quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Arte de Gargalo

Procura-se um comunista, desesperadamente, por XICO SÁ

Não vale um médico cubano, um venezuelano da fronteira, falo do comunismo que assombra a família brasileira no WhatsApp

Manifestação do Partido Comunista Português em Lisboa no dia 1º de março de 1975 GETTY IMAGES

Procura-se um comunista, no desespero do momento histórico. Sério. Procura-se um comunista para uma cerveja, um vinho, um rabo-de-galo, uma pinga, uma catuaba, o que vale é comoção do encontro. A legenda da foto do Instagram está pronta: um brinde ao lado do último comunista brasileiro. O problema é achar o personagem.

Procura-se esse comunista e esse comunismo que tanto assombra a família brasileira nas correntes de WhatsApp - sejam nos grupos amadores e espontâneos ou nas milícias virtuais do caixa 2 do Bolsonaro, conforme reportagem da “Folha”.

Não vale esse suposto, teórico e pseudo-comunismozinho do PT, partido nascido nos sindicatos e nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, uma legenda carola por excelência, democrata-cristã demais da conta, papa-hóstia. Muito capitalista e burguês para o meu gosto.

Religião e política, nunca discutimos tanto. Tem uma lorota dessa natureza que circula desde as eleições de 1989: os comunas irão pintar a estátua do padre Cícero, no meu Cariri natal, de vermelho. A fake news “de raiz” faz sucesso até hoje.

Cada vez que vejo essa paranoia do comunismo renovada, tento achar pelo menos um velho amigo dessa turma. Impossível tomar uma carraspana com um autêntico comunista. Nem mesmo no Maranhão, onde o PC do B faz um governo de grande aceitação popular e derrotou o império do Sarney, existe mais esse personagem folclórico. Hei de encontrar algum lá no Chico Discos, o bar e sebo dos vinis e livros mais incríveis de São Luís. Que São José do Ribamar me ajude.

Procura-se um comuna para uma cuba-libre, para uma vodka ainda nesse outubro do aniversário da Revolução Russa. Risos. Mais risos. Quem disse que eu encontro? Quem sabe no Bip Bip do Alfredinho, o botequim de resistência carioca, ai de nós, Copacabana, nesse perigo da hora.

Ah, já sei, talvez encontre uma alma perdida em Jaboatão dos Guararapes, a “Moscouzinho” pernambucana, cidade que elegeu o primeiro prefeito vermelho do Brasil, o médico Manoel Calheiros, em 1947. Quem sabe, quem dera, caríssimo Gilvan Barreto.

Por favor, me ajude, amigo leitor, nessa busca. Falo de um comuna roots, um comuna-jurubeba, não vale um socialistazinho de araque, não vale o que sobrou da esquerda clássica das boas e humaníssimas causas, quero um comunistão digno da paranoia das fake news, um monstro devorador de criancinhas, não vale um psolista do socialismo moreno, sem essa, desejo um papa-figo que assombra a família brasileira. Desculpe, leitor, mas essa paranoia do comunismo, é uma comédia, me divirto em um momento grave, digo, só rindo para aguentar a barra e não deprimir mais ainda.

Comunista de raiz mesmo, só nas vilas do Alentejo, em Portugal, para onde os brasileiros endinheirados fogem com medo do falso comunismo tupiniquim. Ah, essa terra ainda vai cumprir seu ideal, xará Buarque.

Na sua derradeira coluna no jornal “Letras & Artes”, de Lisboa, o escritor Valter Hugo Mãe também se diverte: a brava gente brasileira irá fugir agora com medo do fascismo, mas essa turma tem menos grana para entrar na especulação imobiliária lisboeta. Todo santo dia entopem a caixa postal do autor com ofertas para comprar o seu apartamento, ave palavra suada, sagrado imóvel. Ô Valtinho, és incrível e a ti reservo todo o meu complexo de Édipo.

Opa, havia esquecido, mas o Marechal - Álvaro Costa e Silva para os leitores da 'Folha' e amantes dos livros - lembrou recentemente no seu twitter do último comunista que conheceu: o escriba Fausto Wolff, que se foi deste Brasilzão em 2008. Que inveja, amigo de alta patente. A foto é lirismo só, vocês ali no bar da Maria, delirando sobre Rosa de Luxemburgo, sob um calor carioca de fazer os pinguins fugirem dos cascos de Antarctica.

Pela última vez, apelo, procura-se um comunista, não vale a turma cubana do programa “Mais Médicos”, não vale os venezuelanos de Roraima, exijo um comuna-raiz, não apenas um desses vermelhos que o Bolsonaro prometeu eliminar ou prender na sua fala pública do último domingo - para gozo da plateia na avenida Paulista.

Procura-se. Vivo ou morto.

MPSC entra com ação contra deputada eleita pelo PSL que incitou alunos a denunciarem professores, nas folhas

Órgão estadual pede a condenação de Ana Caroline Campagnolo por danos morais coletivos e a garantia do direito dos estudantes à educação.

MP entra com ação contra deputada do PSL que incitou alunos a denunciarem professores

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) entrou na Justiça com ação civil pública nesta terça-feira (30) contra a deputada estadual eleita Ana Caroline Campagnolo (PSL). O órgão quer a condenação por danos morais coletivos e pede que seja dada liminar (decisão temporária) para que ela se abstenha de manter qualquer tipo de controle ideológico das atividades dos professores e alunos de escolas públicas e privadas do estado.

A defesa da deputada afirmou que vai aguardar citação formal para se manifestar sobre o caso.

Ana Caroline, de Itajaí, fez uma publicação em redes sociais na noite de domingo (28) oferecendo um contato telefônico para alunos enviarem vídeos de professores em sala de aula que estejam fazendo "manifestações político-partidárias ou ideológicas". O Ministério Público Federal (MPF) também investiga o caso e instaurou um inquérito sobre o assunto na segunda (29).
Ana Caroline Campagnolo foi eleita deputada estadual em S.Catarina

No pedido de liminar enviado nesta terça, o MPSC pede à Justiça ainda que a deputada eleita seja obrigada a retirar das redes sociais o post que motivou a ação civil pública e que a operadora de celular bloqueie o número divulgado pela parlamentar para o envio das manifestações.

Ação civil pública
Conforme o MPSC, a ação civil pública tem como objetivo "garantir o direito dos estudantes de escolas públicas e particulares do estado e dos municípios à educação segundo os princípios constitucionais da liberdade de aprender e de ensinar e do pluralismo das ideias".

Na ação, o promotor de Justiça Davi do Espírito Santo argumenta que a deputada "implantou um abominável regime de delações informais, anônimas, objetivando impor um regime de medo" e cita a Constituição Federal.

O promotor ainda explicou que o uso de canais informais e privados para o recebimento de denúncias de supostas faltas de funcionários públicos não tem suporte na legislação nacional. "É ilegal o uso de qualquer outro canal de comunicação de denúncias que não esteja amparado em uma ato administrativo válido", disse.

Em relação aos danos morais coletivos, o MPSC pede que o valor seja calculado com base no número dos seguidores dela em uma rede social (71.515) multiplicado por R$ 1 mil. A escolha é pelo potencial de compartilhamento de cada seguidor. A quantia deve ser destinada ao Fundo para Infância e Adolescência (FIA), segundo a denúncia.

Manifestações
Diversos órgãos e entidades repudiaram as declarações da deputada nessa segunda. Em nota, a Secretaria de Estado de Educação afirmou que a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases asseguram a liberdade de ensino e aprendizagem.

A Ordem dos Advogados do Brasil em Santa Catarina (OAB/SC) emitiu uma nota em que repudia a manifestação da deputada.

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Regional São José (Sinte SJ), além de emitir uma nota de repúdio, protocolou no início da tarde de segunda uma representação na Promotoria de Justiça da Capital, em que pede 'medidas cabíveis'.

Após o episódio, um abaixo-assinado online criado por professores foi feito para pedir a impugnação da candidata. Até as 22h de segunda, já eram mais de 170 mil assinaturas online.

No final da tarde de segunda, um grupo de entidades que representam os trabalhadores em educação de Santa Catarina, também emitiu nota de repúdio.

Somos capazes de criar novos neurônios em qualquer idade com um simples exercício (que está em suas mãos), por PILAR JERICÓ

Calce os tênis, seu cérebro agradecerá


Somos capazes de criar novos neurônios, inclusive na idade adulta. A descoberta é relativamente nova, porque se pensava que nascíamos com um determinado “banco de neurônios” que ia diminuindo com o passar do tempo e que não éramos capazes de aumentar. No entanto, as últimas descobertas da neurociência derrubaram essa crença. Nosso cérebro é plástico: podemos criar conexões diferentes e inclusive, em algumas áreas, como o hipocampo, podemos fazer com que novos neurônios nasçam, como explica o professor Terry Sejnowski, do The Salk Institute for Biological Studies. Assim, temos margem de manobra, independentemente da idade. Uma boa notícia!

O hipocampo tem a forma de cavalo-marinho e é um dos responsáveis por nossa memória e nossa capacidade espacial. As pesquisas sobre o hipocampo começaram com roedores: várias imagens foram mostradas aos ratos, que tinham que diferenciá-las. Quando os roedores aprenderam a distingui-las depois da prática, observou-se que novos neurônios haviam sido gerados em seu hipocampo. Curiosamente, se o animal parasse de fazer esse exercício, os neurônios jovens desapareciam. E se retomasse a atividade, voltavam a aparecer. Assim, já temos uma pista importante: a prática repetida ajuda a gerar novos neurônios em nosso hipocampo. Mas se tivéssemos de decidir qual atividade nos permite realmente manter nosso cérebro jovem, Sejnowski não hesita: o esporte é o melhor presente que podemos nos dar, é o melhor medicamento antienvelhecimento para nossa massa cinzenta.

Sabíamos que praticar esportes é uma maneira de cuidar do nosso corpo e reduzir o estresse, graças às danças hormonais desencadeadas pela dopamina, serotonina e noradrenalina. Mas pesquisas mais recentes mostram que o exercício também melhora a secreção do fator neurotrófico cerebral (o que influencia positivamente na memória e em um estado de ânimo mais positivo) e permite que novos neurônios nasçam em nosso hipocampo. No entanto, apesar de suas vantagens, não parece haver muita sensibilidade na relação entre aprendizagem e esporte. De fato, o exercício físico nas escolas é frequentemente visto como uma disciplina fácil de aprovar e sem muito valor. Mas estávamos errados. Educar crianças e adultos nos esportes não apenas ajuda nosso corpo a estar melhor e mais saudável como também ajuda nosso cérebro a permanecer mais jovem e com capacidade de gerar novos neurônios. E, como Sejnowski resume, “a academia e a recreação são as partes mais importantes do currículo”.

Então, se nosso cérebro é capaz de gerar novos neurônios com o esporte, o que precisamos fazer para que isso aconteça? Bem, mais uma vez, frequência. Como os especialistas sugerem, precisamos praticar exercícios três vezes por semana, com duração mínima de 30 minutos. Portanto, pense em você. Qual a sua relação com o esporte? Se não é exatamente um amor constante, vale a pena lembrar as vantagens físicas e neuronais, buscar um exercício bom para você, com um grupo de amigos se você tem dificuldade para se motivar sozinho e calçar os tênis. Seu hipocampo agradecerá.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Arte de DÖDO

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domingo, 28 de outubro de 2018

Arte de EDU

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As grandes fortunas fogem do Brasil (os pobres ficam), por TOM C. AVENDAÑO

Quem assumir a presidência depois da eleição assumirá também uma sangria de fortunas. Dos brasileiros mais ricos, 52% gostariam de ir embora do país
Roberto Figuereido, em São Paulo 
Roberto Figueiredo, de 43 anos, largou tudo. Esse engenheiro de formação com jeito para os investimentos levou sua mulher, seu trabalho e sobretudo seu dinheiro para longe do Brasil, da sua São Paulo natal, para irem morar em Miami. “O panorama para investir aqui está péssimo”, reclama, franzindo a testa sob um sol escaldante no terraço de um shopping no Itaim Bibi, uma área rica do centro expandido paulistano. 
Recentemente, completou a documentação para solicitar visto de residência permanente nos Estados Unidos. Agora, é questão de esperar e ir embora. Em parte, está cumprindo seu sonho desde que, adolescente, fez um intercâmbio no Novo México. E em parte reage a um grande catalisador: “A situação deste país contribuiu para a minha decisão”, conta.

A saída de capital de um país é o primeiro sintoma de que algo não vai bem, e o Brasil está perdendo grandes fortunas como a de Roberto a um ritmo cada vez mais desenfreado. Em 2017, 2.000 milionários abandonaram as fronteiras nacionais, segundo um estudo da New World Wealth: é a cifra mais alta já registrada no país, e pela terceira vez o Brasil figura entre os 10 países que mais milionários perdem no mundo. A sangria já soma 12.000 proprietários de mais de um milhão de dólares desde 2015, ano em que começou a se consumar o fracasso brasileiro e o que parecia um paraíso revelou-se justamente o contrário. A economia do país enterrou-se na pior recessão em décadas, a política se revelou incapaz de melhorar a situação, e a violência nas ruas começou a ser insuportável e maior a cada ano (o recorde, de 2017, foram 64.000 mortos).

“Os carros blindados já não davam a sensação de segurança, porque no Rio de Janeiro os roubos começavam a acontecer com fuzis”, diz Daniel Toledo, advogado e executivo da Loyalty, uma firma norte-americana que resolve as gestões legais dos emigrantes da classe A brasileira. Em 2015, a empresa começou a notar que tinha mais trabalho. Agora, a cada ano fatura o dobro que no anterior.

“Os empresários não aguentam mais os impostos, nem as leis trabalhistas, nem a falta de colaboração das instituições financeiras”, recorda. “Foi também quando chegou a primeira grande depressão brasileira, o começo do caos na Venezuela, os problemas econômicos da Argentina e a crise política da Bolívia. Os empresários centrados no Mercosul passaram a procurar outros mercados.”

Quem assumir a presidência depois da eleição deste domingo, mais provavelmente o autoritário ultradireitista Jair Bolsonaro do que o professor universitário Fernando Haddad, assumirá também essa sangria de fortunas, e o desafio de freá-la. Dos brasileiros mais ricos, os que recebem mais de 8.641 reais por mês, 52% gostariam de ir embora do país, segundo a última pesquisa em que o instituto Datafolha abordou essa questão, em junho deste ano. E os ricos vão embora porque são os únicos que podem, mas não os únicos que deixariam com prazer de viver no principal país da América Latina: 56% dos universitários e 62% dos jovens de 16 a 24 anos também viveriam em qualquer outro lugar.

Em outubro, o mesmo instituto perguntou com que palavras os brasileiros viam seu país. As respostas: com raiva (68%), desânimo (78%), tristeza (79%) e insegurança (88%). No ano passado, o ministério da Fazenda recebeu 21.700 avisos de emigração, o triplo do que em 2011.

Para viver nos Estados Unidos, Roberto pediu um visto EB-5, geralmente associado às grandes fortunas. É concedido a quem investir meio milhão de dólares em um negócio que gere 10 empregos ou mais. “A cada trimestre dos últimos anos, o número de brasileiros que pedem o EB-5 dobrou”, diz Ariel Yaari, executivo da Driftwood, uma empresa norte-americana que se dedica exclusivamente a solicitar esse tipo de vistos para ricos brasileiros. “Sempre é pelo mesmo motivo: a falta de fé no futuro do Brasil e a percepção de insegurança. Depois, a imensa maioria fica no exterior. Acredito que só vi um caso de uma pessoa que voltou para o Brasil, e foi por uma questão familiar.”

A outra opção favorita é Portugal e a vida de parcimônia que a Europa oferece, ao contrário dos EUA. Esse país já tem 85.000 residentes brasileiros, e tudo indica que receberá mais. A uma semana e meia da eleição, seu consulado em São Paulo teve que fechar o guichê por causa da crescente demanda de solicitações de nacionalidade portuguesa por parte de cidadãos brasileiros.

Roberto também nota que a ideia de ir embora é popular no seu entorno. Tanto que ele mesmo montou uma pequena consultoria para ajudar brasileiros a se estabelecerem e investirem nos Estados Unidos e Portugal. Batizou-a de High Figs: “É uma brincadeira com o meu sobrenome, Figueiredo”, sorri. “Vou morar em Miami porque sou brasileiro”, diz. E explica: o Miami Herald contou no ano passado 300.000 brasileiros na Flórida, atraídos pelo clima e a cultura latina. “Mas inclusive para os meus amigos que vão para Portugal eu digo o mesmo. ‘Cara, você precisa se dolarizar’. Porque tem quem queira deixar seu dinheiro no Brasil por motivos sentimentais, ou porque tem investimentos antigos. Mas os juros brasileiros estão baixíssimos, e os norte-americanos dão uns dividendos que assustam de tão altos. Você tem que investir nos EUA mesmo se for morar em Portugal. O que não pode é manter o dinheiro no Brasil.”

Pode acontecer aqui?, por Sérgio Abranches, cientista político, escritor.

Fim de Ciclo?
Por onde ando, pessoas me perguntam se podemos voltar a ter um governo autoritário. Não é preocupação somente nossa. Ela esteve na cabeça dos americanos, quando Trump foi eleito. Afligiu os franceses, quando Marine Le Pen foi para o segundo turno contra Emmanuel Macron. É natural que atormente os brasileiros com a iminência da eleição de Jair Bolsonaro que, como Trump, tem uma mentalidade autoritária. Se fará um governo autoritário depende menos dele do que das instituições brasileiras.

O jurista e escritor Cass Sunstein editou um livro, logo da eleição de Trump, que tinha por título exatamente a pergunta que encabeça este artigo, “Pode acontecer aqui?” E, por subtítulo, “Autoritarismo na América”. O livro tem 17 artigos, vários escritos por juristas renomados. Um deles, Eric A. Posner, da Escola de Direito de Chicago, faz um pequeno “manual do ditador” e diz que, para gerar um governo autoritário, o presidente precisaria atacar a imprensa, o Congresso, o Judiciário, a burocracia, subjugar os governos estaduais, atacar a sociedade civil organizada e agitar as massas. Trump cometeu alguns desses atos, atacou a imprensa desde o começo e continua a atacá-la diariamente. Tentou resistir à Justiça, mas não conseguiu. Os estados se rebelaram contra o desmantelamento das regras antipoluição e o abandono do Acordo de Paris. Dividiu e polarizou as massas, mas não as mobilizou a seu favor. Desmantelou partes da burocracia, mas enfrentou o sólido bloqueio da Procuradoria Geral e do FBI. Para Posner, se Trump tinha a intenção de estabelecer um governo autoritário fracassou. Foi contido pelas instituições.

Jack M. Balkin, constitucionalista da Escola de Direito de Yale, argumenta que os Estados Unidos padecem no momento do que chama de “deterioração constitucional”, que define como a decadência das características do sistema que o mantêm como uma república saudável. Trump é apenas um sintoma dessa falência. Segundo ele, as repúblicas são vulneráveis a esse apodrecimento constitucional e, por isso, as boas constituições contêm anticorpos para defendê-las do colapso. No caso da Constituição americana, ele vê mecanismos de defesa nela embutidos contra as oligarquias e os demagogos e que podem preservar a República. Mas, diz, esses mecanismos precisam ser acionados pelas instituições. O quase completo desinteresse do Congresso de maioria republicana em oferecer freios e contrapesos a Donald Trump é, para ele, um elemento preocupante nessa indagação sobre a possibilidade de interrupção democrática. Mas, contrapõe, Trump representa o fim de um ciclo político e não o futuro da política americana. Ele seria o último presidente do que chama de “regime Reagan”, resultante da dominância do voto de eleitores brancos profissionais e ricos. Essa coalizão, segundo ele, está se esfacelando. Além disso, diz, não há uma crise constitucional, apenas um desencanto profundo com os governos. A história da Constituição americana, diz, é uma série de batalhas por mais democracia, igualdade e inclusão face à oposição bem aquartelada da elite. A presidência de Trump deu início a uma nova batalha dessa série.

Sunstein vê o sistema constitucional americano como protegido por uma série de salvaguardas institucionais. Mais ainda, elas se mostraram robustas e funcionais ao longo da história. Mas, alerta, salvaguardas institucionais podem alterar probabilidades, mas não oferecem garantias absolutas. São vários os argumentos dos diferentes autores que contribuíram para esse volume, todos a concordar com a alusão do clássico romance de Sinclair Lewis, “Isso não pode acontecer aqui”.

E aqui no Brasil? Poderia? Primeiro, é preciso lembrar que nossa Constituição foi escrita com anticorpos contra uma ruptura democrática. As instituições foram robustecidas, porque todos os constituintes tinham frescos nas mentes os horrores do regime militar. Mas, essa lembrança também nos acautela para o fato de que já vivemos ditaduras, como a de Vargas, e tivemos ditadores rotativos, durante o regime militar. Os politólogos Carlos Pereira e Marcus André Mello, no livro “Fazendo o Brasil funcionar”, chamam atenção para a robustez das instituições de transparência, controle, freios e contrapesos e como elas amadureceram ao longo desses 30 anos. De fato, essas instituições passaram por vários testes importantes, a hiperinflação e a luta bem sucedida por superá-la, dois impeachments e várias crises financeiras globais. O presidencialismo de coalizão, ao forçar o presidente a governar em aliança multipartidária, oferece mecanismos de contenção dos excessos presidenciais e de mitigação de iniciativas extremadas. O Judiciário também exerce, e tem exercido, um papel moderador nos conflitos intra e interinstitucionais. A mídia, sob ataque sistemático do PT ao longo de seus doze anos de governo e, agora, na campanha, tanto do PT, quanto de Bolsonaro, tem se mantido ativa, altiva e investigativa. Bolsonaro diz que pretende atacar o “ativismo”, ao que parece, a sociedade civil organizada. Mas, para isso, terá que persuadir o Congresso e neutralizar o Judiciário.

Creio que o manual de Posner vale também para nós. Seria preciso que um presidente com mentalidade autoritária, uma vez eleito atacasse com sucesso a Imprensa, o Congresso, o Judiciário, mobilizasse a massa a seu favor e subjugasse os governos estaduais. Atacar a imprensa, Bolsonaro, se eleito, atacaria. Já o tem feito com insistente persistência. Atacar o Judiciário, seu filho já eleito deputado ameaçou fazer, mas sofreu imediata e dura reação. O candidato presidencial o desautorizou. Como Trump, Bolsonaro conseguiu um séquito popular ponderável, mas dividiu a Nação, que está polarizada. Se for eleito ficará a conhecer os limites institucionais do poder. Será um teste para ele e para a democracia brasileira.

Como Balkin, também vejo esta eleição como fim do ciclo político que organizou governo e oposição nos últimos 24 anos. O sistema partidário que foi o seu eixo estruturador ruiu e está em processo, inacabado, de realinhamento. O PSDB, que foi um dos polos do poder partidário, está reduzido a uma bancada relativamente pequena. Pela primeira vez, estará fora do G5 da Câmara dos Deputados. As lideranças que conduziram esse processo político-partidário até aqui estão vivendo seu ocaso ou já se retiraram da vida política. Vivemos uma transição, que nos levará a um novo ciclo de lutas por mais democracia, mais igualdade e mais inclusão.

sábado, 27 de outubro de 2018

Arte de GARGALO

Apelo sem proselitismo algum; por ANTONIO MARTINS

O desfecho da eleição ameaça seriamente a existência de quatro pessoas que me são infinitamente queridas — necessárias como o ar que respiro, pois da existência delas depende a minha
 Imagem: Pablo Picasso, O Enterrro de Casagemas (1901, detalhe)

Queridxs amigxs,

Como sabem, nunca fui de fazer proselitismo político e não é nesta altura da vida que o faria. Vou pedir-lhes apenas um instante de reflexão, nada mais, nesta quadra difícil que atravessa o País.

Tenho um filho gay, um filho petista, uma nora feminista e ativista de direitos humanos e uma mulher que ensina economia e marxismo na USP e na Ufabc, quatro criaturas amáveis e gentilíssimas, como sabe quem as conhece, incapazes de fazer mal a uma mosca, bem formadas que são de cabeça e de coração.

Essas quatro criaturas merecem existir?

No Brasil de Bolsonaro, a resposta é não. As quatro devem ser exterminadas. E aí está a morte deplorável, com 12 facadas nas costas, do Mestre Moa na Bahia, aí estão, a duas semanas da eleição, os quase cem ataques a negros, a mulheres, a nordestinos, a LGBTQs.

É este mesmo o país que queremos?

Dizer que o Bolsonaro nada tem que ver com isso, ou que se trata apenas de discurso de campanha, ou que será ele controlável depois de eleito, significa fazer vista grossa à promoção permanente que faz da violência (de que já foi inclusive vítima) como meio de resolver conflitos inerentes a toda sociedade democrática; significa fazer vista grossa às crescentes milícias que vem fomentando seu discurso de ódio e sua campanha odiosa, as quais milícias aterrorizam e insultam e agridem a quem pensa ou reputam diferente, tudo com a cobertura de nossa polícia, cuja formação infelizmente autoritária defende tais grupos.

Todos sabem que o PT já passou treze anos e meio no governo e não fez nada daquilo que falam tanto, não transformou o Brasil na Venezuela, não forjou nenhum regime totalitário, não proibiu de atuar igreja, imprensa, polícia, promotores, juízes, não fez absolutamente nada do que seus inimigos caluniosamente alardeiam. Foi um governo comum, com grandes erros e grandes acertos, com corrupção, às vezes grande também, como são todos os governos, pela qual aliás vem pagando, e que procurou, com políticas públicas, abrandar nossa imensa desigualdade social, — verdadeiramente vergonhosa aos olhos de países civilizados (os quais, diga-se de passagem, veem com preocupação o cenário de guerra no Brasil).

Por isso peço-lhes apenas que meditem, mas meditem também com o coração, sobre o tempo sombrio que anuncia a eleição do Bolsonaro.

Fosse ele um candidato qualquer de direita, como tantos que já tivemos e temos, jamais estaria escrevendo esta carta. Só o faço porque seu governo, que nem começou e já se mostra terrorista, ameaça seriamente a existência de quatro pessoas que me são infinitamente queridas, mais que infinitamente queridas, aliás, simplesmente necessárias, como o ar que respiro, pois da existência delas depende a minha.

Recebam o abraço melhor deste pai e sogro e marido apreensivo (e que decerto não é o único).

A peste emocional pode ser vencida--por DÉBORA NUNES

William Reich viu o movimento de ódio se disseminando pela Alemanha na época de Hitler como uma espécie de doença contagiosa. É o mesmo que vivemos no Brasil

Manifestação pró-nazismo em 1938, na Áustria anexada pela Alemanha

Consegui! A extrema indignação e raiva que senti ao assistir aquele vídeo grotesco e ler aquelas palavras de ódio foi sendo vencida aos poucos com respiração e força interior. A sensação foi de vitória quando consegui responder à pessoa que o enviou com calma e educação, evidenciando a montagem e convidando-a a ver os fatos de maneira isenta. Não tenho a mínima ideia se ela vai ponderar algo sobre o que eu disse, mas tenho a clara ideia de que eu venci o clima que a extrema direita quer espalhar no Brasil. Mantive, com esforço, a minha paz de espírito e de algum modo reverti a situação, não aderindo à escalada de medo e ódio que só favorece o candidato da intolerância.

Para conseguir isso foi bom trazer à mente a máquina subterrânea, movida a muito dinheiro, que está produzindo esses vídeos e nas pessoas que estão sendo pagas para disseminarem essas mentiras. O fato da extrema direita quase ganhar as eleições brasileiras no primeiro turno está intimamente relacionado com a vitória de um homem desqualificado como Trump como presidente dos Estados Unidos. Está vinculado à vitória do Brexit, quando, perplexos, ingleses e europeus viram a opção pela saída da Inglaterra da União ganhar o pleito, com todas as consequências negativas para ambos lados. Esses fenômenos têm ao menos uma característica em comum: a manipulação das pessoas pelas redes sociais através de empresas contratadas para manipular emoções, estimulando o ódio.

Acredito firmemente que vamos vencer essas eleições conversando, argumentando, ouvindo e chamando as pessoas à razão e à convivência civilizada. Cada um e cada uma vencendo sua própria aversão e fazendo o que eles não esperam: sair da armadilha deles. Não convenceremos os que visceralmente estão a favor da barbárie, ou que terão vantagens com ela, mas faremos pessoas ao redor deles pensarem no que poderia acontecer se o Brasil se deixasse levar palas fake news e se tornasse um país armado, violento, racista, homofóbico e intolerante com quem pensa diferente. Eu mesma, uma moderada que fala e pratica a paz interior como caminho de transformação pessoal e do mundo, já fui agredida verbalmente nas redes sociais e ameaçada de exílio com uma passagem só de ida para a Venezuela. Imaginem os mais exacerbados… iriam ser torturados e fuzilados?

Sim, voltando à peste emocional e sua cura. William Reich viu o movimento de ódio se disseminando pela Alemanha na época de Hitler como uma espécie de doença contagiosa. Seus estudos sobre o comportamento mostravam como os humanos estão expostos a reações violentas em cadeia quando as condições são dadas. A raiva, a impotência, as dificuldades da vida e as repressões psicológicas, principalmente sexuais, são combustível para a peste emocional e sua disseminação. Como todo contágio, ele é mais provável em quem está mais debilitado. Observem em torno de vocês: as pessoas que mais disseminam o ódio não coincidem com aquelas que se sentem menos reconhecidas? Não são as que que não suportam que outras pessoas, sobretudo as mais pobres, usufruam de direitos como ir à Universidade e viajar de avião? Não são os conservadores empedernidos que querem controlar as escolhas libertárias dos outros?

Porém, se os que disseminam mentiras são milhares, os que “curtem” calados essas mentiras e votam na direita são milhões, foram quase 50% dos eleitores no primeiro turno. Reich dizia que se a “peste” contamina tantos é porque todos e todas temos ódios e repressões que podem nos impedir de ver com clareza a realidade e, por exemplo, votar em um candidato desqualificado e cujo programa é o de favorecer as elites. Os nordestinos foram mais resistentes à onda contagiosa porque os efeitos das políticas sociais foram tão concretos que o senso de realidade foi mais forte. O caminho da cura para a peste emocional passa, num primeiro momento, por nós mesmos.

A pessoa a quem respondi no Facebook está comprometida racionalmente com o projeto da extrema direita ou está acometida dessa doença que incita o ódio pela manipulação da informação? Quando respondemos educadamente a uma montagem em vídeo, foto ou uma mensagem raivosa falada ou escrita, estamos mostrando que existe um modo sadio de conviver. Isso bota água fria na fervura e, ao baixar a temperatura, dá tempo e condição para as pessoas que as seguem refletirem e deixarem de seguir os manipuladores. Acredito que se excluímos os que votam na extrema direita de nossos contatos deixamos campo livre para que a mentira se dissemine sem contestação, para que o ódio pareça ser o normal. Não é fácil a convivência com o intolerável verbal, mas esse intolerável ainda é verbal. Com os que mataram Marielle e Mestre Moa a mão da justiça tem que ser implacável.

Em alguns dias, não vamos curar as causas profundas da peste emocional, tanto as materiais quanto as repressões milenares, mas podemos reverter muitos votos com civilidade e convencer pessoas que se abstiveram no 1º turno a ir votar no 2º pra evitar o pior. Amenizaria muito o clima de raiva ao PT se o partido pedisse desculpas pelos erros que cometeu, mas ele ainda não o fez por uma visão antiquada – e muito masculina – de que nos fragilizamos quando reconhecemos erros. Que bobagem imensa. 
Os acertos do PT seriam muito mais valorizados se reconhecessem seus erros. Ok, eles ainda não o fizeram, mas em nossas respostas civilizadas aos ataques e em conversas privadas com familiares e amigos nós podemos fazer, ecoando a opinião de tantos petistas que se envergonharam com muito do que viram, mesmo tendo clareza de toda a manipulação da mídia e perseguição de certos juízes.

A peste emocional será vencida quando sairmos nós mesmos da intensidade emotiva contra pessoas do outro lado, mantendo nossa indignação e luta contra as ideias do outro lado. 
Venceremos quando conseguirmos fazer com que pessoas que não gostam do PT e de Lula, mas que prezam a democracia, se sintam motivadas a ir votar em Haddad. 
Venceremos quando fizermos uma barreira de emoções positivas que impeça a peste de avançar e reduza seu campo de influência. Está nas nossas mãos, e não nas de Haddad ou do PT apenas, vencer a extrema direita. 
É imprescindível que a campanha desse excelente candidato organize a união da cidadania contra a ditadura, fazendo alianças sólidas e programáticas. 
Vamos assim corrigir as atrocidades cometidas pelos golpistas no campo legal, social e econômico. 
Vamos assim aprofundar a conquista de direitos já praticada até aqui e que transformou o Brasil num país respeitado. 
Respire, converse com sua família e amigos, vá pro seu telefone e pro seu computador, veja quem será a pessoa que testará sua paciência hoje e responda calmamente. Perdoe-se se não conseguir nas primeiras vezes. A causa é imensa e vale a pena. A peste pode ser vencida.

Arte de SIMANCA

O risco de cobrir a ‘webcam’, por FRANCISCO DOMÉNECH

O auge da Internet das Coisas ameaça a cibersegurança coletiva e confunde o cidadão, preocupado com sua privacidade individual
Câmera web coberta com fita adesiva por medo de invasão de privacidade.

Realidade e ficção se tocam nas preocupações dos cidadãos com sua privacidade online. Em 2018 reapareceu o golpe da webcam, com o qual hackers tentaram extorquir vários leitores da revista The Register: um e-mail anônimo lhes pedia vários milhares de dólares (em bitcoins) para manter em segredo um vídeo que supostamente haviam gravado de sua própria câmera web enquanto desfrutavam de material pornográfico em seu computador. Como suposta prova da invasão, os golpistas apresentaram a cada usuário uma senha real, que usaram para acessar um fórum que haviam invadido previamente.

Alertados por uma vítima cética, os especialistas em segurança da publicação britânica recomendaram a todos os leitores que ignorassem esse tipo de e-mail: “Não entre em pânico, não pague. É muito improvável que esse vídeo exista. Mude sua senha e considere usar a partir de agora a autenticação de fator duplo e um gerenciador de senhas para manter suas contas seguras”. O incidente revelou internautas acostumados a usar senhas fracas e, ao mesmo tempo, preocupados com um assalto à sua privacidade semelhante ao sofrido pelo protagonista de um capítulo da terceira temporada da série de ficção científica Black Mirror.

A verdade é que tecnicamente isso é possível. Também durante o verão passado, pesquisadores da empresa de cibersegurança ESET divulgaram a descoberta do InvisiMole, um novo e poderoso malware que está em circulação desde 2013 e faz exatamente isso: se disfarça como um arquivo do sistema Windows e, entre outras coisas, assume o controle da webcam e do microfone do usuário para observar suas atividades e coletar informações pessoais e documentos. Zuzana Hromcová, analista da ESET, explica que esse programa tinha permanecido sob o radar dos antivírus porque “utiliza várias técnicas para evitar sua detecção e porque só foi usado contra um pequeno número de vítimas altamente selecionadas na Rússia e na Ucrânia”.

O InvisiMole é uma ferramenta de ciberespionagem como as que o FBI usa há anos, conforme admitiu Marcus Thomas, ex-diretor adjunto da Divisão de Operações Tecnológicas da agência federal norte-americana. Também em 2013, um estudo da Universidade Johns Hopkins mostrou que é possível infectar um computador e gravar com sua webcam sem acender a luz que alerta o usuário, e os pesquisadores detalharam em seu artigo como fazê-lo em uma variedade de computadores Apple.

Se Mark Zuckerberg fizer isso...
Ser espionado pela própria webcam é uma possibilidade que vai além de golpes online e séries de televisão, e do rumor global provocado pela foto em que se vê o próprio Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, com a câmera do seu notebook coberta por um esparadrapo.

Cobrir as webcams é uma prática cada vez mais difundida, tanto em computadores para uso pessoal quanto no trabalho. E também há suspeitas generalizadas em relação aos alto-falantes inteligentes —como aqueles que a Amazon e a Apple estão lançando— especialmente depois que foi revelado na conferência global de hackers DEF COM, em agosto, um truque para transformar um alto-falante Amazon Echo em um microfone espião. No último ano, os alto-falantes inteligentes se tornaram o dispositivo mais popular da chamada Internet das Coisas, uma categoria tecnológica destinada a crescer 300% nos próximos anos.

Assim, a mais recente campanha de conscientização do projeto REIsearch da Comissão Europeia afirma que até 2025 o número de objetos conectados terá crescido até atingir 75.000 milhões, incluindo uma grande variedade de dispositivos pessoais como carros, marca-passos ou brinquedos; também eletrodomésticos, lâmpadas ou plugues; e sensores e maquinaria de infraestruturas públicas como hospitais, centrais elétricas ou redes de transporte.
Objetos inteligentes, o grande objetivo dos ‘hackers’

Para os hackers, todos esses objetos conectados são muito mais interessantes do que nossas webcams, segundo o prestigioso analista de cibersegurança Mikko Hypponen: “As pessoas podem pensar: Por que alguém iria querer piratear minha geladeira, o micro-ondas ou a cafeteira inteligente? A motivação geralmente não é manipular o dispositivo e espionar-nos com ele, mas obter acesso à nossa rede e senhas. O elo mais fraco das nossas redes não são nossos computadores ou telefones celulares, são nossos objetos conectados”, explicou Hypponen em uma conferência em Dublin na semana passada. “Se um dispositivo é descrito como ‘inteligente’, isso significa que ele é vulnerável”, lembra o especialista em todas as suas intervenções.

Essa ameaça já se tornou realidade quando, há dois anos, o ataque Miraiderrubou os servidores de Amazon, Spotify, Twitter e Netflix, além da página do The New York Times. Estes e outros 150.000 sites ficaram inacessíveis durante horas, porque houve muitas visitas ao mesmo tempo. No entanto, por trás dessas visitas não havia pessoas, mas objetos conectados à Internet (televisores, geladeiras, câmeras de segurança) que tinham sido infectados e seguiam as ordens de um malware, que os recrutou para formar um exército ou rede de robôs conectados à Internet (botnet). Foi o primeiro ciberataque em massa protagonizado pela Internet das Coisas.

O último relatório da Europol sobre o crime organizado na Internet destaca o receio de que o próximo grande ataque desse tipo possa causar uma paralisia global da Internet. E também aponta como grande preocupação a persistente ameaça dos ransomware, programas maliciosos que pedem um resgate para desbloquear o sistema de computadores que infectaram. Um deles, o Wannacry, impediu em 2017 que milhares e milhares de pessoas acessassem serviços básicos como eletricidade (na Espanha) e saúde (no Reino Unido).
Como se proteger?

Em casos como este, a Internet das Coisas foi vítima do ataque, e não o transmissor. E isso põe em questão o uso de dispositivos de saúde “inteligentes” que, pelo fato de estarem conectados à Rede, podem ser tomados como reféns em um ataque como o Wannacry e, assim, colocar em risco a vida de pacientes que dependem de seu funcionamento.

Nesse contexto, a Califórnia acaba de aprovar a primeira lei sobre a segurança de objetos inteligentes, que impõe a todos os fabricantes novas medidas de segurança (e não apenas de privacidade) a partir de 1º de janeiro de 2020.

Enquanto isso, os especialistas pedem aos usuários que sejam exigentes com a segurança dos dispositivos conectados que instalam em suas casas, que mantenham atualizado o software de todos os seus computadores, que usem gerenciadores de senha e que reforcem a segurança de suas redes domésticas. Quatro conselhos para lidar com essas ameaças em grande escala à cibersegurança coletiva... e também muito mais úteis do que um esparadrapo na webcam, se o objetivo é proteger a privacidade individual de intrusões muito pouco frequentes —fora do mundo da espionagem e de pessoas como Zuckerberg, cujos segredos valem muitos milhões de dólares. Para o internauta comum, o risco de cobrir a webcam é ter uma falsa sensação de segurança e permanecer alheio às novas ameaças da era da Internet das Coisas.

Coronel da reserva que divulgou ameaça a Rosa Weber usará tornozeleira eletrônica, diz PF, por Ana Paula Andreolla

Coronel Carlos Alves divulgou vídeo afirmando que, se TSE aceitar pedido do PT e declarar Bolsonaro inelegível, sofrerá as consequências. Uso da tornozeleira foi determinado pela Justiça.

A Polícia Federal (PF) informou nesta sexta-feira (26) que o coronel da reserva Carlos Alves passará a usar tornozeleiras eletrônicas após decisão judicial.

Engenheiro militar da reserva, Alves divulgou um vídeo nas redes sociais afirmando que, se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aceitar o pedido do PT e declarar Jair Bolsonaro (PSL) inelegível, irá sofrer as consequências.

A pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), a PF abriu um inquérito para investigar o coronel e o ouviu nesta sexta-feira.

"Se aceitarem essa denúncia ridícula e derrubarem Bolsonaro por crime eleitoral, nós vamos aí derrubar vocês aí, sim", diz o coronel no vídeo.

"O juízo determinou o monitoramento eletrônico do investigado, a proibição de andar armado e possuir arma em casa, o impedimento de deslocar-se à cidade de Brasília, bem como a obrigação de se manter a pelo menos de 5 km de distância de todos os Ministros do STF, do TSE e do Ministro de Estado da Segurança Pública", informou a PF em nota (leia a íntegra mais abaixo).

Na última terça (23), o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou um requerimento para a Procuradoria Geral da República (PGR) investigar o vídeo com ofensas à presidente do TSE, Rosa Weber, e a outros ministros do tribunal.

STF pede a PGR que investigue ataques de coronel da reserva à ministra Rosa Weber

O que diz o Exército
Após a decisão do STF, o Exército divulgou uma nota na qual afirmou que o militar "afronta diversas autoridades" e deve assumir as responsabilidades pelas declarações, que "não representam o pensamento do Exército Brasileiro".

Cabe ressaltar, ainda, que o comandante do Exército, por intermédio de seu gabinete, encaminhou uma representação ao Ministério Público Militar solicitando que fosse investigado o cometimento de possível ilegalidade", acrescentou a força.

Segundo o Ministério Público Militar, a apuração cabe ao Ministério Público Federal "uma vez que não se trata de crime militar".

Íntegra--Leia abaixo a íntegra da nota da PF:

Brasília/DF - A Polícia Federal cumpriu na tarde de hoje (26/10) mandado de busca e apreensão, expedido pela 5ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. A ação é resultado de representação da Polícia Federal à Justiça, com o objetivo de investigar ameaças e ofensas, divulgadas em vídeos na internet, a diversas instituições e autoridades da República. Foram apreendidos pela PF dispositivos de armazenamento de dados, como computadores e aparelhos celulares.

Além do mandado de busca e apreensão cumprido no Rio de Janeiro, o juízo determinou o monitoramento eletrônico do investigado, a proibição de andar armado e possuir arma em casa, o impedimento de deslocar-se à cidade de Brasília, bem como a obrigação de se manter a pelo menos de 5 km de distância de todos os Ministros do STF, do TSE e do Ministro de Estado da Segurança Pública.
O investigado poderá responder pelos crimes de difamação, injúria, constrangimento ilegal, ameaça, além de crimes previstos na Lei de Segurança Nacional.

PGR aciona Supremo para garantir manifestação política em universidades públicas, por Rosanne D'Agostino

Ação foi apresentada após operações em diversas universidades do país. No documento, Raquel Dodge aponta indícios de violação a direitos fundamentais de manifestação do pensamento.
Manifestação de estudantes em frente à Faculdade de Direito da UERJ, no Centro do Rio, nesta sexta-feira (26). — Foto: Daniel Castelo Branco

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, entrou com ação nesta sexta-feira (26) no Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir a liberdade de expressão e de reunião de estudantes e de professores nas universidades públicas.

A ação será relatada pela ministra Cármen Lúcia.
Segundo a PGR, a ação visa evitar lesão decorrente de atos do poder público que possam autorizar ou executar buscas e apreensões em universidades públicas ou privadas.

Também quer proibir o ingresso e interrupção de aulas, palestras, debates e a inquirição de docentes, discentes e de outros cidadãos que estejam nas instituições de ensino.

A ação foi movida pela PGR após juízes eleitorais autorizarem operações em universidades públicas no Rio de Janeiro, Amazonas, Bahia, Paraíba, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Ceará e Mato Grosso do Sul.

As operações aconteceram para averiguar denúncias de campanhas político-partidárias que estariam acontecendo dentro das universidades.

Segundo Raquel Dodge, há indícios de lesão aos direitos fundamentais da liberdade de manifestação do pensamento, de expressão da atividade intelectual, artística, científica, de comunicação e de reunião.

A ação pede que seja concedida liminar (decisão provisória) para que seja suspenso “todo e qualquer ato que determine ou promova o ingresso de agentes públicos em universidades, o recolhimento de documentos, a interrupção de aulas e debates, a atividade disciplinar docente e discente e a coleta irregular de depoimentos”.

No mérito, o pedido é para que sejam anulados todos os atos já praticados, ainda que não tenham sido mencionados na ação. Também pede que o STF determine que quaisquer autoridades públicas se abstenham de repetir os procedimentos.

A PGR também abriu procedimento administrativo para apurar os fatos noticiados e informou que foram enviados ofícios aos procuradores regionais eleitorais de todas as unidades da federação para que reúnam informações sobre os atos praticados nas instituições públicas de ensino durante o período eleitoral, por ordem ou não da Justiça.

Os dados deverão ser encaminhados para a Procuradoria-Geral da República no prazo de cinco dias.
Faixa com a palavra 'censurado' é colocada na fachada da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ) — Foto: Fábio Motta

Consulado de Portugal em SP antecipa retomada de pedidos de cidadania para novembro

Novos pedidos haviam sido suspensos temporariamente até janeiro pelo "número crescente" de solicitações.

Consulado de Portugal em São Paulo 

Após anunciar a suspensão temporária de novos pedidos de cidadania até 2 de janeiro de 2019, o Consulado de Portugal em São Paulo recuou e anunciou que novos pedidos serão aceitos a partir de 1º de novembro, na próxima semana.

O anúncio foi publicado em uma nota no site do órgão. O consulado em Santos, na Baixada Santista, também irá voltar a aceitar novos pedidos nesta data.

No dia 18 de outubro, quando anunciou a suspensão temporária, o consulado alegou que estava sobrecarregado pelo "número crescente" de novos pedidos. O órgão disse que a medida foi tomada para "evitar ainda maior lentidão na análise dos processos que já se encontram pendentes de tratamento"./
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Cresce número de brasileiros pedindo cidadania diretamente em Portugal

MP vai apurar se Paulo Guedes deu prejuízo a fundos de pensão; economista nega, nas folhas

Ele é conselheiro econômico do candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL), que já o anunciou como futuro ministro caso seja eleito.
O economista Paulo Guedes, em imagem de 6 de agosto, na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) — Foto: Sergio Moraes/Reuters

O Ministério Público Federal abriu investigação para apurar se o economista Paulo Guedes cometeu irregularidades em investimentos de fundos de pensão.

Segundo o Ministério Público, fundos de pensão de estatais aplicaram em dois fundos de investimento administrados por uma empresa de Paulo Guedes e perderam R$ 200 milhões. Guedes foi chamado para prestar depoimento em 6 de novembro.

Ele é conselheiro econômico do candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e já foi anunciado como ministro da Economia se o presidenciável vencer o segundo turno da eleição neste domingo.

A defesa de Paulo Guedes divulgou nota na qual afirma que a investigação se baseia em um relatório "fragilíssimo", que tratou de apenas um, dentre quatro investimentos realizados pelo fundo.

Segundo a nota, esse relatório omite o lucro "considerável" que o fundo tem propiciado aos investidores, com perspectiva de ganhos de mais de 50% do valor investido.

A nota diz ainda que causa "perplexidade" que, a 72 horas das eleições, o Ministerio Público instaure uma investigação para apurar um investimento que deu lucro aos fundos de pensão.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

“Contradições e bate-cabeça da campanha de Bolsonaro são intencionais”, por GIL ALESSI

Para o especialista em estratégia militar Piero Leirner, capitão usa tática militar em sua comunicação
Piero Leirner, professor da Ufscar.


Esqueça a propaganda eleitoral tradicional na TV e no rádio. Deixe de lado também qualquer necessidade de discursos coerentes e sem contradições. Ao contrário, estimule seus aliados a levantar uma série de polêmicas apenas para que você possa em seguida desmenti-los e desempenhar o papel de apaziguador, paladino "da ordem". Na sequência, apresente mais desinformação. Repasse para dezenas de grupos fechados de Whatsapp, que espalharão para mais centenas, até que a verdade seja uma questão de ponto de vista sem nenhum lastro na realidade. Essa é a estratégia que, segundo o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos e especialista em estratégia militar, foi colocada em marcha pela campanha do presidenciável Jair Bolsonaro e pode levá-lo ao Planalto nas eleições de domingo. 

Em entrevista por email ele detalha os passos que fizeram com que o capitão da reserva deixasse seus adversários se perguntando o que os atingiu. 

Pergunta. A campanha de Bolsonaro frequentemente aparenta bater cabeça, com o capitão tendo que rebater colocações de sua equipe, como no caso da afirmação de um de seus filhos sobre o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Isso é uma estratégia eleitoral?

Resposta. Tenho a impressão que no primeiro turno isso foi feito muito mais de cabeça pensada do que agora. A estratégia visava a criação de um ambiente de dissonância cognitiva [no qual uma pessoa apresenta simultaneamente opiniões contraditórias entre si], para em um segundo momento Bolsonaro aparecer com um discurso de restauração da ordem. Este é um passo clássico de operações psicológicas [militares], algo que está colocado em manuais de informação e contrainformação, propaganda de guerra e estratégias de dissuasão do inimigo há muito tempo.

P. Qual o sentido de usar esta estratégia?
R. O que se podia fazer com oito segundos de TV? Nada. Então houve a apropriação bastante eficaz desse tipo de instrumento de guerra semiótica. Falar e desdizer, e, como você disse antes, "bater cabeça" com os cabeças de ponte, os subordinados que ocupam uma posição de contato no terreno inimigo. Com isso ele mostrava o seguinte: "a confusão está fora de mim, mas eu restauro a autoridade aqui". Todo o tempo esse foi o discurso, de que ele é a autoridade. E assim ele multiplicou o carisma, jogando para o plano que oscilava entre uma autoridade carismática e tradicional.

Tenho a impressão que depois isso se tornou um padrão, basta ligar no piloto automático. O que foi repreender o filho [Eduardo Bolsonaro, que falou na possibilidade de fechar o STF] senão a repetição do discurso de que "tem que levar umas palmadinhas"? Ou seja, mais uma vez ele capitalizou com o erro.

P. Em que medida esta estratégia ajuda o candidato? É possível dizer que, neste cenário, confundir ajuda?
Outro dia assisti em um programa de TV uma mesa com dois donos de corretoras, e um deles disse: "não é preciso ter plano algum para a economia, isso a gente vê depois. O que interessa mesmo é acabar com o privilégio das minorias que se instalou nesse país". Acho que nem Wall Street chegaria nesse ponto, de onde se vê que até gente que sabe como a engrenagem funciona caiu em processo de dissonância cognitiva.
O padrão é sempre aparecer com uma ordem semanticamente paralela à desordem anterior. Se há uma desordem, digamos hipoteticamente, lançada por meio de uma contradição em um assunto econômico, como por exemplo Paulo Guedes dizendo "vou privatizar tudo", Bolsonaro reage com um "não vamos privatizar as empresas estratégicas" e, posteriormente, a questão é resolvida com um "vou acabar com o problema da violência". Isso é tão eficaz que até os donos de corretoras, o tal mercado, releva as informações que deveriam realmente interessar e passam a apostar nele.

P. Estas polêmicas provocadas pelo círculo íntimo do candidato ficam dias repercutindo na mídia. Isso é positivo para ele?
R. Claro. Ainda mais considerando que ele conseguiu colar a versão de que a mídia é, ela própria, uma fake news. Então toda a polêmica que fica exposta ele capitaliza depois mostrando que é o anti sistema lutando contra o establishment. E fez isso de uma maneira muito simples, pois depois de anos da mídia manobrando à vontade para bater no PT, eis que Bolsonaro bate na mídia e o PT assume a defesa dela! O que a campanha do PT fez? Jogou fora sua narrativa anterior, deixando esse vácuo, que é um tesouro semiótico, pronto para o Bolsonaro pegar e inverter a pauta: agora o PT é o "partido da Globo". Passei dias ouvindo isso, que na Globonews são todos petistas de carteirinha. Agora, minha sensação é que quanto mais a mídia bater, mais ele capitaliza.

O conceito foi inventado por um norte-americano que reside na Rússia, o Andre Korybko. Ele fala, sobretudo, em movimentos que se utilizam de pautas identitárias que são articuladas por agentes externos para provocar conflitos e desestabilizar regimes. Foi assim nas chamadas primaveras árabes e, penso, aqui também em 2013. Para ele há um claro envolvimento do assim chamado deep state [nome dado a uma mistura de interesses de agentes estatais com investidores e setores industriais] norte-americano.P. Qual o conceito de guerra híbrida que o senhor trabalha, e como se aplica à política?

P. A manipulação de pautas identitárias são a única maneira de usar a guerra híbrida?
R. Eu penso que não, ainda que os meios sejam os mesmos: basicamente uma guerra no campo da informação e contrainformação, cujo objetivo é dissuadir o inimigo sem precisar levantar a espada. Isso é Sun-Tzu [estrategista militar chinês autor do livro A Arte da Guerra]. Isso é a base das PsyOps, ou operações psicológicas. O ponto todo é sempre desnortear o inimigo, deixando praticamente impossível para ele uma avaliação real sobre o tamanho, o posicionamento, a coesão e o estado de suas forças. Toda informação deve ser criptografada, e sempre é preciso adicionar uma quantidade de camadas de informação diante dos fatos de modo que as pessoas não saibam mais se estão olhando para as distrações ou para a mão que realiza a manobra. Com essa parafernália conceitual, me parece plausível que existe aplicação em qualquer campo. Por que a política ficaria isenta dela?

P. Como reagir a um ataque híbrido?
R. O que você acha que é essa quantidade incrível de vídeos que circulam agora via Facebook e Whatsapp? Contra-ataques híbridos. Estão certos? Falam a verdade? É bem possível, mas sua origem é tão obscura quanto a da matéria ele pretende desmentir. E o problema disso tudo é que nada parece ter lado, todas essas verdades parecem surgir do nada e se fiar em checagem de fatos. Mas então me diga uma coisa: qual é a agência que vai determinar, em última instância, a checagem? A mesma imprensa que até 20 dias atrás manobrou os fatos à sua vontade? O problema é que quando eles iam só em uma direção, estava tudo bem. Agora que o resultado saiu do controle, fica todo mundo desesperado com a quantidade de notícias falsas e mentiras. Quem olhou para o que estava acontecendo desde 2013 viu que tudo estava seguindo um padrão.

P. Existe algum outro país onde esta estratégia tenha sido utilizada?
R. Desta maneira, que eu saiba, não. Você deve estar pensando no caso norte-americano, no escândalo da Cambridge Analytica e dos contatos do filho de Bolsonaro com Steve Bannon [ex-estrategista de Donald Trump]. É uma parte do processo, mas não explica tudo. A estratégia tem que ser vista de forma aprofundada, recuando alguns anos. Agora parece que todo mundo acordou, no susto. Não se trata só da campanha que começou este ano, mas de passos mais largos que foram sendo realizados por outros agentes, como o Judiciário e a própria mídia.

A entourage de Bolsonaro certamente mapeou esses movimentos e foi se posicionando, sempre no segundo plano. Quando chegou a sua vez, aí foi o movimento de morde e foge, lançou o ataque semiótico e depois viu como o campo se desorganizou, para aí se reposicionar de novo. E assim foi indo, sempre lá de trás, observando como no front os outros ficavam como baratas tontas. Veja o PSDB [que focou sua artilharia em Bolsonaro, mas sequer foi ao segundo turno da disputa], mais claro impossível.

P. O que mudou no papel da propaganda eleitoral clássica, na TV e no rádio? Os adversários de Bolsonaro conseguiram fazer bom uso dela?
R-Isso que você está chamando de propaganda clássica chega a dar dó. Os minutos que são fatiados em críticas, propostas e aqueles clipes ridículos mostrando gente sorrindo, o brasileiro típico, não devem convencer mais ninguém. Compare com o que produziu Bolsonaro: vídeos de baixa qualidade, feitos com celular. Todo mundo espalhou, não consumia a banda larga de ninguém! Pareciam selfies que se manda para o amigo ali da esquina. 
Essa estratégia o colocou em linha direta com as pessoas. E elas espalharam este conteúdo como se fossem agentes de campanha. Funcionaram como estações repetidoras. Delas para os grupos, e desses para outros. Hoje também já suspeitamos que houve uma ajuda extra. Mas, como disse, esse jogo está com a regra alterada circunstancialmente. Então essa propaganda tradicional, do jeito que está sendo feita, é inócua.

P. Algum outro candidato além de Bolsonaro fez uso da guerra híbrida com eficiência?
R. Claro que não. Basta ver onde eles estão.

P. Bolsonaro diz não ter controle sobre a disseminação de fake news. Qual sua avaliação?
R. Há dois pontos aí: ele não tem controle de como as fake news se espalham, pois as células atuam de maneira semi-independente. Mas ele, ou alguém da equipe dele, tem controle sobre a própria boca e como as coisas saem dela. Então ele tem segurança na fórmula, a equipe tem as chaves da criptografia das mensagens passadas. Então é claro que ele poderia dar um cavalo-de-pau e tentar mudar a chave, e é evidente que ele não fez isso. O discurso de domingo [21 de outubro, quando Bolsonaro falou em varrer a oposição] intensificou mais ainda essa estratégia. Tudo feito como sempre, e ninguém consegue reagir.

Arte de NANI

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Por que a política de segurança pública do Bolsonaro seria uma tragédia?, por DANIEL CERQUEIRA

A impunidade seria mais duramente atingida com um trabalho sério de saneamento das polícias civis (que foram sucateadas) e de uma integração mais efetiva com as Polícias Militares

Policiais no Rio de Janeiro. SERGIO MORAES REUTERS

A retórica fácil e falaciosa de Jair Bolsonaro de combate duro ao criminoso, em um ambiente social onde predomina o medo, foi um grande cabo eleitoral do capitão na eleição presidencial. Tal retórica é baseada em um tripé: 1) no endurecimento das leis penais; 2) no direito das pessoas se armarem; e 3) na retórica da guerra e da licença para o policial matar. Tal pseudopolítica redundará numa tragédia nunca antes vista nesse país.

Sobre o primeiro pilar, aumentar a dureza das penas não contribuirá para identificar e prender os criminosos mais perigosos como homicidas e autores dos crimes mais violentos, mas ocasionará apenas o aumento da superlotação dos presídios com presos de baixa qualidade, formados por jovens participantes dos escalões mais baixos do crime, que serão presas fáceis das facções criminosas, que nascem dentro das prisões e que se dinamizam às custas do erário público.

A tão propalada impunidade seria mais duramente atingida se houvesse um trabalho sério de saneamento das polícias civis (que foram sucateadas) e de uma integração mais efetiva com as Polícias Militares, de modo a dotar as polícias de capacidade de investigação e inteligência. De fato, Menos de 10% dos homicídios são esclarecidos no país. No Rio de Janeiro, só há inquéritos instaurados em 4% dos casos de roubos (e mesmo assim, quando há flagrante, na maioria das vezes), o que implica dizer que em 96% dos casos não há qualquer investigação. Apenas os autores de furtos e traficantes presos com até 40 gramas de entorpecentes somam cerca de 200 mil detentos, que contribuem para superlotar o sistema carcerário, que se vê hoje diante de um déficit de 360 mil vagas.

O segundo pilar da retórica bolsonariana apela para o direito do cidadão se defender pelos próprios meios, a partir do acesso indiscriminado à arma de fogo. A esse respeito existe um consenso na literatura científica nacional e internacional em que uma arma dentro de casa conspira contra a segurança do lar e contribui para a insegurança pública.

Pesquisadores americanos verificaram que uma arma de fogo dentro de casa faz aumentar em cinco vezes as chances de algum morador ali sofrer homicídio ou suicídio, isso sem falar nos recorrentes casos de acidentes fatais envolvendo crianças.

Por outro lado, quanto mais armas legais, mais armas irrigarão o mercado ilegal, seja por furtos, roubos ou extravios. Consequentemente, o aumento da oferta de armas no mercado ilegal, faz com que o preço da arma diminua, facilitando o acesso à mesma pelo criminoso mais desorganizado, exatamente aquele que vai assaltar nas ruas e termina cometendo o latrocínio. Na CPI das armas de fogo no Rio de Janeiro, se constatou que em 10 anos apenas das empresas de segurança privada, quase 18 mil armas foram extraviadas ou roubadas.

Em terceiro lugar, a arma no ambiente urbano é um instrumento de ataque e não de defesa, em vista do fator surpresa. A esse respeito, uma pesquisa feita em São Paulo mostrou que as chances de um cidadão armado, quando assaltado, ser morto é 56% maior do que o cidadão desarmado.

Por último, em alguns estados onde se apurou as motivações dos casos de homicídios, concluiu-se que quase um terço decorria de questões interpessoais e passionais como briga de bar, de vizinho, por questões políticas ou ainda passionais. Você se sentiria mais seguro se todos ao seu redor estivessem armados, nas ruas, nos shoppings e nos estádios de futebol?

Sobre a licença para o policial matar, sem qualquer controle, propalada pelo Bolsonaro além de ser uma excrescência ao Estado Democrático de Direito é o caminho mais curto para acabar com a efetividade do trabalho policial e para gerar vítimas numa guerra retórica e real, onde só haverá perdedores, começando pelo próprio policial. Leis, protocolos internacionais e técnicas policiais que norteiam o uso proporcional da força pela polícia já existem e servem exatamente para resguardar o próprio policial e a sociedade.

Em primeiro lugar, a guerra retórica e a licença para matar alimentam a demanda por armas de alto poder destrutivo pelos criminosos. Pavimenta-se assim um espiral crescente de violência e mais violência com a mortes de supostos criminosos, mas também de civis e de policiais, além de desencadear o aumento do medo generalizado da população, em face das balas perdidas e barulho de tiros. Um verdadeiro abismo de desconfiança e de ódios recíprocos entre as comunidades e as polícias inviabiliza qualquer possibilidade da coprodução da segurança pública, um elemento crucial para a efetividade do trabalho policial.

Sem o controle social do uso da violência, o policial pode matar ou pode não matar. Quanto custa uma vida? Se não há controle, o policial pode trocar a vida de outro por propina. Basta que alguns policiais aceitem entrar no mercado de corrupção para que todo o trabalho de uma corporação policial esteja perdido.

Por fim, os embates e o exercício diário da morte nas vidas dos policiais os colocam numa situação de imensa vulnerabilidade psicológica e física. De fato, a taxa de suicídio policial no Brasil é três vezes maior do que da população civil, ao contrário do que acontece em outros países. Por outro lado, se o policial brasileiro mata sete vezes mais do que o policial americano, proporcionalmente à população, este é assassinado numa proporção 19 vezes maior.

Ou seja, a pseudopolítica bolsonariana baseada no ódio, no extermínio e nas armas é o caminho mais curto para atingirmos níveis nunca imaginados de violência letal no Brasil, numa guerra onde só haverá perdedores.

Ganhe quem ganhar, a crise vai continuar, por Jorge Oliveira

Arte IZANIO
Desde o golpe militar de 1964, que torturou, matou e exilou centenas de brasileiros, que o país não vive uma situação política tão difícil e imprevisível. Os dois candidatos – Bolsonaro e Haddad – disputam a hegemonia dos votos para chegar ao poder a partir do dia 28 quando as urnas serão abertas e o povo vai saber quem vai administrar o Brasil pelos próximos quatro anos. De um lado, o fascista Bolsonaro, o capitão do exército, desponta na liderança, e se nada o atrapalhar até lá pode virar o presidente. Do outro, Haddad, o representante da organização criminosa petista que saqueou os cofres públicos, cujo chefe, o Lula, cumpre pena de doze anos por corrupção e lavagem de dinheiro.

No meio de toda essa farofa ideológica e partidária, o eleitor. Inconformado, com razão, com o desgoverno petista que deixou o país atolado no caos econômico, ele se aliou ao outro extremo na esperança de salvar a nação: a direita radical, xenófoba, defensora da tortura, fascista e antidemocrática representada por Bolsonaro. Pensa, com isso, enterrar de vez a esquerda lulista que tanto mal fez ao país. Seus seguidores, porém, se enganam, pois o PT, mesmo esfacelado moralmente, ressurgiu das urnas com governadores, senadores e como a maior bancada da Câmara dos Deputados. Isso mostra que o governo bolsonarista vai arder em chamas dentro do Congresso Nacional para tentar conciliar os interesses do seu governo com os da bancada oposicionista.

O jogo, porém, ainda nem começou, os times não entraram em campo, pois alguns colégios eleitorais como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro ainda não decidiram seus candidatos. Mas a julgar pelas últimas pesquisas, com exceção de São Paulo, surgem das urnas em Minas Gerais e Rio de Janeiro dois governadores afinados com o pensamento bolsonarista, que garantem ao candidato da direita começar o governo com pleno respaldo popular baseado na expressiva votação desses dois aliados. E se por acaso o Doria vencer em São Paulo, Bolsonaro ai, sim, tem chances de encurralar o Congresso Nacional para pressionar pela aprovação de seus projetos, muitos até agora desconhecidos. Mas é bom que os bolsonaristas estejam preparados, pois a população, desencantada hoje, vai exigir lá na frente respostas imediatas para os problemas crônicos do país.

Pelo atual acirramento político não é difícil prever que o país vai atravessar uma tormenta de proporções descomunais. Antes mesmo das urnas serem abertas, petistas e bolsonaristas radicais já se atracam nas ruas, se agridem e até se esfaqueiam como aconteceu com o capoeirista baiano, morto por defender a bandeira petista. O próprio candidato foi vítima de um atentado brutal quando fazia campanha em Juiz de Fora. Ora, se esse clima avançar para depois das eleições, imagine o que acontecerá quando o PT entender que deixou de mandar? Quando o partido perceber que seus militantes presos vão ficar vulneráveis a novas sentenças, a exemplo de Lula que ainda responde a outros processos por corrupção?

A recente estória brasileira mostra que o Congresso Nacional normalmente apoia as primeiras propostas de presidente eleito, como aconteceu com o Collor que garfou inclusive a poupança dos brasileiros. Lula também surfou na onda do novo e da popularidade. Superou até as acusações do mensalão e se reelegeu, deixando o governo com aprovação recorde. O brasileiro, de certa forma, também é tolerante e passivo aos primeiros meses de um presidente eleito. Mas a lua de mel acaba quando os resultados não aparecem rapidamente e o povo vai às ruas exigir as promessas do palanque. Não à toa, depois da redemocratização, o Brasil já foi governado por três vice-presidentes.

Com Bolsonaro esse flerte pode acabar mais cedo. Despreparado, ele vai tentar enfrentar os parlamentares com mão de ferro quando seus projetos forem rejeitados. Como sempre acontece nesses casos, os déspotas tentam incitar a massa para o confronto quando seus desejos não são atendidos dentro das regras democráticas. Como vai precisar impor suas ideias a todo custo, provavelmente ele tentará se escorar na direita fardada para tentar governar o país à sua maneira: na truculência e nas ameaças.

Dessa forma imagina-se o que vem por aí: uma arruaça pública generalizada que pode descambar em um endurecimento do sistema, pois a cúpula militar, que vai respaldar o seu governo, não vai querer, mais uma vez, frustrar a expectativa da população ávida por respostas. E o capitão – que bate continência para general – pode virar um espantalho dentro do Palácio do Planalto, pois temeria quebrar a hierarquia dos superiores de quem é sempre refém na carreira militar seja na reserva ou na ativa.

Esse prognóstico agourento não está longe de acontecer. Frustrado com a derrota, mais uma vez, o PT vai acender o pavio da dinamite muito mais cedo do que se imagina, como fez contra o Collor, em vindita à derrota do Lula, e contra o Temer, ex-vice da Dilma, acusando o ex-aliado de golpista.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Um país com licença para odiar, por XOSÉ HERMIDA

Uma parte importante da população votará no próximo dia 28 sob a crença de que estará evitando que o Brasil se transforme em uma Venezuela

Manifestantes apoiam Jair Bolsonaro em 29 de setembro, no Rio de Janeiro-.D.RamalhoAFP

Há um fértil campo de estudo no Brasil para psicólogos cognitivos. 
Uma parte importante da população votará no próximo dia 28 sob a crença de que estará evitando que seu país se transforme em uma Venezuela.
Para impedir isso, esses eleitores planejam entregar o poder a um ex-militar que, em quase 30 anos de carreira política, proferiu centenas de frases de desprezo pelas normas, costumes e valores da democracia. Esse é o homem, Jair Bolsonaro, chamado para salvar o Brasil das garras bolivarianas do Partido dos Trabalhadores (PT), que governou entre 2003 e 2016, sem que ninguém percebesse que o país estava se tornando uma Venezuela.

Como tantas vezes na história, o autoritarismo avança impulsionado por uma corrente popular na qual três grupos convergem: os convencidos, os oportunistas e os indiferentes.
O núcleo original de convencidos é engrossado pelos nostálgicos da ditadura militar e fiéis ao culto da violência incrustado na medula do país. Com o descontentamento social no último mandato do PT, surgiram movimentos que alimentaram, especialmente nas redes sociais, um direitismo cada vez mais radical. Depois, aliaram-se os fanáticos religiosos, em guerra contra Sodoma e Gomorra.
Em apenas alguns meses, o alcance se multiplicou a milhões de pessoas enfurecidas pela corrupção generalizada, pelo desaquecimento econômico e pelo crime cotidiano, e que compraram a promessa de uma mão firme.

Os oportunistas continuam fluindo em ondas sucessivas. Depois do mundo endinheirado, agora são os políticos de centro-direita -- e alguns de centro-esquerda -- que, desde o triunfo do candidato ultradireitista no primeiro turno, estão correndo para socorrer o vencedor. 
O grupo dos indiferentes teve uma base de apoio mais sutil, porém decisiva. Poucas coisas favoreceram tanto o ex-capitão de paraquedistas do que o relato -- predominante, por exemplo, nos meios de comunicação -- de que dois extremos estão disputando as eleições: direita e esquerda. Oportunistas e indiferentes compartilham sua surdez diante dos discursos e atitudes de Bolsonaro. Como na campanha o candidato reprimiu suas explosões, se tranquilizam pensando que estamos diante de um fanfarrão que se acalmará quando chegar ao poder.

O candidato também pediu aos seus seguidores que parassem com os atos violentos. E parece que o ouviram. Nos dias seguintes à sua vitória no primeiro turno, várias notícias relatavam dezenas de ataques de valentões simpatizantes do ultradireitista: um eleitor do PT assassinado, insultos e espancamentos de gays e lésbicas ou uma suástica tatuada no corpo de uma garota. Aconteça o que acontecer no próximo dia 28, o sucesso de Bolsonaro já concedeu uma licença para odiar entre os brasileiros. Não será mais necessário subir no trem do horror que seus seguidores passeiam nas redes sociais e ler o que dizem sobre os negros, feministas e homossexuais.

Se Bolsonaro conquistar a presidência, há motivos para temer que alguns levem essa licença longe demais. No país em que 57 ativistas ambientais foram assassinados no ano passado, o líder de extrema direita anunciou, depois do primeiro turno, que um dos seus principais objetivos é "acabar com qualquer tipo de ativismo". Em um país onde 5.000 civis são mortos a cada ano por tiros disparados pelas forças de segurança, Bolsonaro proclama que "o policial que não mata não é policial". Esse país de quase 210 milhões de habitantes, onde em 2017 houve 445 mortes em ataques contra homossexuais, pode ter em poucos dias um presidente com licença para a homofobia. E atrás dele, uma multidão de legionários do ódio.