sábado, 29 de dezembro de 2018

Arte de NANI

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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

ARTE DE SIMANCA

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As razões e afetos do “populismo de esquerda”, entrevista a Sebastián Abrevaya--Trad. Antonio Martins

Chantal Mouffe sustenta: ordem neoliberal está em crise, mas velhos partidos tornaram-se impotentes. É preciso inventar nova política pós-capitalista – e o feminismo será decisivo


Depois de visitar a Argentina pela última vez em 2015, a cientista política belga Chantal Mouffe voltou esta semana ao país, para apresentar seu novo livro e participar do Fórum Mundial do Pensamento Crítico, organizado pela Clacso. Diferente de suas obras prévias, “Por um Populismo de Esquerda” não é um texto de teoria política, mas uma interpelação direta aos distintos setores da esquerda, diante do que denomina “o momento populista”, iniciado com a crise do modelo neoliberal. Professora da Universidade de Westminster (Inglaterra) e esposa do falecido Ernesto Laclau – um dos intelectuais argentinos mais destacados no mundo – Mouffe adverte sobre a possibilidade de que a saída desta “crise de hegemonia” se dê através de um populismo de direita, encarnado por políticos como Donald Trump ou a francesa Marine LePen. No entanto, e em uma reivindicação do populismo como forma de articulação política, propõe saída por meio de um populismo de esquerda, que produza a “radicalização da democracia”, baseada nos pilares da igualdade e justiça social. Em uma extensa entrevista com “Pagina12”, e embora o eixo de seu pensamento seja a Europa Ocidental, Mouffe também se refere à Argentina e ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a quem qualifica claramente como “fascista”.

A que você se refere, quando diz que este é um “momento populista”?
Vivemos uma crise da hegemonia neoliberal. Esta crise pode abrir espaço para várias saídas. Uma delas aponta para governos mais autoritários, que restringirão a democracia: é o caso, quando ganha o populismo de direita. No entanto, abre-se a possibilidade – que não é certa – de uma ampliação da democracia. Depende da atitude das forças de esquerda, as forças progressistas. Sou fortemente contrária a considerar os populismos de esquerda e de direita como duas faces da mesma moeda antidemocrática.

Você desenvolve, no livro, o conceito de “pós-democracia”, e afirma que atualmente ele gera resistências múltiplas. Que significa a ideia de pós-democracia?
A situação da pós-democracia tem dois componentes. Um mais político, que em 2005 denominei “pós-política”. Naquele momento, dizia-se que a distinção direita-esquerda estava superada e que a democracia havia se tornado mais madura. Mas, ao contrário do que diziam todos, isso não significou um progresso, e sim que os cidadãos, quando votavam, já não tinham nenhuma possibilidade de intervir. É por isso que os partidos social-democratas, quando chegaram ao poder, não geraram uma alternativa – apenas vivenciaram de um modo um pouco mais humano a globalização neoliberal. O outro componente da pós-democracia é de tipo econômico. É o fenômeno da oligarquização das sociedades europeias, que se produz mais rapidamente desde a crise de 2008. É uma situação em que há um grupo cada vez menor de super-ricos e, por outro lado, as classes populares – e também as classes médias – vivem cada vez pior. Fala-se de despossessão e de desaparição das classes médias. Poderíamos dizer que se trata de um processo de latinoamericanização da Europa Ocidental. É uma consequência do domínio do capitalismo financeiro. É o que chamo de pós-democracia em seus dois lados, o econômico e o político.

Voltemos ao básico. O que é o populismo?
Eu sigo a definição de Ernesto Laclau em A Razão Populista. Não é uma ideologia, é uma estratégia discursiva de construção política. É uma construção sobre a base da fronteira povo-oligarquia. Evidentemente vocês, na América Latina, já o tiveram antes, mas agora se vê precisamente este tipo de populismo na Europa. A grande diferença entre populismo de esquerda e de direita é como se constrói este povo. Porque o povo não é a população, não é um referente empírico, o povo é uma construção política.

Por que é preciso caminhar rumo a um populismo de esquerda?
Estou convencida de que a única maneira de lutar, de impedir o crescimento de direita, é desenvolver um populismo de esquerda. Os partidos tradicionais europeus estão tão ligados à manutenção da ordem estabelecida que não oferecem a possibilidade de canalizar uma corrente democrática, progressista, que para mim consiste em expandir a democracia – porque isso implica romper a ordem neoliberal. Não há maneira de sair da crise se não se coloca em questão o modelo neoliberal, e isso evidentemente é o que faz o populismo de esquerda. Não devemos aceitar a ideia de que, para defender a democracia contra o populismo de direita – cujas tendências autoritárias são evidentes – temos de defender também o status quo.

Como explicar o avanço do populismo de direita?

Uma das críticas que faço no livro é à ideia de que aqueles que votam pelo populismo de direita são gente intrinsecamente racista, sexista, etc. Por exemplo, no caso da França creio que há muita gente das classes populares que se sentiu abandonada pelo Partido Socialista, dedicado unicamente às classes médias. Estas pessoas não são fundamentalmente racistas, mas se constróem vendo o imigrante como o responsável por seus problemas. Creio que originalmente o que esta gente quer é ter uma voz. 
Algo de que sempre gostei, no movimento dos Indignados espanhóis, é que eles diziam: “nós temos voto mas não temos voz”. É exato: no sistema pós-politico, você tem voto, mas não tem voz. A origem destes movimentos populistas é o pedido de “que nos escutem, que nos deem dignidade, que nos reconheçam”. E consideram que os partidos tradicionais não o fazem. Por isso, estão atraídos pelos partidos de direita.

Certos setores denominam estes populismos de direita defascistas. São formas de fascismo?
Isso me parece perigoso, e sou contra dizer que são fascistas. Creio que há uma grande diferença entre o populismo de direita e os fascistas. Por exemplo, hoje – e não falo apenas no plano europeu, mas pensando na América Latina – só uma pessoa merece o título de fascista, e é Jair Bolsonaro. Seu projeto põe claramente em questão o Estado de Direito e as instituições da democracia pluralista. Mas não vejo nenhum outro, realmente, no mundo ocidental, que vá tão longe. É perigoso, porque diante do fascismo o único que se pode fazer neste caso é proteger-se estabelecer um cordão sanitário para impedi-lo. Então [ao usar esta denominação], em primeiro lugar você não vai entender o que está ocorrendo, a razão por que as pessoas estão votando nestes partidos. E não vai entender como fazer para impedir que cresçam. Me parece uma atitude totalmente contraproducente

Trump, sim, seria um populista de direita?
A campanha de Trump é definitivamente de um populismo de direita, mas o governo de Trump não pode ser – porque o populismo não é um regime. O populismo é uma estratégia para construir um povo, para conseguir força política para intervir, para mudar. No caso do populismo de esquerda, para criar uma nova hegemonia – mas realmente, para mim, não tem sentido falar de um governo populista, porque todos os governos democráticos precisam se reivindicar do povo. Na verdade, há uma dimensão, que posso chamar de populista, necessária na democracia. Você não pode ter uma democracia sem povo.

Quais são as diferenças entre este populismo de direita e o de esquerda?
Uma das diferenças é que o populismo de esquerda compreende: o que está em questão é a globalização neoliberal – e tem, portanto, uma dimensão anticapitalista. 
Digo “dimensão” porque o populismo de esquerda não é exatamente uma esquerda marxista. Dentro do populismo de direita, não há uma dimensão anticapitalista. O que há, em certos casos, é uma dimensão anti-neoliberal, contra o modelo do capitalismo financeiro. Eles defendem, por exemplo, medidas protecionistas. No caso de Marine LePen, ela quer estabelecer um capitalismo nacional. É interessante observar como durante sua campanha, e mesmo antes, muitas das coisas que propunha tinham verniz de esquerda. Mais do que o Partido Socialista – porque, por exemplo, ela defendia o Estado de Bem-Estar. Mas apenas para os franceses: isso era o específico. Como está contra a União Europeia, também enfrenta o elemento de globalização do capitalismo.

Seu novo livro debate o papel dos novos movimentos sociais– como o ambientalismo, o anti-racismo e o feminismo. Na Argentina, o feminismo adquiriu força enorme. Como se inscrevem suas demanadas nesta ideia do populismo de esquerda?
Me parece um elemento fundamental. Meu argumento é que se trata de construir um povo. O povo não é algo já dado – resultará da articulação de demandas, em uma rede de equivalências. A articulação necessária é, porém, muito mais ampla, em consequência da hegemonia neoliberal, que criou muito mais antagonismos. Há hoje muito mais demandas heterogêneas, que precisam articular-se num momento de construção de nova hegemonia.São demandas que chamamos democráticas, vindas das classes populares, das classes médias, do feminismo, do anti-racismo. Obviamente, outro aspecto que estava presente, mas ao qual é preciso dar muito mais destaque, é o Ambiente. É algo absolutamente fundamental.

Um tema não tão presente no livro, mas que é chave para a ideia do populismo, é a figura do líder…
O povo precisa ser construído em articulação com demandas heterogêneas, e isso não é fácil, porque tais demandas não convergem naturalmente. É preciso fazê-las convergir, e para isso necessita-se um princípio articulatório. Contudo, há uma discussão sobre este princípio. Muitas das críticas ao populismo referem-se à centralidade deste líder carismático. Me parece que é um questionamento totalmente falso. Liga-se com outro elemento que me parece importante: o papel dos afetos na política. Quando falamos de criar um povo, na verdade propomos criar um nós, gente que se reconhece e se identifica como uma coletividade. Isso implica um elemento afetivo, não é uma questão puramente racional. E o líder cristaliza, como se vê na Argentina com Cristina Fernández e se via antes com Perón. Mas é claro que há aspectos problemáticos nisso, pois pode haver tendências autoritárias –embora não necessariamente. Pode ser um líder inter pares, não há necessariamente uma relação autoritária entre o líder e o povo. Mas vale notar outro aspecto: não é absolutamente necessário que haja um líder. O princípio articulatório também pode ser uma das lutas, que se converte em luta-símbolo. Na realidade, o necessário é que haja um símbolo da unidade do povo.

Esta luta poderia ser, por exemplo, o feminismo?
Parece-me muito interessante analisar se em alguns lugares o movimento feminista pode ser o princípio articulador. No caso europeu, este movimento está forte na Espanha. Ocorreu no último 8de Março e foi impressionante: a greve feminista, que é de fato um movimento completamente transversal, de todas as idades e grupos. 
E o interessante é que é uma luta das mulheres, mas não se limita a demandas específicas das mulheres – é uma luta que articula, na medida em que há mulheres trabalhadoras. Articula uma série de lutas. Além disso, revolucionou o país quanto aos valores. Teve impacto enorme no sentido comum. Por isso, pode-se pensar que o feminismo venha a ser o símbolo de todas as lutas para a radicalização da democracia. E me parece que talvez algo similar possa ocorrer na Argentina. O movimento Nem uma a menos também é muito forte aqui – e também, segundo entendo, é um movimento que articula múltiplas demandas.

PSICOLOGIA Te amo, mas não te aguento: como terminar um relacionamento?, por OtrosConéctateEnviar por correoImprimir FRANCESC MIRALLES

Ficar longe das pessoas que nos fazem mal nos liberta de vínculos sem sentido
"Te amo, mas neste momento não nos entendemos" GORKA OLMO

A maioria de nós fomos ensinados a agradar a todos, ou pelo menos tentar. Contudo, no extremo oposto, ficamos sem saber o que fazer quando nos sentimos incomodados com uma determinada pessoa ou grupo. Como rejeitar alguém sem ferir seus sentimentos? Existe alguma maneira de cortar um vínculo que se tornou daninho sem provocar uma guerra?

O que num contexto social pode ser solucionado com um afastamento discreto e progressivo se torna muito mais complicado se a ruptura envolve um familiar direto. A situação também pode ser delicada se se tratar de um amigo íntimo, especialmente quando o outro não capta nossos sinais. Mas nessas situações não devemos conter o desconforto que essa pessoa nos provoca por medo de machucá-la. Dessa maneira só alimentaremos um conflito latente. Chegará um momento em que o poço da paciência transbordará provocando um tsunami emocional.

Também não é boa ideia mandar um e-mail ou carta dizendo, com riqueza de detalhes, tudo que nos incomoda nele ou nela. Quase ninguém está preparado para suportar uma visão negativa de si mesmo. Se a bomba chegar por escrito, sempre poderão voltar à “prova do crime” até para mostrá-la a terceiros. Existem situações extremas, entretanto, nas quais somos obrigados a expressar nossos sentimentos por um meio ou por outro, mesmo que a outra parte não esteja preparada para ouvir a verdade. Nesses casos, a escritora e conferencista Eva Sandoval propõe soltar diretamente a seguinte frase: “Te amo, mas não te aguento”. A segunda parte da oração soa muito agressiva e talvez seja melhor recorrer a outras expressões mais conciliadoras. Poderíamos dizer: “Te amo, mas neste momento não nos entendemos. Quem sabe no futuro voltemos a nos entender”. A segunda opção poderia ser: “Te amo, mas esta relação não está fazendo bem a nenhum de nós. Precisamos dar um tempo”. Se comunicarmos de maneira sincera e respeitosa, não será preciso acrescentar nada mais. Apontar as falhas do outro equivalerá a pôr pregos em um fim que, por si, já é traumático. Quando os nervos estão à flor de pele não se deve dizer tudo. Basta expressar como nos sentimos e transmitir nossa decisão de forma simples.

Traçar uma linha de separação com o outro é uma tarefa especialmente dura quando a pessoa em questão é um amigo íntimo ou familiar muito próximo. O premiado diretor de cinema Vittorio de Sica (1901-1974) dizia a esse respeito: “A Bíblia nos ensina a amar nossos inimigos como se fossem nossos amigos, talvez por se tratar das mesmas pessoas.” 
isso, o cineasta e ator italiano sugeria que as pessoas mais próximas são também as que têm maior capacidade de nos ferir. A jornalista Begoña Merino, pesquisadora das relações pessoais através da Internet, opina a respeito: “Há famílias com tal nível de conflitos e de inconsciência que, embora muitos acreditem na necessidade de deixar passar tudo – pagando um enorme preço emocional – para continuar unidos, deixam um profundo rastro negativo em nós. Enquanto persistir essa relação turbulenta e dolorosa, continuarão sendo uma pedra em nosso presente”.

GORKA OLMO
Por mais delicados que sejamos na gestão da crise, ainda que peçamos ao companheiro, amigo ou familiar um tempo antes de retomar a relação no futuro, precisamos estar preparados para lidar com a raiva do outro e suas consequências. É inevitável que nos magoem as recriminações e acusações daqueles que amamos, bem como o silêncio com que frequentemente punem quem rompe o vínculo. 

No livro Mindfulness & the Art of Managing Anger (plena consciência e a arte de administrar a raiva), Mike Fisher, terapeuta especializado na raiva, propõe técnicas para assumir o controle da emoção. O primeiro passo é tomar consciência do que estamos sentindo de maneira que qualquer reação será filtrada por esse raciocínio.
Isso não quer dizer que não podemos explodir a qualquer momento. Mas, como tudo na vida, é necessário encontrar o caminho do meio. Neste caso, é preciso saber escolher o instante. Se o que queremos expressar for dito com serenidade e reflexão, terá um efeito muito diferente. Já dizia o monge budista Thich Nhat Hanh: “Os sentimentos vêm e vão como nuvens no céu num dia de vento. A respiração consciente é minha âncora.”

Para mitigar a tristeza e o sentimento de injustiça que pode nos dominar, é útil identificar a posição de onde cada pessoa atua. Se representarmos a evolução pessoal como uma ladeira, algumas pessoas nos falam com a sabedoria de quem está mais acima no caminho, enquanto outros reagirão de forma mais primitiva e cega porque se encontram muito mais abaixo. Cada um faz o melhor possível na posição onde está. Portanto, deixemos que cada um percorra seu próprio caminho.

Arte de MARIANO

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Arte de TACHO

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Com gastos acima do teto, Judiciário recria auxílio-moradia para juízes, por Mariana Schreiber

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou nesta terça-feira (18) a volta do auxílio-moradia para uma parcela dos juízes brasileiros, apesar de os gastos do Poder Judiciário estarem crescendo acima do limite previsto pelo teto constitucional.

CNJ decidiu por regras mais restritas para acesso de magistrados ao auxílio-moradia

O CNJ estima que 1% dos dos magistrados (cerca de 180 dos 18 mil juízes) terá direito a receber o benefício a partir de janeiro de 2019, dentro de novas regras mais restritivas.

O impacto potencial ao ano é de quase R$ 9,5 milhões, caso a estimativa do órgão se confirme e os potenciais beneficiários peçam o reembolso do valor integral previsto para o auxílio (R$ 4.377,73).

O teto previsto para o Judiciário neste ano é de R$ 39,876 bilhões, mas os gastos acumulados em 12 meses até outubro está em R$ 41,1 bilhões.

A estimativa da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado é que a Justiça brasileira deve fechar 2018 com gasto de ao menos R$ 2 bilhões acima do teto.
Segundo o diretor da IFI Gabriel de Barros, a tendência é que esse quadro se agrave no próximo ano com o recente reajuste de 16,38% para os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), o que elevou sua remuneração de R$ 33,7 mil para R$ 39,3 mil. São os salários mais altos do poder público e seu reajuste gera efeito cascata de aumento para os demais magistrados.

"O Judiciário é o Poder que mais descumpre o teto de gastos, com destaque para a Justiça do Trabalho, a Justiça Federal e a Justiça Eleitoral. Do ponto de vista do teto, a regulação do auxílio-moradia, mesmo que em condições mais restritas, não ameniza a situação. Não ficará mais fácil cumprir o limite de gastos", critica Barros.

O aumento dos salários aprovado pelo Congresso foi sancionado pelo presidente Michel Temer (MDB) a partir de uma negociação com o STF para derrubar o pagamento de auxílio-moradia de forma irrestrita, que estava autorizado por uma decisão do ministro da Corte Luiz Fux.

De acordo com a decisão do CNJ, o auxílio-moradia agora só será concedido se o magistrado estiver alocado em cidade diferente da sua comarca original; não possuir imóvel na cidade; não houver imóvel funcional à disposição; e se não tiver um cônjuge que já tenha imóvel, receba auxílio-moradia ou ocupe imóvel funcional.
Aumento de salário dos ministros do STF gerou 'efeito cascata' no funcionalismo

Segundo Barros, o aumento salarial é superior ao valor do auxílio, de modo que na prática haverá aumento nas despesas da Justiça. A IFI ainda está trabalhando em projeções mais precisas sobre qual será o impacto fiscal.
Punições para descumprimento do teto

O teto dos gastos foi criado há dois anos com a aprovação de uma emenda constitucional pelo Congresso. Ele estabelece que as despesas não podem subir acima da inflação por vinte anos, com objetivo de equilibrar os gastos públicos, que estão no vermelho desde 2014.

A medida gerou polêmica, porém. Seus críticos entendem que na prática ela congela gastos sociais e investimentos públicos, despesas necessárias para conter a pobreza e estimular a economia.

Já seus defensores dizem que os gastos socias e investimentos podem ser preservados se outras despesas forem cortadas e defendem a necessidade de uma reforma da previdência para conter o acelerado crescimento das aposentadorias.

Até 2019, vigora uma regra de transição que permite que o Poder Executivo acomode em suas despesas aumentos de gastos no Judiciário acima do limite constitucional, o que caminha para ocorrer pelo segundo ano.

No entanto, a partir de 2020, se o teto do Judiciário for novamente rompido, a Constituição prevê que "gatilhos" de contenção de despesa serão automaticamente disparados - na prática, o Poder Judiciário ficará proibido de conceder novos aumentos ou realizar novas contratações, por exemplo.

Segundo a regra do teto, a União pode gastar nesse ano até R$ 1,296 trilhão, que representa a soma dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Até outubro, as despesas da União estavam com crescimento de R$ 3,1 bilhão acima do permitido, exigindo um esforço fiscal de fim de ano para cumprimento do limite constitucional.
Judiciário caroEstudo mostrou que discrepância entre renda de juízes da alta corte e renda de trabalhadores 'comuns' é maior no Brasil do que na Europa

O ministro do STF Ricardo Lewandowski, um dos que defendeu o recente aumento de salário dos ministros da Corte, chegou a dizer que o reajuste de 16,38% era "modestíssimo". Associações de magistrados, por sua vez, argumentaram que a inflação acumulada desde o último reajuste é de cerca de 40% - o que estaria corroendo os salários dos profissionais.

Se comparados com os vencimentos de juízes em outros países, porém, os contracheques do Judiciário brasileiro estão longe de ser modestos.

Um estudo de 2016 da Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (Cepej, na sigla em francês) mostra que, em 2014, um juiz da Suprema Corte dos países do bloco ganhava 4,5 vezes mais que a renda média de um trabalhador europeu. No Brasil, a realidade do salário do STF é ainda mais distante da média da população: o salário-base de R$ 33,7 mil do Supremo Tribunal Federal corresponde a 16 vezes a renda média de um trabalhador do país (que era de R$ 2.154 no fim de 2017).

Em 2014, um magistrado da Suprema Corte de um país da União Europeia recebia, em média, 65,7 mil euros por ano. Ao câmbio de hoje, o valor equivaleria a cerca de R$ 287 mil - ou R$ 23,9 mil mensais.

Segundo a última edição do relatório Justiça em Números, produzido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil tem hoje cerca de 18 mil magistrados (juízes, desembargadores, ministros). Eles custam cada um, em média, R$ 47,7 mil por mês - incluindo salários, benefícios e auxílios.

Os ganhos dos demais magistrados (juízes e desembargadores) em todo o país estão vinculados aos rendimentos dos ministros do STF. No caso da magistratura, o aumento é automático - o reajuste para os ministros é repassado para todos os demais.

Além disso, os salários dos ministros também estabelecem o chamado Teto Constitucional, que é o valor máximo que pode ser recebido pelos servidores dos três poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo). Se o valor do teto sobe, há a possibilidade de outras carreiras, fora do judiciário, pedirem aumento também. Mas, neste caso, o aumento não é automático.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Arte de LUSCAR

sábado, 22 de dezembro de 2018

A esquerda que não sabe quem é, por ELIANE BRUM

Como deixar de apenas reagir, submetendo-se ao ritmo imposto pela extrema direita no poder, e passar a se mover com consistência, estratégia e propósito?
Madeira de extração ilegal apreendida em abril pelo Ibama Terra Indígena (TI) Pirititi, no sul de Roraima. FELIPE WERNECK IBAMA

A violência dos últimos anos, que culminou nas eleições de 2018, tampou os ouvidos para o que poderia ser considerado o outro lado. Os gritos acusavam a impossibilidade de votar em Jair Bolsonaro (PSL) depois de ouvir o discurso de ódio que ele pregava. Gritou-se até quase acabar a voz. O fato é que a maioria dos eleitores que escolheu um dos candidatos escolheu Bolsonaro, e ele está eleito e já começou a governar desde o dia seguinte ao segundo turno, embora só assuma oficialmente em janeiro. Desde então, ou mesmo muito antes disso, os grupos que se opõem a Bolsonaro se limitam a reagir. A cada declaração, a cada ministro, a cada indício de corrupção amontoam-se mais gritos. É necessário reagir. Mas só reagir é exaustivo. Como o espaço público está saturado de gritos, a reação se esgota em si mesma. Numa época em que se vive de espasmo em espasmo, cada vez mais rápidos, o que parece movimento com frequência é paralisia. A paralisia do tempo da velocidade cria a ilusão de movimento exatamente porque é feita de espasmos. Como parar de apenas reagir e se mover com consistência, estratégia e propósito?

Quero propor uma conversa. Ou talvez duas. A esquerda foi demonizada pela turma do Bolsonaro, do MBL (Movimento Brasil Livre), do Olavo de Carvalho e outras. Para uma parte da população, virou tudo o que não presta, seja lá o que for. Às vezes esquerda e comunismo e marxismo viram uma coisa só no discurso repetitivo e feito para a repetição. E essa coisa que viram pode ser qualquer coisa que alguém diz que é ruim. A reação daqueles que se identificam com a esquerda é acusar os que estimulam esse desentendimento, aqui no sentido de não entender mesmo do que tratam os conceitos, de manipuladores e de desonestos. E com frequência é isso mesmo que são. Mas se fosse só isso seria mais fácil.

O problema é que está muito difícil saber o que a esquerda é. E o que a esquerda propõe que seja claramente diferente da direita. O PT se corrompeu no poder. É um fato. Pode se discutir bastante se o PT é um partido de esquerda. Eu, pessoalmente, acho que foi de esquerda só até a Carta ao Povo Brasileiro, durante a campanha de 2002. Outros encontram marcos anteriores de rompimento com um ideário de esquerda.

Garantir o emprego e os direitos trabalhistas poderia ser uma outra diferença visível, mas o desemprego voltou a crescer e os direitos do trabalhador começaram a ser cortados já no governo de Dilma Rousseff, a última experiência que a população teve de um governo de esquerda. A reforma agrária poderia ser outra diferença, mas ela não avançou de forma significativa no governo de esquerda. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que hoje está sendo criminalizado pelo governo de extrema direita, se domesticou quando o PT estava no poder. O mesmo aconteceu com grande parte dos movimentos sociais, que viraram governo em vez de continuar sendo movimentos sociais, o que teria sido importante para garantir a vocação de esquerda do partido no poder. Esta, aliás, é uma história que precisa ser melhor contada.Para o senso comum, porém, o PT é um partido de esquerda. Não só é como foi a principal experiência de um partido de esquerda no poder da história da democracia brasileira. Logo, não se corromper no poder, fazer diferente da velha política conservadora, já não é uma diferença da esquerda para a população. Negar que o PT se corrompeu no poder é quase tão delirante — ou mau caráter — quanto negar o aquecimento global provocado por ação humana.

Também nos governos do PT foram fortalecidos os laços com a bancada ruralista, que foi ganhando cada vez mais influência no cotidiano do poder, e se iniciou um claro projeto de desmantelamento da Funai (Fundação Nacional do Índio). Não é permitido esquecer nenhuma palavra de Gleisi Hoffmann atacando a Funai, quando era ministra da Casa Civil de Dilma Rousseff, assim como não é permitido esquecer nenhuma palavra da ruralista Kátia Abreu, ministra da Agricultura de Dilma, sobre as terras indígenas.

Não custa lembrar que, segundo a Constituição de 1988, as terras indígenas são públicas, de domínio da União, mas de usufruto exclusivo dos indígenas. Toda a articulação para enfraquecer a Funai, até hoje, entre outras várias ações, tem por objetivo mudar a Constituição e abrir as terras indígenas para exploração e lucros privados.

Lula chegou a dizer, em 2006, que os ambientalistas, os indígenas, os quilombolas e o Ministério Público eram entraves para o crescimento do país. Dilma foi a presidente que menos demarcou terras indígenas. A lei antiterrorista, que pode ser piorada e usada para criminalizar ativistas e movimentos sociais no governo de Bolsonaro, foi sancionada por ela. Nenhuma dessas ações e omissões podem ser relacionadas com um ideário de esquerda, pelo menos de uma esquerda que mereça esse nome.

Os governos de Lula e de Dilma reeditaram na Amazônia uma versão das grandes obras da ditadura militar, com hidrelétricas como Jirau e Santo Antônio, estas ainda no tempo de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, no rio Madeira; Teles Pires, no rio Teles Pires; e Belo Monte, no rio Xingu. E só não houve (ainda) as grandes hidrelétricas no rio Tapajós por conta da resistência do povo indígena Munduruku e dos ribeirinhos de Montanha-Mangabal. O complexo hidrelétrico no Tapajós foi temporariamente suspenso também pelo enfraquecimento do governo no processo do impeachment, pela desestabilização das empreiteiras pela Operação Lava Jato e pela desaceleração das exportações de matérias-primas para a China.

Nos governos do PT, comunidades urbanas pobres foram expulsas de suas casas para as obras superfaturadas da Copa e da Olimpíada, assim como povos da floresta foram arrancados de suas ilhas e beiradões para a construção de hidrelétricas. Foi também nos governos do PT que a Força Nacional foi usada para reprimir greve de trabalhadores na construção de Belo Monte e também reprimir protestos da população atingida contra a hidrelétrica.

No enfrentamento da questão das drogas, o governo Lula agravou ainda mais os problemas. A chamada Lei de Drogas, sancionada em 2006, é apontada como uma das causas do aumento do encarceramento de jovens e negros, assim como de mulheres, por pequenas quantidades de substâncias proibidas. Além de acentuar o horror do sistema prisional brasileiro, ainda fortaleceu a desastrosa política de “guerra às drogas”, comprovadamente falida. O Brasil perdeu uma oportunidade histórica de alinhar-se com as políticas públicas mais eficientes já testadas em outros países do mundo.

No final do governo de Dilma Rousseff, até mesmo os melhores projetos construídos nos governos do PT, os claramente de esquerda, como na área da saúde mental, começaram a ser desmanteladas para tentar salvar a presidenta ameaçada de impeachment. Espero que ninguém tenha esquecido que as salas da Coordenação de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde foram ocupadas por pacientes e trabalhadores da rede pública em protesto contra a nomeação de um diretor de manicômio para a área. A luta antimanicomial é claramente uma bandeira ligada à esquerda.

O avanço nas cotas raciais, a ampliação do acesso ao ensino superior, a expansão do Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo, a consequente redução da miséria e da pobreza mudaram o país. Já escrevi bastante sobre isso e me posicionei com bastante clareza nestas eleições. Mas não é permitido desviar das contradições. É necessário caminhar com elas e enfrentar as complexidades se a esquerda quiser se mover — e não apenas reagir e reagir. E reagir de novo.A lista pode continuar. Mas acredito que já está de bom tamanho para expor aquilo que acho importante afirmar se quisermos compreender esse momento tão delicado. De forma nenhuma eu entendo que o governo do PT foi igual aos anteriores, muito menos que seja parecido com o governo de extrema direita que já começou.

O que afirmo é que a última — e em certa medida única — experiência de esquerda que marca a memória da população foi construída pelos governos do PT. E que as diferenças não são suficientes para que a população possa compreender um projeto de esquerda. Como o cérebro humano em geral recorda e torna totalizante o que vem por último, a diferença de um governo de esquerda para qualquer outro fica ainda mais nebulosa. É possível que, no futuro, quando for um passado mais distante, os anos de Lula ganhem os tons da nostalgia.

Mas não agora. Logo na sequência, os anos de melhoria de vida determinadas por políticas públicas vão sendo apagados pelas dificuldades imediatas num país formado em sua maioria por sobreviventes com medo de perder o que ainda têm. A vitória de Fernando Haddad (PT) sobre Bolsonaro no Nordeste mostra justamente que, nos estados mais pobres do país, a maioria entendia muito claramente qual era a diferença. Mas essa diferença, marcada por políticas públicas como o Bolsa Família, não teve o mesmo impacto nas demais regiões de um país gigante, desigual e culturalmente diverso.

Uma das chaves para compreender por que Lula ocupava um primeiro lugar folgado nas pesquisas pré-eleitorais para a presidência, em 2018, antes de sua candidatura ser impedida pelo judiciário, também aponta para algo importante. O Brasil cheio de potência da primeira década do século está intimamente ligado à figura de Lula, que terminou o segundo mandato com quase 90% de aprovação — e não está ligado ao PT e à esquerda, ou está muito menos ligado ao PT e à esquerda. Também nisso não se fez diferente da extrema direita populista.

O tratamento de eleitores como adultos infantilizados — e não como cidadãos emancipados — é uma conta alta que o PT e toda a esquerda estão pagando agora. O PT tem grande responsabilidade em converter direitos em concessões ou favores no imaginário popular, o que marca o pior da política.
A relação de Lula com os eleitores, em especial a partir do segundo mandato, foi populista e paternalista. Os eleitores não eram tratados como cidadãos autônomos, que conferiam ao governante um mandato de poder temporário, que seria rigorosamente fiscalizado por eles, mas sim filhos a quem um pai afetuoso concedia agrados. Foi também como “mãe do PAC” ou “mãe dos pobres” que Dilma foi apresentada na primeira eleição, embora não tenha funcionado graças ao desconforto louvável que ela sentia com o figurino.

Não me parece, portanto, que a demonização da esquerda seja apenas conferida pela manipulação articulada pela extrema direita e também resultado da ignorância de grande parte da população sobre conceitos básicos. Em parte, sim. Mas há algo concreto, factual e legítimo, embora nem sempre claro, na reação de parte da população contra a esquerda. Se você não consegue ver a diferença entre os projetos e a sua vida está ruim, o culpado é quem estava no governo. E o PT esteve no governo por mais de 13 anos. Se você não consegue ver diferença, esquerda é o nome de tudo o que você odeia.

É óbvio que esse sentimento é manipulado pelos grupos que disputam o poder, mas isso não significa que não exista lastro, experiência e racionalidade nessa interpretação. Todos têm direito a querer uma vida melhor e todos sabem qual é a vida que estão vivendo.

A eleição de Bolsonaro mostrou que a esquerda não convenceu a maioria dos eleitores de que pode mudar sua vida para melhor. Então muita gente preferiu tentar algo extremo, porque o desamparo é grande. E como a vida no Brasil está ruim mesmo, é catártico poder culpar alguém por todas as merdas que acontecem no seu dia, assim como pela imensa sensação de fracasso e de insegurança. A esquerda — ou o comunismo ou o marxismo — virou esse nome para tudo o que não presta, já que não dá para saber o que ela é e o que propõe de fato.

Quando se exige uma autocrítica do PT é exatamente porque sem ela não é só o PT que não avança, mas todo o campo da esquerda que foi identificado com o PT, com ou sem razão. Como o PT usa inúmeras justificativas para não fazer autocrítica, o que me parece não só desrespeito aos eleitores, mas também um tremendo equívoco político, nada avança. Se você não pode falar sobre o que errou, e que todo mundo viu que errou, como alguém vai acreditar em seus acertos?

No início de dezembro, durante uma palestra na Universidade de Londres, a ativista Bianca Jagger afirmou que o movimento que confronta a ditadura de Daniel Ortega, na Nicarágua, não é de esquerda ou de direita. Os manifestantes, muitos deles estudantes, “walk for life”. Esta é possivelmente a interpretação acurada da ativista sobre movimentos que se caracterizam por não serem marcados por uma coesão ideológica. Mas é também uma resposta à estratégia dos apoiadores do regime de opressão.
A credibilidade se dá também pela coragem de assumir os erros cometidos e de ter respeito suficiente pelo voto de quem o elegeu para debater seus equívocos publicamente. Quando insisto na autocrítica do PT não estou preocupada com o futuro do partido, mas sim com a necessidade de a esquerda ser capaz de criar um projeto que mostre a sua diferença. Como o PT é a experiência de esquerda que a população viveu, a autocrítica é fundamental para que a esquerda possa construir um outro projeto. Autocrítica não como expiação cristã, mas como dever democrático, compromisso público com o público.

Daniel Ortega e Rosario Murillo, sua mulher e vice-presidente, assim como seus partidários e parte da esquerda mundial tentam vender à opinião pública internacional a ideia de que Ortega estaria sendo atacado por um complô de direita. O problema da teoria conspiratória é que Ortega não tem mais qualquer resquício de identificação com um projeto de esquerda há vários anos. Mas essa parcela da esquerda, corroída e ultrapassada, finge não saber disso e insiste em contornar os fatos porque eles mancham seus heróis e suas revoluções.

As ditaduras de Daniel Ortega e Rosario Murillo, na Nicarágua, e de Nicolás Maduro, na Venezuela, colaboram bastante para que as diferenças entre esquerda e direita sejam apagadas. Há muitos anos Ortega traiu a revolução sandinista e qualquer ideário de esquerda e está fortemente conectado ao que há de pior na direita. Da mesma forma, Maduro não pode ser considerado um democrata de esquerda por várias razões, uma delas a de matar e prender opositores de um regime que há muito deixou de ser uma democracia.

Há muita gente, de diferentes matizes ideológicos, defendendo que “essa coisa de esquerda e direita acabou”. Não é minha posição. Pelo contrário. Acho mais urgente do que nunca a criação de um projeto de esquerda para o Brasil, uma visão de esquerda para um dos países mais culturalmente diversos do mundo. Um projeto criado junto com os vários povos brasileiros, porque uma das diferenças da esquerda é criar junto, como num dia longínquo o PT fez com o orçamento participativo de cidades como Porto Alegre.
Parte da esquerda mundial, dos partidos que se dizem de esquerda e dos intelectuais que se dizem de esquerda, porém, simplesmente ignora os fatos ou torce as evidências para defender o indefensável. Como afirmar então que a população é que é ignorante e não consegue compreender a diferença entre esquerda e direita? Se a esquerda não se dá o respeito, a esquerda não merece respeito. Essa esquerda apodrecida, que morre abraçada com ditadores e não consegue admitir que se corrompeu, precisa ser superada. Essa esquerda que já não é está atrapalhando a esquerda que quer ser.

Em artigo no The Intercept, a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado escreveu sobre o que tem chamado de “revoltas ambíguas”. Aquelas que não se definiriam por estar alinhadas com a esquerda ou com a direita, como aconteceu nas manifestações de 2013, com a greve dos caminhoneiros, em 2018, no Brasil, e acontece agora com os “coletes amarelos”, na França. Tentar enquadrá-las como de esquerda ou de direita é um equívoco:

“Fruto da crise econômica de 2007 e 2008, as revoltas ambíguas são um fenômeno que veio para ficar. Elas são uma resposta imediata do acirramento de austeridade do neoliberalismo do século 21, marcado pela crescente captura dos estados e das democracias pelas grandes corporações. 
Se o neoliberalismo flexibiliza as relações de trabalho e, consequentemente, as formas de fazer política sindical, atuando como uma máquina de moer coletividades, des-democratizar, desagregar e individualizar, os protestos do precariado tendem a ser desorganizados, uma vez que a esfera de politização deixa de ser o trabalho, mas ocorre de forma descentralizada nas redes sociais. Os protestos ocorrem mais como riots (motins) para chamar atenção. Eles nascem, muitas vezes, de forma espontânea e contagiosa, sem grande planejamento centralizado e estratégico, expressando um grande sentimento de revolta contra algo concreto vivenciado em um cotidiano marcado por dificuldades. São um grito de ‘basta”.

Ao voltar a entrevistar os jovens que participaram dos “rolezinhos”, em 2016, Rosana e a antropóloga Lúcia Scalco constataram que parte deles virou “bolsominion”, nome pejorativo dado aos seguidores de Bolsonaro. 
Outra parte aderiu a lutas mais identificadas com a esquerda, como contra o machismo, contra o racismo e contra a homofobia. Mas os rolezinhos não eram um movimento de a esquerda ou de direita quando aconteceram, como ficou claro, embora tivessem uma expressão política. “Direita e esquerda são os polos para onde as rebeliões ambíguas podem pender. São, portanto, uma disputa, um fim. (...) Isso significa que a ambiguidade não é um lugar no qual conseguimos nos manter por muito tempo”, escreveu Rosana.

Há um enorme risco quando tudo se confunde, como hoje. Se os limites entre esquerda e direita são borrados, como fazer escolhas consistentes? Como criar um projeto se você não consegue dizer claramente nem mesmo aquilo que não é? Se a ambiguidade é uma marca das revoltas recentes no Brasil e no mundo, me parece que o desafio não está em superar os conceitos de esquerda ou de direita, mas sim de atualizar os conceitos de esquerda e de direita, exatamente para que as pessoas consigam estabelecer as diferenças. Não são os conceitos que estão ultrapassados, mas muitos dos pensadores de esquerda é que decidiram parar de pensar, com medo de enfrentar as contradições, e se blocaram em significados de um mundo que já não é. O pensador só é vivo enquanto continuar pensando e se pensando. O que estanca, paralisa, é dogma.

No caso dos “coletes amarelos”, na França, há um ponto que também vale a pena prestar atenção, como assinalaram alguns analistas. Como se sabe, o presidente francês, Emmanuel Macron, colocou um “imposto ecológico” sobre os combustíveis, causando revolta naqueles que dependem deles para trabalhar. A taxação de combustíveis fósseis é uma das medidas importantes para enfrentar as mudanças climáticas provocadas por ação humana, que podem destruir o planeta e nossa vida nele, assim como a das outras espécies, se não forem tomadas medidas urgentes.

O aumento dos combustíveis seria um dos vários passos em direção ao compromisso da França de reduzir as emissões de carbono em 40% até 2030 e proibir a venda de veículos a gasolina e a diesel até 2040. Aumentar o preço do carbono tem sido apontado por alguns economistas como uma ferramenta essencial para manter o aquecimento global abaixo do nível perigoso de 1,5 graus Celsius.

O problema foi a escolha feita por Macron: o ônus não estava sendo compartilhado de forma justa. A maioria dos manifestantes estava nas ruas porque gasta uma parte desproporcional de seus ganhos em combustível e transporte. Em contrapartida, o imposto seria usado principalmente para reduzir o déficit orçamentário da França, pagando credores ricos. Na prática, o “imposto ecológico” de Macron agravaria a desigualdade.

Embora alinhada com a necessidade de tomar medidas urgentes diante do aquecimento global, a escolha de Macron não foi orientada por princípios de esquerda, mas sim por princípios de direita. Visto como um político de centro, quando foi eleito, o presidente francês é da nova safra de políticos que se elegeu repetindo não ser “nem de direita nem de esquerda”. No Brasil, a principal expoente dessa linha nem cá nem lá é Marina Silva.

Não há nenhuma grande questão atual que não seja atravessada e determinada pela crise do clima. Um outro exemplo deste momento: a caravana de milhares de pessoas de Honduras, El Salvador e Guatemala que marchou rumo à fronteira do México com os Estados Unidos pode apontar a primeira migração em massa da América Latina provocada por mudança climática. Eles falam de fome e de violência, mas porque isso é o que aparece como causa imediata. Ao serem entrevistados por jornalistas que sabem perguntar, porém, uma parcela significativa conta que o clima começou a mudar e as colheitas diminuíram, causando um série de consequências que os levou a essa marcha desesperada.
Cito o caso francês não só porque está se desenrolando nestes dias, mas porque uma grande parcela do que se chama esquerda, principalmente no Brasil, é incapaz de colocar a mudança climática como uma questão central que deve ser enfrentada a partir de princípios de esquerda. A mudança climática foi causada por ação humana, mas não de todos os humanos. Alguns humanos, os mais ricos, assim como os países mais ricos, Estados Unidos na liderança, são os grandes responsáveis pela destruição em curso do planeta. Mas as consequências atingirão primeiro os mais pobres e muito mais os mais pobres. É o que já está acontecendo.

Qual é a resposta da esquerda brasileira para a mudança climática? Qual é o projeto para enfrentar e se adaptar ao que virá, para além dos discursos habituais? Não há. Fora iniciativas pontuais, parte dos partidos e políticos de esquerda sequer compreende o que está em jogo.

Quando Ernesto Araújo, o chanceler de Bolsonaro, afirma que a mudança climática é uma “ideologia de esquerda”, ele não está apenas sendo irresponsável e falando uma tremenda bobagem. Ele está também superestimando a esquerda. E especialmente o PT. Alguns, inclusive, devem ter acordado naquele instante para o aquecimento global e corrido para a Wikipédia.

Lula e Dilma Rousseff, os dois últimos presidentes do PT, nunca chegaram sequer perto de compreender que a mudança climática era assunto deles. Ao contrário. Deixavam claro que adoravam ver as ruas cheias de carros individuais, movidos a combustíveis fósseis, construir hidrelétricas na Amazônia e ver a floresta convertida em soja e boi. Os dois estavam cimentados no século 20, às vezes no 19. Como afirmou o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em entrevista a esta coluna, a esquerda que estava no poder era uma “esquerda velha”, que não alcançou sequer 1968, referindo-se às mudanças profundas provocadas pelos movimentos de maio daquele ano, na França.

Há vários pensadores no mundo elaborando respostas de esquerda para o desafio da mudança climática provocada por ação humana. Ou enfrentando a necessidade de refletir sobre o que pode ser uma resposta de esquerda para um fenômeno que é, ao mesmo tempo, causado pela desigualdade e causador de desigualdades.

Uma resposta de esquerda, por exemplo, seria taxar os grandes produtores de combustíveis fósseis ou taxar todos aqueles que causam danos ao que é comum a todos, ao que é patrimônio coletivo, inclusive de outras espécies. Se há bastante sendo pensado no mundo, essa reflexão não parece estar acontecendo no Brasil, para além de nichos especializados. Acredito não cometer injustiça ao dizer que a maior parte dos intelectuais brasileiros não tem ideia das implicações e efeitos da mudança climática, o que compromete qualquer análise do momento atual.
Em várias partes do mundo, os jovens estão chamando os atuais líderes e também seus pais de “uns merdas” que estão ferrando o planeta que viverão. São adolescentes como a sueca Greta Thunberg, de 15 anos, que em setembro deixou de ir à escola para se plantar em frente ao parlamento para protestar contra a falta de medidas para combater o aquecimento global, ou os estudantes australianos que foram às ruas no final de novembro inspirados por ela.

Esses adolescentes vão virar adultos num mundo em que a esquerda não mostrou a sua diferença. Mesmo que tenham sido beneficiados por políticas públicas de esquerda no passado, eles não saberão. Se a esquerda não tem resposta consistente nem mesmo para o maior desafio da trajetória humana, para que serve a esquerda?

Qualquer projeto de esquerda para o Brasil precisa ter uma resposta de esquerda para o enfrentamento da mudança climática e do desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Sem isso não há qualquer possibilidade de começar qualquer conversa que possa interessar quem vive no século 21 e que sabe que suas crianças viverão num planeta pior, o que já é uma certeza, ou num planeta terrível, o que acontecerá caso as medidas necessárias não sejam tomadas nos próximos 12 anos. Sem isso não há qualquer possibilidade de começar qualquer conversa que possa interessar quem vive no país que tem a maior porção da maior floresta tropical do planeta no seu território e no país mais biodiverso do mundo.

Ao contrário de muitas pessoas engajadas no enfrentamento da mudança climática e nas medidas de adaptação à nova realidade do planeta, eu acredito que esse enfrentamento precisa ser travado a partir de princípios de esquerda. Não estamos todos no mesmo barco. Não estamos mesmo. Muitos só têm barquinhos de papel.

Arte de Mariano

A solidão das mulheres inteligentes, por PILAR JERICÓ

Teoricamente, a inteligência da mulher atrai os homens mas, na prática, lhes causa insegurança

RUBEN MONTENEGRO

A inteligência de uma mulher atrai os homens? Provavelmente uma grande parte dos homens diria que sim, claro. Entretanto, se perguntássemos às mulheres, muitas responderiam justamente o contrário. E curiosamente os dois teriam razão, segundo um artigo publicado em 2015 na revista Personality and Social Psychology Bulletin.

Lora Park, psicóloga social da Universidade de Buffalo (Estado de Nova York), e seus colegas Ariana Young e Paul Eastwick realizaram diversas pesquisas para comprovar o que acontece com os homens quando estão com uma mulher que parece ser mais inteligente que eles. Num primeiro experimento, pediram que avaliassem uma garota hipoteticamente mais preparada e habilidosa em matemática e em inglês. Todos eles qualificaram a moça como um par romântico desejável em longo prazo. Até aqui tudo bem, essa era a teoria. Mas e na prática? Para responder, os pesquisadores criaram diversas situações em que as pessoas competiam entre elas. Quando uma garota demonstrava ser mais inteligente que os rapazes, “num passe de mágica” ela deixava de ser tão atrativa aos olhos deles. E, inclusive, os garotos chegavam a reconhecer que se sentiam inseguros na frente dela.

A conclusão do estudo acima, portanto, poderia ser resumida em uma ideia: teoricamente a inteligência da mulher atrai os homens, mas na prática e em distâncias curtas lhes causa insegurança (obviamente, sempre há exceções). Pesquisas acadêmicas à parte, é provável que você conheça mulheres que considerem que a inteligência foi uma barreira na hora de encontrar parceiro e manter uma relação bem sucedida. Também é possível que você conheça homens que apoiam as carreiras profissionais das suas parceiras e se sintam muito orgulhosos da sua inteligência. De acordo, qualquer generalização é incorreta. Mas, dito tudo isto, ainda hoje persiste uma parcela de homens que ficam inseguros ou que sentem sua masculinidade questionada quando estão diante de uma mulher brilhante. Talvez esse resultado dependa da autoestima e da maturidade de cada um, mas vale a pena levá-lo conta para saber como agir e administrar as solidões e as possíveis frustrações.

Necessitamo-nos mutuamente. Tanto é que uma das chaves para o sucesso profissional de uma mulher (e de um homem) é ter um bom cônjuge, segundo Sheryl Sandberg, diretora financeira do Facebook. De fato, das 28 mulheres que já foram diretoras-gerais de alguma empresa da lista Fortune 500, 26 são casadas, uma divorciada, e uma é solteira. Mas as mudanças da sociedade são tão profundas que também estão afetando as dinâmicas entre o homem e a mulher, o que nos obriga a administrar novos medos, disfarçados de outro modo. E para poder combatê-los bem é necessário melhorar o autoconhecimento a fim de ganhar confiança e segurança em si mesmo(a), e não pelo que o outro faça ou diga. Também é importante educar em inteligência emocional desde a infância, de forma que tanto os homens como as mulheres possam se preparar para os novos papéis sociais que irão viver. E, obviamente, precisamos abrir novos diálogos dentro dos casais para encontrar os pontos de conexão e de colaboração, e não os de competição. Só assim aprenderemos a superar as dificuldades que todos e todas nós enfrentamos.

Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, falta novamente a depoimento, nas folhas

É o segundo depoimento que o policial militar, convocado para explicar movimentações atípicas em sua conta bancária, falta

Flávio Bolsonaro (àesq.) e Fabrício Queiroz
O policial militar Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), não foi novamente ao Ministério Público do Rio de Janeiro onde fora convocado para prestar depoimento. Queiroz era aguardado na quarta-feira, 19, quando faltou pela primeira vez. Chamado para explicar movimentação atípica de 1,2 milhão de reais em sua conta bancária, o depoimento havia sido remarcado para esta sexta-feira, mas, novamente, ele não apareceu.

A Promotoria disse que a defesa de Queiroz afirmou, assim como na quarta-feira, questões ligadas à saúde para justificar a ausência. Segundo o MP-RJ, a defesa afirma que o ex-assessor precisou ser internado nesta sexta, "para a realização de um procedimento invasivo, com anestesia, o que será devidamente comprovado, posteriormente, através dos respectivos laudos médicos". De acordo com a Folha de S. Paulo, o MP afirmou também que vai sugerir ao presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), André Ceciliano (PT), o comparecimento de Flávio Bolsonaro no dia 10 de janeiro para prestar esclarecimentos sobre o caso.

Além de Queiroz, seus familiares e outros assessores de Flávio Bolsonaro foram chamados para depor no dia 8. Isso porque um relatório do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) apontou que Queiroz movimentou 1,2 milhão de reais entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. A movimentação foi considerada atípica pelo órgão, tanto pelo montante quanto pela forma - diversos depósitos, saques e transferências.

Os dados estão em um relatório elaborado pelo Coaf no início deste ano, e vieram à tona quando a Operação Furna de Onça - um desdobramento da Lava Jato - foi deflagrada, em novembro. Há coincidências entre algumas datas de pagamento de salários da Alerj, de depósitos em espécie na conta de Queiroz e de saques em dinheiro feitos por ele.

Essas coincidências levantam a suspeita de que a conta do motorista teria sido usada em uma espécie de rateio feito com funcionários do gabinete de Flávio Bolsanaro. Ao menos nove servidores da Alerj fizeram depósitos na conta de Queiroz em datas próximas aos pagamentos de seus salários, o que pode ser apontado como pedágio pago pelos servidores a políticos. Uma prática ilegal, mas comum nos legislativos e até prefeituras.

Desde que o documento foi divulgado, o ex-assessor ainda não deu nenhuma declaração. A família Bolsonaro, que até o momento não é investigada neste caso, nega qualquer irregularidade, e tanto Flávio, quanto o presidente eleito afirmaram que cabe a Queiroz dar as devidas explicações sobre a origem do dinheiro e, mais importante, seu destino.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Arte de VASQS--Analismo Politico.......

Assim é o cérebro de um psicopata, por JESSICA MOUZO QUINTÁNS

Revisão científica sugere que o estresse emocional na infância precipita a maturação excessiva de algumas regiões cerebrais e dificulta a gestão dos sentimentos

Pujol, o líder da investigação sobre o cérebro dos psicopatas. HOSPITAL DEL MAR

Embora o imaginário coletivo sempre se volte para a delinquência e a maldade quando se fala em psicopatia, esse transtorno da personalidade é algo mais complexo do que tal associação pode sugerir. Nem todos os delinquentes são psicopatas, nem todos os psicopatas são Hannibal Lecter, o vilão canibal de O Silêncio dos Inocentes. “Os psicopatas são pessoas com problemas de relação interpessoal e de gestão das emoções. Aparentemente são frios, embora não seja verdade que não tenham emoções – as têm, e muito intensas. O que não têm são remorsos, que é o que gera uma tendência à delinquência, mas não em todos os casos, claro”, afirma o médico Jesús Pujol, diretor de pesquisas da Unidade de Ressonância Magnética do serviço de Radiologia do Hospital del Mar, em Barcelona. 
Ele liderou uma revisão científica de outros estudos publicados e constatou que o cérebro dos psicopatas é diferente. A pesquisa indica que o estresse emocional na infância precipita a maturação excessiva de algumas regiões cerebrais como um sistema de proteção contra o sofrimento, mas termina dificultando também a gestão das emoções.
A complexidade da psicopatia transcende os estereótipos. De fato, um estudo publicado em 2013 na revista Journal of Forensic Science já alertava que a imagem de Lecter como protótipo do psicopata nem sequer era muito realista. O personagem foi descrito como “um psicopata de elite, que exibe níveis exagerados de inteligência, modos sofisticados e ardilosos, às vezes até níveis sobre-humanos e supermidiáticos”. Mais compatível com a realidade era, segundo o estudo, Anton Chigurh, o personagem interpretado por Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez.

O leque de condutas é amplo, mas todos os psicopatas coincidem em uma coisa: as alterações cerebrais que os diferenciam de outros indivíduos sem este transtorno. Pujol e sua equipe revisaram mais de 400 artigos científicos nos quais foi analisado o cérebro das pessoas com psicopatia através de ressonâncias magnéticas. A meta-análise, publicado na revista científica Psychological Medicine, concluiu que a mente dos psicopatas apresenta uma maturação acelerada de várias regiões cerebrais relacionadas ao processamento emocional e cognitivo. “O cérebro dos psicopatas é diferente do ponto de vista anatômico e funcional. Há diferenças nas áreas que processam a cognição e o raciocínio e nas que processam a atividade emocional. A conexão entre estas duas áreas falha”, explica Pujol.

Os investigadores concluíram que, do ponto de vista anatômico, havia “uma aparente atrofia da substância cinza” nas regiões dos lobos temporal (onde está a amígdala, relacionada às emoções) e frontal (encarregado das funções cognitivas). “Entretanto, o que depois nós postulamos é que, na verdade, o que havia era um aumento da substância branca, o que implica uma supermaturação dessas áreas”, aponta Pujol.

Na prática, essa alteração cerebral faz que, frente a um dilema moral, a ativação dos dois sistemas (o cognitivo e o emocional) seja bloqueado. Nem sua capacidade de raciocínio nem seus sentimentos ou emoções são anulados. O que ocorre é que “a associação entre emoção e cognição na tomada de decisões fica bloqueada”, esclarece o médico. Contudo, ressalta, esses indivíduos “são responsáveis por seus atos”.O estudo sugere que a origem dessa maturação acelerada de algumas regiões cerebrais está em ter sofrido situações de estresse emocional em idades precoces. O cérebro desenvolve essa maturação excessiva para se proteger das circunstâncias que lhe causam sofrimento. “Em um contexto de estresse emocional, a criança desencadeia uma maturação excessiva que implica, por um lado, um bloqueio para fugir do sofrimento e, por outro, transforma a pessoa em alguém não escrupuloso e carente de remorsos”, diz o médico. Ao amadurecer precocemente, a criança amplia a capacidade de tolerância ao sofrimento e consegue esquivar-se dessa situação emocional que lhe fere. Entretanto, esse sistema de defesa provoca danos colaterais: “Eles não têm freio emocional”, sintetiza Pujol. O médico observa que não se trata de um trauma, e sim de algo persistente ao longo do tempo, a ponto de modular a anatomia do cérebro.

Semelhanças com o consumo de esteroides
Os pesquisadores também encontraram semelhanças entre os cérebros dos psicopatas e de pessoas que consomem esteroides androgênicos durante mais de 10 anos (essas substâncias geralmente servem para melhorar o rendimento esportivo ou aumentar a massa muscular). As alterações cerebrais detectadas nos psicopatas e nas pessoas que consomem esses anabolizantes por longos períodos são as mesmas.

Mas Pujol observa que tal semelhança não significa que os consumidores de esteroides acabem desenvolvendo um transtorno psicopático em longo prazo. “Há uma semelhança anatômica das duas patologias. Embora seja verdade que o controle dos impulsos e a conduta podem mudar após consumir esteroides durante longos períodos, isso está longe de pensar que pode gerar uma psicopatia.”

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Dodge denuncia Michel Temer ao STF por corrupção e lavagem de dinheiro no caso dos portos, por Mariana Oliveira

Em outubro, Polícia Federal informou ao STF ter encontrado indícios de que Temer e mais dez pessoas integraram um suposto esquema para favorecer empresas com a edição de um decreto.

Raquel Dodge denuncia Temer no inquérito dos portos

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou nesta quarta-feira (19) o presidente da República, Michel Temer, no inquérito dos portos. A acusação criminal foi apresentada no último dia antes do recesso do Judiciário, que começa nesta quarta (20).

Em 16 de outubro, a Polícia Federal (PF) informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) ter encontrado indícios de que Temer e mais dez pessoas integraram um suposto esquema para favorecer empresas específicas na edição de um decreto sobre o setor portuário.

Após a divulgação do pedido de Dodge, o presidente Michel Temer afirmou, por meio de nota, que "provará, nos autos judiciais, que não houve nenhuma irregularidade no decreto dos portos, nem benefício ilícito a nenhuma empresa".

Na denúncia apresentada nesta quarta, de 72 páginas, Dodge pede que Temer seja condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

"As provas coligidas na investigação demonstram a existência de um pernicioso e perene esquema de troca de favores, cujo epicentro era Michel Temer, configurando um sistema institucionalizado de corrupção", diz Dodge.

A procuradora denunciou outras cinco pessoas por corrupção ativa e passiva e lavagem, entre elas, o ex-assessor especial da Presidência da República, Rodrigo Rocha Loures. A procuradora também pede a condenação do amigo do presidente, o coronel aposentado da Polícia Militar João Baptista Lima Filho.

A PGR pede que todos sejam condenados a pagar uma indenização por danos morais de R$ 32.615.008,47, soma dos valores desviados.

Trata-se da terceira denúncia apresentada contra Temer no exercício do mandato de presidente. Outras duas foram suspensas por decisão da Câmara dos Deputados, a que acusou ele de organização criminosa para desviar dinheiro de estatais e a denúncia na qual foi acusado de desvio no caso da mala de R$ 500 mil recebida por um assessor de executivo da JBS.

A acusação formal foi apresentada a 12 dias do fim do mandato de Michel Temer e, portanto, não haverá tempo hábil para o Congresso decidir se a denúncia pode ou não ser analisada, como prevê a Constituição.

Em razão disso, Dodge quer que, a partir de 1º de janeiro, a denúncia seja enviada à Justiça Federal de Brasília, a quem caberá decidir se eles viram ou não réus.

O relator do caso, ministro Luís Roberto Barroso, deverá encaminhar a denúncia para a primeira instância em fevereiro, após o recesso do Judiciário.
O presidente Michel Temer — Foto: Fátima Meira


Caso dos portos
O inquérito dos portos foi aberto em setembro de 2017 pelo ministro Luis Roberto Barroso, do STF, para investigar o presidente Michel Temer por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro.

O ministro atendeu a pedido do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, após a delação de executivos do grupo J&F. Os empresários denunciaram pagamentos de propina a agentes políticos, entre eles Michel Temer e o ex-assessor dele, Rodrigo Rocha Loures, envolvendo decreto editado por Temer.

Foram denunciados pela procuradora-geral da República:
O ex-assessor especial da Presidência Rodrigo Rocha Loures;
Os empresários Antônio Celso Grecco e Ricardo Mesquita, da Rodrimar;
O coronel aposentado João Baptista Lima Filho e
Carlos Alberto da Costa, da Argeplan.

Segundo a denúncia, Temer teria recebido valores por meio das empresas Argeplan, Eliland do Brasil, PDA Administração e Participação LTDA e PDA Projeto e Direção Arquitetônica. Ao todo, é apontada movimentação indevida de R$ 32,6 milhões.

Toffoli derruba decisão que mandou soltar presos condenados em 2ª instância, por Mariana Oliveira

Presidente do STF atendeu a pedido de Raquel Dodge. Ministro Marco Aurélio havia determinado a soltura de todas as pessoas que estivessem presas por terem sido condenadas em 2º grau.

Toffoli cassa liminar que soltaria condenados em segunda instância

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, derrubou nesta quarta-feira (19) a decisão do ministro Marco Aurélio Mello sobre presos condenados em segunda instância.

Mais cedo, nesta quarta, Marco Aurélio mandou soltar todas as pessoas que estivessem presas por terem sido condenadas pela segunda instância da Justiça.

Diante disso, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, recorreu ao Supremo, e Toffoli, de plantão, derrubou a decisão de Marco Aurélio.

Pela decisão de Toffoli, a decisão de Marco Aurélio está suspensa até 10 de abril do ano que vem, quando o STF julgará o tema em definitivo (leia detalhes mais abaixo).

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que até 169 mil pessoas poderiam ter sido beneficiadas pela decisão de Marco Aurélio, entre elas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Preso desde abril, Lula foi condenado pelo Tribunal Regional de Federal da Quarta Região (TRF-4), responsável pela Lava Jato em segunda instância.

O ministro Dias Toffoli, presidente do STF — Foto: Dida Sampaio

A decisão de Toffoli
A decisão foi tomada em uma "suspensão de liminar", tipo de ação que sempre é analisada pelo presidente da Corte, independentemente do recesso do Judiciário.

No documento de oito páginas, o presidente do Supremo afirma que a decisão de Marco Aurélio coloca em risco a ordem pública.

"Tem-se, portanto, que a admissibilidade da contracautela pressupõe, entre outros aspectos legais, a demonstração de que o ato impugnado possa vir a causar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia pública", escreveu Toffoli.

"Em face da relevância do tema e do potencial risco de lesão à ordem pública e à segurança, advindas da decisão impugnada, cumpre a imediata apreciação do pleito deduzido pela douta Procuradora-Geral da República", disse.

Segundo o ministro, a decisão de Marco Aurélio contraria ainda "decisão soberana" do plenário.

"E é por essas razões, ou seja, zeloso quanto à possibilidade desta nova medida liminar contrariar decisão soberana já tomada pela maioria do Tribunal Pleno, que a Presidência vem a exercer o poder geral de cautela atribuído ao Estado-Juiz."

Toffoli lembrou ainda que o julgamento do caso já está marcado para 10 de abril do ano que vem.

Após a decisão, o presidente eleito Jair Bolsonaro parabenizou Toffoli por derrubar a decisão de Marco Aurélio (veja na imagem abaixo):
Parabéns ao presidente do Supremo Tribunal Federal por derrubar a liminar que poderia beneficiar dezenas de milhares de presos em segunda instância no Brasil e colocar em risco o bem estar de nossa sociedade, que já sofre diariamente com o caos da violência generalizada!---67.6K--12:17 AM - Dec 20, 2018

Julgamento em 2019
No início da semana, Toffoli anunciou à imprensa que as ações sobre prisão após segunda instância serão julgadas no dia 10 de abril do ano que vem.

Desde 2016 o Supremo entende que a pessoa pode ser presa após ser condenada em segunda instância, mas ações no tribunal visam mudar esse entendimento.

No ano que vem, o STF analisará três ações apresentadas pelos partidos PCdoB e Patriota, além da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

O principal argumento é que o artigo 283 do Código de Processo Penal estabelece que as prisões só podem ocorrer após o trânsito em julgado, ou seja, quando não couber mais recursos no processo.

Além disso, o artigo 5º da Constituição define que "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória".

Esse artigo, segundo a própria Constituição, não pode ser modificado por emenda aprovada pelo Congresso por ser "cláusula pétrea".

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Tesouros de imigrantes alemães confiscados por Vargas na Segunda Guerra são descobertos, por Juliana Dal Piva e Nicollas Witzel

Famílias, incluindo judeus que fugiram do nazismo, perderam joias, moedas de ouro e pratarias durante Estado Novo
Hitler
Foi num sábado, 22 de março de 1941, que a tensão da Segunda Guerra Mundial chegou de vez ao Brasil. O navio brasileiro Taubaté havia saído do Chipre e navegava pelo Mar Mediterrâneo com uma carga de batatas, lã e vinho quando, próximo de Alexandria, no Egito — seu destino final —, foi atacado por um avião da Luftwaffe, a Força Aérea alemã. As bombas não atingiram a embarcação, mas os tiros de metralhadora fizeram a primeira vítima fatal brasileira, o conferente de mercadorias José Fraga. Oito pessoas ficaram feridas. A agressão contra uma embarcação do país, neutro até aquele momento, fez com que a sociedade cobrasse uma posição firme do presidente Getulio Vargas. “Bombardeado”, estamparam os jornais do dia 26, quando a notícia chegou ao Brasil.

Vargas preferiu manter cautela. O país vivia sob o Estado Novo, o regime ditatorial implantado pelo caudilho gaúcho em 1937. Apesar de flertar com os ideais fascistas, o ditador mantinha boas relações com os Estados Unidos. Em 28 de janeiro de 1942, sob pressão americana, o Brasil abandonou a posição de neutralidade e rompeu relações com os países do Eixo — a Alemanha, a Itália e o Japão. Submarinos alemães e italianos começaram então a atacar embarcações brasileiras. Em sete meses, 20 navios foram bombardeados e mais de 700 brasileiros morreram. Em 22 de agosto de 1942, Vargas finalmente declarou guerra ao Eixo.

Passaram-se, porém, quase dois anos para que o Brasil entrasse de fato no conflito. A demora gerou o dito popular de que “é mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra”. Da máxima nasceu a expressão “a cobra vai fumar”, que virou lema da campanha e símbolo do brasão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Somente em julho de 1944 — depois de outros 14 navios brasileiros terem sido bombardeados, com mais de 300 mortes — os primeiros combatentes da FEB embarcaram para a Itália — 25 mil participaram do conflito.

O governo Vargas demorou para ir à guerra contra o Eixo, mas tomou rapidamente medidas contra cidadãos alemães, italianos e japoneses em território brasileiro. Entre elas, a proibição de que falassem em público outra língua que não fosse o português. Jornais e rádios voltados para essas comunidades foram proibidos. Associações e clubes tiveram de mudar de nome e encerrar atividades ligadas a suas culturas de origem. O controle de entrada desses imigrantes no país ficou muito mais rigoroso.

Numa quarta-feira, 11 de março de 1942, os cidadãos dos países do Eixo sofreram um duro golpe. Eles tiveram os bens confiscados por meio do Decreto-Lei 4.166. O governo Vargas alegou que a Alemanha não havia cumprido a promessa de indenizar o Brasil pelo ataque ao cargueiro Taubaté e tinha provocado novos prejuízos ao país com ataques a outros navios. 
Os bens dos “súditos alemães, japoneses e italianos” serviriam, segundo o Decreto, como uma garantia até o pagamento das indenizações pelo governo alemão. A medida abarcava propriedades de todos os cidadãos de países do Eixo, sem exceções. Ou seja, mesmo as famílias judias que haviam fugido do nazismo teriam de pagar pelos ataques da máquina de guerra de Adolf Hitler. O Decreto determinava que os bancos entregassem dinheiro e objetos valiosos depositados pelos “súditos” do Eixo ao Banco do Brasil, que ficaria responsável por guardá-los.
Primeira página do Jornal O Globo de 26 de março de 1941

Mais de 70 anos depois, uma parte esquecida desse tesouro foi resgatada dos porões do banco — onde esteve guardada em um baú, sofrendo os efeitos do tempo — e virou objeto de desejo de museus. Segundo o diretor do Museu Histórico Nacional, Paulo Knauss, há três anos o banco havia sondado o interesse do Instituto Brasileiro de Museus em receber o acervo, que era discutido em um processo administrativo desde 1998. “O interesse do Banco do Brasil era encerrar esse processo. Eles tinham a guarda do material desde a década de 40 e, por alguma razão, eram obrigados a mantê-lo até o processo encerrar. Então, eles nos procuraram”, explicou Knauss. 
A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), a Advocacia-Geral da União e outros órgãos discutiam o que fazer com os itens não reclamados, já que de 1950 a 1967 o governo editou diversos decretos permitindo a restituição dos bens. No entanto, parte dos imigrantes jamais reivindicou seus objetos confiscados. O tempo passou e eles ficaram no depósito da Agência 01 do Banco do Brasil, na Rua Senador Dantas, no centro do Rio de Janeiro, oxidando e acumulando pó.

A museóloga Adriana Bandeira Cordeiro lembra bem quando, em 24 de maio de 2016, integrou uma comitiva de especialistas que resgatou os itens da sede do banco no Rio. Ela recorda que os objetos estavam guardados em cinco conjuntos, cada um em nome de uma família diferente. “Não havia nenhuma outra informação, além do que estava junto aos conjuntos em si”, contou.
Cordeiro e o restante dos pesquisadores pegaram a listagem de itens e passaram a conferir se tudo que o banco indicou estava realmente armazenado.

Uma caixa com a inscrição “J.C. Muller & Cia” continha um conjunto de peças de uma máquina de fabricação de charutos. Na segunda caixa, em nome de Walter Coleman, havia cinco álbuns de selos postais do mundo todo, alguns inéditos no Brasil e datados até de 1910. Um envelope com identificação “C. de Montenegro” continha dois anéis. O primeiro, dourado e rodeado por pedras verdes, aparentemente feminino. O outro, também dourado e com duas pedras brilhantes, tinha ainda uma central na cor rubi, com símbolos na lateral.

A maior parte dos objetos, porém, estava em nome de dois casais. No envelope de Egon e Alice Levinstein foi identificado um conjunto de 17 moedas de ouro dos séculos XVIII e XIX, tanto do Brasil quanto da Inglaterra — itens raros de colecionador. Já Alfred e Erna Lindinger tinham em seu nome uma pesada mala de madeira, marrom e quadrada, com algumas joias e repleta de prataria que incluía bandejas, castiçais, talheres e troféus, entre outros itens.

Getúlio Vargas apreendeu objetos de famílias japonesas, italianas
e alemãs que nunca foram resgatados Foto: Ana Branco
Uma vez verificado que tudo estava em ordem e felizes com a descoberta, os pesquisadores dividiram os itens de acordo com as especificidades de suas instituições. O Museu da República, localizado no antigo Palácio do Catete, ficou com todos os objetos dos Lindingers. Já o Museu Histórico Nacional agregou a seu acervo a coleção de moedas do casal Levinstein e os álbuns de selos de Walter Coleman. Havia muito trabalho de restauração a ser feito, mas nenhuma informação sobre as pessoas que um dia possuíram 
aqueles objetos.

Ao saber da descoberta dos artigos, nos últimos dois meses, a encontrar famílias e seus descendentes. A pesquisa nos arquivos de navios e nos processos de naturalização que constam no Arquivo Nacional permitiu conhecer a história de Egon e Alice Helene Levinstein, além de sua filha, Ruth. Eles chegaram ao Brasil a bordo do vapor Algorab, que atracou no porto de Santos, no litoral paulista, no dia 15 de maio de 1940. Depois, seguiram para o Sul do país e foram morar em Blumenau, em Santa Catarina, onde se tornaram sócios da tradicional Fábrica de Chocolates Saturno.
.Objetos hoje estão sob responsabilidade de Regina Capela, no Museu da República Foto: Ana Branco

Os motivos que trouxeram os Levinsteins a um país do outro lado do oceano foram conhecidos depois que em São Paulo, o único neto do casal. O psicólogo Marcelo Rosenfeld, de 62 anos, não carrega o sobrenome da mãe, o que dificultou a busca por seu paradeiro. Somente com a ajuda de um banco de dados de famílias judias alemãs, que mapeia vítimas do holocausto, foi possível identificá-lo.

Marcelo recebeu a reportagem em seu escritório em Higienópolis, região central de São Paulo. Lá, entre estantes de concreto e livros coloridos, ele guarda as maiores relíquias trazidas por sua família da Alemanha e herdadas por ele com o falecimento dos avós e da mãe. São álbuns de fotos, bonecos, prataria, toalhas e uma caixinha estofada da cor bordô, onde guarda os itens mais antigos.

Nos olhos azuis, no rosto redondo e na pele clara, Marcelo carrega as evidentes feições da família. No primeiro contato, o neto dos Levinsteins até duvidou do encontro com os objetos de seus avós. Foi somente quando viu as imagens que se rendeu à história da família que ainda não conhecia. “Que interessante. Então vocês estavam certos: foi um confisco por causa da guerra”, exclamou, emocionado.

Em 1939, os Levinsteins partiram de Stolp, uma cidade que à época pertencia à Alemanha, mas hoje fica na Polônia. Família de comerciantes, o casal trabalhava com tecidos e alfaiataria em uma loja espaçosa. Os negócios iam bem até a ascensão de Hitler e o início da perseguição aos judeus, cujos comércios eram identificados com placas e pichações para que fossem achincalhados pela população simpática ao regime. A família, facilmente identificada como judia por seu sobrenome, percebeu a tempo a ameaça de trabalhar na Alemanha em meio a escalada das perseguições, que pioraram com a eclosão da guerra. “Eles até demoraram para sair. Acho que não acreditaram, no início do governo de Hitler, que tudo aquilo aconteceria. Minha avó falava com muita saudade de sua vida na Alemanha, antes da guerra”, recordou Marcelo.

O passaporte de Egon e Alice registrava a saída do casal de Berlim em direção a Roterdã, na Holanda. De lá, vieram para o Brasil, um destino que parecia provisório, já que o visto final era para o Paraguai. Apesar disso, o casal desembarcou aqui para nunca mais voltar. Mas o recomeço no Brasil também reservaria tragédias para a família Levinstein. Enquanto o casal refazia a vida em Blumenau, sua filha, Ruth, foi para São Paulo cursar faculdade de farmácia e, depois, odontologia. Morava em um pensionato na Rua Monte Alegre, no bairro de Perdizes. Lá, o destino fez com que ela cruzasse caminhos com um vizinho que também se reerguia dos terrores da época.

Gerson Rosenfeld era judeu, de origem iugoslava, e havia sobrevivido a um dos capítulos mais sombrios da história do mundo — os campos de concentração nazistas. Tinha sido conduzido por vários deles durante pelo menos um ano — entre os quais Dachau e Auschwitz, dois dos maiores construídos pelo regime de Adolf Hitler. Os sobreviventes dos campos de concentração jamais esqueceram os horrores presenciados dentro dos muros de concreto e arame farpado. Apenas em Auschwitz, mais de 1 milhão de judeus foram mortos.

“Eu sempre fui muito banhado pelas histórias de minha mãe. Já meu pai tinha mais dificuldade de falar do passado”, contou Marcelo. “Quando falamos, pouco tempo antes de ele morrer, foi uma das primeiras vezes que vi meu pai chorar. Ele tinha uma memória fantástica, lembrou-se de quando meu avô deu para ele o último pedaço de pão que tinha, quando os dois estavam entrando no campo. Essa foi a última vez que se viram, porque meu avô foi morto logo depois. Na família de minha mãe, as perdas tiveram um delay, ela foi descobrindo aos poucos, depois da guerra. Com meu pai, foi tudo ao vivo.” Depois do fim da guerra, Gerson voltou a sua cidade natal, até que, em 1947, chegou ao Brasil.

Gerson Rosenfeld e Ruth Levinstein se casaram em 1954, na capital paulista. Marcelo nasceu dois anos depois. Em 1957, enquanto Ruth esperava um segundo filho, outra reviravolta mudaria drasticamente a vida de todos. Ela atravessava a Avenida São João quando foi atropelada por um caminhão. Depois da morte da mãe, Marcelo foi morar com os avós em Blumenau. “Lembro-me muito da gente andando de mãos dadas na fábrica de chocolate”, recorda ele, como que num sonho. Em 1963, os três voltariam a viver em São Paulo. O avô, Egon, faleceu em decorrência de problemas no coração, em 1967. A avó, Alice, se foi nos anos 2000, e o pai, Gerson, morreu em 2017. Marcelo decidiu então procurar parentes na Europa, mas não obteve sucesso.

A única informação sobre a coleção de moedas dos avós estava justamente no envelope que as manteve guardadas desde 1942. No papel almaço dizia: “Contém 17 moedas contabilizadas ao câmbio de 10,50 cruzeiros vigente em 11 de março de 1942 no valor de 295,10 cruzeiros entregues pelo Banco Holandês Unido – Santos (SP) para custódia em nome de Egon e Alice Levinstein”. Marcelo agora deseja ver de perto as moedas de ouro que jamais conheceu.

O outro casal, Erna e Alfred Lindinger, donos originais da maioria das peças resgatadas do Banco do Brasil, possui uma história bastante diferente. No Arquivo Nacional e nos Arquivos Públicos do estados do Rio de Janeiro e de São Paulo não havia nenhum registro da data em que o casal chegou ao Brasil. A única informação localizada no arquivo da Polícia Política paulista foi um prontuário que investigou alemães no Brasil e no qual constava que um homem, identificado como Franz Lindinger, filiou-se ao partido nazista de São Paulo, em 1935. Não há, porém, outros registros sobre ele ou relações diretas com o casal Erna e Alfred.

Apesar da ausência de documentos, inúmeros registros, em colunas sociais de jornais, de uma vida pública ativa do casal anterior à Segunda Guerra Mundial, nos anos 30. Os dois tiveram um filho, de nome Axel Essiu Alfred Lindinger, nascido no Rio de Janeiro em 16 de agosto de 1933. Amantes do hipismo, o casal praticava provas de salto nas competições do Centro Hípico Brasileiro (CHB), no Rio. Nos jornais da época, há registros de provas em que Erna Lindinger competiu aos olhos da sociedade carioca, incluindo representantes do governo Vargas, em dezembro de 1932. Entre 1938 e 1939, seu marido, Alfred, integrou o Conselho Fiscal da entidade.

No mesmo período, o CHB deu lugar à recém-criada Sociedade Hípica Brasileira (SHB). O casal Lindinger esteve entre os fundadores, com o título adquirido em 25 de novembro de 1938. Como a mulher, Alfred também figurou nas competições, como se pode ver nas páginas da revista Esporte Ilustrado, na edição de 5 de junho de 1941, dia de evento na SHB. “O Sr. Alfred Lindinger (SHB) dirigiu muito bem o seu ‘Paladino’, e, apenas com uma falta e tempo muito bom, conseguiu o 3° lugar”, dizia a reportagem.
Marcelo Rosenfeld, em seu escritório em São Paulo Foto: Olga Vlahou

Na grande mala marrom onde os objetos confiscados ficaram todos esses anos, havia outras pistas da atividade profissional da família. O tempo não destruiu uma etiqueta colada na parte de cima com a inscrição “prataria de propriedade de Alfred e/ou Erna Lindinger guardada na Casa Forte do Banco Alemão Transatlântico”. O peso: 26,8 quilos.

Na parte de baixo da caixa, entre lacres e anotações já amareladas pelos anos, uma etiqueta da Gunther Wagner Ltda. deu outra pista sobre o casal. De origem alemã e famosa por suas canetas-tinteiros, conhecidas sob a marca Pelikan, a fábrica teve uma filial funcionando no Rio de Janeiro. Uma pesquisa no Diário Oficial comprovou que Alfred foi um dos sócios da empresa. Mas não por muito tempo.

O clima de perseguição aos estrangeiros no Brasil deve ter pesado aos Lindingers, que começaram a se desfazer de suas propriedades no país a partir do fim de 1941 — o título na SHB foi vendido em outubro daquele ano. Em 1942, o Diário Oficial registrou a cessão das ações na Gunther Wagner para Jorge Reis Buchmuller até 1952. O valor do negócio, na ocasião, foi de 10 mil cruzeiros.

O governo Vargas, porém, não aceitou a venda e confiscou as ações e os valores do negócio. Em 1º de dezembro de 1944, o então presidente anulou a cessão por meio de um decreto e determinou que os valores do negócio ficassem retidos no Banco do Brasil, já que Alfred vivia em Hannover, na Alemanha. Depois disso, não foram encontrados outros registros de Alfred e Erna Lindinger no Brasil, indicando que o casal tinha saído do país, sem data para voltar.

A prataria abandonada no Banco Alemão Transatlântico foi então enviada ao Banco do Brasil, um movimento forçado pelo Decreto de Vargas. Mas o próprio banco, que funcionou no Brasil a partir de 1911, com filiais no Rio, em São Paulo e no Paraná, também tinha relação com o governo nazista.

Quando Getulio baixou a ordem de confisco, em 1942, imediatamente o banco também se tornou um alvo. Suas atividades foram paralisadas em todo o país, e interventores nomeados encerraram as operações. Segundo os arquivos da Polícia Política de São Paulo, pelo menos oito integrantes da instituição eram filiados a uma célula nazista, além de outros quatro que estavam envolvidos em suas atividades. A historiadora Priscila Perazzo, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, disse que muitos foram presos nesse período. “Os altos funcionários do banco tinham bastante relação com os nazistas, sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo. Eles foram presos em 1942 e, na ficha deles, estão descritos como filiados ao partido”, explicou.

A descoberta da prataria junto às moedas dos Levinsteins indica que as duas famílias tiveram seus destinos entrelaçados por suas relações individuais com Auschwitz. Nos anos 40, a companhia alemã Gunther Wagner seguiu crescendo na Alemanha e se espalhou por diversos países, mesmo em meio à guerra. Em 2005, o escritor Ian Thompson publicou um artigo no jornal inglês The Guardian sobre as pesquisas que, naquele período, revisavam os estudos do Holocausto. Thompson explica como algumas empresas alemãs exploraram a presença de judeus em Auschwitz, citando entre elas Bayer, Agfa, Basf e a Pelikan, a marca das canetas-tinteiros da Gunther Wagner, que fornecia tinta para tatuar prisioneiros. Ao chegar aos campos, os judeus eram marcados com números, e essas tatuagens permaneceram ao longo de toda a vida.

Demorou 70 anos para que os objetos alemães tivessem seu reencontro com Getulio Vargas — ou o que restou dele, no Museu da República. O acervo da família Lindinger foi distribuído em duas grandes gavetas, alocadas no mesmo corredor que a peça mais importante do museu, o pijama perfurado pelo projétil que matou o ditador em 1954. Quando foram desembalados da mala, viu-se que os objetos estavam todos cobertos por uma camada negra de corrosão. “Como estavam fechados numa mala, houve a oxidação normal da prataria. Mas não foi um processo violento, a ponto de destruir as peças. Não foi necessário fazer uma restauração, optamos por uma higienização mecânica, sem produtos químicos e com o auxílio da borracha”, explica Regina Capela, técnica responsável pela limpeza das peças.

A prataria limpa da família Lindinger foi levada para a reserva técnica, destino de 80% dos acervos dos museus de todo mundo. Ao longo dos anos, as instituições acumulam tantas peças que só uma pequena parte pode ficar exposta ao mesmo tempo. O revezamento também ajuda a manter os itens em constante observação, fazendo reparos logo que algum defeito aparece. “Aqui, no Palácio do Catete, essa proporção é ainda maior, só 9% fica exposto”, explicou o museólogo Andre Angulo.

A corrosão escondia detalhes como inscrições, iniciais de famílias, nomes completos e mensagens talhadas na prata alemã. Vinte e sete itens, a maioria talheres, revelaram inscrição de uma letra “B” maiúscula. No meio das peças estava, ainda, um conjunto de alianças com os nomes “José e Judith” gravados na face interna. Uma bandeja marcada com a letra “L” no fundo é o único objeto com gravação diretamente relacionável com o sobrenome Lindinger. Há também uma carteira de cigarros com uma mensagem escrita em alemão. “Para lembrar o trabalho bem-sucedido e as horas felizes.” Alfred recebeu dedicatória em dois troféus pela prova Dragões da Independência — regimento de cavalaria subordinado ao Exército Brasileiro —, um deles datado de 1933.

O diretor do museu, Mário Chagas, lamentou que os itens tenham ficado tanto tempo sem contribuir para a pesquisa da época, longe dos olhares do público. “Faz todo sentido que isso esteja no Museu da República. Ao todo, nós recebemos 214 peças, muita coisa em prata de excelente qualidade e com indicações históricas, marcas, monogramas. Nossa meta é expor esse acervo assim que conseguirmos conectá-lo com o restante da nossa coleção”, explicou.

Uma grande quantidade de alemães transitou pelo país entre os anos 30 e 50, deixando objetos de suas famílias, alguns deles já recolhidos pelo museu. Como parte desses imigrantes foi ligada ao partido criado por Hitler, o Brasil abrigou a maior célula nazista fora da Alemanha, chegando a 2.822 integrantes oficialmente registrados. Algumas influências dessa comunidade acabaram eternizadas, como os pedalinhos da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, implantados por um aviador letão de nome Herbert Cukurs. 
Pouco tempo depois de conquistar a simpatia dos cariocas com o projeto que chamava de “bicicletas aquáticas”, Cukurs foi acusado de cometer crimes de guerra durante a ocupação nazista da Letônia — que aconteceu entre 1941 e 1944. Acusado pela Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro de ser membro ativo da SS, organização paramilitar ligada ao partido nazista, acabou assassinado em 1965, no Uruguai, pelo serviço secreto israelense. 
Sobre o corpo, baleado à queima-roupa e abandonado dentro de um baú, foi achado um bilhete assinado por “aqueles que jamais esquecerão”.
A ficha de chegada ao Brasil de Herbert Cukurs, da Letônia. Foto: Reprodução

Conhecido por seu esforço de preservação da memória, o Estado alemão procura, até hoje, nazistas espalhados pelo mundo. Desde 2009, integrantes do Escritório Central de Administração Judiciária Nacional em Ludwigsburg fizeram várias visitas ao Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, à procura de alemães nascidos entre 1916 e 1931. Na última delas, em outubro deste ano, tentaram localizar funcionários de baixo escalão. Os que se encaixam no perfil tem seus dados enviados à sede, na Alemanha, que verifica se aquela pessoa esteve a serviço do Terceiro Reich. Além do Brasil, o procedimento também acontece na Argentina, Bolívia, Chile, Peru e Uruguai.

Entre todos os nazistas que fugiram para o Brasil, o caso mais conhecido é o de Josef Mengele, conhecido como Anjo da Morte. Ele foi médico em Auschwitz, encarregado da triagem dos prisioneiros que eram enviados ou para trabalho forçado ou para a morte nas câmaras de gás. Mengele morreu afogado em 1979, aos 67 anos, em Bertioga, no litoral paulista, sem nunca ter sido julgado.

Por outro lado, muitas famílias imigrantes também sofreram perseguição indiscriminada. Para ser alvo, bastava ser alemão, italiano ou japonês. No livro O retrato da repressão: as perseguições a alemães no oeste de Santa Catarina durante o Estado Novo (1937-1945), o historiador Leandro Mayer conta como Antônio Kliemann, filiado à Ação Integralista Brasileira, foi acusado de um crime que nunca cometeu. O comerciante foi preso e terminou com sequelas mentais por causa das torturas que sofreu na prisão. Acusado de trazer armas da Argentina para a região de Itapiranga, no extremo-oeste catarinense, Kliemann foi o único anistiado do Estado Novo reconhecido pelo Estado.