quinta-feira, 30 de maio de 2019

Arte de ALECRIM

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PRÉ-HISTORIA ---Os neandertais não acreditavam em deus, por VICENTE G. OLAYA

Paleontólogo sustenta que a espécie que cruzou com os cro-magnons era incapaz de imaginar histórias
Representação de um grupo de hominídeos na Sima de los Huesos, no sítio arqueológico espanhol de Atapuerca. JAVIER TRUEBA MADRID SCIENTIFIC FILMS

Se os neandertais não tivessem se extinguido, eles seriam mais parecidos com o Spock de Jornada nas Estrelas do que com o capitão Kirk da nave Enterprise. Juan Luis Arsuaga, professor de Paleontologia da Universidade Complutense de Madri, cujo currículo resumido levou mais de um minuto para ser lido na terça-feira pelo apresentador da conferência "Neandertais e Cro-Magnons − Duas Espécies ou Duas Raças?", não tem dúvida: “Eles não tinham o pensamento mágico, que é essencial no pensamento humano”.

Há 40.000 anos, um grupo de cro-magnons e outro de neandertais se encontraram onde hoje é a França. 

Possivelmente não se atacaram, tentaram se entender e colaborar. Os cro-magnons, usando pequenos adornos e com as cabeças cobertas por gorros, procuraram se comunicar com a outra espécie humana que compartilhava com eles a Eurásia (da Península Ibérica “até todos os países com nomes terminados em ‘tão’”, brincou Arsuaga). Os neandertais, porém, não entendiam o significado daqueles enfeites pendurados nos corpos dos recém-chegados. Em seu cérebro não havia lugar para “a liturgia, a cerimônia, o protocolo, para entender que as coisas podem significar algo”. No entanto, ambos eram humanos.

Arsuaga insistiu que o mundo que nos rodeia “fala para os seres humanos”. “Fabricamos coisas com significado, porque isso nos diferencia das máquinas. Elas calculam, mas não podem imaginar”, destacou. “Somos a única espécie que tem pensamento mágico. Somos criadores de objetos que falam.”

Os seres humanos possuem entre 2% e 3% do DNA dos neandertais, já que tiveram relações sexuais (e portanto descendência) com os cro-magnons. Mas nem todos os homo sapiens atuais têm os mesmos genes neandertais. Apesar disso, com um grupo amplo de seres humanos atuais seria possível reconstruir a cadeia genética de nossos antepassados.

Há 800.000 ou 900.00 anos, os neandertais ainda não tinham surgido como espécie claramente definida. Em Atapuerca, na província espanhola de Burgos, foram encontrados os restos do que pode ser considerado um grupo de 30 pré-neandertais. Seus rostos já mostravam traços do que se tornariam mais tarde, mas seu cérebro era muito menor. No mesmo momento, na África, estava ocorrendo algo parecido com os pré-cro-magnons. Só 40.000 anos atrás é que estes últimos entraram na Eurásia e se depararam com a outra espécie. Mas a pergunta surge imediatamente. Os neandertais podem ser considerados humanos?

Nos anos 1940, o paleontologista Ernst Mayr, da Universidade de Harvard, traçou a primeira teoria sobre o que era uma espécie. Sua conclusão foi: “Um grupo isolado que não mantém relações com outros” — do urso polar ao lobo ibérico, passando pelos cro-magnons e pelos sapiens. No entanto, nós, humanos, nos diferenciamos dos demais animais por não evoluirmos como resultado do ambiente que nos rodeia, “a cultura é que impede nosso isolamento genético”. Ou seja, cro-magnons e neandertais nunca estiveram isolados. Algo assim como o fato de que não adaptamos nosso estômago para poder comer grama, como os ruminantes, em vez disso criamos a agricultura, e os casacos, a música, a literatura.

Arsuaga reconheceu que é difícil imaginar um ser humano (neandertal) incapaz de criar “mitos, crenças, contar histórias…”. “Eram uma espécie sem bandeiras, sem seres sobrenaturais. É complicado. Talvez ocorra o mesmo com os extraterrestres. Por que vão ter sentimentos como a vergonha, que é puramente humana?”.

Isso “é difícil de entender”, assinalou o ganhador do Prêmio Príncipe de Astúrias de Pesquisa Científica e Técnica de 1997, criador da Fundação Atapuerca, membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, da Real Academia de Doutores da Espanha, doutor honoris causa por várias universidades e membro do Museu do Homem de Paris. “Os neandertais não eram uma espécie de sapiens, eram mais tolos. Podem existir formas de vida distintas e todas fazerem parte da mesma espécie, como os diferentes tipos de morcegos ou golfinhos. Compreendendo isso, poderíamos entender a mente de um possível extraterrestre que, talvez, desconheça a vergonha dos outros”, afirmou.

Foi aí que um participante da conferência perguntou diretamente a Arsuaga: eles pertenciam ou não à espécie humana? “Deus é que teria de nos explicar isso”, concluiu o pesquisador, com 3% de genes neandertais. E os dois salões de conferências do Museu Arqueológico, completamente lotados, irromperam em um longo aplauso.

Arte de MARIANO

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O homem que sabe tudo sobre o crime ‘on-line’, por JORDI PÉREZ COLOMÉ

Ross Anderson alerta sobre os perigos da falta de controle dos crimes na Internet.

Ross Anderson, professor de Engenharia de Segurança da Universidade de Cambridge, no auditório da Fundação Ramón Areces (Madri). SAMUEL SÁNCHEZ

É um crime simples. Em vários sites, colocam anúncios para alugar um apartamento em uma cidade com pouca oferta e muito movimento. As fotos devem ser bonitas e o preço muito acessível. E pedem dinheiro para “reservar o imóvel” para os primeiros que responderem.

Milhares de pessoas caem a cada ano. Em 2015, no Reino Unido, 3.200 pessoas que procuravam uma casa chamaram a polícia. A Associação de Governos Locais britânica acredita que esse número é de apenas 5% das vítimas. É uma fraude de centenas de milhões de euros por ano.

Ross Anderson é um dos maiores especialistas em crimes on-line. Seu livro Security Engineering (Engenharia da Segurança), 1.500 páginas (ou 17 megabytes), foi publicado pela primeira vez em 2001 e em 2020 terá sua terceira edição. É uma das bíblias do assunto. A equipe que trabalha com ele descobriu a origem desse golpe dos apartamentos: ficava em Berlim e faturava entre cinco e sete milhões de libras (entre 25 e 35 milhões de reais) por ano, a metade com anúncios em Londres.

O que fez a polícia quando as vítimas mostraram as evidências? “Nada”, diz Anderson. “Isso é crime organizado, do grande. Esse cara de Berlim ganha muito dinheiro. Fomos conversar com a polícia londrina, que investiga fraudes de dois ou três milhões de libras, mas disseram que não fariam nada se fosse on-line. É muito difícil se for no exterior.”

Uma pesquisa on-line desse esquema de apartamentos dá como resultado dezenas de links sobre casos, consultas e reclamações, inclusive um da polícia de Cambridge sobre como detectá-lo. Mas não há nada sobre prisões.

O crime on-line não é sexy nem assusta o bastante. Não é como o terrorismo ou a pornografia infantil, diz Anderson. Embora suas estatísticas não parem de aumentar, a sociedade, por enquanto, pode conviver com esses crimes. “Os ministros [britânicos] não querem saber nada sobre fraude comum, não é interessante o suficiente, mas representa a maioria dos crimes cometidos”, explica Anderson durante uma recente visita a Madri para dar uma palestra na Fundação Ramón Areces.

Anderson fala sobre o crime on-line com a naturalidade de um biólogo que descreve o comportamento de um animal: é assim que funciona, sem mais. 
Relaciona exemplos de crimes comuns com proezas cibernéticas, pioneiras nos anos oitenta, que depois se tornaram habituais. Ele quase não se cala: é como um trovador do crime on-line. A variedade de crimes é incomensurável. E parece tão fácil...
O desinteresse por esses crimes continuará enquanto não os valores desviados não forem muito grandes. “O que aconteceu nos últimos 10 ou 15 anos?”, pergunta o especialista. “O crime deu um salto na Internet. Os Governos continuam se gabando de como são bons na luta contra o crime, mas ignoram as fraudes on-line e eletrônicas, as fraudes bancárias e outras questões relacionadas.”

Os meninos que fazem armadilhas
É inclusive fácil de começar. Uma novidade recente é usar um ataque de negação de serviço em jogos on-line. Esse tipo de ataque consiste em enviar milhões de visitas a um site para derrubá-lo. Foi muito usado para evitar que um site estivesse visível durante um tempo. Agora os jogadores on-line o usam para lançar um pequeno ataque contra seu rival para deixá-lo alguns segundos fora do jogo e ganhar.

A equipe de Anderson observa os rapazes que usam esses recursos, que custam alguns dólares no “supermercado do mal” que existe na Internet, para entender os futuros “caminhos do crime”: 
“Vemos um menino que deixa de ser um gamer trapaceiro e se torna alguém que compra um serviço de negação de serviço para matar seus rivais. É a droga inicial, como alguém que começa a fumar haxixe na escola”. Pode ser o começo de crimes maiores.

Todos os dias há exemplos de crimes sob o radar midiático. A cidade de Baltimore (EUA) está com seus serviços on-line sequestrados desde 7 de maio devido a um ataque cibernético que pede uma recompensa. Não há como pagar contas, usar o e-mail oficial e muitos dos telefones. Os funcionários da cidade norte-americana recuperaram o papel. Em 2018 aconteceu em Atlanta e o seguro pagou os prejuízos. Casos semelhantes contra empresas privadas não vêm à luz.

As Mercedes de um ditador
O crime on-line escala rápido. Não só para ganhar jogos on-line, mas também como ferramenta geopolítica. É difícil imaginar as opções, mas é para isso que Anderson existe. 
Quando os carros dependerem totalmente do software, o que impedirá um Governo de exigir que uma de suas empresas bloqueie os carros de um Governo rival que recebe sanções: “As atualizações de software poderão ser usadas como ferramenta diplomática”, diz Anderson. “Todas as Mercedes que um ditador deu aos seus capangas poderão ser bloqueadas.”

Os ataques cibernéticos também poderão colocar malwares nos carros. Um vírus de computador em um carro pode permitir que um terrorista escondido em um país remoto mande milhares de veículos em movimento nos Estados Unidos fazerem curvas à direita e acelerarem: “Isso é algo que está demonstrado há anos”, explica. Os legisladores deverão obrigar os fabricantes a manter o software de seus modelos atualizados durante anos para evitar que as máquinas fiquem cheias de buracos de segurança nas estradas.

O problema original é que a Internet foi construída assim devido à pressa. “Na indústria de software e da informação se consegue muito dinheiro com os efeitos de rede. A corrida de empresas como Microsoft ou Facebook para serem as primeiras deixou muitas falhas de segurança abertas durante anos”, explica Anderson. 
Por isso, a prioridade sempre foi lançar um produto na versão 1 para ser o primeiro “e vamos corrigi-lo na versão 3”, acrescenta. Não só os carros, também os aparelhos de ar-condicionado e todos os novos aparelhos smart que encherão as casas: “Uma das coisas que se deve explicar aos fabricantes é que devem levar as correções de segurança a sério, porque um ar-condicionado é basicamente uma caixa de Linux com periféricos. Uma vez que você o conecta ao wi-fi, ele é hackeável”. E se é hackeável, em vez de “jogar uma bomba em Los Angeles”, alguém pode acessar todos os aparelhos de ar-condicionado de uma marca e “desligá-los e ligá-los e desligá-los sem que ninguém saiba quem fez isso até destruir a rede e deixe metade dos norte-americanos sem eletricidade”.

A consequência de tudo isso é que a estrutura agora é frágil: “É assim que funciona. Decidimos criar um mundo em que os serviços de Internet para cada indivíduo não são tão bons”.

'Atirando o tempo todo em nossa direção', conta vítima de carro alvejado por policiais militares em Angra, nas folhas

Comentário balístico-- o cidadão do Rio tem duas opções--ambas letais--ou é alvejado pela sanha dos bandidos ou pela incompetência dos policiais. Ambos armados com potentes fuzis, pistolas, sub-metralhadoras--alias, totalmente inadequadas dentro de uma cidade--mas, NENHUM sabe ATIRAR! Balas perdidas há e muitas mais haverão!! Cubram-se e rezem!!!
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No veículo também estavam o marido, dois filhos e uma amiga da família. Segundo Polícia Civil, caso aconteceu na Vila da Petrobrás, quando grupo saia de uma confraternização na casa de amigos.

Carro com família é atingido por disparos feitos por policiais militares 
em Angra dos Reis

"O tempo todo a gente acreditou que estava fugindo de bandidos. E quando a gente vê, estava sendo seguido e alvejado sem motivo algum por vários policiais". O relato é da jornalista que teve o carro atingido por disparos feitos por policiais militares na noite de terça-feira (28) em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio. No veículo também estavam o marido, os dois filhos, de 4 e 9 anos, e uma amiga da família.

Segundo informações da Polícia Civil, o caso aconteceu na Vila da Petrobrás. "Não sabia que era carro de polícia, porque não tinha identificação, sirene ligada, nada. (...) Eles vieram atirando o tempo todo em nossa direção", contou a vítima Soraia Moté.

Em depoimento à Polícia Civil, a família contou que eles saiam de uma confraternização na casa de amigos, quando foram surpreendidos por três viaturas da PM apagadas e no escuro. O motorista achou a atitude estranha e deu ré para voltar à residência. Com isso, os agentes atiraram contra eles. A parte da frente e a lateral do veículo foram atingidos. Ninguém ficou ferido.

Soraia disse ainda que não houve tiroteio na localidade. "Não houve troca de tiros com ninguém, nem com a gente, nem com bandido. Não havia bandido no local. Nós estávamos no bairro desde às 18h30. Ninguém ouviu disparo nenhum, em nenhum momento" explicou.

O Delegado da Polícia Civil, Celso Ribeiro, informou que as viaturas da PM e as armas foram apreendidas para realizar perícia. Disse ainda que está claro que os agentes agiram de forma inadequada em relação a iluminação das viaturas, a abordagem do condutor e, principalmente, por terem atirado no carro da família.

Os policiais prestaram depoimento na noite de terça e o caso é investigado pela delegacia de Angra.

Em nota, a Polícia Militar informou que os agentes foram acionados por conta de um tiroteio entre criminosos do bairro Monsuaba. Ao chegar no local, a PM teria sido recebida a tiros e houve confronto. O carro estaria no meio do tiroteio. Ainda segundo a PM, durante a abordagem, a família se assustou com os disparos e tentou fugir do local.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Arte de CLAYTON

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A incrível foto de águia que viralizou e surpreendeu fotógrafo amador: 'Senti a brisa das asas', por BBC

Steve Biro fez registro de águia-de-cabeça-branca voando sobre rio em santuário de aves de rapina no Canadá.
Fotógrafo amador canadense diz estar "maravilhado" pela repercussão mundial da imagem — Foto: Steve Biro/Arquivo pessoal

Um fotógrafo amador canadense diz estar "maravilhado" pela repercussão mundial da imagem que registrou de uma águia-de-cabeça-branca (também conhecida como águia-americana ou águia-careca) em pleno voo.

Steve Biro tirou a foto de Bruce, a águia, na Canadian Raptor Conservancy, um santuário de aves de rapina em Ontário, no Canadá.
Em seguida, publicou a imagem em grupos de fotógrafos no Facebook. O registro rapidamente viralizou.

Na foto, a águia aparece em pleno voo sobre o rio e "olhando" para a câmera. Suas asas abertas tocam levemente a água, numa simetria perfeita.

A imagem é uma das centenas que Biro tirou de Bruce naquele dia.

"Ele está perfeitamente dentro do quadro; as duas asas estão tocando a água", diz ele à BBC. "Aquela [fotografia] foi a que me pareceu mais especial. Mas não sabia qual seria a reação das pessoas", acrescenta.

A foto chegou à primeira página da rede social Reddit e virou notícia em todo o mundo.
As aves normalmente não se sentem perturbadas por fotógrafos que visitam o santuário. Mas Biro diz que a águia parecia irritada com o posicionamento de sua câmera.
"Ele estava realmente tentando me afastar de onde eu estava", diz.
"Senti a brisa das asas quando ele voou sobre mim. As outras pessoas que estavam lá ficaram assustadas quando ele veio na minha direção. Foi realmente muito emocionante".
Biro conta que, assim que se levantou da pedra onde estava sentado, Bruce voou e reivindicou o local para si.
Ele vem tirando fotos há 10 anos como hobby - "de natureza, paisagens, cidades... gosto de tudo".

Mas Biro confessa ter uma "queda" por imagens de pássaros.
"Há algo neles que para mim é cativante", diz Biro.
al".
"A maneira como caçam, a maneira como interagem. Às vezes, você os observa fazendo coisas. Eles são brincalhões, assim como as crianças. É incrível como podemos ver características humanas nos pássaros - e nos animais em geral".

Segundo ele, a fotografia o desafia a ver o mundo "como se fosse criança de novo".
As águias-de-cabeça branca são nativas da América do Norte.
Nos Estados Unidos, onde é o símbolo nacional, a ave faz ninhos em mais da metade do país. No Canadá, é mais comumente encontrada na Colúmbia Britânica, nas pradarias e em partes de Ontário.

terça-feira, 28 de maio de 2019

A (bunda) da Paolla Oliveira é drummondiana......por Joaquim Ferreira dos Santos..

sábado, 31 de janeiro de 2015

A da Paolla Oliveira é drummondiana, a mais completa tradução da que inspirou o poeta e fez com que ele escrevesse “a bunda, que engraçada, está sempre sorrindo, nunca é trágica, se diverte por conta própria”. Numa época de premiação do Oscar, o meu vai para ela, e, por favor, não se veja nisso manifestação de vulgaridade voyeur. A de Paolla tem dramaturgia. Agrega valor. Raciocina. Faz parte do que se está querendo dizer na história.
Ela, a bunda, apareceu semana passada, na minissérie “Felizes para sempre?”, com a arrogância feliz de quem sabe aonde quer chegar. Não é um projeto de sexo, mas de poder e dominação econômica. Nada a ver com a carnavalização dos cariocas, desperdiçada com o fito único da gandaia. A de Paolla é politizada. Estava em Brasília. Balançava orgulhosa sobre o resto da existência e – sendo do tipo culta, não globeleza – repetia o verso de Drummond sobre a bunda que se basta: “Existe algo mais?”.

Muitas outras já desfaleceram os sentidos de quem vê TV no Brasil. Pela primeira vez, porém, uma bunda faz sentido. Tem um ar de escárnio, um sorriso provocador sobre quem a observa, e na cena em questão era o empresário corrupto Claudio, interpretado por Enrique Dias. Foi histórico.

Tempos atrás, Arnaldo Jabor escreveu que a de Juliana Paes era quase uma entidade a parte, como se fosse outra pessoa. Em muitos momentos, poderosa, chegaria a tomar as rédeas da suposta dona. A de Paolla inaugurou em grande formato, em HD, a expressividade calipígia. 

Nestes primeiros capítulos da minissérie, ela parece uma bunda vilã, dedicada principalmente a expropriar os ricos. Mais adiante, suspeita-se que os levará à cadeia. Ao final, tornar-se-á heroína de uma nação vilipendiada.

Ela, a assaz referida, foi a foto mais procurada semana passada nos sites. Só está sendo tratada aqui porque há a esperança nacional, já que todos desistimos da salvação da Petrobras, de que retorne para ser a vingadora e o marco zero de nosso renascimento.

Paolla Oliveira faz uma garota de programa que, como é típico da espécie, apresenta-se com diversos nomes e tanto pode ser Simone num capítulo como Denise em outros. Ela sabe do supérfluo dessas sociabilidades. Quando está de frente para a câmera também sorri cínica, songamonga, levantando ainda mais o protuberante carnudo que lhe encima o lábio superior esquerdo. Ninguém resiste. Logo sobre suas mãos chovem euros e dólares, pois corruptos pagam em dinheiro vivo. Se continuar seduzindo empresários e políticos como fez nos primeiros capítulos, ao final da minissérie estarão em sua conta todos os dois bilhões que eles roubaram.

Na cena agora famosa, Paolla se encontra num quarto de hotel com Claudio, articulado com as maracutaias do governo federal. Você já viu esse tipo de senhor no programa anterior, o Jornal Nacional, na cadeia do Paraná. Agora ele está uivando na cama de Paolla. Ela chega diante do trambiqueiro, mordisca-lhe os lábios e sorve um gole da flute de champanhe. Como se tivesse pressa de mostrar a que veio, imediatamente dá as costas para o executivo, para a câmera, para toda a boquiaberta nação brasileira. Caminha de revés na direção de um contra-luz que deixa seu corpo em silhueta, mas sem esconder as formas que se impõe harmoniosas sobre o caos reles, o nosso triste e desparagonado dia a dia.

Magritte uma vez desenhou um cachimbo e embaixo da tela escreveu “isto não é um cachimbo”. Era a representação artística de um. Milan Kundera, no seu livro mais recente, vendo as mulheres de Paris de camisetas curtas, deslocando o centro de sedução para a exibição pública dos umbigos, lamentou a insignificância – e exaltou a alegria, a brutalidade e objetividade das que concentram sua arte erótica no mesmo ponto de Paolla. Na minissérie, não é só uma bunda, mas um país. Não é um prêmio de merecimento, mas algo conquistado com a grana da corrupção.

Foi um bom momento da televisão, um aproveitamento requintado do que poderia ser uma baixa apelação sobre os instintos da plateia – embora ninguém aqui vá desmerecer os que só viram na cena o óbvio alumbramento de um corpo espetacular, a aurora boreal em forma de mulher ou o compasso redivivo de Niemeyer buscando inspiração para as curvas de seus palácios.

Indo ou vindo, Paolla Oliveira está perfeita. Se a banana do corrupto de Reginaldo Faria, no final de “Vale tudo” em 1989, foi a melhor definição visual do governo Collor, ela agora promete simbolizar, pelo avesso de sua estupefaciente rigidez muscular, o Brasil da delação premiada, de gente muito caída fazendo coisa muito feia. Há muito não se vê na TV, de frente ou verso, um país de sorriso tão cínico e revelador.

Arte de GARGALO

segunda-feira, 27 de maio de 2019

O problema não é seu celular Huawei, o problema se chama 5G, por RAMÓN MUÑOZ & AMANDA MARS

Comentário atônito-- quem diria!!, depois da Guerra Fria, esquenta e sucede o ponto G!! 
Eita mundo surpreendente!!
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A quinta geração da telefonia móvel se transformou na nova arma de destruição em massa na guerra à China declarada por Trump

Um homem utiliza um celular em uma feira tecnológica na China CHINA STRINGER NETWORK REUTERS

“O 5G não é uma bomba atômica; é algo que beneficia a sociedade. Não deveríamos ser o alvo dos Estados Unidos só porque estamos na frente deles no 5G.” Com estas solenes palavras, Ren Zhengfei, fundador e presidente da Huawei, advertia ao mundo na semana passada que a quinta geração da telefonia móvel, supostamente destinada a revolucionar a indústria e o cotidiano dos cidadãos do planeta, não pode se transformar em uma arma de destruição em massa, como, no seu entender, pretende a Administração de Donald Trump ao impor restrições à companhia chinesa.

O veto do Governo norte-americano, primeiro às redes, e agora aos celulares do fabricante asiático, é uma declaração de guerra que vai muito além das hostilidades tarifárias. O anúncio do Google de que deixará de dar suporte aos smartphones da Huawei foi um golpe de efeito mundial. Milhões de usuários se levantaram na segunda-feira passada sobressaltados ao saberem que seus celulares poderiam virar uma casca de ovo vazia, porque o Android, sistema operacional com o qual operam, já não disporiam de atualizações do sistema do Google.

Por mais grave que seja o fato de uma decisão governamental condenar milhões de aparelhos à obsolescência, isso é só o primeiro aviso do vulcão. A maior erupção, a definitiva, está por vir sob a sigla 5G. Esta tecnologia não é só um avanço a mais. Carros autônomos funcionarão graças a essa quinta geração de celulares, e os robôs industriais poderão processar qualquer ordem em tempo real, o que os transformará em máquinas eficientes e quase humanas, capazes de substituir não só operários de uma fábrica, mas também permitir que um cirurgião opere à distância, por exemplo.

O início da era da invenção
“O 5G marcará o começo do que chamamos de era da invenção. É muito mais profundo do que o que vimos antes com a adoção do 4G ou qualquer avanço anterior. E não é um exagero. O 5G e a inteligência artificial significarão bilhões de elementos conectados, enormes quantidades de dados, e todos eles na nuvem. Mudará a forma de compartilhar arquivos, as compras on-line e a reprodução de conteúdos”, disse Cristiano Amon, presidente da Qualcomm, no recente Congresso Mundial do Celular (MWC19) em Barcelona.

O 5G abrirá caminho para a quarta revolução industrial graças a saltos de inovação que representam uma mudança tecnológica total. As conexões 5G são 10 vezes mais rápidas que as 4G atuais (embora em laboratórios se alcancem velocidades 250 vezes maiores). Graças a esse imediatismo, será possível assistir a conteúdos realidade virtual ou com qualidades inimagináveis, como a televisão 8K.

Em segundo lugar, multiplica por 100 o número de aparelhos conectados com o mesmo número de antenas. Resolve assim o problema da cobertura em grandes aglomerações, como estádios de futebol e shows. Além disso, reduz também a uma décima parte o consumo de bateria dos dispositivos (alarmes, células ou chips), o que lhes dá mais autonomia para funcionarem durante anos.

Permitirá a condução autônoma
O maior avanço do 5G, porém, será a redução da latência, o tempo de resposta que um dispositivo leva para executar uma ordem desde que o sinal é enviado. Quanto mais baixa for a latência, mais rápida será a reação do aparelho que acionarmos à distancia. O 5G reduz esse atraso a um milésimo de segundo. Uma reposta tão instantânea permite que a condução autônoma de veículos seja segura, e também que sistemas de comunicação, segurança e defesa sejam operados à distância. Por isso Trump centrou toda a sua artilharia na Huawei, porque ela domina a construção de redes 5G.

O que está por trás do duelo tecnológico entre os EUA e a China tem a ver com a enorme preocupação norte-americana em ter a primazia em relação à China na corrida militar, e o 5G figura no centro dessa inquietação. O Pentágono menciona isso em um relatório ao Congresso, no qual destaca o desenvolvimento de empresas como Huawei e ZTE e aponta que o esforço de Pequim para “construir grandes grupos empresariais que obtenham um rápido domínio do mercado, com um amplo leque de tecnologias, complementa diretamente os esforços de modernização do Exército e traz consigo implicações militares sérias”.

Controle dos sistemas de comunicação e defesa
Numa linguagem muito mais contundente, expressava-se o general aposentado James L. Jones: “A tecnologia 5G da Huawei é a versão século XXI do mitológico Cavalo de Troia”, advertia num documento de recomendações publicado em fevereiro passado pelo Atlantic Council, um dos grandes think tanks de Washington.

“Se controlar também a infraestrutura digital do século XXI, a China intensificará a sua posição para os propósitos de segurança nacional e terá uma influência coercitiva sobre os EUA e seus aliados, já que essas redes processarão todo tipo de dados. E a China, obviamente, as usará para realizar espionagem”, afirmou Jones. “A expansão do 5G chinês ameaçará a interoperabilidade da OTAN, já que os EUA não poderão integrar sua rede 5G segura com nenhum elemento dos sistemas chineses.”

O presidente norte-americano acredita que a Huawei pode instalar nas redes uma camada oculta (conhecida como “porta traseira”), com a qual o Governo chinês controlará as comunicações do mundo todo, incluindo as do EUA. Na última semana, a Huawei reiterou diversas vezes que essa informação é falsa, oferecendo a qualquer autoridade o acesso às suas redes para que possam constatar isso.

Liderança e tecnologia
A Huawei detém 35% do mercado na Europa nas redes de nova geração. Mais de 2.500 patentes relativas ao 5G levam seu nome. A empresa também tem contratos com cerca de 40 operadoras. Se estas, incluindo as espanholas (Telefónica, Vodafone e Orange) se unirem ao bloqueio à Huawei, não poderão lançar a tempo uma rede 5G. De fato, a Europa já está atrasada em relação a países como EUA, Japão, China e Coreia. Somente a Nokia e a Ericsson podem lhe fazer frente nessa disputa, mas a tecnologia e o posicionamento da empresa chinesa são mais avançados e baratos.

“Nossas tecnologias 5G estão pelo menos dois anos na frente e serão líderes mundiais durante muito tempo”, disse na última semana Zhengfei, em declarações citadas por jornais chineses. “Nossas estações de 5G podem ser instaladas manualmente. Não é preciso contar com torres e guindastes nem bloquear estradas para construí-las, já que têm o tamanho de uma maleta. Por isso, é justamente o departamento do 5G que tem sido alvo dos ataques dos EUA.”

O fundador da Huawei, cuja biografia começa como militar do Exército Vermelho, tranquilizou o fervor da audiência, pedindo que não se recorra ao nacionalismo nem ao populismo em resposta ao bloqueio norte-americano. 

Resposta da China ao desafio de Trump
A China tem muitas armas tecnológicas e comerciais em seu arsenal para responder ao desafio. 
A primeira: é o primeiro investidor mundial em inovação, e sua retirada dos países ocidentais causaria danos consideráveis. O gigante asiático também pode cortar o fluxo das exportações dos metais raros, imprescindíveis para os telefones celulares. Mas, sem dúvida, a opção mais temível é que aplique os planos de contingência que afirma ter para evitar o isolamento norte-americano (o plano B mencionado pela Huawei) e desenvolva um sistema operacional em substituição ao Android, acabando com o quase monopólio do Google, que tem 85% do mercado.

O plano inclui também o desenvolvimento de seus próprios chips de processamento e memória, rompendo o cerco imposto por fabricantes como Intel, Qualcomm, Xilinx, Broadcom, Micron Technology e Western Digital, ou pela britânica ARM. Os conglomerados industriais chineses como a Huawei teriam que realizar uma longa travessia pelo deserto, mas no final estariam prontos para destronar gigantes norte-americanos como Google, Cisco, Microsoft e Qualcomm, cujo domínio hoje ninguém discute.

Está em jogo algo mais que a desilusão de milhões de usuários da Huawei. O 5G representará 15% das conexões móveis globais em 2025, chegando a cerca de 30% em mercados como China e Europa e 50% nos EUA, segundo a GSMA. Nesse ano, a quantidade de conexões globais da Internet das Coisas vai triplicar, atingindo 25 bilhões. Agora, resta decidir se quem controla essas redes inteligentes e os dispositivos à distância terá seu escritório em Pequim ou Washington.

TRUMP, ENTRE A GUERRA FRIA E O ACORDO COMERCIAL
O medo de que a China controle as comunicações e os dados no futuro é o que transforma o que parecia uma guerra comercial em um combate de extrema importância na indústria tecnológica – e, no fundo, na origem de uma possível corrida armamentista. Ou seja: o problema não é o celular, nem o 5G simplesmente, mas tudo o que Pequim pode chegar a desenvolver com essa rede além do uso civil. Por isso, Washington também estuda vetar a empresa chinesa de vigilância de vídeo Hikvision.

A tensão não nasce com a Administração de Trump. Mas foi esta, repleta de falcões em matéria comercial, que fechou o cerco contra Pequim de um modo que Barack Obama, apesar de ter o mesmo diagnóstico, não se atreveu.

Mas é uma pressão contraditória, característica do estilo negociador de Trump: apesar da escalada dos últimos dias, ele procura selar um grande acordo comercial com a China.

As proporções de uma guerra econômica entre os EUA e a China são enormes. O fluxo comercial entre as duas potências movimenta cerca de dois bilhões de dólares por dia, e o atual grau de interconexão entre produção, oferta e finanças faz com que a pressão, na verdade, afete meio planeta. Para Washington, a cumplicidade da União Europeia e os demais aliados no aperto contra Pequim é básica, mas a resposta é muito mais fria do que a Casa Branca gostaria.

Cinco perfis psicológicos conforme nossa relação com o dinheiro, por Francesc Miralles

GORKA OLMO
Nosso extrato bancário reflete mais fielmente o que somos do que muitos testes de personalidade

Embora na nossa cultura o dinheiro seja quase um tabu, um assunto sobre o qual muitos evitam falar, certo é que o dinheiro fala de nós. 
A forma de usá-lo revela se somos reflexivos ou impulsivos. 
As coisas com as quais gastamos mostram nossas prioridades vitais. Segundo o espanhol Joan Antoni Melé, que promove a ética nos bancos e a economia consciente, o extrato bancário permite fazer uma radiografia das motivações da pessoa e dos seus pontos fracos. Esse é um dos temas abordados em Money Mindfulness, um ensaio de Cristina Benito que foi traduzido a sete idiomas (não ao português). A economista traça cinco perfis psicológicos conforme nossa relação com o dinheiro.

GORKA OLMO
1. O piromaníaco define a pessoa cujo dinheiro “queima nas mãos” e, portanto, gasta de maneira compulsiva. Segundo a autora, por trás de um consumismo desenfreado há muitas vezes uma grande insatisfação. Quem não está contente com o trabalho ou com a vida precisa “se premiar” para compensar tudo de que não gosta, dando-se presentes cujo prazer evapora tão rápido quanto o próprio dinheiro.


2. O desprendido é uma variante altruísta do perfil anterior, mas, em seu extremo patológico, pode sofrer consequências igualmente nefastas. A pessoa precisa entregar seu dinheiro e seu tempo – ambos estão associados – aos demais. Quem se relaciona dessa forma com o dinheiro se apressará em pagar a conta de um jantar entre amigos ou emprestará uma quantia que depois não será devolvida. Sobre este último ponto, o romancista Henry Miller, que reconhecia ter vivido em Paris pedindo dinheiro sem devolver, dizia que, para que aconteça essa relação de abuso, é necessário um encontro entre dois doentes: o viciado em pedir e o viciado em dar. Por trás da síndrome do desprendido, costuma haver uma baixa autoestima que leva a pessoa a comprar o amor dos outros.

3. O neurótico com a pobreza é menos habitual, mas ocorre com frequência entre artistas e pessoas de índole idealista. Nelas está presente a crença de que se enriquecer é ruim, o que as leva a boicotar a si mesmas. Se as coisas saem bem, isso significa que traíram seus princípios ou prejudicaram os outros. A ideia de que é preciso ser pobre para ser puro está enraizada na cultura judaico-cristã. A Bíblia nos recorda que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”. O sujeito que tem essa neurose com a pobreza também pode ter medo de ser criticado, ou inclusive de perder afetos, se melhorar seu nível de vida. Por isso, profissionais competentes muitas vezes não se atrevem a pedir um aumento de salário ou a cobrar honorários mais altos.

4. A formiguinha é um perfil muito comum e, dentro da moderação, sua relação com o dinheiro pode ser saudável. O problema é quando a pessoa vive num estado de carestia permanente, inclusive tendo uma renda mais que suficiente. A fixação doentia com a austeridade pode fazê-la passar dificuldades e privações injustificadas. Levada ao extremo, essa atitude se apoia no temor. Há um medo de que surjam gastos inesperados, de perder o trabalho, de uma catástrofe geral da qual ela só se livrará graças às economias. Mas fazer tanta reserva pode nos tornar incapazes de curtir os prazeres simples da vida.

5. A nuvem do não saber, o último perfil mencionado em Money Mind­­fulness, diz respeito às pessoas que preferem que o outro se ocupe do seu dinheiro. Delegam essa responsabilidade ao companheiro, à família ou a um representante. A despreocupação pode acabar em desastre, como foi o caso de Leonard Cohen, que, depois de se aposentar, com mais de 70 anos teve que voltar a fazer turnês devido à má gestão de sua assessora financeira. Em um nível mais modesto, muitas pessoas descobrem, ao se divorciarem, que o companheiro que se ocupava das finanças só deixou um buraco sem fundo.

Seja qual for a nossa relação com o dinheiro, tomar consciência sobre o que fazemos com ele nos ensina não apenas quem somos e como temos que mudar, mas também como evitar vínculos tóxicos com os outros, tornando-nos responsáveis por nossa vida.

Ingvar, o pão-duro
É célebre a obsessão do fundador da IKEA, Ingvar Kamprad, em poupar dinheiro. Ele chegou a ter uma das maiores fortunas do mundo, com mais de 50 bilhões de euros (225 bilhões de reais). Apesar disso, vestia roupa barata, usava transporte público e ia ao supermercado com vale-desconto para economizar centavos em cada compra. Consumia laticínios no limite da data de validade porque eram mais baratos. Voou a vida inteira em classe turística e se hospedou em hotéis simples.

O empresário, morto em 2018, levou essa ânsia de economizar à sua empresa. Apesar dos grandes lucros da multinacional sueca, sua filosofia era: “Tudo o que ganhamos nós necessitamos como reserva.”

Arte de MARIANO

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O líder e eu (e ninguém no meio), por RICARDO DE QUEROL

Comentário TI---em tempos de redes (a)sociais, onde pululam as fofocas antes restritas à vizinhança próxima, os engôdos conseguem fôros de verdade. E a maioria confunde intoxicação com INFORMAÇÃO.....Onde chegaremos??? Eis uma questão a procura de resposta.
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O mesmo fenômeno que acaba com as lojas, os cinemas e as agências de viagem afeta a política – e nos leva ao cesarismo e à frivolidade

ROBERTA VÁZQUEZ

Um dos tantos fenômenos imparáveis trazidos pela revolução digital se chama desintermediação. É o que nos leva a reservar voos e hotéis sem passar por uma agência de viagens, e a ter conta corrente sem pisar numa agência bancária. 
É o que permite que marcas vendam roupas na Internet sem precisar de loja alguma, e que a Netflix produza cinema sem projetá-lo em salas de cinema. 
A desintermediação poupa custos e incomodidades a empresas e usuários, claro, mas deixa vítimas evidentes: as agências de viagem, as agências bancárias, as lojas de roupa, as salas de cinema. O cliente sempre tem razão. Nos Estados Unidos, soam os alarmas pela velocidade com que fecham os centros comerciais, que em muitos lugares são o verdadeiro centro, a praça das pequenas cidades que não têm forma de cidade, e sim de urbanizações espalhadas entre as rodovias.

Temos um consumo sem intermediários. Mas podemos ter uma democracia sem intermediários? Uma democracia em que o líder diz que só responde ante o povo, sem estruturas como os aparatos dos partidos? 
Onde o líder se comunica com seus seguidores diretamente, evitando o jornalismo profissional? O mundo digital (embora não só ele) debilitou os establishments político e midiático. É o que Steven Levitsky chama de “democratização das democracias”: antes, os partidos controlavam as candidaturas, e a informação fluía por diversos veículos. Ambas as estruturas tendiam à moderação: competiam para seduzir o cidadão comum.

Hoje, estamos fragmentados e polarizados. Emerge um novo cesarismo. Dirigentes estridentes assumem o controle de partidos velhos, forçados a seguir suas ideias inesperadas, ou criam partidos mais personalistas que os de antes. Como são eleitos nas primárias (nos países com essa regra partidária), não acham que devem nada a ninguém em seu partido, nem se sentem obrigados a integrar suas correntes. Como desprezam os meios de comunicação, não se submetem a coletivas nem a entrevistas incômodas. Em vez disso, comunicam-se pelo Twitter ou fazem circular suas mensagens (quando não notícias falsas) pelo WhatsApp.

Nas redes sociais, manda a mensagem simples (e unidirecional, claro). A política compete ali com o entretenimento, mimetizando-se com ele. Numa democracia sem intermediários, numa sociedade hiperdigitalizada, na política do espetáculo, somos cidadãos ou somos audiência? Eleitores ou followers? Um voto vale o mesmo que um like? Um meme vale o mesmo que um programa político? Existem mais vozes, mas há mais diálogo?
A ágora era uma praça de verdade, uma esplanada onde os antigos gregos se reuniam para debater os assuntos públicos da cidade. 
Ali nasceu a democracia. Que não aconteça com a ágora o que aconteceu com os centros comerciais presos entre as rodovias. Experimentamos coisas, temos que fazer isso, mas não encontramos nada melhor que a velha invenção dos gregos. E nem antes nem agora estamos a salvo dos demagogos.

ELEIÇÕES EUROPEIAS-- França castiga Macron e dá a vitória a Le Pen nas eleições europeias, indicam as primeiras projeções, por MARC BASSETS

O sucesso dos ecologistas, em terceiro lugar, e o desastre da direita tradicional são as surpresas da votação

O presidente Emmanuel Macron cumprimenta um cidadão depois de votar em Le Touquet, (Normandia) LUDOVIC MARIN AP

Os franceses castigaram Emmanuel Macron neste domingo com a primeira derrota eleitoral de sua carreira, e concederam a Marine Le Pen uma vitória que a reafirma como uma força central na França, de acordo com as primeiras projeções. O Agrupamento Nacional (RN, na sigla em francês) – a nova marca do antigo partido de extrema direita Frente Nacional – venceu as eleições europeias com um resultado entre 23 e 24% dos votos. A lista de candidatos macronistas ficou em segundo, com 22 a 22,5%. O sucesso da lista dos ecologistas, na terceira posição, e o desastre da direita tradicional de Os Republicanos são as surpresas da eleição.

O voto de punição ao governante é habitual nas eleições europeias, e a Frente Nacional já havia sido a vencedora em 2014. Mas o resultado, se as pesquisas acertam, seria um golpe para um líder como Macron, que em 2017 chegou ao poder com a promessa de transformar a Europa e que, dois anos depois, vê seus compatriotas o rejeitarem na primeira ocasião em que vão às urnas desde sua posse. Na terceira posição estaria a Europa Ecologia-Os Verdes com um porcentual em torno de 12%. O partido Os Republicanos (LR), da direita tradicional francesa, ficou com 8,5%. A esquerda populista do A França Insubmissa teria em torno de 6 e 7% e a candidatura do Partido Socialista (PS), também entre 6 e 7%.

A primeira notícia durante o dia da eleição foi a da participação, muito alta por se tratar de uma eleição europeia, que geralmente desperta pouco interesse. Várias estimativas sugeriram que a participação subiria para 54% no fechamento das seções eleitorais, às 20 horas, o maior nível desde 1984. Em 2014, foi de 44,2%. Na França, havia 34 listas de candidatos que disputavam 79 assentos.

A vitória do RN é um êxito de Le Pen, que se recuperou da derrota contra Macron nas eleições presidenciais de 2017 e deixou de lado a promessa do Frexit, a saída da França da UE. E também para seu candidato, Jordan Bardella, que expôs uma imagem de juventude e normalidade para um partido há muito tempo estigmatizado. Isso significará que o RN, que irrompeu no âmbito parlamentar nos anos 80, se consolidou como a grande força nacionalista e populista da França, e talvez o principal partido do país.

A campanha se desenvolveu como um referendo sobre a gestão de Macron nos dois primeiros anos do seu mandato de cinco. Foi também uma revanche do segundo turno das eleições presidenciais, em que Macron derrotou Le Pen. O resultado dará o tom da política francesa nos próximos meses. O RN poderia precipitar uma remodelação do Governo e até mesmo a substituição do primeiro-ministro, Édouard Philippe.

O resultado é outro passo na reconfiguração do sistema político francês. A vitória de Macron nas eleições presidenciais há dois anos foi o primeiro passo. O colapso dos partidos que dominaram o país nas últimas décadas –PS e LR, este, a última encarnação da direita de raiz gaullista– marcou aquelas eleições. 
As eleições europeias confirmam que a França está deixando para trás o esquema tradicional que contrapunha centro-esquerda e centro-direita. As forças dominantes, em 2017 e agora, são um amplo centro reformista e europeísta, e uma direita radical populista e nacionalista.

Estas são eleições especiais na França porque se realizam pelo sistema proporcional e em um único turno. Na presidencial, legislativa e local, o voto francês segue um sistema majoritário em dois turnos, o que infla a representação dos candidatos e partidos mais votados e reduz ou elimina a dos menos votados. Por isso, o RN, o partido que partia como favorito nas europeias –que já ganhou em 2014– tem apenas, por causa desse sistema, 14 prefeituras de um total de 36.000 e 6 deputados de 577. Isto porque, quando passa para o segundo turno, todos se unem contra ele.

O balanço não é bom para a esquerda, que se apresentou com uma multidão de candidatos: socialistas, ex-socialistas, ecologistas, comunistas e populistas. 
Entre Macron, que atrai a centro-direita, e Le Pen, que tenta seduzir os eleitores mais direitistas do LR, o espaço deste partido – que é o de Nicolas Sarkozy e o herdeiro da legenda de Jacques Chirac– ficou reduzido. Ainda que seja a primeira força da oposição na Assembleia Nacional e a maioria no Senado, nas europeias perde apoio em relação às presidenciais e legislativas de dois anos atrás.

As eleições europeias foram o primeiro teste de Macron nas urnas desde sua vitória nas presidenciais. Eram também a sua primeira avaliação desde o início da crise dos coletes amarelos, que por mais de seis meses vêm protestando nas ruas contra as políticas do presidente. 
Este movimento, já muito debilitado, nunca foi de massa, mas conseguiu grandes simpatias na sociedade e forçou o Governo a desembolsar mais de 15 bilhões de euros (68 bilhões de reais) em medidas sociais. Mas fracassou na hora de saltar para a política. Nenhuma lista vinculada aos coletes amarelos chegou perto de 5% dos votos, a barreira necessária para eleger deputados. No entanto, esse descontentamento ajuda a explicar o sucesso do partido de Le Pen.

Ritmo de liberação de agrotóxicos em 2019 é o maior já registrado, por Luísa Melo

Comentario ladino---o "novo" (des)governo nao diz sim as demandas dos  legisladores ineptos e corruptos. Mas sua "freguesia" recebe com juros o investimento eleitoral!!! O boi de piranha, neste afago setorial, é a Saúde popular! Começando pelo candango que asperge e a vizinhança dos campos aspergidos com esses venenos!!
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Aprovações vêm crescendo desde 2016, mas frequência aumentou neste ano, com 169 produtos liberados até meados de maio. Ativistas manifestam preocupação e governo diz que maioria dos aprovados é de produtos já usados no país.
Brasil já liberou 169 agrotóxicos em 2019 — Foto: Divulgação

Nunca foi tão rápido registar um agrotóxico no Brasil: o ritmo de liberação atual é o maior já documentado pelo Ministério da Agricultura, que divulga números desde 2005. A quantidade de pesticidas registrados vem aumentando significativamente nos últimos 4 anos. Mas, em 2019, o salto é ainda mais significativo – até 14 maio, foram aprovados 169 produtos, número que supera o total de 2015, marco da recente disparada.

Ativistas do meio ambiente e da saúde manifestam preocupação, dizendo que mais veneno está sendo "empurrado" à revelia para a população.

Por outro lado, governo e indústria argumentam que o número de registros aumentou porque o sistema ficou mais eficiente, sem perder o rigor de avaliação, que a quantidade de substâncias novas aprovadas é mínima e que os químicos são seguros se forem usados corretamente.

"São produtos 'genéricos', cujas moléculas principais já estão à venda, que vão trazer diminuição de preço, para que os produtores possam ter viabilidade nos seus plantios", disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, no fim de abril.

"Não se tem nenhuma insegurança na liberação desses produtos, que estavam lá numa fila enorme e que eram represados por problemas ideológicos", completou a ministra, na abertura de uma feira em Uberaba, Minas Gerais.

No último dia 21, foi anunciada a liberação de mais 31 agrotóxicos, totalizando 169. Na conta não entram 28 registros publicados no "Diário Oficial da União" em janeiro, mas que tinham sido concedidos no fim de 2018.

Mesmo assim, a quantidade aprovada neste ano, até 14 de maio, é 14% superior à do mesmo período no ano passado. E é maior do que a registrada em todo o ano de 2015, quando o crescimento começou a disparar. Ativistas estão preocupados.

"A população já deixou bem claro que não quer agrotóxicos e isso está sendo empurrado goela abaixo. Neste governo, o agrotóxico tem espaço garantido. É uma escolha política que gera mudanças nas instituições", diz Marina Lacôrte, especialista em agricultura e alimentação do Greenpeace.

Quantidade de agrotóxicos liberados no Brasil desde 2005 — Foto: Diana Yukari

Pouca novidade, alta toxicidade
Dos 169 agrotóxicos registrados neste ano, nenhum é inédito. Mais da metade (52%) são cópias de princípios ativos aprovados anteriormente.

Outros 15% são produtos finais e 28% são seus "genéricos". A minoria (5%) são produtos biológicos, à base de organismos vivos, como fungos e bactérias – alguns deles podem ser usados até em orgânicos.

Desse total, no entanto, 48% são classificados como alta ou extremamente tóxicos, conforme levantamento do Greenpeace.

Ainda segundo o Greenpeace, 25% dos produtos aprovados pelo governo neste ano não são permitidos na União Europeia. "O que a gente está vendo é que o Brasil acabou virando um depósito de agrotóxicos que são proibidos lá fora", diz Marina Lacôrte.

Renato Alencar Porto, diretor da Anvisa, rebate a afirmação. "É verdade que tem produtos que estão proibidos em outros lugares do mundo e que não estão aqui? É verdade. Mas existem critérios que não têm nada a ver com risco toxicológico. Qual é a dificuldade de você proibir um agrotóxico em um país onde você não usa ele, por exemplo? Nenhuma."

De todos os aprovados no ano, 8 são moléculas ou misturas de glifosato, herbicida associado a um tipo de câncer em processos milionários nos Estados Unidos e alvo de polêmica também no Brasil.

A última molécula inédita registrada no país foi o sulfoxaflor, em 2018. Mas ainda não foram permitidos produtos formulados à base dessa substância – já há pedidos em andamento, mas eles aguardam sinal verde do Ibama. O sulfoxaflor é relacionado à redução de enxames de abelhas em estudos no exterior.

Por que o registro está mais rápido?
A maior velocidade na liberação de pesticidas nos últimos 3 anos, segundo o Ministério da Agricultura, se deve a "medidas desburocratizantes" adotadas nos órgãos que avaliam os produtos, em especial na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), considerada o principal gargalo.

Como é feito: É preciso o aval de 3 órgãos:
Anvisa, que avalia os riscos à saúde;
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), que analisa os perigos ambientais;
Ministério da Agricultura, que vê se ele é eficaz para matar pragas e doenças no campo. É a pasta que formaliza o registro, desde que o produto tenha sido aprovado por todos os órgãos.

Tipos de registros de agrotóxicos:
Produto técnico: princípio ativo novo; não comercializado, vai na composição de produtos que serão vendidos.
Produto técnico equivalente: "cópias" de princípios ativos inéditos, que podem ser feitas quando caem as patentes e vão ser usadas na formulação de produtos comerciais. É comum as empresas registrarem um mesmo princípio ativo várias vezes, para poder fabricar venenos específicos para plantações diferentes, por exemplo;
Produto formulado: é o produto final, aquilo que chega para o agricultor;
Produto formulado equivalente: produto final "genérico".

Para acelerar as avaliações, a Anvisa deslocou servidores de outras áreas para o setor de agrotóxicos e passou a setorizar os pedidos, o que, segundo a própria agência, trouxe mais eficiência. O diretor Renato Porto, no entanto, afirma que os critérios de avaliação continuam os mesmos desde 1999 e que a segurança sanitária está "absolutamente garantida".

Recentemente, o Ministério da Agricultura passou usar uma ferramenta de trabalho remoto pela qual os funcionários são dispensados de bater ponto, mas têm que cumprir metas 20% maiores.

Mas a principal mudança ocorreu nos últimos anos: o reforço de 4 químicos originalmente lotados na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), justamente para fazer a análise de equivalência das cópias de substâncias.

Mais do mesmo?
O predomínio desses agrotóxicos "genéricos" entre os que foram registrados nos últimos anos não aumenta o risco toxicológico, dizem governo e indústria.

"Estamos falando de produtos que nós já avaliamos a molécula e estamos colocando mais dele no mercado. Numa comparação com medicamentos, seriam os genéricos e similares", diz Porto, da Anvisa."Claro que não é tão igual assim, porque pode haver algumas misturas (...) Muda a fórmula final, não muda o ingrediente ativo."

Mas profissionais da saúde e ativistas do meio ambiente entendem que mesmo as misturas de substâncias já usadas, na prática, podem ser consideradas novos produtos porque reagem de forma diferente.
Para Leticia Lotufo, professora de farmacologia da Universidade de São Paulo (USP), é preciso avaliar caso a caso. "A toxicidade da mistura não necessariamente pode ser prevista pela dos componentes individuais", afirma.
Além disso, segundo ela, a formulação muda o comportamento do princípio ativo no ambiente. "O composto pode se tornar mais recalcitrante [permanece por mais tempo no meio ambiente], por exemplo", explica Leticia. A Anvisa afirma que as análises respeitam um teto de toxicidade.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que junto com o Greenpeace e outras instituições forma o coletivo Chega de Agrotóxicos, faz um outro alerta. Segundo a médica da entidade, Ada Aguiar, as pesquisas no país só avaliam os efeitos de cada veneno isolado na saúde humana, mas o que acontece na vida real é o contato simultâneo com vários produtos.
"Desconheço no Brasil estudos que avaliam a exposição múltipla, e estamos consumindo produtos que vêm banhados em uma calda tóxica", afirma.

Um estudo feito pela Universidade do Ceará entre 2007 e 2011 com mais de 500 trabalhadores rurais comprovou que 97% deles estavam expostos a de 4 a 30 agrotóxicos. "Isso é muito preocupante porque estamos tendo um 'boom' de doenças crônicas", pondera Ada.

Ambientalistas x Embrapa e indústria
Entidades em defesa do meio ambiente temem ainda que a liberação de produtos, mesmo que de substâncias previamente autorizadas, resulte em um uso mais intenso pelos agricultores, já que os preços tendem a cair, como citou a ministra Tereza Cristina.

O Brasil consumiu em 2017 (dados mais recentes) cerca de 539,9 mil toneladas de agrotóxicos, à base de 329 princípios ativos, de acordo com o Ibama.

Isso representou US$ 8,8 bilhões (cerca de R$ 35 bilhões no câmbio atual), segundo a associação das fabricantes, a Andef.

"O produtor não vai usar mais porque está mais barato. Os insumos, entre eles os agrotóxicos, estão entre os maiores custos para o produtor, todo mundo quer é reduzir o uso", afirma Marcelo Morandi, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.

"O que vai acontecer, eventualmente, é a substituição de produtos. A competição é salutar, tem que existir, mas agrega valor até um determinado ponto. Em produtos que já têm grande disposição no mercado, 4 novas marcas não vão alterar muito a competição de preços", diz Mario Von Zuben, diretor executivo da Andef.

'Pacote do veneno'
Apesar de comemorar a celeridade nas liberações, a indústria reclama que as reproduções de produtos já permitidos estão sendo priorizadas em detrimento de novos, que podem ser menos tóxicos que os antigos.

A lista de agrotóxicos aguardando liberação no Brasil tem hoje cerca de 1.000 pedidos. Entre eles, 33 são moléculas inéditas.
"Isso [o aumento da velocidade] é louvável, existia um represamento de registros que ficaram parados por muito tempo e foi dada vazão pelas administrações atuais. Mas o ponto que nos incomoda com essas aprovações de genéricos é o fato de que as novas moléculas estão ficando para trás", diz Von Zuben, da Andef.
Segundo a Anvisa, 97% das petições para produtos formulados equivalentes (genéricos de misturas já aprovadas) são atendidas sem nenhuma exigência técnica. "A indústria não erra para pedir esse produto, porque ele é simplesmente uma cópia", diz Renato Porto, diretor da agência.

Desenvolver um princípio ativo inédito para agrotóxico leva de 10 a 11 anos e custa em torno de US$ 286 milhões, segundo a Andef.

Liberar o uso dessas substâncias novas demora de 6 a 8 anos no Brasil, tempo que a indústria e representantes do agronegócio querem reduzir para 2, com garantia legal. Essa é uma das demandas do projeto de lei 6.670/2016, que ficou conhecido como "pacote do veneno".

A ministra Tereza Cristina, então deputada pelo DEM-MS, foi a presidente da comissão especial que aprovou o projeto na Câmara dos Deputados, antes de ele seguir para a votação no plenário da casa, que ainda não tem data definida.

Para o Greenpeace, a aceleração do ritmo de aprovações é, de certa forma, uma maneira colocar o PL em prática sem mudar a lei.
"O que a gente vê é exatamente o pacote do veneno que saiu da pauta legislativa e está sendo colocado em prática pelo novo governo. A estratégia é a mesma: colocar mais veneno no dia a dia das pessoas. A diferença é que antes havia uma discussão, agora está sendo empurrado à revelia mesmo", diz Marina Lacôrte.

De 2002 a 2019, a Anvisa barrou o registro de 15% dos princípios ativos novos enviados para análise e de 11% dos produtos finais inéditos.

Periodicamente, o órgão revisa a segurança de substâncias que já estão no mercado. Desde 2006, 16 foram reavaliadas, das quais 12 foram proibidas e 4 mantidas, sendo 3 com restrições.

Apesar de a ministra Tereza Cristina ter citado problemas ideológicos que atrasaram a liberação de agrotóxicos no passado, Renato Porto, da Anvisa, nega pressão por parte do governo para acelerar os trabalhos.

"Nunca tive nenhuma pressão para tratar de nenhum agrotóxico. O que eu vi é: a Anvisa precisa ser mais eficiente, e é verdade", afirma. "Parece que ninguém nunca cobrou essa eficiência do agrotóxico e agora está sendo cobrado também. Existe uma percepção pública hoje de que o agrotóxico precisa estar à disposição do agricultor, só que ele precisa ser controlado."

"A gente não está surpresa. Nem Bolsonaro nem Tereza Cristina estão lá à toa, eles tiveram forte apoio da bancada ruralista", diz Marina Lacôrte, do Greenpeace.

domingo, 26 de maio de 2019

Eleições europeias entram no último dia de votações; saiba o que está em jogo, nas folhas

Comentário militante--Um voto é um voto. Pode mudar tudo ou não.....Votar é saudável! Votei na esquerda, onde com certeza poderei, um dia, reencontrar a alegria de outros tempos. Ela acordara, um dia. 
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Partidos nacionalistas devem ganhar mais força no Parlamento Europeu. Entenda como funciona a votação.

Eleitores votam em Sopot, na Polônia, neste domingo (26) — Foto: REUTERS/Kacper Pempel

Eleitores de 21 dos 28 países da União Europeia redesenham neste domingo (26) a configuração do Parlamento Europeu. Os outros sete integrantes já votaram – entre eles, o Reino Unido, que está de saída do bloco. A divulgação dos resultados parciais está programada para ainda esta noite.
Eleitor vota na Letônia nas eleições para o Parlamento Europeu — Foto: Ints Kalnins/Reuters

Nas eleições europeias, cada país tem direito a eleger um número de parlamentares definido proporcionalmente pelos tamanhos das populações.

Veja abaixo como funciona:
Eleições europeias - infográfico — Foto: Betta Jaworski
'Retome o controle de nossas leis monetárias e acordos de fronteira', diz cartaz fixado em janela de Altrinchan, no Reino Unido. Manifestantes pró-Brexit pedem saída da União Europeia sem acordo — Foto: Phil Noble/Reuters

São as primeiras eleições europeias desde o referendo sobre o Brexit em 2016. Porém, mesmo que os britânicos tenham decidido dar as costas à União Europeia, o Reino Unido foi obrigado a participar do pleito deste ano quando decidiu adiar a saída do bloco para, no máximo, outubro – antes, o prazo estava marcado para março.

As pesquisas indicavam que o Partido da Independência (Ukip, na sigla em inglês) conquistaria a maior parte das cadeiras britânicas do Parlamento Europeu. Trata-se justamente da legenda que liderou a campanha a favor do Brexit, com discurso duro contra as atuais políticas migratórias e financeiras do bloco.

Segundo o "The Guardian", o resultado, se confirmado, representará uma dura derrota ao tradicional Partido Conservador, às voltas com o processo de retirada da União Europeia. O cenário de indefinição derrubou a primeira-ministra Theresa May do cargo e irritou os eleitores favoráveis ao Brexit, que devem, então, migrar o voto para o Ukip.

Entre 'eurocéticos' e ambientalistas
Marine Le Pen, do partido nacionalista Reunião Nacional, pede votos contra a coalizão de Emmanuel Macron nas eleições europeias — Foto: Philippe Huguen/AFP

O movimento cético quanto ao papel atual da União Europeia deve levar grande número de assentos em países considerados chave para o bloco, como a França. Ainda que o movimento dos "coletes amarelos" tenha se enfraquecido, a coalizão de Emmanuel Macron deve eleger menos deputados do que o partido nacionalista Reunião Nacional.

Os partidos chamados "eurocéticos" – na maioria das vezes conservadores – tendem a questionar a atuação do bloco em relação à imigração, legal ou ilegal. Tais grupos também pedem menor ingerência das instituições europeias nas questões nacionais. Alguns ainda defendem que seus países deixem a União Europeia, assim como fez o Reino Unido.
Manifestantes pedem 'um planeta limpo' durante protesto ambientalista em Berlim, na Alemanha, na sexta-feira (24) — Foto: Markus Schreiber/AP Photo

Do lado dos pró-europeus, a pauta ambiental ganhou força nestas eleições. Na Irlanda, onde as urnas já fecharam, as projeções indicam mais cadeiras para o Partido Verde no Parlamento Europeu.

Além disso, protestos na sexta-feira no continente cobraram das autoridades maior atenção às mudanças climáticas. Os partidos pró-União Europeia e os ambientalistas acreditam ser papel do bloco estabelecer normas para diminuir a emissão de poluentes.
Quais são os grupos de partidos?

Plenário do Parlamento Europeu — Foto: Reuters/Vincent Kessler

Trata-se de uma eleição internacional: além dos interesses em comum da União Europeia, os eleitores votam de acordo com as pautas de seus respectivos países. Por isso, partidos e políticos de linha programática semelhante se aliam em grupos dentro do Parlamento Europeu. Conheça os oito maiores:

EPP – Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos)
A aliança reúne os mais tradicionais partidos de orientação liberal-conservadora da Europa, como o CDU da chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Pró-União Europeia, o grupo deve manter a liderança no número de cadeiras no Parlamento Europeu – mas deve sofrer derrotas e encolher em relação à legislatura anterior.

S&D – Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu
Segunda maior força do Parlamento Europeu, a coalizão integra os maiores partidos de orientação social-democrata dos países da Europa. Legendas como o PSOE, da Espanha, e o Partido Trabalhista, do Reino Unido, fazem parte do grupo.

ALDE – Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa
Integra os partidos e políticos liberais europeus favoráveis à União Europeia. O República Em Marcha, de Emmanuel Macron, é um deles, assim como o Ciudadanos, nova força eleitoral da Espanha. Deve se manter como a terceira força parlamentar.

ECR – Conservadores e Reformistas Europeus
É o maior e menos radical dos grupos considerados "eurocéticos". Abriga o Partido Conservador britânico, o mesmo de Theresa May, enquanto também integra siglas nacionalistas como o Lei e Justiça, da Polônia, e o Partido dos Finlandeses.

ENF – Europa das Nações e da Liberdade
O grupo alia dois dos maiores partidos nacionalistas e conservadores da Europa: o Reunião Nacional, da França, e o Liga, do ministro do Interior italiano, Matteo Salvini. Projeções indicam que a aliança chegará perto de dobrar o número de cadeiras e se tornar uma nova força do Parlamento Europeu.

EFDD – Europa da Liberdade e da Democracia Direta
É o mais cético em relação à União Europeia entre as alianças nacionalistas. O estatuto do grupo se posiciona contra o Euro como moeda única e advoga por formas de democracia direta paralelas ao bloco. O Ukip, conhecido como o partido do Brexit, está nesta aliança.

Greens/EFA – Verdes/Aliança Livre Europeia
Aliança entre os partidos e políticos ambientalistas e liberais da União Europeia. Tem chances de ganhar novas cadeiras com as recentes manifestações contra as mudanças climáticas.

GUE/NGL – Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde
Além dos partidos comunistas da França e de Portugal, a aliança tem o Syriza, sigla esquerdista majoritária na Grécia. Apesar de manter posições bastante céticas quanto ao sucesso da União Europeia, os partidários se colocam como oposição dos nacionalistas.
Composição do Parlamento Europeu — Foto: Infografia: Diana Yukari

Qual o papel do Parlamento Europeu?
O Parlamento é a única instituição da União Europeia eleita pelo voto e funciona em conjunto com outros órgãos do bloco. As leis, por exemplo, passam pelo Conselho Europeu e pela Comissão Europeia antes de chegarem aos parlamentares em Estrasburgo, na França.

Além do poder de codecisão – ou seja, vetar ou propor emendas a uma lei – o Parlamento Europeu é responsável por determinar o orçamento e supervisionar as instituições europeias. Os parlamentares também determinam os chefes das outras entidades do bloco.