quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

As crianças tomam conta do mundo, por Eliane Brum--escritora, repórter e documentarista.

Num planeta governado por adultos infantilizados como Trump e Bolsonaro, meninas de diferentes países lideram uma rebelião pelo clima e marcam uma greve global de estudantes para 15 de março

Greta Thunberg, estudante ativista, assiste a uma conferência sobre clima organizada pela Juventude Belga em 21 de fevereiro de 2019. MAJA HITIJ GETTY IMAGES


A luta contra o aquecimento global é hoje liderada por garotas de vários países do mundo. Estudantes secundaristas, a maioria. Mulheres muito jovens, carregando um novo espírito do tempo no mundo sem tempo, em que só há 12 anos para tentar impedir que o planeta aqueça mais do que 1,5 graus Celsius e o futuro logo ali seja uma vida muito ruim para todos, impossível para os mais pobres e os mais frágeis. Jovens mulheres com muito pânico porque os pais e avós ferraram o planeta em que vão viver e se comportam como gente mimada e egoísta que faz apenas o que quer sem se preocupar com as consequências nem mesmo para seus próprios filhos e netos. Uma parcela da espécie humana chegou a um nível de individualismo que nem mesmo protege a prole naquilo que é fundamental – e o presente se torna absoluto. De repente os mais jovens perceberam que a sobrevivência está comprovadamente ameaçada e os governantes estão brincando no Twitter.

Esse movimento de crianças e adolescentes é movido pela compreensão dos muito jovens de que os adultos não são adultos. É o que eles têm dito. “Como nossos líderes comportam-se como crianças, nós teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo atrás”, afirmou a sueca Greta Thunberg em dezembro, durante a Cúpula do Clima, realizada na Polônia.

Ela tinha apenas 15 anos, em agosto de 2018, quando decidiu fazer um boicote às aulas todas as sextas-feiras e se postar diante do parlamento, em Estocolmo, para dar o seguinte recado: “Estou fazendo isso porque vocês, adultos, estão cagando para o meu futuro”. Desde então, Greta, uma menina de rosto redondo em que as tranças escoltam as bochechas, tornou-se uma referência internacional na luta contra o aquecimento global e tem inspirado movimentos de estudantes em vários países. Em 15 de março, planejam realizar uma greve global pelo clima.

A novíssima geração de humanos teve a extrema má sorte de nascer num momento histórico em que os pais não conseguem lidar com a questão do tempo. Os adultos atuais cresceram bombardeados pelo imperativo do consumo que prometia prazer imediato, reiniciado a cada ato de compra, num looping infinito. O tempo passou a ser um presente estendido. Tudo o que existe é o agora do qual é preciso arrancar o máximo. É este o mundo em que cidadãos foram convertidos em consumidores. É este o funcionamento dos adultos atuais num momento histórico em que o aquecimento global, comprovadamente causado por ação humana, se não for barrado, mudará a face do planeta.

Os muito jovens perceberam que a época em que as crianças fazem só o que querem por conta de pais com problemas para educar e dar limites começa a dar lugar a época em que as crianças percebem que os pais fazem só o que eles querem porque são incapazes de aceitar que seja necessário ter limites. Mesmo limites bem pequenos, como, por exemplo, reduzir o consumo de carne a apenas uma vez por semana, já que a pecuária é uma das principais causas do aquecimento global. Ou deixar o carro em casa e usar transporte público ou bicicletas. Ou reciclar as roupas. 
Há quem tenha preguiça até mesmo de se responsabilizar pelo lixo que produz.Quando os mais respeitados cientistas do clima alertam que há pouco mais de uma década para evitar que a Terra se torne um planeta hostil para a nossa espécie, que é preciso mudar os padrões de consumo já e, principalmente, pressionar os líderes para tomar as medidas mais do que urgentes, a reação parece ser a de seguir mantendo o presente ativo, incapazes de enfrentar uma ideia de futuro que não seja determinada por renovações do ato de consumo no pacto capitalista do presente contínuo.

Não faltam estudos mostrando o que é preciso ser feito para evitar que o aquecimento global ultrapasse o 1,5 graus Celsius, condenando centenas de milhões de pessoas à fome e à miséria e varrendo do planeta maravilhas vivas como os corais. O que falta é fazer o que precisa ser feito, assim como cumprir os acordos já existentes. Se os avanços em escala global já eram difíceis antes, a recente ascensão de líderes de extrema direita em países estratégicos, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, tornaram a situação desesperadora.“Todos acreditam que podemos resolver a crise (climática) sem esforço nem sacrifício”, escreveu Greta Thunberg em um de seus artigos. Hoje com 16 anos, ela demonstra a lucidez que falta na maior parte dos líderes mundiais. Este é um ponto importante do movimento dos estudantes pelo clima. Apesar de apontar a dificuldade dos adultos para mudar a vida cotidiana, assim como suas escolhas e a relação fundamental com o tempo, as crianças e adolescentes sabem que esta transformação não pode ser reduzida apenas a decisão de cada indivíduo. Os estudantes têm concentrado sua pressão sobre as autoridades públicas de cada país. São essas as lideranças que têm poder para barrar as grandes corporações, taxar os poluidores, determinar políticas capazes de interromper a escalada de destruição.

Esta também é uma característica da novíssima geração que está indo às ruas pelo clima. São crianças e adolescentes – e não são ingênuos. Em janeiro, no Fórum de Davos, na Suíça, Greta também não mediu palavras ao falar à plateia composta pela elite econômica global: “Algumas pessoas, algumas empresas, alguns tomadores de decisão em particular, sabem exatamente que valores inestimáveis têm sacrificado para continuar a ganhar quantias inimagináveis de dinheiro. E eu acho que muitos de vocês aqui hoje pertencem a esse grupo de pessoas”.

O que as crianças e adolescentes deste movimento crescente dizem é que, se quiserem ter onde viver, vão precisam tomar conta do mundo. Para contar. Já que os adultos que destroem o planeta não as contam.

Nunca houve nada parecido na história. Em nenhuma história. Os filhotes tentam salvar o mundo que os espécimes adultos destroem sistematicamente. Para além dos efeitos concretos sobre o futuro da humanidade, serão necessários muitos anos de estudos para compreender os efeitos desta inversão sobre a forma de compreender o mundo e seu lugar no mundo daqueles que serão adultos amanhã. Mas, para isso, é preciso antes ter amanhã.

E não está porque, depois de governos inconsequentes e estúpidos diante da crise climática, à esquerda e a à direita, o país tem hoje um governo de extrema-direita que, além de ser inconsequente e estúpido, também contém uma parcela de alucinados. O governo militarizado de Jair Bolsonaro pode conduzir o Brasil para o abismo. E, dada a importância da floresta amazônica, arrastar o planeta com ele.O Brasil é o país mais biodiverso do planeta. Tem no seu território a maior porção da maior floresta tropical do mundo. Deveria estar na vanguarda do combate ao aquecimento global e à perda avassaladora de biodiversidade. Deveria ocupar seu lugar estratégico e se colocar na vanguarda de todos os movimentos pelo clima. Deveria. Mas não está.

É preciso ser muito claro neste momento e afirmar com todas as vogais e consoantes disponíveis que uma parcela do governo Bolsonaro é composta por gente que usa o poder de forma perigosa. Gente que brinca de guerra. Gente que brinca de arma. Gente com delírios de grandeza e desejo de destruição. Gente que tem tanto medo dos próprios demônios que enxerga o diabo em toda parte, de preferência no outro. Gente que enaltece torturadores, chama ditadores de estadistas e dá medalhas a milicianos.

Essa realidade fez com que o governo cada vez mais militarizado de Bolsonaro – já são oito os militares no primeiro escalão, sem contar o vice e o porta-voz, e dezenas contando os demais escalões, e crescendo... – criasse uma nova anomalia no Brasil. Depois de passar por uma ditadura de 21 anos, em que os generais permitiram e/ou ordenaram a tortura, o sequestro e o assassinato de civis, muitos ainda hoje desaparecidos, a cada vez que é anunciado um novo general no governo, mais gente sente alívio. A situação no Brasil chegou a um ponto – e com apenas dois meses de governo Bolsonaro – que qualquer pessoa com aparência de adulto e aura de autoridade gera alívio mesmo que apenas alguns meses atrás gerasse pânico naqueles que sempre defenderam a democracia.

Dias atrás uma amiga de esquerda, com histórico familiar de repressão na ditadura, me contava, assustada consigo mesma, que se acalmava a cada vez que o general Hamilton Mourão abria a boca. Não é a tal Síndrome de Estocolmo, mas o fato de que a certeza de estar na mão de perversos, de adultos infantilizados, de um pai que deixa os filhos brincarem de governarem o país porque também brinca de governar o país tornou a realidade muito apavorante. Como os generais em geral falam frases com sentido, além de sujeito, verbo e predicado, e mesmo que seja um sentido do qual se discorde, até pessoas críticas têm se agarrado a esses fiapos de sanidade para conseguirem dormir à noite.

E é um fato que a política desastrosa para a Amazônia ganhou um corpo e um rosto justamente no projeto e na propaganda da ditadura militar, nos anos 70, quando a floresta teve grandes porções destruídas e povos indígenas dizimados para abrir estradas, construir hidrelétricas e implantar grandes plantas de mineração. Esse mesmo imaginário do “deserto verde” ou “da terra sem homens para homens sem terra”, dois dos slogans da ditadura que permanecem até hoje, nos quais os povos da floresta são considerados não humanos, é ainda o que norteia os discursos do governo Bolsonaro, intimamente conectado com o agronegócio predatório que pretende avançar ainda mais sobre a Amazônia.Não se pode esquecer, porém, uma possibilidade e um fato. É possível que os generais também não estejam dormindo à noite, pensando em como manter a imagem das Forças Armadas a salvo num governo em que Bolsonaro parece ser menos controlável do que acreditavam, e agora que já se tornou tarde demais para dissociar a imagem das Forças Armadas da aventura arriscadíssima que é um governo Bolsonaro.

O modo de operação pouco familiarizado com a democracia dos militares se revelou, mais uma vez, na preocupação com o encontro que o Papa Francisco vai realizar no Vaticano, em outubro, para debater a Amazônia com 250 bispos. Como revelou a jornalista Tânia Monteiro, no jornal O Estado de S. Paulo, os militares do governo militarizado de Bolsonaro temem que o “clero progressista” da Igreja Católica possa se tornar uma referência de oposição, ocupando o vácuo deixado pela incapacidade de articulação da esquerda pós-PT.

Os militares decidiram agir para impedir que críticas ao governo Bolsonaro ganhem fórum internacional no sínodo que vai debater durante 23 dias a crise climática causada por desmatamento e as ameaças aos povos da floresta. Uma das ações será tentar convencer o governo italiano a interceder junto à Santa Sé para evitar ataques diretos à política ambiental e social do governo brasileiro durante o Sínodo sobre Amazônia.

Entre os temas do encontro global, um assunto causa particular preocupação num governo que pretende tornar comercializáveis as terras públicas de usufruto exclusivo dos indígenas: “ O grito dos índios é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito”. Segundo o Estadão, o general Augusto Heleno, ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional e supostamente o adulto com mais influência sobre o garoto Bolsonaro, saiu-se com essa: “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”. E ainda essa: “Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”.

Como é fácil perceber, ainda que os generais no governo militarizado de Bolsonaro demonstrem capacidade cognitiva, o que é um alívio no quadro de indigência intelectual do ministério, claramente estão desconectados dos desafios da crise climática. Também eles demonstram acreditar viver num mundo que já não existe. Parecem tão preocupados em apagar sua intervenção criminosa no passado recente que se tornaram incapazes de enxergar o futuro logo adiante.

A Amazônia é assunto do planeta porque, sempre que o Brasil destrói a floresta, reduz as possibilidade de controlar o aquecimento global. Tanto é assunto do mundo que o Brasil recebe bilhões de reais da Noruega e da Alemanha para manter a floresta em pé. Não fosse esse dinheiro, nem mesmo atividades básicas de fiscalização do Ibama teriam sido executadas no ano passado.

Em nota, o Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general Augusto Heleno, fez uma afirmação digna do famoso slogan da ditadura para a Amazônia – “Integrar para não Entregar”: “Parte dos temas do referido evento (Sínodo da Amazônia) tratam de aspectos que afetam, de certa forma, a soberania nacional. Por isso, reiteramos o entendimento do GSI de que cabe ao Brasil cuidar da Amazônia Brasileira”. O planeta realmente espera que o Brasil cuide da Amazônia, e espera há bastante tempo. Os povos da floresta, que são quem melhor a cuidam, em geral contra os interesses dos diferentes governos no poder e apesar dos sucessivos massacres, também esperam que o Brasil decida cuidar da Amazônia.

Enquanto no Brasil é preciso debater os destinos da Amazônia neste nível primário, como se ainda vivêssemos no século 20, os estudantes se organizam para lutar pelo planeta, dando lições de cidadania a governantes muito mais velhos. Em novembro, 15 mil estudantes australianos boicotaram as aulas para dizer às autoridades públicas que era obrigatório combater o aquecimento global. O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, reagiu mal: “O que queremos nas escolas é mais aprendizagem e menos ativismo”. Algo que podemos imaginar Bolsonaro dizendo com ainda piores palavras, talvez ameaçando mandar os estudantes para a “ponta da praia”, como ele costuma mencionar, referindo-se ao lugar clandestino onde eram torturados e assassinados os opositores mortos pelo regime de exceção que ele tanto exalta.Se o governo militarizado de Bolsonaro quiser acionar a manipuladora “ameaça à soberania nacional”, os tais “gringos que estão invadindo a Amazônia”, que peçam antes ao presidente para suspender a presença das corporações transnacionais na Amazônia, assim como os projetos destruidores. Pode começar com a gigantesca exploração de ouro da mineradora canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu, uma catástrofe anunciada que teve como consultor o general Franklimberg Ribeiro de Freitas, hoje mais uma vez à frente da Fundação Nacional do Índio (Funai), num evidente conflito de interesses que, como de hábito, foi ignorado. Os povos da floresta agradecerão. Os brasileiros urbanos conscientes também.

No centro dos numerosos protestos da Bélgica está uma adolescente de 17 anos chamada Anuna De Wever. Inspirada num vídeo gravado por Greta, no qual a sueca estimulava os estudantes a fazer uma greve climática diante da inércia dos adultos, ela e sua melhor amiga gravaram seu próprio vídeo. Como contou ao BuzzFedd News, esperavam apenas 20 pessoas num protesto marcado para o início de janeiro. Apareceram 3.000. E os protestos cresceram até dezenas de milhares semana após semana.Os jovens australianos responderam ao seu ministro com um cartaz nas ruas: “Nós seremos menos ativistas se vocês fizerem menos merda”. As manifestações de estudantes exigindo ações dos adultos diante da crise climática multiplicaram-se, especialmente na Europa, chegando a ter dezenas de milhares de manifestantes em países como Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça e França.

A ministra do meio ambiente da Bélgica mentiu aos estudantes e ao país, afirmando que os serviços de inteligência haviam informado que os protestos eram um complô para derrubá-la. Foi obrigada a reconhecer a mentira e a renunciar. Às autoridades desconcertadas, que tentaram justificar sua incompetência diante do maior desafio global cobrando dos manifestantes estudo e disciplina, os estudantes responderam com um cartaz bem objetivo: “Eu farei a minha lição de casa quando você fizer a sua”.

No Brasil, os estudantes das escolas públicas precisam se rebelar para ter ensino com qualidade mínima e respeito aos seus direitos mais básicos, como aconteceu em 2015 e 2016. Os alunos brasileiros têm um dos piores desempenhos do mundo em disciplinas como português e matemática. E a maioria dos professores não ganha o suficiente sequer para viver com dignidade, quanto mais para se atualizar e estudar. 
Quando se afirma que o governo Bolsonaro é uma vanguarda do atraso, é importante ter a dimensão de que a qualidade das lutas também determinam – e muito – a qualidade do país. 
Há vários anos o debate tem sido não só interditado como desqualificado no Brasil, o que é outra forma de interdição. Na semana passada, alunos e professores de escolas de vários países fizeram um protesto pela falta de conteúdos ligados à crise climática, o tema que deveria atravessar todos os outros também na sala de aula. “Ensine a verdade”, diziam os cartazes. Ou: “Nossas crianças podem lidar com a verdade. Você pode?”. Um professor comentou, durante a manifestação em Londres: “Às vezes me pergunto: qual é o sentido de ensinar quando ninguém está ensinando a verdade sobre o futuro?”.

Nos dias atuais, porém, nem mesmo essa luta básica, óbvia, é possível travar, porque há que se preocupar com os falsos problemas. Um grupo de delirantes e/ou oportunistas decidiu inventar que os problemas das escolas são ideologia de gênero e outras bobagens criadas por ideólogos de extrema direita. 
Criaram, entre outras aberrações, o Escola Sem Partido, um projeto autoritário que toma o partido do que há de pior num momento em que todos deveriam estar concentrados nos problemas reais que arrancam as possibilidades de milhões de crianças e adolescentes brasileiros. Para conseguir o que querem, eles mentem, criam notícias falsas, como as mamadeiras com bico em formato de pênis e os professores ensinando crianças a fazer surubas. 
A falta de caráter dessas pessoas não encontra limites. E o governo não é o limite, porque hoje eles são governo.

Assim, em vez de lutar pela educação para enfrentar a crise climática, como estão fazendo os estudantes de países de outras partes do mundo, exigindo ciência e pensamento de qualidade nas escolas, no Brasil é preciso lutar para que a teoria científica da evolução de Charles Darwin, base para a compreensão das espécies e de muito do que foi possível compreender sobre a vida desde então, continue a ser ensinada como aquilo que é, uma teoria científica – e não uma teoria alternativa ao mito religioso do criacionismo. Os cada vez mais numerosos fundamentalistas evangélicos deveriam abrir mão dos medicamentos que salvam suas vidas e dos celulares onde espalham seu ódio antes de equiparar a ciência à religião, desrespeitando a ambas.

Em vez de concentrar todos os esforços do país em melhorar a qualidade da educação, Bolsonaro está preocupado em censurar as questões do ENEM. O ministro da Educação manda um email para as escolas dizendo que os alunos precisam cantar o hino nacional no início do ano letivo, os professores devem ler uma carta que termina com o slogan da campanha de Bolsonaro e a direção deve gravar o momento despachando um trecho do vídeo para Brasília. A ministra da Mulher diz que meninas vestem rosa, meninos azul. O ministro das Relações Exteriores afirma que o aquecimento global é um complô da esquerda. O ministro do Meio Ambiente diz que a discussão sobre “se há ou não aquecimento global é secundária”. O “secundária” já seria terrível, mas ele ainda coloca dúvida sobre aquilo que é um consenso científico mundial e que cada um já consegue perceber no seu cotidiano.

Os estudantes brasileiros, pela importância do Brasil na redução das emissões de gases que provocam o aquecimento global, deveriam ter protagonismo na greve climática marcada para 15 de março. Mas até este momento não têm. Porque vivem num país em que os adultos no poder são tão precários, mas tão precários, que é preciso explicar para o ministro do Meio Ambiente que não há nada mais importante neste momento histórico do que saber quem é Chico Mendes. É preciso ficar repetindo e repetindo o óbvio para que a estupidez não vire inteligência.Os debates importantes, os que realmente podem representar avanço para o país, têm sido adiados porque é preciso se defender dessa gente que lança frases sem lastro na realidade, mas que hoje têm poder para afirmar mentiras como verdades. As melhores mentes do país são obrigadas a concentrar esforços em descobrir uma maneira de impedir que delírios virem lei. E enquanto isso o Brasil perde e perde e perde. Já não é mais nem pelo básico que se luta, mas para impedir que a realidade seja convertida num delírio. Luta-se também para que as palavras recuperem seu significado.

Os estudantes suíços, por exemplo, estão exigindo que nenhuma escola use aviões em suas excursões de estudos, já que voar tem grande impacto sobre o meio ambiente. A própria Greta, que parou há anos de comer carne e de comprar qualquer coisa que não seja absolutamente essencial, deixou de voar em 2015. 

Desde que a filha começou a se preocupar com a crise climática, sua mãe, uma famosa cantora de ópera, desistiu da carreira internacional por conta da pegada de carbono da aviação. A pergunta é óbvia: como debater questões como estas, num país como o Brasil, em que estudantes têm dificuldade para chegar à escola por falta de transporte?

Talvez começando por entender que é obrigatório debater. Acreditar que a crise climática é um tema para estudantes ricos de países ricos é um erro. E um erro perigoso. Enfrentar a crise climática não é luxo, é necessidade urgente de todos. Nada aumentará mais a desigualdade e atingirá os mais pobres do que a crise climática. O aquecimento global atravessa todos os temas e todas as áreas, inclusive a racial e a de gênero. No Brasil, possivelmente as mais afetadas serão as mulheres negras, o contingente mais frágil e oprimido da população. É isso que as crianças e adolescentes estão dizendo. Mas, também por deficiência de educação, e não só nas escolas públicas, a maioria dos estudantes brasileiros tem dificuldade para fazer as conexões e compreender que, ao lutar pela floresta amazônica, estará lutando pela redução da desigualdade e por mais acesso aos recursos e às políticas públicas.

Há uma particularidade que torna o enfrentamento da crise climática ainda mais difícil no Brasil. O crescimento acelerado dos evangélicos neopentecostais nas últimas décadas fortaleceu a crença no apocalipse bíblico. Para uma parcela deles, que apoiou massivamente a eleição de Bolsonaro, as catástrofes provocadas pelo aquecimento global não foram causadas por ação humana, mas sim estão previstas na Bíblia como os acontecimentos que prenunciam o Armagedom. Ou, mesmo que tenham sido causadas por ação humana, já estava escrito. É bastante possível que seus líderes não acreditem nisso, apenas usem uma interpretação literal da Bíblia para melhor controlar os corpos e barganhar poder. Mas há uma massa de fiéis que acredita. E que cresce.Nos Estados Unidos, a greve pelo clima de 15 de março está sendo organizada em sua maioria por meninas, muitas delas negras. A Organização Mundial da Saúde já mostrou que as mulheres serão as mais atingidas pelos desastres naturais causados pelo aquecimento global e também serão as mais atingidas porque em muitas sociedades ainda cabe a elas a responsabilidade de conseguir água, energia e alimento. São também as mulheres as primeiras a perderem oportunidades quando os recursos naturais se tornam escassos. “Se você é vítima de um sistema de opressão, você é mais afetado pela crise climática. E isso vale para as mulheres", disse Jamie Margolin, uma ativista climática americana de 17 anos, ao BuzzFeed News. “Temos que nos levantar e levantar nossas vozes.”

Não é permitido esquecer que Bolsonaro foi batizado no Rio Jordão, em Israel, em 2016, e que pastores como Silas Malafaia promovem excursões para Israel. 
Para esta camada de evangélicos que só cresce no Brasil, a catástrofe é bem vinda, já que eles têm certeza que serão salvos porque são os únicos puros. Salvar-se, portanto, seria apenas uma questão de ter a fé certa. A deles, claro. Como então demandar razão neste país?
Talvez seja preciso avisá-los que o rio Jordão está se tornando mais e mais estreito devido à seca causada pela crise climática. Se o processo continuar, logo será preciso encontrar outro rio para batismos espetaculares.
Tudo o que pode ser visto como catástrofe climática causada pelo uso de combustíveis fósseis, para essa linha do evangelismo é apenas cumprimento da profecia bíblica. São eles que pressionam para mudar a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, porque esta cidade seria o palco do Armagedom. Mais uma vez é preciso sublinhar que os articuladores desta ideia têm interesses bem mais imediatos e mundanos, que revestem com uma retórica bíblica para santificar o que é totalmente terreno.

Se as novas gerações (e também as velhas) dos povos da floresta fossem escutadas, elas poderiam dar aula para os estudantes que se rebelam pelo clima na Europa. Também na Amazônia o protagonismo das mulheres nas lutas de indígenas, quilombolas e beiradeiros é cada vez maior – e as lideranças são cada vez mais jovens. O profundo conhecimento dos povos da floresta, imprescindível para enfrentar a crise climática, e a rebelião que sua luta representa, porém, têm sido sistematicamente caladas. O projeto de Bolsonaro, como ele afirmou várias vezes, é que indígenas e quilombolas se tornem “ser humano como nós”. Se o “nós” é ele, pode se imaginar o ganho de conhecimento que as gerações da floresta terão.

Sem a maior floresta tropical do mundo, a vida humana no planeta não tem nenhuma chance. No Brasil, como nos outros países amazônicos da América Latina, os povos da floresta estão lutando quase sozinhos para mantê-la em pé. E morrendo. Os filhos destes lutadores têm precisado assumir a luta dos pais assassinados. As jovens garotas que lideram a rebelião dos estudantes pelo clima na Europa têm o desafio de fazer a ponte com as jovens garotas da floresta amazônica, o centro geográfico onde o futuro próximo está sendo disputado. E vice-versa.

Greta Thunberg e Anuna De Weve, duas das principais lideranças estudantis na Europa, trazem muitas novidades ao ativismo climático. Greta, a garota que inspirou dezenas de milhares de estudantes a se unir pelo clima, tem diagnóstico de transtorno do espectro do autismo. Embora não tenha sido esse o objetivo, seu ativismo pelo clima mostra a potência política de uma diferença. Em entrevista à revista NewYorker, ela disse: "Eu vejo o mundo um pouco diferente, a partir de outra perspectiva. Tenho um interesse especial. É muito comum que as pessoas, no espectro do autismo, tenham um interesse especial. Posso fazer a mesma coisa por horas”. Ou por anos, como já ficou provado.

Anuna é menina na certidão de nascimento, tornou-se menino durante a escola fundamental e hoje se define como “gênero fluido” e prefere os pronomes femininos. Ela relaciona a luta pelo clima diretamente com a identidade de gênero. Aquilo que para muitos é imutável, para ela é possível mudar, percepção que parte da sua própria experiência de ser. "Ter gênero fluido sendo jovem faz com que eu veja o mundo um pouco diferente", disse. "Eu não olho para o mainstream e o que eles pensam. Começo a ter meus próprios valores, princípios próprios, e penso no que não está dando certo neste mundo e o que posso fazer e melhorar em vez de apenas fechar os olhos.”

Velhos ativistas do clima estão perplexos – e animados. “O movimento que Greta lançou é uma das coisas mais esperançosas em meus 30 anos de trabalho na questão climática. Ela lança o desafio geracional do aquecimento global e desafia adultos a provar que são, na verdade, adultos”, disse Bill McKibben, fundador da 350.org, ao The Guardian.

O afiado cronista brasileiro Nelson Rodrigues, que era também um exímio frasista, ao ser perguntado que conselho daria aos jovens, disse: “Envelheçam!”. As crianças que estão sendo obrigadas a tomar conta do mundo dizem hoje aos adultos: “Cresçam!”.Num mundo em que as decisões ainda são majoritariamente tomadas por homens, as garotas levantaram a voz. Os milhares de meninos de sua geração que vão para a rua com elas não parecem ter problemas com o protagonismo feminino dos protestos. Meninas como Greta, Anuna e outras tantas, porque elas são muitas, não querem ocupar o lugar dos adultos. Não é disso que se trata. O que elas querem talvez seja ainda mais difícil. Ao denunciar a infantilização dos governantes, ela reivindicam que os adultos se “adultizem”.

Chegamos a este ponto: as crianças precisam pedir aos adultos que sejam adultos. Que tenham limites e se responsabilizem. Ou, em suas palavras: “Parem de cagar no planeta em que vamos viver”.

Arte de TACHO (com Ataulfo Alves)

Trump é 'racista, vigarista, trapaceiro', diz ex-advogado no Congresso, nas folhas

Michael Cohen afirmou que presidente sabia que um de seus colaboradores estava em contato com o Wikileaks para vazar e-mails que prejudicassem campanha da rival, Hillary Clinton.

Ex-advogado de Trump confirma pagamento a atriz pornô

Michael Cohen, ex-advogado pessoal de longa data de Donald Trump, atacou seu ex-cliente afirmando que o presidente americano é "racista, vigarista e trapaceiro". O comentário foi feito em depoimento explosivo no Congresso americano nesta quarta-feira (27).

Cohen disse que, nas eleições de 2016, o então candidato Trump sabia que um de seus colaboradores estava em contato com o Wikileaks para vazar e-mails que prejudicassem a campanha de sua concorrente, Hillary Clinton.

Também afirmou que "suspeita" de um conluio com russos ligados ao Kremlin, mas que não tem provas para apresentar.
Ex-advogado de Trump, Michael Cohen, testemunha nesta quarta-feira (27) no Congresso — Foto: J. Scott Applewhite/AP Photo

Dirigindo-se ao Comitê de Supervisão e Reforma da Câmara, Cohen – que foi condenado à prisão por crimes relacionados em parte com seu trabalho para Trump – expressou arrependimento por ter sido leal ao ao presidente.

"Estou envergonhado por ter escolhido participar dos atos ilícitos de Trump em vez de ouvir minha própria consciência", afirmou Cohen.

"Ele é um racista. Ele é um vigarista. Ele é um trapaceiro", enfatizou.

"O senhor Trump é um racista. O país viu Trump cortejar os supremacistas brancos e os intolerantes. Vocês o ouviram chamar os países mais pobres de 'buracos de merda'", disse ainda.

"Na vida privada, é ainda pior. Uma vez me perguntou se podia nomear um país dirigido por uma pessoa negra que não fosse um 'buraco de merda'. Isto foi quando Barack Obama era o presidente dos Estados Unidos".

"Enquanto estávamos passando de carro por um violento bairro de Chicago, ele comentou que só os negros podiam viver dessa maneira...e me disse que os negros nunca votariam porque eram estúpidos demais".

Pagamento a mulheres
Cohen disse que estava apresentando provas "irrefutáveis" dos erros de Trump, incluindo um cheque de "suborno" pago a duas mulheres pouco antes da eleição de 2016.

Cohen assumiu a culpa no escândalo envolvendo a compra do silêncio de duas mulheres que supostamente tiveram relações com Trump. Ele pagou a atriz pornô Stormy Daniels e a ex-modelo da "Playboy" Karen Mcdougal para manterem silêncio sobre supostos relacionamentos com Trump e por evasão de divisas.

"O senhor Trump é um fraudador... Me pediu que pagasse a uma estrela de cinema pornô com quem teve um caso, e que mentisse à sua esposa a respeito, o que fiz. Mentir à primeira-dama é um dos meus maiores arrependimentos. É uma pessoa amável e boa. Eu a respeito muito e não merecia isso".

Relação com a Rússia
O advogado também disse que Trump dirigiu as negociações, ocorridas durante a campanha eleitoral de 2016, para construir uma Trump Tower em Moscou. Cohen, porém, negou qualquer vínculo comercial com os russos.

Sobre a relação da equipe de campanha de Trump com russos ligados ao governo de Vladimir Putin, que é objeto de investigação, Cohen disse que não tem provas, mas que suspeita de um conluio:

"Foi perguntado se sabia de provas diretas que demonstrassem que Trump ou sua equipe de campanha haviam conspirado com a Rússia. Não tenho. Quero ser claro. Mas tenho suspeitas", disse.

Vazamento de e-mails do Partido Democrata
Cohen ainda afirmou que seu ex-chefe sabia que um de seus colaboradores estava em contato com o WikiLeaks para a publicação de milhares de e-mails roubados do Partido Democrata. O vazamento abalou a campanha de Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016.

"Trump era um candidato presidencial que sabia que Roger Stone [colaborador da campanha] estava conversando com Julian Assange [fundador do WikiLeaks] sobre um vazamento dos e-mails do Comitê Nacional Democrata", disse.

"Dias antes da convenção democrata, eu estava no escritório de Trump quando a secretária dele anunciou que Roger Stone estava no telefone. Trump colocou Stone no viva-voz, e ele disse a Trump que tinha acabado de falar com Julian Assange", afirmou Cohen.

Na conversa, Assange teria dito a Stone que vazaria uma série de e-mails que prejudicariam a campanha de Hillary. Trump então, segundo seu ex-advogado, respondeu: "Não seria genial?".

Outras irregularidades
Cohen disse ainda estar a par de outras irregularidades relacionadas com o presidente, sobre as quais não poderia falar porque são alvo de uma investigação em andamento.

Ao ser perguntado pelo legislador democrata Raja Krishnamoorthi, "há algum outro ilícito ou [ato] ilegal do qual tenha conhecimento com relação a Donald Trump que ainda não tenhamos discutido hoje?", Cohen respondeu: "Sim", explicando que o que sabe é parte da investigação realizada pelo tribunal federal do Distrito Sul de Nova York.

A corte federal do Distrito Sul de Nova York, que sentenciou a Cohen em dezembro a três anos de prisão por fraude e evasão fiscal e por dar falso testemunho no Congresso, esteve investigando o comportamento da Organização Trump com relação a impostos, aos bancos e possíveis violações das normas de financiamento eleitoral.

Último cinema pornô de Paris fecha as portas, nas folhas

Comentario cinéfilo/wanderer---no passado ainda presente, alguns menos aquinhoados aventureiros, tinham nessas salas,  o lugar onde podiam dormir algumas horas e seguir "viagem". 
Mas isso era antes do turismo pasteurizado de "massa". 
Neste a "aventura" foi substituida pelos selfies e o "risco" pela indumentaria indiana jones, nao é....
A autenticidade é um risco excessivo pro "vulgum pecus". Lorotas e fotos, bastam-lhe.
----------------------------------------------------------
Depois de quase 50 anos de atividades, o último cinema pornô de Paris, o Beverley, exibiu sua última sessão no sábado (23). O local, um templo dos apreciadores do gênero, ficava em uma região boêmia da capital francesa, no 2º distrito.
Maurice Laroche, dono no Beverley, da entrada do cinema: "vou lamentar não rever mais meus clientes" — Foto: RFI/Philippe Daguerre

Depois de quase 50 anos de atividades, o último cinema pornô de Paris, o Beverley, exibiu sua última sessão no sábado (23). O local, um templo dos apreciadores do gênero, ficava em uma região boêmia da capital francesa, no 2º distrito.

O fechamento simboliza as mudanças no consumo de vídeos pornôs nas últimas décadas – dos cinemas, os espectadores passaram para os sites na internet, acessados a qualquer momento e gratuitamente.

O Beverley era o contrário disso: se mantinha fiel ao estilo dos anos 1970, com uma entrada discreta coberta de pôsteres vintage pelas paredes.

O último proprietário do estabelecimento, Maurice Laroche, 75 anos, manteve por quase três décadas o funcionamento original do cinema. Em troca de uma tarifa única de € 12, o cliente podia ficar o tempo que quisesse dentro da sala, na qual eram projetados dois filmes continuamente. Do meio-dia à meia-noite. Todos os dias da semana. A entrada de menores de idade era proibida.

Vintage eram também os filmes exibidos, preciosidades dos anos 1970 e 1980, quando a sexualidade era apresentada de uma maneira mais “real” na telona – mulheres sem silicone, homens com pênis de tamanho natural. Era por isso que, até o fim, a sala ainda registrava uma frequência regular, em especial por habitués desse estilo que, agora, ficou no passado.

“O Beverley recebia 7 mil clientes por semana na década de 1970. Desde o início dos anos 2010, o número passou para 1.500 e, hoje, terminamos com menos de 500”, contou Laroche ao jornal "Le Parisien".

Clientes compartilhavam paixão pelo gênero
Os números refletem a mudança da maneira de consumir pornô – de uma prática coletiva para outra bem mais individual, observa a revista Les Inrocks. Na época de ouro do gênero, Paris possuía mais de 900 cinemas especializados.

Os clientes do Beverley ainda podem levar para casa recordações desse ciclo que se encerrou, completa o Parisien. As 90 poltronas foram colocadas à venda por € 30 cada e os pôsteres, a partir de € 10.

Cerca de 200 filmes em película 35mm também estão à venda, por € 50 a unidade. Por € 60, os fãs mais fiéis podem comprar uma caixa especial que contém um DVD com a história do cinema, fotos e um CD com as músicas tocadas no local.

“Vou lamentar não rever mais os meus clientes e o clima caloroso que reinava no Beverley, como quando um espectador trazia um queijo de Auvergne e outro levava um vinho, para compartilhar com todos que estavam na sala. Nós conversávamos sobre tudo, menos política”, contou Laroche ao jornal francês.

O cinema foi comprado por uma incorporadora imobiliária, por um valor mantido em sigilo. Agora, a França só tem mais um estabelecimento deste tipo, que fica em Grenoble, no sudeste do país.

Procurador do DF envia à PGR suspeitas sobre Jair Bolsonaro por improbidade e peculato, por Mariana Oliveira

Representação se baseia na suspeita de que ex-assessora do presidente era 'funcionária fantasma'. Procuradora-geral da República vai analisar se pede abertura de inquérito para apurar.

O presidente Jair Bolsonaro — Foto: Isac Nóbrega/PR

O procurador da República do Distrito Federal Carlos Henrique Martins Lima enviou à Procuradoria Geral da República representações que apontam suspeita do crime de peculato (desvio de dinheiro público) e de improbidade administrativa em relação ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL).

A representação se baseia na suspeita de que Nathália Queiroz, ex-assessora parlamentar de Bolsonaro entre 2007 e 2016, período em que o presidente era deputado federal, tinha registro de frequência integral no gabinete da Câmara dos Deputados enquanto trabalhava em horário comercial como personal trainer no Rio de Janeiro.

A possibilidade investigada é de que ela seria uma funcionária "fantasma", ou seja, que recebesse salário mas não trabalhasse efetivamente.

O jornalista entrou em contato com a Secretaria de Comunicação da Presidência e aguardava retorno até a última atualização desta reportagem.

Nathália é filha de Fabrício Queiroz, ex-motorista e ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente. Queiroz é alvo do Ministério Público por movimentação atípica apontadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) nas contas que também envolvem Flávio Bolsonaro.

Segundo o procurador, o caso pode ou não ser apurado junto com uma suspeita de irregularidades em relação a outra funcionária que está sob análise da PGR. Caberá à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, decidir se pede ou não abertura de inquérito para investigar Jair Bolsonaro.

Carlos Lima apontou na representação que um presidente não pode responder por fatos anteriores ao mandato, mas caberá à Raquel Dodge analisar a questão, uma vez que precedentes indicam que pode haver investigação, sem que uma ação penal seja aberta enquanto o presidente permanecer no cargo.

O procurador destacou também que a Constituição não fala sobre a possibilidade de responder por improbidade, embora o Supremo já tenha definido que a imunidade vale apenas para crimes comuns.

"Tem-se, portanto, que nada impede que o Presidente da República seja investigado e responsabilizado na esfera cível e, na esfera penal, veja a investigação por tais atos ter regular andamento, entendimento partilhado pela atual Procuradora-Geral da República. A imunidade restringe-se à ação penal e respectiva responsabilização por atos estranhos ao seu exercício, no curso do mandato", afirmou Carlos Lima.

O procurador da República disse ainda que, embora não haja foro para crimes de improbidade, é preciso aguardar uma posição sobre a suspeita na área criminal "para evitar que o desfecho de uma seara - ao menos ao cabo da investigação - possa estar em claro conflito com o encaminhamento a ser dado na esfera cível".

Ele pediu ficar suspenso o prazo da prescrição para que a suspeita de improbidade seja analisada posteriormente à questão criminal.

Barroso envia para Justiça do DF denúncia contra Eduardo Bolsonaro, por Mariana Oliveira

Filho do presidente Bolsonaro, deputado foi denunciado por crime de ameaça em razão do conteúdo de mensagens enviadas a jornalista. PGR propôs acordo; ele negou e se disse inocente.





Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro — Foto: Reprodução

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), enviou para o Tribunal de Justiça do Distrito Federal a denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro(PSL-SP).

Filho do presidente Jair Bolsonaro, o deputado foi denunciado pelo crime de ameaça em razão do conteúdo de mensagens enviadas a uma jornalista de Brasília.

Em novembro do ano passado, a PGR propôs a Eduardo Bolsonaro o pagamento de indenização e a prestação de serviços comunitários, mas o filho do presidente rejeitou o acordo, argumentando ser inocente (leia detalhes mais abaixo).

Ao enviar o caso para a Justiça do DF, Barroso atendeu a um pedido da PGR. O Ministério Público argumentou que o caso não tem relação com o atual mandato de Eduardo Bolsonaro.

No ano passado, o Supremo restringiu o foro privilegiado de deputados a crimes cometidos durante o exercício do mandato e em razão da atividade parlamentar.

"Impõe-se o acolhimento do pedido formulado pela Procuradoria-Geral da República para declinar da competência e determinar a remessa dos autos para uma das varas criminais da circunscrição judiciária de Brasília", decidiu Barroso.

STF notifica Eduardo Bolsonaro, PSL, para que apresente defesa sobre denúncia de ameaça

Entenda o caso
Eduardo Bolsonaro foi denunciado em abril do ano passado pela Procuradoria Geral da República por supostas ameaças, por meio de um aplicativo de mensagens, à jornalista Patrícia Lelis, que trabalhava no PSC, antigo partido do deputado.

Na denúncia, a PGR apresenta a troca de mensagens na qual ele afirma à jornalista, entre outras coisas:

"Sua otária! Quem vc pensa que é? Tá se achando demais. Se vc falar mais alguma coisa eu acabo com sua vida".

Ele também escreveu: "Vc vai se arrepender de ter nascido. O aviso está dado. Mais uma palavra. E eu vou pessoalmente atrás de vc. Num pode me envergonhar."

O crime apontado pela procuradora-geral Raquel Dodge é o de ameaça por palavra ou gesto, que prevê prisão de um a seis meses por ser considerado um crime de menor potencial ofensivo.

Proposta de acordo
A PGR apresentou uma proposta de transação penal, um tipo de acordo, que previa:
  1. multa de R$ 50 mil a ser paga para a jornalista por danos morais;
  2. pagamento mensal de 25% do salário de deputado, por um ano, ao Núcleo de Atendimento às famílias e aos autores de violência doméstica;
  3. prestação de serviços à comunidade por 120 horas, em um ano, na instituição Recomeçar – Associação de Mulheres Mastectomizadas de Brasília.
Eduardo Bolsonaro recusou o acordo ao se declarar inocente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Autor convida a classe média brasileira a se olhar no espelho, por AMÉLIA GONZALEZ

Classe Média no Espelho — Foto: Divulgação
Na contracapa do seu último livro “A classe média no espelho”, lançado no fim do ano passado pela Estação Brasil, o sociólogo, professor e ex-diretor do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada), Jessé Souza, que escreveu, entre outros, “A elite do atraso” (Ed. Leya); “Batalhadores brasileiros” (Ed. UFMG) e “A construção social da subcidadania”(Ed. UFMG), faz um inusitado pedido aos seus leitores e leitoras:

“O que espero do leitor e da leitora não é a paciência para destrinchar algo especialmente difícil, tampouco que tenha conhecimentos prévios. O que peço é que tenha coragem”.
Jessé Souza — Foto: Marcus Steinmeyer

Não é difícil entender esta solicitação porque, já nas primeiras páginas do livro, o que se percebe é que Jessé, mais uma vez, está pondo o dedo na ferida, fazendo reflexões autônomas, “sem banalizar temas complexos nem ceder a superficialidades”, como ele próprio escreve. Tem sido este o estilo do professor, que hoje está na Alemanha a trabalho para a Universidade do ABC, da qual faz parte. A ideia de Jessé é que o leitor ou a leitora de seu livro, quando chegar à última página, possa se sentir transformando a “concepção que tem de si mesmo, de sua classe social, do seu país e do mundo”.

De que modo isto pode acontecer?
Jessé Souza começa o caminho de sua narrativa fazendo outro alerta aos leitores e leitoras: “A ignorância acerca de tudo o que nos move e determina nosso comportamento prático faz com que tendamos sempre a considerar como “natureza” e “dado” aquilo que, na realidade, é “cultura”, ou seja, “invenção humana” e construção histórica”. 
Esta espécie de “sequestro” da nossa capacidade de refletir é denunciada no livro a todo tempo. E por isso que nos empobrecemos. E é também por isso que facilitamos a dominação de poucos sobre muitos, que é feita com o recurso da mentira, do engano.

“A infantilização e o bloqueio da capacidade de reflexão se dão seja pela construção de mitos nacionais vira-latas, contos de fadas para adultos, seja pela instauração de uma oposição simplista entre o bem e o mal”, escreve o autor.

E tais mentiras, e tais enganos, acabam se tornando algo confortável, escreve-me Jessé. Tivemos uma tentativa de entrevista via Skipe, mas não deu certo. Assim, mandei-lhe algumas perguntas às quais ele respondeu de maneira sucinta. Por que o leitor precisa de coragem para ler o livro, pergunto eu? Justamente porque “as mentiras são afinal compartilhadas pela maioria e não exigem autocrítica, nem mudar a vida que se leva”, respondeu-me.

Chegamos, nesse contexto, ao capítulo do livro em que ele se dispõe a nos contar algo sobre a gênese, a construção da classe média brasileira. Não há como sintetizar o pensamento de Jessé, o que é muito bom para quem o lê, mas não muito fácil para alguém que se dispõe, como eu agora, a resenhar seu livro. Vou tentar, de maneira mais honesta e imparcial, porque acho de uma importância fundamental buscar reflexões que nos levem a sair do pensamento binário.

Não há como entender a formação da classe média sem prestar atenção à figura dos “agregados”. Eram os homens livres, aqueles para quem não havia trabalho porque não eram escravos. Eles foram se juntar aos ex-escravos – abandonados pela “abolição” meramente formal. Forma-se assim “uma das maiores classes sociais do Brasil moderno: a ralé estrutural de despossuídos e abandonados”. A eles restará sempre um lugar subalterno, vítima da exploração econômica, da exclusão política. No campo e na cidade.

“A herança da escravidão não irá contaminar apenas a ralé, negra e mestiça, mas todas as classes populares. E isto é decisivo para entender a posição e atitude das frações da classe média em relação às classes populares”, escreve o autor.

Jessé é um crítico contumaz da teoria que diz que os brasileiros herdaram dos portugueses o tino pela corrupção. Para ele, somos uma sociedade escravocrata, e é assim que devemos entender a divisão de classes. Engolimos, portanto, goela abaixo, a ideia da corrupção, que não passa de um instrumento para dominar e colonizar as pessoas, garantindo que a inferioridade seja moralizada.

É um dos momentos em que Jessé desconstrói por completo o senso comum. A partir desta autoimagem negativa, degradada, “99,9% dos brasileiros, sejam ou não intelectuais, vão identificar o grande problema brasileiro como sendo apenas a corrupção no Estado e na Política”. Para o autor, é mais fácil manipular aquele que pensa que não vale muita coisa. Jessé chama a isso de “liberalismo vira-lata”. Peço que ele destrinche um pouco mais esta ideia:

“Só pensamos na corrupção da ‘política’, que obviamente existe e é recriminável, claro. Mas a corrupção verdadeira, tanto a ilegal quanto a legalizada, do mercado financeiro e de seus donos, nunca é repercutida e sequer problematizada. Exemplo: só de evasão de impostos, um crime claro, os ricos possuem 500 bilhões de dólares em paraísos fiscais. A “lava jato”, após cinco anos de scanner da corrupção seletiva da política recuperou menos de um bilhão de dólares. Pergunto, nos meus livros, qual das corrupções deixa o país mais pobre e é mais letal?”

Estamos vivendo, segundo o autor, um momento histórico, marcado pela dominação simbólica, social e econômica do capital financeiro. Jessé diz que esta dominação, um tanto difusa e de amplo espectro, é feita de caso pensado: “Como não se sabe quem oprime, as causas são buscadas em causas falsas e em bodes expiatórios como vimos nos EUA e Brasil recentemente”.

Não é uma leitura para acalmar, pelo contrário. É um livro que tira da zona de conforto. Jessé não dialoga com o senso comum, ele mostra os pontos-chave onde se pode detectar rastros desta dominação simbólica. Ele aponta, por exemplo, o uso das expressões corriqueiras. Igualdade de gênero e raça é mais fácil de se ouvir do que redistribuição de riquezas.

“Isso explica como o capital financeiro, por meio de sua imprensa e da indústria cultural, conseguiu dividir a resistência democrática e separar o que é inseparável”.

A doença de nosso tempo é o esgotamento, a depressão. Parece que, em algum momento, as pessoas não têm mais armas de autodefesa. Jessé explica:

“O novo capitalismo explora todo mundo 24 horas por dia e retirou a possibilidade de que isso seja explicitado e sentido como opressão. Daí as doenças típicas da época. Se não se sabe quem nos deixa infeliz, a raiva passa a ser dirigida contra nos mesmos”.

A parte final do livro é de depoimentos, que Jessé foi construindo como um mosaico, com histórias reais colhidas ao longo das entrevistas que fez para o livro, que começou a escrever no fim de 2015. São relatos que existiram, mas nenhuma daquelas pessoas, de fato, existe.

Assim como grande parte de sua bibliografia, “A classe média no espelho” é mais uma contribuição de Jessé Souza para se refletir melhor sobre os alicerces de nosso tempo. Ele está feliz, comemora, porque é o livro que mais recebeu elogios de toda a sua bibliografia.

“Acho que fiz meu melhor livro, ainda mais compreensível e claro”, disse ele.

Vale a leitura.

Sexóloga discute relações em tempos de Tinder: “O amor nos dá mais medo do que o sexo”, por RITA ABUNDANCIA

Comentario sexigenario +---as verdades simples e faceis. Basta ler e entender. Mas, quando a "culpa" morre solteira........fica dificil.
----------------------------------------------------------------------------------
A sexóloga Lorena Berdún fala sobre os relacionamentos nos tempos do Tinder.
Ela ajuda as pessoas a encontrar parceiros graças via colaboração com uma agência de 'matchmaking'



Encontrar um parceiro era, até pouco tempo atrás, uma atividade paralela à existência, sem muito barulho, a menos que alguém fosse muito estranho ou especial. Mas parece que a vida terceirizou esse serviço, que está agora a cargo de sites de namoro e, para quem tem mais dinheiro, das modernas agências matrimoniais com seus serviços de matchmaking, coach de casal ou diagnóstico emocional.

Não só os quarentões divorciados, com um histórico de queixas e um alto nível de exigência inversamente proporcional ao de tolerância e aceitação, veem como suas expectativas de encontrar sua meia-laranja são tão numerosas quanto as de encontrar um bom emprego. Muitos jovens também têm saudade do tempo de seus pais: um universo analógico em que as pessoas falavam cara a cara e em que as discotecas serviam para mais coisas além de dançar, beber ou tomar estimulantes. 
“Em uma das últimas oficinas de sexualidade que dei para adolescentes, um rapaz me disse que invejava muito a minha geração porque podíamos paquerar nos bares”, comenta Lorena Berdún. “Agora é mais complicado. Se você se aproxima de alguém, é muito provável que te diga que está com amigos ou que faça cara feia. A comunicação online é, no entanto, muito mais fluida. E isso é uma pena.”

Esta psicóloga e sexóloga que se tornou popular na televisão espanhola, na brevíssima história dos programas de sexo, há mais de 20 anos aconselha os espanhóis em questões tão espinhosas. 
Especificamente, desde que em 1997 começou um consultório sobre “amor, sexo e ternura” na revista Bravo. Recentemente, Lorena passou a fazer parte da equipe de Tu Pareja Perfecta (Teu Parceiro Perfeito), uma agência de matchmaking, na qual colabora como psicóloga e sexóloga ao lado de Montaña Vázquez, fundadora, e Marta Brenta, coach de empreendimento pessoal.

Pergunta. Costumo comparar o fato de procurar um parceiro, hoje em dia, com as tarefas de procurar um emprego ou um apartamento. Existem muitos, mas os bons já foram tomados e, por outro lado, tornou-se uma tarefa árdua. Decepcionante, na maioria das vezes. Tornou-se tão difícil que é preciso procurar assessoria externa?

Resposta. Acho que existem várias coisas. A falta de tempo, por um lado, ou o fato de querermos que as coisas sejam muito fáceis e saiam espontaneamente, e isso nem sempre é possível. Mas sim, quando começamos a procurar a meia-laranja de forma ativa (não me refiro a esperar que a vida a traga para nós), pode se tornar um trabalho... e as novas tecnologias nem sempre facilitam essa tarefa. O que não exclui que exista gente que possa ter conhecido seu parceiro no Tinder ou em outro site de namoro.

P. Nunca entendi muito bem o que é matchmaking. Essa técnica que procura a pessoa com afinidades e que quase sempre se baseia em selecionar pessoas com gostos, interesses e status semelhantes. Muitos dos grandes amores da história foram entre pessoas diferentes.

R. Eu não saberia dizer em se baseiam exatamente, mas a agência Tu Pareja Perfecta não tem um banco de dados; a pessoa expõe seus gostos e preferências e são buscados candidatos que se encaixem nesse perfil. Como se encontra o parceiro perfeito?... seria a pergunta do milhão. Qual é a faísca, a âncora, a conexão emocional que faz alguém gostar de você até esse ponto? O que fazemos é te apresentar às pessoas indicadas e propiciar oportunidades para que a natureza faça o resto. E, por outro lado, preparamos você para que essa busca não seja um remendo para certas carências. Eu não faço matchmaking, eu assessoro sobre assuntos de psicologia e sexologia. Procuro fazer com que a pessoa que procura outra vá com seu melhor eu.

P. Muitas vezes a busca por um parceiro é um ato desesperado. Somos como pedintes mendigando companhia, amor, sexo. E isso, imagino, não é um bom começo.

R. É a melhor maneira para acabar em relacionamentos tóxicos. É por isso que nesta empresa você tem que ter o amor próprio muito trabalhado, porque do contrário é pão para hoje e fome para amanhã. Mas ainda há muitas pessoas que procuram em seu parceiro em potencial quem as salve, quem as tire do tédio, quem seja sua mãe, quem resolva seus problemas sexuais...


P. Talvez tenhamos uma ideia inadequada do que é o casal, do que se deve esperar. Talvez seja um modelo que não evoluiu e que precisa ser atualizado.

R. Sim, mas como atualizá-lo? Porque o fato de amar alguém tem poucas adaptações possíveis. E não importa se é uma pessoa ou são duas, ou se o casal é fechado, aberto ou se pratique o poliamor. Trata-se sempre de dar e receber amor. O que eu acho que se deve ter claro é o que se quer e se espera dessa relação e definir as bases e as leis da mesma. Porque um casal é o que seus membros querem que seja. Já existem muitos modelos de casais, não é como antes, que havia apenas um. E se nenhum desses se ajusta, se pode criar um novo. Tudo o que é necessário é o consentimento das partes.

P. O problema agora é que talvez as pessoas esperem ou peçam demais nesse “mundo feliz”. Quais são os conceitos e ideias equivocadas mais comuns que nos impedem de encontrar um parceiro, ou que acabam destruindo o casal que já temos?

R. O primeiro é sempre a falta de comunicação. Temos um individualismo muito exacerbado e é difícil para nós dizer o que queremos, o que gostamos. Isso é muito importante no início de um relacionamento e, geralmente, se fala muito pouco sobre essas coisas na fase da paixão. Não podemos pretender que o outro leia nossos pensamentos e depois recriminá-lo porque não conhece nossas preferências. E, além disso, é preciso saber dizer as coisas, de forma amável e sem ferir.

A hiperexigência e o perfeccionismo são outros obstáculos. Definir expectativas muito altas e criar sua própria história com antecedência. Aplicar a metodologia do trabalho a esse campo, fixando objetivos muito definidos, é um erro. O melhor é estar aberto e disponível, em vez de se dedicar a fazer listas do que queremos. E então há sempre muito medo, medo de que te rejeitem, de que te partam o coração, medo do fracasso. O amor não é um conto de fadas e às vezes se pode sofrer, mas isso nos dá pânico. Também vejo pouca tolerância nos casais. À menor mudança se rompem. Estabelecemos um limiar de exigência muito fino, procuramos a pessoa perfeita e ela não existe.

P. Ultimamente a guerra dos sexos parece ter se intensificado. Uma fração do setor masculino vê o feminismo como uma ameaça, como o apocalipse, e as mulheres como seres sedentos de sangue e vingança, enquanto, por outro lado, algumas mulheres culpam todos os homens pelo patriarcado e veem em cada homem um machista em potencial. Imagino que isso torne a interação entre os sexos mais complicada.

R. Tenho muitas conversas com amigos sobre este assunto. Existe certa crispação no ambiente, resultado do fato de estarmos vivendo um momento de reajuste, de luta de poderes. Os homens estão confusos, muitos veem como seu trono desmorona e alguns reagem mal, mas, em geral, estão muito perdidos. Na terapia, muitos me dizem que não sabem como se aproximar das mulheres. Ao mesmo tempo, elas também não têm muito claro qual novo modelo masculino gostariam, como deveria ser. Por exemplo, supõe-se que a mulher pode e deveria tomar a iniciativa em matéria de aproximação, mas muitas não ousam e continuam esperando que seja ele. Existe um grande desencontro.

P. Estamos perdendo habilidades, como raça humana, para a conquista?

R. Supõe-se que deveria ser algo inato, um instinto, mas nas sociedades superdesenvolvidas a comunicação, apesar dos inúmeros caminhos que temos para isso, é cada vez mais complicada. Estamos nos fechando em nós mesmos. Cada um está imerso em seu mundo pessoal: levantar os olhos, ver os outros, falar com eles, é cada vez mais raro. É muito provável que, se alguém se aproxima de outra pessoa, esta se esquive, responda mal ou faça cara feia. Como então vamos encontrar alguém? O roçar, o cara a cara, o contato, isso está se perdendo. Na verdade, eu diria que combinar com alguém online para ir para a cama é quase mais fácil do que marcar para conhecê-lo ou tomar uma bebida, porque o amor nos dá mais medo do que sexo.

P. Qual é a idade mais crítica para ficar sozinho e ter de buscar companhia? Aqueles na faixa dos 40-50 anos, em que as pessoas já estão ressabiadas, suas exigências são muito altas e suas energias cada vez mais baixas?

R. Sim, essa é uma idade complicada porque a bagagem de cada um já é muito grande e nos tornamos exigentes, não queremos passar por certas coisas outra vez e, além disso, é muito normal que nessa idade já tenham crianças no meio. Um perfil dessa idade é bastante comum nas agências de matchmaking porque o funil se estreita e aparecem os limites. Mas, embora a idade dificulte as coisas, o inimigo de encontrar um parceiro é mais a atitude.

P. Quais conceitos equivocados ainda temos em torno da ideia do amor e do sexo?

R. Na cama esperamos que tudo seja espontâneo e que corra bem. Temos muitas expectativas e também esperamos que elas surjam por si sós e, quando isso não acontece, tentamos forçar o espontâneo. Devemos nos deixar levar, aproveitar o presente, vivê-lo e nos permitir que o que vier em seguida nos surpreenda. No amor, volto ao assunto da comunicação. Nós não nos comunicamos. Não sabemos falar essa linguagem.

P. Você teve um consultório de sexo e relacionamentos na revista Bravo, em 1997. Quais problemas preocupavam os espanhóis na época e agora?

R. Basicamente os mesmos. É verdade que a sociedade mudou desde então, as mulheres agora tomam mais iniciativa e se familiarizaram com a masturbação; mas, no fundo, as pessoas se preocupam com as mesmas coisas: falta de desejo, que antes era um problema mais feminino e agora afeta cada vez mais os homens, ejaculação precoce, disfunção erétil, falta de sexo em relacionamentos de longo prazo. É verdade que há menos perguntas sobre como uma mulher pode engravidar, mas o que é incrível é a enorme falta de conhecimento dos adolescentes. Eles ainda têm dúvidas muito básicas sobre anticoncepcionais, preservativos, questões relacionadas à menstruação. E então, existe uma geração inteira que repete comportamentos machistas, tanto eles quanto elas (cuidado!). 
Há muito maltrato verbal, os jovens são muito agressivos uns com os outros, vejo pouco respeito e carinho. Em uma palestra para adolescentes que dei em um centro, propus que dissessem palavras relacionadas à sexualidade ou que esse termo fosse definido. Em nenhum momento saiu a palavra amor. Tenho um filho de nove anos e gostaria que ele vivesse outra realidade. Uma mais analógica e amável, com menos máquinas e mais relações humanas.

Arte de RAFAEL

random image

'Apego a poder, dinheiro é um vício', diz Sérgio Cabral em depoimento na Justiça Federal do RJ, por Arthur Guimarães, Leslie Leitão e Paulo Renato Soares

Ex-governador detalha esquema de propina em sua gestão, cita ex-colaboradores e o ex-governador Luiz Fernando Pezão. Ele também disse estar arrependido por não ter falado das propinas anteriormente.

Ex-governador Sérgio Cabral detalha desvios dos cofres públicos

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral prestou depoimento, na tarde desta terça-feira (26), na 7ª Vara Criminal Federal, no Centro.

Na audiência pedida pela defesa do ex-governador, ele deu mais detalhes sobre os esquema de corrupção, voltou a admitir ter recebido propina e chegou a dizer que dinheiro e poder são um "vício".

Cabral foi preso na Operação Lava Jato em novembro de 2016 e suas condenações somam 198 anos e 6 meses de prisão.

O que disse Cabral:
  1. admitiu que o esquema de "toma lá dá cá" era instituído no governo;
  2. que empresários dão dinheiro a campanhas em troca de vantagens;
  3. disse que recebeu mais de R$ 30 milhões de propina e caixa 2 do empresário Arthur Soares, o Rei Arthur;
  4. pediu desculpas ao juiz Marcelo Bretas por ter mentido antes: 'Dói muito';
  5. confirmou que US$ 100 milhões nas contas dos irmãos Chebbar no exterior eram dele;
  6. que 90% do que diz o delator Carlos Miranda é verdade;
  7. que o ex-governador Pezão recebeu propina e mesadas.
  8. que o ex-prefeito Eduardo Paes recebeu dinheiro de empresários ligados a ele para a campanha, mas que não fazia parte da organização.
Côrtes e Fichtner
No início da audiência, Cabral citou os nomes de ex-colaboradores no governo como o ex-secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, e Régis Fichtner, ex-chefe da Casa Civil do RJ. O ex-secretário de saúde está presente na audiência desta terça.

‘Apego a poder, a dinheiro... isso é um vício’, diz Cabral ao descrever divisão de propina

"Vim aqui para falar a verdade. Conheci Sérgio Côrtes na campanha de 2006 mais proximamente. Quando acabou a eleição eu falei para o Côrtes que tinha um contrato com o Arthur Soares e combinamos uma propina de 3% para mim e 2% para você. Antes nos governos anteriores Arthur disse que a propina era de 20%. Esse foi meu erro de postura, apego a poder, dinheiro... é um vício", disse o ex-governador.

O ex-governador Sérgio Cabral também afirmou estar arrependido por não ter falado de propinas anteriormente.

Sérgio Cabral e Sérgio Côrtes durante o governo do RJ — Foto: Reprodução

Pezão
Sérgio Cabral confirma mesadas e propinas a ex-governador Pezão

O ex-governador contou ainda que o então vice-governador Luiz Fernando Pezão (MDB), que acumulou o cargo, inicialmente, com a secretaria de Obras também recebia propinas. Segundo ele, o valor enviado a Pezão chegava a R$ 150 mil mensais.
"Pezão pediu a mim. Do Pezão, eu mandava entregar para ele. Eram cerca de R$ 150 mil por mês", disse
O ex-governador Pezão está preso desde o dia 29 de novembro do ano passado, em operação da Polícia Federal, no Palácio Laranjeiras. A prisão foi baseada em delação de Carlos Miranda, operador financeiro de Cabral, que disse ter feito pagamento de mesada de R$ 150 mil para Pezão, com direito a 13º de propina e bônus de R$ 1 milhão.

A defesa do ex-governador Pezão disse que ainda não teve acesso à íntegra das declarações, razão pela qual não irá comentar o depoimento de Sérgio Cabral.

Cabral explicou ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, o motivo de ter decidido falar das propinas no seu governo após mais de dois anos na prisão.

"O que minha família tem passado. E o senhor[ juiz] colocou um ponto importante: É uma situação histórica. Em nome da minha mulher[Adriana Ancelmo], da família e do momento histórico resolvi falar. Hoje sou um homem mais aliviado e vou ficar cada vez mais aliviado. Por isso decidi falar a verdade para ficar bem comigo mesmo", explicou.

Régis Fichtner, ex-chefe da Casa Civil do governo Sérgio Cabral — Foto: Reprodução

Secretários
No depoimento, Cabral citou secretários que sabiam dos esquemas de propina dentro do governo e outros que não sabiam da organização para recebimento do dinheiro.

Os isentos de cobrança de propina são: Renato Villela e Joaquim Levy, que ocuparam a secretaria de Fazenda e Nelson Maculan e Wilson Risolia, que foram secretários de Educação.

Os que tinham conhecimento do esquema criminoso: Régis Fichtner, Wilson Carlos, Carlos Miranda e Hudson Braga. De acordo com o ex-governador, houve esquemas em todas as áreas da saúde estadual: escadas magirus, carros de bombeiros, caminhão da ressonância, tomógrafo móvel.

“Atendemos milhões de pessoas. Poderíamos ter atendido mais”, explicou Sérgio Cabral.

Eduardo Paes
Ex-governador Sérgio Cabral diz que empresários doaram dinheiro para campanha de Paes

O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, também foi citado no depoimento. Segundo Cabral, Paes, que foi seu ex-secretário de Esporte e Lazer, não participava do esquema de propinas, mas disse que montou o esquema de Caixa 2 de Eduardo Paes para a prefeitura. Segundo ele, o valores eram repassados para o deputado Pedro Paulo.

Sérgio Cabral diz que ajudou a recolher dinheiro via caixa 2 para campanha de Paes

Em audiências anteriores, Cabral negou que o dinheiro repatriado pelos doleiros irmãos Chebar, que repatriaram em 2017 o valor de R$ 270 milhões de reais como parte de um acordo de delação premiada. Nesta terça, Cabral mudou de postura e admitiu que o dinheiro era dele.

O ex-prefeito Eduardo Paes disse que todos os valores recebidos na campanha de 2008 foram declarados à Justiça Eleitoral e que as contas foram aprovadas. O ex-prefeito ressaltou que o depoimento de Sérgio Cabral revelou que ele nunca pediu propina, não beneficiou qualquer empresa e nem fez parte de qualquer organização criminosa.

O deputado Pedro Paulo (DEM)) disse que nunca participou de qualquer reunião ou arrecadação de campanha que não tenha sido devidamente contabilizada e declarada à Justiça Eleitoral na prestação de contas.

Dom Orani Tempesta e Miguel Iskin
Ex-governador Sérgio Cabral aponta envolvimento da Arquidiocese do Rio em esquemas
Sem dar nenhum detalhe, valores ou datas, Cabral fez acusações graves à Arquidiocese do Rio de Janeiro. Ele disse não ter dúvidas do envolvimento da Arquidiocese com esquema de propinas envolvendo as Organizações Sociais.

"Eu não tenho dúvida de que deve ter havido esquema de propina com a Igreja Católica. Da Pró-Saúde[OS] eu não tenho dúvida, o Dom Orani devia ter interesse nisso.

Com todo respeito ao Dom Orani, mas ele tinha interesse nisso, tinha o Dom Paulo (sem dar o nome completo) que era padre e tinha interesse nisso e o Sergio Côrtes nomeou a pessoa que era o gestor do Hospital São Francisco, que fazia um belo trabalho, cá entre nós. Nós atendemos a idosos com trauma de quadril, por conta também desse vínculo com a profissão dele com os interesses do Iskin [Miguel]. Essa Pró-Saúde certamente tinha esquema de recursos que envolvia inclusive religiosos", afirmou Cabral

A Arquidiocese divulgou nota informando que o único interesse da Igreja Católica no Rio e de seu arcebispo, Dom Orani Tempesta, é de que as organizações sociais cumpram seus objetivos de servir ao bem comum, respeitando as leis.

Miguel Iskin divulgou nota sobre a citação do nome dele no depoimento. "O desespero leva pessoas a inventar fatos. Difícil dar credibilidade a acusações, antes negadas, de quem está condenado por mais de 300 anos de prisão”.

A Pró-Saúde afirmou em nota, que "tem colaborado com as investigações e, em virtude do sigilo do processo, não se manifestará sobre os fato. A entidade filantrópica reafirma neste momento o seu compromisso com ações de fortalecimento de sua integridade institucional, bem como com a prestação de um importante serviço à saúde do Brasil".

Recebimento de propina
Sérgio Cabral admitiu pela primeira vez, em depoimento na semana passada ao Ministério Público Federal (MPF), que recebeu propinas em obras, contratos com fornecedores e negociações envolvendo o governo do estado.

Durante o depoimento, Cabral falou de valores ilícitos supostamente pagos durante a reforma do Maracanã, desapropriação do Porto do Açu, Linha 4 do Metrô, entre outros episódios.

A pena do ex-governador do RJ em todas as nove condenações chega a 198 anos e 6 meses.

Tribunal de Nova York proíbe ex-advogado de Trump de exercer profissão, NAS FÖLHAS

Michael Cohen foi condenado em dezembro a três anos de prisão, mas início da pena foi adiado em dois meses por questões de saúde. Nesta quarta (27) ele irá falar sobre seus crimes e o presidente perante comitê da Câmara no Congresso.

Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, deixa seu prédio para audiência em corte federal em Manhattan, Nova York, em 21 de agosto de 2018 — Foto: AP Photo/Richard Drew

Um tribunal federal de Nova York proibiu Michael Cohen, ex-advogado pessoal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de exercer sua profissão, uma consequência da condenação a três anos de prisão em dezembro do ano passado.

Apesar da condenação, o juiz William H. Pauley III adiou em dois meses no último dia 20 de fevereiro a data da prisão de Cohen, prevista inicialmente para ocorrer esta semana.

Nesta quarta (27), ele irá testemunhar perante o Comitê de Supervisão da Câmara no Congresso. A audiência tinha sido originalmente programada para o dia 7 de fevereiro, mas foi adiada depois que Cohen afirmou ter sofrido ameaças de Donald Trump.

Cohen tinha alegado que precisava de tempo para se recuperar de uma "cirurgia séria" e para resolver assuntos pessoais pendentes, segundo a Efe. A defesa do ex-advogado de Trump também alegou que ele precisa de tratamento intensivo para se recuperar e acompanhamento médico.

O ex-advogado de Trump se declarou culpado de cometer oito crimes, entre eles sonegação fiscal. Cohen também admitiu ter organizado, a pedido do agora presidente americano, pagamentos para garantir o silêncio de duas mulheres que tiveram relações extramatrimoniais com o empresário republicano.

No último dia 28 de janeiro, Cohen trocou de advogados, mas anunciou que seguiria cooperando com a Justiça. Na época, ele se comprometeu a contar a verdade ao Congresso em uma audiência.