sábado, 20 de julho de 2019

Quando o imperador Calígula nomeou seu cavalo cônsul, por JUAN ARIAS

Com todas as lacunas de nossas frágeis democracias, estamos a milhares de anos-luz do que foram os impérios antigos e suas arbitrariedades

Calígula. GETTY

A História Antiga às vezes confunde realidade e fantasia, difíceis de se distinguir. É o que aconteceu com o terceiro imperador de Roma, conhecido como Calígula. Até as crianças conhecem sua curiosa e emblemática história do amor que nutria por seu cavalo preferido, chamado Incitatus (Impetuoso). Chegou a se apaixonar a tal ponto por ele que até o nomeou Cônsul da Bitínia. Contam que era uma afronta ao Senado e às Instituições que desprezava como déspota absoluto.

Seu cavalo era de corrida e na noite anterior a sua competição exigia um silêncio absoluto da cidade de Roma para que não incomodassem o sono do animal, com quem o imperador dormia. O castigo a quem ousasse interromper o silêncio era a pena de morte. O cavalo era na realidade o verdadeiro imperador com poderes absolutos. Verdade ou não, é interessante conhecer a História Antiga que foi forjando a Moderna através dos séculos para ver o que Humanidade conquistou em matéria de liberdade e como as possíveis loucuras de nossos governantes são brincadeira ao lado das loucuras dos imperadores e reis despóticos e absolutistas do passado.

Com todas as lacunas de nossas frágeis democracias, estamos a milhares de anos-luz do que foram os impérios antigos e suas arbitrariedades. Mas isso de deve, ao mesmo tempo, à resistência através dos séculos que o Homo sapiens impôs aos poderes ditatoriais e como aumentou os espaços da democracia. Os pessimistas irredutíveis continuam gostando da célebre frase do escritor e militar espanhol do século XV, Jorge Manrique: “Todo tempo passado foi melhor”.

Sem necessidade de ser otimistas nos tempos em que vivemos, a verdade é que, objetivamente, poderíamos dizer que, pelo contrário: os tempos passados sempre foram piores do que os de hoje. Por isso, é importante que nas escolas se ensine a História Antiga, para entender melhor e apreciar os saltos que a Humanidade deu à procura de uma dignidade maior das pessoas, de uma visão mais clara dos direitos humanos que abarquem todos, e do direito da sociedade a compartilhar o poder com os políticos.

Somente para lembrar os saltos para melhor da história humana, basta recordar que, por exemplo, nos tempos de Calígula e até séculos depois, os pais tinham o direito de vida e morte de seus filhos ao nascer. Podiam concedê-los o direito à vida ou, se não gostassem, podiam sacrificá-los. O estatuto dos direitos da infância à vida e à necessidade de ser respeitados não tem cem anos. 
Por sua vez, a mulher há menos de um século era mais um objeto nas mãos do homem do que uma pessoa com direitos. Na Espanha, há pouco tempo as mulheres não podiam viajar sem a permissão de seus maridos, estudar na Universidade, ter uma conta corrente. Sem contar com os avanços da ciência e da medicina que nos permitem viver mais do que nunca, demos saltos gigantescos na política e nas ciências sociais. Hoje a palavra escravidão é condenada e ninguém pode ser discriminado por suas crenças e seu gênero nos países que chegaram a um certo grau de democracia e respeito pela individualidade.

Isso quer dizer que podemos nos deitar nos louros e deixar os políticos em paz mesmo quando pretendem promover seu cavalo? Não! Justamente porque conseguimos o que a Humanidade não conseguiu em séculos, devemos ser mais resistentes e críticos com as tentações dos governantes de querer voltar aos tempos dos absolutismos em que as feras em seus instintos mais primitivos eram deixadas livres. Foram a resistência da sociedade, as lutas pelas liberdades que custaram muito sangue, o que nos permite hoje desmentir o escritor espanhol e dizê-lo que, apesar de tudo, hoje estamos melhor do que ontem.

Mas cuidado, porque vivemos um momento especial e difícil em que os cavalos transformados em cônsules e mais mimados do que as pessoas, parecem andar soltos e faladores com saudades dos tempos dos imperadores romanos. Porque se é verdade que nunca estivemos melhor, também é verdade que desabar ao abismo é mais rápido do que continuar subindo, com esforço e luta, à custa das conquistas democráticas. Sempre existe a tentação, aberta e latente de querer voltar a um passado em que os loucos ao modo de Calígula chegam a nos parecer até engraçados e divertidos.

Arte de PELICANO

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domingo, 14 de julho de 2019

Arte de CAZO

“As pessoas resistem à ideia, mas a vida é só química”, diz vencedor do Nobel, por MANUEL ANSEDE

Ganhador do Nobel e filho de outro laureado, Roger Kornberg sugere que a ciência torna desnecessárias as explicações religiosas
O químico Roger Kornberg, em Valência. MÓNICA TORRES
Em agosto de 1946, Roger Kornberg ainda era uma única célula, formada pela união de um óvulo de sua mãe, a bioquímica Ruth Levy Sylvy, e de um espermatozoide do pai, o também bioquímico Arthur Kornberg. Essa célula já possuía o código hereditário necessário para formar um Roger com braços e pernas e mantê-lo vivo desde que nasceu, há 72 anos, em Saint Louis (EUA), até hoje, uma tarde ensolarada em um café em Valência. O pai, Arthur, ganhou o Nobel de Medicina em 1959 por esclarecer os mecanismos de formação desse manual de instruções da célula, o DNA. Quase meio século depois, o próprio Roger também ganhou o Nobel, desta vez o de Química, por dar um passo além do pai.

Aquela célula de 1946 que acabaria sendo Kornberg tinha dois metros de DNA dobrados em seu minúsculo núcleo, como quase qualquer célula de qualquer pessoa. Graças a um processo chamado transcrição, as células copiam essas instruções escritas em seu DNA e as escrevem em outro idioma, o das moléculas de RNA, que são capazes de sair o núcleo da célula. Lá fora, a festa começa. Essas palavras de RNA comandam a fabricação das proteínas, as verdadeiras protagonistas da vida, como a hemoglobina do sangue que nos permite respirar e o colágeno que constrói ossos, tendões, dentes e até o branco dos olhos.

Pergunta. Conhecer nossa base química tem um aspecto filosófico.“A vida é química, nada mais e nada menos”, repete uma e outra vez Kornberg, de passagem por Valência para participar do júri dos Prêmios Rei Jaime I. O pesquisador da Universidade Stanford recebeu o Nobel de Química em 2006 por desvendar essa conversão do DNA em RNA, um processo que, se corre mal, pode levar ao câncer. Apesar de ter despontado no mundo das aberrações humanas, ou precisamente por causa disso, Kornberg é muito otimista: acredita que chegaremos a viver num mundo sem doenças.

Resposta. Sim, esse é o cerne da questão. A vida é química: nada mais e nada menos. O funcionamento do cérebro é tão pouco compreendido que se tende a associá-lo a significados mágicos ou místicos. Mas quimicamente o cérebro é uma coleção de fios e interruptores. Todos os cérebros humanos são mais ou menos iguais e as pequenas diferenças são resultado de diferentes padrões nos interruptores, baseados em uma combinação da nossa genética e das nossas experiências. Mas, no final, é química, nada mais e nada menos, embora as pessoas resistam à ideia. Muitas pessoas querem associar às suas próprias experiências algum significado especial, como a religião. Mas é química.

P. O senhor fala de “máquinas” moleculares minúsculas que transformam as instruções do DNA em RNA. Essa maquininha pode cometer erros que levam à morte. Podemos morrer simplesmente por acaso?

R. Tudo –desde a forma do nosso corpo aos detalhes do nosso funcionamento– é consequência da informação genética. Mas descobrir como é exatamente esse processo ainda é um grande desafio. Nós entendemos o primeiro nível. Sabemos que a informação em nossos genes é copiada para outra molécula chamada RNA, que então comanda a síntese de proteínas. E as proteínas fazem tudo. A ideia essencial é que a informação nos genes é a base de tudo o que há para saber sobre nós. É verdade que pode haver modificações pela experiência, mas tudo começa com a informação que existe nos nossos genes. Cada célula do corpo contém as mesmas instruções genéticas, todo o DNA, mas, no entanto, temos 200 tipos diferentes de células: nervosas, do fígado, do músculo, do sangue, da pele. A diferença entre elas são os genes usados em cada tecido. E essa decisão é tomada na hora de copiar as informações do DNA para o RNA. Se um erro for cometido, se o gene errado for ativado em um tecido no qual deveria ser silenciado, com muita frequência se produz um câncer. Uma mudança em apenas uma das milhares de letras de um gene pode causar uma doença.

P. É uma loteria?

R. É uma loteria no sentido de que as informações em nossos genes, que herdamos dos nossos pais, devem ser copiadas com absoluta precisão. Uma mudança em uma letra entre milhões de letras pode ser fatal ou pode causar uma suscetibilidade a uma doença. A química da vida é extraordinária em muitos aspectos. Nosso DNA sofre mutações devido à radiação cósmica, ao oxigênio, à luz solar e às substâncias químicas de todo tipo, especialmente dos alimentos. Sofremos dois trilhões de danos todos os dias. E todos devem ser corrigidos, porque apenas um deles poderia causar câncer ou outra doença. Esta é outra característica extraordinária da nossa fisiologia e da nossa química: a capacidade de reparar todos esses danos sem erros todos os dias. É assombroso.

R. Claro, porque a vida é química. Quando entendemos as bases químicas das doenças, podemos criar automaticamente estratégias químicas para corrigi-las. Não há dúvida de que isso pode ser aplicado a doenças hereditárias e ao envelhecimento. Obviamente, quando aprendermos a prevenir o envelhecimento, criaremos novos problemas para a sociedade. Mas a resposta à pergunta é sim. O fato essencial é que tudo na vida é química e todas as doenças refletem uma distorção da química. Encontraremos meios químicos para corrigi-las. Isso não acontecerá em breve, e talvez não aconteça durante a nossa vida, mas algum dia acontecerá.P. Uma de suas palestras é intitulada O Fim da Doença. O senhor imagina um futuro sem doenças?

P. Quase todas as suas pesquisas foram financiadas pelos institutos nacionais de saúde dos EUA. O que pensa do papel das grandes empresas farmacêuticas?

R. É um erro pensar que as farmacêuticas podem substituir a pesquisa com recursos públicos. Nossa pesquisa é básica, no sentido de que é movida pela curiosidade sobre a natureza, sem saber aonde vai te levar. Uma descoberta, por definição, não pode ser prevista. Você nunca descobre algo intencionalmente. Você descobre coisas tentando entender a natureza. E essas descobertas são a única base para o avanço da medicina. O que distingue a iniciativa acadêmica da indústria farmacêutica é que a primeira não está voltada para certos objetivos. Essa é a essência da pesquisa acadêmica. As empresas farmacêuticas, por outro lado, não podem justificar um investimento em algo que não tenha um fim óbvio. Uma empresa não pode investir dinheiro para fazer algo que talvez nunca tenha um benefício. É impossível.

R. Os acadêmicos se arriscam, tentam fazer coisas que podem levar a algo ou não. E você aposta, porque se não chega a nada pode perder sua posição acadêmica. As farmacêuticas são alérgicas ao risco por natureza. Os negócios evitam os riscos. Outra diferença é a escala de tempo. Você não sabe quanto tempo vai precisar. Muitas pesquisas exigem décadas. Eu nunca fiz nada em menos de 20 anos. E, cada vez mais, infelizmente, os gestores das farmacêuticas têm de informar seus lucros a cada três meses. Que CEO dirá ao seu conselho de administração que a empresa fez um grande investimento em pesquisa que pode não levar a nada e que exigirá 20 anos? E, ao mesmo tempo, sem esse tipo de pesquisa, as empresas farmacêuticas não têm nada. Minha mensagem fundamental é que o Governo, em nome dos cidadãos, tem de apoiar as pesquisas que envolvam riscos e possam exigir muito tempo. Basicamente, essa é a única solução para problemas como infecções, doenças genéticas e câncer.P. E os acadêmicos?
Pergunta. O senhor disse em várias ocasiões que se uma pessoa culta precisa saber algo, esse algo é a química.

Resposta. A química é o mais útil porque nos ajuda a entender o mundo ao nosso redor: o corpo humano e tudo o que está relacionado à saúde e ao meio ambiente. A química está na intersecção entre a física, que são as leis da natureza, e a biologia, que é a sua manifestação. Sem conhecer a química você não pode tomar decisões informadas sobre sua saúde, sobre o meio ambiente... É ridículo.

R. É curioso, porque você não pode saber nada sobre Cervantes ou Shakespeare e ter uma vida muito produtiva. Mas se você não souber nada sobre química, em minha opinião, você não se beneficia de tudo o que foi alcançado pela civilização. Os tempos mudaram e a química é a primeira coisa. Há 100 anos se sabia tão pouco sobre qualquer ciência que você não precisava saber muito de física para ser uma pessoa culta e bem-sucedida. Importava o que você sabia de termodinâmica ou cosmologia? Realmente não. Mas no século XX surgiram a química, a biologia, a bioquímica, a medicina moderna. Há pouco mais de 100 anos, as doenças eram atribuídas a desequilíbrios nos fluidos corporais. Não havia cura para nenhuma doença, havia tratamentos: sangrias, purgantes agressivos. Se há 200 anos você não sabia nada sobre química, biologia ou medicina, não fazia grande diferença na sua vida. Mas hoje faz muitíssima diferença. Acredito que se as pessoas fossem mais bem formadas em química e em biologia estariam menos dispostas a abusar de sua própria fisiologia com drogas, fumo...P. Mas se valoriza mais saber sobre Cervantes ou Shakespeare do que sobre Dmitri Mendeleiev, o pai da tabela periódica dos elementos químicos.

Sexóloga discute relações em tempos de Tinder: “O amor nos dá mais medo do que o sexo”, por RITA ABUNDANCIA

A sexóloga Lorena Berdún fala sobre os relacionamentos nos tempos do Tinder.
Ela ajuda as pessoas a encontrar parceiros graças via colaboração com uma agência de 'matchmaking'
D. R.
Encontrar um parceiro era, até pouco tempo atrás, uma atividade paralela à existência, sem muito barulho, a menos que alguém fosse muito estranho ou especial. Mas parece que a vida terceirizou esse serviço, que está agora a cargo de sites de namoro e, para quem tem mais dinheiro, das modernas agências matrimoniais com seus serviços de matchmaking, coach de casal ou diagnóstico emocional.
Não só os quarentões divorciados, com um histórico de queixas e um alto nível de exigência inversamente proporcional ao de tolerância e aceitação, veem como suas expectativas de encontrar sua meia-laranja são tão numerosas quanto as de encontrar um bom emprego. Muitos jovens também têm saudade do tempo de seus pais: um universo analógico em que as pessoas falavam cara a cara e em que as discotecas serviam para mais coisas além de dançar, beber ou tomar estimulantes. “Em uma das últimas oficinas de sexualidade que dei para adolescentes, um rapaz me disse que invejava muito a minha geração porque podíamos paquerar nos bares”, comenta Lorena Berdún. “Agora é mais complicado. Se você se aproxima de alguém, é muito provável que te diga que está com amigos ou que faça cara feia. A comunicação online é, no entanto, muito mais fluida. E isso é uma pena.”

Esta psicóloga e sexóloga que se tornou popular na televisão espanhola, na brevíssima história dos programas de sexo, há mais de 20 anos aconselha os espanhóis em questões tão espinhosas. Especificamente, desde que em 1997 começou um consultório sobre “amor, sexo e ternura” na revista Bravo. Recentemente, Lorena passou a fazer parte da equipe de Tu Pareja Perfecta (Teu Parceiro Perfeito), uma agência de matchmaking, na qual colabora como psicóloga e sexóloga ao lado de Montaña Vázquez, fundadora, e Marta Brenta, coach de empreendimento pessoal.
Pergunta. Costumo comparar o fato de procurar um parceiro, hoje em dia, com as tarefas de procurar um emprego ou um apartamento. Existem muitos, mas os bons já foram tomados e, por outro lado, tornou-se uma tarefa árdua. Decepcionante, na maioria das vezes. Tornou-se tão difícil que é preciso procurar assessoria externa?

Resposta. Acho que existem várias coisas. A falta de tempo, por um lado, ou o fato de querermos que as coisas sejam muito fáceis e saiam espontaneamente, e isso nem sempre é possível. Mas sim, quando começamos a procurar a meia-laranja de forma ativa (não me refiro a esperar que a vida a traga para nós), pode se tornar um trabalho... e as novas tecnologias nem sempre facilitam essa tarefa. O que não exclui que exista gente que possa ter conhecido seu parceiro no Tinder ou em outro site de namoro.

P. Nunca entendi muito bem o que é matchmaking. Essa técnica que procura a pessoa com afinidades e que quase sempre se baseia em selecionar pessoas com gostos, interesses e status semelhantes. Muitos dos grandes amores da história foram entre pessoas diferentes.

R. Eu não saberia dizer em se baseiam exatamente, mas a agência Tu Pareja Perfecta não tem um banco de dados; a pessoa expõe seus gostos e preferências e são buscados candidatos que se encaixem nesse perfil. Como se encontra o parceiro perfeito?... seria a pergunta do milhão. Qual é a faísca, a âncora, a conexão emocional que faz alguém gostar de você até esse ponto? O que fazemos é te apresentar às pessoas indicadas e propiciar oportunidades para que a natureza faça o resto. E, por outro lado, preparamos você para que essa busca não seja um remendo para certas carências. Eu não faço matchmaking, eu assessoro sobre assuntos de psicologia e sexologia. Procuro fazer com que a pessoa que procura outra vá com seu melhor eu.

P. Muitas vezes a busca por um parceiro é um ato desesperado. Somos como pedintes mendigando companhia, amor, sexo. E isso, imagino, não é um bom começo.

R. É a melhor maneira para acabar em relacionamentos tóxicos. É por isso que nesta empresa você tem que ter o amor próprio muito trabalhado, porque do contrário é pão para hoje e fome para amanhã. Mas ainda há muitas pessoas que procuram em seu parceiro em potencial quem as salve, quem as tire do tédio, quem seja sua mãe, quem resolva seus problemas sexuais...
P. Talvez tenhamos uma ideia inadequada do que é o casal, do que se deve esperar. Talvez seja um modelo que não evoluiu e que precisa ser atualizado.

R. Sim, mas como atualizá-lo? Porque o fato de amar alguém tem poucas adaptações possíveis. E não importa se é uma pessoa ou são duas, ou se o casal é fechado, aberto ou se pratique o poliamor. Trata-se sempre de dar e receber amor. O que eu acho que se deve ter claro é o que se quer e se espera dessa relação e definir as bases e as leis da mesma. Porque um casal é o que seus membros querem que seja. Já existem muitos modelos de casais, não é como antes, que havia apenas um. E se nenhum desses se ajusta, se pode criar um novo. Tudo o que é necessário é o consentimento das partes.

P. O problema agora é que talvez as pessoas esperem ou peçam demais nesse “mundo feliz”. Quais são os conceitos e ideias equivocadas mais comuns que nos impedem de encontrar um parceiro, ou que acabam destruindo o casal que já temos?

R. O primeiro é sempre a falta de comunicação. Temos um individualismo muito exacerbado e é difícil para nós dizer o que queremos, o que gostamos. Isso é muito importante no início de um relacionamento e, geralmente, se fala muito pouco sobre essas coisas na fase da paixão. Não podemos pretender que o outro leia nossos pensamentos e depois recriminá-lo porque não conhece nossas preferências. E, além disso, é preciso saber dizer as coisas, de forma amável e sem ferir.

A hiperexigência e o perfeccionismo são outros obstáculos. Definir expectativas muito altas e criar sua própria história com antecedência. Aplicar a metodologia do trabalho a esse campo, fixando objetivos muito definidos, é um erro. O melhor é estar aberto e disponível, em vez de se dedicar a fazer listas do que queremos. E então há sempre muito medo, medo de que te rejeitem, de que te partam o coração, medo do fracasso. O amor não é um conto de fadas e às vezes se pode sofrer, mas isso nos dá pânico. Também vejo pouca tolerância nos casais. À menor mudança se rompem. Estabelecemos um limiar de exigência muito fino, procuramos a pessoa perfeita e ela não existe.

P. Ultimamente a guerra dos sexos parece ter se intensificado. Uma fração do setor masculino vê o feminismo como uma ameaça, como o apocalipse, e as mulheres como seres sedentos de sangue e vingança, enquanto, por outro lado, algumas mulheres culpam todos os homens pelo patriarcado e veem em cada homem um machista em potencial. Imagino que isso torne a interação entre os sexos mais complicada.

R. Tenho muitas conversas com amigos sobre este assunto. Existe certa crispação no ambiente, resultado do fato de estarmos vivendo um momento de reajuste, de luta de poderes. Os homens estão confusos, muitos veem como seu trono desmorona e alguns reagem mal, mas, em geral, estão muito perdidos. Na terapia, muitos me dizem que não sabem como se aproximar das mulheres. Ao mesmo tempo, elas também não têm muito claro qual novo modelo masculino gostariam, como deveria ser. Por exemplo, supõe-se que a mulher pode e deveria tomar a iniciativa em matéria de aproximação, mas muitas não ousam e continuam esperando que seja ele. Existe um grande desencontro.

P. Estamos perdendo habilidades, como raça humana, para a conquista?

R. Supõe-se que deveria ser algo inato, um instinto, mas nas sociedades superdesenvolvidas a comunicação, apesar dos inúmeros caminhos que temos para isso, é cada vez mais complicada. Estamos nos fechando em nós mesmos. Cada um está imerso em seu mundo pessoal: levantar os olhos, ver os outros, falar com eles, é cada vez mais raro. É muito provável que, se alguém se aproxima de outra pessoa, esta se esquive, responda mal ou faça cara feia. Como então vamos encontrar alguém? O roçar, o cara a cara, o contato, isso está se perdendo. Na verdade, eu diria que combinar com alguém online para ir para a cama é quase mais fácil do que marcar para conhecê-lo ou tomar uma bebida, porque o amor nos dá mais medo do que sexo.

P. Qual é a idade mais crítica para ficar sozinho e ter de buscar companhia? Aqueles na faixa dos 40-50 anos, em que as pessoas já estão ressabiadas, suas exigências são muito altas e suas energias cada vez mais baixas?

R. Sim, essa é uma idade complicada porque a bagagem de cada um já é muito grande e nos tornamos exigentes, não queremos passar por certas coisas outra vez e, além disso, é muito normal que nessa idade já tenham crianças no meio. Um perfil dessa idade é bastante comum nas agências de matchmaking porque o funil se estreita e aparecem os limites. Mas, embora a idade dificulte as coisas, o inimigo de encontrar um parceiro é mais a atitude.

P. Quais conceitos equivocados ainda temos em torno da ideia do amor e do sexo?

R. Na cama esperamos que tudo seja espontâneo e que corra bem. Temos muitas expectativas e também esperamos que elas surjam por si sós e, quando isso não acontece, tentamos forçar o espontâneo. Devemos nos deixar levar, aproveitar o presente, vivê-lo e nos permitir que o que vier em seguida nos surpreenda. No amor, volto ao assunto da comunicação. Nós não nos comunicamos. Não sabemos falar essa linguagem.

P. Você teve um consultório de sexo e relacionamentos na revista Bravo, em 1997. Quais problemas preocupavam os espanhóis na época e agora?

R. Basicamente os mesmos. É verdade que a sociedade mudou desde então, as mulheres agora tomam mais iniciativa e se familiarizaram com a masturbação; mas, no fundo, as pessoas se preocupam com as mesmas coisas: falta de desejo, que antes era um problema mais feminino e agora afeta cada vez mais os homens, ejaculação precoce, disfunção erétil, falta de sexo em relacionamentos de longo prazo. É verdade que há menos perguntas sobre como uma mulher pode engravidar, mas o que é incrível é a enorme falta de conhecimento dos adolescentes. Eles ainda têm dúvidas muito básicas sobre anticoncepcionais, preservativos, questões relacionadas à menstruação. E então, existe uma geração inteira que repete comportamentos machistas, tanto eles quanto elas (cuidado!). Há muito maltrato verbal, os jovens são muito agressivos uns com os outros, vejo pouco respeito e carinho. Em uma palestra para adolescentes que dei em um centro, propus que dissessem palavras relacionadas à sexualidade ou que esse termo fosse definido. Em nenhum momento saiu a palavra amor. Tenho um filho de nove anos e gostaria que ele vivesse outra realidade. Uma mais analógica e amável, com menos máquinas e mais relações humanas.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Arte de OHI

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Arte de AROEIRA