quarta-feira, 30 de maio de 2018

Manifestação | Anistia Internacional


A batalha do Santo Graal: dois cálices reivindicam ser o tesouro perdido de Cristo, por IGNACIO ZAFRA Twitter

Comentário papista cético---como os Papas BORGIA eram valencianos e as RELÍQUIAS um atrativo ao culto, na maioria das igrejas e santuários/mosteiros, conventos, durante a Idade Media e Renascimento, quem quiser que acredite....como nas novelas....haja Fé nas indulgências papais e outras!
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A catedral de Valência aposta na autenticidade de sua taça, contra o cálice de dona Urraca, com a instalação de uma iluminação espetacular

A capela do Santo Graal da catedral de Valência. MIGUEL ÁNGEL POLO (EFE

Em meio ao sucesso de público do cálice de dona Urraca, a taça conservada na Colegiada de San Isidoro em Léon e que, segundo um livro polêmico publicado em 2014, foi de fato a que Jesus utilizou na última ceia, a catedral de Valência pôs em destaque seu próprio graal. Concretamente, acabam de ser instalados 38 novos projetores e 28 metros de cordões de LED que iluminam a relíquia e o retábulo de alabastro que a envolve. A capela do Santo Cálice, erguida no século XIV em pedra escura, um espaço tradicionalmente sombrio do templo, está agora deslumbrante graças a uma mistura de “iluminação em branco frio e branco quente”, segundo a descrição da Fundação Iberdrola, que financiou as obras.

Numa terça-feira de setembro, pouco antes das 14h, um grupo de turistas estrangeiros espera para comprar o ingresso recentemente instituído para visitar a catedral, seu museu e suas relíquias (custa 7 euros – 26 reais –, o acesso ao culto é gratuito). “A esta hora já vendemos 800 entradas”, diz um dos funcionários. O cálice é uma das estrelas indiscutíveis da coleção.
O Cálice de Dona Urraca. ULY MARTÍN

No ensaio Los Reyes del Grial (Os Reis do Graal), que promoveu a fama do cálice de dona Urraca – e recebeu críticas ferrenhas de diversos historiadores – os autores Margarita Torres e José Miguel Ortega afirmam que a taça utilizada por Jesus viajou de Jerusalém para o Egito, e de lá foi levada para Dénia (Espanha) no século XII, em agradecimento à ajuda oferecida pelo emirado durante uma seca severa. O emir de Dénia deu-o de presente ao pai de dona Urraca, Fernando I, rei de Leão.

“Pensamos que o cálice de Valência pode ser, e certamente foi, o que Jesus utilizou na última ceia”, afirma o sacerdote Jaime Sancho, estudioso da peça e zelador do culto do Santo Cálice na catedral de Valência. Sancho considera que as outras taças que em algum momento aspiraram ser reconhecidas como verdadeiras, de Gênova a Nova York passando pela Inglaterra, ficaram “desprestigiadas”.A rota seguida pelo suposto graal de Valência foi, segundo o Conselho Metropolitano de Valência, igualmente acidentada. O cálice foi levado a Roma por São Pedro e ali permaneceu até o século III, quando São Lourenço – diácono do papa São Sisto II – , a enviou para Huesca, sua terra natal, a fim de protegê-la da perseguição ao cristianismo decretada pelo imperador Valeriano. A relíquia passou por diversos enclaves nos Pireneus, o mosteiro de San Juan de la Peña e Barcelona, até que, no século XV, o rei Alfonso O Magnânimo a entregou à catedral de Valência.

Do cálice de dona Urraca “começou a se falar há pouco tempo”, diz Sancho com uma ponta de desdém, mencionando o aval dado pelos pontífices nas últimas décadas ao graal valenciano, lavrado em Ágata por volta do século I antes de Cristo. João Paulo II e Bento XVI celebraram missa com ele em suas visitas à cidade em 1982 e 2006 respectivamente. E o papa Francisco criou em 2014 o ano jubilar eucarístico do Santo Cálice, celebrado a cada cinco anos, e concede indulgência plenária aos peregrinos. Até 1744, o cálice era levado em procissão, mas, na Sexta-feira Santa daquele ano, a taça caiu no chão e se quebrou, sendo reconstruída por um mestre ourives, com exceção de uma pequena parte triangular na borda, que está faltando.

Sancho, que também é cônego conservador do patrimônio artístico da catedral, distingue entre as “relíquias autênticas” guardadas na catedral – entre as quais, além do cálice, menciona o braço de São Vicente Mártir e a omoplata de São João de Ribera – e as “históricas”, como a suposta múmia de um dos santos inocentes, as crianças que Herodes mandou matar, segundo a Bíblia. As análises realizadas nesta última revelaram que data do século X. Sancho acredita que foi trazida da Terra Santa para a Europa na época das cruzadas, algo que espera que uma futura análise de DNA venha a conformar. Diferentemente da lenda da múmia, prossegue o zelador do culto, a história do santo cálice de Valência é “verossímil”.
Cientificamente indemonstrável
Imagem do cálice de Valência CATEDRAL DE VALÊNCIA
O cálice valenciano também foi objeto de diversos estudos. Um dos mais completos, Valencia, Ciudad del Grial (Valência, Cidade do Graal), publicado pela prefeitura em 2014, contém uma análise do arqueólogo da Universitat de València Ferran Arasa, que data o cálice entre os séculos I antes de Cristo e III depois de Cristo. “É impossível saber se o cálice de Valência, ou qualquer outro, é autêntico. Não temos informação sobre como era a taça utilizada por Jesus na última ceia, nem sobre o material de que era feita: pedra, metal, vidro, cerâmica... Nem sobre sua forma: cálice, tigela, etc. Também é muito improvável que tenha perdurado depois de tantos séculos e ao longo de épocas de grande instabilidade. Do ponto de vista da pesquisa é um fato indemonstrável e, portanto, fica fora do campo da ciência”, afirma Arasa.

A parte superior do cálice de Valência – a inferior é na verdade outra taça de ágata ovalada, disposta em posição invertida, provavelmente do período bizantino ou islâmico, unida à de cima com um suporte medieval de ouro decorado com pedras preciosas e pérolas –, é idêntica às utilizadas pela elite romana como símbolo de status social. “Ao longo da Idade Média”, acrescenta o arqueólogo, “algumas dessas taças foram empregadas para a confecção de cálices litúrgicos”.

Encontrado cadáver mumificado de idosa, de quem ninguém sentiu falta, depois de quatro anos? por IGNACIO ZAFRA Twitter

Comentário renovação----este é o nosso presente e admirável mundo novo.....
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Um morador descobriu o corpo da senhora de 70 anos enquanto limpava o pátio de sua casa
Casa da rua Benlliure, no bairro do Cabanyal de Valência, onde o cadáver foi encontrado. GOOGLE MAPS

A polícia encontrou no bairro do Cabanyal, em Valência, Espanha, o cadáver mumificado de María Amparo Plaza, de 70 anos, que morreu há cerca de quatro anos em casa, aparentemente de causa natural, e da qual ninguém sentiu falta. Plaza, segundo suas vizinhas, vivia sozinha e socialmente isolada.
Uma porta-voz da Polícia Nacional informou que o aviso foi dado na segunda-feira à tarde por um morador que foi limpar o deslunado — o pequeno pátio interior que serve para iluminar e ventilar as casas nos bairros marítimos valencianos — de sua casa e viu que, no imóvel adjacente, havia roupas que pareciam estar penduradas há anos. Quando olhou com mais atenção, também notou, por meio da janela da cozinha, pernas estendidas no chão.

O morador ligou para o número de emergência 112 que, por sua vez, informou a polícia local e os bombeiros, que entraram na casa e confirmaram a presença na cozinha do corpo mumificado. As janelas e portas estavam fechadas, o que pode ter contribuído para a secagem do cadáver sem passar pelo processo natural de putrefação.

Os agentes da Polícia Nacional responsáveis pela investigação não notaram, em uma primeira inspeção, sinais de violência no corpo da mulher, cuja documentação mostra que nasceu em 1940, em Valência, ou no domicílio.

Tampouco mencionaram no atestado que havia cheiro forte, uma das maneiras pelas quais os vizinhos detectam os casos em que uma pessoa morre sozinha em uma casa sem parentes que tomem conhecimento do falecimento.

A polícia tentou, sem sucesso, localizar algum parente da mulher. Os vizinhos entrevistados pelos agentes afirmaram que não a viam há cerca de quatro anos e pensaram que ela já não morava mais lá.

María Rosa Quirante, de 43 anos, dona de casa e moradora na mesma rua, diz que Plaza costumava usar cabelos longos e um tipo de roupa larga que descreve como "hippie". "Eu moro aqui há 16 anos e, quando cheguei, a senhora já morava em frente. Eu a via algumas vezes na rua; a última vez deve ter sido há quatro ou cinco anos, mas pensei que tivesse se mudado", diz.

"Saía muito pouco. E nunca vimos ninguém que tenha vindo visitá-la. Tinha as janelas fechadas e, da nossa casa, nunca ouvimos barulho, nem a TV. Diziam que era argentina, mas ela era daqui. É que morou muitos anos na Argentina", diz uma moradora da rua Escalante, paralela à Benlliure, cuja janela da cozinha no primeiro andar do edifício dava de frente para a cozinha da idosa falecida, localizada do outro lado de um pátio estreito.

"Quando há uma porta quebrada, ocupam a casa"
A jovem moradora, que prefere não se identificar, disse que, quando o vizinho do seu prédio encontrou o corpo e a polícia e os bombeiros chegaram, entrou em contato com o administrador da propriedade, que mora no bairro, para pedir as chaves da casa da idosa e evitar ter que forçar a porta da rua. "Aqui, quando há uma porta quebrada e uma casa vazia, entram na casa e a ocupam", afirma.

A casa da falecida fica perto da área mais degradada do Cabanyal, onde há muitos imóveis que foram expropriados pela prefeitura na época do antigo Governo local, do Partido Popular (PP), o mesmo do primeiro ministro Mariano Rajoy, que tinha um plano de demolir mais de mil casas para abrir uma grande avenida que chegasse até o mar. Parte desses imóveis foi ocupada, e alguns transformados em pontos de venda de drogas, que continuam funcionando. Outros permanecem fechados por seus donos, completando uma paisagem de desolação urbana.

O jornal Levante-EMV, que foi o primeiro a publicar a notícia nesta terça-feira, destaca que a mulher era inquilina da propriedade e, aparentemente, tinha domiciliados em sua conta bancária tanto a renda da pensão quanto o pagamento do aluguel, que continuou ocorrendo estes anos automaticamente.

Saindo da Petrobras, Pedro Parente já tem novo emprego, por Tiago Vasconcelos

Comentário inodoro---regra antiga brasiliensis---farinha pouca, meu pirão primeiro. Cidadania e urbanidade? Coisas devolutas e substituidas pela ganancia, egoismo, invejas varias, BAIXARIAS, etc.

Pivô do caos deve virar o CEO da BRF, onde já preside o conselho
Após incendiar o País com dolarização dos combustíveis, reajustados diariamente desde julho de 2017, o presidente da Petrobras, Pedro Parente, tem novo emprego garantido. Ele deve assumir o comando da BRF (Brazilian Foods), que controla marcas de alimentos como Sadia e Perdigão. Parente já é presidente do conselho de administração da BRF, do qual o empresário Abílio Diniz se desligou em abril passado.

Parente não reajustaria produtos da BRF todo dia temendo as leis da concorrência: exploração do cliente é punida com perda de mercado.No novo emprego, Parente não aplicará aos frangos da Sadia e nem aos presuntos da Perdigão a política de reajustes diários de preços.

A gestão de Parente piorou a asfixia do etanol: a Petrobras não quer que combustível limpo, renovável e nacional concorra com a gasolina.

Arte de SIMANCA

charge do  Simanca

INEFICIÊNCIA MONOPOLIZADA Combustível dolarizado sustenta a ineficiênciaPetrobras .......(nas folhas)

............paga o triplo de funcionários da Chevron para ter a mesma produção

Petrobras e Chevron produzem 2,7 milhões de barris de petróleo por dia, mas brasileira emprega o triplo de funcionários

Para produzir seus 2,7 milhões de barris/dia, a Petrobras mantém 180.258 mil funcionários, entre terceirizados e efetivos, que, vez por outra, ainda inventam greve malandra como a prevista para esta quarta (30), de 72 horas, cujo término coincide com o fim de semana. Já a americana Chevron, que não se beneficia de monopólio, tem 51,9 mil empregados, menos de um terço da nossa estatal, e produz os mesmos 2,7 milhões de barris/dia.

Explorando os brasileiros, com reajustes diários, a Petrobras registrou lucro de R$7 bilhões somente entre janeiro e março deste ano.Em vez de cortar despesas e modernizar a estatal, Pedro Parente dolarizou os combustíveis para sustentar a ineficiência da Petrobras.

Por sua ineficiência, a Petrobras quase ficou de fora da lista da Forbes com as 25 maiores petroleiras do mundo. Está em penúltimo lugar.

Em 2013, auge do aparelhamento, a Petrobras empregava mais de 360 mil pessoas e tinha quatro terceirizados para cada funcionário próprio.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Arte de JOTA CAMELO

random image

domingo, 27 de maio de 2018

João Moreira Salles: “A prisão de Lula vai contaminar a democracia no Brasil nas próximas gerações”, por ALEJANDRO ROMERO

O documentarista João Moreira Salles debate política e cinema, comparando as imagens de seu último filme
O documentarista e editor João Moreira Salles. CARLOS ROSILLO


Quando terminou seu segundo documentário, João Moreira Salles (Rio de Janeiro, 1962) decidiu deixar o audiovisual considerando que tudo já havia sido contado, e fundou a revista de jornalismo literário Piauí. Sua amizade com o diretor Eduardo Coutinho levou-o de volta às telas do cinema. Agora, este produtor, documentarista e editor apresenta No Intenso Agora, um documentário sobre as revoltas do Maio de 68. Na Casa da América, em Madri, o brasileiro, herdeiro de um dos maiores bancos da América Latina, o Itaú Unibanco, debate sobre política e cinema, comparando as imagens de 50 anos atrás com as da atualidade.

Acredito que a popularização dos smartphones fez um grande favor ao documentário. Ela permite realizar coisas com orçamento muito baixo e chegar a muitos lugares graças à Internet. Há coisas que vejo no YouTube que são profundamente criativas e que mudam a forma de fazer documentários. A democratização traz consigo uma maior capacidade de produção – e da quantidade surgem os gênios. Existe também uma mudança nas formas, pois, ao migrar da tela do cinema para a do celular, já não dependemos da telona e das duas horas de duração. Agora tudo pode ser feito.Qual é a situação do documentário hoje em dia?

Acredita que plataformas como Netflix tiram a liberdade do documentário?
O documentário jamais se beneficia com a indústria. É muito arriscado fazer ficção experimental porque é muito caro e os filmes precisam ser rentáveis. O documentário é diferente: seu papel é mudar as formas de narração. Tudo o que acontece como novidade no cinema de ficção quase sempre foi visto antes no documentário. Não porque sejamos mais originais, inventivos ou inquietos, mas porque não há ninguém que nos diga: “Faça assim.” Quando isso se transforma numa encomenda da Netflix e você tem uma responsabilidade em relação ao público, mata-se algo que é essencial para o documentário: arriscar. Se você fracassa fazendo Titanic, não fará um filme de novo. Mas se fracassa fazendo, não sei, No Intenso Agora, não há problema porque é um filme pequeno, sem importância. O fracasso não é significativo porque não é um fracasso público, pois ninguém conhece o filme.

O que buscava quando começou a filmar ‘No Intenso Agora’? Que relação tem com movimentos como Occupy Wall Street e 15-M?
No Intenso Agora não foi feito para pensar a atualidade. Começou como algo pessoal, com alguns filmes familiares e um diário que minha mãe tinha feito. Naquele momento, em que ela escreveu e fez essas imagens, estava muito conectada com a vida, com uma capacidade muito grande de ser feliz. Eu me interessava sobre como temos essa capacidade e como a perdemos. Ao pesquisar, muito rapidamente cheguei ao Maio de 68 e, ao ler os diários das pessoas que vivenciaram as revoltas, encontrei a mesma dinâmica: uma completa conexão com a vida que se perde quando os protestos acabam. Comecei com o filme em 2012, antes das grandes manifestações de 2013 no Brasil, quando mais de dois milhões de pessoas saíram às ruas. Quando me perguntam se meu filme é um comentário sobre isso, respondo que não. Não queria entender por que as pessoas saem às ruas, e sim por que deixam de sair. Não por que alguém se torna militante, e sim por que deixa de ser.

Sente que esses movimentos sociais, como o de 2013 no Brasil e a “primavera árabe”, serviram para mudar as coisas?
O Maio de 68 não mudou a França de junho, mas sim a dos anos oitenta. E de maneira profunda. O movimento feminista, a integração, a liberação sexual, a universidade que se flexibiliza. A sensação de fracasso dos movimentos sociais é real, mas também é ilusória porque as coisas mudam, só que muito lentamente. Penso que é a situação que vivemos no Brasil. Nos protestos de 2013, os que não tinham voz perceberam que podiam falar. Os negros, os movimentos LGBT, o novo feminismo brasileiro, grupos de favelas que passaram a se organizar politicamente. Marielle Franco, que foi assassinada recentemente, era uma expressão maravilhosa disso. De alguém que representa um novo Brasil, que tem uma vontade política que antes não tinha. Ela entrou na faculdade graças à política de cotas, e em 2013 se viu no centro de um movimento que foi essencialmente de empoderamento graças à palavra. Essas pessoas não vão mudar o Brasil de 2018, mas vão mudar o Brasil de 2025.

Qual é a sua sensação com o momento atual que o Brasil vive?
Acredito que a prisão de Lula foi uma catástrofe política, mas não se pode confundir isso com uma absolvição do Partido dos Trabalhadores (PT). O partido precisa fazer uma autocrítica que jamais fez. Se temos hoje Michel Temer é porque Temer foi o vice-presidente de Dilma. No Brasil existe um pacto com o atraso. O PMDB sempre esteve no poder e continua lá, mamando nas tetas do Estado. A partir da investigação da Petrobras, onde havia montado um esquema de corrupção numa escala que não existia antes, o sistema político brasileiro ficou contaminado. Hoje temos um sistema morto que não representa ninguém. Está morto, mas continua de pé. Precisamos destruir isso para construir algo novo. É por isso que sou muito pessimista em relação ao presente, mas otimista em relação ao futuro.

Mais concretamente, o que pensa sobre a prisão de Lula?
O encarceramento de Lula é algo que vai contaminar a democracia brasileira nas próximas gerações. Porque, seja qual for o resultado das eleições de 2018, ficará sempre o fantasma de que Lula não poderá disputá-las e, portanto, não poderá ser eleito nem derrotado pelos votos. É muito delicado. Acho que a questão da culpabilidade de Lula é uma questão à parte. Há elementos que podem ser discutidos, mas não se pode dizer que não existem. O próximo presidente estará sempre à sombra da legitimidade, pois terá ganhado porque Lula não estava na disputa.

Nada está muito claro. Há um descrédito profundo na política, e a situação está pronta para que alguém de fora do sistema o compre para trazer ordem e lei. E isso se aproxima muito de um personagem que conhecemos bem na América Latina: o caudilho. O sujeito autoritário e antidemocrático. No Brasil, há uma cadeira preparada para ser ocupada por alguém dessas características. Em 2019 podemos ter como presidente alguém que seja, se não fascista, protofascista.

O que a imprensa pode fazer para combater situações como essa?
Acho que a imprensa tem um papel essencial, mas infelizmente com armas que são muito pouco apropriadas para o momento. É como a cavalaria polonesa na Primeira Guerra Mundial, que enfrentava os tanques alemães a cavalo. As armas que temos são pouco poderosas para enfrentar as redes sociais e as fake news. Acredito cada vez mais na figura do gate keeper, das grandes organizações nas quais podemos confiar. A boa imprensa tem que ser uma instituição conservadora. O rigor precisa de instituições.

Trailler de 'O Intenso Agora'

Arte Anonimous

Paklavras???!!!!

sábado, 26 de maio de 2018

O movimento fragmentado que uniu direita, esquerda e a insatisfação contra Temer, por GIL ALESSI & TALITA BEDINELLI

Um dia depois de o Governo comemorar um acordo que poderia solucionar a crise, greve se mostrou mais complexa e aglutinadora do que se previa

FOTO: Protesto no Distrito Federal em apoio aos caminhoneiros. FABIO RODRIGUES POZZEBOM (AGÊNCIA BRASIL) / REUTERS
Um dia depois de o Governo Michel Temer comemorar um acordo com o grupo de caminhoneiros em greve, o caminho da solução do problema se mostrou mais difícil do que a versão oficial tentava apontar. Segundo os dados governamentais, 60% das interrupções rodoviárias continuaram. O movimento, organizado pelo WhatsApp, se mostrou mais complexo e descentralizado. E foi capaz de atrair o apoio de setores diversos, da direita à esquerda, da classe média ao grande produtor rural, ainda que a crise de abastecimento tenha seguido nesta sexta, com postos se dividindo entre filas quilométricas e o vazio pela falta de combustível em várias cidades .

Desde o meio do mês os movimentos que representam os caminhoneiros alertavam o Governo para a possibilidade de uma paralisação por conta do aumento no preço do diesel. A Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam)protocolou em 14 de maio um ofício na Presidência da República e na Casa Civil para pedir medidas contra o constante aumento dos combustíveis. Reclamavam que em 11 de maio o diesel atingia o maior nível desde meados de 2017 e a oscilação de preços constante prejudicava a previsibilidade do valor dos fretes. Foram nada menos que dez aumentos em um mês, por conta da flutuação do preço internacional do barril de petróleo seguido pela Petrobras. Em 16 de maio, sob a mesma motivação, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que reúne um milhão de filiados, também pediu audiência em caráter emergencial com o Governo.

Ambas, entretanto, foram ignoradas. E, com isso, a mobilização começou a ganhar corpo. O descontentamento dos caminhoneiros se espalhou rapidamente pelas redes sociais e pelos grupos de WhatsApp. E a categoria, geralmente desmobilizada, conseguiu se unir de forma descentralizada e horizontal, sem líderes claros. Nas estradas, se concentraram especialmente os trabalhadores autônomos (650.000 dos dois milhões de caminhoneiros do país, consultoria Ilos Supply Chain), mas também profissionais ligados a transportadoras. As empresas não podem, por lei, organizar paralisações (chamadas de locaute) e, caso isso seja provado, poderão sofrer sanções legais.

"A categoria dos caminhoneiros é desorganizada, não paga sindicato e as associações representativas. Mas isso foi a gota d'água para nos organizarmos. Hoje, pelo WhatsApp, pelas redes sociais, um fala aqui, o outro fala aí, vai para um grupo, vai para o outro e em dez minutos está no Brasil inteiro", afirma José Araújo Silva, o China, presidente da União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam). A organização destes trabalhadores pela internet é justamente a chave da dificuldade enfrentada pelo Governo nesta negociação.

Nesta quinta, representantes de Temer se reuniram com 11 associações do setor, um número que, por si só, já mostra a dispersão da categoria. Nove delas assinaram o acordo, celebrado pelo Governo como a resolução do problema —apenas a Abcam e a Unicam não assinaram. Mas a própria CNTA, uma das signatárias, já avisava pela manhã que "nenhuma pessoa ou entidade tem, sozinha, o poder de acabar com essa mobilização". Também alertava que as entidades haviam apenas concordado em comunicar aos trabalhadores nas estradas sobre as propostas do Governo. Em vídeo divulgado no final do dia, o presidente da entidade, Gilmar Bueno, afirmou que "em nenhum momento nenhuma das entidades que participaram [da reunião] se posicionou no sentido de comprometer ou desmobilizar este movimento."

Durante todo o dia, a posição dos grevistas era de crítica tanto ao Governo quanto às mobilizações que participaram do encontro. "Elas são fascistas, estão a mando de empresas que têm bastante caminhão, a mando de empresários. Não nos representam. Aqui ninguém nos representa, é o povo que está aqui", afirmava o caminhoneiro Rafael Machado, que estava em um dos bloqueios na rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, ao repórter Felipe Betim. Durante dos dias de greve também não faltaram demonstrações de apoio a uma "intervenção militar", ainda que não se saiba o alcance e a representatividade desse seguimento mais radical no conjunto.

Na BR-101, altura da entrada do Recife, em Pernambuco, Marcelo Freitas, dono de três caminhões, disse que passava o dia com os grevistas, levava água e alimentos, e voltava para casa depois. “Meus três funcionários estão parados, um no Rio de Janeiro, um na Bahia e outro aqui”, explicou. “Todos nós temos contas acumuladas. Queremos trabalhar, mas não sairemos daqui enquanto o valor do diesel não abaixar”, relatou à repórter Marina Rossi.

A situação se tornou mais crítica ainda depois que o Governo afirmou que autorizava o uso das Forças Federais para desbloquear as estradas. “Se as Forças Armadas vierem, vamos resolver da melhor maneira possível”, dizia Anderson Wanderley, em Recife. “Mas eles não virão. Estamos com apoio da população, recebemos doações o tempo todo e não estamos impedindo ninguém, além dos caminhões, de passar”, contava, enquanto carros buzinavam em apoio ao movimento.
Tempestade perfeita

A mobilização contra o aumento dos combustíveis acabou pressionando um nervo já dolorido na sociedade. E, por isso, conseguiu aglutinar setores geralmente distantes ou opostos: da classe média, irritada com os constantes aumentos da gasolina, aos produtores rurais, que reclamam dos prejuízos do setor com o combustível em alta; da esquerda, que aproveitou para criticar a política de preço livre da Petrobras, à direita, que mirou na situação para denunciar o desmonte da petroleira gerado pela corrupção dos governos de esquerda. 

A Central Única dos Trabalhadores (CUT), alinhada ao PT, declarou apoio aos motoristas. “A população precisa apoiar este movimento que não é somente contra o reajuste dos combustíveis, é contra a privatização da Petrobras. O Governo está utilizando esses aumentos para defender a venda da estatal”, diz o presidente da entidade, Vagner Freitas, aproveitando para jogar a culpa na política de preços implementada sob Temer. A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) também endossou a paralisação dos caminhoneiros, apesar do impacto que a greve tem no escoamento da produção. O presidente da entidade, Bartolomeu Braz Pereira, afirmou que dentro da associação existem inclusive setores favoráveis à continuidade da greve mesmo caso os caminhoneiro cedam. "Entre o início da safra e a colheita tivemos um aumento de óleo diesel de 60 centavos por saca. Gastamos quase 3 bilhões a mais somente em combustível. E esse gasto vai pro produtor", afirmou.

Formou-se, então, uma tempestade perfeita sobre um Governo de popularidade extremamente baixa. No Twitter, a hashtag ForaTemer chegou a segundo lugar nos Trending Topics, logo depois de #TemerAbaixaAGasolina. Tudo isso torna o futuro da greve e seus desdobramentos ainda mais incertos. O transtorno provocado pelos bloqueios continuados vai fazer ruir essa heterogênea coalizão anti-Temer? Não havia ainda respostas. Por ora, o Partido dos Caminhoneiros atraía o apoio de pré-candidatos presidenciais. O deputado de extrema-direita, Jair Bolsonaro, o segundo nas pesquisas, animou os grevistas, criticou os preços praticados pela estatal, mas também os bloqueios, segundo ele inflados por "infiltrados petistas". Pela esquerda, Ciro Gomes (PDT) acusou a Petrobras de querer apenas beneficiar os acionistas privados da empresa mista. "A alta dos combustíveis é uma aberração que praticamente nega a razão de ser da própria existência institucional da Petrobras. A política de preços adotada está equivocada e desrespeita a sua estrutura de custos", disse o pedetista, no Twitter. "O Exército nas ruas é mais uma demonstração da incapacidade do Temer de lidar com uma crise criada por um dos seus homens: Pedro Parente. Temer age com covardia, com uma política de preços de combustíveis que se ajoelhou diante do mercado. E agora apela para a força militar", escreveu Guilherme Boulos, do PSOL. Era o sinal definitivo de que a categoria havia instalado o debate sobre os rumos e o papel estratégico da Petrobras num ponto alto da agenda eleitoral.

Greve dos caminhoneiros: como se formou o nó que levou à paralisação, por RODOLFO BORGES

Protestos põem em questão política de preços da Petrobras e modelo de exploração do petróleo.
Limitações logísticas do transporte no Brasil também ajudam a entender a crise dos combustíveis

Motoristas formam fila para abastecer em Brasília. EVARISTO SA (AFP) | EPV


A escalada do preço do barril de petróleo e a alta do dólar escancararam uma série de gargalos e problemas setoriais que desembocaram na greve dos caminhoneiros nesta semana. A paralisação põe em questão a política de preços da Petrobras, o modelo de exploração do petróleo, as limitações logísticas do transporte no país e os impactos da concessão de créditos setoriais. Tudo isso em meio a um processo de recuperação econômica que, mais lento do que o esperado, não permite aos governos federal e estaduais abrir mão de impostos que representam cerca de 45% do preço da gasolina e 29% do diesel. Mesmo assim, o Congresso Nacional promete aprovar reduções de alíquotas na marra.

Iniciada em julho 2017, a política da Petrobras de acompanhar a oscilação internacional dos preços do petróleo levou a um aumento acumulado de 55% no valor dos combustíveis no Brasil ao seguir a variação internacional do preço do petróleo. Sob a batuta de Pedro Parente, a empresa adotou essa política para se alinhar às práticas comuns do setor privado internacional, recupera a confiança dos investidores depois das perdas da época em que os preços eram controlados, durante o Governo Dilma Rousseff — e os resultados econômicos começaram a ser colhidos pela estatal no primeiro trimestre deste ano. "O Brasil não tem os mesmos estoques de combustível e petróleo dos Estados Unidos, e quer, de repente, afetar milhares de pessoas com uma política [de reajuste] em tempo real só para dizer que é o oposto da política da Dilma e da [ex-presidenta da Petrobras Graça] Foster", critica Jean-Paul Prates, diretor-presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia.

A solução para o especialista é um meio termo: um sistema de amortecimento das variações do preço do petróleo. "Não é nada parecido com Venezuela, com mercado paralelo de combustível, tirar o Brasil do mundo do petróleo, nada disso. É simplesmente retornar à fórmula proposta pela Graça Foster, uma proposta boa num momento errado", diz Prates, referindo-se à negativa do Governo Dilma de adotar o amortecimento de preços em 2014 por conta de motivos eleitorais. O temor de que a política volte a ter ingerência sobre a Petrobras derrubou as ações da empresa em 14% nesta quinta-feira, o que valeu 47,3 bilhões de reais a menos no valor da empresa.

Segundo Prates, o Brasil tem de adotar uma fórmula que tenha balizamento no mercado internacional: que o preço dos combustíveis não fique muito discrepante do valor mundial por muito tempo, mas que os reajustes sejam feitos em patamares e com previsibilidade dos critérios. Assim, a Petrobras arcaria com o aumento do petróleo por algum tempo, e descontaria aquilo que gastou no momento em que o preço da commodity baixasse. "Nunca houve preço livre na bomba, em tempo real, na história do petróleo brasileiro. Querem fazer isso depois de 100 anos de uma cultura acostumada com amortecimento?", questiona.

Claudio Frischtak, presidente da consultoria Inter.B, diz faria sentido reduzir a frequência dos aumentos de combustível, mas que "o problema não é a Petrobras, é estrutural". "A Petrobras tem um grande poder de monopólio. Se houvesse quatro ou cinco empresas competindo de fato nesse mercado, com refinarias e base de importação, pode ser que o preço não estivesse nesse nível e que as empresas não pudessem fazer o que a Petrobras faz hoje", diz Frischtak. Nos Estados Unidos, por exemplo, a competição do mercado impede que o preço suba tanto.

A solução, nesse caso, passaria pela privatização desse setor, mas não qualquer uma. "Não vejo nenhuma razão para a Petrobras continuar estatal, mas não se deve privatizar ela nessa posição, sob o risco de se criar um quase monopólio privado. Tem de fazer uma modelagem. Só que não há clima para fazer isso no país. A Eletrobrás está numa situação financeira dificílima, e o pessoal continua contra a privatização", analisa Frischtak.
Transportes

Além do setor de petróleo, o setor de transporte também teve seus problemas expostos por conta da greve dos caminhoneiros. Os transportistas conseguiram mobilizar as atenções do país com apenas três dias de mobilização - a maior desde 1999, no Governo Fernando Henrique Cardoso. Isso porque dois terços do transporte de carga do país são feitos por caminhões — sem contar minério e petróleo cru, a proporção sobre para mais de 90%. Nos Estados Unidos, por exemplo, o percentual é de 43%. Além disso, a estrutura rodoviária do país é precária: tem apenas 211.000 quilômetros, enquanto os EUA têm 4,3 milhões de quilômetros e a China, 4 milhões de quilômetros. Nos cálculos do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), a má qualidade das estradas faz que o caminhoneiro brasileiro leve um mês para rodar 4.400 quilômetros, o que dá uma velocidade média de 5 km/h. Isso encarece o preço do transporte e, consequentemente, do frete.

De 2001 a 2016, a frota de caminhões do país cresceu 84%, em parte por conta do crédito concedido pelo BNDES entre 2008 e 2014. O aumento foi tão intenso que levou empresários do setor a pedir a suspensão de outros tipos de crédito para a compra de caminhões em 2016. Naquele ano, estimava-se que havia um excedente de 200.000 caminhões no país — a frota atual é de 2 milhões de veículos, dos quais 650.000 são autônomos. O excesso de caminhões e a redução da circulação de cargas, como consequência da recessão dos últimos anos, derrubou o preço dos fretes, prejudicando as companhias de transporte. Agora, quando a economia voltava a crescer, a elevação do preço do diesel frustrou as expectativas dos caminhoneiros, que não viram outra alternativa senão parar em protesto.

Arte de CHICO

A disputa entre as duas maiores elétricas europeias pela Eletropaulo chega à hora decisiva, por XOSÉ HERMIDA

MARIO RUIZ TAGLE | PRESIDENTE DA NEOENERGIA---“Não faz sentido privatizar as elétricas para acabarem nas mãos de estatais estrangeiras”

A subsidiária brasileira da espanhola Iberdrola ataca sua rival, a pública italiana Enel
Mario Ruiz Tagle, presidente da Neonergia.DIVULGAÇÃO

Após semanas de uma dura queda de braço, com desqualificações públicas entre os dois concorrentes, o desfecho da disputa pela Eletropaulo está a caminho de se conhecer. Nesta quinta-feira ficarão públicas as ofertas finais de um leilão que transferiu para o Brasil uma guerra entre as duas principais elétricas europeias, a espanhola privada Iberdrola e a italiana, com maioria de capital público, Enel. O empenho das duas em conseguir o controle da elétrica paulistana, que garantirá ao ganhador o comando do setor no Brasil, fez subir o preço, que no final vai ultrapassar provavelmente o patamar de 5 bilhões de reais.

Mario Ruiz Tagle, o chileno que preside Neonergia, a subsidiária brasileira da Iberdrola, decidiu falar na hora final da disputa para defender as chances de sua companhia e atacar as atuações da concorrente, que, segundo ele, por ser uma empresa com maioria de capital público, não respeita as regras do livre mercado. Ruiz Tagle critica que o setor elétrico brasileiro esteja caindo nas mãos de empresas controladas por Estados estrangeiros.

Pergunta. Por que essa disputa virou tão acirrada?
P. Por que é tão importante a Eletropaulo para a Neonergia?
Resposta. A disputa é acirrada pelo nível de desigualdade nas condições em que está acontecendo. Nós estávamos concorrendo em um processo de ancoragem de emissão primária de ações e propomos à Eletropaulo uma estrutura para resolver o problema financeiro que eles tinham e que garantisse transparência e concorrência para que os acionistas da companhia pudessem se beneficiar. Nós ganhamos no dia 16 de abril o direito de ancorar essa emissão primária com um acordo que era muito claro, com um preço de 25,51 reais por ação. O nosso compromisso era lançar uma OPA [oferta pública de aquisição] sobre 100% da companhia, o que garantiria o lucro dos acionistas e resolveria os graves problemas financeiros que a empresa nos tinha colocado. Mas, contra todas as regras de transparência e de fair play nos negócios, a Enel, que tinha perdido a emissão, fez uma OPA hostil por fora. E não só isso: foi falar no TCU, na CVM, que o nosso acordo estava contra as regras da concorrência, sem dizer que ela tinha participado ativamente desse processo. Acho que sua conduta tem provocado nossa reação para esclarecer que estamos perante uma companhia que, embora se apresente no mercado brasileiro como privada, tem claramente um controle do Estado italiano. É uma companhia estatal estrangeira que quer ganhar aqui um ativo.

R. Porque para nós faz muito sentido do ponto de vista estratégico. Estamos no mercado brasileiro há 21 anos, somos uma companhia brasileira controlada pela Iberdrola, uma empresa espanhola, mas temos na casa de 10,5 milhões de clientes no Nordeste e também a Elektro no Estado de São Paulo. Isso nos garante uma situação muito interessante do ponto de vista das sinergias operacionais e geográficas, além de uma presença relevante em um mercado como o de São Paulo. Nós podemos trazer para a companhia a viabilidade de um plano de investimentos que garanta a qualidade e segurança do serviço, e também um acordo que beneficie os acionistas. No caso da Enel, eu estou convicto de que a questão vai além do preço e da compra, a questão é desenvolver uma política industrial comum às empresas estatais estrangeiras, que só vêm ao Brasil para conseguir um território. É seguir as ordens da matriz estrangeira, trocar fornecedores por outros de fora, importar bens para o Brasil, tomar uma posição estratégica no coração do PIB brasileiro. E isso lhes permite se situar em uns níveis de preço acima dos limites razoáveis para eles, que não têm as nossas sinergias.

P. As últimas ofertas já ultrapassaram o patamar de 30 reais por ação. Não estão correndo o risco de que a disputa faça que a operação deixe de ser rentável?

R. Quem corre esse risco é a Neonergia, que está preocupada com a rentabilidade e com o retorno para seus acionistas. As empresas estatais estrangeiras, infelizmente, na conduta que elas têm mostrado no Brasil, não têm muita preocupação com isso. Qual é o seu interesse se a energia que está sendo distribuída no Brasil não pode ser levada para a Itália? Se viesse aqui na procura de minerais, de alimentos, de produtos industriais... Mas comprar companhias desta natureza é só um posicionamento geopolítico que garante qualquer preço. Qual é objetivo de ter uma concorrência tão acirrada para que os únicos beneficiários sejam os acionistas da companhia? Nesse preço que está sendo colocado no mercado, a companhia não recebe um real. É verdade que a Eletropaulo é muito atraente mas alguém tem que se dar conta de que é preciso preservar a companhia antes do lucro dos acionistas. Porque qualquer um que ganhar vai ter que assumir esse preço dentro de sua estrutura de financiamento. Se o preço virar irracional, então só vai ter ou uma briga pesada para subir as tarifas ou cortar os investimentos. A questão da Eletropaulo vai além do preço.

P. Mas agora a Neonergia também pode ter o risco de tomar a companhia em umas condições de muito menos rentabilidade.

R. Sem dúvida, todo aumento de preço leva a perder rentabilidade, mas aí temos a capacidade de gestão de cada um dos concorrentes para conseguir, ainda nessas condições, criar valor para sustentar essa rentabilidade. É esse um dos nossos limites. Porém, o Estado italiano não os tem. Eles fizeram uma guerra suja e inexplicavelmente conseguiram que o Conselho de Administração da Eletropaulo cancelasse essa emissão primária.

P. Quais são esses graves problemas financeiros da Eletropaulo?

R. O grande problema está sinalizado por eles: precisa de recursos urgentes para diminuir o custo de sua dívida e para alavancar o acordo financeiro que ela fez com a Eletrobras no começo do mês de março, por uma disputa antiga, que foi fechado em 1,5 bilhões.

P. A Iberdrola tem anunciado 25 bilhões de reais de investimentos no Brasil nos próximos cinco anos. Onde eles estariam focados?

R. Faz parte do nosso plano de desenvolvimento estratégico, voltado principalmente para expansão e melhoria da rede nas nossas áreas de concessão com o intuito de garantir a segurança no serviço. No Nordeste temos que construir linhas e subestações e automatizar a rede. E a Elektro é uma empresa mais madura, embora ela tenha também algumas necessidades de investimento. Além disso, temos investimentos em linhas de transmissão e na participação em leilões de energia eólica e fotovoltaica. Mas esta operação da Eletropaulo não faz parte desses 25 bilhões de reais.

P. Há ainda muitas incertezas pairando sobre a economia brasileira. A companhia não tem preocupação com isso?

R. Como disse o presidente da Iberdrola e da Neonergia, o doutor Ignacio Galán, a incerteza é um medo que as pessoas jovens têm. As pessoas mais velhas, como as nossas companhias, já viveram muitas coisas. Os países precisam da energia, não há um governante de um país que não queira crescer, e para crescer precisa de energia. A Iberdrola tem 120 anos, já passou por guerras mundiais, guerras civis, ditaduras... por muitos regimes políticos nos países onde ela desenvolve seus negócios. E por isso ela tem uma visão de longo prazo. Eu concordo que a situação atual daria para colocar o dinheiro em emissões do Tesouro brasileiro, mas o que a companhia tem no DNA é crescer e ajudar no crescimento do Brasil. É verdade que temos uma situação preocupante do ponto de vista da evolução da economia e da situação política. Mas a companhia quer ficar fora disso tudo. A energia elétrica e o consumidor não têm partido político.

P. O Governo Temer anunciou a privatização de parte da Eletrobras. Isso deve ser de interesse futuro para um gigante global como é a Iberdrola?

R. O gigante atua no Brasil através da Neonergia, onde tem como sócios o Banco do Brasil e a Previ. É verdade que o Governo está fazendo um esforço para privatizar parte da Eletrobras, mas, com as dificuldades na agenda legislativa, a gente infelizmente não vê um caminho claro para que isso possa dar certo, embora para o Brasil seja indispensável ter uma empresa do tamanho da Eletrobras atuando como as empresas privadas, procurando a rentabilidade. O Governo também anunciou que privatizaria algumas distribuidoras do grupo. Nós estamos acompanhando esse processo e há algumas que avaliamos com interesse por proximidade geográfica e operacional com outras que nós temos no Nordeste. Mas temos de esperar para conhecer as condições do edital que estão negociando o Governo e o Congresso. Contudo, o Brasil tem que se perguntar o que é que está acontecendo no setor elétrico, porque desde 2015 para frente todos os ativos tem sido comprados por empresas estrangeiras estatais. Não faz sentido abrir uma discussão para privatizar a Eletrobras e que por essa via as companhias acabem caindo em mãos de empresas estrangeiras estatais.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Robô que ajudou a achar destroços do Air France 447 tira fotos de galeão afundado que pode conter tesouro de US$ 17 bilhões, por Associated Press

Localização exata do galeão espanhol San José é tratada como segredo de Estado da Colômbia.

Canhões do galeão San José (Foto: Associated Press)

Novos detalhes foram revelados sobre o galeão espanhol San José, que afundou há três séculos perto da costa caribenha da Colômbia.

O Instituto Oceanográfico Woods Hole, dos EUA, após ser autorizado pelo governo colombiano, revelou que usou o robô REMUS 6000 -- o mesmo que ajudou a localizar os destroços do voo da Air France que caiu no meio do Oceano Atlântico após partir do Rio rumo a Paris, em 2009 -- para fazer imagens de sonar e fotografias do San José deitado a 600 metros de profundidade.

O galeão espanhol foi encontrado em 2015. Muitas vezes chamado de "Santo Graal dos naufrágios", foi por muito tempo considerado um dos mais duradouros mistérios marítimos da história.

O galeão de 62 canhões e três mastros afundou em 8 de junho de 1708, com 600 pessoas a bordo, além de um tesouro de ouro, prata e esmeraldas durante uma batalha com navios britânicos na Guerra de Sucessão Espanhola. O tesouro pode valer até US$ 17 bilhões pelos padrões modernos.

Cerâmicas e outros objetos que estavam a bordo do San José fotografados no fundo do Mar do Caribe (Foto: Associated Press)

O Woods Hole foi convidado a participar da busca por sua reconhecida especialização em exploração em águas profundas.

O veículo desceu até 9 metros acima dos destroços do San José para tirar várias fotografias, flagrando, entre outras coisas, as gravuras de golfinhos nos canhões do San José, peça-chave de evidência visual para confirmar que se tratava do galeão.

"Os destroços estavam parcialmente cobertos de sedimentos, mas com as imagens das câmeras das missões de menor altitude, pudemos ver novos detalhes nos destroços e a resolução foi boa o suficiente para distinguir a escultura decorativa dos canhões", disse o líder da expedição, Mike Purcell.

O tesouro do galeão tem sido objeto de batalhas judiciais entre várias nações e também empresas privadas. Há algumas semanas, a Unesco, agência cultural das Nações Unidas, pediu à Colômbia que não explorasse comercialmente o naufrágio, cuja localização exata continua sendo um segredo de Estado.

Arte de AMARILDO

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quarta-feira, 23 de maio de 2018

FESTA DE NEOLIBERAL, nas folhas


Arte de ENIO
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se queixa de quem o chama de “neoliberal”, mas seu amigo Ulysses Guimarães também não pensava grande coisa dele. 
Certa vez, o falecido líder peemedebista preferiu um chatíssimo jantar com o senador Franco Montoro, em Brasília, a celebrar na casa do então senador FH uma importante vitória na Justiça Eleitoral. No dia seguinte, o deputado Freitas Nobre (SP) lamentou sua ausência:

- Dava tempo de você ir. Lá no Fernando acabou às 4h da manhã...

- É, é isso mesmo, Freitas – respondeu – a esquerda festiva sempre foi muito mais agradável.

A regulamentação da educação e do mercado de trabalho de nível superior no Brasil, por Simon Schwartzman

Comentário analfabeto---o parcelamento de veículos e de eletrodomésticos gerou o parcelamento de diplomas, em todos os segmentos educacionais. Principalmente o dito "SUPERIOR". A professorada chancela as praticas mais comercialísticas ......em nome de sua própria sobrevivência profissional e financeira. O Otário sai com um diploma cuja utilidade é praticamente nula--indispensável para CONCURSOS PÚBLICOS!!!!
Investir é preciso....aprender....nem tanto! Espertos unidos jamais serão vencidos!! 
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E o Dines morreu, né?!. Pena.Morreremos todos, mas alguns farão mais falta que outros......
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Por solicitação do IPEA, para o projeto “Desafios da Nação”, preparei um artigo sobre as Perspectivas da Educação Superior no Brasil, que acaba de ser publicado. Dentre os diversos assuntos tratados, destaco abaixo a questão do sistema de regulamentação da educação superior e do mercado de trabalho, e seus efeitos perversos.

O Brasil apresenta um paradoxo, que é a existência de um sistema extremamente complexo e caro de regulação da educação superior e, ao mesmo tempo, o quase total laissez faire que impera na prática. A regulação dos cursos de graduação se dá por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) que é administrado pelo Inep. O sistema é formado por uma série de indicadores, incluindo o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade); as avaliações feitas pelos estudantes; as características dos cursos, como número de professores doutores e em tempo integral; e outros, que são combinados para constituir o “conceito preliminar do curso”, em uma escala de cinco pontos. Para a autorização e o credenciamento dos cursos das instituições federais e privadas, feita pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) o Inep mantém ainda um sistema de avaliações in loco, que envolve centenas de consultores que viajam pelo país munidos de formulários detalhados que precisam ser preenchidos; e cabe aos estados e municípios avaliar as instituições públicas de suas alçadas.

Além desse sistema, o Brasil possui um grande número de profissões legalmente regulamentadas e conselhos profissionais que zelam pelo mercado de trabalho de seus filiados e, em alguns casos, como na medicina e no direito, participam diretamente dos processos de autorização e credenciamento de cursos em suas áreas, inclusive de universidades que são constitucionalmente autônomas.

O resultado de todo esse sistema, que consome recursos consideráveis tanto do governo quanto das instituições e estudantes avaliados, deveria ser a garantia de um padrão elevado de qualidade, mas não há nenhuma evidência de que isso de fato ocorra. Uma das razões é que os sistemas de avaliação, incluindo o Enade, não trabalham com padrões ou referências explícitas de qualidade, e se limitam a distribuir todos os seus indicadores em curvas de Gauss que só conseguem dizer quais cursos estão melhores ou piores dentro de seu grupo, mas não se eles têm qualidade aceitável ou não. Além disso, não existem mecanismos que induzam as instituições mal avaliadas a melhorar seu desempenho. Em alguns casos extremos, o Ministério da Educação pode interferir e até impedir o funcionamento de instituições privadas, mas não tem esse poder em relação a universidades públicas criadas por lei. Nessas avaliações, instituições públicas que contam com mais recursos e recrutam alunos de níveis socioeconômicos mais elevados geralmente se saem melhor, e por isso escapam sempre das eventuais sanções.

Além de não produzir os resultados esperados em termos de melhoria de qualidade, o atual sistema de avaliação tem dois efeitos perversos. O primeiro é que, sobretudo por meio do Enade, impõe a todas as instituições um modelo único, dificultando a diversificação de propostas pedagógicas e formativas; e o segundo é que estimula vários comportamentos oportunistas de “gaming”, em que instituições privadas, em busca de conceitos mais altos que possam utilizar em seu marketing, procuram, por exemplo, selecionar os estudantes para fazer o Enade, ou criam cursos de mestrado e contratam professores com doutorado somente para ganhar mais pontos nas avaliações.

A situação da regulamentação do mercado de trabalho, raramente discutida, é também preocupante, e precisa ser alterada. As dezenas de profissões regulamentadas por lei no Brasil são uma anomalia cuja função quase exclusiva é cuidar da reserva de mercado de seus filiados. O normal seria que este controle só existisse para profissões que colocam em risco a vida ou o patrimônio das pessoas, como são os casos típicos da medicina, da engenharia e do direito. Associações profissionais desempenham função importante quando zelam pela qualidade dos graduados, através de sistemas de certificação, e quando exercem um papel efetivo de zelar pela ética profissional de seus filiados. Mas elas se tornam disfuncionais quando operam para fechar o mercado de trabalho, cerceando a atividade profissional em áreas que não deveriam ser regulamentadas, e interferindo na criação e expansão de cursos para reduzir a competição.

Arte de CLAUDIO

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terça-feira, 22 de maio de 2018

“O futuro não ia ser assim”: Pobreza extrema volta a crescer no Brasil, por TOM C. AVENDAÑO

Mais de um milhão e meio de brasileiros despencam para nível social mais baixo em 2017, o segundo ano consecutivo que o número de pobres aumenta
Maria Siilva Nunes, no refeitório de uma escola de Heliópolis TOM C. AVENDAÑO

Em 14 de maio de 2017, Maria Silva Nunes, sexagenária, negra e com uma expressão de cansaço permanente no rosto, passou da classe social mais baixa do Brasil para a pobreza extrema. Era o Dia das Mães e sua família, com a qual levava uma vida precária em Heliópolis, a favela mais populosa de São Paulo, ia se reunir para comemorar. Ali estavam suas três filhas: a doente que ainda mora com ela, a que teve o primeiro de três filhos aos 16 anos e até a que está na prisão, beneficiada pelo indulto do Dia das Mães. O dia começou bem e terminou no extremo oposto. “Fabiana, a do meio, parecia que estava dormindo na cadeira, cansada de tanta criança e tanta festa, mas não estava dormindo, estava morta”, lembra Maria Silva, retorcendo os punhos encostados na mesa do refeitório de uma escola. Não revela a causa da morte: aperta os lábios como se reprimisse um gesto, aguardando a próxima pergunta. “Ela estava morta, o queixo estava no peito. Morta.”

Tudo o que aconteceu depois, que arruinou a frágil existência de Maria Silva Nunes aos 63 anos, aconteceu de forma precipitada, uma reação atrás da outra. O marido da falecida e pai de seus três filhos pegou um deles e desapareceu. “Ele é catador, o que vai fazer?” Maria Silva herdou a responsabilidade de cuidar dos outros dois, de 16 e 12 anos, em uma idade em que outras mulheres estão se aposentando. Com Fabiana se foi também o dinheiro que ela lhe dava todo mês. Nem conseguiu manter o Bolsa Família: “Isso é para pais e filhos, não te dão se você é avó”, intui. Em casa também está a outra filha em liberdade, que não tem trabalho e seu filho. Há meses em que entram apenas 60 reais e nada mais: são os meses em que, se a cesta básica acaba, Maria Silva sai em busca de comida no lixo. Mais dia menos dia, supõe, vão cortar a luz. “Devo 583 reais em contas e ainda não sei como vou repor o pacote de arroz que está acabando.” E, depois, teme que sua família ficará sem casa. Naquele Dia das Mães, Maria Silva perdeu uma filha e tudo que a impedia de afundar ainda mais. “Tudo ficou difícil. E continua difícil”, suspira. “Não tenho ninguém. Aqui é só eu e Deus.”

Maria Silva Nunes tropeçou em uma das frestas mais nocivas do Brasil recente: o aumento de 11% na pobreza extrema desde o final de 2016, um buraco negro pelo qual passaram, como ela, um milhão e meio de habitantes. Em um país em que o Governo celebra a recuperação econômica após anos de recessão, havia, no início de 2017, 13,34 milhões de pessoas vivendo em pobreza extrema; no final do mesmo ano, já eram 14,83 milhões, o 7,2% da população, segundo relatório da LCA Consultores divulgado pelo IBGE. Apesar de não serem números astronômicos, esse é o segundo ano consecutivo em que a tendência se mantém após o progresso espetacular do país entre 2001 e 2012, quando se erradicou 75% da pobreza extrema no Brasil, de acordo com cálculos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Brasil perde Alberto Dines, o olhar da resistência no jornalismo--nas folhas

Fundador do 'Observatório da Imprensa', Dines foi colunista do EL PAÍS Brasil por 2 anos.
Jornalista faleceu aos 86 anos de pneumonia na manhã desta terça.

O jornalista Alberto Dines. OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA / FACEBOOK

Morreu na manhã desta terça-feira, 22, o jornalista e escritor Alberto Dines. Ele tinha 86 anos e estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, devido a uma pneumonia. Dines foi o fundador do Observatório da Imprensa, veículo que desde 1994 analisava a atuação dos meios de comunicação brasileiros, e passou pelos principais jornais do país. O escritor também foi um dos primeiros colunistas da edição brasileira do jornal EL PAÍS, publicando seus textos críticos ao longo de dois anos neste jornal.

Alberto Dines nasceu no Rio de Janeiro, em 1932. Iniciou sua carreira em 1952, na extinta revista A Cena Muda,passando em seguida para a revista Visão, cobrindo cultura. Já como repórter de política, passou pela extinta revista Manchete e pelos jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Jornal do Brasil, onde tornaria-se editor-chefe em 1962. 

Foi sob a batuta de Dines, que o Jornal Brasil publicou duas das suas capas mais históricas. No dia 14 de dezembro de 1968, um dia após a promulgação do AI-5, o decreto mais severo de todos os Atos Institucionais da ditadura militar, a capa do jornal levava um quadro pequeno, no canto esquerdo superior com a seguinte frase: "Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx: 38º, em Brasília. Mín: 5º, nas Laranjeiras". A previsão do tempo, obra de Dines como chefe do jornal, foi um ato ousado em meio à forte censura da época.

Em setembro 1973, novamente Dines dribla a censura com maestria. O regime militar brasileiro proibira que os jornais daqui publicassem qualquer manchete sobre a morte do então presidente chileno Salvador Allende, que culminou com o golpe militar no Chile. O Jornal do Brasil então foi às bancas sem manchete. A capa levava apenas um texto, sem título, tomando a primeira página toda e noticiando a morte de Allende. A desobediência de Dines entrou para a história do jornalismo brasileiro, mas lhe custou uma demissão, três meses depois, por "indisciplina", como ele mesmo contou, anos depois.

Mais tarde, em 1975, dirigiu a Folha de S. Paulo, jornal que deixou cinco anos mais tarde, para colaborar para o icônico O Pasquim. Após uma temporada em Lisboa, onde lançou o periódico Observatório da Imprensa em 1994 para acompanhar o trabalho da mídia brasileira, Dines retorna ao Brasil e lança a versão digital do Observatório, site que ele dirigiu até o final da vida.

Foi na página do Facebook do Observatório que a notícia sobre a morte de Dines foi registrada: "É com profunda tristeza que a equipe do Observatório da Imprensa comunica o falecimento de seu fundador, Alberto Dines (1932-2018) na manhã de hoje no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Estamos preparando uma edição especial sobre o legado do Mestre Dines a ser publicada em breve".

Como escritor, Dines lançou mais de 15 livros, dentre eles Vínculos de Fogo, ganhador do Jabuti de Estudos Literários em 1993. Sua influência e importância fez com que a notícia de sua morte levasse seu nome à primeira posição dos assuntos mais comentados no Twitter no Brasil na manhã desta terça. 

Aos que continuam na luta; por Olívio Dutra (*)



A mobilização e a luta democrática nas ruas, nas praças, no campo e nos parlamentos deve continuar. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Desculpem-me os Senhores Desembargadores do TRF da 4ª Região que condenaram o ex-presidente Lula com argumentos que não me convenceram da culpabilidade do “acusado” e apequenaram sua nobre tarefa acoplando-a à concepção de uma parcela da sociedade brasileira que sempre o desprezou e o estigmatizou por ser um retirante nordestino, sem título de doutor, que chegou à Presidência da República.

Dirão que sou suspeito por emitir essa opinião pois sou do PT e amigo dele. Orgulho-me de ser do PT e continuar nele, um partido do socialismo democrático que não nasceu dos gabinetes executivos ou legislativos, nem de cima para baixo e que deve se corrigir e se aperfeiçoar; também, prezo a amizade que tenho com o Lula desde antes da fundação do PT porque nunca o vi bajulando os poderosos ou participando de falcatruas e, também, me orgulho que essa minha opinião seja compartilhada por milhões de pessoas, não só do PT ou de partido algum, entre elas juristas e calejados estudiosos do Direito no Brasil e em diversos países do globo.

Por isso digo, serena e firmemente, que devemos continuar a pensar o Brasil na perspectiva de o povo ser sujeito e não objeto da Política para que esta seja transformadora e o Estado brasileiro, sob controle público e não privado, passe a funcionar bem e melhor não para alguns mas para a maioria da população.

Para que esse sonho seja concretizado é necessário ampliar e não diminuir o protagonismo do povo; é preciso resgatar a democracia golpeada em agosto de 2016, qualificá-la de tal forma que não mais possa ser golpeada novamente.

A mobilização e a luta democrática nas ruas, nas praças, no campo e nos parlamentos deve continuar até que desague na convocação de uma ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE, LIVRE, SOBERANA E EXCLUSIVA que organize em padrões civilizados e com radicalidade democrática a Sociedade e o Estado brasileiros.

BOA LUTA!
(*) Ex-governador do Rio Grande do Sul.

Arte de CLAUDIO

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terça-feira, 15 de maio de 2018

Crescimento de Lagos (Nigéria) ameaça "bairro brasileiro" criado por escravos libertos, nas fôlhas


"Esta é minha terra, este é o meu povo, já posso morrer em paz". A frase, proferida por um eufórico advogado baiano ao por os pés no aeroporto de Lagos, embutia uma triste profecia. Menos de 12 horas após realizar o sonho de conhecer a terra de seus ancestrais, Claudionor Ramiro Peixoto, 65, morreria dormindo no hotel.
O falecimento do advogado e militante do movimento negro, que nem chegou a participar do encontro mundial de sua igreja evangélica, a Cristo para Todas as Nações, é o único incidente de que se recorda o cônsul-geral-adjunto do Brasil na Nigéria, Cesário de Alexandria.
Testemunha de outras provas da forte ligação entre o país africano e o Brasil, foi por meio de um nigeriano que se considera baiano, chief Paul Lola Bambose Martins, 80, descendente de escravos, que o conselheiro do Itamaraty conheceu mais profundamente a história do Brazilian Quarter, o conjunto de ruas que abriga casarões de arquitetura tipicamente brasileira, no centro comercial de Lagos.
Hoje em grande parte abandonados ou transformados em casas compartilhadas por várias famílias, eram originalmente residências de nigerianos alforriados que voltaram do Brasil, muitos antes mesmo da abolição da escravidão, em 1888. Treinados em ofícios e experientes no lidar com a corte portuguesa, enriqueceram ao se tornarem empresários em uma Nigéria ainda tribal.
Os Rocha, por exemplo, encontraram uma fonte em seu terreno e se tornaram prósperos distribuidores de água potável. A "Casa da Água" ainda resiste. Mas a mais imponente do quarteirão é a que pertence à família do escravo retornado João Fernandes, tombada.
A Embaixada do Brasil, após visita de um técnico do Iphan que comprovou em laudo o valor histórico e arquitetônico do imóvel, sugeriu ao governo brasileiro sua transformação em um Centro Cultural. Mas a obra foi orçada em US$ 600 mil, valor considerado acima das possibilidades pelo Itamaraty.
"É uma lástima", afirma Alexandria, "pois a área está sendo totalmente reformada e muitos prédios já estão sendo demolidos". "A história da presença brasileira pode desaparecer."
Lanre Dosunmu, administradora de empresas formada pela Universidade de Brasília, de família de escravos brasileiros retornados, nasceu no quarteirão e é pessimista. "Dói ver como o crescimento brutal de Lagos destruiu um bairro familiar e tranqüilo em menos de três décadas", diz.

Arte de TACHO

domingo, 13 de maio de 2018

O legado de negros muçulmanos que se rebelaram na Bahia antes do fim da escravidão, por André Bernardo


Direito de imagemANTONIO FERRIGNO (C.1900)Pintura 'Negra Quitandeira', de Antonio Ferrigno; indumentária malê teria dado origem ao turbante branco usado no candomblé e na umbanda

Salvador, 25 de janeiro de 1835. Foi num sobrado de dois andares, na Ladeira da Praça, que teve início o maior e mais importante levante urbano de africanos escravizados já registrado no Brasil. Era por volta de 1h da madrugada quando um grupo de 50 africanos, das mais diferentes etnias, ocupou as ruas da capital baiana. O levante entrou para a história como a Revolta dos Malês.

É um episódio que evidencia a importância política que os africanos de religião muçulmana tiveram na história do Brasil - com um legado pouco conhecido que perdura até hoje.

"Na Bahia de 1835, os negros que pertenciam a um dos grupos étnicos mais islamizados da África Ocidental eram conhecidos como malês", explica o historiador João José Reis, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). "O termo malê deriva de imale, que significa muçulmano, na língua iorubá", decifra o autor do livro Rebelião Escrava no Brasil - A História do Levante dos Malês em 1835.

Do velho sobrado, os rebeldes partiram em várias direções. Um grupo avançou para a Praça do Palácio, onde ficava a cadeia da cidade. Lá, os revoltososos planejavam tomar as armas dos guardas e libertar Pacífico Licutan, o Bilal, líder malê que estava preso para pagar as dívidas de seu senhor. Os demais rebeldes enveredaram por ruas, becos e vielas, batendo nas portas e janelas das casas e convocando pessoas escravizadas e também libertos a se unirem a eles em combate. Cerca de 600 revoltosos, muçulmanos e não muçulmanos, responderam ao chamado e participaram do levante.

O plano de libertar Pacífico Licutan, porém, fracassou. Munidos de lanças, espadas e porretes, os amotinados se viram obrigados a recuar diante de policiais armados com pistolas e baionetas. Desnorteados, fugiram da cidade e pediram ajuda aos escravos do Recôncavo, o coração do escravismo baiano.Direito de imagemINSTITUTO HISTÓRICO GEOGRÁFICO BRASILEIROLivrinho malê: várias palavras do nosso vocabulário remetem a essa etnia

Não apenas ficaram sem o apoio como foram encurralados em Água de Meninos, local do Quartel da Cavalaria. Foi ali que se deu a batalha final. Antes do nascer do sol, 73 rebeldes já tinham tombado mortos e mais de 500 presos, explica a antropóloga Lídice Meyer Pinto Ribeiro, da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), autora do artigo Negros Islâmicos no Brasil Escravocrata.

Até os africanos que não participaram do levante de 1835 sofreram perseguição policial.

Um decreto assinado pelo chefe da Polícia, Gonçalves Martins, autorizava qualquer cidadão a dar voz de prisão a escravos, muçulmanos ou não, que estivessem reunidos em número de quatro ou mais. Reunir gente em casa, por exemplo, passou a ser terminantemente proibido.

Outra medida obrigava os senhores a "converter" seus escravos ao catolicismo. Se não o fizessem em seis meses, seriam multados. Por medo de retaliações, os muçulmanos passaram a renegar sua religião. Mais do que isso: quando não era praticada às escondidas, a religião sofria aculturação com práticas católicas. Tudo isso explica a ausência de descendentes de escravos seguidores do islã.
Muçulmanos: inimigos na África, aliados no Brasil

"A vitória vem de Alá!", dizia o fragmento em árabe encontrado dentro de um amuleto malê confiscado pela polícia. No entanto, a tão esperada vitória não chegou. Os corpos dos 73 rebeldes mortos foram jogados em valas comuns de um cemitério local. Os mais de 500 presos foram interrogados, julgados e punidos.

As penas variavam de açoites para os escravos a deportação para os libertos. Quatro deles receberam a pena máxima: enforcamento. As autoridades mandaram construir forcas novas no Campo da Pólvora, em Salvador. Mas se esqueceram de contratar um carrasco para fazer o serviço. Na falta de um, os condenados foram mesmo fuzilados, em praça pública, por um pelotão improvisado.

JEAN-BAPTISTE DEBRET (1816-1830)-Negro Muçulmano quadro Sec.19

Ao longo da primeira metade do século 19, muitos dos africanos muçulmanos traficados para a Bahia - em sua maioria haussás, etnia que prevalece na região hoje equivalente ao norte da Nigéria - eram soldados capturados durante uma jihad, ou "guerra santa" em árabe.
"Eles se diferenciavam dos demais por serem alfabetizados em árabe e por terem conhecimentos de matemática", explica Ribeiro.

Na África Ocidental, diversos reinos viviam em guerra no Califado de Sokoto, um Estado muçulmano fundado em 1809 pelo califa Usman dan Fodio e que ocupou um vasto território no norte da atual Nigéria. Inimigos em sua terra natal, os "prisioneiros de guerra" viraram aliados em solo baiano.

"Como eles pertenciam a diferentes etnias, o islã proporcionou a esses muçulmanos um sentimento de fraternidade. Tornou-se, portanto, um elemento civilizatório que transformou heterogeneidade étnica em homogeneidade religiosa", explica o antropólogo Juarez Caesar Malta Sobreira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Corão
A religião islâmica foi determinante até na escolha do dia 25 de janeiro para o início do levante. Para os católicos, a data é dedicada a Nossa Senhora da Guia e faz parte da festa do Senhor do Bonfim, uma das mais tradicionais da Bahia. Mas, para os muçulmanos, naquele ano, era dia de comemorar o Laylat al-Qadr, uma das festas islâmicas que precedem o fim do Ramadã, o mês sagrado para os muçulmanos.
Para se proteger do inimigo, os guerreiros islâmicos confeccionaram amuletos com trechos do Corão escritos em árabe, como "Ajude-nos contra aqueles que rejeitam a fé!" e "Resgatai-nos desta cidade cujo povo é opressor!", em pedacinhos de papel guardados em bolsas de couro costuradas à mão. Cada talismã, acreditavam, "protegia" de uma arma: os laya contra flechas e os maganin karfe contra facas.

SURA NOITE DE GLORIA"A vitória vem de Alá!", dizia o fragmento em árabe 
encontrado dentro de um amuleto malê confiscado pela polícia

Na Salvador de 1835, a Revolta dos Malês foi protagonizada por pessoas escravizadas que viviam em áreas urbanas, que não cortavam cana em engenhos, nem passavam a noite em senzalas. Muito pelo contrário. Desfrutavam de relativa liberdade, podiam até trabalhar fora e recebiam uma pequena quantia pelos seus serviços. Os "negros de ganho", como eram conhecidos, exerciam os mais variados ofícios: de barbeiro a artesão, de alfaiate a vendedor.

Com o que ganhavam, pagavam uma "cota" diária ao senhor. Com o que sobrava, arcavam com as despesas de comida, moradia e vestuário. "Alguns economizavam para comprar sua carta de alforria. Outros, depois de libertos, chegaram a acumular patrimônio maior que certos brancos", explica Ribeiro.

Para manter viva a crença no profeta Maomé, os malês se reuniam em lugares afastados e a portas fechadas para fazer orações, ler passagens do Corão e celebrar festas do calendário muçulmano. "Assim como o candomblé, o islã não era totalmente livre para ser praticado. Senhores de escravos e chefes de polícia tanto toleravam quanto reprimiam", observa Reis.

O artigo 276 do Código Penal de 1830, aliás, proibia "o culto de outra religião que não seja a do Estado". Mesmo assim, os alufás, nome dado aos dirigentes religiosos e que, em iorubá, significa sacerdote de Ifá, transmitiam seu conhecimento aos mais jovens. "Os adeptos do islã dedicavam as sextas-feiras, dia sagrado para os muçulmanos, à prece e à meditação. Nesse dia, usavam roupas brancas, costume islâmico que se generalizou na Bahia", observa Sobreira.

Legado malê: da religiosidade ao vocabulário e à culinária
No dia do levante de 1835, os malês saíram às ruas vestidos de abadá, (na Argélia denomina-se DJELABA, abadá pode ser corruptela fonética deste nome, usual e atual) espécie de camisolão folgado na cor branca. Nos autos de devassa, as autoridades policiais se referiam à bata islâmica como "vestimenta de guerra". Mas a indumentária malê não estaria completa sem o filá, espécie de gorro que teria dado origem ao turbante branco usado no candomblé e na umbanda.

A influência do povo malê na cultura popular brasileira, porém, vai além do turbante e do abadá. Segundo Reis, traços do islã podem ser notados na cultura, no vocabulário e até na culinária. Difundida no interior de Sergipe e Alagoas, a dança do parafuso ou "dança da assombração", por exemplo, seria de origem malê. Segundo a tradição, na calada da noite, os africanos se disfarçavam de fantamas e faziam a dança para espantar os capitães do mato.
RUGENDAS (1822-1825)Quadro de Enterro de um negro na Bahia; "Apesar das perseguições, o islã negro continuou presente no Brasil até os dias de hoje", diz historiadora

No vocabulário, o historiador cita o exemplo de "mandinga": "Dicionarizado como feitiço, o termo vem da bolsa de mandinga, amuleto muçulmano que os africanos introduziram no Brasil". Na culinária baiana, outra tradição islâmica também cruzou o Atlântico: o arroz de haussá.

Prato favorito do escritor Jorge Amado, é feito sem sal, óleo ou tempero e cozido com bastante água. Na hora das refeições, os adeptos do islã só consumiam alimentos preparados por mãos muçulmanas, não ingeriam carne de porco e praticavam jejum no Ramadã.

No aspecto religioso, o parentesco entre muçulmanos e candomblecistas também se faz presente. Na mitologia iorubá, Obatalá é o nome dado ao deus supremo, "aquele que fecunda", abaixo apenas de Olorum, o criador do universo. No sincretismo brasileiro, ganhou o nome de Oxalá ou Orixalá, orixá associado à figura de Jesus Cristo.

O historiador José Antônio Teófilo Cairus, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), aponta outra hipótese para a origem etimológica do nome Oxalá: a expressão árabe Insha'Allah, que significa "se Deus quiser".

A antropóloga Lídice Ribeiro dá outras pistas da associação entre as duas religiões: o símbolo da meia-lua atrelado aos orixás, a substituição do colorido das vestes africanas pelo branco das roupas islâmicas e até a prática ritual de tirar os sapatos antes das reuniões. "Apesar das perseguições, o islã negro continuou presente no Brasil até os dias de hoje", diz.

Professora indígena formada na USP funda a própria aldeia para recuperar tradições, por Isabela Madeira, Leticia Gomes e Yasmin Vilar (*)

Itamirim se dedica a trazer de volta hábitos culturais perdidos por tribo tupi-guarani em Peruíbe, no litoral paulista.
Itamirim, líder cultural da aldeia Tabaçu, junto da filha e da sobrinha (Foto: Leticia Gomes)

Educadora indígena formada pela Universidade de São Paulo (USP), Miriam Lima dos Santos Oliveira, de 39 anos, se viu em uma situação incomum na aldeia Piaçaguera, onde vivia, em Peruíbe, no litoral paulista. Ela foi proibida pelo cacique, dentro da escola onde trabalhava, de dar aulas de cultura. Diante disso, resolveu fundar a própria aldeia, para recuperar os hábitos perdidos de sua etnia.

Conhecida pelo seu nome indígena, Itamirim lembra que, com a proibição, acabou se demitindo. “Falei que ali não era meu lugar, não era meu espaço, porque eu não tinha me formado para aquilo”. Inconformada, se juntou a outras pessoas com o mesmo pensamento e fundou a aldeia Tabaçu Reko Ypy, também em Peruíbe.

O caminho que Itamirim encontrou para fortalecer a cultura tupi-guarani foi por meio de regras. Ela deu prazo de dois anos para que os ocupantes da Tabaçu aprendessem a língua, ou não poderiam permanecer na aldeia.

Além de aprender o tupi-guarani original, ainda há os conceitos de coletividade e o hayhu (amor índigena), que devem ser seguidos por todos os moradores. Quem deixa de cumprir um deles deve refletir no “toco do castigo”, que fica localizado no centro da aldeia - outro costume tradicional.

“Estamos formando grandes líderes e cidadãos, capazes de se sustentar lá fora também”, ressalta a líder da Tabaçu. A mãe de Itamirim é a líder espiritual da aldeia, e junto com outros anciões, busca transmitir ritos e canções para fortalecer o lado religioso, perdido por aqueles que saem das aldeias.
Crianças indígenas tomam banho em rio de Peruíbe, SP (Foto: Leticia Gomes)

Os estudos fizeram com que Itamirim entendesse a importância da tradição. “Desde quando comecei a ver as coisas de modo mais amplo, como educadora, vi que a minha cultura está cada vez mais enfraquecida. Voltei preocupada com isso”.

Entretanto, não foi só o incentivo à propagação da cultura indígena que Itamirim encontrou em seus estudos. “Minha formação em São Paulo foi muito difícil. Sofri muita discriminação, e meu grupo também”, comenta. O preconceito, segundo ela, faz parte da vida dos índios, e muitos desistem de ter uma formação quando precisam frequentar a escola na cidade, no Ensino Médio. “As crianças não têm mais a língua indígena como língua mãe. Elas perderam isso, totalmente. E é uma luta dos educadores reverter essa história”.

Itamirim ressalta que o preconceito ocorre mesmo em ambiente acadêmico. “Lá na USP, meu grupo sofreu muito preconceito. Estávamos almoçando no bandejão, e vimos que as pessoas deixavam de almoçar, ou entrar no refeitório, porque não queriam comer perto dos índios”.

O ensino das crianças indígenas, segundo ela, também apresenta uma dualidade cultural. As crianças pequenas sentam-se em tapetes, e dentro da sala, há a presença de uma “árvore do saber”, que contém frases de grandes pensadores, entre eles o Dalai Lama.

Na estante de livros, há grandes títulos da cultura brasileira, mas poucos em tupi-guarani. A professora explica que não há publicações sobre a cultura indígena. Os ensinamentos são transmitidos quando as histórias são contadas. “Esse resgate é feito por meio da oralidade. Os mais velhos contam às crianças sobre as lendas e mitos nativos”.
Casas emergenciais, construídas na aldeia Tabaçu (Foto: Leticia Gomes)

A dinâmica na aldeia
A aldeia Tabaçu se divide em dois espaços, que mesclam o contemporâneo com o tradicional. As casas de madeira foram construídas em círculo, seguindo a disposição das ocas, mas não do modo tradicional, em razão da falta de matéria-prima.

Nas casas, há eletrodomésticos como geladeiras e televisões, mas os 39 moradores dividem um único chuveiro elétrico. Ele se destina, basicamente, às crianças pequenas, em noites muito frias. Os demais tomam banho no rio. Além disso, há celulares com acesso à internet.

A aldeia Tabaçu adota um projeto de vida no qual a cultura se divide entre conceitos tradicionais e costumes da cidade. Itamirim busca o equilíbrio, e não quer excluir totalmente a influência externa, nem deixar que o conforto urbano seja predominante, como ela considera ser o mais comum em outras aldeias.

Criada por ela e seu marido, o morubixaba (cacique), em 2012, a Tabaçu é uma das nove aldeias existentes na Terra Piaçaguera, e abriga atualmente nove famílias. Nas aldeias próximas, é comum notar a influência externa na comunidade. Um exemplo é a casa de um chefe, feita em alvenaria, com ar-condicionado e TV a cabo.

Itamirim afirma que é um desafio ensinar atividades tradicionais aos mais jovens. “O que a gente tem dificuldade é de fazer o jovem aprender a retomada da caçada, em vez de comprar carne no mercado”. Esse tipo de conhecimento é o contrário do que a líder considera como “hábitos supérfluos”.

Divisão natural
As divisões e criações de novas aldeias indígenas, como o caso da Tabaçu, ocorrem normalmente, por divergências políticas ou religiosas, explica Cristiano Vieira Gonçalves Hutter, coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) Litoral Sudeste. Ele afirma que existe uma idealização em torno da vida dentro das aldeias. “Quem é de fora quer ver uma aldeia de 1500, e os índios, como qualquer outra civilização, evoluem. Hoje tem internet, energia, carro, celular. Mas eles não deixam de ser indígenas por isso”.

Hutter comenta que a preocupação em fortalecer a cultura se faz presente na etnia tupi-guarani, que carrega uma relação maior com pessoas de fora da aldeia e sofre grande influência da cidade. Ele explica que é diferente da guarani, outra etnia presente na Baixada Santista, cuja cultura teve menor impacto externo.

A interferência da cidade tanto pode ser positiva quanto negativa, explica o coordenador. No caso da Tabaçu, Hutter diz que a influência do tempo que Itamirim passou na capital paulista está no turismo de base comunitária, determinante para o crescimento da aldeia. Lá, os visitantes podem vivenciar a tradição indígena com comidas típicas e atividades, e levam esse aprendizado para fora.

O interesse de instituições como a Funai é de proteger e promover a causa indígena, explica o coordenador. Um dos modos de se fomentar esse aspecto é por meio de parcerias com universidades, a partir de cotas. O estudo formal é recente - em torno de 20 anos - nas aldeias da Baixada Santista.

População indígena no Brasil (Foto: Infográfico produzido
por alunas do 3º semestre do curso de Jornalismo da UniSantos)
*Sob supervisão de Ivair Vieira Jr, do G1 Santos