosa, a desigualdade de renda aumenta por dois motivos nos últimos ano. Primeiro, porque muitas das pessoas que conseguem reingressar no mercado vão para o setor informal e inseguro, portanto preocupados em reduzir gastos, inibindo a circulação de dinheiro na economia. E, por outro lado, as pessoas que ficaram no setor formal têm colocações melhores, e, eventualmente, chegam a melhorar seus ganhos. "Desigualdade não é apenas ganhar ou perder, é ganhar mais rápido. Se alguém se distancia do restante da população, aumenta a desigualdade. O topo do mercado formal está se distanciando da base de forma muito rápida, algo que não víamos desde o começo de 1990", explica Barbosa.

Do bolsonarismo ao integralismo, como a extrema direita se organiza na Internet, por FELIPE BETIM

O pesquisador David Nemer explica que, em 2019, os ultraconservadores se dividiram na Internet em três subgrupos. Em um deles estão os encapuzados que reivindicaram o ataque ao Porta dos Fundos
Bolsonaristas promovem manifestação na avenida Paulista, em São Paulo.FERNANDO BIZERRA (EFE)

Jair Bolsonaro está prestes a completar um ano no cargo de presidente da República. Ao longo deste período, o território virtual que abriga o bolsonarismo, e que foi engrenagem essencial de sua campanha para chegar ao poder, sofreu algumas mudanças e se dividiu. A ideologia de extrema direita continua lá, intacta e até mais radical. Mas a união conseguida por Bolsonaro naquelas eleições se desfez. Os extremistas estão agora divididos em ao menos três subgrupos, segundo explica David Nemer, especialista em Antropologia da Informática. 
Em um deles, que ele nomeia de insurgentes, estão pessoas com o mesmo perfil dos homens encapuzados que reivindicaram o ataque com coquetel molotov à sede da produtora Porta dos Fundos, na madrugada de 24 de dezembro. Eles se identificam com o integralismo, o movimento fascista que surgiu nos anos 1930 e que, na era da Internet, ganha novo vigor.
Bolsonaro concede indulto de Natal a policiais e outros agentes presos

Produtora do Porta dos Fundos no Rio sofre ataque com coquetel molotov

“Os insurgentes são mais militaristas e acabaram virando oposição, porque acham que Bolsonaro cedeu ao establishment e não é radical o suficiente. Acreditam que a única forma de salvar o país é fazendo uma insurgência armada para fechar o Congresso e o STF, e começar do zero. Eles falam muito de insurgência armada”, explica Nemer, que desde 2018 está presente em grupos de WhatsApp da extrema direita para monitorar seu comportamento.
Em vídeo que circula nas redes sociais desde a última quarta-feira, os encapuzados que assumiram o ataque ao Porta dos Fundos dizem ser parte do Comando de Insurgência Popular Nacional, recorda Nemer. 
Já a Frente Integralista Brasileira (FIB) soltou uma negando qualquer relação com os homens que assumiram o atentado. Ainda que não seja possível dizer que aquelas pessoas específicas formem parte dos grupos de WhatsApp que monitora ou que oficialmente estejam ligados aos integralistas, o pesquisador explica que “o tom nacionalista cristão e as ideias de atentar contra as universidades e as instituições” são as mesmas. Ele ainda lembra que o mesmo grupo que diz ter atacado a produtora invadiu a UniRio em 2018 e queimou bandeiras antifascistas, conforme também publicou a Ponte Jornalismo. Esses radicais atuam em fóruns da darkweb, mas também recrutam novas pessoas pelo WhatsApp e pelo Youtube. “Não consegui identificar um só canal no Youtube, porque eles são constantemente banidos ou colocados em quarentena. Então existe uma rotatividade”, completa o pesquisador.

O núcleo de propaganda é outro subgrupo que Nemer identificou após as eleições. Formado por bolsonaristas que apoiam o presidente incondicionalmente, tornou-se uma espécie de cão de guarda do Governo, atuando de acordo com a agenda política diária. Nas redes, essas pessoas defendem a gestão Bolsonaro em situações delicadas ― por exemplo, em momentos nos quais mede força com o Congresso ― ou quando se vê acuado ― como durante a crise internacional desatada pelos incêndios na Amazônia. “Bolsonaro precisa de um inimigo para alimentar a retórica do eles contra nós. E essas pessoas nas redes precisam de um inimigo para trabalhar. Nesse sentido, os peronistas se tornaram inimigos, Macron se tornou inimigo e até pessoas do PSL se tornaram inimigas. Agem como milícia virtual e até pessoas como Alexandre Frota e Joice Hasselmann se tornaram alvos”, explica Nemer, mencionando os dois deputados que romperam com Bolsonaro depois de se elegerem fazendo campanha para ele.
Por fim, o pesquisador também identificou o subgrupo que ele classifica como supremacistas sociais, que estão mais ligados aos evangélicos e podem ser tão radicais quanto os insurgentes. “Os supremacistas sociais não estão muito ligados à política do dia a dia, mas eles capitalizam em cima do discurso do presidente e de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Compartilham conteúdo neonazista, racista, anti-LGBT, anti-Nordeste...”, explica Nemer. “Afinal, se o filho do presidente usa uma retórica parecida e não acontece nada com ele, então essas pessoas, que estão no anonimato, se sentem mais livres para compartilhar esses conteúdos. O Governo Bolsonaro valida muito esse pensamento racista que eles têm”.
Por que o bolsonarismo se dividiu em três subgrupos? 
O pesquisador aponta para a própria natureza das últimas eleições. “Bolsonaro abarca várias linhas de pensamento: a liberal na economia, a evangélica, a militar... Essas linhas são conflitantes, não andam de mãos dadas, como pudemos ver durante a briga entre os seguidores de Olavo de Carvalho e os militares”, argumenta. “Esses grupos estavam todos alinhados numa mensagem de eleger Bolsonaro, mas começaram a entrar em conflito. Umas pessoas queriam mais militarismo, outras queriam mais olavistas, outras mais evangélicos. É um reflexo do que Bolsonaro está fazendo na vida real: se ele demitia um militar, então os militaristas ficavam indignados...”, prossegue. Assim, as pessoas foram deixando os grupos de WhatsApp montados durante a campanha e criando outros mais de acordo com a linha que eles queriam que o presidente seguisse.
O método de sua pesquisa
Professor titular e pesquisador no Departamento de Estudos de Mídia na Universidade da Virgínia, Nemer realiza seu trabalho de campo em ambiente virtual, para averiguar como as pessoas se comportam e interagem entre si. No ano passado, identificou que as conversas dos grupos de família estavam mudando e adquirindo um tom mais político conforme as eleições se aproximavam. Algo aparentemente normal, mas que ganhou força com a difusão de conteúdos feitos de forma caseira ― isto é, pouco profissional ― com informações falsas ou distorcidas. Também foi um dos que identificou o comportamento de milícias virtuais que agem para perseguir determinadas figuras públicas e destruir reputações. Ele mesmo se tornou neste mês de dezembro um dos alvos dessas milícias virtuais. Ao publicar suas análises, conta ter recebido e-mails com ameaças e até mesmo uma foto sua andando em um local de São Paulo.
Com as eleições se aproximando em 2018, Nemer entrou em quatro grupos de WhatsApp bolsonaristas para monitorá-los. Ele identificou na ocasião uma forma de agir hierarquizada. No topo da pirâmide estavam algumas poucas pessoas anônimas que ele classifica como influencers, responsáveis por criar desinformações e distribuí-las nesses grupos. 
No meio da pirâmide estavam o que chama de exército voluntário, isto é, bolsonaristas que ficavam responsáveis por espalhar esses conteúdos pelas redes e grupos família. Na base estavam os brasileiros comuns, pessoas que conheceram Bolsonaro e impulsionaram sua candidatura. “Eram pessoas que não tinham espaço para debater e eram bombardeadas com conteúdos. Pela repetição, não havia espaço para dúvidas”.
Com a eleição de Bolsonaro, muitos desses brasileiros e brasileiras comuns foram deixando os grupos, que acabaram desinflando. Permaneceram os mais radicais, que se dividiram nos subgrupos explicados acima. Hoje, Nemer monitora cerca de uma dezena de grupos de WhatsApp e já colheu relatos de pessoas que dizem ter recebido quantias de dinheiro para impulsionar conteúdo falso nas redes.
“É uma minoria, uma coisa menor do que era antes, mas é uma minoria extrema e radical. Temos que prestar atenção porque esses espaços obscuros, escondidos, promovem uma radicalização. A pessoa passa a não ter mais senso crítico”, explica. Essa minoria hoje trabalha a partir da política do medo, tentando criar um passado mítico, que não aconteceu, para motivar as pessoas a saírem para votar ou protestar, segundo explica. “A desinformação não quer só puxar uma agenda política. Ela aliena você da verdade e tira todo o seu pensamento crítico”, completa.

Caldeirões populares (América Latina), por JOAQUÍN ESTEFANÍA

Septênio 2014-2020 será o de menor crescimento na América Latina em 40 anos
Mulheres protestam contra as políticas econômicas do Governo equatoriano em Quito, em outubro.JONATAN ROSAS 

O papa Francisco, que muitos de seus inimigos chamam de peronista, se referiu várias vezes à América Latina como um “continente em chamas”, com “governos fracos que não conseguiram colocar ordem e paz em seu interior”. 
O Natal incluiu a região entre as que estão nas trevas do mundo. Declarações como essas e a extensão dos protestos nas ruas em lugares tão diferentes como o Chile, Bolívia, Equador, Colômbia etc., fazem pensar que a região está submersa em outra década perdida como a dos anos oitenta e que, da mesma forma que outros locais do planeta, está retrocedendo.

E não é assim. A América Latina tem problemas estruturais que em muitos casos avançam sem trégua (a desigualdade, porque seus ricos são cada vez mais ricos e não porque seus pobres sejam os mais desfavorecidos do mundo; a violência cotidiana, a ponto de incluir alguns países dentro da espantosa categoria de “Estados falidos”; a corrupção,...) e justificam as críticas, mas em comparação com outras conjunturas tem muita força: níveis de inflação historicamente baixos, reservas internacionais relativamente elevadas, acesso aos mercados financeiros internacionais (com as exceções conhecidas), juros muito baixos, etc. Estas condições favorecem sua capacidade para aplicar políticas econômicas que estimulem a demanda, cuja ausência é uma das causas dos movimentos de protesto.

Acaba de ser publicado o tradicional Balanço preliminar das economias da América Latina e o Caribe 2019, elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), um organismo das Nações Unidas com sede em Santiago (Chile). 
Destacam nele dois vetores que se desenvolvem paralelamente: uma intensa desaceleração econômica generalizada e sincronizada, que fez com que 18 dos 20 países estudados apresentassem uma taxa de crescimento menor em relação a períodos anteriores; e um contexto de crescentes demandas sociais, pressões para reduzir as desigualdades e aumento da exclusão social, que explodiram “com uma intensidade incomum”.

Essas características, entretanto, não correspondem somente ao ano das mobilizações, começaram pelo menos desde 2014: queda da renda per capita, o investimento, o consumo per capita, as exportações, e uma deterioração contínua da qualidade do emprego. O septênio 2014-2020 (a não ser que no próximo ano ocorra um milagre que ninguém prevê) será, de acordo com a CEPAL, o de menor crescimento econômico na região nos últimos 40 anos. 
Nesse período, o número de desempregados da região superou 25 milhões de pessoas (um milhão a mais do que em 2018), em meio a um desgaste agudo das condições do mercado de trabalho: aumenta muito mais o trabalho por conta própria (autônomos e falsos autônomos) do que o emprego assalariado, aumentam o subemprego e o trabalho que se origina no interior da economia informal (submersa), e aumenta a diferença entre homens e mulheres em relação ao desemprego (e aos salários). Este septênio parece imerso no conceito de “paralisação secular” publicado pelo economista Larry Summers, secretário do Tesouro com Bill Clinton.

Diante dessa dupla dimensão (desaceleração e aumento dos protestos) há quem tenha ressuscitado o velho relatório sobre a governabilidade das democracias, que nos anos setenta do século passado foi escruto por Michel Crozier, Samuel Huntington e Joji Watanuki à Comissão Trilateral. Entre as principais ideias do mesmo, sobressaiam duas que podem ser colocadas novamente em circulação: a possibilidade de limitar a participação das pessoas na ação política, para evitar os excessos que podem colocar em perigo a extensão da própria democracia; e a diminuição da “sobrecarga governamental” que se manifesta na expansão dos gastos do Estado de Bem-estar como uma “fonte de crise”.

De acordo com os apologistas rejuvenescidos dessas ideias, a liberdade e a democracia estão ameaçadas pelas intrusões das ruas que pressionam as instituições. Mas isso dependerá do sucesso ou do fracasso dos caldeirões populares.

Os filhos abandonados da ONU no Haiti, por SABINE LEE e SUSAN BARTELS

As histórias de 265 crianças haitianas que seus pais, Capacetes Azuis (dentre eles brasileiros), deixaram para trás após manterem relações com suas mães, muitas vezes em troca de comida

Criança na favela de Cité Soleil em Porto Príncipe. Agosto de 2013.NEKTARIOS MARKOGIANNIS 

Marie* tinha 14 anos e frequentava uma escola cristã quando conheceu Miguel, um soldado brasileiro enviado ao Haiti como parte das forças de paz da ONU, um contingente conhecido como Capacetes Azuis. Logo eles iniciaram um relacionamento. Quando lhe contou que estava grávida, Miguel lhe prometeu que a ajudaria com a criança, mas voltou ao Brasil. Marie tentou se comunicar com ele através do Facebook, mas o militar nunca respondeu.

Ao saber da gravidez, o pai de Marie a expulsou de casa e ela foi morar com sua irmã. Atualmente, seu filho tem quatro anos e Marie continua à espera de receber algum tipo de ajuda por parte do Exército brasileiro, de alguma ONG, das Nações Unidas ou do Estado haitiano. Marie faz o que pode para que nada falte ao pequeno, mas não tem condições de escolarizá-lo. Trabalha por um salário de 25 gourdes (1,09 real) por hora, o que mal cobre as necessidades alimentares de ambos. Para pagar a moradia e as mensalidades escolares ela precisa de ajuda.

Infelizmente, a história de Marie não é um caso isolado. Em meados de 2017, nossa equipe de investigação realizou uma pesquisa com aproximadamente 2.500 haitianos sobre as experiências de mulheres e meninas de comunidades onde as missões de estabilização atuavam. Entre todos os entrevistados, 265 ofereceram depoimentos sobre gestações decorrentes de relacionamentos com o pessoal militar da ONU. 
Esse contingente, pouco mais de 10% do total, mencionou as histórias destas crianças, dignas de nota, como se fossem uma realidade cotidiana. Do total de histórias, 28,3% envolvem soldados do Uruguai, e 21,9% do Brasil.
A orgia que questiona os fundamentos das ONGs

Volunturismo: o risco do turismo de voluntariado que movimenta milhões

As narrativas revelam como meninas de apenas 11 anos eram estupradas e engravidadas pelos Capacetes Azuis, sendo depois “abandonadas na mais absoluta miséria”, conforme relatou um dos entrevistados. 
Tiveram que manter sozinhas os filhos que foram fruto desses relacionamentos porque os pais eram repatriados assim que a gravidez era conhecida. Como Marie, inúmeras mulheres ficaram desamparadas a cargo de seus filhos, em condições de extrema pobreza e desigualdade, a maioria sem receber nenhum tipo de ajuda.
Uma missão envolvida em polêmica
A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), a operação mais extensa desenvolvida pela organização no país caribenho (2004-2017), foi concebida originalmente com o objetivo de colaborar com instituições locais em um contexto de instabilidade política dominada pelo crime organizado
O mandato foi prolongado devido às catástrofes naturais: em 2010, o Haiti sofreu um terremoto, e em 2016 padeceu os arrasadores efeitos do furacão Matthew, acontecimentos que aumentaram a insegurança da situação política do país. 
Depois de 13 anos de missão, a MINUSTAH chegou ao fim em outubro de 2017, dando lugar à mais modesta Missão das Nações Unidas de Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH).

A MINUSTAH foi uma das missões mais polêmicas da ONU. Foi o foco de inumeráveis acusações de exploração e abusos sexuais: não são poucos os militares e funcionários que foram relacionados com violações dos direitos humanos que incluem exploração sexual, estupros e inclusive homicídios. (Ao longo desta reportagem, empregaremos indistintamente os termos pessoal, Capacetes Azuis e pacificadores para nos referirmos a membros estrangeiros, tanto militares quanto civis, associados à MINUSTAH.)

No que diz respeito à saúde pública, não existe nenhuma dúvida (de fato, a ONU reconheceu oficialmente) sobre a introdução acidental do cólera no Haiti por parte dos Capacetes Azuis. Mais de 800.000 habitantes do país precisaram de atendimento médico, e pelo menos 10.000 morreram por causa da doença.
Delmas 32, comunidade em Porto Príncipe, Haití.DOMINIC CHAVEZ (WORLD BANK)

Numerosos meios de comunicação já revelaram que membros do pessoal da ONU ofereciam alimentos e pequenas quantidades de dinheiro a garotas menores de idade em troca de relações sexuais. Além disso, apontou-se a relação entre a MINUSTAH e um grupo secreto que realizou abusos sexuais de todo tipo com aparente impunidade: supostamente, pelo menos 134 Capacetes Azuis procedentes do Sri Lanka exploraram sexualmente nove meninas entre 2004 e 2007. Depois que esses fatos vieram à tona graças ao trabalho da Associated Press, em 2017, a MINUSTAH se tornou um paradigma da falta de contundência perante acusações de abusos sexuais. 
Como consequência daquela reportagem, 114 Capacetes Azuis foram obrigados a voltar ao Sri Lanka, mas nenhum foi processado ou julgado depois da repatriação.

Estudos exaustivos evidenciam que crianças concebidas em situações de guerra costumam crescer no seio de famílias monoparentais que sofrem condições econômicas extremamente precárias provocadas pelo conflito. As circunstâncias de que o pai estrangeiro esteja ausente e que o nascimento da criança ocorra fora do casamento geralmente desembocam em situações de estigma e discriminação.

Ainda não dispomos de muitos dados sobre as consequências de ser uma criança mestiça, filha de pai militar estrangeiro, e menos ainda conhecemos as experiências pessoais dos chamados filhos da MINUSTAH, crianças haitianas cujos pais são Capacetes Azuis. Esta é, justamente, uma das razões pelas quais decidimos atrair o foco para as histórias das pessoas afetadas pelas missões executadas pelas Nações Unidas.
Nosso estudo
As histórias que esmiuçamos partem das respostas dos participantes às nossas perguntas: queríamos que nos contassem como é ser uma mulher ou uma menina em uma comunidade transformada no cenário de uma missão de estabilização. Gravamos seus depoimentos em áudio. Neles, as pessoas entrevistadas relataram suas experiências mediante um questionário pré-definido, o que nos permitiu compreender com maior precisão as circunstâncias e consequências de suas interações com os Capacetes Azuis.

Os participantes tinham total liberdade para compartilhar qualquer história sobre qualquer pessoa. Cabe destacar que em nenhum momento se insistiu para que falassem sobre abusos sexuais ou exploração. Os encarregados de registrar as declarações no verão boreal de 2017 foram colaboradores haitianos treinados para isso, e os lugares escolhidos foram comunidades próximas a 10 bases da ONU.

Perguntou-se a aproximadamente 2.500 haitianos a respeito das experiências das mulheres e meninas que vivem em comunidades que receberam missões de paz. Foram colhidos diversos testemunhos, tanto positivos quanto negativos, mas 265 das histórias (10%) versavam sobre crianças cuja paternidade correspondia aos Capacetes Azuis. Isto é especialmente notável, já que o objetivo primário das perguntas do estudo não era indagar sobre as relações sexuais entre as mulheres locais e o pessoal militar, nem girava em torno das crianças concebidas a partir dessas relações.

O que a espontaneidade dessas respostas sugere não é só que os abusos sexuais e a exploração por parte dos Capacetes Azuis não eram fatos isolados. Um entrevistado de Port-Salut afirmou: “Muitas garotas têm filhos dos MINUSTAH”. Declaração referendada por outro homem de Saint-Marc, que nos contou que a MINUSTAH “deixou muitas crianças sem pais”.
Alguns dos relatos foram compartilhados em primeira pessoa por mulheres que tinham parido filhos resultantes de relações com pessoal da ONU, enquanto outras revelações eram apresentadas por membros de suas famílias, amigos ou vizinhos. Até onde nosso conhecimento alcança, estas histórias constituem a primeira investigação empírica que pretende dar voz às famílias afetadas pela exploração e os abusos sexuais perpetrados pelos Capacetes Azuis da ONU.
Sexo por um prato de comida
Vários dos encontros entre mulheres e meninas haitianas e o pessoal militar da ONU foram descritos como violência sexual. 
Um homem de Cité Soleil recordava que “todos os dias escutava mulheres se queixarem da violência sexual que os MINUSTAH exerciam contra elas. Além disso, eram contagiadas com AIDS, e algumas delas engravidaram”.
A praia de Calico ficou famosa por ser ponto de prostituição.CHANTEL COLE
Não só escutamos histórias de abusos sexuais contra mulheres e meninas, mas também sobre homens e meninos que sofreram maus tratos semelhantes por parte dos MINUSTAH. 
No entanto, as agressões sexuais eram a nota discordante, pois as relações escondiam um problema muito habitual nestes contextos, embora com menos repercussão midiática que os estupros: a troca de bens ou dinheiro por sexo com pessoal da ONU.
Um homem casado de Cité Soleil descreveu um padrão comum pelo qual as mulheres recebiam pequenas quantias em dinheiro em troca de sexo: “Vinham, dormiam com elas, se aliviavam, deixavam-lhes com a criança no braços e lhes davam 500 gourdes [pouco mais de 20 reais]”.

Em outros casos, os membros da MINUSTAH davam comida às mulheres, o que indica as condições de extrema pobreza que propiciavam esses encontros sexuais. 
Um homem de Port-Salut assim relatou: “Faziam sexo com as garotas já nem por dinheiro, e sim em troca de alimentos, de um prato de comida”.
A evolução das relações
Outra linha de investigação que recebeu pouquíssima atenção em relatórios anteriores é a evolução das relações sexuais consensuais entre membros da MINUSTAH e as mulheres do Haiti. Às vezes, não passavam de relações esporádicas que derivavam em gestações, como é o caso que relata um homem de Port-Salut:

“Minha irmã saía com um soldado da MINUSTAH, e toda minha família sabia, minha mãe e todo mundo. Mas depois ficou grávida e, desde então, a vida da minha irmã é um desastre.”

Outros relacionamentos se caracterizavam pelo carinho e o compromisso, como o desta mulher:
“Vivia em Cité Soleil e tinha uma relação com um MINUSTAH em que reinava o amor. Afinal, fiquei grávida dele.”
Ao longo da investigação, descobrimos que manter relações com militares brancos e ter filhos de pele branca era, às vezes, algo desejado. Uma mulher de Léogâne revelou que existiam “rumores” a respeito de garotas que mantinham relações com os MINUSTAH e ficavam grávidas porque “queriam ter crianças lindas”.

Independentemente da natureza do relacionamento – consensual ou transacional –, foi possível apreciar certos padrões específicos no que se refere aos lugares e à maneira como ocorriam. Por exemplo, era habitual que os encontros acontecessem na praia ou em um hotel, conforme detalha uma mulher de Cité Soleil sobre uma amiga: “Costumavam ir à praia e depois a um hotel, o homem branco pagava e faziam sexo”.

Também é motivo de grande preocupação que muitas das mães que pariram e criam crianças resultantes de suas relações com os Capacetes Azuis fossem adolescentes e, portanto, não tivessem ainda a idade mínima para dar seu consentimento às relações sexuais. Uma mulher de Cité Soleil nos contou: “Por aqui se veem garotas de 12 e 13 anos que os MINUSTAH engravidaram e abandonaram na pobreza com as crianças aos seus cuidados. Falamos de pessoas cuja vida já era estressante e desgraçada por si só”.
Desamparo
A maioria dos relatos mostra que, ao saberem das gestações, os pacificadores da MINUSTAH eram repatriados pela ONU aos seus países de origem. Uma mulher de Port-Salut nos contou que “uma de minhas irmãs teve um filho com um MINUSTAH. Teve porque o conheceu e se apaixonou por ele. O soldado cuidava dela, mas o repatriaram e aí ele deixou de lhe mandar coisas”.

Um homem de Hinche relatou uma experiência parecida que teve uma garota que conhecia: “Engravidou de um MINUSTAH. (…) Aí o transferiram, deixou seu posto e nunca o voltaram a ver”.
Poucas mães conseguem arcar com os custos para que seus ‘bebês de paz’ frequentem escolas como esta de Kolminy.MICHELLE D. MILLIMAN (SHUTTERSTOCK.COM)

Depois da partida dos Capacetes Azuis que tinham sido ou seriam pais, muitas mulheres jovens se viram sozinhas com o dever de criar um filho em condições de pobreza extrema. Algumas tiveram sorte e contaram com a ajuda de suas famílias, mas eram exceções.

Em praticamente todos os casos, o acesso à educação estava fora do alcance da mãe ou da família, conforme lamenta uma mulher de Port-Salut:
“Comecei a conversar com ele, ele me disse que me amava e eu aceitei sair com ele. Três meses depois estava grávida, mas em setembro o mandaram de volta ao seu país. O menino está crescendo e minha família está me ajudando com o que pode. Tenho que voltar a escolarizá-lo – é que o expulsaram porque eu não tinha como pagar as mensalidades”.

Um homem de Cap-Haïtien comentava:
“Os soldados destroçaram o futuro destas garotas ao deixá-las grávidas para depois abandoná-las. Este comportamento pode gerar consequências negativas para a sociedade e o país em geral, já que estas jovens poderiam ter se tornado advogadas, médicas ou alguma outra coisa que pudesse ter servido de ajuda ao Haiti no dia de amanhã. Agora, podemos ver muitas vagando pelas ruas ou pela feira com um cesto na cabeça e vendendo laranjas, pimentões e outras coisas para poder criar os filhos que tiveram com os soldados da MINUSTAH”.

Em alguns casos extremos, embora poucos, os membros da comunidade relataram que as mulheres e meninas desamparadas não tiveram outra opção senão se envolverem em mais relações sexuais com Capacetes Azuis para alimentarem filhos nascidos dos encontros prévios com os MINUSTAH. 
Um homem de Porto Príncipe compartilhava um exemplo:
“Ele a deixou largada na pobreza porque quando fazia sexo com ela era em troca de muito pouco dinheiro. Agora que a missão está acabando, ele vai embora e ela se afunda na miséria, e se vê obrigada a repetir o mesmo processo para dar de comer ao seu filho, percebe?”

As histórias que reunimos estavam repletas de pedidos de ajuda dirigidos à MINUSTAH e às autoridades haitianas. 
Um homem de Port-Salut deixou clara sua reivindicação:
“Eu gostaria de pedir aos encarregados da MINUSTAH que assumissem as responsabilidades no que diz respeito aos filhos dos membros da missão. Fazemos o que podemos, mas não são condições para criar uma criança.”
Poder e exploração
Nossa investigação deixa claro o que grande parte da literatura acadêmica dá a entender sobre as economias de países onde há missões estabilizadoras: a pobreza é um fator subjacente importante para a exploração e os abusos sexuais consumados pelas forças pacificadoras.

Em numerosos casos, a diferença de poder existente entre os Capacetes Azuis estrangeiros e as populações locais permite aos primeiros explorar mulheres e meninas que fazem parte das segundas, seja de maneira consciente ou inconsciente.

O predomínio das relações sexuais com um componente comercial nos dados reunidos evidencia a envergadura das desigualdades estruturais, materializado no acesso do pessoal da ONU a recursos que a população local necessita ou deseja, por isso os Capacetes Azuis se encontram em uma posição vantajosa para intercambiar esse objeto de desejo por sexo.

Embora grande parte das histórias mencionadas nos parágrafos anteriores tenham sido colhidas em Port-Salut e Cité Soleil, os relatos não diferiam muito entre os diferentes pontos do Haiti – sem falar que o fenômeno descrito não ocorreu unicamente neste país caribenho. De fato, o trabalho que realizamos previamente na República Democrática do Congo nos mostra uma situação similar.

Dentro de sua política de tolerância zero, a ONU reconhece a existência de desigualdades socioeconômicas e de poder com o potencial para propiciar “relações íntimas” entre os pacificadores e as mulheres locais em um marco de exploração.

Basicamente, a ONU proíbe praticamente todas as relações sexuais entre o pessoal das missões e as mulheres dos lugares onde ocorrem as operações. A informação reunida por nossa equipe, além de mostrar que tal proibição absoluta é ineficaz, indica que é necessário focar o assunto da formação personalizada dos membros da ONU, com o propósito de acabar de uma vez por todas com a impunidade que ainda hoje cerca a conduta inapropriada dos Capacetes Azuis.

Outro elemento fundamental radica na necessidade de dispor de um maior número de mecanismos efetivos que permitam às vítimas de explorações e abusos sexuais e a seus filhos (nascidos tanto de relações consensuais como de estupros) o acesso às ajudas. A aplicação de medidas nesse sentido poderia pôr fim à negativa espiral socioeconômica que mantém as vítimas (especialmente as crianças) retidas em circunstâncias de urgentes estreitezas econômicas só servem para perpetuar o ciclo da pobreza.
Apoio às crianças
Em janeiro de 2018, o Bureau des Avocats Internationaux (BAI) haitiano apresentou várias ações de reconhecimento de paternidade perante a Justiça desse país, representando 10 supostos filhos de Capacetes Azuis. A intenção do BAI era pressionar a ONU a instituir uma ajuda econômica aos menores.
Um ano depois, o BAI dirigiu uma carta aberta à Defensora das Nações Unidas para os Direitos das Vítimas, Jane Connors, em que deixava patente sua frustração ao constatar a falta de sensibilidade e intenção de cooperar por parte da ONU, desinteresse que tornou “praticamente impossível” que seus clientes obtivessem justiça.

Depois de certificar a negativa da ONU em facilitar os resultados das análises de DNA dos exames de paternidade, apesar de receber ordens explícitas por parte de um tribunal do Haiti, a carta conclui observando que a ONU mandava “uma mensagem alarmante”, devido à “total ausência de respeito” ao sistema judicial haitiano e o Estado de direito.

A inação da ONU faz sugiram incógnitas de todo tipo sobre a retórica da organização quanto à defesa da dignidade e os direitos das pessoas afetadas pela exploração e os abusos sexuais perpetrados pelos Capacetes Azuis.

Além disso, põe em dúvida a efetividade das intervenções desenvolvidas pelo Escritório das Nações Unidas para a Defesa dos Direitos das Vítimas, cuja função é advogar pelos direitos das vítimas e envolver a ONU na luta contra a exploração e os abusos sexuais ao serviço de suas reivindicações.
Recomendações
Os descobrimentos a que nossa investigação nos conduziu nos permitem elaborar três recomendações fundamentais.

1) A formação do pessoal da ONU deve incluir um compartimento de conscientização cultural que reforce o entendimento dos efeitos que as diferenças de poder podem causar nas frágeis economias dos países submetidos ao processo de estabilização. Do mesmo modo, a instrução deve insistir no desejo percebido de ter um filho com um pacificador, assim como não deve esquecer as consequências socioeconômicas que as mulheres em situação de vulnerabilidade sofrem após serem abandonadas tendo que cuidar de um filho concebido com pessoal da ONU.

2) A ONU deve cessar a repatriação dos indivíduos implicados em casos de exploração ou abusos sexuais, já que isso acarreta consequências duplamente negativas. Em primeiro lugar, impede que o suposto agressor seja julgado de maneira eficaz num processo que permita dirimir se sua conduta foi inapropriada. Em segundo lugar, afasta-o de qualquer jurisdição dentro da qual a vítima – seja a mãe ou a criança – tenha a oportunidade de obter o apoio econômico necessário para garantir que o concebido cresça nas condições apropriadas.

3) A recente nomeação da Defensora dos Direitos das Vítimas das pessoas afetadas pela exploração e os abusos sexuais deve ser acompanhada de uma série de medidas que permitam cortar pela raiz algumas das injustiças em nível estrutural. Ao mesmo tempo, deve agir em representação das vítimas e funcionar como um alto-falante dentro da ONU e em colaboração com os países que são alvo da estabilização e com os países que colaboram enviando suas tropas.

Muitas das pessoas que participaram das entrevistas expressaram sentimentos similares a respeito da necessidade de reconhecimento e ajuda às crianças haitianas filhas de Capacetes Azuis. Um homem declarou: “Conheço muitas mulheres e moças que têm crianças dos MINUSTAH sob seus cuidados. Eu gostaria que [a ONU] assumisse suas responsabilidades, que tomasse a iniciativa e se reunisse com elas para ajudá-las com seus filhos”.
A associação com o pai estrangeiro ausente e o nascimento da criança fora do casamento costumam resultar em estigma e discriminação

(*) Nome alterado para proteger o anonimato da pessoa em questão.

Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation. Leia aqui a versão em inglês.

Sabine Lee é professora de História Moderna na Universidade de Birmingham e recebe recursos da AHRC, UE, SSHRC.

Susan Bartels é cientista clínica na Universidade Queen's, Ontário, e recebe financiamento da SSHRC, Elrha, Universidades do Canadá e do Grupo Iniciativa de Investigação sobre a Violência Sexual, do Banco Mundial.

Veja a programação da reabertura da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, nas folhas

Atrações foram divulgadas pelo Governo do Estado. Estrutura será liberada novamente para o tráfego no dia 30 de dezembro.
Ponte Hercílio Luz, cartão-postal de Florianópolis, será reaberta no dia 30 de dezembro. — Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom

O Governo do Estado divulgou nesta quinta-feira (19) a programação da reabertura da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis. Entre 30 de dezembro e 5 janeiro, haverá atrações gratuitas musicais, culturais e esportivas no Projeto Viva da Ponte, formado por diversos órgãos e fundações estaduais, no Parque da Luz. A lista com as atrações pode ser conferida pela internet. Durantes os sete dias, a estrutura estará aberta para a passagem de pedestres.

A reabertura oficial está marcada para as 10h do dia 30, em cerimônia com a presença do governador Carlos Moisés (PSL), e apresentações da banda da Polícia Militar e do Coral do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). O primeiro dia terá também o desfile de 172 carros e motos antigos e performance do pianista português Mário Moita, referência do fado ao piano.

As apresentações começarão pela manhã e vão até a noite, com exceção de 31 de dezembro, quando os eventos se encerrarão às 17h, com o fechamento da Ponte Hercílio Luz, que voltará a ser reaberta às 10h do dia 1º de janeiro.

O último dia da programação terá a 1ª edição da Corrida da Ponte, com largada às 8h na cabeceira insular e percurso de cinco quilômetros. As inscrições gratuitas começam nesta sexta-feira, às 14h, sendo limitadas a dois mil participantes.

A ponte, que completou 93 anos neste ano, está fechada desde 1991 por causa da deterioração da estrutura. As obras de reabertura foram iniciadas em 2006. Desde então, o valor contratado passa de R$ 474,9 milhões. A Hercílio Luz passou por teste de carga nessa quarta-feira (18) e agora vai receber ajustes para instalação de guarda-corpos, sinalização viária e iluminação funcional.

Uma fraude chamada Felicidade, por José Durán Rodríguez, Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

Com o individualismo, floresceu a happycracia, que transforma a autosatisfação num dever, a ser alcançado apesar das misérias mundanas. Que tal propor, como alternativa, o conflito transformador — sentido essencial da política?

Imagem: Joan Cornellà

No inverno de 2013, a multinacional de refrigerantes Coca-Cola anunciou na Espanha o lançamento de uma página web com mais de 400 estudos sobre felicidade e saúde, que se pretendia como referência no campo das pesquisas sobre bem-estar. O fez por meio do Instituto Coca-Cola da Felicidade, constituído no âmbito da divisão espanhola da companhia, que em 2010 e 2012 já tinha organizado em Madri duas edições de um evento denominado Congresso Internacional da Felicidade.

Entre o artifício publicitário e a produção de uma imagem amigável para a marca, sob o álibi filantrópico de responder ao crescente interesse sobre o tema, a Coca-Cola se juntou a uma agenda global que propõe ser feliz como resposta para todos os males.

Margarita Álvarez é uma das 50 mulheres mais poderosas da Espanha, segundo a revista Forbes, e também foi incluída na lista das 100 mulheres mais influentes do país em 2016, na categoria das executivas, elaborada pelo portal Mujeres&Cia [Nota do Tradutor: algo como a versão espanhola exclusivamente feminina da revista Você S.A.]. 
Álvarez criou e presidiu o Instituto Coca-Cola da Felicidade entre janeiro de 2008 e março de 2011. Ela acaba de publicar Desconstruindo a felicidade, um livro cujo propósito, conforme se lê na nota de imprensa divulgada pela editora Alienta [N. do T.: em português, “Encoraja”], é “ajudar a você a averiguar se a felicidade realmente existe e, se existe, determinar onde pode encontrá-la”.
A nota acrescenta que nas suas páginas não há “regras nem pautas, só conhecimento. Porque saber e possuir informação sobre algo tão relevante, ajudará a você a entender como funciona o cérebro, como pode utilizar os seus pensamentos e como pode identificar e aceitar todas as suas emoções, para enfrentar melhor as circunstâncias da vida”.

Parece pouco provável que a ideia de ser feliz com que lida Álvarez tenha alguma relação com a que possam ter, por exemplo, as mais de 800 pessoas demitidas da fábrica da Coca-Cola de Fuenlabrada (Madri) desde 2014. 
A dela se trata, antes, de mais uma das vozes dos privilegiados que durante os últimos 30 anos participaram da construção e propagação de uma noção de felicidade que repousa sobre o ímpeto, a vontade e a superação individual como ferramentas para alcançá-la. Livros de autoajuda, oficinas de pensamento positivo e palestras motivacionais difundiram a miragem de que ser feliz está ao seu alcance e que não é preciso mais que desejá-lo.

Nesses tempos da mais grave crise econômica mundial desde o crack de 1929, discursos como esse encontraram um público desesperadamente receptivo, ao qual que se oferece bem-estar simplesmente olhando para dentro de si, sem ter que se relacionar com absolutamente mais ninguém. Claro, não é exatamente assim: essa felicidade prometida passa necessariamente por poder pagar, porque o que há detrás dela tem muito pouco de altruísta.

“Toma-se como ponto de partida que se trata de uma escolha pessoal e que, para ser feliz, basta que uma pessoa decida ser e se dedique a isso por meio de uma série de guias, conselhos, técnicas, exercícios, que esses pretensos especialistas dos mais diversos campos propõem: cientistas, psicólogos, coaches, escritores de autoajuda e uma enorme quantidade de profissionais que voejam no mercado da felicidade”, explica Edgar Cabanas. Esse doutor em Psicologia e pesquisador da Universidade Camilo José Cela, de Madrid, é o autor, junto com Eva Illouz, de Happycracia (Ed. Paidós, 2019), um ensaio que passa o bisturi nos argumentos manuseados pela “ciência da felicidade”; argumentos que ignoram questões sociais, morais, culturais, econômicas, históricas ou políticas, para apresentar teses em aparência objetivas.

“Enquanto a predisposição dessa ideia de felicidade é a de produzir seres completos, realizados, satisfeitos, o que acaba ficando é uma permanente insatisfação: a felicidade é concebida como uma meta que nunca se alcança, que nunca chega a se materializar. É sempre um processo constante, que faz a pessoa embarcar em uma busca obsessiva de maneiras de melhorar a si mesma, seu estado emocional, a administração de si no trabalho, na educação, na intimidade”, sustenta Cabanas.

Nesse sentido, a pesquisadora Sara Ahmed, que publicou há uma década The Promise of Happiness [A promessa de felicidade] (Duke University Press, 2010), traduzido para o espanhol este ano pela editora argentina Caja Negra, assinalava em março, em uma entrevista que “a felicidade, como promessa de viver de um determinado modo, é uma técnica para dirigir as pessoas”.

Tornando as coisas ainda mais precisas, Fefa Vila Núñez, professora de Sociologia do Gênero na Universidade Complutense de Madrid, nota que essa concepção “nos impele, nos ordena e dirige em direção ao consumo, vinculado este a uma ideia de vida sem fim, forjada sobre um hedonismo sem limites, onde melancolia e tecnofilia [N. do T.: a obsessão pela tecnologia] se unem num abraço íntimo, para conformar a noção de ganho, de êxito, de imortalidade, de um prazer infinito para aquele que não se desvie do caminho traçado”.

A pesquisadora encontra a origem desse discurso num “maquinário de felicidade” ativado depois da I Guerra Mundial e relacionado a um “capitalismo de consumo” que foi modelando a noção de felicidade até nossos dias.
A equação da felicidade
O livro de Margarita Álvarez conta com duas assinaturas convidadas muito significativas. O prólogo é de Marcos de Quinto, ex-vice-presidente da Coca-Cola Espanha e número dois, por Madri, do [partido de direita] Ciudadanos nas próximas eleições gerais. Já o posfácio fica a cargo de Chris Gardner, cuja história costuma ser usada como exemplo pela assim chamada “psicologia positiva”. Como exceção tendenciosamente convertida em regra, a biografia de Gardner vai da pobreza ao êxito empresarial, tendo sido retratada no filme Em busca da felicidade, de 2006, protagonizado por Will Smith. Gardner é hoje um multimilionário que se dedica à filantropia e a dar conferências sobre como a felicidade depende da vontade individual. “Se você quiser, pode ser feliz” é sua mensagem.

Um nome chave no desenvolvimento da “ciência da felicidade” é o de Martin E. P. Seligman [N. do T.: ironicamente homônimo (talvez até de forma deliberada) do personagem de Lars von Trier no filme “Ninfomaníaca”, de 2013]. Eleito, em 1998, presidente da Associação Norte-Americana de Psicologia (APA, em sua sigla em inglês), pode ser considerado como um dos fundadores da “psicologia positiva”, uma vez que participou de seu manifesto introdutório, publicado no ano 2000. Seligman propõe um novo enfoque sobre a saúde mental, distanciado da psicologia clínica e enfocado na promoção do que ele considera “positivo”, a vida boa, para encontrar as chaves do crescimento pessoal.

No seu escritório na APA, Seligman rapidamente começou a receber polpudas doações e cheques de vários zeros, procedentes de lobbies conservadores e instituições religiosas interessadas em promover a noção de felicidade que essa nova corrente da psicologia promulga. A difusão, pelos meios de comunicação e outros canais, de algumas de suas publicações gerou a impressão de que existiria uma disciplina científica capaz de aportar chaves inéditas para alcançar o bem-estar. A repercussão dessas teorias foi mundial. No entanto, seus objetivos, resultados e métodos foram criticados pela falta de consenso, definição e rigor científico.

“Mais que enganosas, eu diria que podem ser perigosas em termos sociais e políticos, além de decepcionantes em termos pessoais”, considera Cabanas, que indica o mercado, as empresas e a escola como agentes principais na elaboração e divulgação de certas noções que se articulam diretamente com valores culturais arraigados no pensamento liberal norte-americano.

Seligman chegou a formular uma equação que explicaria a proporção de fatores que dão como resultado a felicidade. Ela seria a soma de uma grandeza pré-definida (a herança genética) com variáveis da ação voluntária e de circunstâncias pessoais. Sua fórmula outorga ao primeiro fator o peso de 50%, ao fator volitivo o peso de 40%, e tão apenas 10% a todo o resto que diz respeito a coisas como nível de renda, educação ou classe social. Seguindo essa receita, a psicologia positiva tem sido categórica ao considerar que o dinheiro não influi substancialmente na felicidade humana, por exemplo.

Em The Promise of Happiness [A promessa de felicidade], Ahmed resumiu a tautologia que sustenta o campo da psicologia positiva. Toda ela “se baseia nesta premissa: se dizemos ‘sou feliz’ ou fazemos outras declarações positivas sobre nós mesmos ― se praticamos o otimismo ao ponto de vermos que o lado amável das coisas possa se converter em rotina ―, seremos felizes”.
Da página web apresentada pela Coca-Cola como o grande arquivo sobre a felicidade, não restou absolutamente nada cinco anos depois.

Felicidade Interna Bruta
Desde 2013, 20 de março é celebrado como o Dia Internacional da Felicidade. Em sua resolução 66/281 de 2012, a Assembleia Geral da ONU determinou essa data para reconhecer a relevância da felicidade e do bem-estar como aspirações universais dos seres humanos, e a importância de sua inclusão nas políticas de governo. Trata-se de uma medida controversa, pela dificuldade de encontrar indicadores objetivos que quantifiquem o grau de felicidade, além das repercussões derivadas de sua conversão em norteadora de ações de governo, em prioridade a outras metas como a redução das desigualdades, a luta contra a corrupção e o desemprego. Em outras palavras, o risco de que a administração da coisa pública preste mais atenção a um guru da mindfulness [N. do T.: “atenção plena”] que aos sindicatos é real.

“As formas de fazer política baseadas na felicidade ― opina Cabanas ― implicam exaltar as questões individuais e desfigurar as sociais, objetivas e estruturais. Deposita-se toda ênfase em que o mais importante é a forma como os indivíduos se sentem, como se a política se reduzisse a fazer se sentir bem ou mal, e não tivesse nada a ver com um debate moral ou ideológico”.

Depois de aprovar alguns dos cortes orçamentários mais significativos da história do país, especialmente sobre gastos sociais, em fins de novembro de 2010 o primeiro ministro britânico David Cameron propôs a realização de uma pesquisa para medir a felicidade dos cidadãos, no intento de difundir junto à opinião pública a ideia de que o bem-estar se encontra em outras variáveis diferentes do Produto Interno Bruto. Essa parece ser uma iniciativa recorrente em vários países, e que pode ser entendida como uma cortina de fumaça para distrair a atenção.

Em 2016, o primeiro ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Mohamed ben Rashid Al Maktoum, anunciou a criação do Ministério da Felicidade, para produzir no país “gentileza social e satisfação como valores fundamentais”. Do mesmo modo, dispôs essa novidade no âmbito de uma série de reformas, entre as quais se destacava a permissão ao setor privado de se encarregar da maioria dos serviços públicos.

No seu relatório de 2017/2018 sobre Direitos Humanos, a Anistia Internacional concluía que os Emirados Árabes Unidos restringem arbitrariamente o direito à liberdade de expressão e de associação, que continuavam presas dezenas de pessoas condenadas em processos viciados, muitas encarceradas por suas ideias políticas, e que as autoridades emiratis mantinham os detidos sob condições que podiam ser configuradas como tortura. Também assinalava que os sindicatos continuavam proibidos e que os trabalhadores imigrantes que participassem de greves podiam ser expulsos, sob proibição de regressar ao país durante um ano.

Os Emirados Árabes Unidos ocupam a posição 21 de um total de 156 países, na edição de 2019 do Relatório Anual sobre Felicidade Mundial, que as Nações Unidas publicaram no tal dia 20 de março. Trata-se da sétima edição de um estudo que, neste ano, conforme seus autores, colocaria o foco na relação entre felicidade e comunidade e em como a tecnologia da informação, os governos e as normas sociais influem nas comunidades. Finlândia, Dinamarca e Noruega se situam no pódio desse ranking tão peculiar, enquanto Israel e Estados Unidos ― dois países com enormes taxas de desigualdade e pobreza; o primeiro, aliás, sustentado sobre a discriminação da população palestina ― alcançam os postos 13 e 19 respectivamente.

A felicidade na Espanha a teria elevado, em um ano, do 36º ao 30º lugar nessa lista cuja confecção levaria em conta variáveis como expectativa de vida saudável, assistência social, liberdade para a tomada de decisões, generosidade e percepção da corrupção [N. do T.: Há uma ironia sutil no texto, que pode passar desapercebida por aqueles menos familiarizados com a situação política espanhola: são exatamente essas “variáveis” que vêm sendo objeto de considerável inquietação pública no país].

Sobre os meandros onde se entrecruzam política e felicidade conhece muito bem a filósofa Victoria Camps, senadora pelo Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC) entre 1993 e 1996 e ganhadora do Prêmio Nacional de Ensaio de 2012 com o livro El gobierno de las emociones (Editorial Herder, 2011). Na sua opinião, a busca da felicidade é “um direito, expresso de diferentes formas: o direito à igualdade, a ter uma certa proteção por parte dos poderes públicos, para que todos, e não apenas uns poucos, tenham a liberdade necessária para escolher uma certa forma de vida”. Por isso, considera que a política não deve garantir a felicidade, mas que “possamos buscar a felicidade”. Ela entende que o modelo de Estado do bem-estar “ia nessa direção, de proteger socialmente os mais desprotegidos, redistribuir a riqueza e igualar as condições de felicidade”. Para essa filósofa, o Estado do bem-estar social está em crise, mas acredita que “era um bom modelo e que deveria ser estimulado, buscando adaptá-lo à novas necessidades, corrigindo aquilo que não funciona mais”.

Camps conversa sobre seu recente ensaio, intitulado precisamente La búsqueda de la felicidad (Arpa Editores, 2019). Como filósofa, zela pela distância entre a sua disciplina e o palavrório da autoajuda: “Creio que estão nos antípodas uma coisa da outra. A filosofia não dá receitas, mas propõe questões e obriga a aprofundar, a pensar, a encontrar soluções”. Também lembra algo que o paradigma da psicologia positiva tende a esquecer: “As condições materiais afetam bastante. Aristóteles que o diga: a felicidade não está na riqueza, na honra, no êxito, mas isso tudo é necessário para ser virtuoso. Ou como dizia Bertolt Brecht: primeiro é preciso comer, e depois falar de moral”.

Por fim, reflete sobre alguns aspectos nocivos resultantes dessa promoção da felicidade como objetivo impositivo: “O que ela busca é que as pessoas estejam contentes e não incomodem muito. Em todos os domínios ― na política, na empresa, na educação ― isso é buscado por vias muito similares às da autoajuda, de forma muito simples, que não tem nada a ver com a felicidade. Na política, todas as medidas antipopulares, difíceis de explicar mesmo que sejam boas para as pessoas, são difíceis de propor porque amedrontam os políticos, que preferem que as pessoas estejam contentes com medidas muito mais simples”.
Rumo à felicidade… através da greve
Em uma entrevista publicada na página web de El Salto em junho de 2018, o músico asturiano Nacho Vegas falava de reivindicar a infelicidade, já que, na sua opinião, “há momentos em que parece que vivemos nisso que Alberto Santamaría chama de capitalismo afetivo, no qual algumas empresas medem quanto custa para elas a infelicidade dos seus trabalhadores, e se esforçam, com essas ondas motivacionais e de coaching, não a criar felicidade, porque o capitalismo não pode fazer isso, mas em mudar a resposta das pessoas diante da infelicidade”.

Alberto Santamaría é professor de Teoria da Arte na Universidade de Salamanca. No ano passado publicou En los límites de lo posible [Nos limites do possível] (Ed. Akal), uma tentativa de rastrear a forma como a criatividade, as emoções ou a imaginação possam conformar um mapa afetivo propício para a prosperidade econômica. “As empresas estão se dando conta de que a infelicidade, a depressão, são problemas gravíssimos. Pois bem, o que buscam não é uma solução direta. Sua estratégia se baseia em ampliar a dinâmica de duplo reforçamento entre relação mercantil e desejos. Assim, a narrativa empresarial quer nos vender a noção de que o único lugar onde realmente seremos felizes é aquele do trabalho”, comentou.

Para Isabel Benítez, socióloga e jornalista especializada em trabalho e conflitos laborais, a resposta que as empresas oferecem diante da infelicidade dos seus quadros de funcionários é um “mecanismo sofisticado de domesticação, que busca implementar tanto a produtividade direta, ao tentar melhorar a satisfação, lançando mão dos recursos emocionais íntimos das pessoas, como também a produtividade indireta: de reduzir o conflito trabalhista, que é a articulação coletiva do mal-estar comum”. Na sua opinião, é “imensamente difícil” que no trabalho assalariado se encontre uma possibilidade de realização pessoal-profissional, ainda que observe que “no nível individual há, sim, quem o consiga, apesar da instabilidade, da arbitrariedade, da falta de perspectiva, da ausência de controle sobre o quê, o como e o ‘para quê’ do seu trabalho”.

Benítez escreveu, junto com Homera Rosetti, La huelga de Panrico [A greve de Panrico] (Ed. Atrapasueños, 2018), um livro sobre a experiência da greve indefinida que o efetivo de funcionários da única fábrica na Catalunha da antiga panificadora Panrico manteve entre outubro de 2013 e junho de 2014 [N. do T.: A firma buscava reduzir salários e demitir quase 2.000 funcionários, na tentativa de se ajustar aos problemas econômicos, que acabaram sendo superados sem essas medidas, possibilitando a venda da empresa, em condições superavitárias, dois anos depois, para um grupo mexicano]. Ela acredita que os momentos de organização, de ganho de posições e de conquista de mudanças no campo laboral são, estes sim, fonte de satisfação e crescimento para os trabalhadores, apesar de todos os obstáculos.

Por isso, considera que a greve não deixa ninguém na indiferença: “É uma alteração da normalidade em que se incrementa a sociabilidade entre trabalhadores, se põe à prova a capacidade de análise e de organização coletiva, e se descobrem habilidades ‘ocultas’: criatividade em todos os níveis para pensar ― onde, quando, como pressionar a empresa, para poder dirigir-se aos demais colegas de trabalho, para ativar solidariedades externas a ele –, para fazer — construir piquetes, acampamentos –, para negociar, para planejar. As greves, os processos de luta coletiva, modificam as pessoas que participam. São momentos de muita tensão e emoção, em todos os sentidos”.
♫ Eu não quero ser feliz… andar tranquilamente na favela em que eu nasci… eh! ♫“Mas para mim tem um gosto tão ruim!…”, diz a letra de uma canção do grupo de rock espanhol Los Enemigos, que reconhece o incômodo próprio diante de alguém que consegue sorrir quando a ocasião exige, alguém que distingue os meios dos fins e sabe até onde pode ir, diante de alguém, em suma, que é tão feliz e que se entrosa bem. A canção, incluída no disco “La vida mata” (1990), pode ser lida como uma antecipação ao agastamento diante da impossibilidade de alcançar essa meta da felicidade sugerida como ideal a partir de tantas frentes. Mas também, em certa medida, como uma reação.

Quase trinta anos depois da sua gravação, Edgar Cabanas observa que está se gerando na Espanha uma certa consciência crítica. “O outro discurso ganha porque é mais simplista, facilmente traduzível em manchetes, incorporável em políticas empresariais, comercializável, mas também cresce um terreno fértil, um meio de cultura crítico para se contrapor a ele”, nota o coautor de Happycracia.
A professora Vila Núñez defende que “enquanto houver resistência, não há triunfo”, mesmo que não tenha dúvidas de que estamos em uma nova fase do avanço do capitalismo, “um estágio sofisticado, definido pelo assalto ao desejo, à própria subjetividade. Um inferno à medida do nosso desejo, nos lembraria hoje, se estivesse entre nós, Jesús Ibáñez. Já não somos apenas corpos disciplinados, mas desejos expropriados, corpos sem memória”.

No seu entendimento, numa sociedade que afirma o imperativo da felicidade “nada mais tem sentido porque nada tem nem princípio nem fim, só existe o ‘vai!’, o ‘just do it!’, porque não há nem lembranças nem compromissos, não somos ninguém, não viemos de parte alguma e não vamos a parte alguma. Esse é o estado da questão, é o conto do balanço das contas: Sísifo arrastando a pedra que, ao chegar ao alto, sempre está à beira de cair”.

La vida de las estrellas [A vida das estrelas] (Ed. La Oveja Roja), segundo romance de Noelia Pena, foi publicado ao final de 2018. Trata-se de um relato sobre outras realidades, que não aquelas impostas pelo arquétipo da pessoa triunfante, o self-made winner e feliz; realidades que essa figura pretende ocultar. Para a autora, o que interessava ― diz ela ― era “lançar um pouco de luz sobre certos problemas e conflitos que nem sempre queremos encarar, como a doença, a solidão, o isolamento, o abuso. A proliferação de patologias como a ansiedade e a depressão evidencia que esse sistema não nos deixa viver: nos espreme e asfixia. O que acontece quando uma depressão nos impede trabalhar ou quando perdemos um emprego? Nossa segurança se estremece, e com ela o modelo de vida que projetamos em torno do êxito profissional”.

Pena acredita que o grande problema social continua sendo a emancipação, e trata disso no seu livro, mas garante que não pretendeu que seus personagens fossem o contraponto ao que prescreve a psicologia positiva: “O que se pode ver nos problemas dos personagens do romance é a dimensão coletiva dos mal-estares contemporâneos. Apesar do individualismo crescente, grande parte dos nossos problemas tem dimensão social: a solidão dos personagens, para não ir muito longe, especialmente dos mais velhos. Tanto a mindfulness como os livros de autoajuda tentam nos convencer de que, mudando nossa mente, podemos mudar a realidade e, individualmente, podemos alcançar a felicidade. Mas como ser feliz, se a solução para os nossos problemas não é individual, mas comporta decisões alheias, sejam políticas, médicas ou então que apontam para estruturas de poder assentadas há séculos, ou para a violência sobre nossos corpos por parte de outras pessoas?”. A resposta a essa pergunta é, possivelmente, a mais importante de todas as que se buscam ao longo da vida.