sábado, 31 de março de 2018

O Padroeiro da Bandidagem--, por Augusto Nunes

O segundo sonho de todo meliante é ser julgado por Dias Toffoli. O primeiro, claro, é ser Lula
Aposição de foto do ministro Dias Toffoli na galeria de ex-presidentes do TSE
O ministro Dias Toffoli, no TSE em excelente companhia juridica/Divulgação)

No dia 22 de março, Dias Toffoli deixou claro que vai fazer o diabo no Supremo Tribunal Federal para impedir que Lula cumpra a pena a que foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. No dia 27, o ministro presenteou o ex-senador Demóstenes Torres, afastado do Congresso por seu desempenho na quadrilha do delinquente Carlinhos Cachoeira, com uma liminar que permitirá ao vigarista goiano disputar algum cargo nas eleições deste ano. Na mesma sessão, o padroeiro da bandidagem rejeitou uma denúncia contra o senador Romero Jucá e premiou o deputado fluminense Jorge Picciani com a prisão domiciliar. No dia seguinte, 28 de março, libertou Paulo Maluf.

O segundo sonho de todo meliante é ser julgado por Dias Toffoli. O primeiro, claro, é ser Lula.

Arte de CLAUDIO

Julgamento de habeas corpus de Lula deve se estender ao dia seguinte, por ANCELMO GOIS


Longa jornada 
O julgamento do habeas corpus de Lula, marcado para o dia 4 de abril, no STF, deve prosseguir no dia seguinte.
Comentario expectante---o longo desfiar de egos, vaidades, incluindo-se desculpas esfarrapadas com ar juridiquês e covardias possivel, assim o pede...

Arte de LUSCAR



NBlog--ÊLE foi crucificado entre dois ladroes...mas conseguiu renascer! Eram so dois....

Planalto diz em nota que 'autoridades' tentam 'criar narrativas' para retirar Temer da vida pública, nas fôlhas

Comentario tragicômico--os batoteiros, em geral, quando pegos falseando o jogo, apelam e demonstram a verdadeira face. Fracos, sem carater e ABUSADOS! ALEA JACTA EST! Pau nêles!
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Na quinta (29), Polícia Federal deflagrou a Operação Skala, que investiga se Temer beneficiou empresas do setor portuário em troca de propina. Amigos do presidente foram presos.


O presidente Michel Temer, investigado por suspeita de beneficiar empresas do setor portuário em troca de propina (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O Palácio do Planalto divulgou nota na noite desta sexta-feira (30) em que afirma que "autoridades tentam criar narrativas que gerem novas acusações" contra o presidente Michel Temer com o objetivo de retira-lo "da vida pública." (Leia a íntegra da nota ao final do texto)

A nota foi divulgada um dia após a Polícia Federal, com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), deflagrar a Operação Skala, dentro do inquérito que investiga se Temer beneficiou, com a edição de um decreto de 2017, empresas do setor portuário.

Na operação, foram presas 10 pessoas, entre elas amigos de Temer, entre eles o advogado e ex-assessor do presidente José Yunes, o ex-coronel da Polícia Militar de São Paulo João Baptista Lima Filho, e o ex-ministro da Agricultura e ex-deputado federal Wagner Rossi.

"Sem ter fatos reais a investigar, autoridades tentam criar narrativas que gerem novas acusações [contra Temer]", diz a nota do Planalto.

"O atropelo dos fatos e da verdade busca retirar o presidente da vida pública, impedi-lo de continuar a prestar relevantes serviços ao país, como ele fez ao superar a mais forte recessão econômica da história brasileira", complementa o texto.

Depoimentos visam a esclarecer aproximação entre Lima e Rodrimar

Decreto
Na nota, o Planalto também nega que o decreto de 2017 tenha beneficiado o Grupo Rodrimar, que atua no setor portuário. O dono da empresa, Antônio Celso Grecco, também foi preso na Operação Skala.

"A mais rasa leitura do decreto teria enterrado, no ano passado, o pedido de abertura de tal investigação pelo então procurador-geral da República Rodrigo Janot", diz a nota.

De acordo com o Planalto, o decreto não se aplica à Rodrimar e todas as áreas administradas pela empresa em portos públicos serão relicitadas.

Candidatura
Sem citar nomes, a nota afirma ainda que, para "destruir a reputação" de Temer, "usam metodos totalitários, com cerceamento dos direitos mais básicos para obter, forçadamente, testemunhos que possam ser usados em peças de acusação."

O documento cita ainda a delação premiada de executivos da JBS, que foi usada pela Procuradoria Geral da República (PGR) para pedir abertura de investigação do presidente, e que foram rescindidas depois que a PGR apontou que termos do acordo foram descumpridos porque os delatores omitiram informações.

"Repetem o enredo de 2017, quando ofereceram os maiores benefícios aos irmãos Batista para criar falsa acusação que envolvesse o presidente. Não conseguiram e repetem a trama, que, no passado, pareceu tragédia, agora soa a farsa."

A nota aponta ainda que as prisões na Operação Skala ocorrem após a divulgação na imprensa de informações sobre possível candidatura de Temer à reeleição.

"Bastou a simples menção a possível candidatura para que forças obscuras surgissem para tecer novas tramas sobre velhos enredos maledicentes. No Brasil do século XXI, alguns querem impedir candidatura. Busca-se impedir ao povo a livre escolha."

Veja a íntegra da nota divulgada pelo Palácio do Planalto:
Nota oficial
O decreto dos portos, sob o qual está amparada a investigação sobre supostos benefícios à empresa Rodrimar, diz literalmente em seu Artigo 47-A, § 3º:

“O disposto neste artigo não se aplica aos contratos firmados antes da vigência da Lei 8.830, de 25 de fevereiro de 1993”.

A mais rasa leitura do decreto teria enterrado, no ano passado, o pedido de abertura de tal investigação pelo então procurador-geral da República Rodrigo Janot. O fato é que a Rodrimar não se encaixa neste parágrafo, neste artigo, no todo do decreto ou na sua interpretação, por mais ampla que se queira, conforme despacho do Ministério dos Transportes: “Conclui-se que as disposições do decreto número 9048/17 não se aplicam aos contratos da empresa Rodrimar S/A”.

Tal decreto nasceu após criação de grupo de trabalho pelo Ministério dos Transportes que realizou amplo e público debate, em reuniões que ocorreram entre setembro de 2016 e maio de 2017. Todas as áreas da Rodrimar serão relicitadas.

Sem ter fatos reais a investigar, autoridades tentam criar narrativas que gerem novas acusações. Buscam inquéritos arquivados duas vezes pelo Supremo Tribunal Federal, baseados em documentos forjados e já renegados formalmente à justiça, e mais uma vez em entrevista à revista Veja deste final de semana.

Tentam mais uma vez destruir a reputação do presidente Michel Temer. Usam métodos totalitários, com cerceamento dos direitos mais básicos para obter, forçadamente, testemunhos que possam ser usados em peças de acusação. Repetem o enredo de 2017, quando ofereceram os maiores benefícios aos irmãos Batista para criar falsa acusação que envolvesse o presidente. Não conseguiram e repetem a trama, que, no passado, pareceu tragédia, agora soa a farsa.

O atropelo dos fatos e da verdade busca retirar o presidente da vida pública, impedi-lo de continuar a prestar relevantes serviços ao país, como ele fez ao superar a mais forte recessão econômica da história brasileira. Bastou a simples menção a possível candidatura para que forças obscuras surgissem para tecer novas tramas sobre velhos enredos maledicentes. No Brasil do século XXI, alguns querem impedir candidatura. Busca-se impedir ao povo a livre escolha. Reinterpreta-se a Constituição, as leis e os decretos ao sabor do momento. Vê-se crimes em atos de absoluto respeito às leis e total obediência aos princípios democráticos.

Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República --alias Gato Angora, ao servico de mais der

sexta-feira, 30 de março de 2018

Cerco policial encurrala Temer e implode suas pretensões eleitorais, por AFONSO BENITES

Comentario politicuzinho-- o fato de candidatar-se, a qualquer cargo eletivo, "autoriza" certas "imunidades". É êsse o objetivo de um presidente que NUNCA foi ELEITO de forma DIRETA--com seus proprios votos e eleitores. Sempre costeou o alambrado.......e sempre morreu na praia, salvo AGORA que decidiu, abertamente, tomar o Poder, com seus asseclas bem conhecidos e, assim,  desmacarados.
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Intenção do presidente era amarrar estratégia na semana que vem, com filiação de Meirelles e acertos da reforma ministerial. Decreto dos Portos pode originar terceira denúncia

Michel Temer em Brasília. UESLEI MARCELINO REUTERS


No momento em que os partidos brasileiros começam a definir suas estratégias eleitorais para outubro, o cerco policial-judicial ao presidente Michel Temer(MDB), pretenso candidato à reeleição, está se fechando e minando suas já frágeis pretensões eleitorais. É o que avaliam seus próprios aliados diante de uma cenário em que em vez de se preocupar com quem comporia seu eventual comitê de campanha ou em como turbinar ações para melhorar sua pífia popularidade, agora o emedebista lida com o constrangimento de ter seus homens de confiança provisoriamente atrás das grades. Trata-se de um golpe que o recoloca no centro das investigações derivadas da Operação Lava Jato e cujos próximos capítulos ainda são difíceis de prever no inquérito que corre sob sigilo nas mãos do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal.

Batizada de Operação Skala, a ação desta quinta deve causar severos danos à imagem de Temer e à sua pré-campanha eleitoral. Duas das pessoas que foram presas pela Polícia Federal pertencem ao círculo de máxima confiança do presidente e são amigos de longa data dele, o advogado José Yunes e o coronel João Batista Lima Filho. Na próxima semana Temer faria dois movimentos visando sua sucessão. O primeiro, no dia 3 de abril, filiaria o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao MDB. Meirelles seria uma alternativa para ou encabeçar uma chapa presidencial ou ser vice. Já na sexta-feira, dia 6, concluiria sua reforma ministerial com o anúncio de até 13 novos ministros. Todos os próximos passos deverão ser revistos, agora.

A expectativa no Governo era manter na Esplanada dos Ministérios a maioria dos nove partidos que indicaram ministros. Essa seria uma das principais moedas de troca na formação na eventual coligação a ser encabeçada por um emedebista - apesar das dificuldades, o partido segue tendo um considerável e crucial tempo de TV a oferecer, além de dinheiro do fundo partidário e capilaridade nacional para empurrar uma candidatura. Seja como for, a avaliação era a de que a Operação Skala deve reduzir essa quantidade de apoiadores. “Ninguém quer se ver envolvido com alguém com tanta gente suspeita em volta”, ponderou um líder de partido aliado de Temer no Congresso. Entre dois e quatro partidos que já estavam negociando apoios à outras candidaturas para a presidência devem deixar de indicar ministros, conforme dois membros governistas relataram ao EL PAÍS nesta quinta-feira.

Uma demonstração de como o presidente se torna cada vez mais tóxico em ano eleitoral não tardou a acontecer. Enquanto as prisões dos aliados de Temer dominavam o noticiário, o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, se recusou a comparecer à inauguração de um aeroporto em Vitória da qual Temer foi o principal convidado nesta quinta-feira. Para que não restassem dúvidas sobre o significado da sua ausência, Hartung divulgou uma nota: “O País amanheceu mais uma vez sobressaltado com fatos políticos preocupantes. Apoio a investigação dessas denúncias com profundidade e, como democrata que sou, também defendo o amplo direito de defesa de todos os citados. Mas ressalto que os episódios políticos sucessivos e graves dessa natureza têm prejudicado o País e a economia, trazendo prejuízos sociais com impacto direto na vida das pessoas, particularmente os mais pobres.”
Processo sob sigilo e nova denúncia?

A investigação sobre o decreto dos portos toma proporções cada vez mais perigosas para Temer e podem acabar por municiar uma nova denúncia contra o presidente. Seria a terceira e a aposta em Brasília é que o preço a pagar para barrá-la na Câmara, como fez com as duas anteriores, seria mais alto em ano eleitoral.

Apesar de não ter tido um pedido de prisão decretado (principalmente por causa de seu foro privilegiado) neste inquérito, Temer já passou por uma série de constrangimentos por causa dele. O mais recente foi a quebra de seu sigilo bancário solicitado pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e determinado pelo ministro Barroso. Apesar de ter prometido que abriria os sigilos para o Judiciário e para a imprensa, o presidente voltou atrás em sua ideia e, até agora, não entregou a documentação solicitada pelo STF.

Nesta quinta-feira, Barroso foi além e autorizou a detenção de duas figuras-chave: o coronel João Batista Lima Filho, ex-assessor de longa data de Temer e o advogado José Yunes. O primeiro assessorou Temer em diversas campanhas eleitorais e era conhecido por ser um metódico operador do presidente. O segundo foi seu assessor especial na Presidência. Ambos são acusados por delatores de serem intermediários de propinas do próprio presidente. Contra ambos pesam suspeitas de irregularidades na publicação do Decreto dos Portos, um documento assinado pelo presidente que regularizou e ampliou o prazo de cessão de áreas para uma série de empresas que atuam na área portuária pelo país. A suspeita é que Temer e seu grupo tenham recebido propina para beneficiar uma dessas empresas que funciona no Porto de Santos, a Rodrimar. O dono dessa empresa, Antônio Celso Grecco, e o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi (MDB) também foram detidos. Os mandados cumpridos nesta quinta-feira seguem sob sigilo

A suspeita do Ministério Público Federal é que o grupo tenha cometido os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa. As apurações são um desdobramento da Lava Jato e só vieram à tona após a delação da JBS, na qual o próprio Temer foi grampeado por um dos delatores.

Um dos principais defensores de Temer, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, afirmou que o presidente não se preocupa com essa investigação porque ele não teria beneficiado a Rodrimar ou qualquer outra empresa no decreto dos portos. “É como se estivessem investigando o assassinato de quem não morreu. O decreto não beneficiou a Rodrimar e estará esclarecida a absoluta inocência do presidente”, afirmou.

Agora, com a prisão de Yunes, chega a quatro o número de assessores que ascenderam com Temer ao poder após o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e registraram passagens recentes pela prisão. Antes, estiveram detidos os ex-deputados federais do MDB Henrique Eduardo Alves, ex-ministro do Turismo, Rodrigo Rocha Loures, conhecido como o homem da mala, e Geddel Vieira Lima, que tinha um bunker com mais de 51 milhões de reais não declarados. Em outro inquérito, Temer é investigado por capitanear um esquema de propinas para o seu MDB, do qual foi presidente por uma década. Neste caso, são dois dos seus escudeiros no Planalto, também protegidos pelo foro privilegiado, os implicados: Eliseu Padilha (Casa Civil) e Welington Moreira Franco (Secretaria-geral da Presidência).

A turbulência em Brasília agita ainda mais um panorama com datas decisivas na sucessão presidencial. A próxima semana também será crucial para definir o futuro de outro pré-candidato à presidência, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. No dia 4, o Supremo Tribunal Federal deve concluir o julgamento de seu habeas corpus, em que pede para não ser preso até que ele seja julgado em todas as instâncias. O ex-presidente Lula foi condenado em segunda instância a 12 anos e um mês de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

ARTE DE AROEIRA

quinta-feira, 29 de março de 2018

#DeixaElaTrabalhar: a nova investida de mulheres jornalistas contra o machismo, por MARINA ROSSI

Campanha encabeçada por repórteres esportivas joga luz sobre a questão do assédio e machismo nos estádios e fora deles

Em uma cobertura ao vivo de uma partida de futebol, a repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, foi beijada, à força, por um torcedor. O episódio ocorreu no Rio de Janeiro, no último dia 14, durante a partida entre o Vasco e Universidad do Chile, pela Libertadores. Constrangida, a repórter disse que a atitude "não foi legal", mas continuou a transmissão. Três dias antes, em Porto Alegre, um torcedor do Inter insultou e agrediu, fisicamente, a repórter Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, que cobria a partida entre Grêmio e Inter. “Sai daqui, sua puta”, disse o torcedor à jornalista.

Esses são apenas dois dos casos mais recentes de assédio e desrespeito que jornalistas mulheres, principalmente - mas não somente - da área esportiva vem sofrendo no ambiente de trabalho. Por isso, uma nova campanha tenta jogar luz sobre este problema e pedir respeito às profissionais. Sob a marca #DeixaElaTrabalhar, um grupo de cerca de 50 jornalistas mulheres de todo o país lançou nesta sexta-feira a campanha e um vídeo com alguns dos relatos sofridos. Comentários violentos e ameaças de estupro de torcedores nos estádios e nas redes sociais estão entre as agressões.

Bibiana Bolson, jornalista da ESPN W e uma das participantes da campanha, explica que o objetivo é chamar a atenção para as agressões que as profissionais sofrem não somente nos estádios. “A ideia é dar uma resposta aos assédios e às situações recentes da Bruna e da Renata, que é também um pouco a história de todas nós, que já fomos assediadas nas redações, nos estádios e sofremos violência nas redes sociais”, diz ela.

Bibiana explica que a campanha, embora tenha surgido de episódios vividos por jornalistas esportivas não se limita somente a esta editoria. “É feita por jornalistas esportivas, mas queremos dar voz para mulheres de todas as esferas”, diz. “É uma maneira de incentivar as mulheres a relatarem os abusos que sofrem, a buscarem seus espaços”, diz. O vídeo, além de ser um pedido para que as jornalistas possam trabalhar em paz, lembra também que o silêncio diante de casos de assédio é parte de um mesmo problema. "A omissão também machuca", diz uma das jornalistas.

Sabendo disso, alguns clubes começaram a se mexer. Na semana do Dia Internacional da Mulher, o Atlético-MG entrou em campo para o clássico contra o Cruzeiro com faixas chamando a atenção para a violência contra a mulher e divulgando o serviço de denúncia Ligue 180. Maria da Penha Maia Fernandes, que empresta o nome à lei que criminalizou a violência doméstica e familiar sofrida por mulheres, esteve no gramado do Independência e foi homenageada pelo clube. Nas arquibancadas naquele dia, as torcedoras posaram com cartazes para marcar um território cada vez mais reivindicado por elas: "Meu lugar é aqui".

Outros times também se mostraram mobilizados na semana da mulher. O Corinthians, por exemplo, jogou contra o Mirassol com a marca #RespeitaAsMinas estampadas no uniforme e entrou em campo junto com as atletas do time feminino. Porém, no resto do ano, esta cortesia com as mulheres nos estádios não entra na jogada.

Jornalistas contra o assédio
Não é a primeira vez que jornalistas mulheres se unem para denunciar os abusos e assédios sofridos na profissão. Em junho de 2016, depois que uma repórter do portal iG foi assediada no meio de uma entrevista coletiva pelo ex-cantor Biel, um grupo de jornalistas mulheres criou a campanha#JornalistasContraOAssédio.

Na época, Biel, que caiu no ostracismo após o episódio, chamou a repórter de 21 anos de "gostosinha" e disse que a "quebraria no meio" se eles tivessem relações sexuais. A jornalista chegou a registrar queixa na Delegacia da Mulher e o iG prometeu que daria todo o apoio à profissional. Mas ela foi dispensada menos de um mês após o caso vir à tona.

Na época, a campanha também reuniu relatos de abusos e assédios sofridos por profissionais no exercício da profissão. Hoje, a campanha se transformou em um coletivo que denuncia, sistematicamente, as diversas formas de assédio.

Arte de MYRRIA

Por trás do verdadeiro mecanismo de corrupção do Brasil, por REGIANE OLIVEIRA

Pesquisadores mapeiam as redes de relacionamento entre os escândalos de desvio de dinheiro público que assolaram o Brasil após a redemocratização

Cartografia das redes de corrupção estabelecidas no Brasil de 1987 a 2014 a partir dos escândalos divulgados na imprensa. 

Anões do Orçamento, Dossiê Cayman, Pasta Rosa, Máfia dos fiscais, compra de votos para a reeleição. À parte a CPI do Banestado, que voltou a ganhar destaque ao ser mencionada de forma caricata na série O Mecanismo, da Netflix, os muitos escândalos de corrupção que assolaram o Brasil após a redemocratização parecem estar fadados ao esquecimento. A sucessão de eventos, crimes, personagens, investigações, bem como as parcas condenações fazem com que a realidade brasileira de combate à corrupção seja difícil, para não dizer quase impossível, de acompanhar. Um projeto de pesquisa da USP, no entanto, aposta na ciência da computação para tirar esses casos do ostracismo, revelar o verdadeiro mecanismo de funcionamento das redes de corrupção no país e, no futuro, até prever como são formadas essas redes.

Na trama do Brasil real não há um personagem principal que lidera um grande esquema de desvio de dinheiro público, como por vezes ronda a imaginação popular. Mas, sim, uma rede bem engendrada de relacionamentos da qual foram mapeados 404 nomes – entre políticos, empresários, funcionários públicos, doleiros e laranjas –, de pessoas envolvidas em 65 escândalos de corrupção entre 1987 e 2014. “Essas redes criminosas operam de forma similar ao tráfico de drogas e às redes terroristas”, explica Luiz Alves, pós-doutorando no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, e um dos cinco pesquisadores do projeto.

A investigação foi feita com base em escândalos de corrupção divulgados na grande imprensa a partir de 1987. “Antes disso, não temos documentação sobre corrupção. O que não significa que não existia, mas sim, que não havia uma imprensa livre para expor os casos”, explica Alves. O resultado da pesquisa foi publicado em janeiro no artigo The dynamical structure of political corruption networks (A estrutura dinâmica das redes de corrupção política), no Journal of Complex Networks. E chamou atenção do prestigioso MIT Technology Review, que colocou o artigo na lista das publicações mais provocantes do período.
Grafo representa as redes de corrupção estabelecidas no Brasil entre 1986 e 2014. As cores distinguem diferentes sub-grupos. O tamanho dos nós representa a influência do agente dentro das redes. Os pontos R5, R6 e R3 representam os sete 'hubs' da rede.

De acordo com a pesquisa, os grupos que conduzem as ações ilícitas funcionam de forma similar a descrita pela chamada teoria das "sociedades secretas", na maioria das vezes, com poucos membros, cerca de oito integrantes por “célula”, que atuam constantemente para atrair outros “talentos” e expandir seu network. O objetivo seria maximizar o potencial de ocultamento de seus crimes. “Esses grupos operam em redes modulares, algumas bem definidas e que compartilham conexões entre si”, explica o matemático (veja imagem acima).

Fazer parte deste seleto grupo não é uma tarefa fácil. A pesquisa identificou uma evolução lenta no número de participantes, um novo membro por ano de investigação - com exceção dos períodos eleitorais. A investigação aponta que, a cada quatro anos, as redes de corrupção se transformam, com aumento significativo no número de envolvidos. E apesar de não ser possível traçar uma relação direta entre eleições e corrupção, a hipótese levantada pelos pesquisadores é que o aumento nas atividades corruptas durante as campanhas eleitorais pode ser uma das razões para essa coincidência. “Uma hipótese é que cada vez que muda o partido no poder, aumenta investigação sob o Governo anterior”, afirma Alves.

Entre 1986 e 1991, cada membro da rede tinha cerca de três conexões. A primeira transição acontece entre 1991 e 1992 e pode ser associada com o escândalo Caso Collor, que levou à renúncia do então presidente emparedado por um processo de impeachment. Nesse período o número de conexões entre os participantes era de 6 pessoas cada um deles. A segunda grande transição acontece entre 2004 e 2005, quando cinco novos escândalos vem à tona - Corrupção nos Correios, Dólares na cueca, Mensalão, República de Ribeirão e Valerioduto mineiro. A partir desse período o número de relações entre participantes fica estável, com cerca de 18 pessoas em sua rede de relacionamento. O impacto da Operação Lava Jato não foi tão grande nos dados pois o recorte da investigação termina em 2014, quando apenas 21 pessoas haviam sido expostas pelo esquema.

Essas conexões não são aleatórias. Apesar de não ser possível apontar uma hierarquia, a pesquisa sugere que apenas sete hubs são responsáveis por fazer pontes com os demais 397 participantes da rede. “Esses hubs representam sete pessoas com grande influência na rede de corrupção, mas que não necessariamente detêm o controle das atividades criminosas”, afirma Alves. Esses personagens funcionam como o elo comum entre diferentes grupos denunciados em esquemas de corrupção (ver grafo). O hub mais influente tem 86 pessoas em sua rede de relacionamento.
Quem são os mais influentes da ecossistema corrupto do Brasil?

Mas quem são esses personagens? Na trama desenhada pelos pesquisadores foi revelado apenas que se trata de um prefeito, um doleiro, dois banqueiros, um diretor de empresa e um senador. Alves preferiu não identificar o sétimo participante. Isso porque, por questões jurídicas, os pesquisadores optaram por fazer uma autocensura e retirar os nomes da pesquisa. Inicialmente, a proposta incluía a lista de nomes, ano e escândalo em que esses “personagens” foram citados. A justificativa é que ter o nome citado em um escândalo de corrupção não significa que a pessoa será indiciada ou considerada culpada pela Justiça brasileira. “Procedimentos jurídicos nos grandes casos políticos de corrupção podem levar anos, até décadas, e muitos nunca chegam a um veredito final”, escreveram os pesquisadores. Alves explica, no entanto, que os dados e metodologia de pesquisa estão à disposição de quem se interessar.

Aliás, o interesse dos pesquisadores é conseguir replicar essa metodologia. “Se tivermos acesso a dados mais completos, por meio de parcerias com instituições da Justiça, por exemplo, poderemos construir ferramentas ainda mais precisas e úteis para as investigações”, ressalta Alves. No melhor estilo do filme Minority Report – A Nova Lei, os pesquisadores apostam que é possível prever crimes a partir do mapeamento de suspeitos envolvidos nas redes de corrupção. “Testamos vários algoritmos e descobrimos que é possível prever, com 25% de precisão, as novas relações que serão estabelecidas no futuro por esses indivíduos investigados. 
A chance de acertar as previsões em uma análise aleatória dessas conexões é de apenas 1%”, afirma Alves. Esse possível sistema “pré-crime” não é capaz de prever, como no filme, que alguém vá cometer algum delito, mas sim qual a chance de alguém que sequer está sendo investigado fazer parte de algum novo esquema. “Isso poderá ajudar a agilizar as investigações”, acredita o pesquisador.

Arte de LOTTI

random image

quarta-feira, 28 de março de 2018

“A solução mais fácil era botar o Michel”. Os principais trechos do áudio de Romero Jucá, nas fôlhas

Diálogo entre Jucá e Machado faz ilações sobre STF e sugere acordo para “delimitar” a Lava Jato

Romero Jucá, ministro licenciado do Planejamento A.MACHADO REUTERS
A interceptação do diálogo entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR), agora licenciado do cargo de ministro do Planejamento, e o empresário Sergio Machado, da Transpetro, trouxe material explosivo para a narrativa da Lava Jato. Para muitos, ela deu voz aos que temiam que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff estivesse sendo arquitetado com o intuito de retardar ou atrapalhar o avanço das investigações sobre o esquema de propina da Petrobras. “Tem que ter um impeachment”, afirma Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro, num trecho da gravação divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo. “Tem que ter impeachment. É a única saída”, concorda Jucá, enquanto falam sobre os rumos da Lava Jato.

Mas, para além dessa suspeita, cujas informações ainda estão sob avaliação da Procuradoria Geral da República, a conversa entre os dois investigados menciona nomes de delatores como Marcelo Odebrecht, por exemplo, que poderia fazer sua delação, mas de maneira parcial, segundo trecho da gravação. Insinua, ainda, um suposto contato estreito com juízes do Supremo, onde o assunto seria o rumo das investigações, e reforça suspeitas sobre atos ilícitos do senador e presidente do PSDB, Aécio Neves.

O ministro do STF, Luís Roberto Barroso, disse nesta segunda que é impensável que qualquer pessoa, individualmente, tenha acesso ao Supremo. “Para pedir audiência, todos têm acesso. Recebo todos que me pedem. Mas, acesso para intervir? Eu duvido muito que isso aconteça.”

As conversas mostram, ainda, que o rumo da investigação vai além do PT, uma tese mantida inicialmente pelos petistas, que se sentiam perseguidos pelo juiz Sérgio Moro. Reiteradas vezes a presidenta Dilma, o ex-presidente Lula e outros políticos petistas reclamaram de vazamentos seletivos. As gravações mostram que os dois interlocutores estão cientes que as investigações afetam a todos. 

- Odebrecht vai fazer [delação premiada], afirma Machado.Delação seletiva de Odebrecht

- Seletiva, mas vai fazer, retruca Jucá.

Proximidade com Supremo
Em determinado momento, o agora ministro licenciado do Planejamento diz:

- Conversei ontem com uns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de... sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’.

Em outro trecho, sugere que um acordo nacional, ou pacto, para “delimitar” a Lava Jato com participação do Supremo.

- Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer]... É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional, sugere Machado.

- Com o Supremo, com tudo, afirma Jucá.

- Com tudo, aí parava tudo, anuncia Machado.

- É delimitava onde está, pronto, afirma o senador peemedebista.
Muito além do PT

Sergio Machado, em determinado momento diz que “eles”, ou seja, a força tarefa da Lava Jato, quer pegar todos os políticos.

- A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado..., diz Machado.

- Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com..., responde Jucá.

- Isso, e pegar todo mundo.

O esquema de Aécio Neves
O senador do PSDB, Aécio Neves, presidente do seu partido, também novamente é citado como alguém vulnerável para as investigações conduzidas pelo juiz Sérgio Moro.

- E o PSDB, não sei se caiu a ficha já. [Machado]

– Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador], responde Jucá.

– Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?

– Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.

[...]

– O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.

– O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB... [Machado]

– É, a gente viveu tudo.

Consequência eleitoral
– É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma... (Machado)

– Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.

O ocaso do promotor que incomodava Aécio e Perrella, por BREILLER PIRES

Após colecionar desafetos, Eduardo Nepomuceno foi afastado de investigações de corrupção e desvios envolvendo mandachuvas da política mineira

Eduardo Nepomuceno, em sua sala no Ministério Público mineiro. EUGÊNIO SÁVIO

Um ano atrás, o promotor Eduardo Nepomuceno de Souza recolhia pastas e objetos pessoais em uma despedida sem cerimônias do cargo que ocupou ao longo de 14 anos no Ministério Público de Minas Gerais. 
Acusado de retardar o andamento de processos, ele foi banido da promotoria de Defesa do Patrimônio Público do MP estadual mineiro e deslocado para a área criminal. Agora, em vez de fiscalizar as contas do Estado e apurar suspeitas de corrupção, lida com processos de homicídio no Tribunal do Júri. “Meu trabalho na promotoria [do Patrimônio Público] incomodava muita gente”, diz Nepomuceno, lotado em uma sala acanhada na sede do MP em Belo Horizonte.

Parte do incômodo a que ele se refere veio à tona em maio de 2014, quando o senador Zezé Perrella (MDB) subiu à tribuna do Senado para demonstrar revolta contra o que chamou de “perseguição implacável” do promotor. Uma semana antes, o parlamentar havia ido pessoalmente à corregedoria do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para se queixar de Nepomuceno. De 2003 a 2014, o promotor abriu seis processos e instaurou cinco inquéritos contra o senador, a maioria deles para investigar contratos entre empreendimentos da família Perrella e o Governo mineiro, sobretudo durante a gestão de Aécio Neves (PSDB).

A bronca de Perrella, entretanto, era anterior ao pronunciamento indignado em 2014. Ele já havia protocolado representações na corregedoria do Ministério Público Estadual, que, a partir de 2012, começou a monitorar o trabalho de Nepomuceno. Uma inspeção interna de quase três anos e meio encontrou irregularidades, já que alguns processos tocados pelo promotor, especialmente os que implicavam Aécio e Perrella, estavam atrasados. 
O corregedor Luiz Antônio Sasdelli Prudente recomendou, então, a remoção compulsória de Eduardo Nepomuceno do Patrimônio Público, mas não teve êxito no decorrer do processo. Nenhum procurador do MP aceitou relatar o caso.

Nepomuceno seguiu normalmente em suas funções até que o CNMP resolveu assumir o processo e montou uma equipe para avaliar o promotor. Após seis meses de análises, os três procuradores integrantes da comissão concluíram que Nepomuceno “não atuou de maneira relapsa ou negligente”, tampouco vislumbraram “culpa ou dolo no desempenho de suas atribuições”. 
Apesar de o trio ter sido unânime em sugerir a absolvição, o relator do processo no CNMP, Sérgio Ricardo de Souza, contrariou a comissão ao pedir a remoção compulsória do promotor. Em março de 2017, a decisão do Conselho foi ratificada pelo MP, e Nepomuceno não só se viu oficialmente afastado da promotoria, como também proibido de atuar em qualquer tipo de fiscalização do poder público. “Estou de mãos atadas”, afirma, resignado.

Ele ainda espera o acolhimento de um recurso no Supremo Tribunal Federal (STF), mas acha improvável a hipótese de ser reconduzido à sua antiga função. Assim como Nepomuceno, a Associação Mineira do Ministério Público (AMMP) considera a punição injusta e descabida, por entender que o trabalho do promotor “sempre se pautou exclusivamente pela estrita observância das leis e da Constituição do país”. Na época do afastamento, colegas do Patrimônio Público também fizeram uma moção de apoio a Nepomuceno. 
Bancados por um grupo de magistrados, professores e empresários mineiros, outdoors com sua foto e os dizeres “Retaliação contra quem combate a corrupção é inaceitável” foram espalhados em algumas avenidas de BH. O Conselho Nacional do MP sustenta que a pena máxima imposta ao promotor não se deve a pressões políticas, mas sim ao suposto “descumprimento de deveres inerentes ao cargo”.

Do futebol à política
Nascido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, mas criado em Belo Horizonte, Eduardo Nepomuceno se formou em direito pela UFMG em 1992. Três anos mais tarde, entrou para o Ministério Público após uma incursão sem muito entusiasmo na advocacia. Logo descobriu sua vocação no funcionalismo, principalmente ao integrar a Defesa do Patrimônio Público como auxiliar, em 2001. Por divergências com superiores, durou pouco na promotoria. “Diziam que eu não era maleável porque me recusava a ‘tirar o pé’ de algumas investigações”, conta.

Em 2003, não pensou duas vezes ao trocar a pasta de Meio Ambiente pela vaga de titular no Patrimônio Público. A partir daí, tirar o pé de divididas jamais passou pela cabeça de Eduardo Nepomuceno. 
Assim que assumiu a promotoria, teve seu primeiro embate com Zezé Perrella, que havia acabado de encerrar um mandato como deputado federal pelo PFL e cedido a presidência do Cruzeiro ao irmão Alvimar. Como desdobramento da CPI da CBF/Nike, o promotor indiciou o presidente da Federação Mineira de Futebol, Elmer Guilherme, que acabou afastado do cargo por causa de desvios de aproximadamente 4 milhões de reais, e também Perrella, por suspeita de lavagem de dinheiro na venda do zagueiro Luisão.

O processo contra o dirigente celeste não foi adiante. A defesa do Cruzeiro alegou que o Ministério Público não poderia investigar clubes e federações por se tratarem de entidades privadas, argumento recorrente de cartolas e combatido por Nepomuceno.
 “O futebol é patrimônio cultural do povo. Isso gera ao clube uma necessidade de responsabilização perante a sociedade”, afirma o promotor. 
Por ser torcedor do Atlético-MG, rival do Cruzeiro, foi várias vezes acusado de clubismo em suas investigações contra o cartola cruzeirense. Porém, em sua trajetória de mais de duas décadas no MP, ele abriu quatro inquéritos em desfavor do clube do coração, incluindo processos para investigar empréstimos irregulares de ex-presidentes do Atlético, a exemplo do banqueiro Ricardo Guimarães e Alexandre Kalil (PHS), atual prefeito de BH.

Publicamente, apenas Zezé Perrella, que voltaria a comandar o Cruzeiro entre 2008 e 2011, período em que também exerceu o cargo de deputado estadual, reclamava da atuação ferrenha do promotor. O dirigente sempre deixava claro seu poder de influência sobre a alta sociedade mineira. No fim do último mandato no clube, mesmo investigado pela promotoria de Nepomuceno, cedeu os campos de treinamento do Cruzeiro para a realização de um torneio promovido pela Associação Mineira do Ministério Público, que reunia procuradores e promotores de todo o país. 
Em 2004, quando prestou depoimento no MP, esteve frente a frente com o promotor acompanhado de cinco desembargadores conselheiros do clube. “Era uma forma de intimidação”, diz Nepomuceno. “O futebol, no Brasil, movimenta muita coisa. Pessoas influentes querem fazer parte do meio, tirar foto com jogadores, interferir na vida do clube. Isso deslumbra e dá poder aos dirigentes.”

Mas, como as ações do promotor nunca se restringiram ao futebol, os choques com Perrella se tornaram mais frequentes no campo da política. De acordo com investigações do MP, as empresas de Perrella, divididas entre vários parentes do senador, fraudavam licitações para garantir uma espécie de monopólio no fornecimento de comida para presídios, hospitais e órgãos públicos do Estado. Entre os indiciamentos movidos pela promotoria contra a família Perrella, dois deles envolvem o ex-deputado estadual Gustavo Perrella, filho do senador e proprietário da Tapera Participações Empreendimentos Agropecuários, apontada pela Procuradoria-Geral da República como receptora dos 2 milhões de reais negociados por Aécio com Joesley Batista. 
Sua outra firma, a Limeira Agropecuária e Representações Ltda, foi acusada de firmar contratos sem licitação com a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), que tinha como vice-presidente Mendherson Souza Lima, cunhado de Aécio responsável por entregar o dinheiro da JBS à Tapera após os repasses de Frederico Pacheco de Medeiros, primo de Aécio.

Aécio, por sua vez, ainda foi processado por contratos fraudulentos na Cidade Administrativa, sede do governo erguida a um custo de 1,2 bilhão de reais, e a construção do aeroporto de Cláudio em terras de seu tio-avô. 
A ação acabou arquivada em 2015. No entanto, uma gravação da Polícia Federal que flagrou Frederico Pacheco insinuando que um segurança de Aécio teria as chaves do aeroporto reavivou a trama no ano passado. “Esse fato já seria suficiente para desarquivar o inquérito estadual contra o Aécio”, diz Nepomuceno. Depois de sua saída da promotoria e da divulgação dos grampos da PF, o Ministério Público não retomou as investigações. Tanto Aécio quanto Perrella afirmam ser inocentes nas ações encampadas pelo promotor. Segundo o senador peemedebista, Eduardo Nepomuceno “violou garantias constitucionais em processos” e, por isso, foi afastado do cargo.

Seja como for trata-se, na verdade, de um caso inédito de remoção compulsória no MP mineiro após a queixa de um político.
O escândalo Aécio/JBS, revelado pela Operação Lava Jato no ano passado, jogou luz sobre as investigações iniciadas há muito mais tempo por Nepomuceno no Ministério Público mineiro. Ainda em 2004, o promotor já associava os indícios de enriquecimento ilícito de Perrella a supostas vantagens recebidas na relação com o governo de Aécio. Para ele, “as denúncias da Lava Jato não foram nenhuma novidade”. Além dos contratos com o Estado, a procuradoria de Nepomuceno ainda investigou Zezé pela apreensão do helicóptero com 445 quilos de cocaína, que pertencia a Gustavo, em 2013. 
A Polícia Federal isentou os Perrella de envolvimento no tráfico de drogas, mas o MP pediu a devolução de 14.000 reais utilizados por Gustavo, que era deputado estadual, para abastecer o helicóptero com verba indenizatória.

Inimigo público
“BH é um ovo”, costumam dizer os mineiros ao encontrar conhecidos com espantosa frequência em vários cantos da cidade. A definição da capital se aplica ao Estado, onde, não raro, as relações de amizade e os laços de parentesco estão imbricados. 
Nesse cenário provinciano, Eduardo Nepomuceno, que, ao contrário de muitos colegas, não vem de uma família tradicional de juristas, foi acumulando desafetos na medida em que ganhava experiência e traquejo à frente do Patrimônio Público. Tal qual no futebol, ele não costumava discernir alvos de investigações pela orientação partidária.

Fora Aécio e Perrella, o promotor investigou o governador Fernando Pimentel (PT) por improbidade administrativa e superfaturamento de obras na época em que era prefeito de Belo Horizonte. Também foi o responsável pelo processo que levou à suspensão do mandato do vereador Wellington Magalhães (Podemos), que presidia a Câmara Municipal, por fraude de licitações, em 2016. 
Antes, dentro de suas atribuições, já havia investigado um suposto favorecimento ao advogado de Perrella, Sergio Santos Rodrigues, pelo fato de ser filho do então presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Joaquim Herculano Rodrigues. O desembargador afirma que, por condição de impedimento, jamais atuou em processos conduzidos pelo filho.

Além de Zezé Perrella, outros desafetos e investigados protocolaram representações contra Nepomuceno no MP, como os ex-dirigentes do Cruzeiro Alvimar Perrella e José Maria Fialho, uma juíza que cuidava de um processo relacionado à Fecomércio e um procurador do Ministério Público de Contas do Estado. “Minha queda foi uma soma de interesses, de vários lados. Na hora que me colocaram à beira do precipício, todo mundo quis empurrar”, afirma o promotor.

Integrantes do MP ouvidos  entendem que Nepomuceno foi tirado do cargo devido a “pressões internas e externas”. Embora a esfera de atuação do promotor seja independente do Judiciário, sua situação é comparada à do juiz federal Sergio Moro, que também foi acusado por vários réus de cometer ilegalidades em processos como o do ex-presidente Lula, mas nunca recebeu qualquer sanção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). “Basicamente, ele foi punido por investigar demais”, resume um ex-colega do Patrimônio Público.

A promotoria tinha apenas dois peritos à disposição. Faltavam recursos financeiros para fazer as chamadas “investigações de campo”, em que são produzidas filmagens e gravações. Com déficit de pessoal, o cruzamento de informações colhidas em quebras de sigilo bancário acabava sucumbindo às atribuições do dia a dia. 
No mesmo ano em que Nepomuceno foi afastado, uma inspeção do CNMP ainda constatou que muitos processos do MP mineiro contra políticos com foro privilegiado eram retidos indevidamente pelo ex-procurador-geral de Justiça, Carlos André Mariani Bittencourt. A procuradoria recebeu apenas uma advertência. No Ministério Público Estadual, todos os indiciamentos produzidos por promotores envolvendo políticos são encaminhados ao procurador-geral, nomeado de dois em dois anos pelo governador. “O andamento dos processos não depende só da promotoria”, afirma Nepomuceno.Em sua defesa no processo, Nepomuceno argumentou que as falhas apontadas pela corregedoria são comuns em todas as promotorias do Ministério Público por questões estruturais e pela complexidade de cada ação. Quando ocupava o antigo cargo, o promotor tinha de dividir seu tempo entre as investigações de políticos e a rotina diária de dezenas de processos comuns – desde professores que apresentam atestado médico falso a roubo de peças de carro –, que correspondem a cerca de 80% dos inquéritos no Patrimônio Público. “Era uma frustração permanente”, conta. “Eu não podia me dar ao luxo de ficar por conta de um ou outro processo, ao contrário da Lava Jato, que dispõe de uma força-tarefa para investigar políticos.”

Investigados pelo promotor ainda o acusaram de abuso de autoridade e de promover vazamentos seletivos de inquéritos para a imprensa. Ele afirma que, apesar das brigas que comprou, nunca teve medo de amargar o mesmo fim que o promotor Chico Lins do Rego, assassinado a tiros na capital mineira ao investigar a máfia dos combustíveis, em 2002. 
Mas sabia que a pressão de seus detratores seguiria aumentando enquanto ele não fosse tolhido no MP, sobretudo depois de conseguir encaminhar um acordo de delação premiada sobre o mensalão tucano com o publicitário Marcos Valério, no fim de 2016, e avançar em investigações em torno do pagamento de propina a Aécio Neves pela Andrade Gutierrez e Odebrecht nas obras da usina de Santo Antônio – o senador é alvo de inquérito no STF sob a mesma acusação. “Como vivemos em um país corrupto, os embates na Defesa do Patrimônio Público eram diários. Todo procurador-geral ouvia reclamações sobre mim. Passei a ser visto como um problema. E aí deram um jeito de me tirar.”

Desde sua saída, a promotoria teve quatro substitutos diferentes em apenas um ano. Para Nepomuceno, que se especializou no cargo, essa inconstância de comando prejudica o andamento dos processos, pois novos promotores perdem muito tempo até se inteirarem das minúcias de cada inquérito. Hoje recluso em funções burocráticas no Júri, ele diz ter a consciência limpa e o mesmo afinco para escrever uma nova página de sua jornada no MP. “Muitas vezes, é difícil provar o óbvio. Mas sinto orgulho de ter cumprido meu dever. Nunca precisei da ajuda de nenhum político denunciado em esquemas de corrupção para alavancar minha carreira. Eu não fiz parte de nada disso.”

Arte de SPONHOLZ

terça-feira, 27 de março de 2018

Arte de VERONEZI

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TRF-4 NEGA RECURSO DA DEFESA DE LULA E MANTÉM CONDENAÇÃO, nas folhas

SE O STF NEGAR HABEAS CORPUS DIA 4, LULA SERÁ FINALMENTE PRESO
TRF-4 MANTÉM CONDENAÇÃO DE LULA; PETISTA AINDA NÃO PODE SER PRESO ATÉ DECISÃO DO STF (FOTO: PAULO PINTO/FOTOS PÚBLICAS)

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) negou por unanimidade o recurso da defesa de Lula contra a condenação em segunda instância. Em janeiro deste ano, o Tribunal decidiu pela confirmação da condenação e aumentou a pena do petista para 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex no Guarujá, São Paulo.

Com a decisão do TRF-4 desta segunda (26), Lula já poderia ser preso. No entanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu provisoriamente na semana passada pelo impedimento da prisão do petista até a próxima quarta (4), quando o Supremo julga o pedido de habeas corpus preventivo apresentado pela defesa.

Nos embargos protocolados em fevereiro deste ano, a defesa de Lula argumenta que a decisão do TRF-4 possui 38 "omissões em relação a elementos que constam no processo", 16 "contradições com os seus próprios termos" e cinco "obscuridades". Os advogados pedem ainda que as correções alterem “o resultado do recurso de apelação julgado em 24/01, com o reconhecimento da nulidade de todo o processo ou a absolvição de Lula".

O desembargador Gebran Neto, relator do caso, leu os itens apontados pela defesa e deu parcial provimento sem alterar a sentença. O magistrado retificou os pontos que tratam do nome da OAS. Os desembargadores Victor Laus e Leandro Paulsen acompanharam na íntegra o voto do relator.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Mamãe, te amo e te odeio, por ELSA FERNÁNDEZ-SANTOS

O retrato das relações materno-filiais conquista a telona

Fotograma do filme 'Lady Bird'.


No início de Lady Bird, o filme de Greta Gerwig que saiu de mãos vazias na última cerimônia do Oscar e que o crítico do The New York Times A. O. Scott considerou simplesmente "perfeito", mãe e filha aparecem em uma cama do hotel dormindo cara a cara em posição fetal. Segundos depois, já na estrada, as duas choram juntas desconsoladas, enquanto ouvem o final de As vinhas da ira em um áudio-livro que durou mais de 20 horas. É o doce prelúdio para uma discussão que vai acabar mal com um "foda-se, mãe" pintado no gesso cor-de-rosa do braço da jovem, interpretada por Saoirse Ronan. 
Bastam esses segundos de montanha-russa emocional precisa para reconhecer o verdadeiro pano de fundo dessa história sobre o voo de uma adolescente sonhadora (esnobe, diz a mãe) que, em busca de si mesmo, colide com o espelho de sua mãe normal (insensível e cafona, pensa a filha). Ambas têm razão, ou razões, porque afinal é uma carta de amor entre duas mulheres cuja luta irremediável é a de qualquer relação materno-filial do passado, do presente e certamente do futuro.

Este ano, o cinema nos deu um número notável de mães para lembrar. A sobrevivente mãe solteira de Projeto Flórida, a justiceira de Três anúncios para um crime, a tirana de Eu, Tonya, a desnaturada de Sem amor ou, mais perto geograficamente, a mãe ausente La enfermedad del domingo ou Julita Salmerón, a fascinante mãe criança do documentário Muitos filhos, um macaco e um castelo, que se tornou um fenômeno na Espanha com meio milhão de euros (cerca de 2 milhões de reais) de bilheteria e 15 semanas seguidas como o filme mais popular na rede de cinemas que o exibem. No Oscar, Allison Janney (melhor atriz coadjuvante) levou a glória por dar vida à infernal e abusiva LaVona, mãe feroz da patinadora Tonya Harding em Eu, Tonya e Frances McDormand (melhor atriz) pela vingadora Mildred Hayes em Três anúncios de um crime.

Se o desejo que McDormand expressou ao receber seu Oscar, de uma Hollywood mais inclusiva, for atendido, as histórias contadas pelas mulheres podem se multiplicar e essa nova perspectiva —mulheres articulando na tela grande sua própria experiência com desejo, sexo, amizade ou poder poderia dar uma guinada fundamental para a construção cultural em torno da maternidade e das relações mãe-filho. É a guinada que dá Lady Bird ou a série paradigmática da HBO, Better Things. Criada pela atriz e comediante Pamela Adlon, que produz, escreve, dirige e interpreta a série (duas temporadas, até o momento), Better things gira em torno de seu relacionamento com as três filhas e a mãe. Os problemas e as contradições de Sam (seu personagem) não estão mais em conciliar vida pessoal e profissional, mas em educar sozinha as três filhas capazes de amá-la e odiá-la com igual intensidade —uma das reflexões mais lúcidas sobre o que significa ser mãe no mundo contemporâneo. Adlon inclusive vai além ao questionar também o que significa ser filha e, portanto, apresenta um personagem-chave, a mãe senil, espelho inquietante que lembra você a todo momento de sua própria encruzilhada para a velhice.

Relegadas principalmente a um nível doméstico ou a clichês mais ou menos freudianos (competidoras com as filhas, castradoras com os filhos), as mães têm sido representadas na tela grande desde o início do cinema. Se a lendária e trágica A mãe (1926), obra-prima de Vsevolod Pudovkin baseada na peça de Máximo Górki, marcou a rota da vanguarda do cinema soviético, em 1933 John Ford retratava em Peregrinação uma mãe muito mais individualista e antissocial diante de sua própria guerra: o amor do filho por outra mulher. Felizmente, a vida reservava uma nova oportunidade para a personagem interpretada por Henrietta Crosman e Ford (a quem devemos algumas das melhores mães da história do cinema) redimiu a idosa. Décadas mais tarde, foi Woody Allen que levou ao paroxismo a relação mãe-filho em seu capítulo Édipo reprimido no filme Contos de Nova York, em que a figura gigante e onipresente da autora de seus dias o assombrava como divindade massacrante no céu de Manhattan. Sem dúvida, pelo menos em termos de tamanho, a maior mãe da história do cinema.

Há filmografias inteiras (de Pedro Almodóvar a Bergman, Cassavetes, Hitchcock ou, mais recentemente, do canadense Xavier Dolan) que não seriam compreendidas sem a obstinação deles pela figura materna. 
Da sombra assustadora que aterra Norman Bates em Psicose até a dona de casa frágil e maravilhosa de Uma mulher sob influência (Cassavetes) ou ao tributo constante de Almodóvar a Francisca Caballero, sua mãe, cujas memórias e memória têm alimentado a imaginação do cineasta e muitas de suas histórias. Outras mães memoráveis estão em Alma em suplício (Michael Curtiz, 1945), Mamma Roma(Pier Paolo Pasolini, 1962), Imitação da vida (Douglas Sirk, 1959), Alice não mora mais aqui (Martin Scorsese, 1974) ou Grey Gardens (dos irmãos Maysles, 1975).

Para a britânica Laura Mulvey, crítica feminista que no último Filmadrid ofereceu a conferência Mulheres e cinema: Um olhar sobre as representações da maternidade através da imagem e da narrativa, foi a psicanálise que cimentou uma visão errônea da maternidade, subordinada em todos os momentos ao poder do homem. É por isso que para Mulvey o melodrama tem sido o gênero perfeito para retratar a mãe como vítima dessa repressão social e doméstica que a condena ao silêncio ou a um segundo plano inexplicável. Em certa ocasião, como relata Bertrand Tavernier, um repórter perguntou a John Ford sobre sua adaptação de 1940 de As vinhas da ira, em que a grande atriz Jane Darwell desempenha Ma Joad (papel que lhe rendeu os únicos Oscars do filme junto ao do próprio Ford pela direção). Ford explicou ao francês que o filme não pretendia ser um filme social, mas um estudo sobre uma família. Ao que o jornalista respondeu: "O tema da família é muito importante para você, por quê?" O sempre difícil e lacônico diretor de Rastros de ódio retrucou a obviedade com pouca paciência e uma resposta retórica cheia de irritação: "Você tem mãe, não?".

O personagem de Lady Bird tem mãe, inclusive compartilha com ela sua paixão pelo romance de Steinbeck. No início do filme, Greta Gerwig inclui uma citação do escritor Joan Didion ("Qualquer um que fale sobre hedonismo na Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento"). Frase que não revela totalmente seu significado até o chocante monólogo final de sua protagonista, a jovem Ronan, em que seu mundo californiano de cidade pequena e sua mãe finalmente se fundem no mesmo horizonte melancólico.

Arte de NANI

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PP diz a Temer que quer o presidente da Caixa na Saúde e nova indicação política para comandar o banco, por Andréia Sadi

Arte de LUSCAR
O PP comunicou ao presidente Michel Temer que quer indicar para o Ministério da Saúde o atual presidente da Caixa Econômica Federal, Gilberto Occhi. Se Occhi for deslocado, a cúpula do partido já disse ao Planalto que quer seguir no comando do banco com uma indicação política. Uma das ideias do partido é indicar um dos atuais vice-presidentes da Caixa.

O presidente ainda não se decidiu sobre as trocas ministeriais. Nesta terça-feira (27), o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, vai conversar com Temer para bater o martelo sobre o novo espaço do partido no governo. Nesta quarta-feira (28), sai do ministério da Saúde o atual titular da pasta, Ricardo Barros. Occhi disse ao blog que são “especulações”.

O argumento do PP junto ao Planalto para seguir no comando de cargos estratégicos é o de que o partido é “leal” ao governo na Câmara e pode se transformar no maior partido da base aliada - inclusive, maior do que o MDB - com as trocas partidárias. Hoje, o PP tem 47 deputados. Para a cúpula do partido, não faz “sentido” perder cargos importantes de indicações políticas - como o Ministério da Saúde e a presidência da Caixa.

Em janeiro, Temer precisou afastar vices-presidentes da Caixa após recomendações do Ministério Público Federal do Distrito Federal e do Banco Central. As recomendações têm como base suspeitas de corrupção na Caixa investigadas pelo MPF e pela Polícia Federal.

Investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal apontam irregularidades cometidas no banco, como corrupção e o favorecimento de grupos políticos e de empresas.

Tanto o MPF quanto a PF afirmaram que dirigentes indicados por partidos atuavam para atender a interesses de políticos e de empresários em operações financeiras da Caixa.

Embora sejam funcionários de carreira da Caixa, os quatro vice-presidentes afastados em janeiro foram indicados para os cargos por partidos políticos da base governista (PR, PRB, PP e PMDB).

O próprio presidente da Caixa, Gilberto Occhi, é indicado pelo PP. Em entrevista ao blog em janeiro, ele disse que não se pode “satanizar” as indicações políticas.

domingo, 25 de março de 2018

Por que Gilmar Mendes e o Supremo temem o clamor das ruas? por JUAN ARIAS

A sociedade aumenta a cada dia o divórcio entre ela e aqueles que deveriam oferecer-lhe a garantia de uma Justiça sem dois pesos e duas medidas

Gilmar Mendes, durante o julgamento do Habeas Corpus do Lula. ANTONIO CRUZ AFP

Às vezes é o povo, a sociedade, que intui melhor que os próprios legisladores o espírito que subjaz à letra fria da lei. Um exemplo: a discussão neste momento no Supremo sobre a prisão depois da condenação em segunda instância. Os magistrados legalistas, que são a favor de que todos os recursos sejam esgotados, dizem zelar pela lei da presunção de inocência. É verdade que mesmo o maior criminoso deve ter garantido o direito à defesa. Nada mais trágico para a dignidade humana do que a condenação de um inocente.

Ao mesmo tempo, o espírito da lei é pisoteado muitas vezes. E é a quebra desse espírito que as ruas advertem quando se defende para os poderosos a possibilidade de recursos infinitos a todas as instâncias para evitar a prisão. Algo que pode levar anos e acabar favorecendo aqueles que têm a possibilidade de pagar advogados que mantenham o condenado em liberdade. E os outros? Os pobres que não têm esses recursos? Para eles é impossível eternizar o processo até a prescrição da sentença. Somos realmente todos iguais perante a lei?

É mais fácil que seja a sociedade e não os legisladores quem indique essa dissonância que leva a distinguir os criminosos poderosos dos simples mortais. Estamos, portanto, diante de dois direitos conflitantes: o da presunção de inocência e o da Justiça que deve ser igual para todos. São dois conceitos igualmente importantes que devem valer para todos ou acabam prejudicando os menos favorecidos.

Dado que com aqueles que não são poderosos os escrúpulos pela presunção de inocência acabam sendo esquecidos e eles são, portanto, arrastados para a prisão sem mais, seria mais próximo da Justiça igualitária que todos, pobres e ricos, começassem a cumprir a pena ao mesmo tempo. Com presos sem nome há menos escrúpulos do que com os famosos e eles são presos tantas vezes antes mesmo de serem julgados. Quantos milhares desses presos anônimos apodrecem nas prisões nessa situação? No Brasil aparentemente eles são mais de duzentos mil.

Mesmo com prisão depois da condenação em segunda instância, os presos privilegiados continuarão levando a melhor, pois permanecerão menos tempo atrás das grades por disporem de advogados que fornecem habeas corpus, que na maioria dos casos lhes permitem cumprir a pena em liberdade. Pergunte-se a Gilmar Mendes, tão cheio de compaixão pelos presos de luxo. Os outros, aqueles sem advogados presunçosos, continuarão presos enquanto Deus quiser, abandonados à própria sorte.

Daí que, diante de dois direitos legítimos, o da presunção de inocência e o de que todos devem ser iguais perante a lei, a sociedade acabe vendo o primeiro como um biombo para evitar a prisão dos privilegiados e se sinta mais sensível ao outro direito não menos sagrado de que a lei é a mesma para todos. São as ruas que entenderam, por exemplo, que Carmen Lúcia e Barroso –mais do que Gilmar Mendes– estão mais próximos do espírito da lei do que de sua letra fria. Ou será que alguém acredita que, se, por exemplo, Lula foi preso, permanecerá na cadeia o mesmo tempo de um condenado comum e anônimo, réu pelos mesmos crimes que ele, mas sem advogados ilustres e magistrados amigos? Quando os membros do Supremo reclamam que não podem ser pressionados pelo clamor das ruas, esquecem que muitas vezes a sensibilidade e o senso comum da sociedade são os melhores interpretes do espírito da lei.

Em sua última coluna para este jornal, o escritor espanhol Juan José Millás usou uma metáfora entre a letra das palavras e seu significado, usando para isso a imagem da gaiola e do pássaro. A gaiola, com seu engradado, é apenas a palavra escrita ou o seu som; o pássaro é o significado. O perigo dos legalistas, como a maioria dos magistrados do Supremo parece ser, é confundir o envoltório das palavras da lei com a alma do que palpita dentro dela.

A sociedade –que possui um radar especial para detectar as manobras em favor dos poderosos– aumenta a cada dia o divórcio entre ela e aqueles que deveriam oferecer-lhe a garantia de uma Justiça sem dois pesos e duas medidas. É um esgarçamento da credibilidade que aumenta a cada dia entre o povo e seus representantes. Até onde pode levar essa perda de fé na autoridade e como ela pode prejudicar a já frágil democracia brasileira?

Arte de MYRRIA

Arte de Son Salvador

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sábado, 24 de março de 2018

Arte de Clayton

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José Padilha: “As eleições não colocam frente a frente partidos, e sim quadrilhas”, por GREGORIO BELINCHÓN

Diretor brasileiro disseca a corrupção no Brasil em 'O Mecanismo', nova série da Netflix


José Padilha (Rio de Janeiro, 1967) ficou com um gosto bom na boca por dirigir dois dos episódios de Narcos, a série da Netflix que colocou a cocaína digitalmente em milhões de lares. “Eles também devem ter ficado contentes, porque me chamaram quando planejaram realizar uma série no Brasil”, conta entre risadas o Urso de Ouro do festival de Berlim de 2007 com Tropa de Elite. Diretor feito para a ação, especialista em dar verossimilhança a enredos que se desenvolvem no país (seu remake de RoboCop em 2014 não funcionou), Padilha não hesitou um segundo em aceitar o desafio. “Economizei um monte de pesquisa prévia porque sabia o que queria contar: a operação Lava Jato, na qual toda a classe política estava envolvida. Eu tinha os direitos de adaptação de um livro revelador de um jornalista brasileiro sobre esse caso e o mostrei a Netflix”. Assim nasceu O Mecanismo, série de oito episódios que estreia completa na sexta-feira na plataforma digital.

Padilha usa três personagens fictícios (dois policias carismáticos e um empresário com boas conexões que se encarrega de lavar o dinheiro) para descrever uma situação real, que chegou a incriminar os diretores da Petrobras, promotores, policiais e políticos de todos os escalões. “O Brasil é muito interessante como estudo de caso, no sentido de que a corrupção não se dá na política. A corrupção é a política”, afirma o cineasta.

Sobre a semelhança da situação brasileira, com a corrupção intrinsecamente enraizada com o poder político, com a de outros países, Padilha entende que é uma situação quase global: “A democracia está sendo cerceada. As grandes corporações manipulam as eleições e colocam seus políticos. Assim, em dado momento, podem controlar os projetos de grandes investimentos públicos, inflar os orçamentos e dividir lucros com esses peões que colocaram. O resultado é que há algo errado na democracia atual. Não me entenda mal, compreendo que é o único sistema de governo possível, mas estamos atolados em problemas muito sérios. No Brasil esses problemas se exacerbaram de tal maneira... Olhe, não sei quanto a corrupção na Espanha levará do dinheiro público, mas no Brasil até 40% dos orçamentos desaparece por esse gargalo. Para o bem e para o mal, certamente isso faz com que os espectadores a entendam estejam onde estiverem”.

Por mecanismo, José Padilha se refere na série ao funcionamento desse sistema, que passa por cima de siglas políticas e questões morais: “O fato de que o mecanismo não tenha uma ideologia é fundamental. Dá na mesma que sejam de esquerda ou direita, a corrupção apodrece todos os partidos. Em meu país, a Operação Lava Jato começou antes de que Lula e o Partido dos Trabalhadores chegassem ao poder... E continuou com ele! Por isso os intelectuais de esquerda não podem dar lições de moral. Não há discussões ideológicas na trama, porque os ideais foram superados pelo dinheiro sujo”. E isso leva a uma conclusão ainda mais dolorosa: “As eleições não colocam frente a frente partidos políticos, e sim quadrilhas”.

Quais são as possibilidades de sair desse tsunami de veneno? A série O Mecanismo, desenvolvida como um thriller, deixa poucas esperanças, já que se atém à realidade. “É triste, porque estamos ilustrando o maior caso de corrupção, suspeito, da história da humanidade. Falo de milhões e milhões de reais... A polícia confiscou e recuperou 13 bilhões de reais, então quanto roubaram? É uma loucura”.

A RAPIDEZ PARA TRABALHAR NA TELEVISÃO
José Padilha já sabia como se trabalha na televisão. Até mesmo como se produz na Netflix. “A diferença com o cinema reside em que você precisa ser rápido. As filmagens são todas iguais no aspecto técnico, mas é preciso ser mais veloz para se chegar a tempo, para conseguir todos os minutos para completar os episódios”. Por outro lado, o diretor coloca uma grande vantagem: “Você pode criar histórias intrincadas, desenvolver um arco dramático que te permite contar tudo o que quiser. Posso corrigir? Isso não é televisão, é streaming, e você o assiste na tela que escolher. E pouco a pouco, ou toda a temporada de uma vez. A experiência é diferente”.

terça-feira, 20 de março de 2018

Arte de NANI

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A desesperada fuga de uma princesa de Dubai, (Londres)nas fôlhas

Filha de emir desaparece ao tentar escapar com ajuda de ex-agente secreto francês e amiga finlandesa

“Por favor, nos ajude. Há homens lá fora. Ouço tiros e estou escondida com minha amiga.” Isso foi a última coisa que a advogada britânica Radha Stirling ouviu antes que a ligação caísse. Eram 18h24 do domingo, 4 de março, pela hora local de Londres. Do outro lado da linha estava alguém que se identificou como uma das filhas do emir de Dubai, o xeque Mohamed Bin Rashid al Maktum, e disse que estava tentando escapar do seu pai e do seu país. Poucos dias depois, veio à tona um vídeo em que a mulher conta seus planos de fuga, fala do risco que corre e pede que a gravação seja divulgada caso ela pare de dar notícias.

“Olá. Meu nome é Latifa Mohamed al Maktum. Nasci em dezembro de 1985. Minha mãe é Huriah Ahmed Alimarah, da Argélia. Meu pai é o primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos e governante de Dubai”, diz em inglês, encarando a câmera, a jovem de olhar triste, cabelos pretos recolhidos em um rabo-de-cavalo e vestindo com uma modesta camiseta azul. A partir daí, a mulher se põe a contar sua história e os motivos para querer ir embora do país, mas acima de tudo se empenha em fornecer dados que possam comprovar sua identidade, pois afirma temer por sua vida.

“Pudemos confirmar sua identidade”, diz ao EL PAÍS a advogada Stirling, fundadora e diretora da ONG britânica Detained in Dubai (Detidos em Dubai), que defende pessoas apanhadas pelo sistema judiciário emiradense. Foi a ela que a princesa decidiu pedir ajuda. “Uma fonte confiável do meu colega David Haigh conhece Latifa há seis anos e a tratou como profissional da saúde. Ela está muito preocupada e ratificou que é quem aparece no vídeo. Depois recebemos outros testemunhos no mesmo sentido, incluído de um conhecido chef de cozinha, um homem que a conhece da prática do paraquedismo”, conta a advogada numa troca de e-mails.

Esse detalhe é muito importante, pois a mulher que se identifica como Latifa faz acusações muito graves contra o emir de Dubai, apontado pela revista Forbescomo o quinto monarca mais rico do mundo, com um patrimônio pessoal estimado em mais de 16 bilhões de reais. “Não sei o que ele pode me fazer. Meu pai é a pura maldade. É responsável pela morte de muita gente. Sua imagem de homem de família é um mero exercício de relações públicas”, denuncia a mulher, durante um monólogo de quase 40 minutos.

Ela conta que já tentou fugir uma vez, em 2002, quando tinha 16 anos, depois que sua irmã mais velha, Shamsa, foi confinada por ter tratado de fazer o mesmo alguns anos antes. Na época, o sequestro de sua irmã numa rua de Cambridge e sua volta forçada para Dubai foram contados na imprensa britânica. Latifa diz no vídeo que naquela ocasião foi encarcerada durante três anos, torturada e inclusive drogada quando, numa primeira saída em liberdade, teve um ataque de nervos por ter sido impedida de ver Shamsa.

As autoridades de Dubai, onde existe uma extrema sensibilidade com relação aos assuntos que envolvem a família real, não comentaram o caso. Mas, no sábado passado, um dia depois da divulgação do vídeo, o Departamento de Imprensa do emirado tuitou várias imagens glamourosas da xeque Latifa Bint Mohamed Bin Rashid al Maktum, que é a vice-presidenta do departamento de Cultura do emirado. Na terça-feira passada, a mesma princesa aparecia nos meios de comunicação locais junto a seu pai, o emir, em um evento realizado na véspera. Aparentemente, se trata de uma meio-irmã da foragida, que em seu vídeo esclarece ser “uma dos trinta filhos e filhas” que o xeque Mohamed teve com seis mulheres diferentes. Segundo ela, três das filhas se chamam Latifa e duas se chamam Maryam.

A Detained in Dubai relata ter recebido um pedido de ajuda urgente de Jean-Pierre Hervé Jaubert, ex-agente dos serviços de espionagem da França e autor do livro Escape from Dubai, que disse estar ajudando a princesa a fugir do emirado. A bordo de um iate com bandeira dos EUA, ambos e uma amiga desta, de nome Tiina, estariam a 50 milhas (90 quilômetros) da costa indiana no domingo, 4 de março, às 11h. Planejavam desembarcar e voar de Mumbai para os Estados Unidos. Mas, sete horas mais tarde, Stirling recebeu o último telefonema de Latifa, e depois não houve mais contato.

Pouco depois de publicação desta notícia, a identidade da amiga foi confirmada como Tiina Jauhiainen, uma finlandesa de 41 anos cuja família entrou em contato com o emir de Dubai pedindo que o caso seja investigado. Segundo este texto, Jauhiainen, que residia no emirado desde 2001, fez amizade com a princesa, a quem aparentemente dava aulas de capoeira.

A ONG só tornou o caso público no último dia 9, depois que a história foi noticiada pelo jornal britânico Daily Mail, com o qual a princesa também entrou em contato para difundir sua história, e ao qual enviou uma cópia da sua carteira de identidade emiradense. Em seu último comunicado, a organização afirma que fontes dos serviços secretos indianos disseram a outro de seus colaboradores, o advogado Harpreet Singh Giani (de origem indiana), que a mulher está viva e foi “devolvida a Dubai”. Não está claro se houve algum tipo de invasão do iate por parte de militares emiradenses ou indianos, nem qual é o paradeiro dos outros dois passageiros.

“Não temos mais informações sobre o navio nem seus ocupantes”, afirma Stirling, acrescentando que continua procurando informação de todas as fontes possíveis. “Também estamos pressionando os respectivos Governos e autoridades para que busquem a volta segura de Hervé Jaubert, que pode ter sido sequestrado de um navio de matrícula norte-americana em águas indianas. Isto por si só seria ilegal”, especula. “Confiamos em que a pressão internacional ajude a garantir a segurança de todos os implicados, e estamos estudando todos os recursos legais disponíveis para as pessoas desaparecidas, dado que nos instruíram para que as ajudássemos se esta situação se desse”, conclui a advogada.

Após anunciar que abriria sigilo bancário, Temer ainda não cumpriu promessa, por AFONSO BENITES

Presidente fez anúncio após ministro Barroso determinar quebra de sigilo em inquérito que apura irregularidades em decreto dos portos por suposto favorecimento de empresa

O presidente Michel Temer no dia 12, em Brasília. UESLEI MARCELINO REUTERS

Cercado pelo Judiciário e alvo de ao menos duas investigações criminais em andamento, o presidente Michel Temer (PMDB) tem reagido contra decisões que ora o afetaram diretamente ora esbarraram em antigos aliados seus. Na semana que passou, Temer consultou alguns de seus auxiliares sobre a possibilidade de fazer um pronunciamento contra decisões do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que o atingiram. 
Foram três “canetadas” que deixaram o presidente irritado e preocupado: 1) a quebra de seu sigilo bancário no inquérito que apura irregularidades no decreto dos portos; 2) uma busca da Polícia Federal no Palácio do Planalto para investigar todos os e-mails de Rodrigo Rocha Loures – seu ex-assessor que ficou conhecido como o “homem da mala” da JBS por receber 500.000 reais em propina e; 3) as suspensões que o magistrado determinou no indulto presidencial de Natal no qual eram beneficiados com a redução da pena criminosos condenados pelo crime de corrupção.

Após ouvir seus auxiliares, o presidente decidiu ficar calado. Mas não deixou a poeira baixar. Escalou dois membros de sua tropa de choque para fazerem críticas oficiais. 
Os escolhidos foram os ministros da Secretaria de Governo, Carlos Marun, e da Justiça, Torquato Jardim. Este fez queixas técnicas. Aquele, políticas. 
Jardim disse, por exemplo, que Barroso não poderia alterar o decreto presidencial porque ele estava invadindo a competência do poder Executivo. “Se o decreto fala em um quinto da pena e se mudou para um terço da pena, trata-se de legislação, não de interpretação”, afirmou o ministro da Justiça.

No fim do ano passado, o presidente afrouxou os requisitos para quem pode ser beneficiado pela redução da pena e atingiu todos os condenados por delitos sem violência ou grave ameaça. Nesse rol de delitos estão lavagem de dinheiro e corrupção, alguns dos quais ao menos uma centena de parlamentares está sendo investigada no âmbito da operação Lava Jato. E outros tantos (empresários, lobistas e políticos) já foram condenados na primeira instância. Em janeiro, a presidenta do STF, Cármen Lúcia, havia suspendido liminarmente trechos desse decreto. E, agora, Barroso ampliou essa restrição. A Advocacia-Geral da União deverá recorrer dessa decisão.

Marun cumpriu o papel que usualmente lhe cabe entre os auxiliares de Temer, o de ser mais direto e ácido. Declarou que pensa em se licenciar do cargo de ministro, retornar à Câmara dos Deputados, e apresentar um pedido de impeachment de Barroso. “Estamos diante de um sucessivo desrespeito à Constituição. Nesta última decisão, ele conseguiu desrespeitar os três poderes da República.”

O ministro da secretaria de Governo ainda afirmou que Barroso faz ativismo judicial e que tem uma atuação político-partidária na Corte. Marun insinuou que o magistrado beneficiava os aliados de Dilma Rousseff (PT), a presidenta que o indicou em 2013 para assumir uma cadeira vitalícia no Supremo. “Ele é paladino da luta contra a corrupção. Não era antes e mudou? Ele virou ou corruptos petistas são diferentes de outros?”, ironizou Marun, com um comentário que também dá margens a interpretações. Barroso não se manifestou sobre as críticas.
Movimentos de enxadrista

Os ataques ao Judiciário não se restringiram às falas oficiais. Em uma linha de defesa, os advogados de Temer buscam argumentos para derrubar a decisão de Barroso que decretou a quebra de sigilo bancário do presidente, assim como a de Edson Fachin, outro ministro do STF, que autorizou a abertura de investigação do presidente por um ato praticado antes do período de seu mandato. A suspeita nesse caso é o de que Temer teria capitaneado um esquema de propinas para o seu partido, o MDB, na eleição de 2014. Pela Constituição, enquanto está no cargo, um presidente só pode ser responsabilizado por atos cometidos durante o período em que ocupou cadeira presidencial. Eventuais delitos anteriores a esse tempo, teriam de esperar o fim do mandato para se tornarem uma denúncia criminal. A Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, e o ministro Fachin entenderam que Temer pode ser investigado já, mas ainda não poderia ser punido, caso se comprove sua participação no delito.

Na outra frente, Temer tenta usar seu antigo prestígio de advogado constitucionalista, autor de livros que já estiveram nas listas de quase todas as faculdades de Direito, para influenciar decisões judiciais. Quando Dodge pediu a abertura de sua investigação, o presidente enviou uma carta a ela e um artigo assinado por Torquato Jardim apresentando entendimentos distintos dos dela. No fim de semana, deu um passo maior. Reuniu-se com a presidente do STF na casa dela, em Brasília, sob a justificativa oficial de que tratariam o tema segurança pública. Mas não deixou de registrar seu inconformismo com a maneira como é tratado pelo Judiciário.
Os ministros Carlos Marun e Torquato Jardim. UESLEI MARCELINO REUTERS

Assim que a quebra de sigilo do presidente veio à tona, em 5 de março, Temer se apressou em dizer que não tinha nada a esconder. Emitiu uma nota oficial para informar que entregaria todos os dados à imprensa. Eis um trecho da nota: “O presidente não tem nenhuma preocupação com as informações constantes em suas contas bancárias”. Já se vão duas semanas, e nenhum dado foi apresentado nem ao Judiciário, nem aos jornalistas. A ordem, por enquanto, é aguardar o desdobramento dessa nova crise entre o presidente e o Judiciário.

Aliado denunciado
Enquanto Temer luta pela sua sobrevida política e por conseguir influenciar a eleição de seu sucessor, no Congresso Nacional um de seus principais aliados, o senador e líder do Governo, Romero Jucá (MDB-RR) passa por dificuldades semelhantes. Nesta terça-feira, a 1ª Turma do Supremo aceitou uma denúncia do Ministério Público Federal e o transformou em réu pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Jucá é o primeiro político do primeiro escalão que constava da lista de propinas paga da Odebrecht a se tornar réu. Conforme a denúncia de delatores da empresa, o senador pediu e recebeu 150.000 reais em propinas disfarçadas de doações de campanhas. Em contrapartida, ele atuaria a favor da Odebrecht na tramitação de duas medidas provisórias. Contra o líder de Temer no Senado, tramitam outras 13 investigações. Nenhuma delas tornou-se denúncia até o momento. Em nota, Jucá disse “que o processo se trata de uma doação de campanha oficial de 150.000 reais, cujas contas foram todas aprovadas pelo TSE e órgãos competentes”.