quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

LITERATURA - Maria Bonita, a rainha do cangaço - em 10 fotos

Em biografia de Maria Bonita, Adriana Negreiros conta a história do cangaço do ponto de vista das mulheres do bando de Lampião e resgata imagens históricas do fotógrafo Benjamim Abrahão

1A casa dos pais de Maria Gomes de Oliveira, na Malhada do Caiçara (BA), um dos coitos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.FOTO DE AUTOR DESCONHECIDO

2A Rainha do Cangaço em trajes de festa: cabelos ao estilo das melindrosas, dedos tomados por anéis e uma profusão de colares no pescoço.BENJAMIN ABRAHÃO

3Maria e Lampião com os cães de estimação. Ele mostra para a câmera um exemplar da revista 'A Noite Ilustrada'.BENJAMIN ABRAHÃO

4Maria Bonita penteia o cabelo de Lampião, em raro registro da intimidade do casal.BENJAMIN ABRAHÃO

5O casal de cangaceiros Pancada e Maria Jovina, do bando de Lampião.BENJAMIN ABRAHÃO

6A cangaceira Cristina, considerada de "feiura espantosa" e morta por suspeita de traição. 
Na imagem, aparece ao lado de Português, seu companheiro, e Atividade.BENJAMIN ABRAHÃO

7As cangaceiras Nenê, Maria Jovina e Durvinha.BENJAMIN ABRAHÃO

8Bando de Lampião, com Maria Bonita em primeiro plano.BENJAMIN ABRAHÃO

9Bando de Corisco, com as cangaceiras Dadá e Maria Jovina.BENJAMIN ABRAHÃO

10Maria Gomes de Oliveira, que entrou para a história como Maria Bonita.

Arte de MARIANO

random image

“No Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”, por MARIANA SIMÕES

Sociólogo que estuda as milícias há 26 anos explica as relações entre legisladores e milicianos

Boxes de camelódromo que seriam de milícia foram fechados por ação da Prefeitura do Rio em abril de 2018. TOMAZ SILVA 

Na semana passada, a operação “Os Intocáveis” prendeu integrantes da milícia que opera em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um dos alvos da operação foi o ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de chefiar a milícia de Rio das Pedras e integrar o grupo de extermínio Escritório do Crime — atualmente investigado pela morte de Marielle Franco. Sua mãe e sua esposa já trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Flávio também havia homenageado Adriano com a Medalha Tiradentes, a maior honraria concedida pela Alerj.

Mas a notícia não surpreendeu o autor do livro Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense, José Cláudio Souza Alves. Sociólogo e ex-pró-reitor de Extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio estuda as milícias há 26 anos. Em entrevista à Pública, ele resume, com veemência: “A milícia é o Estado.”

“São formadas pelos próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador. É um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente. Sem essa conexão direta com a estrutura do Estado não haveria milícia na atuação que ela tem hoje,” acrescenta.

Segundo José Cláudio, é comum familiares de milicianos serem empregados em gabinetes de deputados e vereadores. “Isso é muito comum. Esse vínculo lhe dá poder naquela comunidade. Ele vai ser chamado agora na comunidade: ‘Olha é o cara que tem um poder junto lá ao deputado, qualquer coisa a gente resolve, fala com ele, que ele fala com a mãe e com a esposa e elas falam diretamente com o Flávio e isso é resolvido’”.

Nessa entrevista, ele explica a origem desses grupos e suas ligações com a política: “Cinco décadas de grupo de extermínio resultaram em 70% de votação em Bolsonaro na Baixada”.

Leia os principais trechos.

Pergunta. Como nasceram as milícias do Rio de Janeiro?
Resposta. Isso estourou na época da ditadura militar com muita força. Em 1967 surge a Polícia Militar nos moldes atuais, de força ostensiva e auxiliar aos militares naquela época. 
E a partir daí há o surgimento dos esquadrões da morte. No final dos anos 1960, as milícias surgiram como grupos de extermínio compostos por Policiais Militares e outros agentes de segurança que atuavam como matadores de aluguel.

Esses esquadrões da morte vão estar funcionando a pleno vapor nos anos 1970. Depois começa a surgir a atuação de civis como lideranças de grupos de extermínio, mas sempre em uma relação com os agentes do Estado. Isso ao longo dos anos 1980. Com a democracia, esses mesmos matadores dos anos 1980 começam a se eleger nos anos 1990. Se elegem prefeitos, vereadores, deputados.

De 1995 até 2000, você tem o protótipo do que seriam as milícias na Baixada, Zona Oeste e no Rio de Janeiro. Elas estão associadas a ocupações urbanas de terras. 
São lideranças que estão emergindo dessas ocupações e estão ligadas diretamente à questão das terras na Baixada Fluminense. A partir dos anos 2000, esses milicianos já estão se constituindo como são hoje. São Policiais Militares, Policiais Civis, bombeiros, agentes de segurança, e atuam em áreas onde antes tinha a presença do tráfico, em uma relação de confronto com o tráfico. Mas ao mesmo tempo estabelecem uma estrutura de poder calcado na cobrança de taxas, na venda de serviços e bens urbanos como água, aterro, terrenos.

Segundo José Cláudio, sociólogo e ex-pró-reitor de Extensão da UFRRJ, é comum familiares de milicianos serem empregados em gabinetes de deputados e vereadores

P. Há apoio da população às milícias?

R. A milícia surge com o discurso que veio para se contrapor ao tráfico. E esse discurso ainda cola. Só que com o tempo a população vai vendo que quem se contrapõe a eles, eles matam. E eles passam a controlar os vários comércios. Então a população já começa a ficar assustada e já não apoia tanto. É sempre assim a história das milícias.

P. Qual a história de Rio das Pedras?
R. Rio das Pedras é uma comunidade em expansão onde vivem nordestinos muito pobres. Existem terrenos lá que você não pode construir porque são inadequados, são muito movediços. Então só tem uma faixa específica de terra onde você pode construir. São terras irregulares, devolutas da União, ou terras de particulares que não conseguiram se manter naquele espaço. Então a milícia passa a controlar, toma e legaliza — às vezes até via Prefeitura mesmo, pagando IPTU desses imóveis. Como o sistema fundiário não é regulado, facilmente os milicianos têm acesso a informações e vão tomar essas áreas. E passam a vendê-las.

P. Rio das Pedras foi a primeira milícia do Rio?
R. Não é bem assim. Ao meu ver a milícia surgiu em diferentes lugares ao mesmo tempo, simultaneamente. Então tem Rio das Pedras, mas tem Zona Oeste do Rio e tem, por exemplo, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Eu percebo dos anos 1995 a 2000, grosso modo, um período de emergência dessas ocupações urbanas de terras, ainda não no protótipo de milícias, mas com lideranças comunitárias próximas ao que seria um controle pela violência, um controle político mais autoritário.
Só que Rio das Pedras ela emerge mais rapidamente. Então ali começa esse vínculo da cobrança de taxa, que nas outras ainda não tinha. E são os comerciantes que pagam a eles.

É uma comunidade miserável, empobrecida, que está se constituindo a partir de uma rede migratória de nordestinos. E ela fica diante de um grupo de milicianos que estão sendo chamados para dar proteção, impedir que o tráfico entre. Mas na verdade é para proteger os interesses comerciais desses lojistas que estão se instalado lá em Rio das Pedras e estão financiando esses caras.

P. Hoje são quantas as milícias do Rio de Janeiro?
R. Eu tenho noção de que são muitas. Por exemplo, são várias que atuam em São Bento e no Pilar, que é o segundo maior distrito de Duque de Caxias. Tem em Nova Iguaçu, tem em Queimados. Praticamente cada município da Baixada Fluminense você tem a presença de milícias. Seropédica, por exemplo, hoje é uma cidade dominada por milicianos. Eles controlam taxas de segurança que cobram do comércio. Aqui tem os areais, de onde se extrai muita areia — e muitos são clandestinos. Então eles também cobram dali. Moto-táxi tem que pagar 80 reais por semana para funcionar. Pipoqueiro paga 50 reais por semana. É uma loucura.

Dizem que é para a segurança, proteção, eles estão supostamente protegendo esse comércio. Mas depois controlam a distribuição de água, de gás, de cigarro, de bebida. E há histórias de assassinato de gente que não aceitou, por exemplo.

Além disso, eles são pagos para fazer execuções sumárias. Então há um mercado que movimenta milhões já há algum tempo.

Eles também lidam com tráfico de drogas, com algumas facções especificas. O Terceiro Comando Puro funciona aqui em algumas cidades da baixada a partir de acordos com milicianos. Eles fazem acordo com o tráfico e vão ganhar dinheiro também disso. Cobram aluguel de áreas. É a mesma relação que a polícia tem com o tráfico: só funciona ali se você pagar suborno.

P. Na cobertura feita pelos jornais sobre a operação “Os Intocáveis”, eles citam o Escritório da Morte, um grupo de extermínio que é contratado para matar. Isso é comum?
R. Sim. Nunca ouvi falar de milícia que não tivesse a prática de execução sumária. Normalmente a milícia tem uma equipe ou um grupo responsável por execuções sumárias. O comerciante que não quiser pagar, o morador que não se sujeitar a pagamento do imóvel que ele comprou, qualquer negócio e discordância com os interesses da milícia, esse braço armado é acionado e vai matar.

A novidade da milícia é o leque de serviços que eles abrem além da execução sumária e da segurança. Aí é tudo: água, botijão de gás, “gatonet”, transporte clandestino de pessoas, terra, terrenos, imóveis. A milícia não fica agora fixa em grandes comerciantes ou grandes empresários. Ela pulveriza isso. Eles vão sofisticando também na administração do gerenciamento.

P. Em que outros negócios ilegais os milicianos atuam?
R. Lá em Duque de Caxias eles roubam petróleo dos oleodutos da Petrobras e fazem mini destilarias nas casas das pessoas. Tudo ilegal, com um risco imenso. Aí vendem combustível adulterado. Eles fazem aterros clandestinos no meio daquela região com dragas e tratores e vão enterrando o lixo de quem pagar. É 1.000 reais por caminhão. Não importa a origem. Pode ser lixo contaminante, lixo industrial, lixo hospitalar. Eles fazem aterros clandestinos nesta região.

P. A milícia tem controle também sobre bens públicos, como aterros, e eles se apropriam desses espaços para fazer atividades ilegais…
R. A base de uma milícia é o controle militarizado de áreas geográficas. Então o espaço urbano, em si se transforma em uma fonte de ganho. Se você controla militarmente, com armas por meio da violência esse espaço urbano, você vai então ganhar dinheiro com esse espaço urbano. De que maneira? Você vende imóveis. Por exemplo, você tem um programa do governo federal chamado Minha Casa Minha Vida. Você constrói habitações. Aí a milícia vai e controla militarmente aquela área e vai determinar quem é que vai ocupar a casa. E inclusive vai cobrar taxa desses moradores.

Em outra área eles estão vendendo imóveis e estão ganhando dinheiro com essa terra, que é terra da União ou terra de particulares. Então esse controle militarizado desses espaços, é a base da milícia. Aí como eles sabem dessas informações? Eles sabem dentro da estrutura do Estado.

Você pode ter um respaldo político para fazer isso. Vou dar um exemplo para você. Em Duque de Caxias, um número razoável de escolas públicas não é abastecido pelo sistema de água da CEDAE. A água não chega lá. Como que essas escolas funcionam? Elas compram caminhões pipa de água. Quem é o vendedor? Quem é que ganhou a licitação para distribuição de água em um preço absurdo por meio desses caminhões pipa? Gente ligado aos milicianos. Então aí você tem um vínculo com os serviços públicos — e é uma grana pesada — a que passa pelo interesse político daquele grupo dentro daquela prefeitura que vai se beneficiar de uma informação e vai ganhar dinheiro com isso.

A Baixada e o Rio de Janeiro são grandes laboratórios de ilicitudes e de ilegalidades que se associam para fortalecer uma estrutura de poder político, econômico, cultural, geograficamente estabelecido e calcado na violência, no controle armado.


P. A milícia surgiu no Rio de Janeiro pela ausência do Estado?
R. Há uma continuidade do Estado. O matador se elege, o miliciano se elege. Ele tem relações diretas com o Estado. Ele é o agente do Estado. Ele é o Estado. Então não me venha falar que existe uma ausência de Estado. É o Estado que determina quem vai operar o controle militarizado e a segurança daquela área. Porque são os próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador, é um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente.
Eu sempre digo: não use isso porque não é poder paralelo. É o poder do próprio Estado.
Eu estou falando de um Estado que avança em operações ilegais e se torna mais poderoso do que ele é na esfera legal. Porque ele vai agora determinar sobre a sua vida de uma forma totalitária. E você não consegue se contrapor a ela.

P. Mas, por outro lado, quem elege os políticos milicianos é a população….
R. Não venha dizer que o morador é conivente, é cúmplice do crime. Esse pessoal elegeu o Flávio Bolsonaro, que agora se descobriu que ele tem possivelmente vínculos com esses grupos? Elegeu. Mas que condições que essas pessoas vivem para chegar nisso? Essas populações são submetidas a condições de miséria, de pobreza e de violência que se impõem sobre elas.
Cinco décadas de grupo de extermínio resultaram em 70% de votação em Bolsonaro na Baixada.

Três gestões do PT no governo federal, 14 anos no poder, não arranharam essa estrutura. Deram Bolsa Família, vários grupos políticos se vincularam ao PT e se beneficiaram, mas o PT não alterou em nada essa estrutura. O PT fez aliança eleitoral, buscou apoio desses grupos.

P. Como você mencionou a história do Flávio Bolsonaro: o que liga o gabinete de um político a um miliciano, como foi no caso dele com a mãe e a esposa do Adriano Magalhães da Nóbrega?
R. O discurso da família Bolsonaro, a começar pelo pai já há algum tempo, e posteriormente o pai projetando nos filhos politicamente. Eles são os herdeiros do discurso de um delegado Sivuca [José Guilherme Godinho Sivuca Ferreira, eleito deputado federal pelo PFL em 1990], que é o cara que cunhou a expressão “Bandido bom é bandido morto”, de um Emir Larangeira [eleito deputado estadual em 1990], do pessoal da velha guarda, do braço político dos grupos de extermínio.
Esse discurso se perpetuou e se consolidou. É claro que os milicianos vão respaldar esse discurso e vão se fortalecer a partir dele. É o plano de segurança pública defendida na campanha eleitoral do Bolsonaro. Ele diz o seguinte: Policiais Militares são os heróis da nação. Policial Militar tem que ser apoiado, respaldado, vai ganhar placa de herói.
E será respaldado pela lei, através do excludente de ilicitude. Está lá no programa do Bolsonaro. Então você tem setores que desde a ditadura militar sempre operaram na ilegalidade, na execução sumária, vão escutar esse discurso. É música para o ouvido deles.

Não é à toa que o Flávio Bolsonaro fez menções na Assembleia legislativa, deu honrarias para dois desses milicianos presos.

P. Para além desse discurso simbólico, você vê também uma ligação financeira dos milicianos com os políticos?
R. Você tem uma operação por dentro da estrutura oficial política. Por exemplo, em Duque de Caxias você tem registro geral de imóveis de terra que são da União. Tem milicianos que vão levantar no cadastro geral de imóveis da prefeitura, os imóveis que estão irregulares, sem pagamento há muito tempo de IPTU. Esse miliciano começa a pagar o IPTU, parcela a dívida, quita e pede para transferir para o nome dele aquele imóvel. A prefeitura transfere. É um processo simples isso. 
Aí depois aquele proprietário não vai ter nunca coragem de exigir aquele imóvel de volta, porque está controlado militarmente.
Sem esses elementos, sem esses indivíduos, sem essa conexão direta com a estrutura do Estado, não haveria milícia na atuação que ela tem hoje. É determinante. Por isso que eu digo, que não é paralelo, é o Estado.

E tem políticos que estão sendo eleitos com essa grana. A grana da milícia vai financiar o poder de um político como Flávio Bolsonaro e o poder político de um Flávio Bolsonaro vai favorecer o ganho de dinheiro do miliciano. Isso roda em duas mãos. É determinante então que essa estrutura seja assim. Ela só se perpetua porque é assim.

P. É comum casos como a mãe e a esposa de Adriano Magalhães de Nóbrega, que foram contratadas como assessoras no gabinete de Flávio Bolsonaro?
R. Sim. Isso é muito comum. Você cria um vínculo de poder e de grana com essas pessoas. Esse cara, a partir de sua esposa e de sua mãe, cria um vínculo imediato com o Flávio Bolsonaro e isso lhe dá força. Essas duas pessoas estão fazendo um elo imediato, pessoal, familiar do Adriano com Flávio Bolsonaro. Esse vínculo lhe dá poder naquela comunidade. Ele vai ser chamado agora na comunidade “Olha é o cara que tem um poder junto lá ao deputado, qualquer coisa a gente resolve, fala com ele, que ele fala com a mãe e com a esposa e eles falam diretamente com o Flávio e isso é resolvido”.

Assim você está criando uma estrutura de poder, que é familiar. Veja bem: é o que eles defendem. Eles [os Bolsonaro] defendem a estrutura familiar. E se você investigar um pouco mais vai ser religioso também. São igrejas evangélicas, eles têm vínculo com essa estrutura. Então é uma estrutura perfeita, ela é tradicional, conservadora, ela tem a linguagem religiosa, que é linguagem de grande credibilidade.
Isso também demonstra uma forma de atuar dessas pessoas. Eles não atuam pelo ocultamento. O Adriano, Flávio Bolsonaro, o próprio Bolsonaro, os matadores da Baixada. Todos esses grupos que lidam com a violência, com a execução sumária, com o crime organizado, eles não atuam com baixo perfil.

No Brasil o que você tem é a superexposição. Eu chego e já digo. “Eu sou o cara, eu sou o matador, eu tenho vínculos com fulano, beltrano e sicrano. Eu ocupo este cargo”. Que é pra deixar bem claro se você for tentar alguma coisa é isso que você vai enfrentar.
É a base total do medo. E não é só do medo: é real.

P. Sobre esse capital político, eles têm o poder inclusive de manipular o voto da população durante o período das eleições? Existe uma rede organizada para isso?
R. Na verdade, as milícias vendem votações inteiras de comunidade. Aqui na Baixada como um todo, Zona Oeste. Fecham pacote. Eles têm controle. Eles têm controle preciso de título de eleitor, local de votação de cada título de eleitor, quantos votos vai ter ali. Eles são capazes de identificar quem não votou neles.

P. Mas não está havendo ações de desmontagem dessa estrutura, como se viu em Rio das Pedras?
R. Assim, a Operação Intocáveis pode estar dentro de um perfil mais de uma operação mais histórica. Mas eu tenho sido muito crítico a esse tipo de operação. Como a milícia é uma rede, uma rede muito grande, para cada um preso você tem 100 para entrar no lugar. Porque se você mantém a estrutura funcionando, economicamente, politicamente ela vai se perpetuar.
Ninguém toca nesses caras. Em geral, só estão tocando no tráfico. E tráfico não é o mais poderoso. Milícia é mais poderosa do que o tráfico. Milícia se elege, tráfico não se elege. A base econômica da milícia está em expansão, não é tocada, não é arranhada. Traficante não, vive morrendo e sendo morto e matando. Milícia é o Estado.
Inclusive, tem isso. Você olha para a cara dos milicianos presos, há uma tendência a serem brancos. Não há uma tendência a serem negros. Vai aparecer um ou outro no meio, um moreno, pardo. E não são magros, são bem alimentados. Eu tenho certeza de que a classe da qual pertencem os milicianos é uma classe diferenciada da classe do tráfico. Não são tão pobres assim. Não são tão negros assim. Não são tão periféricos assim.

P. Para além desse vínculo político de poder existe também algum elo financeiro? Como que os milicianos movimentam dinheiro através dessas conexões com políticos? Qual era, por exemplo, o papel do Queiroz ali no Gabinete do Flávio Bolsonaro?
R. Ah, sim, você viu que ele tem uma movimentação suspeita alta. Tem 7 milhões [de reais]. Aí você vai por dedução. Pode ser que esse cara fazia uma ponte. Ele era um assessor, mas ao mesmo tempo ele cumpria duas funções. Ele ganha um respaldo político do Flávio Bolsonaro. Ele faz o elo direto da milícia com esse gabinete. Dos interesses dessa milícia e dos que são servidos por essa milícia direito com esse gabinete. Ao mesmo tempo ele cresce na estrutura da milícia.
Não sei qual é o histórico dele. Mas de repente ele já estava na estrutura da milícia e já movimentando dinheiro. Então, por exemplo, se ele for uma frente, um cara que está na organização, por exemplo, de cobrança de taxa de segurança, ele está movimentando dinheiro. Muito dinheiro. Aí de repente ele vai movimentar parte desse dinheiro dentro da sua conta pessoal. É uma estrutura de organização que ele criou. Então esses 7 milhões [de reais] pode ser isso.

P. Isso também pode ser apenas uma transação entre várias?
R. Isso é uma ponta. Isso é uma ponta de um iceberg. O que eu gostaria muito é que se investigasse isso. Você chegaria em algo muito maior.

P-Sobre o caso da Marielle. O caso voltou aos holofotes essa semana porque os milicianos, que foram presos na operação “Os Intocáveis” integravam o Escritório do Crime, grupo suspeito de envolvimento na morte da Marielle. No final do ano passado, o secretário de Segurança Pública do Rio, Richard Nunes, afirmou que o assassinato teria relação com grilagem de terras. Você acha que a morte dela se deu porque ela atrapalhava os negócios dos milicianos?

R-Tem dois vínculos. Há esse vínculo de incomodar e prejudicar o interesse deles. Ela tinha poder para prejudicar, puxar uma CPI, exigir uma investigação para obrigar o Estado e a mídia como um todo a se voltar para isso. Se ela reproduzisse o que o Marcelo Freixo fez em 2008, dentro da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, ela daria essa expressão. Ela tinha o respaldo do Marcelo, então há uma base política que sustenta Marielle, uma base não comprometida, não vendida. Então ela é uma figura que ameaça.
E o outro elemento é ela ser mulher. E ela ser uma mulher de uma atuação bastante intensa, verdadeira e não amedrontável. Ela encarava, enfrentava. Ela nunca se subordinou. E eles não suportam mulheres com esse perfil, essa é a verdade.
Marielle Franco, Patrícia Acioli, que foi assassinada também, e Tânia Maria Sales Moreira que foi promotora aqui em Duque de Caxias que era jurada de morte, mas morreu de câncer. Essas três, elas têm esse perfil. São mulheres com muita coragem, muita determinação, muita verdade do lado delas, elas não se subordinam, não se submetem. Esse tipo de mulher esses caras não suportam. Eles vão eliminar. Há uma misoginia total aí que eles não aceitam que qualquer mulher os trate assim.
Desde o início eu cantei a pedra: quem matou são grupos de extermínio e estão muito associados a milicianos. É a prática desses grupos.

Arte de TACHO

Brumadinho: lama perde velocidade, aponta Serviço Geológico; rejeitos estão a 85 km de onde barragem se rompeu, nas folhas

A seguir neste ritmo, já não há mais previsão de quando a lama chegará ao reservatório da Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo. Foi o terceiro relatório do Serviço Geológico.


Bombeiros procuram vítimas da tragédia de Brumadinho nesta terça (29), 5º dia de buscas — Foto: Reprodução

A lama de rejeitos da Vale perdeu velocidade e, em razão disso, não há mais previsão de quando chegará à Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, segundo boletim do Serviço Geológico Brasileiro divulgado às 18h30 de terça-feira (29).


Caminho da lama — Foto: Alexandre Mauro






O boletim anterior apontava que a lama chegaria entre o dia 5 e 10 de fevereiro a Retiro Baixo, na cidade de Pompéu (MG).

A lama é resultado do rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, ocorrido na última sexta-feira (25). Os rejeitos atingiram o rio Paraopeba; agora, estão a 85 km do ponto de ruptura da barragem.

A velocidade da lama, que chegou a mais de 1 km/h nos primeiros dias após a tragédia, estava, nesta terça, entre 0,25 metros por segundo e 0,35 metros por segundo, ainda de acordo com o novo boletim. A turbidez está em níveis baixos, apontou o mesmo relatório.

O rompimento da barragem em Brumadinho devastou a área administrativa da Vale, casas e propriedades da região. Segundo o último balanço divulgado pelos bombeiros, divulgado na noite de terça-feira, havia 84 mortes confirmadas e 276 pessoas continuavam desaparecidas.

A Vale está sendo condenada sem provas e sem julgamento, por Maílson da Nóbrega (ex-ministro)

Comentario tragi-jocoso--este enorme brasileiro (pesa 123kg) foi MINISTRO da nossa mambembe REPUBLICA. Expoe aqui suas elevadas ideias de JUSTICA.
Procura manter-se em vida, politicamente. So isto faz entender PORQUE as medidas restritivas atualizadas de engenharia de contençao, nunca foram adiante nos elevados escaloes (Legislativo & Executivo) da REPUBLICA, apos a tragedia de MARIANA.
Conclusao--a REPUBLICA ha muito foi PRIVATIZADA desavergonhadamente por este tipo de energumeno quem, DESCARADAMENTE provoca, ao exigir para altos e competentes responsaveis, regiamente remunerados por seus conhecimentos, a mesma LEI que pune o ladrao de feira. Tem razao e SABE que o dinheiro e as chicanas juridicas inumeraveis, protegerao estes sacripantas endinheirados.

NB--Mailson, antes de mais--VA FAN CULO!!! E ve se aprendes o Hino Nacional.
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A Vale e seus diretores podem ter culpa pela catástrofe de Brumadinho, mas são inocentes até que perícias e um julgamento imparcial emitam o veredito justo


A catástrofe decorrente do rompimento da barragem da Vale no município de Brumadinho, que todos lamentamos, tem levado grande parte da opinião pública, do Ministério Público, do Judiciário e da imprensa a condenar a empresa pelo que aconteceu. Exige-se punição exemplar de supostos culpados. A Justiça bloqueou quase R$ 12 bilhões da empresa antes de qualquer perícia.

Entre as conquistas mais importantes da civilização, impulsionadas pelas ideias do Iluminismo, estão as de que ninguém está acima da lei e de que todos terão direito a um julgamento justo e imparcial, baseado em provas colhidas de forma correta e independente. Ninguém poderá ser condenado em julgamentos sumários nem por desagradar os poderosos, como acontecia na era das trevas.

Reis podiam condenar à forca ou a morrer na fogueira os dissidentes ou os que cometessem ofensas consideradas como tais por nobres e monarcas. O rei da Inglaterra possuía um tribunal exclusivo para julgar as causas em que era parte, a Star Chamber. Tudo isso começou a mudar no século XVII, notadamente a partir da Revolução Gloriosa inglesa de 1688, pela qual a supremacia do poder foi transferida do rei para o Parlamento. O monarca perdeu o poder de demitir juízes. O Judiciário tornou-se independente.

Não se pode absolver a priori a empresa e seus dirigentes de negligência no monitoramento dos riscos de desabamento de suas barreiras. Tampouco se pode admitir, como está ocorrendo agora, inclusive nas redes sociais, que todos têm necessariamente culpa. É preciso averiguar as causas do desastre, realizar perícias e conduzir processos com isenção e eficácia. Só depois se pode culpar ou absolver.

A onda condenatória se espalhou país afora. Figuras públicas de quem se espera prudência e comedimento, exigiram a substituição da diretoria da empresa. O senador Renan Calheiros, de forma oportunista, pregou a medida nas redes sociais. O vice-presidente Hamilton Mourão anunciou que o governo examinava a medida. Depois, se desdisse. Seria melhor ter novatos à frente da empresa neste momento? Claro que não.

O governo, os parlamentares, os procuradores, os juízes e a imprensa não podem arvorar-se em paladinos dos que perderam entes queridos e patrimônio. Eles são merecedores da solidariedade e de adequado e suficiente reparo pelos danos, efetivos e morais. É preciso, todavia, evitar a sofreguidão e o populismo, bem como aguardar o andamento dos processos e o sereno julgamento da Justiça, que precisam ser rápidos e justos. Antes disso, condenar a Vale equivale a um retorno aos tempos medievais.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Arte de PATER

A hipótese do “pitbull encoleirado”, por Antonio Martins

Diante do rápido desgaste de Bolsonaro, há quem preveja impeachment rápido. Quem dera! O que fotos sugerem é um esforço do poder econômico e mídia para submeter presidente, por completo, à agenda ultracapitalista


Entusiasmado – com justíssimas razões… – pela rápida erosão do governo Bolsonaro, o jornalista Luís Nassif formulou, domingo (20/1), uma hipótese audaz. “A certeza, no quadro político atual é que o governo Bolsonaro acabou”, escreveu ele. A dúvida seria sobre o que virá depois. Os escândalos envolvendo o filho Flávio respingariam inevitavelmente sobre o Palácio do Planalto, a ponto de inviabilizar a continuidade do governo. O comentário pareceu ecoar a agora célebre capa de Veja, em que Bolsonaro aparece, em montagem, com os pés trocados, à la Jânio Quadros – o presidente que renunciou menos de sete meses após tomar posse, em 1961.

Desde domingo, novos fatos parecem dar razão a Nassif. O situação de Flávio Bolsonaro parece azedar hora a hora. 
De mero receptor de dinheiro ilegal repassado por assessores “laranjas”, ele passou a especulador imobiliário suspeito de fraudes e lavagem de dinheiro. Nas últimas horas, uma série de matérias publicadas com raro destaque nos noticiários da TV Globo aponta suas ligações com a cúpula criminosa das milícias cariocas – e o envolve com os próprios suspeitos da execução de Marielle Franco.

Mas seria fácil assim virar uma página tão ameaçadora de nossa História presente? Para acreditar, seria preciso esquecer o vasto arco de interesses que levou Bolsonaro ao poder – e que aposta em tirar enorme proveito de suas decisões. Em torno dele não há apenas a classe média antes incomodada com os pobres nos aeroportos e universidades; os religiosos fundamentalistas, interessados em silenciar o pensamento crítico nas escolas; ou o baixo clero parlamentar sedento pelas concessões de um governo “seu”. Há também a oligarquia financeira.

Repare em Davos, onde o presidente brasileiro fez, há poucas horas, um discurso pífio. Nem a indigência da fala, nem a precariedade do personagem, parecem incomodar a elite dos bilionários globais e seus gurus. Não importa se ele é populista; “Bolsonaro tem uma agenda de reformas e nós achamos que é boa para seu país. (…) Estamos realmente felizes”, disse Francesco Starace, o executivo-chefe da Enel, corporação energética italiana que controla as distribuidoras de energia do RJ, do CE e agora de SP.

Ainda mais significativo foi o comentário, também em Davos, de Ricardo Villela Marinho, alto executivo do Itaú, membro da família que controla acionariamente o banco e seu estrategista-chefe para a América Latina. “Concordamos com o diagnóstico que a equipe econômica tem sobre os principais entraves que estão segurando o crescimento (…), com as primeiras medidas sugeridas para superar estes entraves”. Além disso, “parece que este governo será mais duro do que os anteriores e que a ditadura venezuelana não será mais tolerada (…) Cada vez menos veremos populistas vencendo na América Latina, o que permite um desenvolvimento mais sustentável da economia, com atuação mais liberal”.

Promover o Impeachment de Bolsonaro, nos próximos dois anos, implicaria algo indesejável para a oligarquia financeira. Significaria colocar em risco o plano de anular as conquistas sociais da Constituição de 1988 e restaurar o padrão de dominação praticado por 500 anos. O general Mourão assumiria – em meio a grande trauma. É ainda mais suscetível que o presidente ao pensamento dos quartéis. Quem assegura que estes desejarão o ultracapitalismo?

Por isso, há uma hipótese mais provável que a de Nassif: a de um Bolsonaro encoleirado. O grande poder econômico quer as medidas que o presidente parece disposto a lhe oferecer; e pouco se importa com seu mau jeito. Já se deu conta de sua quase inacreditável inaptidão para o jogo político tradicional – e as múltiplas brechas abertas por tal incapacidade. Já identificou um caminho para fustigá-lo sem chocar-se com seu grande eleitorado: basta desconstruir, com a força dos fatos, a imagem de antiestablishment que ele procurou forjar para si – e com isso minar o núcleo de sua força.

A principal resultante desta estratégia será ter, em pouco tempo, um presidente totalmente submisso. Sem outra base poderosa em que se apoiar, Bolsonaro se reduzirá, aos poucos mas inexoravelmente, a uma espécie de Temer pós-escândalo JBS. Já não fará sequer restrições parciais à contrarreforma da Previdência (em 2/1, ele rejeitou “fazer uma tremenda maldade com o povo”). Já não resistirá à entrega total da Petrobras e do pré-sal.

Assim como ocorreu com Temer, a estratégia comporta ainda um Plano B. No limite, ela permite ao mesmo tempo encoleirar o presidente e descomprometer-se dele – caso se torne muito impopular. Por isso, são nítidos por exemplo os esforços dos noticiários da Globo para cortejar Mourão, apresentando-o como alguém razoável e destoante das estrepolias dos Bolsonaro. É também visível o esforço para preparar, desde já, alternativas como Luciano Huck – também ele presente em Davos e declarando-se “cada vez mais disposto a participar da vida política do país”.
* * *
Por trás da aposta em rápido afastamento de Bolsonaro parece haver uma ilusão comodista, detectada já no ano passado por Marcos Nobre: a de que o presidente tropeçará em seus próprios pés e o sistema político tradicional se recomporá naturalmente. Talvez seja por isso que não se vê oposição diante de medidas como o fim do “Mais Médicos”, a redução do aumento do salário mínimo, a venda da Embraer, a devastação do SUS, as “emergências fiscais” decretadas pelos governadores para reduzir direitos e atacar serviços públicos.

Atônita, sem programa real de mudanças, a esquerda espera que os dias ruins terminem por si mesmos. Parece nada compreender sobre o caráter do capitalismo contemporâneo.

Dívida pública tem alta de 8,9% em 2018 e chega a R$ 3,87 trilhões; valor é o maior da série histórica, por Alexandro Martello

Comentário constatação---amadores de benesses e facilidades varias, os homens e mulheres "públicos", nunca souberam, nem pretendem criar "riqueza". Exímios em criar dividas, oneram a Soberania, Independência e a Liberdade do Pais. Em detrimento do POVO.
E quem detêm a "divida publica"?? Os bancos, financeiras, etc.....nacionais e internacionais. Pois é, Soberania é isso--CRÉDITOS em Caixa! E "privataria", desculpa esfarrapada de "sociólogo" pra favorecer amigos ou cúmplices! 
Assim se fortalece a "hipoteca futura" contra o cidadão. Entre a ineficiência estatal (alimentada por nomeações sem perfil adequado) e a GANANCIA privada, desControlada. Agências de Controle??!! Cabides de empregos bem pagos, salvo raras exceções. OU NÃO?!
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Segundo o Tesouro Nacional, resgates de títulos superaram emissões em R$ 23,14 bilhões no ano passado. Ao mesmo tempo, despesas com juros somaram R$ 342,67 bilhões.


A dívida pública federal, que inclui os endividamentos do governo dentro do Brasil e no exterior, teve aumento de 8,9% em 2018, para R$ 3,877 trilhões, informou a Secretaria do Tesouro Nacional nesta segunda-feira (28).

Trata-se do maior patamar da série histórica, que teve início em 2004. No fim de 2016 e de 2017, a dívida estava em R$ 3,112 trilhões e em R$ 3,559 trilhões, respectivamente.
A dívida pública subiu R$ 317,789 bilhões no ano passado. Desse total:
R$ 342,67 bilhões referem-se às despesas com juros da dívida pública;
abatimento de R$ 23,148 bilhões por conta do resgate líquido (acima do volume de emissões) de títulos públicos no mercado.

DÍVIDA PÚBLICA FEDERAL
EM R$ TRILHÕES
ANOSDÍVIDA PÚBLICA INTERNA E EXTERNA200620092012201520162017201811,522,533,54

2016
 DÍVIDA PÚBLICA INTERNA E EXTERNA: 3,11
Fonte: TESOURO NACIONAL

A dívida pública é a emitida pelo Tesouro Nacional para financiar o déficit orçamentário do governo federal, ou seja, para pagar por despesas que ficam acima da arrecadação com impostos e tributos.

Quando os pagamentos e recebimentos são realizados em real, a dívida é chamada de interna. Quando tais operações ocorrem em moeda estrangeira (dólar, normalmente), é classificada como externa.

No caso da dívida interna, foi registrado um aumento de 8,5% em 2018, para R$ 3,73 trilhões. Nesse caso, o crescimento foi de R$ 293 bilhões.
Já no caso da dívida externa brasileira, resultado da emissão de bônus soberanos (títulos da dívida) no mercado internacional e de contratos firmados no passado, o governo contabilizou uma alta de 19,71% em 2018, para R$ 148,20 bilhões. O aumento da dívida externa foi de R$ 24,41 bilhões.

Dívida mais que dobrou
Segundo os dados do Tesouro, nos últimos dez anos, a dívida pública mais que dobrou: em 2008, o estoque da dívida estava em R$ 1,497 trilhão e, agora, está em R$ 3,877 trilhões.

Desse crescimento de R$ 2,38 trilhões vericado no período, mais de R$ 450 bilhões referem-se a emissões de títulos públicos para capitalizar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), instituição controlada pelo governo federal e responsável por financiar grandes projetos de infraestrutura no país nos últimos anos.

Porém, parte desse valor (R$ 310 bilhões) já retornou para o Tesouro Nacional, que utilizou os valores para baixar a dívida pública, dos quais R$ 130 bilhões somente no ano passado, e há perspectiva de que novos empréstimos da instituição financeira sejam devolvidos nesse ano.

O passivo do BNDES com o governo, que somava R$ 514 bilhões em dezembro de 2015, já havia recuado para R$ 407 bilhões no fim de 2017, e passou para R$ 299 bilhões em novembro do ano passado (último dado disponível).

Compradores
Os números do Tesouro Nacional também revelam que a participação dos investidores estrangeiros na dívida pública interna registrou queda no ano passado.
Em dezembro de 2018, os não residentes no país detinham 11,22% do total da dívida interna (R$ 418 bilhões) contra 12,12% (R$ 416 bilhões) no fim de 2016.
Com isso, os estrangeiros seguem na quarta colocação de principais detentores da dívida pública interna, atrás de
  1. fundos de investimento (R$ 1.003 trilhão, ou 26,91% do total);
  2. fundos de previdência (R$ 930 bilhões, ou 24,96% do total);
  3. e das instituições financeiras (22,74% do total, ou R$ 848 bilhões).

Perfil da dívida
Em dezembro de 2018, o percentual de papéis prefixados somou 34% do total, ou R$ 1,269 trilhão, contra 36,3% no fechamento de 2017 (R$ 1,246 trilhão). Os números foram calculados após a contabilização dos contratos de "swap cambial".
Os títulos atrelados à taxa Selic (pós-fixados), por sua vez, tiveram sua participação reduzida em 2018. No fim do ano passado, representaram 29,9% do total (R$ 1,11 trilhão). No fechamento de 2017, estavam no patamar de 30,3% (R$ 1,04 trilhao).

A parcela da dívida atrelada aos índices de preços (inflação), por sua vez, somou 28,55% no fim de 2018, o equivalente a R$ 1,06 trilhão, contra 30,6% no fechamento de 2017, ou R$ 1,05 trilhão.

Já os ativos indexados à variação da taxa de câmbio, por sua vez, somaram 7,45% do total no fim de 2018, ou R$ 277 bilhões, contra 2,72% no fim de 2017, ou R$ 93,4 bilhões.

O aumento da dívida em dólar se deve à emissão, por parte do Banco Central, de contratos de "swap cambial" - na esteira do processo de alta da cotação do dólar no Brasil, por conta, também, das tensões eleitorais.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ramonet tenta desbravar a nova selva midiática, NAS FOLHAS

Que papel jogam as “fake news”, num ecossistema em que mentira e ocultação já eram norma? Como movimentar-se, em meio a algoritmos e manipulações fabricadas? Resta espaço para uma mídia alternativa?

Ignacio Ramonet, entrevistado por Vincent Ortiz e Antoine Cargoet, em Le Vent se Lève| Tradução: Felipe Calabrez

(Parte 1)
Encontramos Ignácio Ramonet, ex editor do Le Monde Diplomatique, co-fundador da Attac e do Fórum Social Mundial. Ex professor da Universidade de Paris VII, Ramonet tornou-se figura proeminente do altermundismo, é especialista em estudos sobre América Latina e sistema midiático. 

Nessa entrevista, ele trata das mutações pelas quais passou o campo midiático, sobre a maneira como as redes sociais contribuem para modificá-lo, sobre a erosão da hegemonia neoliberal, sobre o fenômeno populista, e ainda sobre os fenômenos políticos recentes que marcaram a América Latina (eleição de López Obrador no México, derrota de Gustavo Petro na Colômbia, eleição de Bolsonaro no Brasil…)

A lei francesa anti “fake news”, preparada em acordo com os grandes donos da mídia e com as empresas que lidam com os servidores e as redes sociais, foi adotada pela Assembléia Nacional em novembro de 2018. Que sentimentos ela lhe provoca?

No campo midiático, as “fake news” (falsas notícias) não constituem um elemento realmente novo. Não é porque a expressão “fake news” é nova que as mentiras e falsidades das mídias também o são. Nós conhecemos a desinformação, a manipulação, a intoxicação e a lavagem cerebral desde o surgimento das chamadas “mídias de massa” no final do século XIX. E vamos conter a atual epidemia de informação tóxica por meio de uma lei? A intenção é, sem dúvida, louvável, mas eu, pessoalmente, sou cético.

Como todas as leis que buscam conter os “excessos” das mídias, esta terá um efeito limitado. É um pouco como se o legislador decidisse que “está proibido mentir nas mídias”. É claro que do ponto de vista moral está correto. Mas as leis sobre imprensa, códigos de ética de mídia ou de ética profissional dos jornalistas já são exigidos. E nós vemos claramente os limites… A prova é que foi necessário inventar mais recentemente, dentro das redações, a figura do “mediador”, e mais tarde os serviços de “checagem de fatos”… Penso que a lei lei anti “fake news” responde sobretudo a uma preocupação da sociedade. E que para as grandes oligarquias midiáticas, assim como para os jornalistas dominantes, não passa de um alibi destinado a apaziquar os ânimos sociais. Não acho mudará muita coisa

Estamos assentados em um sistema de mídia do tipo “quântico”, que opera tão bem com a verdade quanto com a mentira. Essa coexistência simultânea de verdade e mentira é a principal característica da atual mecânica da mídia. E é a ameaça central, em mateŕia de informação, que deve afrontar o cidadão. Ele agora deve viver com informação tóxica assim como, na saúde, ele vive com as ameaças que representam os vírus ou bactérias. O que não significa que ele tenha que se resignar a isso. Pelo contrário, deve mobilizar-se, armar-se para lutar e se vacinar contra seus efeitos nocivos. A este respeito, pode-se até imaginar – sem ser completamente paranóico – que a lei, enquanto finge tranquilizar, visa de certa forma a desmobilizar os cidadãos … E fazê-los, paradoxalmente, alvos ainda mais fáceis para notícias falsas …

Alguns acreditam que notícias falsas são o produto de redes sociais que funcionam em buzz, ou algoritmos … Você acha que há uma leitura um pouco simplista do fenômeno “fake news”?

Qual deveria ser a principal preocupação de todo sistema midiático? Difundir uma informação verificada, garantida contra mentiras, assim como certos produtos alimentares possuem a garantia “sem cafeína”, “sem açucar” ou “sem glútem”. “Sem informação tóxica”. Informar os cidadãos, mas submetendo as informações a um filtro prévio, uma purificação (assim como dizemos “estação de purificação” para eliminar os resíduos) que elimine as falsas informações e as informações tóxicas de todo tipo…

No entanto, a partir do momento em que a aceleração da mídia atingiu a velocidade da luz, a verificação séria tornou-se quase impossível. Além disso, todos nos tornamos, por meio de smartphones e redes sociais, produtores compulsivos de informações. O sistema de mídia e os jornalistas perderam o monopólio da transmissão de notícias. Nesse contexto, a mídia teria todo o interesse em garantir a verificação, pelo menos para nos convencer de que as informações que nos chegam através delas são mais confiáveis do que aquelas que chegam até nós através do sistema selvagem das redes sociais (Facebook, WhatsApp, Twitter, Instagram, YouTube, etc.).

Mas não é o caso. O sistema de mídia não fornece muitas garantias adicionais em relação às redes sociais. E não é por razões morais. Não pode fazê-lo por razões puramente técnicas, de concorrência e, em última análise, por interesses comerciais. Em primeiro lugar, por causa da aceleração da circulação da informação, o hiato entre o momento em que uma mídia recebe informação e aquele em que ela se difunde desapareceu. Também porque, em face do medo de que uma publicação concorrente divulgue uma informação primeiro, a mídia agora tende a transmitir notícias assim que a recebe. Sem dispender de tempo para verificá-los … Deixa para desmentir ou corrigir mais tarde. Isso coloca os cidadãos em uma situação que eu chamo de “insegurança informacional” porque eles nunca sabem se uma informação é verdadeira ou falsa …

Costumo comparar o jornalista contemporâneo ao comentarista esportivo de uma partida de futebol na TV. Presente no estádio, o comentarista não conhece mais do que o espectador sobre o resultado da partida. Ele ignora a pontuação final do jogo, assim como a pessoa em casa na frente de sua pequena tela. Se o espectador – que conhece as regras do jogo – cortasse o som, poderia seguir perfeitamente o jogo sem a ajuda do comentarista … Para que ele serve então? Qual é, de certo modo, seu “valor agregado”? Levantar essas questões já é significativo sobre o papel secundário ou até dispensável do comentarista.

No campo da informação ocorre o mesmo fenômeno: o papel do jornalista está prestes a se tornar o de um simples comentarista…Tecnicamente incapazes de verificar as informações, as mídias não são mais garantias de qualidade da informação, e contornam essa carência por meio de um excesso de comentários… Quanto menos eles sabem, mais dizem.

Você escreveu em 2011 um artigo intitulado “Automatos da Informação”, no qual aponta a automação da informação, cada dia mais governada por algoritmos, para um público cada vez mais direcionado. Na época, você avaliou que este não se tornaria um modelo dominante. Hoje, o Facebook assina contratos com os principais jornais norte-americanos e franceses para destacar suas publicações e, em troca, essas mídias podem se adaptar aos algoritmos do Facebook para maximizar suas visualizações Você acha que num momento em que todo mundo usa o Facebook, Twitter, etc, esse modelo de informação governado por algoritmos está prestes a se tornar o modelo dominante?

Já é o caso. O que fazia uma informação sair nas primeiras páginas da imprensa tradicional de papel? Era o conselho editorial ou, em última instância, o editor-chefe ou o diretor do jornal que decidia de maneira soberana, em função do conjunto de notícias do dia. Hoje, quem decide colocar na abertura de tela tal ou qual informação na versão web de uma mídia? É o número de “cliques”, consultas digitais, que automaticamente fazem “subir” a informação, deixando-a em destaque. A hierarquia de informações é agora determinada pelo número de cliques.

Mas por outro lado, sabemos que tanto o Google como o Facebook distorcem seus dados. Isso quer dizer que hoje temos a possibilidade de comprar, mediante o pagamento de uma taxa, os “primeiros lugares”, para estar entre as informações que aparecem melhor situadas na tela quando procuramos dados no web. As primeiras propostas do Google não são as mais consultadas, mas aquelas cujas empresas-mãe anunciam e pagam por elas. Se o usuário não prestar atenção, ele será pego. Além desses casos, para todas as mídias, o sistema é o mesmo: são as redes sociais que determinam a hierarquia das informações.

O campo midiático não está mais reduzido à única galáxia de mídia tradicional, composta da trilogia sagrada: imprensa escrita, rádio, televisão. Hoje, o meio dominante são as redes sociais. Lembre-se que o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, já havia vencido sua primeira campanha eleitoral, em novembro de 2008, com base no uso inovador das redes sociais. E ainda assim foi em um estágio embrionário. Obama ainda estava em programas de TV para dar entrevistas porque seus consultores de marketing eleitoral pensavam que a televisão ainda era o meio dominante. Tudo mudou em 2016. Pela primeira vez desde a década de 1940 e a ascensão da televisão, Donald Trump fez sua campanha eleitoral vitoriosa sem dar uma única entrevista para nenhum dos quatro principais canais norte-americanos (ABC, CBS, NBC, Fox). Vale notar que a audiência média acumulada de noticiários dos quatro principais canais dos EUA é de apenas 29 milhões de telespectadores (em um país de 325 milhões de habitantes …). Em contraste, nas redes sociais, Donald Trump tem cerca de 30 milhões de “amigos” no Facebook e cerca de 60 milhões de seguidores no Twitter … Para quem ele fala diretamente …

Devemos também mencionar o novo fenômeno dos “mídia-indivíduos” e dos “influencers” (influenciadores), isto é, pessoas que – pela primeira vez desde o surgimento da mídia de massa no século XIX – não devem sua notoriedade pública às grandes mídias tradicionais (imprensa, rádio, televisão), mas exclusivamente às redes sociais. Esses influenciadores podem ter um público maior do que o dos principais canais de televisão somados … É o caso, por exemplo, de Kim Kardashian. No início estrela de reality shows, ela possui no Twitter, Facebook, Snapchat e Instagram cerca de 224 milhões de seguidores… Vale lembrar, a título de comparação, que o programa televisivo que possui a maior audiência do mundo é o Super Bowl americano e seus 113 milhões de espectadores … Kim Kardashian, sozinha, possui 100 milhões a mais!

Agora existem centenas de influencers em todo o mundo que podem vender, para seus milhões de seguidores fiéis, todos os tipos de produtos: moda, roupas, objetos, maquiagem, viagens, hotéis, tecnologia, etc. E também, é claro: idéias, causas e candidatos a eleições … Esses “indivíduos-mídias” não existiam no ecossistema da mídia tradicional de que ainda falam as faculdades de comunicação ou escolas de jornalismo … Não são, portanto, apenas os autómatos … Estamos agora em uma mecânica midiática em que os efeitos disruptivos das redes sociais vão muito além da “explosão de jornalismo” de que falei.

Sobre as redes sociais e mídias dominantes, que geralmente se juntam, que estratégias são possíveis para driblá-las? Que oportunidades a oferta de redes sociais oferece?

Sabemos que, nos anos 1990 e 2000, alguns intelectuais dissidentes – Pierre Bourdieu, por exemplo – optaram de fato pelo drible. Não render-se aos programas de TV, por considerá-los inaudíveis, devido a seu quadro de retórica, que consideravam deformado. Pierre Bourdieu contou, em seu livro “Sobre a televisão”, como se insurgiu contra o dispositivo que queria constrangir seu pensamento. Ele denunciou então o truque do debate televisivo do qual se servem as mídias dominantes a fim de encenar sua ideia de “democracia midiática”. Uma “democracia midiática” cujo absurdo, recordemos, Jean-Luc Godard havia cruelmente denunciado por meio da seguinte definição: Um minuto para os nazistas, um minuto para os judeus.

Na mesma época, Noam Chomsky demonstrou igualmente que, na TV, o significante determina o significado. A estrutura midiática termina por condicionar o que você pretende dizer. Ele assim explica: Em um debate televisivo, se você diz o que todo mundo pensa – isto é, se você repete a doxa social, um minuto é suficiente, para defender não importa qual argumento. Mas se você pretende afirmar o contrário daquilo que todo mundo pensa, então um minuto não basta. Porque você deverá desmentir as ideias recebidas, descontruí-las, remontar uma explicação, etc. Será preciso mais tempo. Irão negá-lo, sob o pretexto de que na televisão “tudo é rápido”.. Então, em uma tele de TV você jamais poderá dizer o que pensa se aquilo que pensa não for o que todo mundo pensa…

Nesta mesma linha, há cerca de trinta anos, um jornal mensal como o Le Monde Diplomatique construiu-se igualmente, por escolha de sua redação, pelas margens do sistema de mídia dominante. Tomou duas decisões inovadoras a esse respeito: por um lado, tornar a comunicação um objeto de informação. Criar um tipo de metagenro: informar sobre informação. Despertar no grande público um interesse pela teoria da comunicação e pela teoria da informação. Era novo. À exceção das revistas especializadas, a grande mídia não falava sobre isso. O Diplo foi praticamente o primeiro a dizer, em suas colunas, que a comunicação e a informação eram assuntos políticos pelos quais os cidadãos deveriam se interessar. Porque a mídia desempenha um papel decisivo na vida da cidade. A economia da imprensa, a propriedade de mídia, sua estrutura industrial, a retórica do discurso da mídia, o desvendamento da manipulação ou da propaganda são temas que o cidadão moderno precisa de saber, bem como geopolítica e geo-economia.

A segunda decisão foi preicsamente aquela sobre a qual você falou, a da alternativa. Nós pensávamos, no Diplo, que não poderíamos realizar uma verdadeira reflexão crítica sobre a mídia dominante, estando constantemente presentes, como jornalistas convidados, na mesma grande mídia que criticávamos. Um de nossos argumentos era que intervir nos meios de comunicação de massa equivalia a se comprometer, a se deixar cooptar — para retomar um termo de 68 – pelas mídias dominantes cuja função primeira, jamais devemos esquecer, é domesticar o povo. Era necessário, portanto, manter uma distancia crítica e profilática.

Penso que, no momento de hegemonia das redes sociais, deveríamos buscar essa reflexão sobre o papel das mídias dominantes. Nós vivemos uma grande reviravolta tecnológica. E que constitui um dos principais desafios das sociedades contemporâneas. São as mídias que melhor refletem essa formidável mutação. Porque elas encontram-se no olho do furacão. Não devemos esquecer que isso a que chamamos de “novas tecnologias” são, antes de tudo, tecnologias de comunicação e infromação. E que preocupa fundamentalmente o jornalismo e as mídias. Como consequência, não é possível haver uma teoria crítica imutável sobre as mídias. Que algo válido há trinta anos ainda o seja, necessariamente, hoje em dia – já que tudo se modificou. Em matéria de teoria de mídias é necessário retomar a análise. Porque as leis da mecânica e da mídia não são constantes.

Por exemplo, sobre essa questão a respeito de nosssa presença nas mídias dominantes, o contexto se modificou completamente. Se as mídias dominantes são hoje as redes sociais, a questão de participar ou não não se coloca mais. Cada um de nós pode possuir agora nossa própria rede social. Não há necessidade de fazer parte de nenhuma outra. É você que define seu espaço. É o que disse Donald Trump. Ele não frequenta a plataforma das grandes mídias clássicas porque ele está em sua própria “indivíduo-mídia”.

Arte de ZEPA FERRER

DESASTRE EM BRUMADINHO-- Vale, exemplo mundial de incompetência e descaso, por FRANCISCO CÂMPERA

Empresa repete erros que provocaram tragédia de Mariana a um custo humano e ambiental altíssimo

Bombeiros procuram vítimas da tragédia em Brumadinho. DOUGLAS MAGNO AFP


“Todas as barragens da Vale estão em risco e podem se romper a qualquer momento. A empresa não quer gastar o dinheiro necessário para recuperar o meio ambiente”. A afirmação é de um dos mais solicitados engenheiros ambientais do Brasil e que já prestou, por um longo período, consultoria à Vale. Por questões óbvias, ele não quer se identificar. Não é preciso, porém, ser perito para acreditar na veracidade desse testemunho. A repetição da tragédia demonstra que a empresa é, no mínimo, negligente.

O maior desastre ambiental na área de mineração do mundo aconteceu no município de Mariana, Minas Gerais, em 5 de novembro de 2015. Os responsáveis foram a empresa Samarco, controlada pela Vale, em sociedade com a anglo-australiana BHP Billiton. A barragem que se rompeu provocou uma enxurrada de lama tóxica, que dizimou o distrito de Bento Rodrigues e deixou19 mortos, além de devastar a bacia hidrográfica do Rio Doce, matar a vida aquática e acabar com o turismo e subsistência de milhares de pessoas.

A Vale conseguiu a façanha de destruir um rio, que nem a mineração na região, onde está localizada Ouro Preto, foi capaz ao longo de 300 anos de exploração do ouro. Pouco mais de três anos após o incidente, a Vale volta a matar. Repetiu o mesmo erro em outra barragem, em Brumadinho, Minas Gerais. Desta vez, porém, o número de vidas sacrificadas foi muito maior. Nas primeiras 24 horas foram confirmadas 34 mortes e centenas de pessoas desaparecidas.

Após a tragédia de Mariana, a Vale apoiou a criação da Fundação Renova, que se demonstrou pouco eficaz. As vítimas, que perderam suas moradias e familiares dos mortos, não foram totalmente indenizadas. A lama tóxica (embora a empresa negue) continua no mesmo lugar e o Rio Doce continua praticamente morto. Uma das líderes das comunidades ribeirinhas, Maria Auxiliadora de Fátima, diz que foi preciso lutar muito para conseguir alguma reparação. “Se não tivéssemos batalhado, não receberíamos nada”. Ninguém foi preso e punido como deveria.

Em qualquer país sério agentes públicos responsáveis e os executivos da empresa estariam presos. No mínimo a companhia já deveria ter pago multas bilionárias, o que não ocorreu. Aqui os envolvidos posam como se uma tragédia anterior não tivesse ocorrido. Dão entrevistas como se eles fossem também as vítimas do acidente. Ao invés de buscar soluções reais, a Vale aproveitou da tragédia para lucrar. Usou a Renova para ganhar tempo com as autoridades, recusando-se a cumprir o acordo fechado com o Ministério Público Estadual e levando a disputa para o lento caminho judicial.

O objetivo era deixar as ações da Samarco despencarem de valor para comprar a parte da sócia. Ironicamente, apesar do desastre ter acontecido aqui no Brasil, a BHP Billiton está sofrendo consequências da duras leis ambientais em seus países de origem, Reino Unido e Austrália. Com a Vale, porém, não foi o que aconteceu. Em matéria assinada por José Casado, veiculada em O Globo, o jornalista informa que a Vale concluiu a compra da parte da sócia estrangeira, mas as empresas não confirmaram o negócio. A Samarco continua fechada, o que facilita para a Vale não pagar indenizações e valorizar sua produção em Carajás.

Impunidade
A tragédia em Brumadinho é resultado, em primeiro lugar, da impunidade do desastre de Mariana. E também de anos de um Estado ausente, incompetente e corrupto. A começar pelo Governo Federal, dominado pela corrupção sistêmica nos últimos anos do PT e MDB. Há de se ressaltar que o defeito da Vale começou lá atrás na privatização malfeita durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, entregue praticamente de graça à iniciativa privada, mas ainda com grande participação do Estado, que não assume as suas responsabilidades perante os desastres.

Ainda é resultado da falência de Minas Gerais pelos governos do PSDB (Aécio Neves e Antônio Anastasia) e do PT (Fernando Pimentel).Tanto que um empresário desconhecido acabou se elegendo governador, Romeu Zema. No primeiro momento, pelo menos Zema e Jair Bolsonaro agiram rápido na tragédia em Brumadinho, 25 de janeiro de 2019. O presidente fez uma declaração pública na TV, criou um gabinete de crise, e visitou de helicóptero a região no dia seguinte ao acidente. Ao contrário de Dilma Rousseff que apenas se pronunciou pelo Twitter e, após críticas, somente uma semana depois fez um sobrevoo na região.

Sob o governo de Michel Temer, que tinha como ministro do Meio Ambiente Sarney Filho, a Vale continuou protegida, apesar do primoroso relatório do Comitê Interfederativo, criado para tratar da reparação da tragédia, que estipulava severas punições e ações eficazes, mas que não foram executadas. Esta será a primeira oportunidade de Bolsonaro e Zema provarem que são diferentes dos governos anteriores, que falharam vergonhosamente. Está no alcance deles providências como acionar as instituições de todos os poderes para obrigar a Vale e os responsáveis a responderem pelo crime, pagar o que devem e restaurarem o meio ambiente. O governo federal pode também intervir na empresa porque possui ações com poder de decisão.

Está claro que não foi promovida manutenção adequada pela Vale nas barragens rompidas. Aliás, o tipo de barragem escolhida pela empresa é a mais barata e perigosa, porque é apenas um aterro de terra que cede com o tempo. É assustador lembrar que só em Minas existem mais de 500 barragens. Segundo o engenheiro ambiental ouvido por este colunista, há soluções seguras e que não armazenam a lama tóxica, a água é tratada antes de voltar ao meio ambiente. É possível a exploração do minério com baixo impacto ambiental, mas isso requer tecnologia e custos.

Para limpar e manter todo o Rio Doce limpo, com água potável e a volta dos peixes, o presidente da Vale tem na mesa o orçamento de um projeto de 3 bilhões de reais, com respaldo técnico do CIF, mas que a empresa não quer assumir. Não só o Executivo, mas o legislativo e a Justiça também são cúmplices. Não se viu um parlamentar, da esquerda à direita, fazer um discurso mais duro e tomar uma medida eficaz contra a Vale.
Todas as iniciativas para aprovar leis que impõem obrigações, melhoram a segurança e aumentam a punição não avançaram.Talvez porque muitos políticos recebam fortunas das mineradoras para suas campanhas eleitorais.

Agora é a oportunidade para os novos parlamentares mostrarem serviço e fazerem alguma coisa.O Estado do Espírito Santo, onde está a sede da Samarco, também lavou as mãos. O Secretário de Meio Ambiente disse que é um problema de Minas Gerais, apesar do Rio Doce atravessar o Estado.Parte da imprensa, principalmente a de Minas, também tem a sua parcela de culpa, ao se curvar às verbas publicitárias da Vale, e não revelar a verdade nua e crua. Em Minas os principais órgãos de comunicação de Belo Horizonte são de propriedade de políticos e empresários que atuam no setor. Diante dessa cumplicidade toda, o Rio Doce permanece contaminado, as vítimas continuam reclamando nos tribunais seus direitos, e a flora e fauna seguem agonizando.

De que adianta o Brasil ter assinado o Acordo de Paris, ter uma das melhores leis ambientais do mundo, se na prática não funciona a contento? A água doce é considerada o petróleo do Século XXI porque é essencial à vida e está desaparecendo do Planeta. Apenas 2,5%das águas da Terra são potáveis, e a maior quantidade (12%) está no Brasil, onde os rios estão secando em sequência. As maiores ameaças são as mineradoras, assassinas de rios e vidas. 

  1. Algo precisa ser feito urgentemente antes que seja tarde. Bem que o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, que nasceu em Itabira, Minas Gerais, (onde começou a Vale do Rio Doce, que ironicamente antes de matar o rio tirou o “Rio Doce” do nome) nos avisou décadas atrás: O Rio? É Doce; A Vale? Amarga.