terça-feira, 31 de julho de 2018

Feminismo para desavisados: coisas que parecem feministas, mas não são, por N. PÉREZ DE LAS HERAS; C. MARTÍNEZ; Á. DE LA RÚA

A segunda entrega da série que aborda a igualdade de gêneros com humor fala daquelas coisas que parecem feministas... E não são

As feministas podem ter sido "quatro histéricas" no início, mas pelo que foi visto no início de março nas ruas da Espanha e de muitos países, os machistas deveriam procurar outros argumentos. E o mais importante, antes mesmo de as feministas existirem, é que as mulheres são metade da população. Portanto, é inexorável encontrar um equilíbrio para que elas obtenham uma representação justa em todas as áreas. Sabe como fazer isso? A jornalista e ativista espanhola Nerea Pérez de las Heras explica na segunda parte do Feminismo para Desavisados: para que você não volte a cair na tentação de participar de congressos femininos de coisas que homens e mulheres fazem, de usar camisas com mensagens mais bonitas que as intenções de seus fabricantes, nem de fazer coisas que parecem feministas, mas não são.

O prazer da solidãopor PILAR JERICÓ

Nossa agenda, inclusive durante as férias, deve incluir um tempo para estar com nós mesmos, sem celular e sem televisão



Somos animais sociais, já dizia Aristóteles. Precisamos dos outros para viver e dar sentido ao que fazemos. Mas também precisamos estar com nós mesmos, sem interrupções, sem telefones celulares ou redes sociais e sem nada que implique ruído externo. Não falamos da solidão profunda, que nos aterroriza, mas de um tempo para refletir, que nos ajuda a sermos mais exigentes, mais criativos e mais felizes. Quase nada. Vamos ver por que ela é benéfica e como consegui-la.

Primeiro, saber conviver com a solidão nos torna mais livres. Quando nos angustiamos ao estarmos sozinhos, nos aferramos a relacionamentos que podem ser nocivos ou a propósitos dos quais no fundo não gostamos, mas que nos aliviam. Na medida em que sabemos conviver sozinhos com nós mesmos (não estamos falando em ser ermitãos, que é outra coisa), podemos ser mais exigentes com aqueles que nos rodeiam e, claro, isso nos ajuda a termos mais autoconhecimento.

Segundo, a ciência provou que a solidão nos permite valorizar mais o que temos. Nos anos noventa, Reed Larson, professor de desenvolvimento humano da Universidade de Illinois, realizou um estudo com adolescentes pedindo que levassem um pager. 
Durante alguns dias, tiveram de informar com quem estavam, o que faziam e como se sentiam. O estudo mostrou que quando estavam sozinhos estavam mais tristes, mas, curiosamente, depois desse tempo, quando voltavam a estar em companhia, seus indicadores de felicidade aumentavam mais comparativamente. De certa forma, podemos dizer que a solidão age como uma bússola, que nos faz valorizar mais o que temos ou, como Larson resume, “age como um remédio amargo”.

E finalmente, nos ajuda a desenvolver mais nossos talentos. Os grandes cientistas não teriam chegado às suas conclusões se não tivessem tido espaços para realizar seu trabalho de modo solitário. Mesmo os líderes mais admirados precisam assumir a solidão na tomada de certas decisões que nem sempre são compreendidas, mas que são necessárias, segundo a análise publicada na Harvard Business Review. Se não dedicarmos tempo para trabalhar sozinhos, será difícil desenvolver todo o nosso potencial, porque a pressão de grupo nem sempre tem um impacto positivo sobre nós.

Em suma, se certa solidão é boa, precisamos colocar um parêntesis no ambiente e aprender a estar com nós mesmos. Portanto, deveríamos fazer uma pergunta simples: quanto tempo passamos por dia sem que o mundo ou as obrigações nos distraiam? 
Nossa agenda, inclusive durante as férias, deve incluir um tempo para estar com nós mesmos, sem celular, sem televisão. O objetivo não é criar uma solidão guiada por redes sociais ou pela televisão, mas um tempo que nos permita refletir, desfrutar dos nossos hobbies, praticar esporte ou simplesmente não fazer nada. E embora isso não seja compreendido por aqueles que nos rodeiam ou estejamos no meio de uma grande balbúrdia, precisamos defendê-lo juto ao parceiro, a família ou os amigos. Só assim seremos capazes de nos conhecer melhor, descansar e desfrutar mais das pessoas que estão ao nosso lado.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Arte de MYRRIA

“Não devemos ter medo de não fazer nada produtivo”? por CARLES GELI

A escritora alemã Andrea Köhler defende as vantagens da espera em um ensaio literário-filosófico

Andrea Köhler em Barcelona
JUAN BARBOSA
Quando criança, a escritora e jornalista alemã Andrea Köhler (Bad Pyrmont, 1957) olhava o interior de algumas caixas de seus avós com fotos holográficas de pessoas; se esperasse e as movesse, pareciam fantasmas. Algo de fantasmagórico também havia no fato de aguardar pela revelação do papel fotográfico: “O que não aparecia, com a espera aparecia”. Isso acabou com a chegada da foto digital: “É puro imediatismo: você dispara e vê; o tempo de espera pela revelação se perdeu, um lapso em que outras coisas podiam acontecer em relação à paisagem, às pessoas ali retratadas ou a você mesmo; com o digital, essas coisas deixam de acontecer”. E aí nasceu a ideia de Die geschenkte Zeit ('O tempo dado: um nsaio sobre a espera', em tradução livre), uma refinada reflexão literário-filosófica sobre a espera, trançada a partir das leituras de 42 livros, dos irmãos Grimm a Sloterdijk, passando pelos picos de Beckett e seu Esperando Godot ou do Heidegger de Os Conceitos Fundamentais da Metafísica.

Köhler só vê virtudes no “aborrecimento de esperar” uma (in)ação que hoje é um anátema ou suposto estado de imbecilidade improdutiva nesta sociedade do yoctosegundo e do turbocapitalismo. Mas essa aceleração não deteve o sofrimento da espera; pelo contrário, a Internet e o Twitter tornam todos mais impulsivos e impacientes. “Podemos reduzir e tornar mais intensos os intervalos, mas eles continuam aí, com a obsessão de usá-los para algo produtivo, enquanto eliminar os tempos de espera nos deixa menos tempo para pensar e nos conectar com nós mesmos”. Até recentemente correspondente nos Estados Unidos, lá ela detectou a última consequência: “Querer encurtar os tempos de espera só fez crescer exponencialmente a ansiedade e a necessidade de tratamento médico nas pessoas”.

Baseando-se no Nabokov de Fala, Memória, a autora desenvolve a tese de que a vida não deixa de ser uma longa espera para morrer, ou um clarão entre dois negros infinitos. “O berço balança no abismo”, escreve o autor de Lolita. “Não é uma ideia tão terrível: a vida é algo que acontece entre dois momentos de vazio; o homem é o único animal que sabe que sua vida termina e é isso que o leva a criar arte; que haja um princípio e um fim e uma direção lhe dê sentido; é um paradoxo existencial”, acredita Köhler. Todo criador, argumenta, deve suportar a espera: que os pensamentos cheguem e sejam organizados. É o que Kafka chamou de “hesitação antes do nascimento” porque, como ela diz, “não se deve forçar a musa, mas é preciso preparar o terreno para ela, esperar”. Trata-se, portanto, de entender toda espera “como tempo concedido e não perdido”, longe da adjetivação que o Romantismo XVIII associou a “dor” e “sofrimento”, e assim ver que adoecer é “um compasso de espera, uma pausa que o corpo pede” e que parte do encanto e da razão de ser da viagem consiste em que “alguém espere e dê fé de nossa ausência”.

Köhler pratica o que escreve: após uma primeira resposta, aproveita a pausa da transcrição feita por seu interlocutor para pensar e acrescentar argumentos, como em sua asseveração de que, mesmo que tenhamos adaptado nosso equipamento sensorial ao tempo acelerado, os sentimentos conservam sua lentidão. “Não deixamos de ser humanos: nossos sentimentos mantêm um certo anacronismo, geramos defesas contra a angústia da rapidez, por isso não podemos nos libertar da lentidão, o que explica o auge de fenômenos como a meditação, a slow food, a yoga...”, diz. Mas o que acontece quando não fazemos nada? “Muitas coisas, chega o inexplicável e o inaudito, por exemplo: precisamos abrir espaço para que o maravilhoso passe; a questão hoje é não ter medo de não fazer algo produtivo”.

E, após a pausa, outro argumento: “O ser humano procura, por natureza, segurança, enquanto que na espera tudo pode acontecer; mas se eliminamos a possibilidade de que possam ocorrer coisas, no fundo perdemos liberdade e pode ser que também memória”. Outra pausa e continua: “Pensar, escrever requer tempo e a natureza, também: da gestação, da puberdade e do casulo de um inseto, que são estágios de espera, surgirá uma criatura diferente... A fruta também precisa de tempo para amadurecer e tem suas estações; a memória humana está associada a isso e aos odores dessa fruta em sua temporada. O que acontecerá com a memória se existem frutas o ano inteiro e se essas já não cheiram como antes porque não amadureceram o suficiente na árvore?”.

Magra, sentada bem reta sem tocar o encosto da cadeira, Köhler parece prestar atenção em tudo. Agora terminou um ensaio parecido sobre a vergonha e está em plena produção de outro sobre os rostos: “Cada face, claro, é diferente, mas às vezes existem reflexos de umas em outras”. Assuntos, de qualquer forma, bem afastados. “Não acredite: são essenciais na conformação do ser humano, para se conhecer e conhecer os demais”. Pelo menos, pouco abordados: “Sim, na Filosofia existem muitos livros sobre o tempo, mas poucos sobre a espera”. Talvez o problema da espera seja fazer com que a pessoa converse com ela mesma. E isso sempre dá medo.

A ESPERA MACHISTA
Em Madame Bovary e em Anna Karenina a ensaísta se fixa no fato de que a rebelião contra a espera feminina significa a perdição, o que contrasta, afirma, com a espera positiva quando se trata do idealizado homem perfeito. A espera é machista? “Durante muitos períodos da Humanidade, sempre foi a mulher a esperar que o homem voltasse, por exemplo, de longas viagens exploratórias e de guerras, e assim se associou; Penélope, a mulher de Ulisses, é o primeiro personagem literário em que a espera é unida à narração... E tudo isso, por sua vez, é ligado a uma eterna pergunta do ser humano: existirá, em algum lugar, alguém esperando por mim?”.

domingo, 29 de julho de 2018

9 coisas que seus pés podem estar tentando mostrar para você---The Huffington Post


Enquanto tudo parece estar indo bem, muitas vezes não prestamos muita atenção a nossos pés.

Eles passam muito tempo cobertos por meias ou sapatos, e, como diz o ditado, "o que os olhos não veem, o coração não sente".

Mas, assim que algo não vai bem com os pés, fica impossível ignorá-los. Em alguns casos isso pode ser bom, já que sintomas de problemas de saúde mais sérios podem manifestar-se inicialmente nos membros inferiores.

Veja alguns sintomas comuns para os quais é bom ficar atento e algumas explicações possíveis do que esses sintomas podem significar para sua saúde.

Pés frios
Para muitas pessoas, "pé frio" não é uma simples figura de linguagem. Embora seja possível sentir frio nos pés sem que isso tenha alguma causa subjacente mais grave, sentir frio crônico nos dedos dos pés pode ser sinal de má circulação sanguínea. O tabagismo e condições de saúde ligadas a ele, como a DPOC, podem reduzir a capacidade de absorção de oxigênio dos pulmões, levando a níveis mais baixos de oxigênio no sangue. E a doença arterial periférica (DAP) e outras formas de doença cardíaca podem levar ao estreitamente das artérias, dificultando a circulação de sangue em todo o corpo. As extremidades, como as mãos e os pés, são especialmente sensíveis à má circulação, que pode manifestar-se com a sensação de frio. Se você notar que seus pés estão quase sempre frios ou entorpecidos, consulte seu médico para verificar se há problemas médicos subjacentes.

Coceira nos pés
Por mais que isso possa ser desagradável, a coceira nos pés não costuma ser sinal de alguma condição médica preocupante. A razão mais frequente de escamação e coceira nos pés é uma infecção fúngica, com o pé de atleta. Essas infecções são favorecidas em ambientes úmidos; geralmente começam entre os dedos do pé e ocorrem mais frequentemente em pessoas cujos pés transpiram muito por ficarem confinados em sapatos muito justos. O pé de atleta é contagioso, mas pode ser tratado facilmente com antifúngicos vendidos sem receita médica. Em alguns casos a coceira nos pés pode ser uma reação alérgica a cremes para a pele ou resultado de uma doença imune como a psoríase. Procure o médico se a coceira persistir ou se agravar com medicamentos vendidos sem receita médica.

Descoloração da pele
Uma erupção ou infecção fúngica como o pé de atleta geralmente causa escamação e vermelhão na pele, mas muitos outros problemas podem provocar descoloração dos pés. Uma desordem conhecida como fenômeno de Raynaud se caracteriza por uma sequência de mudanças de cor na pele quando reagem ao frio ou estresse. Em um episódio de Raynaud, a área afetada embranquece, à medida que as artérias se estreitam e o fluxo de sangue se reduz. A área afetada pode ficar fria ou entorpecida e, quando o fluxo de sangue diminui ainda mais, a pele pode ficar azulada. À medida que a circulação melhora novamente, a pele pode ficar avermelhada antes de finalmente voltar ao normal. O fenômeno de Raynaud acontece principalmente sem qualquer doença subjacente. Em alguns casos, contudo, pode ser um indício antecipado de um problema mais grave, como artrite reumatoide ou lupus.

Baqueteamento digital
O baqueteamento digital envolve mudanças na área em volta das unhas das mãos ou dos pés. Os sintomas comuns incluem o amolecimento do leito ungueal, acentuação da convexidade da ponta dos dedos do pé e a curvatura das unhas para formar um ângulo maior com o dedo do pé (o chamado baqueteamento). Uma maioria importante dos casos de baqueteamento vem de doenças cardíacas e pulmonares que reduzem o nível de oxigênio presente no sangue. Procure seu médico se você observar mudanças em suas unhas da mão ou do pé que pareçam um baqueteamento, pois elas podem ser sinais de problemas sérios como câncer pulmonar, doença cardíaca e doença de Crohn.

Pés inchados
A maioria das pessoas sofre de inchaço nos pés em algum momento da vida. Com frequência o edema se deve a algo simples, como passar muito tempo em pé, usar calçado muito apertado, fazer uma viagem aérea longa ou sofrer uma lesão pequena, como uma torsão do tornozelo. Mas, se o inchaço se prolonga por mais que dois ou três dias, pode ser sinal de uma condição médica mais grave. Fluidos como o sangue podem acumular-se nas pernas em consequência de doença cardíaca congestiva, doença renal ou até como efeito colateral de remédios para diabetes e hipertensão. O inchaço também pode ser fruto de inflamações resultantes de artrite reumatoide ou oesteoartrite. É importante procurar atendimento médico de emergência se o inchaço for acompanhado por sintomas como dor no peito, dificuldade de respirar ou tontura, pois podem ser indícios de um coágulo sanguíneo ou outra condição cardíaca grave.

Sensação de queimação
A sensação de queimação nos pés pode variar de leve (entorpecimento e formigamento) a grave (dor tão forte que atrapalha o sono). Algo tão simples quanto pés cansados ou uma infecção comum como o pé de atleta pode provocar sintomas de curto prazo como queimação ou formigamento. Em casos mais graves, a queimação nos pés pode ser sinal de lesões nos nervos decorrentes de diabetes ou de uma condição circulatória conhecida como doença arterial periférica (DAP). Procure o médico se a sensação de queimação se prolongar por algumas semanas, se os sintomas se intensificarem, se a dor aumentar ou você começar a perder a sensibilidade nos pés ou dedos dos pés. Enquanto isso, a sugestão da Clínica Mayo é fazer repouso com os pés elevados, para aliviar os sintomas. E banhar os pés em água fria também pode reduzir a dor e queimação.

Dor no dedão do pé
A dor generalizada nos pés e uma coisa, mas uma dor localizada às vezes aponta para um problema mais específico. Se a dor é localizada na ponta e no canto da unha, pode ser sinal de unha encravada. Uma dor repentina e forte que se repete na articulação do dedão pode ser indício de uma forma complexa de artrite conhecida como gota. Os sintomas de gota incluem dor articular intensa seguida por desconforto prolongado; frequentemente se apresentam à noite, sem qualquer indício prévio. A artrite reumatoide pode ser outra explicação, pois seus sintomas iniciais tendem a ser sentidos nas articulações dos dedos dos pés e das mãos, antes de passar para pés e mãos propriamente ditos. Se você sentir desconforto persistente ou dor localizada repentina sem explicação aparente, marque uma consulta com o médico.

Unhas do pé amareladas
Como é o caso com outras partes do corpo, a descoloração das unhas do pé pode ser sinal de que algo não vai bem. A onicomicose (infecção fúngica das unhas) muitas vezes começa como pontinho amarelo sob a ponta da unha. Infelizmente, como você talvez tenha aprendido nas aulas de biologia, os fungos se dão bem em ambientes escuros, úmidos e quentes, de modo que a parte de baixo de uma unha do pé é perfeita para eles. Se não for tratada, essa descoloração pode chegar mais fundo na unha e se alastrar para os outros dedos do pé. Tirando alguma dor leve e o prejuízo estético, as infecções fúngicas das unhas geralmente não constituem grande perigo para a saúde. Mas, se você tiver diabetes, uma infecção fúngica sem tratar pode prejudicar a circulação sanguínea em seus pés e levar a complicações mais sérias.

Unhas do pé esbranquiçadas
A descoloração branca das unhas não é necessariamente sinal de algum problema de saúde. A leuconíquia é o termo médico que descreve manchas brancas comuns que começam na base da unha e se movem à medida que a unha cresce. Contrariamente à ideia popular, essas manchas não são sinais de uma deficiência vitamínica e são vistas como inofensivas, de modo geral. Mas uma mancha branca na ponta da unha pode ser mais séria. Uma lesão pode levar parte da unha do pé a separar-se do leito ungueal, o que pode fazer a ponta da unha ficar mais branca. E algumas infecções fúngicas se manifestam inicialmente como manchas brancas na ponta da unha. Se não forem tratadas, elas podem chegar à unha inteira, provocando mais descoloração e potencialmente fazendo a unha se descolar do leito ungueal.

Comandos: o poder militar secreto dos EUA, por Nick Turse,Tradução: Inês Castilho

Um império tenta conservar sua hegemonia pelas armas: grupos de intervenção encoberta reúnem 71 mil homens, têm orçamento recorde e atuam em 149 países

No início do mês passado, num minúsculo posto militar perto da cidade de Jamaame, na Somália, as armas ligeiras começaram a disparar quando os morteiros caíram. Ao final do ataque acabou, um soldado da Somália havia sido ferido – e se essa tivesse sido a única baixa, você nunca teria ouvido falar sobre o fato.

Contudo, integrantes dos comandos norte-americanos também operavam nesse posto avançado e quatro deles ficaram feridos. Três precisaram ser evacuados para receber cuidados médicos adicionais. Outro operador especial, o sargento Alexander Conrad, membro das Forças Especiais do Exército dos EUA (também conhecidas como Boinas Verdes) foi morto.

Se a história soa vagamente familiar – comandos dos EUA envolvidos em combates, em guerras africanas de que Washington tecnicamente não participa –, há razões para isso. Em dezembro passado, uma operação dos Boinas Verdes ao lado de forças locais na Nigéria matou 11 supostos militantes do Estado Islâmico, numa troca de tiros. Dois meses antes, em outubro, uma armadilha feita por um grupo terrorista do Estado Islâmico no mesmo país, onde poucos norte-americanos (inclusive membros do Congresso) sabiam que havia forças especiais dos EUA, matou quatro soldados norte-americanos – Boinas Verdes entre eles. (Os militares primeiro descreveram a missão como sendo de “aconselhamento e assistência” às forças locais, depois como uma “patrulha de reconhecimento”, parte de uma missão mais ampla de “treinamento, aconselhamento e assistência”. Finalmente, revelou-se tratar de uma operação de morte ou captura. Em maio passado, um soldado das unidades SEAL [que operam no mar, no ar e na terra] da Marinha foi morto e duas outras pessoas de uma equipe norte-americana foram feridas num ataque na Somália que o Pentágono descreveu como uma missão de “aconselhamento, assistência e acompanhamento”. E um mês antes, um comando dos EUA supostamente matou um suposto membro da Lord’s Resistance Army (LRA), uma milícia brutal que aterrorizou partes da África Central durante décadas.

E houve, como notou o New York Times em março, ao menos dez outros ataques a tropas norte-americanas na África Ocidental, anteriormente não declarados, entre 2015 e 2017. Não é de admirar que, por cinco anos ao menos, como a revista Politico noticiou recentemente, Boinas Verdes, SEALs da Marinha e outros comandos operando sob uma autoridade legal pouco definida, conhecida como Seção 127e, estiveram envolvidas em combates de reconhecimento e de “ação direta” com tropas especiais africanas na Somália, Camarões, Quênia, Líbia, Mali, Mauritânia, Nigéria e Tunísia.

Nada disso deveria ser surpresa, dado que na África e por todo o resto do planeta as forças das Operações Especiais dos Estados Unidos (SOF, na sigla em inglês) estão regularmente engajadas num amplo conjunto de missões, inclusive reconhecimento especial e ações ofensivas de pequena escala, guerra não convencional, contraterrorismo, resgate de reféns e assistência a forças de segurança (isto é, organização, treinamento, equipagem e aconselhamento de tropas estrangeiras). E todos os dias, quase em todo lugar, comandos dos EUA estão envolvidos em vários tipos de treinamento. A não ser que acabe em desastre, a maioria das missões permanece nas sombras, desconhecidas de todos, à exceção de alguns poucos norte-americanos. Só no ano passado, comandos dos EUA foram desolocados para 149 países – cerca de 75% das nações do planeta. Na metade deste ano, de acordo com os dados fornecidos ao TomDispatch pelo Comando de Operações Especiais dos EUA (USSOCOM ou SOCOM), as tropas de elite dos EUA já realizaram missões em 133 países. São quase tantos quantos ocorreram durante o último ano do governo Obama e mais do dobro do último período de George W. Bush na Casa Branca.

“O USSOCOM desempenha um papel essencial na oposição às ameaças atuais à nossa nação, para proteger o povo americano, para a segurança da nossa pátria e para manter equilíbrios regionais favoráveis de poder”, disse o general Raymond Thomas, chefe do Comando das Operações Especiais dos EUA à Comissão de Serviços Armados da Câmara, no início deste ano. “Contudo, embora mantenhamos o foco nas operações de hoje, devemos focar igualmente nas necessárias transformações futuras. O SOF deve adaptar, desevolver, assegurar e colocar em campo novas capacidades no sentido de continuar a ser parte única, letal e ágil das Forças Conjuntas de amanhã”.

As forças das Operações Especiais estão de fato em transformação desde 11 de setembro de 2011. De lá para cá, elas cresceram de todas as maneiras possíveis – do seu orçamento ao seu tamanho, ao ritmo de suas operações, à extensão geográfica de suas missões. Em 2001, por exemplo, uma média de 2.900 integrantes de comandos foram mobilizados no exterior, em qualquer semana do ano. Esse número disparou para 8.300, de acordo com o porta-voz do SOCOM, Ken McGraw. Ao mesmo tempo, o número de “posições militares autorizadas” – os soldados da ativa, reservistas e guardas nacionais que fazem parte da SOCOM – pulou de 42.800 em 2001 para 63.500 hoje. Além de financiamento oferecido por cada ramo de serviços militares norte-americanos a suas forças de elite – incluindo salários, benefícios e alguns equipamentos – o “financiamento específico para Operações Especiais”, que estava em US$ 3,1 bilhões em 2001, está agora em US$ 12,3 bilhões. Exército, Marinha, Forças Aéreas e Corpo de Fuzileiros Navais também abastecem suas unidades de operações especiais com cerca de 8 bilhões de dólares anualmente.

Tudo isso significa que, em qualquer dia, mais de 8.000 soldados das forças especiais, excepcionalmente bem equipados e bem financiados, estão mobilizados, em aproximadamente 90 países. Fazem parte de de um grupo com cerca de 70.000 militares – da ativa, reservistas e guardas nacionais, além de civis A maioria desses soldados são Boinas Verdes, Rangers, ou integrantes de outro ramo das Operações Especiais do Exército.

Em fevereiro, por exemplo, os Rangers do Exército levaram a cabo várias semanas de treinamento de guerra de inverno na Alemanha, enquanto Boinas Verdes praticavam missões envolvendo motos de neve na Suécia. Em abril, Boinas Verdes fizeram parte dos exercícios de treinamento anual das forças multinacionais de Operações Especiais de Flintlock, conduzidos na Nigéria, Burkina Faso e Senegal envolvendo tropas nigerianas, burkinenses, do Mali, Polônia, Espanha e Portugal, entre outras.

Enquanto a maioria das missões envolvem treinamento, instruções ou jogos de guerra, os soldados das Forças Especiais são também regularmente envolvidos em operações de combate por todas as zonas de guerra expansivas globais dos Estados Unidos. Um mês depois de Flintlock, por exemplo, os Boinas Verdes acompanharam comandos locais num ataque aéreo noturno na província de Nangarhar, o Afeganistão, durante o qual um quadro sênior do ISIS foi supostamente “eliminado”. Em maio, uma cerimônia de premiação pós-mobilização para membros do 2º Batalhão do 10º Grupo de Forças Especiais, que havia acabado de retornar de seis meses de aconselhamento e assistência a comandos afegãos, deu alguma indicação do tipo de missão que está sendo realizada naquele país. Aqueles Boinas Verdes receberam mais de 60 condecorações por valor – incluindo 20 Medalhas de Estrela de Bronze e quatro Medalhas de Estrela de Prata (a terceira mais alta condecoração de combate militar).

Por sua vez a Marinha, de acordo com o contra-almirante Tim Szymanski, chefe do Comando de Guerra Especial da Marinha, tem cerca de 1.000 SEALS ou integrantes de outros grupos especiais mobilizados em mais de 35 países, a cada dia. Em fevereiro, as forças Especiais de Guerra Naval e soldados do Comando de Aviação de Operações Especiais do Exército conduziram treinamento a bordo de um navio anfíbio de ataque francês no Golfo Arábico. No mesmo mês, SEALs da Marinha juntaram-se a um pessoal de elite da Força Aérea dos EUA, em treinamento ao lado de operadores do Guerra Especial Naval Thai Royal durante o Cobra Gold, um exercício anual na Tailândia.

As tropas do Comando de Operações Especiais das Forças do Corpo de Fuzileiros Navais, ou MARSOC, ficam posicionadasprincipalmente no Oriente Médio, África e regiões do Indo-Pacífico, em rotatividade de seis meses. Em qualquer momento, uma média de 400 Raiders são engajados em missões em 18 países.

O Comando de Operações Especiais da Força Aérea, que coloca em campo uma força de 19.500 pessoas, entre ativos, integrantes da reserva e civis, conduziu 78 exercícios de treinamento conjunto e eventos com nações “parceiras” em 2017, segundo o general Marshall Webb, chefe do Comando de Operações Especiais da Força Aérea. Em fevereiro, por exemplo, os comandos da Força Aérea conduziram treinamentos no Ártico – manobras de esqui e operações aéreas de queda livre – na Suécia, mas essas missões de treinamento são apenas parte da história. Operadores especiais da Força Aérea foram, por exemplo, recentemente mobilizados para ajudar a tentar resgatar os 12 meninos e seu treinador de futebol, que ficaram presos no fundo de uma caverna na Tailândia. A Força Aérea tem também três alas de operações especiais do serviço ativo atribuídas ao Comando de Operações Especiais da Força Aérea, inclusive a 24ª Asa de Operações Especiais, uma unidade de “táticas especiais” que integra forças do ar e da terra para missões de “ataque de precisão” e de recuperação de pessoal. Numa cerimônia de mudança de comando em março, foi observado que seu pessoal conduziu quase 2.900 missões de combate nos dois últimos anos.
Soma por subtração

Durante anos, as forças de Operações Especiais dos EUA viveram um estado de expansão aparentemente desenfreado. Em nenhum lugar isso foi mais evidente que na África. Em 2006, somente 1% de todos dos comandos norte-americanos posicionados no exterior estavam operando naquele continente. Em 2016, esse percentual havia subido para acima de 17%. Havia então mais pessoal das operações especiais engajado na África – 1.700 operadores especiais espalhados em 20 países – do que em qualquer outro lugar, à exceção do Oriente Médio.

Recentemente, porém, o New York Times noticiou que uma “revisão radical do Pentágono” das missões de operações especiais naquele continente pode levar a cortes drásticos no número de comandos em operação por lá. (“Não comentamos sobre quais tarefas o secretário de Defesa ou presidente do Estado-Maior Conjunto deram ou não deram ao USSOCOM”, me disse o porta-voz Ken McGraw quando lhe perguntei sobre a revisão.) O Comando dos EUA na África aparentemente foi solicitado a considerar que efeitos o corte de 25% em 18 meses, e de 50% em três anos, dos comandos em solo africano teria em suas missões de contraterrorismo. No final, apenas cerca de 700 soldados de elite – mais ou menos o mesmo número estacionado na África em 2014 – seria deixado lá.

Baseada numa operação fracassada em outubro de 2017 em Niger, que deixou quatro norte-americanos mortos e, aparentemente, em ordens do comando das forças das Operações Especiais dos EUA na África, alguns especialistas sugeriram que essa revisão sinalizava uma reavaliação do engajamento militar no continente. Os cortes propostos também pareciam alinhados com a última estratégia nacional de defesa do Pentágono, que ressaltava uma mudança a caminho. O foco será deslocado do contraterrorismo para as supostas ameaças de adversários como a Rússia e a China. “Continuaremos a campanha contra terroristas”, disse o secretário de Defesa, James Mattis em janeiro, “mas a concorrência de grande poderes – não o terrorismo – é agora o principal foco da segurança nacional dos EUA”.

Um amplo leque de analistas questionou ou criticou a proposta de redução de tropas. Um Xiaoming, da Universidade de Defesa Nacional da China, do Exército de Libertação do Povo, comparou essa redução nas forças de elite dos EUA à redução de tropas do governo Obama no Afeganistão em 2014 e observou a possibilidade do “terrorismo retornar à África”. Um ex-chefe dos comandos dos EUA no continente, Donald Bolduc, ecoou esses mesmos temores, como esperado. “Sem a presença que temos lá agora”, disse ele à Voz da América, “só vamos, com o tempo, aumentar a eficácia das violentas organizações extremistas, além de perder confiança e credibilidade nessa área e desestabilizá-la ainda mais”. David Meijer, um analista de segurança com base em Amsterdã, lamentou que, enquanto a África estava crescendo em importância geoestratégica e a China estreitava seus laços com o continente, “é irônico que Washington resolva reduzir seu já mínimo engajamento na região”.

Isso dificilmente é uma conclusão precipitada, contudo. Há anos, membros do SOCOM, assim como apoiadores no Congresso, em think tanks e em outros lugares têm reclamado em voz alta sobre o ritmo crescente das operações das tropas de elite dos EUA e as tensões resultantes disso. “A maioria das unidades do SOF estão empregadas no seu limite de sustentabilidade”, disse o general Thomas, chefe do SOCOM, aos membros do Congresso no outono passado. “Apesar da crescente demanda do SOF, é preciso priorizar essas demandas quando enfrentamos um ambiente de segurança que muda rapidamente”. Dado o tamanho da influência que o SOCOM exerce, essas queixas incessantes certamente levariam a mudanças na política. De fato, no ano passado o secretário de Defesa Mattis observou que as linhas das forças das Operações Especiais dos EUA e as tropas convencionais estavam ficando nubladas, e que as últimas provavelmente assumiriam missões antes assumidas pelos comandos, em especial na África. “Então, as forças encarregadas de objetivos gerais podem fazer muitos dos tipos de trabalho que se pode ver acontecendo agora, eles já estão fazendo, de fato”, disse ele. “De modo geral, por exemplo, no noroeste da África muitas dos grupos norte-americanos que apoiam o esforço liderado pelos franceses não são Forças Especiais. Então continuaremos a expandir as forças de objetivos gerais onde for adequado. Eu diria… fazer mais uso delas.”

No começo do ano, Owen West, assistente do secretário de defesa para operações especiais e conflitos de baixa-intensidade, referiu-se aos comentários de Mattis ao contar aos membros do Comitê de Serviços Armados da Câmara sobre a “necessidade de olhar para a linha que separa as forças de operação convencional do SOF e procurar tirar mais vantagens das ‘capacidades comuns’ de nossas excepcionais forças convencionais”. Ele ressaltou as Brigadas de Assistência à Força de Segurança do Exército, recentemente criadas para realizar missões de aconselhamento e assistência. Neste outono, o senador James Inhofe, um membro senior do Comitê de Serviços Armados do Senado recomendou que uma daquelas unidades seja dedicada à África

Substituir forças desta maneira é precisamente o que outro senador norte-americano, Jone Ernst, um veterano da guerra do Iraque e membro do Comitê de Serviços Armados, também defende. Nofinal deste ano, seu assessor de imprensa, Leigh Claffey, disse ao site Tom Dispatch que o senador propunha, “ao invés de uma pesada dependência em relação às Forças Especiais, engajar nossas forças convencionais nestas missões, ou transferi-las para forças locais capacitadas”.

É possível que os comandos norte-americanos continuem a execudar suas operações nebulosas sob a Seção 127e em conjunto com forças locais no continente africano, deixando os treinamentos mais convencionais e as tarefas de assessoria para as tropas regulares. Em outras palavras, o número de comandos na África pode ser cortado; mas o número total de soldados dos EUA, não – com as operações secretas de combate mantidas, portanto, em seu ritmo atual.

Se houver mudança, será no sentido de ampliar as ações as forças engajadas em Operações Especiais dos EUA, no próximo ano – não de reduzi-las. O orçamento do SOCOM para 2019 prevê ampliar os efetivos em mais mil soldados, para atingiu um total de 71 mil. Em abril, num encontro do subcomitê do Senado sobre Ameaças Emergentes, dirigido pelo senador Eenst, seu colega Martin Heirich notou que o SOCOM estava em vias de “ampliar seu efetivo em 2 mil pessoas” nos próximos anos. O ano de 2018 deve novamente histórico, no alcance global das operações de comandos. Se os operadores especiais de Washington deslocarem-se para mais 17 países até o final do ano, eles ultrapassarão o recorde de 2017.

“USSOCOM continua a recrutar e selecionar os melhores. Nós treinamos e empoderamos nossos integrantes para resolver os problemas de segurança nacional mais assustadores”, disse o comandante do SOCOM, general Thomas, para o Subcomitê de Ameaças Emergentes da Câmara dos Deputados, no início deste ano. Por que os Capacetes Verdes e os SEALs da Marinha precisam resolver problemas de segurança dos EUA – temas estratégicos que deveriam ser tratados por políticos – é uma questão não respondida há muito tempo. Deve ser uma das razões por que, desde que os Capacetes Verdes “liberaram” o Afganistão em 2001, os Estados Unidos permaneceram envolvidos em combate nesse país e, à medida em que os anos passaram, os EUA envolveram-se em uma multiplicidade de outros fronts de guerra-para sempre, incluindo os Camarões, Iraque, Quênia, Líbia, Mauritânia, Mali, Niger, Filipinas, Somália, Síria, Tunísia e Yemen.

“A criatividade, iniciativa e espírito das integrantes das Forças de Operações Especiais não podem ser exagerados. São nosso principal ativo”, disse Thomas. E é provável que tais ativos cresçam em 2019.

Arte de SIMANCA

O Banco Central nas mãos da aristocracia financeira, por PAULO KLIASS

Retrato de uma captura: por meio da chamada “Pesquisa Focus”, cem banqueiros e executivos financeiros ditam rumos a quem deveria controlá-los

A edição do Plano Real em 1994 marcou o início de uma nova fase de coordenação dos instrumentos de política macroeconômica em nosso país. Após uma série de tentativas não exitosas de controle das altas taxas de inflação que marcou as décadas de 1980 e 1990, finalmente a dinâmica econômica e social passou a responder positivamente às mudanças do novo padrão monetário. A adoção da nova moeda fazia parte de um conjunto mais amplo de medidas de política econômica, dentre as quais o sistema de metas de inflação.

Com isso, o monitoramento e o controle do crescimento dos preços passaram a ser realizados de forma mais institucional, tendo por instrumento prioritário a definição do patamar da taxa oficial de juros por parte da autoridade monetária. Em 1996, foi instalado oficialmente o Comitê de Política Monetária (COPOM) no âmbito do Banco Central e constituído pelos integrantes da diretoria daquela instituição. Mais à frente, outra inovação de apoio ao sistema de metas de inflação deu-se com o estabelecimento da consulta formal do BC junto aos chamados “agentes do mercado”. Em 1999, o órgão regulador das instituições financeiras institui a Pesquisa de Expectativas de Mercado.

Trata-se da famosa Pesquisa Focus, que opera como verdadeiro misto de bússola e bíblia para os profissionais do mercado financeiro e também para a tecnocracia responsável pela implementação da política econômica, em especial a política monetária. A pesquisa tem frequência semanal e sua divulgação a cada início de período é recebida com a aura da verdade e de segurança a respeito do desempenho futuro da economia brasileira. Os jornalões são mestres em se saírem com as conhecidas frases do tipo “o mercado pensa”, “o mercado considera”, “o mercado espera”, “o mercado reage”, entre tantas outras tentativas de humanizar algo que nada mais é senão o mero interesse do financismo.

Banco Central e pesquisa dos amigos.
A metodologia da pesquisa é absolutamente voltada a enviesar os resultados pretendidos a priori. A própria página do BC exibe a forma de apuração das informações que servem para balizar as decisões da equipe econômica:

Focus-Relatório de Mercado: apresentação de um resumo dos resultados da pesquisa de expectativas de mercado, levantamento diário das previsões de cerca de 130 bancos, gestores de recursos e demais instituições (empresas do setor real, distribuidoras, corretoras, consultorias e outras) para a economia brasileira, publicado toda segunda-feira

Ora, os interesses de um pouco mais de uma centena de bancos e outras empresas que operam no mercado financeiro são expressos de forma sistemática e rotineira há quase duas décadas. Essas tais “expectativas” formam uma opinião a respeito de variáveis como crescimento dos preços e evolução da taxa de câmbio, por exemplo. E tais expectativas é que norteiam as orientações do governo sobre taxa de juros, taxa de câmbio e outras variáveis relevantes para o funcionamento da economia. Em resumo: o Estado brasileiro mesmo se arma uma armadilha para ficar refém das vontades e desejos do rentismo parasita.

Desde o êxito da estratégia colocada em marcha para promover o golpeachment que os “formadores de opinião” asseguravam que os problemas todos da economia seriam finalmente solucionados. Bastava tirar Dilma do Palácio do Planalto e colocar um time dos sonhos no comando da economia. Pouco importava se isso fosse destruir as bases de credibilidade institucional e jogar o Brasil nesse cenário de vale-tudo a que assistimos desde então. O importante era colocar dois banqueiros de absoluta confiança, um no Ministério da Fazenda e o outro no Banco Central.

Meirelles e Goldfajn seguiram à risca o manual da ortodoxia conservadora e aprofundaram a estratégia do austericídio, iniciada ainda por Joaquim Levy no início do segundo mandato da Presidenta. Ocorre que a combinação calamitosa de juros altos e cortes nas despesas públicas só fez acelerar o ritmo da recessão já encomendada. Ultrapassamos a casa de 14 milhões de desempregados, conhecemos a maior estagnação de nossa História e as falências multiplicaram-se por todos os cantos. Nunca antes o nosso PIB havia recuado mais de 8% em apenas dois anos seguidos.

Expectativas e espoliação do financismo.
Não obstante esse quadro catastrófico, as pesquisas realizadas pelo BC pareciam tratar de um universo paralelo. As taxas de juros continuavam nas alturas e as expectativas quanto ao futuro da economia eram sempre as mais otimistas possíveis. Afinal, os postos chaves estavam nas mãos de pessoas consideradas competentes. O problema da dominância do financismo foi sistematicamente deixado de fora da agenda governamental. Os ganhos do sistema financeiro não foram alterados e espoliação a que todos os demais setores da sociedade estão submetidos não se alterou sequer um milímetro.

Os dados mais recentes do próprio BC bem atestam essa insanidade. Em fevereiro de 2018, por exemplo, a taxa de juros cobrada nas operações de cartão de crédito nas instituições financeiras apresentou a média de 398%. Um verdadeiro crime praticado por uns poucos agentes da banca sobre dezenas de milhões de indivíduos. Os mais otimistas talvez tenham a reação de afirmar que isso já representa uma queda, pois um ano antes, em fevereiro de 2017, essa mesma taxa era de 537% ao ano. E o pior é que essa triste constatação é verdadeira.

O financês chama de “spread” essa diferença entre a taxa que o banco remunera seus depósitos e a taxa que ele cobra dos que tomam crédito e empréstimo. No ano passado, quando a SELIC estava em 13% ao ano, eles cobravam uma taxa 41 vezes maior nas operações com cartão de crédito. Em fevereiro desse ano, quando a SELIC estava em 6,5%, eles cobravam uma taxa 61 vezes maior nesse tipo de serviço. Ou seja, na prática, a rentabilidade do financismo aumentou ao longo do período de queda da taxa de juros. E o mais impressionante é que o BC assiste a tudo isso fazendo cara de paisagem. A função de órgão regulador do sistema financeiro foi esquecida, se é que em algum momento anterior ela foi exercida de fato.

Mas apesar de todo o esforço realizado pelo establishment e pelos grandes órgãos de comunicação, a realidade é que a população percebeu claramente o enrosco em que estamos metidos. O Brasil segue devagar, quase parando. O tão alardeado cenário de retomada do crescimento sustentável não passa de mentira ilusionista ou mera força de vontade. Se é verdade que saímos do fundo do poço, o fato é que recuamos tanto ao longo dos últimos 3 anos que o esforço de recuperação vai ser imenso e lento, caso o diagnóstico equivocado e as soluções conservadoras sigam os mesmos de sempre.

País paralisado e Lula líder nas pesquisas.
A pesquisa Focus continua chutando e errando muito. As opiniões dos especialistas do tal do mercado são forjadas pelo mesmo mundinho fechado do financismo. 
Assim, aquele otimismo exagerado de um crescimento do PIB superior a 3% em 2018 vai sendo revisto a cada nova segunda-feira. Agora já se fala em algo inferior a 2,7%. Se é verdade que o desemprego tenha apresentado uma queda diminuta, esse fato deu-se exclusivamente às custas de postos criados no mercado informal. Além disso, é preciso lembrar que a tragédia monumental de mais de 12 milhões de pessoas sem posto de trabalho não será alterada sem uma mudança de orientação de política econômica.

Refém da estratégia do governo comandado pelos interesses do sistema financeiro, o país assiste passivamente à paralisia de suas atividades econômicas e às sucessivas tentativas de implementar a íntegra do projeto da maldade e do desmonte. Assim foi com a Emenda Constitucional 95, que congela as despesas públicas por 20 longos anos. O mesmo se deu com a aprovação da destruição da CLT e dos direitos dos trabalhadores. Essa foi a tentativa de votar a Reforma da Previdência. 
Nada diferente com a entrega da exploração do Pré Sal às multinacionais. Caminho idêntico foi o da liberalização da propriedade de terras ao capital estrangeiro. Assim tem sido com as privatizações já realizadas e as encomendadas, como Petrobras e Eletrobras.

O estrago realizado foi enorme e o compasso de espera pelas eleições de outubro contribui ainda mais para o seu aprofundamento. O Brasil patina e derrapa, mas avança muito pouco rumo a um futuro que volte a enfrentar as questões relevantes, como a necessidade de um modelo de desenvolvimento social e econômico de inclusão. Apenas um Referendo Revogatório no início do ano que vem será capaz de romper as amarras desse atraso que nos foi imposto pelos representantes do capital.

Os inúmeros candidatos da direita, tão carinhosamente chamados pela grande imprensa como sendo de “centro”, não conseguem se viabilizar eleitoralmente. Bolsonaro segue sozinho pela estrada da extrema direita, que a ele foi gentilmente pavimentada por parcela de nossas classes dominantes. Porém, esses diferentes interesses se unem para urdir todo o tipo de jogada e trapaça visando impedir a candidatura de Lula, que segue líder absoluto nas pesquisas. A intenção explícita é fazer de tudo para retirar o nome do ex Presidente da urna eletrônica. Pouco importa que ele seja o preferido da maioria da maioria da população.

Esse é o verdadeiro quadro incerto das expectativas. Um quadro construído pela irresponsabilidade de uma elite que jamais ofereceu a menor preocupação com os destinos de seu próprio País.

Arte de CLAUDIO & Laura

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Brasileiros têm cerca de meio trilhão de dólares declarados em investimentos no exterior? por Alexandro Martello

Censo de Capitais Brasileiros no Exterior, do Banco Central, mostra que valores somaram US$ 498,8 bilhões no fim de 2017. Quem mora no Brasil e tem mais de R$ 100 mil fora é obrigado a declarar.


Os brasileiros possuíam US$ 498,843 bilhões declarados no exterior no final do ano passado, segundo dados do Censo de Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) divulgados nesta semana pelo Banco Central. As estatísticas englobam investimentos de pessoas físicas e também de empresas.
Os valores de brasileiros declarados no exterior
Ativos mais que dobraram nos últimos 10 anos
US$ bilhões209,488209,488221,809221,809273,961273,961280,265280,265355,982355,982391,575391,575450,438450,438442,979442,979455,91455,91498,843498,84320082009201020112012201320142015201620170100200300400500600
2015
442,979
Fonte: Banco Central
O valor representa aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, calculado, também no fim do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em R$ 6,559 trilhão – ou US$ 1,981 trilhão (considerando o dólar do fechamento de 2017, de R$ 3,31).

De acordo com Fernando Rocha, chefe do departamento de estatísticas do Banco Central, o valor que os brasileiros têm em investimentos no exterior é menor que o de países desenvolvidos. No entanto, o volume tem crescido, o que, segundo ele, é "esperado e desejado".

"Em relação aos países mais desenvolvidos, esse percentual [de 25% do PIB], para eles, é maior. O nosso tem crescido. Começa em US$ 200 bilhões [em 2007] e agora chega a US$ 500 bilhões [no ano passado]. Isso superou em muito o crescimento do PIB em dólar", disse ele.

Os valores de investimentos de brasileiros no exterior mais que dobraram nos últimos 10 anos. Em 2008, eram de US$ 209,488 bilhões, de acordo com os números do Banco Central.

O banco explicou ainda que os ativos externos são usados para calcular a Posição Internacional de Investimentos (PII) do Brasil. O PII é um instrumento estatístico que analisa a composição das contas externas brasileiras. As informações são úteis para a formulação e execução da política econômica.

Veja os principais destinos dos US$ 500 bilhões aplicados no exterior
m US$ bilhões357,938357,93828,93128,93131,11431,1149,0199,0190,9880,98812,19312,19314,71514,71532,35832,35811,58811,588Participação no capitalOperações intercompanhiasInvestimentos em açõesTítulos de renda fixaDerivativosCréditos comerciaisEmpréstimosMoeda e depósitosOutros ativos050100150200250300350
400 Fonte: Banco Central

Declarantes
Pelas regras do censo, são obrigados a declarar os valores, anualmente, as pessoas que residem no Brasil e possuem ativos externos em montante igual ou superior a US$100 mil.
Segundo o BC, a declaração tem por objetivo coletar informações estatísticas sobre os ativos externos do país.
Quem deixar de declarar pode ser punido com multas que chegam a R$ 250 mil.
O número de declarantes quase quadruplicou nos últimos dez anos:

Distribuição dos investimentos
Os dados do BC mostram que, dos cerca de US$ 500 bilhões investidos no exterior no final de 2017, a maior parte é dividida da seguinte maneira:

US$ 386,869 bilhões estão em investimento brasileiro direto, dos quais US$ 357,938 bilhões em participação no capital de companhias estrangeiras.
US$ 40,132 bilhões estão aplicados em operações de "carteira", ou seja, aplicações financeiras, como: ações (US$ 31,114 bilhões), "Brazilian Depositary Receipts" (recibos de companhias brasileiras no exterior), no valor de US$ 2,970 bilhões, e títulos de renda fixa (US$ 9,019 bilhões).

Além disso, também há aplicações, em menor escala, em derivativos no exterior, ou seja, nos mercados futuros de outros países - que somaram US$ 988 milhões no fechamento de 2017.

Os números do BC também revelam aplicações de brasileiros em créditos comerciais, empréstimos e em moedas estrangeiras (veja detalhamento abaixo).

Fernando Rocha, do BC, assinalou que as taxas de juros que remuneram as aplicações financeiras são mais baixas em outros países do que no Brasil.

Ele observou que o dólar se valorizou nos últimos meses. Por isso, quem aplicou no exterior no passado, tem mais recursos ao converter esses valores para reais.

"Essa depreciação do real [alta do dólar] tem de ser acrescida nos juros pagos lá fora. É natural que empresas tenham mais poder de fogo [para aplicar no exterior do que pessoas físicas]. A questão de, eventualmente, aplicação de 'portfólio' no mercado internacional, pode servir para estratégia corporativa e de diversificação de risco", acrescentou.

Regularização de ativos
O Banco Central observou ainda que o chamado Programa de Regularização de Ativos de brasileiros no exterior, aberto em 2014 e em 2016, resultou no incremento do volume de investimentos brasileiros no exterior em US$ 54,596 bilhões.

Pelas regras desse programa, pessoas físicas e empresas que aderissem e declarassem valores investidos lá fora, na primeira fase, em 2014, tinham de efetuar o pagamento do imposto devido (15%) e também da multa (mais 15%). Com isso, foram arrecadados R$ 46,8 bilhões, parte dos quais foi repassada para estados e municípios.