terça-feira, 30 de abril de 2019

“É preciso dizer mais ‘conte-me’, ‘perdoe-me’ e ‘te amo’”, por LUZ SÁNCHEZ-MELLADO

O veterano psiquiatra Luis Rojas Marcos revela que fala muito sozinho e recomenda que seu exemplo seja seguido em nome da lucidez

O psiquiatra Luis Rojas Marcos B.P.

São sete horas de uma noite fria de primavera. Este senhor que aparenta ter uma década menos de seus 75 anos passou o dia todo falando sobre seu livro e, com a desculpa de que esta é sua última entrevista e me vê chegar perturbada, me arrasta para o bar do hotel Palace em Madri para me convidar para um café e, de passagem, tomar um “cuba-libre como se deve” como prêmio pelo fim da jornada. 
Serve-o, solícito, seu garçom, um profissional que, a base de atendê-lo em suas quatro ou cinco visitas anuais à Espanha vindo de Nova York, onde vive há meio século, tornou-se um amigo. Barman e psiquiatra. Difícil encontrar dois ofícios em que se escute mais ao outro. Estou com sorte.

Pergunta. Se “somos como falamos”, como é o senhor, doutor?
Resposta. Falador. Falo muito comigo mesmo, às vezes em voz alta, às vezes em voz baixa, mas isso ajuda a me administrar, a me encorajar, a me estabelecer limites. Falar comigo mesmo é fundamental no meu dia a dia. Todos nós deveríamos falar mais sozinhos.

P. Isso não era coisa de loucos?
R. Esse é o problema. Foi estigmatizado. As crianças, desde os 2 ou 3 anos, falam consigo mesmas, se encorajam, se aconchegam, se consolam. Depois isso nos dá vergonha, porque a pessoa que fala sozinha é identificada com o doente que ouve vozes. Nós nos reprimimos e é um grande erro. Assim como nos ensinam a falar e a pedir as coisas "por favor", deveriam nos ensinar a falarmos com nós mesmos.

P. Hoje se vê muita gente falando sozinha, mas no celular.
R. Se estão falando com alguém, tudo bem. A coisa ruim da tecnologia é quando ela interfere na sua capacidade de falar consigo mesmo, ou de conversar com os outros, ou de ter relações reais: é um problema muito sério.

P. As Ilhas Canárias tornarão obrigatória a educação emocional nas escolas. O que pensa da ideia?
R. Uma maravilha. Colocar palavras no que você sente. Falar. Se você tem vontade de chorar, saber que isso se chama ficar triste. Se você sente vontade de insultar alguém, é estar com raiva. É uma educação muito útil para a vida e para a saúde das crianças, que mais tarde serão adultos.

P. Vão tirar seu trabalho.
R. Você acertou. Mas não fazer isso seria anti-humano. Essa seria uma boa causa, procurar outro trabalho, com a satisfação de ter podido ajudar o grupo.

P. Ou seja, “charlatão” para o senhor não é nenhum insulto.
R. Se te dizem isso como um insulto, terão de explicar, porque, em geral, as pessoas tagarelas têm muita sorte em serem assim.

P. Por quê?
R. As pessoas extrovertidas, que falam mais, que se conectam com os outros, estão mais satisfeitas com sua vida em geral. A razão é simples: ao se conectar com os outros, temos relações afetivas, nos ajudamos, compartilhamos e nos apoiamos em situações difíceis, e também nos queixamos e pedimos ajuda se precisamos...

P. As mulheres falam mais ou é uma farpa dos homens?
R. A maioria dos estudos mostra que as mulheres falam em média 15.000 palavras mais que os homens. Porque elas têm a parte do cérebro que controla a linguagem mais desenvolvida. E porque os pais falam mais com as filhas do que com os filhos, especialmente sobre questões emocionais. Estou convencido de que as mulheres vivem mais porque falam mais. E as espanholas, ainda mais.

P. Mas nos dizem que caladas somos mais bonitas. Quando é preciso morder a língua?
R. Quando vamos cometer um deslize. Quando sabemos que o que diremos vai criar um conflito ou ferir alguém, é melhor se calar.

P. Vale a pena insultar?
R. Não. O insulto ataca a autoestima, a identidade e o valor da pessoa. Não acrescenta nada. As palavras não são levadas pelo vento.

P. O senhor escuta tristezas há meio século. São sempre as mesmas?
R. O que acontece conosco, o que escuto em consulta é basicamente o mesmo. Medo, tristeza, angústia ou necessidade de que nos orientem em um momento da vida.

P. E temos remédio?
R. Muitos, para começar, falar, contar o que acontece conosco. Falar é fundamental para entender o que acontece conosco e pedir ajuda.

P. Que palavras estão em sua caixa de primeiros socorros?
R. Para mim, a palavra mais importante, profissional e pessoalmente, é “conte-me”, mas, para isso, você precisa estar disposto a escutar, e isso nem sempre acontece. Outra é “perdoe-me”: pedir perdão é fundamental, porque sem perdão não há futuro na vida.

P. E se você não perdoar?
R. Você adoece. O perdão é fundamental para sobreviver. Para se reinventar. A vítima perpétua é uma pessoa muito limitada por sua ferida aberta. O luto não pode se eternizar. Passar mais de três anos como vítima não é saudável. Te fecha no papel de traumatizado. Evita abrir outro capítulo de sua vida com expectativa, esperança e criatividade.

P. A dor atinge todos nós?
R. Sem exceção. Perdas, traumas, divórcios. Segundo os epidemiologistas, cada pessoa tem duas adversidades graves na vida. Algumas têm quatro; outras, uma. Mas os momentos ruins chegam a todos nós.

P. Na questão das palavras mágicas, o senhor se esqueceu do “te amo”.
R. Dizer “te amo” é fantástico, especialmente se for verdade e você tiver alguém para dizer isso. Nós dizemos isso, mas dizemos por dentro. E é bom verbalizá-lo. Mas não somente ao outro, mas a nós mesmos. Dizer a você: “olha, Luis, eu te amo muito” é muito útil, sei que isso não nos é ensinado quando crianças, mas eu recomendo.
P. Ou seja, o senhor ama a si mesmo.
R. Sim. Muito, aliás. Obrigado.

MEIO SÉCULO DE ESCUTA
Luis Rojas Marcos (Sevilha, 75 anos), ganhou notoriedade mundial como chefe de Saúde Mental de Nova York durante os ataques de 11 de setembro. Agora, aquele que escuta o próximo faz meio século, apresenta um livro defendendo o valor terapêutico de falar aos outros e a si mesmo. E dá o exemplo.

Medo, o protagonista psicopolítico das eleições espanholas, por Esther Solano Gallego, socióloga, professora da Unifesp

Com uma participação histórica de eleitores, muitos espanhóis votaram apavorados pelo VOX ou com medo de uma aliança de esquerda

Pedro Sánchez na sede do PSOE. ULY MARTIN

A noite na Espanha foi de ataque cardíaco. A Espanha pentapartidária é uma realidade política tão nova que faz de qualquer previsão um ato suicida. Foram as eleições da polarização, foram as eleições das guerras culturais, foram as eleições dos indecisos, mas também as da ida maciça às urnas. Uma participação histórica. Quase 76% dos espanhóis votaram, nove pontos a mais que nas eleições de 2016. Em algumas regiões do país, como a Catalunha, o aumento tem sido impressionante, 18 pontos a mais que em 2016. Muitos foram às urnas apavorados pelo VOX e outros com medo de uma aliança de esquerda. O medo foi o protagonista psicopolítico nesta eleição, mas o “voto contra” favoreceu à esquerda. Ainda falta um longo caminho para garantir a governabilidade na Espanha que exigirá alianças entre diversos partidos de esquerda, incluindo provavelmente os nacionalistas, para conseguir uma base com 176 deputados, mas um bloco progressista parece garantido.

Cinco partidos. Cinco candidatos. Partido Socialista Obrero Español, (PSOE), Partido Popular (PP), Ciudadanos, Podemos, VOX. Cinco homens. Pedro Sánchez (PSOE), Pablo Casado (PP), Albert Rivera (Ciudadanos), Pablo Iglesias (Podemos), Santiago Abascal (VOX) A coalizão de Podemos, num simbolismo feminista, adotou o nome de Unidas-Podemos, mas na hora das urnas, continuava apostando no masculino. Dos cinco, Pedro Sanchez foi o ganhador indiscutível da noite. Com seu slogan “La Espanha que quieres”, dez meses depois da moção de censura de Mariano Rajoy (PP), a esquerda tradicional socialista ganhou as eleições com 122 deputados. Em 2016, tinha 85. Uma vitória conclusiva.

Se a grande ganhadora da noite foi a esquerda tradicional, a direita tradicional foi a grande perdedora. O PP almejava repetir a aliança que se deu em Andaluzia com o triunvirato Partido Popular, Ciudadanos e VOX. Não vai ser possível. O PP obtém 65 deputados. Tinha 137 em 2016. O partido acostumado a governar a Espanha perdeu a metade de seus representantes no Congresso. Em paralelo, a extrema direita do VOX consegue 24 deputados, bom resultado para um partido que se apresenta pela primeira vez em eleições nacionais, mas longe das expectativas de conseguir os 60-65 deputados que as melhores previsões lhes davam. O certo é que Pablo Casado (PP) assumiu uma postura mais à direita que seu predecessor, o ex-presidente Mariano Rajoy. Ele queria “refundar ideologicamente o PP”, pela direita, claro. Algo que os partidos de direita tradicional não parecem aprender é que a estratégia que muitos deles adotam de radicalizar seu discurso e abandonar as posturas socialdemocratas só acaba favorecendo os novos partidos de extrema direita. Muitos cidadãos preferem votar na extrema direta raíz do que na extrema direita Nutella. Os tucanos que o digam. O PP se mantém ainda como o principal referente da direita, mas em doença terminal. É a já conhecida autodestruição da direita por querer se parecer à extrema direita.

Muitos hoje respiramos aliviado porque depois de Trump, do Brexit, de Salvini, de Bolsonaro, estávamos assustados com um possível resultado grandioso do VOX.
Parece que os espanhóis aprenderam com as lições internacionais e este resultado não se deu, mas o VOX está nas instituições. Com menos deputados do que o esperado, sim, mas a extrema direita já está no parlamento espanhol. E eles vão com todo seu arsenal pronto. Algo também essencial, o VOX capturou muitos dos votos dos eleitores frustrados, desencantados, os que ficavam em casa e hoje saíram dos sofás para votar. Como o próprio Santiago Abascal (VOX) falava nos seus comícios, muitos espanhóis silenciados ganharam voz. “Inicia-se a reconquista”, disse Abascal em sua primeira coletiva de imprensa depois de conhecer os resultados aos gritos de “viva Espanha” e bandeiras nacionais. De fato, a extrema direita politiza e empodera um setor da população que recupera a vontade das urnas motivada por discursos dos outsiders, do anticomunismo, contra a ideologia de gênero, o marxismo cultural, a ditadura progressista, a doutrinação, politicamente correto, mas também motivada por discursos de Estado mínimo. Sim, assustadoramente parecido à retórica bolsonarista.

Dos três grupos da fragmentada direita, Ciudadanos, fundado em 2006, é quem obtém um melhor resultado, 57 deputados (eram 32 em 2016). Ciudadanos representa uma nova direita neoliberal mais sofisticada, progressista no âmbito dos costumes, cosmopolita, com candidatos jovens e bem capacitados. E essa direita, que também representa o perigo do neoliberalismo, mas não o do discurso do ódio, conseguiu parar um maior avanço da extrema direita. Fora do campo da esquerda, para parar a extrema direita neoliberal bestializada, uma direita inteligente é fundamental.

A nova política está presente muito mais à direita do que à esquerda. O Podemos se desidrata como possível opção hegemônica na esquerda. O partido que alguns analistas, no êxtase posterior ao 15M definiram como o “renascimento da esquerda” fica com 42 deputados. Perde 29 representantes comparado ao ano 2016 e o PSOE ganha 37 em respeito ao mesmo ano. Parece claro que os votantes socialistas que migraram ao Podemos voltam a suas raízes. PSOE era o voto útil da esquerda e do centro contra VOX e um PP radicalizado.

Dois muros pararam um grande avanço do discurso da extrema direita na Espanha: uma centro esquerda forte e uma direita renovada não medíocre que não caiu na sedução da política do ódio.

Uso excessivo de medicamentos pode causar até 10 milhões de mortes por ano até 2050, por Lara Pinheiro

Comentario resistencia--os Formandos em Medicina, aprendem a colaborar com os Laboratorios e tornam-se seus "vendedores". Recompensados com viagens exoticas (organizadas como Congressos..) onde ambos comungam da mesma doutrina. O remédio é OTIMO. 
Nada a ver com a RESISTENCIA IMUNOLOGICA do corpo humano, a MAQUINA mais perfeita jamais produzida!!! Isso nao interessa à "industria da doença". 
E assim vai-se deteriorando um organismo perfeito. O qual, por vezes, precisa de uma ajudinha--aspirina, vacinas, etc...---nao agressivas e sem efeitos COLATERAIS. Dos quais, na posologia habitual, do conluio acima, o PRINCIPAL efeito é destruir as resistencias e reaçoes NATURAIS do corpo humano. Assim tornando-o DEPENDENTE do "médico vendedor" e dos "remédios"!!! 
Parceria ladravaz, anti-social, com algumas e honrosas exceçoes, sempre individuais.
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Utilização incorreta de antimicrobianos, inclusive na criação de gado e na agricultura, pode levar a uma crise financeira na saúde de até US$ 1 trilhão.

Relatório alerta para doenças resistentes aos medicamentos antimicrobianos

Relatório de entidades ligadas à ONU publicado nesta segunda-feira (29) alerta que o uso excessivo de medicamentos pode levar a 10 milhões de mortes por ano até 2050. As entidades apontam problemas ligados aos remédios antimicrobianos, entre os quais estão antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiprotozoários.

O uso excessivo deles em humanos, em animais e em plantas está fazendo com que as doenças que seriam por eles tratadas fiquem mais resistentes e causem mais danos. Mas como essa resistência ocorre, em primeiro lugar?


A cada vez que uma pessoa toma um antibiótico, por exemplo, as bactérias podem desenvolver formas de resistência a sua fórmula. Quanto mais a pessoa toma antibióticos, maiores as chances de a resistência se desenvolver e levar a uma versão mais grave da doença, às vezes não tratável.

As infecções resistentes a remédios já causam, pelo menos, 700 mil mortes todo ano, de acordo com o relatório desta segunda (29). Dessas, 230 mil são por causa da tuberculose multirresistente.
O uso excessivo de antibióticos também leva a versões resistentes de doenças, como, por exemplo, a tuberculose. — Foto: Pixabay

No Brasil, entre 40 e 60% das doenças infecciosas já são resistentes a medicamentos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ano passado, a OMS já havia alertado para um aumento no número de casos, no mundo, de tuberculoses resistentes a medicamentos.
Segundo um relatório do Banco Mundial publicado em 2016, o prejuízo econômico nos sistemas de saúde causado pela resistência dos micróbios a medicamentos pode ser comparável ao da crise financeira de 2008, com impactos globais de até um 1 trilhão de dólares (cerca de R$ 3,9 trilhões) até 2050.

Ao mesmo tempo, o mundo poderia perder até 3,8% do seu PIB até 2050 se não forem adotadas medidas para prevenir as doenças resistentes a medicamentos.

Prejuízos na exportação de carne
O uso excessivo de antibióticos também pode prejudicar a exportação de carne bovina do Brasil. — Foto: Unsplash

Entre 2000 e 2010, o consumo dos antimicrobianos aumentou 36% em 71 países. O Brasil, a Rússia, a Índia, a África do Sul e a China responderam por 75% desse crescimento, segundo estudo publicado na revista "The Lancet".
Caso nada seja feito para impedir a proliferação de doenças resistentes a medicamentos, o agronegócio brasileiro também pode ficar ameaçado. Em 2018, o Brasil lucrou 6,57 bilhões de dólares (cerca de R$ 25,8 bilhões), 7,9% a mais do que no ano anterior, com a exportação de carne bovina. O país é o maior exportador do mundo.

Apesar disso, o Brasil deu um passo importante em 2016 ao banir o uso de colistina, um dos antibióticos mais importantes, para consumo animal. Ainda assim, o meio mais eficiente de reduzir a necessidade de medicamentos é evitar a proliferação de infecções entre os animais. "Isso pode ser feito com melhor higienização em fazendas e com a expansão de vacinação para vacas e outros animais."

No ano passado, o país lançou um plano para combater e controlar a resistência aos antimicrobianos, envolvendo vários setores do governo, que deve ser implementado até 2022.

Como resolver?
O relatório desta segunda (29) também apresenta cinco recomendações para abordar o uso de antibióticos e combater o desenvolvimento de doenças resistentes a eles:

Acelerar o progresso em países, inclusive para assegurar o acesso a vacinas. Os governos devem parar de usar os antimicrobianos para promover crescimento do gado.
Inovar para garantir o futuro, envolvendo doadores, públicos e privados, para aumentar a inovação em vacinas, diagnósticos e alternativas ao uso de microbianos, seja na saúde humana, animal ou vegetal, assim como em alternativas de descarte de lixo e saneamento básico.
Colaborar para uma ação mais efetiva, com o envolvimento da sociedade civil e do setor privado para lidar com a resistência aos antimicrobianos;
Investir para uma resposta sustentável, com o aumento de financiamento de iniciativas que lidem com a resistência antimicrobiana. Elas devem ter maior prioridade, também, nos orçamentos domésticos dos países;
Reforçar a governança global e a responsabilidade internacional. O Secretário-Geral da ONU deve fornecer relatórios sobre a resistência antimicrobiana a países, recomendando medidas para adaptação e mitigação dos efeitos. Também recomenda a criação de um grupo global em saúde sobre resistência antimicrobiana.

Arte de MARIANO

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Temer vira réu pelo Decreto dos Portos, por Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

© Alex Silva

Após ser solto, ex-presidente Michel Temer chega a São Paulo na noite desta segunda-feira
A Justiça Federal de Brasília aceitou a denúncia que a força-tarefa Greenfield ratificou contra o ex-presidente Michel Temer (MDB) no caso do Decreto dos Portos. O emedebista havia sido acusado formalmente pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em dezembro, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito do inquérito dos Portos, que apura se houve favorecimento a empresas do setor portuário na edição de um decreto de 2017. A decisão foi tomada pelo juiz federal Marcus Vinícius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal.
Também estão no banco dos réus o ex-assessor da Presidência, Rodrigo Rocha Loures, os empresários Antonio Celso Grecco e Ricardo Conrado Mesquita, e o amigo do ex-presidente João Baptista Lima Filho, o Coronel Lima.

Temer agora é réu em cinco ações penais. O ex-presidente responde a processos perante a Justiça Federal em Brasília (2), em São Paulo (1) e no Rio (2).
A denúncia sobre o Decreto dos Portos foi a segunda acusação da Procuradoria-Geral da República ratificada pela Greenfield. No dia 10 de abril, o Ministério Público Federal, em Brasília, ratificou as acusações do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contra o ex-presidente.

A denúncia de Janot foi dividida em duas. Uma sobre crimes de organização criminosa - caso conhecido como 'Quadrilhão do MDB' - e outra sobre embaraço à investigação - episódio em que o emedebista foi gravado pelo empresário Joesley Batista, no Palácio do Jaburu, e que ficou conhecido pela frase 'tem que manter isso, viu?'.

Além de Temer, também haviam sido denunciados no caso do Decreto dos Portos João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, amigo pessoal do ex-presidente, Carlos Alberto Costa, sócio de Lima, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures e os empresários Antônio Grecco e Ricardo Mesquita, ambos da Rodrimar.

O documento em que a força-tarefa da Greenfield ratificou a acusação foi protocolado perante a 12ª Vara Federal, em Brasília. A Procuradoria requereu à Justiça que a denúncia fosse recebida.

"O Ministério Público Federal ratifica todos os termos da denúncia apresentada em desfavor de Michel Miguel Elias Temer Lulia, Antônio Celso Grecco, Carlos Alberto Costa, João Baptista Lima Filho, Ricardo Conrado Mesquita e Rodrigo Santos da Rocha Loures nos exatos termos expostos na peça acusatória apresentada pela Procuradoria-Geral da República", afirmaram os procuradores Anna Carolina Resende Maia, Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, Cláudio Drewes José de Siqueira, Rodrigo Telles de Souza e Sara Moreira de Souza Leite.

O Ministério Público Federal solicitou ainda 'o compartilhamento e aproveitamento das provas aqui produzidas em prol de todos os inquéritos policiais, civis, procedimentos investigatórios, ações penais e de improbidade e outros procedimentos das Operações Sépsis, 'Cui Bono?' e Patmos, bem como procedimentos correlatos ou que se relacionem aos fatos aqui narrados, que venham a demandar o uso das provas compartilhada'.

Os procuradores pediram também 'compartilhamento e aproveitamento das provas aqui produzidas (e a serem produzidas no bojo da ação penal) em proveito das seguintes instituições: Departamento da Polícia Federal (DPF), Tribunal de Contas da União (TCU), Controladoria-Geral da União (CGU), Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e Secretaria da Receita Federal do Brasil, além de outros órgãos do Ministério Público Federal e da Polícia Federal que também venham a demandar o uso das provas compartilhadas, para instaurarem procedimentos próprios e que mantenham conexão aos fatos relatados'.

Entenda a denúncia contra Temer
A acusação apontou que Michel Temer recebeu vantagens indevidas 'há mais de 20 anos' e a 'edição do Decreto dos Portos (Decreto n.º 9.048/2017) é o ato de ofício mais recente identificado, na sequência de tratativas ilícitas que perduram há décadas'.

"As investigações revelaram que as tratativas entre Michel Temer e os executivos do Grupo Rodrimar não eram pontuais nem recentes. Havia já uma relação de confiança, própria da prática sistêmica de esquemas sofisticados de corrupção, resultando daí que a função pública estava sempre à disposição, sendo que os delitos se renovavam ao longo do tempo a cada contato (promessa de vantagem, com a correlata aceitação: sinalagma delituoso)", informou a denúncia.

De acordo com a acusação, a investigação comprovou que Temer, o coronel reformado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho e Carlos Alberto Costa (que foi sócio do coronel), 'atuando de modo concertado e em unidade de desígnios desde 31/8/2016 até o momento, ocultaram valores de pelo menos R$ 32 milhões provenientes diretamente de crimes contra a administração pública praticados por membros de organização criminosa por meio de empresas de fachada'.

"Michel Temer está no epicentro deste sistema criminoso, porque é o agente político com poderio suficiente para obter benefícios para os empresários do setor portuário", informou a denúncia.

Segundo a acusação, as empresas Argeplan, Eliland e PDA Projetos, todas em nome do coronel Lima, eram de fachada, destinadas a receber propina endereçada a Temer.

"Os elementos de prova colhidos indicam que a estrutura da Argeplan serve para os sócios João Baptista Lima Filho e Carlos Alberto Costa captar recursos ilícitos, inclusive do nicho econômico do setor portuário, destinados a Michel Temer", diz.

As empresas, sustentou a Procuradoria-Geral da República, 'estão vinculadas, diretamente, ao próprio Michel Temer' e são utilizadas para 'recebimento de vantagem indevida e também para operacionalizar atividades no interesse da família' do emedebista.

"Assim, ao movimentar recursos financeiros por interpostas pessoas jurídicas, administradas também por terceiros que figuram como testas de ferro, empresas recebedoras de valores da ordem de R$ 32 milhões, segundo provado nas investigações, restam caracterizados atos de ocultação e dissimulação da origem, localização, movimentação e propriedade de bens", apontou a denúncia.
As investigações contra Temer

Além da denúncia dos Portos, Temer é réu em quatro ações penais. A Lava Jato Rio acusa o ex-presidente em dois processos: um por corrupção e lavagem de dinheiro e outro por peculato e lavagem de dinheiro.

O Ministério Público Federal afirma que Michel Temer foi um dos beneficiários de desvios nas obras da usina nuclear de Angra 3, no Rio, por meio da contratação irregular de empresas.

O emedebista teria participado da contratação fictícia da empresa Alumi Publicidades, como forma de dissimular repasse de propina.

Durante a investigação, o ex-presidente chegou a ser preso. Temer ficou custodiado durante 4 dias na Superintendência da Polícia Federal no Rio e foi solto por ordem do desembargador Ivan Athié, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2).

Na Justiça Federal em Brasília, Temer é acusado no caso da mala dos R$ 500 mil. Segundo a denúncia, o ex-presidente recebeu o valor da J&F, 'em razão de sua função', por meio de seu ex-assessor e ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala.

O ex-presidente responde ainda a uma ação perante a Justiça Federal em São Paulo pelo crime de lavagem de dinheiro na reforma da casa de sua filha Maristela Temer, em São Paulo. A acusação alcança, além de Temer e de sua filha, o coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, e sua mulher Maria Rita Fratezi.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA EDUARDO CARNELÓS, QUE DEFENDE MICHEL TEMER
Trata-se de mais uma acusação absurda, sem amparo na prova dos autos. Ao contrário: a Rodrimar, que teria sido beneficiada pelo Decreto dos Portos, não o foi! E isso, repita-se, está provado no inquérito. Infelizmente, ainda será necessário tempo para pôr fim aos danos causados a Temer pelas acusações infundadas que tiveram início numa negociata efetuada com confessos criminosos. Mas dia chegará em que a mentira não produzirá mais notícia, a não ser a de que ela foi desmascarada.     Eduardo Carnelós

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O que as fantasias sexuais dizem sobre nossa sociedade (e sobre nós mesmos), por AROLA POCH

A maioria das pessoas reconhece ter pensamentos eróticos que às vezes desafiam os valores aprendidos

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“Às vezes imagino que sou uma garçonete sem calcinha. Toda vez que me inclino para servir um cliente, alguém me ataca por trás. Como esse trabalho é meu único meio de vida, não tenho escolha.”

Quem assim fala é Sadie, uma das mulheres que relataram suas fantasias a Nancy Friday, a escritora norte-americana que em 1973 publicou o livro Meu Jardim Secreto, no qual compilava a imaginação erótica de mulheres. O livro, que se tornou um clássico, serviu para normalizar a existência de fantasias eróticas na população feminina, o que não era necessário nos homens, uma vez que seu desejo sexual nunca foi questionado.

As fantasias eróticas nos fascinam porque são imagens íntimas do que nos excita e que, na aparência, pulam o filtro do socialmente correto. A possibilidade de obter uma descrição de como os homens e as mulheres são no erotismo os tornou objeto de estudo frequente.

Segundo o artigo Fantasias e Pensamentos Sexuais: Revisão Conceitual e Relação com a Saúde Sexual, de Nieves Moyano e Juan Carlos Sierra, pesquisadores da Universidade de Granada, sabemos que "a maioria das pessoas admite que inclui fantasias em sua atividade sexual", durante a masturbação ou quando sonham acordadas".

Os estudos e artigos que descrevem fantasias nos mostram uma imensa diversidade. Enquanto as imagens eróticas de Sadie estavam relacionadas a ser objeto sexual, neste artigo da seção Icon encontramos muitos outros exemplos. Silvia, uma funcionária de 30 anos, disse que a ideia de se envolver com seu psicanalista a deixava excitada: "É algo que Woody Allen faz muitas vezes em seus filmes e eu também em minhas fantasias". Cada um segue seu desejo.

Mas dentro dessa variedade existem algumas coincidências. Em muitas culturas, "os homens indicam significativamente uma frequência maior de pensamentos e fantasias sexuais, em comparação com as mulheres", afirmam Moyano e Sierra. As fantasias dos homens, em comparação com as das mulheres, incluem mais variedade de práticas e mais encontros de sexo em grupos e com estranhos. Nas delas há mais presença de temas íntimos e românticos, com menor número de casais. Fantasias de submissão tendem a ser mais frequentes em mulheres.

Essas diferenças de gênero nos levam a pensar que existe uma relação entre o que é social e culturalmente esperado de homens e mulheres em seu papel sexual e o que eles fantasiam. Além disso, o artigo de Moyano e Sierra especifica que "o conteúdo das fantasias sexuais costuma ser compatível com as normas e papéis que geralmente são reforçados". Ou seja, socialmente é mais bem visto que um homem se mostre predisposto para a atividade sexual do que uma mulher, e isso se reflete nas fantasias.

Às vezes, nosso imaginário sexual recebe pensamentos que, para nós mesmos, são inaceitáveis, irritantes e desagradáveis porque provocam conflitos com os valores aprendidos. "Por que você me traz isso?", nos perguntamos surpresos. Essas fantasias que avaliamos como negativas são muitas vezes aquelas de sexo com desconhecidos e as que se incluem atos sexuais com violência, dominação e submissão, como exposto em Exploring the Frequency, Diversity and Content of University Students' Positive and Negative Sexual Cognitions (Explorando a frequência, a diversidade e o conteúdo das cognições sexuais positivas e negativas de estudantes universitários), das pesquisadoras C.A. Renaud e E. Sandra Byers, da Universidade de New Brunswick (Canadá). Embora sejam negativos, seu conteúdo sexual nos excita.
SVEN HAGOLANI GETTY IMAGES

O estudo de Renaud e Byers também nos apresenta alguns dados surpreendentes. Os homens classificam com mais frequência seus pensamentos de dominação como negativos e os de submissão como positivos, enquanto as mulheres experimentam pensamentos de dominação como positivos e os de submissão como negativos. Isso pode sugerir uma certa rejeição, nos dois casos, dos papéis tradicionais.

As fantasias sexuais, portanto, nos falam sobre a sociedade em que vivemos, mas também de nossa personalidade. As pessoas mais extrovertidas, curiosas e interessadas em experimentar coisas novas são aquelas que avaliam mais positivamente as fantasias. E as mais emocionalmente inseguras, que se preocupam excessivamente ou tendem a se sentir culpadas, tendem a avaliá-las mais como negativas.

Em Fantasías Sexuales, o psicólogo Enrique Barra enfoca o assunto de uma perspectiva cognitiva. Por exemplo, ele afirma que as fantasias eróticas são parte de um processo de aprendizagem de estímulo-resposta. Isto é, a presença de fantasias provoca excitação e essa reação reforça que consideramos esta imagem excitante. Quanto mais vezes essa relação ocorrer, a fantasia adquirirá propriedades excitantes ainda mais intensas. O prazer é um grande reforço.

Outros princípios de aprendizagem, como a primazia, também funcionam nas fantasias. Por exemplo, alguém pode ter tido sua primeira experiência de excitação sexual intensa ao ler uma história sobre sexo grupal. Esse estímulo, sendo o primeiro que o excitou, pode adquirir um valor erótico particular.
As fantasias melhoram nossa vida sexual

Fantasias são consideradas um indicador da nossa vida sexual. Para começar, quem é o objeto do desejo no imaginário erótico é um dos indicadores para definir a orientação sexual. Isso não significa que imaginar uma prática erótica com uma pessoa do mesmo sexo converta automaticamente quem a tem em homossexual ou bissexual. A orientação sexual não é uma questão do que fazemos (ou imaginamos fazer), mas sim de por quem nos apaixonamos e por quem nos sentimos atraídos.

Por outro lado, uma maior frequência de pensamentos sexuais positivos está relacionada com maior desejo sexual, melhor funcionamento e maior satisfação, embora a existência de fantasias negativas não esteja necessariamente relacionada a um pior ajuste sexual, segundo o estudo Positive and Negative Sexual Cognitions: Subjective Experience and Relationships to Sexual Adjustment (Cognições sexuais positivas e negativas: Experiência subjetiva e relacionamentos para o ajustamento sexual), de Renaud e Byers.

Já a ausência ou redução de fantasias eróticas de modo persistente é considerado um critério, entre outros, para diagnosticar se uma pessoa tem um transtorno por pequeno desejo sexual, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Um baixo desejo ou interesse sexual pode se tornar um distúrbio quando causa desconforto à própria pessoa e não tem uma causa significativa ou relação com medicação.

E, depois das fantasias, surge a questão de colocá-las em prática ou não. "Se isso é algo que me excita, faço?", pensam alguns. Nancy Friday dá a resposta em Meu Jardim Secreto, quando diz que só a pessoa "sabe se levar a sua fantasia à prática enriquecerá ou não sua vida, mas nada garante que o que teve êxito no nível da imaginação também terá na realidade. É uma jogada de pôquer. Algumas mulheres me confessaram que só fato de contar seus desejos secretos –sem nem sequer pensar em vivê-los– destruía sua veracidade”.

A Saga dos afetos ou allons enfants de la Patrie...by Mario Perez

Eram duas crianças. Nascidas e criadas no campo. Em tempos de inocência e respeitos vários. 
Com projetos de Vida diferentes em busca do sucesso, como soe acontecer em gente comum. Olhavam o mundo a conquistar e com a vontade de tal. 
Cresceram a ouvir passarinhos, o sino da igreja e a ralhação gentil e carinhosa dos mais velhos. Apreenderam com estes o respeito do ser humano. No exemplo diário.
Aprenderam as primeiras letras e descobriram o mundo das palavras. (Ainda não sabiam que estas eram usadas para vestir mentiras como se verdades fossem). Isso fariam depois...inclusive na sua pratica....
Na sua inocência seguiram acreditando no que viam e aprisionando suas almas à vivencia e conselhos ministrados.
EssaiPhilosophie1951O livro dêle.
A estrutura  ou núcleo provedor era a própria e sempiterna FAMÍLIA, da qual RARISSIMAMENTE se pode "escapar". Sendo que, em todos os casos, SEMPRE se "herda" algo desagradável oriundo desses anos de completa inocência e confiança.
Nela ha as premissas das condutas futuras, com disputas de espaço, mental e físico, junto aos mentores (pai e mãe e familiares ou próximos) que, na maioria dos casos, sem darem-se conta, ditavam o essencial do futuro comportamento social de seus rebentos. 

Assim como "construíam" a estrutura mental de seus raciocínios. Que adaptados ao gosto e atavismos de seus depositários finais, determinariam o seu proprio sucesso ou insucesso, no percurso da Vida que se iniciava.
Assim formaram seus caracteres individuais básicos. Nestes inseridos os CONCEITO e PRINCÍPIOS que norteariam, mutatis mutandi, suas escolhas e açoes durante a Vida porvir. 
As vicissitudes familiares os transportaram para a "cidade grande" onde descobririam as diferenças entre o "antes e o depois", entre a percepção e a pratica, nas vivencias do dia-a-dia, dentro de um mesmo âmbito social (pobreza material) em outro limite geográfico, para um e dentro desses mesmos limites geográficos para outro.
A medida que o tempo corria (como sempre faz, sem cansar-se) constatavam as diversas e iniciais diferenças de comportamento social dos outros, em derredor.
Diferenças que mais tarde poderiam cotejar para, em síntese, adotar, rejeitar ou, confusos, estacarem. Dessas sínteses repetidas, apos cada evento/situação ou problema, sairiam os seus CONCEITOS E PARÂMETROS, corrigidos, adaptados ou os anteriores reforçados pelas circunstancias e conclusões advindas. 
Nem sempre positivas. Adaptação, por vezes dolorosa, entre sonho e realidade...  

Muitos e variados tropeções --bons e maus--no percurso, lhes ensinariam a constituir suas personalidades definitivas e sua visão dos outros, da sociedade e a conduta mais apropriada a seguir, dentro e conforme os parâmetros consignados ao longo dos primeiros anos e adaptados a cada evento  posterior significativo. 
A sociedade lhes exigiria esforço, físico e mental, para aceita-los/incorporá-los. Determinados membros desta poderiam ou não trata-los com respeito e carinho, ou aproveitarem-se de suas fragilidades. Para tudo isso era e foi preciso encontrarem respostas e atitudes condizentes com sua própria visão e formação. 
Algumas vezes com extrema dificuldade, pois, ao aceitar determinadas situações e incorporar o correspondente comportamento, contrariavam sua anterior percepção entre o bem e o mal.
Assim foram seguindo, cada um seu caminho, para um dia encontrarem-se, naquela loteria da Vida e do Amor. Este sempre idealizado, procurado e, raramente, encontrado.
Muitos anos depois desse curtíssimo período feliz e do amalgama das influencias varias , familiares, adolescentes e laborais, por decisão no sorteio da Vida e da sorte que os acompanhava desde o berço, essas crianças, numa manha de sol radioso, num Jardim Tropical (de Burle Marx) onde os Deuses ,(sempre galhofeiros, no divertirem-se com os humanos, pelas bobagens destes), seus protetores, decidiram que deviam encontrar-se. 
Assim foi e ainda hoje seria. Se....como os "se" complicam a Vida!
Continuemos. Ele lia um jornal que falava do "Cara de Cavalo", contemporaneo de Mineirinho e Buck Jones. Ele havia sido criado no Morro onde este vivia escondido...Ela questionou e ouviu.
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Cara de Cavalo era seu apelido, pelo nariz adunco. Mulato sarara, tronco de estivador, ( a estiva e o Sindicato (Arrumadores) eram controlados por "bordoegas e galegos), e Cara de Cavalo era chapa ou ficha (substituía um titular da estiva e recebia dois terços do pagamento. Era assim , ou morrer de fome.
Revoltado, um dia resolveu dar azo a sua revolta.  Cometeu crimes menores, até que matou alguém por acerto de contas. Tornou-se assim a "bola da vez", no jogo armadilhado patrocinado por agentes da Lei sem escrúpulos, em busca de promoção por notoriedade, fácil e barata. 
A cobertura do jornal "O Dia" pelos artigos de jornalistas tao sensacionalistas quanto inescrupulosos, dentre os quais Waldo(miro) Teixeira, (hoje um baluarte da podre Câmara de Representantes do Povo), transformou-o da "noite pro dia", em duas edições daquele pasquim sangrento, no Inimigo Publico Numero 1. 
Foi assassinado pelos "valentes" da Lei, nos arredores da Central do Brasil, quando nem arma levava, mas uma marmita!
Lhe seguiriam, com o mesmo script e destino, Mineirinho (José Miranda Rosa, que tanto gostava de demonstrar aos moleques do Morro da Providência sua habilidade com sua pistola prateada Colt .45) morto na antiga rua  d' América, atras da Central e desovado longe. 
Ainda Buck Jones, a quem o detetive Perpétuo quis prender antes que fôsse morto--Perpetuo era respeitado e subia o Morro quando queria---mas acabou ele mesmo sendo trucidado "por engano" pelos "colegas" a quem impedia de praticar desatinos acobertados pela função, para vangloriarem-se e valorizarem-se, em vistas de promoção e respeito interno a Policia. Matador é respeitado..... e pobres de espirito também entram para a Policia, né?!
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A conversa fluiu e o fato dela haver passado alguns meses em Paris, também contribuiu. Convidou-o para o lançamento de seu livro sobre apaches parisienses...êle disse que sim. Mas curiosamente, esqueceu-se. 
O acaso (os deuses?) voltou a funcionar. 
Ambos avançados na idade biológica, de mentes abertas, com filhos criados e traumas inerentes a cada passado. Traumas encardidos, mal resolvidos, de ambos e em variados matizes..... 
Encontraram-se na noite de autógrafos, mixuruca mas alegre, ele deu-lhe um presente que ela não esperava........nem êle!
Jean Gabin--Maintenant je SAIS!

Ai começou aquilo que, meses e meses mais tarde, uns chamariam de grande amor, mas que ainda não se sabia o que era.  
Ele, bem vivido e "prisioneiro", de suas repetidas e falhadas tentativas de convivência honesta, real e leal. Na busca de uma lealdade e perfeição raras, sem mentiras nem engôdos. Exigindo muito e pouco oferecendo, em conforto de convivência.
Ela pensando em apartar-se de membros toxicos na família ("pesada" intelectualmente) remetendo-se a situação de destaque, no estrangeiro e realizar-se profissionalmente idem. 
Mas, diante das frustradas tentativas de aproximar-se de uma filha (esta em busca de espaço proprio e aconselhando-a a "cortar o cordão umbilical" com a avo...), acrescida de mais uma rejeição, em concurso publico, para docente federal. 
Na cidade grande manteve o apego ao seu lado mistico e idealizou o sonho sentimental de retornar ao estrangeiro em agradável e solida companhia. Para isso, fez as concessões que lhe eram mais convenientes e preenchiam curiosidades passadas, embora traumáticas.
Calculou mal a necessária força de vontade (coragem) para tal "virada".

E assim, ambos, havendo passado da inocência ao cinismo social, enganaram-se durante alguns meses, sem real e verdadeira entrega sentimental, alimentando a ilusão com selfies, fotos e imagens via redes sociais,  em rejeição latente e omnipresente, cada qual temeroso de ceder seu "espaço" e comprometer sua "liberdade". O medo impede de ser LIVRE e AMAR.
Nada disso existia, fora de suas cabeças, pretensamente intelectuais, mas sim povoadas por mêdos irracionais e conceitos irreais.
Mas, por esperteza e curiosidade de ambos, o "jogo" foi continuado e entremeado de prazeres mais palpáveis e imediatos. Desfrutaram-se.
Projetaram uma grande viagem conjunta--esta deveria selar em definitivo, o pedido, (aceite com alegria real mas expectativa exagerada, viu-se), num SESC qualquer.
Desentenderam-se, como era habito, no roçar de egos.
Ele impôs seu habitual dirigismo e ela lhe opôs a habitual resistência passiva feminista, "velha" de dois mil anos.....
Ele não soube negociar, nem contemporizar, mas percebeu a distancia aumentar, entre eles. E a rejeição latente, quase palpável, permanecia, mas, a curiosidade impôs-se. 
E foram seguindo o tortuoso caminho de dois seres com baixa auto-estima e as arrogâncias disfarçadas em altruísmos. A vêr no que dava......test-drive sem conteúdo, engôdo permanente apoiados em conjunção física, sempre agradável.
Aconteceu, materialmente, tudo como previsto--êle organizou, ela concordou--ambos contribuíram com igualdade (êle sub-repticiamente, diminuiu a contribuição dela).
Claro, frustrou-se ela nas suas GRANDES expectativas, e êle, sabedor por antecipação de que nada sobraria desse encontro de dois egos plenos de traumas e idiossincrasias enrustidas e mal resolvidas, nao teve a habilidade de engana-la com atitudes falsas (para êle) e palavras mansas (uma mentirinha pode ser agradável, dizia ela...) de suposta submissão teriam, talvez, prolongado uma novela mexicana que a cada dia perdia expectadores....
Ele escolheu, por cansaço e frustração, incentiva-la à ruptura. Com algumas "frases assassinas" da qual sempre teve o segredo, em momentos cruciais escolhidos.
Ela reagiu como esperado (êle logo a seguir  ARREPENDEU-SE), mas ela já havia iniciado a "retirada", por mero orgulho ferido com o descaso,  anunciando a terceiros suas intençoes. Forma de erigir um "muro" entre o passado e o presente.......
Sem avisa-lo claramente e apegando-se as diferenças  e atos, palavras, deselegantes, cotejando-as com suas altas exigências estéticas, permanentes.
Amparou-se na Mamãe, que ficou muito feliz em te-la de volta. 
E pediu opinião à filha que é mais "madura", racional, e melhor resolvida na vida. Esta confortou-a na ruptura e seguiu seu destino, longe da Mae!! Ele nada representava para ela (filha).

Ele agiu com a soberba habitual nestas situações e piorou tudo, por desleixo, que pareceu desrespeito.
Hoje, findos os debates (sem acusações idiotas), ambos andam sonâmbulos, embora pretendam demonstrar uma falsa convicção de SEGURANÇA, pelas decisões recentes. 
Percebem que fizeram bobagens e que, de qualquer forma ha que seguir adiante, apagando pouco a pouco aquilo que poderia ter sido, para ambos, a REDENÇÃO SENTIMENTAL procurada e almejada.

Mas os deuses não querem intrometer-se mais, diante de tanta idiotice praticada, preferem deixa-los frente a si proprios. Quem, por idiotice militante, permanecerão surdos a suas próprias e profundas  convicções conciliadoras e unitárias. 
Conclusão--Havera sempre alguém melhor e mais inteligente, em tudo, do que nos mesmos. Pode-se passar uma Vida sem encontrar seu Mestre. Ele encontrou o seu, foi uma Mestra. Ela foi impaciente? Esteticista exigente?Mistica agressiva?Traumatizada em anteriores relacionamentos e mal resolvida? Tanto quanto êle!!!! Deviam haver-se compreendido........
Riem os deuses de suas infantis brincadeiras. 
Outras crianças ha que incentivar, pensarão, estas mais e realmente, INTELIGENTES. 
FIM (sem correçoes nem palpites)

Arte de LAFA

sábado, 27 de abril de 2019

Supremo amplia subsídio à Zona Franca de Manaus , nas folhas

Incentivo tributário vai para indústrias que compram componentes da Zona Franca. Decisão provoca rombo nas contas públicas de R$ 16 bilhões por ano.

O Supremo Tribunal Federal validou um incentivo tributário para indústrias que compram componentes da Zona Franca de Manaus. Adecisão vai provocar um rombo nas contas públicas, de R$ 16 bilhões por ano.

As indústrias instaladas na Zona Franca de Manaus recebem tratamento especial: não pagam vários impostos, entre eles, o de importação, exportação e sobre produtos industrializados, o IPI. Conseguem, assim, ser mais competitivas, vendendo produtos mais baratos.

Por seis votos a quatro, o Supremo Tribunal Federal decidiu que as indústrias que comprarem componentes, como peças para veículos, para eletroeletrônico, das indústrias da Zona Franca de Manaus terão direito de usar o valor do IPI como crédito tributário — como se o imposto tivesse sido pago. O argumento dos ministros que votaram contra o recurso do governo federal e a favor da Zona Franca de Manaus é que a medida vai funcionar como um estímulo para diminuir a desigualdade no desenvolvimento do país.

Na prática, o governo federal, além de isentar o pagamento do IPI dos componentes produzidos na Zona Franca de Manaus, ainda dará crédito tributário para quem comprar esses produtos.

Vamos considerar um IPI hipotético de 10% sobre um componente para um aparelho celular que custa R$ 1 mil. O IPI seria de R$ 100. Mas como a indústria da Zona Franca de Manaus está isenta desse imposto, o governo não arrecada esse dinheiro. Aí, essa indústria da Zona Franca vende o componente por R$ 1 mil para uma empresa de fora que, além de não pagar o IPI, ganha um crédito no mesmo valor, de R$ 100. Esse crédito pode ser usado para abater no pagamento de outros impostos federais, como o imposto de renda. Ou seja, o governo federal deixou de recolher o dinheiro do IPI e ainda deu crédito sobre o mesmo componente -- numa renúncia fiscal total de R$ 200.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional calcula que R$ 16 bilhões vão deixar de entrar nos cofres do governo federal por ano. O valor é mais do orçamento do Bolsa Família deste ano.

O superintendente da Zona Franca de Manaus comemorou a decisão que, segundo ele, fortalece o modelo econômico da região.

“Ela garante, para o investidor que está no nosso polo industrial, a segurança para novos investimentos; e também garante a atração de novos investidores para nossa região, que é isso que nós desejamos, a fim de que nós possamos gerar emprego e renda”, disse Alfredo Meneses, superintendente da Suframa.

Vander Lucas, professor de economia da Universidade de Brasília, critica a medida: considera uma duplicidade de benefício, com prejuízo para a União.

“A Zona Franca já é um programa de incentivo fiscal, ou seja, a empresa que está lá instalada deixa de recolher esse IPI. Então, qualquer empresa que adquire esse bem já está se beneficiando de um preço mais baixo. Agora, você dar esse crédito para essa empresa é como se você desse um segundo benefício, de uma maneira que você está onerando o governo federal”, explicou.

O Ministério da Economia afirmou que ainda está avaliando o impacto da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a Zona Franca de Manaus e que não vai se pronunciar sobre o assunto neste momento.

Arte de J.BOSCO

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Lula: “O inimigo central do Bolsonaro, além do PT, é o seu vice-presidente”---ENTREVISTA | LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Em entrevista ao EL PAÍS e à 'Folha de S. Paulo' o ex-presidente diz que o Brasil está governado por “um bando de malucos” e que quem dita as regras de verdade é o ministro Paulo Guedes

O ex-presidente Lula fala pela primeira à imprensa, em entrevista exclusiva nesta sexta-feira, na sede da PF em Curitiba. ISABELLA LANAVE

ENTREVISTADORES--FLORESTAN FERNANDES JUNIOR & CARLA JIMÉNEZ

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril de 2018 em Curitiba, quebra o silêncio pela primeira vez com autorização da Justiça nesta sexta-feira em uma entrevista exclusiva ao EL PAÍS e ao jornal Folha de S.Paulo. Está disposto a falar. E fala muito. Enérgico, mexe as mãos, faz piadas, metáforas, ironias, e aproveita suas duas horas de publicidade para devolver ferroadas. “Imagina se os milicianos do Bolsonaro fossem amigos da minha família”. Após ver que o Superior Tribunal de Justiça reduziu sua pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, Lula acredita que pode ser absolvido. Mas diz não temer morrer na prisão.

Três agentes policiais armados acompanham a entrevista. Um deles é Jorge Chastalo Filho. De vez em quando ele olha para Lula e segue o que o ex-presidente fala. Parece prestar atenção. Logo volta seu olhar para os demais integrantes da sala: os jornalistas, advogados de Lula e Franklin Martins, ex-ministro da Secretaria de Comunicação dos governos Lula. Chastalo é o agente que mais tem contato com o ex-presidente enquanto ele está em sua “sala”, onde lê o conteúdo dos pen drives que ganha das visitas que recebe semanalmente. Esta semana foi a vez do sociólogo italiano Domenico Demasi.

Pergunta. A prisão do senhor foi um dia histórico. O que passou pela cabeça quando estava sendo preso e conduzido?
Resposta. Durante todo o processo, sempre tive certeza de que tinha um objetivo central, que ia chegar em mim. Isso foi ficando patente em todos os depoimentos, vocês estão lembrados que a imprensa retratava: prenderam fulano, vai chegar no Lula. Prenderam sicrano, vai chegar no Lula: “você conhece o Lula, você é amigo do Lula, você fez alguma coisa… todo mundo.” Eu sabia disso porque a imprensa retratava, as pessoas contavam. Sabia disso porque advogado conversava com advogado. Foi ficando patético que o objetivo era chegar em mim. Tinha companheiros no PT que não gostavam quando eu dizia isso: eles vão chegar em mim e depois vão caminhar para criminalizar o PT. Quando ficou claro o objetivo central, muita gente achava que eu deveria sair do Brasil, que eu deveria ir para uma embaixada, que eu deveria fugir. Tomei como decisão que meu lugar é aqui. Eu tenho tanta obsessão de desmascarar o [Sergio] Moro, em desmascarar o [Deltan] Dallagnol e a sua turma e aqueles que me condenaram, que eu ficarei preso cem anos, mas eu não trocarei a minha dignidade pela minha liberdade. Eu quero provar a farsa montada. Eu quero provar. Montada aqui dentro, no departamento de Justiça dos Estados Unidos com depoimento de procuradores com filme gravado e agora mais agravado com a criação da Fundação Criança Esperança do Dallagnol, pegando 2,5 bilhões de reais da Petrobras para criar uma fundação para ele. Fora 6,8 bilhões da Odebrecht e fora não sei quantas outras coisas. Eu tenho uma obsessão, você sabe que eu não tenho ódio, não guardo mágoa, porque na minha idade quando a gente fica com ódio a gente morre antes. Como eu quero viver até os 120 anos, porque acho que sou um ser humano que nasceu para ir até os 120, eu vou trabalhar muito para mostrar a minha inocência e a farsa que foi montada. Por isso eu vim pra cá com muita tranquilidade.

Havia uma briga no sindicato aquele dia entre os que queriam que eu viesse e os que não queriam. E eu tomei a decisão. Eu falei: eu vou, eu vou lá. Eu não vou esperar que eles venham até mim, eu vou até eles, porque eu quero ficar preso perto do Moro. O Moro saiu daqui. Mas eu quero ficar perto porque eu tenho que provar minha inocência.

P. Pode ser que o senhor fique aqui para sempre. Mesmo assim, acha que tomou a decisão correta?
R. Tomaria outra vez.

P. Já pensou que pode ficar aqui para sempre?
R. Não tem problema. Eu tenho certeza que eu durmo todo dia com a minha consciência tranquila. Tenho certeza que o Dallagnol não dorme e que o Moro não dorme. E aqueles juízes do TRF-4 que nem leram a sentença. Fizeram um acordo lá, era melhor que um só tivesse lido e falado 'todo mundo aqui vota igual'. Então eu quero, sinceramente. Quem tem 73 anos de idade, quem construiu a vida que eu construí neste país, quem estabeleceu as relações que eu estabeleci, quem fez o Governo que eu fiz neste país, quem recuperou o orgulho e autoestima do povo brasileiro como eu, não vou me entregar. Eles sabem que tem aqui um pernambucano teimoso. Eu digo sempre, quem nasceu em Pernambuco e não morreu de fome até os cinco anos de idade não se curva mais a nada. Você pensa que eu não gostaria de estar em casa? Eu adoraria estar em casa com a minha mulher, com meus filhos, netos, com meus companheiros. Mas não faço nenhuma questão, porque eu quero sair daqui com a cabeça erguida como eu entrei. Inocente. E eu só posso fazer isso se eu tiver coragem e lutar por isso.

P. Recentemente, o ministro [da Economia] Paulo Guedes disse que o senhor não cometeu nenhum crime, que não roubou. O ministro do Bolsonaro admitiu isso. Depois, o [ministro do Supremo] Marco Aurélio de Mello disse, recentemente, que não vê indícios de crime no triplex do Guarujá. E o Maurício Dieter, um dos maiores criminalistas, disse que não há crime material. O senhor acredita que com a devolução do dinheiro que foi pago pela sua esposa por esse triplex [decisão da Justiça desta quinta], o senhor pode tentar conseguir sua absolvição? Acredita nisso?
R. Por incrível que pareça, eu acredito. E continuo com a cabeça de ‘Lulinha paz e amor’. Acredito na construção de um mundo melhor, num mundo de Justiça. Haverá um dia em que as pessoas que irão me julgar estarão preocupados com os autos do processo, com as provas contidas no processo e não com a manchete do Jornal Nacional, com as capas das revistas, não com as mentiras do fake news. As pessoas se comportarão como juízes supremos de uma Corte, que é a única coisa que a gente não pode recorrer. E que já tomou decisão muito importante. Essa Corte votou, por exemplo, célula-tronco, contra boa parte da Igreja Católica. Votou a questão da reserva Raposa Serra do Sol contra os poderosos do arroz no Estado de Roraima. Essa mesma Corte votou união civil contra todo o preconceito evangélico, cotas para que os negros pudessem entrar [na universidade]. Ela já demonstrou que teve coragem e se comportou. No meu caso, a única coisa que eu quero é que vote com relação aos autos do processo. Eu não peço favor a ninguém. Só quero, pelo amor de Deus, que as pessoas julguem em funções das provas. Eu tenho certeza, o Moro tem certeza. Se as pessoas não confessarem agora, no dia da extrema unção vão confessar. Ele tem certeza que eu sou inocente. O Dallagnol tem certeza que é mentiroso. E mentiu a meu respeito. Eu tô aqui, meu caro, para procurar justiça, pra provar a minha inocência, mas estou muito mais preocupado com o que está acontecendo com o povo brasileiro. Porque eu posso brigar, mas o povo nem sempre pode.

P. O senhor durante este um ano passou por dois momentos de muita tristeza, que foi a morte do seu irmão e depois a morte do seu neto, Arthur. O que pro senhor, depois de viver isso, o que fica da vida do senhor?
R. Esses dois momentos foram os mais graves. Eu poderia incluir a perda de um companheiro como o [ex-deputado] Sigmaringa Seixas, que foi meu companheiro de dezenas e dezenas de anos. E a morte do meu irmão Vavá. O Vavá é como se fosse um pai pra família toda. E a morte do meu neto foi uma coisa que efetivamente não, não, não… [pausa e chora]. Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Porque eu já vivi 73 anos, eu poderia morrer e deixar meu neto viver. Mas não é. Não são apenas esses momentos que deixam a gente triste, sabe? Eu sou um homem que tenta ser alegre, trabalho muito pra vencer essa questão do ódio, essa mágoa profunda. Quando vejo essa gente que me condenou na televisão, sabendo que eles são mentirosos, sabendo que eles forjaram uma história, aquela história do powerpoint do Dallagnol... nem o bisneto dele vai acreditar naquilo. Esse messianismo ignorante, sabe? Tenho muitos momentos de tristeza aqui. Mas o que me mantém vivo, e é isso que eles têm que saber, eu tenho um compromisso com esse país, eu tenho um compromisso com esse povo. Tenho obsessão com o que está acontecendo agora, [essa] obsessão de destruir a soberania nacional, de destruir empregos, de juntar um trilhão pra quê [o ministro Paulo Guedes disse que a reforma da Previdência ia economizar um trilhão de reais]? Às custas dos aposentados? Se eles lessem alguma coisa, se eles conversassem eles saberiam que esse cidadão aqui semianalfabeto, quarto ano primário, curso de torneiro mecânico, juntou trezentos e setenta bilhões de dólares de reservas [internacionais] que a 4 reais o dólar dá mais de um trilhão e duzentos sem causar nenhum prejuízo a nenhum brasileiro. Se eles querem juntar um trilhão tem uma fórmula secreta: coloque o povo no Orçamento da União. Segundo, gere emprego. Terceiro: gere crédito pra pessoas. ‘Ah , mas o povo tá devendo? Tá.’ Tire o penduricalho da dívida do povo e ele paga apenas o principal no banco e você vai perceber que as pessoas voltam a poder comprar. Um país que não gera emprego, não gera salário, não gera renda, quer pegar dos aposentados, dos velhinhos, um trilhão? O Guedes precisava criar vergonha.

P. Tem um grupo de militantes aí na porta que dizem bom dia, boa tarde e boa noite para o senhor todos os dias. O senhor escuta esse grito? Como é para o senhor?
R. Escuto todo santo dia. Quando tem atividade, que eles colocam um carro de som um pouquinho melhor, eu escuto o discurso das 9h às 21h. Eu sinceramente não sei como um dia eu vou poder agradecer essa gente. Tem gente que está aqui exatamente desde o dia que eu cheguei aqui.Serei eternamente grato. Não sei se isso já aconteceu alguma vez na história com alguém, mas eu não sei o que fazer para agradecer. Já disse para todos que certamente a polícia tem as suas regras, o meu pessoal tem as suas regras. Mas quando eu sair daqui quero sair a pé e ir lá no meio deles. A primeira cachaça eu quero tomar com eles. E brindar.

P. Seu partido perdeu a eleição no ano passado e a extrema direita chega ao poder com o voto de muitos eleitores que eram do PT. Como o senhor avalia essa guinada à direita de um eleitorado que era tão grato à sua administração?
R. Vamos relativizar tudo isso, porque uma das coisas que eu esqueci de falar, uma das condições que fez com que eu também viesse pra cá era porque não havia nenhum advogado naquele instante que não garantisse que eu disputaria as eleições sub judice. Havia uma certeza de muitos juristas de que não haveria como impedir minha candidatura, mesmo condenado eu poderia concorrer sub judice. E eu tinha certeza e estava com um orgulho muito grande de ganhar as eleições de dentro da cadeia. É importante lembrar que eu cresci 16 pontos aqui dentro [preso em Curitiba], sem poder falar. Aí quando o ministro [do Supremo Luís Roberto] Barroso fez aquela loucura, que eu tive que assinar uma carta dizendo para [o Fernando] Haddad ser o candidato, aí eu senti que nós estaríamos correndo risco, porque a transferência de votos não é algo simples, não é automática, leva tempo. Tivemos uma eleição atípica no Brasil. Vamos ser francos. O papel das fake news na campanha, a quantidade de mentira, a robotização da campanha na Internet foi uma coisa maluca. E depois a falta de sensibilidade dos setores de esquerda de não se unir. A coisa foi tão maluca que a Marina Silva, que quase foi presidenta em 2014 teve 1% dos votos. Eu nunca tinha visto o povo com tanto ódio nas ruas. Eu fui muito a estádio de futebol. Todo mundo sabe que sou corinthiano, eu ia com palmeirense, santista, são-paulino... A gente brincava, brigava. Mas agora era uma loucura, era questão de ódio. Eu tenho acompanhado, está no mundo inteiro assim. A política está efetivamente demonizada, e vai levar um tempo muito grande pra gente poder tratá-la com seriedade. 

Governo Bolsonaro
Eu não esperava que o [presidente Jair] Bolsonaro fosse resolver o problema do Brasil em quatro meses. Só propõe fazer análise de cem dias quem nunca governou, quem acha que em cem dias pode apresentar alguma coisa, ele realmente não aprendeu a sentar a bunda na cadeira. E depois, com a família que ele tem, com a loucura que tem... O inimigo central dele, além o PT, é o vice. Quer dizer, é uma loucura. Ele passa a agredir os deputados, depois tenta agradar os deputados, diz que está fazendo a nova política, e ele faz a mesma, porque ele é um velho político. O país está subordinado à ingovernabilidade. Ele até agora não sabe o que fazer, e quem dita regras é o Guedes.

P. Houve corrupção, muitas coisas foram comprovadas, que autocritica o senhor faz depois de todo esse tempo? Erros do PT, como o PT sem o senhor vai para frente?
R. Obviamente que nós reconhecemos que perdemos as eleições. Agora, é importante lembrar a força do PT. Porque, só eu pessoalmente, deram mais de 80 capas de revista contra mim. Quando fui preso tinha 80 horas de Jornal Nacional contra mim. Mais 80 horas de Record, mais 80 horas de SBT, mais 80 da Bandeirantes. E eles não conseguiram me destruir. Isso significa que o PT tem uma força muito grande. O PT não foi destruído, perdeu uma eleição. Provou que é o único partido que existe nesse país enquanto partido político. O resto é sigla, de interesses eleitorais em momentos certos. Quem acabou foi o PSDB. Esse foi dizimado. Então veja, o PT perdeu as eleições, acho que o PT deve ter cometido erros durante nossos governos, devemos ter cometido erros...

P. A parte da corrupção?
R. Veja, o Ayrton Senna cometeu um erro só e morreu... Ela [corrupção] pode ter havido, mas que se façam provas. Teve corrupção, você investiga, faz acusação, provou e está condenado. Fomos nós do PT que criamos todos os mecanismos para apurar a corrupção. Não foi nenhum adversário, fomos nós. Não foi o Moro. Foi o PT no Governo Lula e Dilma, com Marcio Thomas Bastos, Tarso Genro e José Eduardo Cardozo [ministros da Justiça petistas] que criou todos os mecanismos para garantir fortalecimento da PF com investimento em mais gente e mais inteligência, fortalecimento e independência do Ministério Público, transparência que nos criamos e eles acabaram agora. Com a transparência era possível saber o papel que a presidenta usava. Porque a gente queria transparência, e combater a corrupção é uma marca do PT. Se alguém do PT cometeu um erro, tem que pagar. O que queremos é que se apure, se investigue. Na hora que for investigado e for julgado, foi condenado...

P. Eu queria entrar no mérito do caso do sítio, a reforma foi feita e o senhor usufruiu dessa reforma, não houve um erro?
R. Eu poderia ter aceito nunca ido àquele sítio. Então eu cometi o erro de ir ao sítio. Eu disse, e está provado, que eu fiquei sabendo daquele maldito sítio no dia 15 de janeiro de 2011. E o sítio tinha dono, dono pré-dono. Jacob Bittar era meu amigo de 40 anos, ele comprou o sítio no nome do filho dele com cheque dado pela Caixa Econômica Federal, e a polícia sabe disso. A polícia investigou. Nós tivemos policiais e procuradores visitando casa de trabalhador rural, casa de pedreiro, casa de caseiro, perguntaram até para as galinhas ‘você conhece o Lula?’. ‘Você sabe se o Lula é dono?’. E nem as galinhas falaram. Porque eu não era dono. Se eu quisesse eu podia comprar. Se eu cometi o erro de ir a um sítio que alguém pediu e a OAS reformou, alguém pediu e a Odebrecht reformou, então vamos discutir a questão ética, e não de corrupção. É outra questão. Acontece que o impeachment, a cassação da Dilma e o golpe não fechariam com o Lula em liberdade. Se eu estivesse aqui preso e o salário mínimo tivesse dobrado [as pessoas poderiam falar] 'poxa, o Lula é um desgraçado, ele foi preso e o salário dobrou'. Mas não: acabaram agora com o aumento real do salário mínimo. Se eu estivesse aqui e o povo trabalhando com carteira assinada, mas não. Inventaram agora uma história de carteira verde e amarela [carteira que trará menos benefícios que o contrato CLT]. Nenhum empresário vai contratar trabalhador que não esteja com carteira verde amarela. Essa gente pensa que o povo é imbecil pra ficar mentindo o tempo inteiro para o povo.

Autocrítica
Quando você fala em autocrítica pra mim eu acho que... Eu, por exemplo, acho que tive um erro grave. Eu poderia ter feito a regulamentação dos meios de comunicação. Fizemos um Congresso em 2009, só participou a Bandeirantes e a Rede TV se não me falha a memória, sabe, nenhuma outra TV participou, muitas rádios participaram, e em junho de 2010 nós preparamos uma regulamentação dos meios de comunicação. Ao invés de dar entrada no Congresso porque iria ter eleição eu pensei ‘não, vou deixar para o novo Governo’. A razão pela qual a Dilma não entrou não sei. Então essa é uma autocrítica que eu faço. Agora pergunte o seguinte: imagina se todo mundo nesse Brasil fizesse uma autocrítica. A elite brasileira deveria estar fazendo agora uma autocritica. ‘Puxa vida, como é que a gente ganhou tanto dinheiro no Governo do Lula? Como é que o povo pobre vivia tão bem? Como é que o povo pobre estava viajando pro Piauí, pra Sergipe, pra Garanhuns, e agora nem de ônibus pode viajar?’. Vamos fazer uma autocrítica pelo que aconteceu em 2018 naquela eleição. O que não se pode é esse país estar governado por esse bando de maluco que governa o país.

P. A Odebrecht admitiu ter pago propina no Peru em troca de obtenção de contrato. A Transparência Internacional destaca que houve um ‘fordismo da corrupção’, com milhões de dólares distribuídos em vários países, e que o esquema da Odebrecht foi feito com o apoio do BNDES. Todo o esquema global contava com financiamento de campanha em países alinhados com o PT...

R. Quem está falando isso?

P. A Transparência Internacional...

R. Com base no quê?

P. Eles levantaram esses dados...[no acordo de Marcelo Odebrecht com a Justiça Americana]

R. Devem ter lido no jornal O Globo. Só pode ser. Deixa eu lhe contar uma coisa. O presidente da República ele não tem como interferir na burocracia do BNDES para empréstimo. O BNDES foi criado para financiar o desenvolvimento brasileiro. Quando o Brasil financia o desenvolvimento de um país através do BNDES o Brasil está exportando serviços, está exportando engenharia, máquinas, está vendendo coisas para lá. É um ganho extraordinário para um país que quer ter importância no mundo. O BNDES tem uma burocracia onde o presidente da República não decide. Tem uma coisa chamada COFIEX e COFIG que participam ministro das Relações Exteriores, da Fazenda, '500' ministros participam para tomar as decisões. Só quem não participa é o presidente. E eu sou favorável a que o BNDES empreste dinheiro para o desenvolvimento dos países africanos e latino americanos. Sou favorável.

P. O senhor se sente injustiçado por esses empresários? Eles cresceram muito, se tornaram multinacionais e depois fazem delações premiadas contra o PT e o senhor...
R. Contra mim eu não fico com raiva pelo seguinte. Eu tenho desafiado os empresários a dizer quem me deu cinco centavos. O Leo [Pinheiro] que estava preso aqui que fez a denúncia contra mim, ele passou três anos dizendo uma coisa, depois mudou o discurso. Meu advogado perguntou o porquê disso e ele disse ‘meu advogado me orientou’. E o que ele falou: ‘Lula sabia’. E agora o que está provado? Que a OAS gastou seis milhões de reais pra pagar funcionários da OAS [conforme reclamação em ação trabalhista de um ex-funcionário do grupo], pra uniformizar as delações. Como é que eu posso levar a sério isso? Não posso. Haverá tempo suficiente para que a gente faça uma investigação, ir aos EUA saber qual a intromissão do Departamento de Justiça dos EUA nessa investigação. Qual o interesse dos americanos na Petrobras? Vocês sabem qual é. A coisa que mais acontece no Brasil é denúncia. Sou favorável a que todas sejam apuradas. Todo mundo sabe que quando eu era presidente era contra policial federal investigar e denunciar antes de ter a prova. A coisa mais fácil do mundo é a imprensa investigar. Quando o processo sair, se ficar provado que você não cometeu nada, você já está condenado. Estou achando estranho essa tal dessa milícia do Bolsonaro. Cadê aquele cidadão dos sete milhões? Aquele cara que é esperto para fazer dinheiro? Como é o nome dele? [Fabricio] Queiroz. Cadê a imprensa que não vai atrás dele? [Continua]
Colaboraram: Beatriz Jucá, Gil Alessi, Heloísa Mendonça e Joana Oliveira