terça-feira, 31 de outubro de 2017

Fundador da Fogo de Chão assumirá lugar que abrigou Porcão Rio's, no Aterro,por ANCELMO GOIS



A volta da picanha 

Sabe Jair Coser, que fundou, ao lado do irmão Arri, a Fogo de Chão, posteriormente vendida ao fundo GP? Ele, que criou a rede Corrientes 348, vai assumir o lugar que, no passado, abrigou o Porcão Rio’s, no Aterro. Em dezembro, inaugura lá a Assador Rio's.

Arte de CHICO

Charge (Foto: Chico Caruso)

CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO RUSSA-- Retrato do meu assassino, por BERNARDO MAR

Biografia de Stalin em grande parte inédita era escrita por Trotsky quando foi assassinado a mando do biografado

Leon Trotsky no escritório de sua casa no México. AFP

“Stalin se divertia em sua casa de campo degolando ovelhas ou jogando querosene nos formigueiros e ateando fogo. Kamenev me disse que, em suas visitas de lazer aos sábados a Zubalovka, Stalin caminhava pelo bosque e continuamente se divertia atirando nos animais selvagens e assustando a população local. 

Tais histórias sobre ele, procedentes de observadores independentes, são numerosas. E, no entanto, não faltam pessoas com esse tipo de tendências sádicas no mundo. Foram necessárias condições históricas especiais antes de que esses instintos obscuros encontrassem uma expressão tão monstruosa”.

A história desse livro merecia a publicação de outro que a contasse. Trotsky, exilado no México após ter o asilo rejeitado em vários países, sabia que estava condenado pelo líder da União Soviética, Josef Stalin. Mas não tinha interesse particular em escrever sobre a vida de seu antigo camarada. “Não foi uma vingança. Escrever essa biografia não estava nos planos do meu avô. Estava concentrado em acabar outra, sobre Lenin”, afirma Esteban Volkov, neto do revolucionário, em conversa por telefone da Cidade do México, onde mora. “Mas precisava de dinheiro e a editora Harper & Brothers, de Nova York, fez uma oferta generosa”.Essas palavras fazem parte de uma biografia singular. Pela relevância de seus protagonistas, duas das figuras proeminentes da Revolução Russa, divididas por uma das rivalidades mais marcantes do século XX. E porque o perfil ficou incompleto depois que o retratado ordenou a morte de seu biógrafo. Stalin, a obra que Leon Trotsky escrevia quando foi assassinado por Ramón Mercader, no México, em agosto de 1940, permaneceu adormecida durante mais de sete décadas. E depois de muitas peripécias, mutilações e acréscimos, volta a ver a luz em um volume de quase mil páginas, em grande parte inédito, coincidindo com o centenário da chegada dos bolcheviques ao poder.

Volkov, prestes a completar 92 anos, tem sido durante décadas o guardião da memória de seu avô. Também é o diretor da Casa Museu Leon Trotsky, entre cujos muros o revolucionário foi assassinado em agosto de 1940 por um golpe de uma picareta de alpinismo do agente stalinista Ramón Mercader. O mesmo cenário onde será apresentada a versão em espanhol do livro, publicada pela editora mexicana Fontamara, no dia 11, coincidindo com o aniversário de uma Revolução de Outubro que, por diferenças entre os calendários gregoriano e juliano, ocorreu em novembro para o resto do mundo. A obra foi publicada há um ano em inglês por uma editora marxista de Londres e depois foi traduzido ao italiano e ao português, mas a notícia não teve repercussão na grande mídia.

SANGUE SOBRE PAPEL--JORGE F. HERNÁNDEZ

A biografia mais transcendental de Joseph Vissarionovich, tristemente ainda celebrado por alguns por seu apelido: Stalin, é um retrato minucioso do diabólico ditador russo em 890 páginas, escrito nada menos que por Leon Davidovich Bronstein, que conhecemos como Trotsky. Parece incrível que ao ser publicado em inglês há um ano não tenha sido manchete ou repercutido nas redes nem nas mais diversas resenhas. 

Vivemos em amnésias funcionais que creem saciar-se com 140 caracteres onde ao menos duas gerações só sabem algo de Leon Trotsky pelos filmes, postais, canecas e demais produtos que circulam desde que Frida Kahlo se transformou em marca registrada.

A imensa biografia assinada por um dos principais líderes da Revolução Russa esmiúça detalhadamente a demência incrível de um sanguinário traidor dessa mesma Revolução: um animal que pareceria indescritível se não existissem milhares de documentos, fotografias (inclusive as alteradas “pelo bem da História”), depoimentos, sobreviventes dos expurgos, náufragos do Gulag, proscritos redimidos e seguidores arrependidos que inclusive desde a primeira vitória bolchevique deixaram registros de sua trilha de desgraças e compêndio constante de crimes. Entre os parágrafos que Trotsky escrevia durante seu exílio incansável em sua frágil fortaleza de Coyoacán estavam sobre a mesa os papéis que seriam sua lápide, cuja redação se interrompeu quando Ramón Mercader cravou uma picareta de alpinismo em seu crânio.

Trotsky lutou com o enviado, sabendo que seu mandante se encontrava sorridente no Kremlin, e talvez durante sua agonia pensou que ao menos grande parte da escrupulosa biografia de seu executor e de quase toda a sua família, de milhões de seres humanos e de não poucas ilusões utópicas estava praticamente terminada. Tinha aceitado escrevê-la pelo atraente pagamento prometido por uma editora norte-americana, cujo tradutor a traduziu e editou mal, além de fazer emendas e acrescentar parágrafos da sua própria cabeça. Isso foi corrigido, e agora contamos com a publicação de um retrato do Diabo feito em prosa sobre papéis manchados de sangue.

A Harper & Brothers publicou uma versão incompleta do livro em inglês em 1946. Antes não era possível, porque os EUA e a União Soviética eram aliados contra a Alemanha. Mas a viúva de Trotsky, Natalia Sedova, pleiteou nos tribunais, sem êxito, para que fosse retirada. Suas objeções se dirigiam, principalmente, contra o editor e tradutor da obra. “Fez uma edição deficiente do livro, com mutilações e vários acréscimos da sua cabeça muito distantes do pensamento político do meu avô”, afirma Volkov. O próprio Trotsky nunca teve muita confiança em seu tradutor, e havia se indignado quando soube que ele tinha entregue alguns originais a terceiros. “Parece ter ao menos três qualidades: não sabe russo, não sabe inglês e é tremendamente pretensioso”, escreveu em uma carta ao jornalista norte-americano Joseph Hansen.

Mas uma parte da obra nunca chegou às mãos da editora. Quando soube estar condenado, Trotsky enviou à Universidade de Harvard, nos EUA, muitos de seus documentos para serem guardados. “Os arquivos saem esta manhã de trem”, escreveu o revolucionário em 17 de julho de 1940, um mês e três dias antes de seu assassinato. E lá se acumularam 20.000 documentos que ocupavam 172 caixas de artigos, fotografias, e papeis manuscritos, datilografados, traduzidos e sem traduzir, com grande quantidade de correções que demonstravam como seu trabalho era extraordinariamente meticuloso.

Capítulos inteiros do livro sobre Stalin permaneceram assim adormecidos até que em 2003 o historiador galês Alan Woods começou a pesquisar a montanha de documentos para resgatar a versão mais ampla e íntegra possível do livro. E depois de mais de 10 anos de trabalho o resultado foi uma obra um terço mais longa do que o livro publicado nos anos 1940, sem os acréscimos do primeiro tradutor e, agora sim, com a bênção da família de Trotsky.

Woods concorda com Volkov que Trotsky não queria escrever esse livro. “Mas uma vez que se dedicou a isso, o fez conscienciosamente, com muita documentação e detalhes, inclusive do período mais desconhecido da vida de Stalin, sua infância. Para qualquer leitor é um estudo psicológico fascinante”, diz de Londres, onde mora. O historiador é um membro ativo da Corrente Marxista Internacional. Participou da luta contra o Franquismo na Espanha e foi um firme defensor da revolução bolivariana e amigo pessoal de Hugo Chávez, ainda que nos últimos tempos tenha se distanciado da deriva do Governo venezuelano.

Os dirigentes do Partido Bolchevique eram, em geral, gente muito capacitada, e entre eles brilhava Trotsky, que dominava cinco idiomas e escrevia vários livros ao mesmo tempo. Stalin aparece, por outro lado, retratado por seu grande rival político como um homem de horizontes limitados. Esse perfil medíocre coincide com o feito por outros observadores, como o jornalista norte-americano John Reed, que em sua crônica Dez Dias que Abalaram o Mundo menciona o Homem de Aço, apelido de Stalin, apenas duas vezes, e Trotsky nada menos do que 67.

Mas, pelo que se conta no livro que agora será lançado, as qualidades de Stalin eram outras: a astúcia e a arte da manipulação. “A técnica de Stalin consistia em avançar gradualmente passo a passo até a posição de ditador, enquanto representava o papel de um defensor modesto do Comitê Central e da direção coletiva. Utilizou a fundo o período de enfermidade de Lenin para colocar indivíduos que eram devotos a ele. 

Aproveitou-se de cada situação, de cada circunstância política, de qualquer combinação de pessoas para promover seu próprio avanço que lhe ajudasse em sua luta pelo poder e para alcançar seu desejo de dominar os outros. Se não podia elevar-se a sua altura intelectual, podia provocar um conflito entre dois competidores mais fortes. Elevou a arte de manipular os antagonismos pessoais ou de grupo a novos níveis. Nesse campo desenvolveu um instinto quase infalível”.

No entanto, Woods não atribui a chegada ao poder de Stalin a seu caráter. “Era um menino maltratado por seu pai, rancoroso e com tendências sádicas. Mas nem todos que são maltratados se tornam monstros. Como nem todos os artistas fracassados se tornam Hitler”. E propõe um argumento marxista para explicar sua ascensão. “Em todas as revoluções há um período que se precisa de heróis, gigantes. Quando se chega a um período de declive, precisam de medíocres. A degeneração burocrática teria ocorrido com ou sem Stalin, porque a Rússia era um país isolado e atrasado. Mas nesse caso a burocracia se encarnou em um personagem sanguinário”.

O livro pode ter acelerado o assassinato? Stalin era muito bem informado sobre o que seu rival fazia. A cada manhã tinha os últimos artigos de Trotsky sobre sua mesa. E Volkov relembra como Robert Sheldon Harte, guarda-costas de seu avô a quem se atribui a traição que facilitou um primeiro atentado contra ele em maio de 1940, lhe perguntava sempre sobre o andamento da obra. “Como qualquer criminoso tinha que eliminar as testemunhas”, diz Woods

ESTEBAN VOLKOV: “UM DOS GRANDES CRIMES DE STALIN FOI MUTILAR A MEMÓRIA”Esteban Volkov, em sua casa na Cidade de México em 2016. SAÚL RUIZ

Esteban Volkov (Ialta, então União Soviética, 1926), neto de Leon Trotsky e herdeiro de seu legado, prepara nesses dias os atos para comemorar o centenário da Revolução Russa na Cidade do México, onde preside a Casa Museu onde seu avô foi assassinado. Chegou lá em 1939 para acompanhá-lo em seu exílio quando era adolescente, depois que seu pai desapareceu em um Gulag e que sua mãe morreu atacada por capangas de Stalin. Ficou ferido no pé no atentado que o pintor David Alfaro Siqueiros organizou para acabar com a vida do revolucionário em maio de 1940, e poucos meses depois foi testemunha da agonia de seu avô após ser atacado por Ramón Mercader. Apesar dos terríveis acontecimentos que presenciou, mantém um espírito sereno e um humor invejável, e, aos 91 anos, diz que espera viver muito mais “para compensar todos os anos que Stalin tirou de seus familiares”.

O senhor dedicou grande parte da sua vida e da sua energia para defender a memória do seu avô. O que te moveu a fazer isso?

Fui testemunha de seu assassinato e da campanha de calúnias e difamações contra ele da imprensa stalinista. Enquanto muitos se encarregavam de repetir mil e uma vezes para tratar de transformá-las em verdades. Um dos maiores crimes de Stalin foi mutilar a memória história. Se é crime dar um mapa falso a um explorador que vai entrar na Amazônia, dar planos falsos à humanidade é um crime ainda mais grave, colocar uma venda nos olhos dos seres humanos entre profundos abismos é um dos piores crimes que se pode cometer.

Qual valor tem a publicação dessa biografia de Stalin tantos anos depois?

Não era o livro que meu avô queria escrever, e o fez pressionado pelas dificuldades econômicas. Mas é muito interessante, porque foi escrito na época de maior maturidade política de Trotsky e conta o entorno em que um personagem com as características de Stalin, que supera a escala de falta de ética de qualquer um, pode chegar ao poder. Não há dúvida de que foi um indivíduo sui generis, de uma crueldade como poucas vezes se viu na história. Personagens como Nero e Átila ficam pequeninhos ao seu lado. E por isso possivelmente acelerou a sentença de morte que tinha lançado contra o meu avô quando soube que estava escrevendo sua biografia.

O que permanece do pensamento de Trotsky cem anos depois da Revolução Russa?

Meu avô deixou um arsenal de ideias políticas para mudar a sociedade. Para construir um mundo que vele pelo ser humano, e não pela ganância. Estudou a fundo o processo stalinista e a contrarrevolução. E previu com 70 anos de antecedência a queda do totalitarismo burocrático na União Soviética.

O gigante “mar de plástico” na costa de Honduras, por ÉL PAIS

Fotógrafa britânica fez o registro da catástrofe entre as ilhas caribenhas de Roatán e Cayos Cochinos
Imagem feita por Caroline Power entre as ilhas caribenhas de Roatán e Cayos Cochinos

Um mar composto de escovas de dentes, garfos, colheres, pratos e garrafas de plástico. Essa é a imagem que a fotógrafa e ativista britânica Caroline Power captou entre as ilhas de Roatán e Cayos Cochinos, no Caribe hondurenho. “Foi devastador ver algo que me importa tanto sendo lentamente assassinado e asfixiado”, disse ela ao jornal britânico The Telegraph.

“Isto precisa parar, pensem no seu cotidiano. Como você levou para casa a comida que sobrou na última vez que você foi a um restaurante? É provável que [a embalagem] fosse de isopor, servida com um garfo de plástico, e depois colocada numa sacola de plástico”, escreveu Power no Facebook. A publicação, feita em 16 de outubro, já foi compartilhada mais de 2.770 vezes e recebeu mais de 1.100 reações nessa rede social.

A fotógrafa, especializada em imagens submarinas, contou ter feito a descoberta durante uma viagem de mergulho a ilhotas conhecidas por mal superarem o nível do mar, permitindo assim a exploração de áreas “intocadas”. “Observar o lixo e os refugos foi devastador”, disse a fotógrafa.

A organização ambientalista Blue Planet Society disse que esse “mar de plástico” se formou por causa do lixo arrastado da Guatemala para a costa hondurenha pelas águas do fronteiriço rio Motagua. Nos últimos três anos, os dois países vêm tendo atritos por causa da contaminação desse curso hídrico.

“O Governo de Honduras lamenta que, apesar das diversas abordagens ao Governo da Guatemala e dos esforços realizados, estes não tenham sido suficientes (...) e ainda não se vejam resultados concretos e evidentes”, afirmou a secretaria hondurenha de Relações Exteriores em nota no último dia 23.

O Governo de Honduras exigiu a mitigação dos danos e uma indenização pelo “investimento realizado”. Já o presidente guatemalteco, Jimmy Morales, declarou ao jornal Prensa Libre que conversou com seu homólogo hondurenho sobre as tarefas necessárias para combater o problema, mas que estas “ainda não foram definidas”.

As meninas soviéticas que estouravam os miolos dos nazistas, por JACINTO ANTÓN

Lyuba Vinogradova revê a história das franco-atiradoras soviéticas na Segunda Guerra Mundial

Franco-atiradoras soviéticas da Segunda Guerra Mundial.

Eram majoritariamente muito jovens, algumas eram crianças. Vinham de toda a União Soviética. O Exército Vermelho as recrutou aos milhares na Segunda Guerra Mundial para usá-las como franco-atiradoras: deviam apontar suas armas à distância e estourar os miolos dos soldados inimigos, literalmente. Era a missão delas, era esse o ofício para o qual foram meticulosamente preparadas e, embora matassem nazistas que haviam invadido e devastado seu país e muitas tivessem longas listas de vítimas –e algumas inclusive desfrutaram disso–, quase todas tinham desmoronado e chorado na primeira vez, ao alvejar um ser humano com sua arma.
Tampouco nenhuma delas, cercada por uma grande massa de camaradas sexualmente famintos, foi poupada de ter de suportar o assédio e o abuso de seus comandantes e colegas masculinos, geralmente bêbados: um verdadeiro combate em duas frentes.

Embora várias tenham se tornado muito populares e até recebido o título de Heroínas da URSS, não puderam fazer carreira no Exército e, na volta para casa, foram muitas vezes xingadas de mulheres-machos ou prostitutas.

Quem conta isso é a pesquisadora russa Lyuba Vinogradova (Moscou, 1973) em sua chocante e ao mesmo tempo comovedora história dessas franco-atiradoras, Avenging Angels (recentemente publicada na Espanha pela editora Pasado & Presente com o título de Ángeles Vengadores, ou Anjos Vingadores). Reconhecida colaboradora de Antony Beevor e Max Hastings, Vinogradova –que teve publicada pela mesma editora sua obra sobre as não menos surpreendentes aviadoras soviéticas da mesma guerra (Defending the Motherland)– incluiu em seu livro depoimentos de algumas franco-atiradoras que ela mesma conheceu e entrevistou. Como Ekaterina Terekhova, de 90 anos, que manca levemente, consequência de um ferimento de guerra em Sebastopol, que abateu trinta alemães.
Embora pareça uma marca enorme, o número empalidece diante dos resultados de algumas de suas companheiras, como a lendária Liudmila Pavlichenko, considerada a melhor franco-atiradora de todos os tempos, à qual são atribuídas 309 mortes (Vinogradova questiona o dado), a maioria com sua espingarda semiautomática Tokarev SVT-40 com mira telescópica com aumento de 3,5 vezes (a maioria dos franco-atiradores, no entanto, preferia a mais simples espingarda de ferrolho Mosin-Nagant, mais precisa).

As franco-atiradoras eram, junto com as aviadoras, a elite das mulheres soldado soviéticas, das quais o Exército Vermelho, diante da escassez de homens pela sangria da guerra, enviou à frente de batalha mais de meio milhão (muitas mais se incluirmos as partizans e as milicianas civis) para servir em todos os postos, desde a simples infantaria até sapadoras, artilheiras e operadores de tanque. A iniciativa contrasta com a oposição absoluta de Adolf Hitler a que as alemãs pegassem em armas.

As franco-atiradoras, que obrigaram milhares de soldados alemães a rastejar, foram treinadas como seus colegas homens e sofreram como eles os rigores de uma guerra selvagem, aos quais foram acrescentadas penúrias específicas como ter suas tranças cortadas, não dispor de roupas e calçados adequados, de instalações sanitárias específicas ou das medidas de higiene que requerem. A menstruação era um aborrecimento quando se estava caçando nazistas. Muitas, diz Vinogradova, usavam calcinha e sutiãs que haviam trazido de casa sob a roupa íntima regulamentar de homem. Elas aprenderam a atirar, a se camuflar, a permanecer imóveis por longos períodos de tempo. Vinogradova cita que alguns estudos apontaram (com o perdão da palavra) que elas podiam ter melhor desempenho na caça por serem mais tranquilas e pacientes. Contra elas, tinham a dificuldade de suportar o violento recuo do fuzil.
Liudmila Pavlichenko à espreita.

“Era, naturalmente, muito mais difícil e traumático matar uma pessoa com uma espingarda do que em um avião”, diz. “A 200 ou 300 metros, através da mira telescópica, você vê perfeitamente o rosto da vítima, sabe muito bem quem está matando. Todas elas explicam que a primeira morte foi um grande choque. Algumas se acostumaram, outras não. Ao matar seu primeiro alemão, Lida Larionova pulou da trincheira horrorizada e correu para suas fileiras gritando: “Eu matei uma pessoa!”. Tonia Majliaguina, que era órfã, se lamentou depois de ter abatido sua primeira vítima: “Ele era pai de alguém e eu o matei!”. A morte foi deixando de impressioná-las de forma gradual. “Um cartucho, um fascista!”, incentivava Roza Shánina quando já tinha matado mais de vinte alemães. Ela morreu quase no fim da guerra, com a barriga aberta por estilhaços, tentando conter com as mãos os intestinos que se esparramavam e pedindo a seus companheiros que a matassem rapidamente. Quando recebeu a medalha que havia ganho, Bella Morózova fez o possível para mostrar apenas um lado do rosto. Uma bala havia entrado pela têmpora do outro lado, atravessando sua cavidade nasal e deixando-a sem um olho. Tinha apenas 19 anos. E voltou para a frente. O soldado que tinha se apaixonado por ela não mudou de opinião depois de vê-la desfigurada e depois da guerra formaram uma família e viveram juntos por muitos anos; um raro final feliz.

As franco-atiradoras lutavam em duplas e a morte da companheira, muito comum, costumava ser um trauma terrível. Algumas perderam até quatro.

Vinogradova acompanha a carreira de um bom número de franco-atiradoras durante a guerra. Casos muito notáveis, como os de Natasha Kovshova (capaz de atingir seus alvos no nariz, sua assinatura) e Masha Polivánova, uma das duplas mais notáveis de franco-atiradoras. Em 1942, em Sutoki-Byakovo, elas apoiavam um franco-atirador homem e um ataque deixou os três isolados. Foram feridos e as moças –seu companheiro rastejou e escapou– juraram em seu poço de atiradoras que não cairiam vivas nas mãos do inimigo (o que para uma franco-atiradora invariavelmente significava violação, tortura e execução). Tiraram o pino de segurança de suas granadas, esperaram a chegada dos atacantes e então as fizeram explodir, morrendo e levando alguns alemães.
As franco-atiradoras Kiseliova, Bulatova, Morozova e um colega em 1944.

Há casos como o de Sasha Shliakova, cujo capricho de usar um bonito lenço vermelho durante suas missões levou que fosse morta por um atirador alemão. Tania Baramziná, escolhida como franco-atiradora embora fosse míope e usasse óculos, foi capturada, torturada e morta com um lançador de granadas.

Vinogradova dedica um capítulo a Pavlichenko, que visitou os Estados Unidos e foi aclamada por multidões, à qual Woody Guthrie dedicou uma canção e que foi admirada por Chaplin, que beijou seus dedos fascinado, dizia que havia matado centenas de nazistas. “Acho a história dela muito estranha”, diz a autora. “Na verdade, acho que qualquer estrela com mais de 300 mortos, feminina ou masculina, é falsa. A propaganda precisava de heróis”. E Zaitsev, o grande atirador que aparece no filme Círculo de Fogo? “Muitos franco-atiradores que conheci foram muito céticos em relação ao seu desempenho. Lidiya Bakieva, que matou 76 alemães, me disse: “Você tinha muita sorte se conseguisse lhes dar um por dia. Matar dez, bem, isso exigiria que eles se alinhassem em fila esperando que você disparasse neles!”.

Duelos com ases alemães
Vinogradova menciona muitos casos de duelos de franco-atiradoras com sua contraparte alemã (sempre homens), inclusive com ases do fuzil. Como aquele que é creditado a Pavlichenko, que teria matado, depois de haver espreitado durante 24 horas, um tipo que tinha começado a caçar em Dunquerque e que tinha (de acordo com a caderneta que foi encontrada com o cadáver) 500 vítimas. Esse seria um dos 33 atiradores alemães liquidados pela ucraniana.

Tosia Tinguinova teve seu duelo quando com vinte anos. Dispararam ao mesmo tempo. Ela matou o franco-atirador alemão. Foi salva pelo recuo do fuzil, que a afastou alguns centímetros, e a bala do inimigo perfurou a culatra de sua arma ao invés de atingi-la na cabeça.

Arte charge do Myrria

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Arte de Genildo

Brigas mesquinhas--Jurisprudência é apenas pretexto para embates pessoais e políticos de ministros do STF, por José Nêumanne

Dois briguentos numa patota que se considera acima de tudo e de todos 

Meu Direto ao Assunto abriu o Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na segunda-feira 30 de outubro de 2017 com críticas ao bate-boca de baixo nível entre dois ministros do STF; as tentativas apressadinhas de mudanças na legislação por um Congresso sem nenhuma moral; o embate entre Sílvio Santos e Zé Celso Martinez Corrêa pelos tombamentos da rua Jaceguai: e o cuidado necessário que a advogada-geral da União tem na solução do causo da Oi. 

Cantanhêde observou que juristas se preparam para lançar um pacote anticorrupção e Congresso se arma para votar medidas que limitem atuação da Lava Jato (isso vai longe, enquanto o STF demora a julgar políticos com mandato); e que os três Poderes não vão aproveitar muito o fim da seca no Planalto Central, pois, com o feriado de quinta, todo mundo vai mesmo é viajar. 

Alexandre Garcia falou da cirurgia de Temer; dos juízes do Supremo e do Trabalho; e dos garimpeiros contra o Ibama e o Instituto Chico Mendes. 

Gustavo Loyola trouxe a lume o boletim Focus. Sonia Racy noticiou o lançamento de livro de Lu Alckmin, em Direto da Fonte. 

E Marília Ruiz relembrou a saída de Neymar do Barcelona, em Perguntar Não Ofende.

Arte de DALCIO

O crime que traz à tona o lado ruim de Malta, por MARÍA R. SAHUQUILLO

O carro-bomba que acabou com a vida da jornalista Daphne Caruana é o sexto do tipo na ilha em um ano e meio

Mulher visita o local do assassinato da repórter Daphne Caruana Galizia. DARRIN ZAMMIT LUPI REUTERS

“Hoje em dia há criminosos para qualquer lado que você olhe. A situação é desesperadora”. Essa foi, de forma dura, a última frase escrita por Daphne Caruana Galizia em seu blog, em 16 de outubro. 
Minutos depois, o Peugeot 106 alugado que ela dirigia explodiu a poucos metros de sua casa, em uma bucólica paisagem rural do norte de Malta. Caruana Galizia, uma das figuras mais conhecidas do jornalismo investigativo na Europa, morreu na hora. Uma bomba poderosa colocada dentro do carro e detonada a distância silenciou a mulher que havia revelado inúmeros casos de corrupção no menor país da União Europeia (UE). 
Um crime no mais puro estilo mafioso, que acabou por mostrar que o arquipélago rochoso localizado entre a Sicília e a Líbia, não é apenas um lugar idílico cheio de cidades antigas com suas muralhas e pequenas enseadas, mas também um refúgio de criminosos.

Malta, que tem 420.000 habitantes e integra a UE desde 2004, aparece, com 5,5% de crescimento do PIB no ano passado, segundo o Fundo Monetário Internacional, como um dos países mais florescentes da região. No papel, pode ser visto como um modelo de sucesso financeiro. Mas o país é também cenário de assassinatos brutais. O que foi usado por Caruana Galizia foi o sexto carro-bomba registrado em um ano e meio na ilha, que tem, por outro lado, baixos índices de criminalidade. Todos esses casos ainda não foram solucionados. 
E todos eles - com exceção do da jornalista - envolvem, segundo os investigadores, pessoas relacionadas com o crime organizado, problema cada vez mais grave em malta, como observa Rosy Bindi, presidenta da Comissão Parlamentar Contra a Máfia, da Itália.

Cavando um pouco, sob as ruas de pedras de La Valeta ou os bares de localidades turísticas praianas como San Julián, assentam-se as bases de um país dotado de um sistema financeiro pouco transparente. Graças ao seu regime fiscal favorável e à sua localização estratégica, Malta se tornou nos últimos anos um lugar propício para os negócios. 
“Tanto legais como ilegais”, comenta a advogada Laura Pace em um café perto do porto da capital maltesa. “O sistema permite que as empresas cuja atividade não se dá em Malta recolhem apenas 5%, graças aos incentivos fiscais, e essa e outras medidas fazem da ilha um pequeno paraíso fiscal dentro da UE”, comenta. 

Ali se instalaram, por exemplo, várias empresas de apostas on-line, um negócio ao mesmo tempo lucrativo e obscuro que representa 12% do PIB do país.
Velas junto a uma imagem de Daphne Caruana Galizia. AXEL SCHMIDT REUTERS

“Poucas mudanças aconteceram desde a era medieval. 
Esta é uma ilha de piratas, modernos, mas piratas”, lamenta o designer gráfico George Cremana, junto ao local onde foi encontrado, calcinado, o automóvel usado por Daphne Caruana. 
A explosão foi tão forte que os peritos judiciais encontraram restos espalhados por diferentes pontos da região. Levaram cinco dias para reunir provas. Os especialistas e seus aventais brancos já deixaram o local, que tem uma areia avermelhada. Mas ali, junto aos vinhedos, dezenas de flores, velas e mensagens que já começam a amarelar por causa do sol forte homenageiam a experiente jornalista. Podem-se ver também, semi enterrados, muitos lápis e canetas. Como a de tinta azul que Cremana, de 35 anos, colocou ali. Uma homenagem simbólica.
Mediterraneo

Caruana Galizia, de 53 anos, formou-se em Arqueologia, mas vinha se dedicando há trinta anos ao jornalismo. Editava a revista de decoração e gastronomia Taste & Flair - sua principal fonte de remuneração - e era colunista frequente em diferentes veículos de comunicação. Desde 2008, publicava o seu próprio blog, Running Commentary. Nele, escrevia desde análises sobre a atualidade até pequenas notas políticas. Mas, sobretudo, textos em que trazia à luz casos de corrupção que corroem o Estado maltês. Seu site chegava a registrar regularmente cerca de 400.000 visitas por dia, um número gigantesco em um país com menos de meio milhão de habitantes. Nenhum escândalo lhe parecia menor: da visita de um ministro a uma boate em plena viagem oficial à Alemanha até as redes de contrabando que proliferam na ilha; dos milhares de euros em comissões pagas por empreiteiras a funcionários e políticos até os conflitos de interesse existente nos casos de juízes e procuradores. 
Sempre dando nomes e sobrenomes. Sua lista de inimigos crescia sem parar, com nome cada vez mais espetaculares.

Assim como foi espetacular o seu próprio assassinato. “Não tentaram nem mesmo fazer parecer um acidente. Sabemos há anos que temos um Estado mafioso, mas esse assassinato deixou isso claro para o restante do mundo”, diz seu filho mais velho, Matthew, de 31 anos, olhos azuis e rosto afinado. 
Mãe de três homens e casado com um advogado de renome na ilha, Caruana Galizia adquiriu fama fora das costas azuladas de Malta por causa de suas investigações sobre os chamados Panama Papers, um trabalho realizado conjuntamente por jornalistas de diferentes países e que recebeu um Prêmio Pulitzer. Com base em informações desses arquivos, Caruana Galizia revelou que vários membros do Governo maltês possuíam contas secretas e várias empresas em paraísos fiscais.

Suas revelações atingiram até mesmo Michelle Muscat, mulher do primeiro-ministro, Joseph Muscat. Segundo a jornalista, Michelle não só se beneficiou de empresas fantasmas como também recebeu quantias vultosas de dinheiro da filha do presidente do Azerbaijão, Ilham Aleyev, antes de o Governo maltês firmar acordos comerciais com aquele país. Encurralado a partir das informações divulgadas por Caruana Galizia, Muscat se viu obrigado a convocar eleições antecipadas em junho deste ano. As urnas, porém, o reconfirmaram à frente do Governo, como primeiro-ministro da ilha, em plena efervescência econômica.

“Minha mãe não conseguia aceitar viver em um país corrupto. Nunca foi cínica por um segundo sequer em sua vida, e nunca deixou de lutar por seus ideais”, afirma Matthew, que também é jornalista investigativo. Ele foi o primeiro a chegar ao local do crime. Ouviu a explosão de casa e teve certeza de que a mãe havia morrido antes mesmo de ver o veículo em chamas. Caruana vinha recebendo ameaças havia anos, desde telefonemas até mensagens na caixa de correio. Uma vez colocaram fogo no seu carro, estacionado fora de casa. “No último ano, as tentativas de intimidação aumentaram. Em julho, seu cachorro foi envenenado e quase morreu”, conta Matthew. Também procuraram silenciá-la por meio de processos, diz ele. Somente neste ano, quinze pessoas entraram com ações contra ela por calúnia e difamação. “Um empresário do ramo hoteleiro próximo aos partidos entrou com 19 ações, uma para cada frase em que ele era mencionado”, acrescenta.
Peritos legais junto ao veículo queimado de Caruana Galizia em 16 de outubro em Bidnija, Malta. REUTERS

A família de Caruana Galizia responsabiliza o Governo pelo assassinato. “Eles criaram o clima de corrupção e impunidade que tornou isso possível”, afirma Matthew. “Daphne costumava dizer que a melhor forma de proteção que ela poderia ter seria o sistema judicial perseguir aqueles que a ameaçavam, mas ninguém que atacou sua casa foi processado”, critica Corinne Vella, uma de suas três irmãs.

A meia hora da casa dos Caruana Galizia, em La Valeta, a estudante Casi Camillori acende uma vela no memorial improvisado erguido em homenagem à jornalista junto à catedral de San Juan. Ali, atrás de um enorme cartaz que traz a palavra “justiça”, dezenas de mensagens reproduzem as últimas palavras escritas por ela. Aquelas palavras com as quais chamava a atenção para o fato de que em Malta havia corruptos para qualquer lado que se olhasse: “A situação é desesperadora”.

Arte de Bruno AZIZ

DILEMAS CONTEMPORÂNEOS > BANCO DE DADOS E ESPIONAGEM ELEITORAL--por Pablo Antunes

“O Grande Irmão” vai escolher o seu próximo presidente


À medida que o tempo passa nos aproximamos do futurístico ano de 1984. Toda a contagem de tempo é uma abstração racional do ser humano para entender a natureza, por isso pouco importa se estamos em 2017, em 5778, em 1438 ou no ano do Galo de Fogo. O que nos interessa neste período histórico é que estamos cada vez mais próximos do controle social antecipado, talvez profetizado, pelo escritor George Orwell em sua famosa obra de ficção científica.

O xadrez político das democracias ganhou uma nova peça que se move com a leveza de uma rainha em meio a peões distraídos. Atuando no caro mercado das campanhas eleitorais desde 2013, a Cambridge Analytica deve chegar com força para operar nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. Essa companhia britânica utiliza análise de dados disponíveis na internet para influenciar a comunicação de usuários nas redes sociais para beneficiar o candidato que contratou os seus serviços.

A Cambridge Analytica ganhou notoriedade após ser bem-sucedida na vitoriosa campanha de Donald Trump nos EUA e na causa da saída do Reino Unido da União Europeia. Da mesma forma atua a Stilingue, que lê dados na internet com um aplicativo de inteligência artificial e robôs que identificam o perfil psicológico do eleitorado.

Cada vez que alguém faz login em uma rede social, compartilha, interage, comenta em uma reportagem em um site jornalístico ou na própria rede, essas companhias são munidas com toneladas de informações que são processadas para alimentar bancos de dados para identificar a tendência de pensamento e comportamento do eleitor. A maquiagem na aparência e no discurso dos candidatos, algo que os marqueteiros já sabiam fazer, agora ganha a precisão de uma máquina. É como se trocássemos o artesanato na fabricação de um político por uma linha de montagem automatizada.

Em um cenário confuso em que pessoas que se dizem de direita exigem educação e saúde custeados pelo Estado, e esquerdistas que se sentem pouco representados pelas forças vacantes, o aguçado olhar de Grande Irmão de companhias como a Cambridge Analytica e a Stilingue supera as divisões demográficas, etárias, educacionais e ideológicas para explorar perfis psicológicos de acordo como os medos, os desejos, as ambições e as rejeições do que o cidadão manifesta na internet por meio de uma inteligência artificial que realiza o que a ciência da computação identifica como “processamento de linguagem natural”.

Ou seja, o sistema é capaz de aprender, entender e interpretar um idioma para analisar o que é divulgado na imprensa e nas redes sociais. Munido de dados que leem o desejo da maioria, um político pode saber se deve se vestir de gari, de policial, de taxista ou de garoto de programa para adaptar o seu discurso e agradar a parcela de seu eleitorado que lhe garante a manutenção no poder. Igualmente a ferramenta é útil para convencer os indecisos, pois o que é dito se adapta ao que o cidadão quer ouvir.

O maior exemplo brasileiro do uso de tecnologia para aumentar o seu grau de influência na internet e fora dela é do prefeito de São Paulo João Doria. Desde a sua contestada pré-candidatura nas prévias do PSDB até a disputa pelo poder executivo paulistano, Doria se beneficiou da inteligência artificial para angariar votos e conquistar seguidores. Hoje há cinco softwares que trabalham com o objetivo de avaliar o impacto de tudo o que está relacionado a ele nas redes sociais para torná-lo mais agradável ao cidadão. O serviço da inteligência artificial é realizar uma “análise de sentimento” das redes sociais, algo possível apenas para seres humanos, para reduzir os impactos negativos e potencializar os positivos de cada discurso de Doria.

Em cada vez mais frequentes viagens pelo Brasil para se tornar mais conhecido, João Doria disputa com o governador paulista Geraldo Alckmin o posto de candidato a presidente da república pelo PSDB. Na lista dos possíveis presidenciáveis, João Doria é o que tem mais contato nas redes sociais com os eleitores.

Segundo Daniel Braga, sócio da Social QI, que tem Doria como cliente da empresa, entre os 114 milhões de usuários únicos do Facebook em território nacional, 23,5% já tiveram alguma interação com a página do prefeito de São Paulo. O segundo colocado entre os possíveis candidatos a ocupar a presidência em 2018 é o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) com 7,1%.

Em 2018, o olho que tudo vê o que fazemos na internet está prestes a atuar nas próximas eleições no Brasil. Os resultados obtidos pela Cambridge Analytica nos EUA e no Reino Unido mostram que a observação do comportamento das pessoas no Facebook, no Twitter, no Instagram e no WhatsApp dá uma grande vantagem aos candidatos municiados por essa tecnologia.

A companhia, diretamente ligada ao bilionário Robert Mercer, um cientista computacional norte-americano, defensor de causas conservadoras e de uma agenda de direita, ao atuar para convencer as pessoas de ideias de um grupo político, põe a inteligência artificial a pautar o tom eleitoral e a influenciar a mudança do discurso dos humanos para agradar outros humanos.

Em uma análise sombria, é como se um robô instrutor ensinasse um projeto de sedutor a se tornar uma espécie de psicopata que está interessado apenas em conseguir o que quer, alimentando a sua ambição e pagando o preço que custar para atingir o seu objetivo.

Depois de uma combativa e rancorosa eleição presidencial em 2014, como se comportará o eleitor brasileiro sob o olhar perscrutador do Grande Irmão manipulador de dados em 2018? Cada opinião pró ou contra um candidato, cada compartilhamento de notícia falsa ou verdadeira, cada meme produzido passará perante o escrutínio de softwares que traçarão os perfis psicológicos de cada um. Em meio a tantos compartilhamentos em que as pessoas não leem mais do que a manchete do que passam adiante, os maiores beneficiados serão sempre os que pagarem mais caro pelo melhor serviço de espionagem eleitoral.

Ainda que o olho que tudo vê que se aproxima de nós não vista as roupas do ditador do livro de George Orwell, estamos cada vez mais confundindo democracia com tirania da maioria. O que falta a alguns dos políticos eleitos é o entendimento de que algumas minorias não têm representatividade no Congresso e nas Assembleias Legislativas, mas isso não significa que devam ser subjugados à força numérica de um grupo.

Nesse sentido, a adequação de discursos para agradar uma parcela maior da população com interesses de perpetuação no poder propicia a possibilidade de se pôr em risco aquelas pessoas que não tem voz ativa no nosso modelo democrático. É compreensível que o cidadão comum não entenda essa diferença, mas um representante do povo, uma autoridade do Estado tem a obrigação de saber que as minorias têm de ser respeitadas e que os seus direitos devem ser garantidos com base na Constituição Federal.

Talvez em um futuro distante (2084?), já nem precisemos eleger vereadores, deputados e senadores em nossa democracia representativa, pois bastará que um aplicativo rastreie o que quer o eleitorado para legislar e estabelecer as prioridades da comunidade; mas, por enquanto, tudo o que você disser poderá ser usado para influenciá-lo nas próximas eleições.

Pablo Antunes é escritor e psicólogo.

Pesquisa global mostra que jornalistas não estão acompanhando revolução digital, mas traz sinais positivos sobre América Latina, por Teresa Mioli/CA

Ao redor do mundo, jornalistas não estão acompanhando a revolução digital. Esta é uma das conclusões de uma pesquisa recente do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês), “O Estado da Tecnologia em Redações Globais”.

“Apesar das vantagens em abraçar a tecnologia, jornalistas simplesmente não estão acompanhando as transformações que estão varrendo a indústria”, disse Joyce Barnathan, presidente do ICFJ. “Este estudo aponta as lacunas, o que nos ajuda a entender como avançar agora mesmo em tudo, desde treinamento nas redações até segurança digital.”

Ainda assim, a pesquisa descobriu pontos notáveis em redações latino-americanas, onde organizações jornalísticas híbridas estão em ascensão e jornalistas lideram mundialmente em uso de mídias sociais. Entretanto, o estudo do ICJF também confirmou constatações independentes de que a maioria dos jornalistas latino-americanos não estão fazendo o suficiente em relação à segurança digital.

Estes e outros resultados foram apresentados no lançamento do relatório do ICJF, na conferência da Associação de Notícias Online (ONA, na sigla em inglês), no dia 5 de outubro, em Washington

Esta é a “primeira pesquisa sobre a adoção de tecnologias digitais em meios jornalísticos do mundo todo”, de acordo com a organização, que trabalhou em parceria com a Universidade de Georgetown para realizar o estudo.

A estupidez é uma gripe, por Alexandre Marini

Usar a cabeca.......
Por que há tanta gente querida dizendo e escrevendo tanta bobagem? em todos os lugares, nada escapa. Redes sociais, então, nem se fala. Deve ser um vírus. A estupidez é uma gripe.”Mas sempre foi assim”, ponderei comigo mesmo.

Sim, mas antes podíamos, de alguma forma, mesmo que tortuosa, evitar ou diminuir o contágio: não chegar perto daquela pessoa em estado claramente estúpido. Evitar a exposição direta sempre foi uma opção viável e prática.

Por exemplo: se determinada pessoa começasse a falar bobagens ou absurdos quaisquer, podíamos evitar os mesmos ambientes, deixar de ir à sua casa por um tempo, desencontrar horários, mudar de calçada, sentar numa fileira mais longe, do outro lado da sala, etc. Mas mesmo quando, com todas essas “evitações”, sem querer o encontro acontecia, bastava jogar um “vamos marcar de se ver e conversar mais qualquer dia” no abismo das promessas que nunca cumprimos.

Mas eis que chega o coletivo das redes sociais com a promessa de trazer novos ares. E o que fazemos? Entramos todos dentro e fechamos as janelas. Resultado: um ótimo lugar para concentrar e viralizar a estupidez.

Agora a pessoa pode estar do outro lado do planeta, mas não adianta: a estupidez chega até você, na sua cara. Vem assim, no susto – pá! Não dá nem para virar o rosto. Está na sua timeline.

Fechamos mais janelas, mas não adianta. É parente próximo, parente distante, amigo de infância, colega do trabalho, pessoas que já foram ou são importantes para nós. É muita gente querida gripada, falando, espirrando, respingando estupidez.

As cepas virais mais fortes são, normalmente, antidemocráticas. Cérebros constipados, com problemas mais sérios de oxigenação, tendem a querer resolver desigualdades com consumo diferenciado, educação com censura, violência com mais armamentos e aprimorar a democracia com autoritarismos.

Tem quem confunda os próprios preconceitos com capacidade crítica (incluindo arte, tão na moda agora), censura com direito, ideologia com teoria, gênero com sexo, crença com conhecimento científico, religião com política, conservadorismo com discurso de ódio, diálogo com polarização, o próprio quintal com o mundo, o umbigo com o sol.

E, claro, tem quem se ache com mais direitos que outros, inclusive o de negar direitos aos outros. Também é comum que o paciente gripado pela estupidez não sinta seus próprios privilégios, mesmo quando estimulados e evidentes. Uma certa paralisia sensorial.

Por fim, ficamos diante de quem não entende de quase nada, falando sobre quase tudo, com a certeza de quem sabe muito, e sem ter muito o que fazer.

Por isso, não custa tentar…

“Querido Zuckerberg,

Não quero excluir ou bloquear indefinidamente as pessoas que eu gosto, pois é uma gripe, é gente boa, saudável que uma hora melhora. Assim, faço um pedido: crie um filtro temporário, um clique basta. Além daqueles curtir, amei, etc, um “gripado”.

Um emoticon com máscara no rosto que nos manteria a uma distância relativamente segura daqueles que insistem em espirrar estupidez. Poderíamos classificar, inclusive, alguém como portador de um pequeno resfriado ou até (em seu grau máximo) uma gripe suína, em que o espírito de porco parece já ter tomado conta. Tem certas horas que aproximar, afasta, caro Zuckerberg. Depois, quando melhorassem, voltariam para nossa timeline. Ia ser tão mais saudável. Questão de saúde pública.

Obrigado pela atenção.”

Alexandre Marini é sociólogo e professor.

Operação Marquês--PT e GES pagaram mais de meio milhão a ex-ministro de Lula, por MARIANA OLIVEIRA

Ministério Público acredita que dinheiro visou pagar a influência do ex-chefe da Casa Civil de Lula da Silva no favorecimento da PT e dos interesses do Grupo Espírito Santo naquela sociedade. Advogado português que terá sido intermediário escapou à acusação.
REUTERS/NACHO DOCE
Uma empresa do Grupo Espírito Santo (GES) e uma sociedade do universo Portugal Telecom (PT) pagaram ao ex-ministro brasileiro José Dirceu “pelo menos 632 mil euros” entre 2007 e 2014. O dinheiro, acredita o Departamento Central de Investigação e Acção Penal, servia para pagar a influência do antigo chefe da Casa Civil do presidente brasileiro Lula da Silva, um político que já condenado várias vezes por corrupção. O intuito seria favorecer a PT e os interesses do GES nesse gigante das telecomunicações em negócios que envolviam empresas públicas do Brasil, diz o Ministério Público (MP).

Segundo o despacho final da Operação Marquês, a maior parte do dinheiro terá sido transferida por ordem do antigo banqueiro Ricardo Salgado e terá tido como intermediário o advogado português João Abrantes Serra, que foi constituído arguido no âmbito da investigação, mas acabou por escapar à acusação.

O arquivamento ocorreu, segundo justifica o próprio MP, porque não foram reunidos indícios suficientes dos crimes de tráfico de influência, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada, suspeitas que estiveram na base da constituição como arguido do advogado de 76 anos, natural de Águeda e com escritório na baixa de Lisboa.

Pressionar entidades políticas 
O Ministério Público explica detalhadamente porque não avança para a acusação, precisando que requisitos faltavam para que os factos constituíssem ilícitos criminais. Nesse exercício, faz questão de descrever em detalhe os factos que apurou. Explica que o advogado Abrantes Serra conhecia o irmão de Dirceu, Luiz Silva, há muito e que, em 2004, criaram em conjunto uma empresa.

Três anos mais tarde, em 2007, Abrantes Serra “acordou” com os dois irmãos a “concertação de esforços no sentido de, através do estabelecimentos de contactos, em Portugal e no Brasil, pressionar entidades políticas e a administração de empresas públicas para a obtenção de decisões favoráveis a interesses empresariais portugueses e brasileiros”, escreve o procurador Rosário Teixeira no primeiro depoimento do advogado, em Dezembro do ano passado.

Entre os negócios que se referem está a decisão da PT investir na Oi, um negócio que terminou com a fusão das duas empresas e com a subsequente venda da antiga operadora portuguesa de telecomunicações à Altice.

A entrada da PT no capital da Oi, diz Rosário Teixeira, “era do interesse de alguns quadros da administração não executiva da PT, caso de Henrique Granadeiro, e de alguns accionistas da mesma PT, caso do BES”. De forma a aproveitar tal conjunto de interesses, continua o procurador, “que envolvia a Andrade Gutierrez [construtora brasileira envolvida no caso Lava Jato], o BES e alguns elementos da administração da Portugal Telecom, o referido José Dirceu de Oliveira, utilizando os seus conhecimentos junto dos responsáveis políticos brasileiros, dispôs-se a contactar as entidades portuguesas no sentido de, através da promessa de condições favoráveis ao investimento da PT na Oi e da promessa de serem gerados ganhos com o negócio, conseguir uma decisão favorável para tal investimento”.

O ex-ministro brasileiro que foi condenado a várias penas de prisão no Brasil (em escândalos como o Mensalão, o Petrolão e o Lava Jato) não foi acusado na Operação Marquês. Tal não foi possível, justifica o MP no despacho de arquivamento, porque “no período de tempo em que alegadamente ocorreram os factos” o crime de tráfico de influência implicava que a entidade pública visada pela influência fosse “uma entidade titular de um cargo público no Estado português e não num Estado estrangeiro”, como era o caso.

Antes de chegar a essa conclusão o MP reconstituíra os circuitos financeiros dos pagamentos feitos a José Dirceu, sempre através da sociedade de Abrantes Serra. O esquema, descreve o MP, era estabelecer “pretensos contratos de prestação de serviços” que serviam de fachada para os pagamentos que depois eram parcialmente encaminhados para Dirceu.

No despacho de arquivamento, o MP refere que o gasto foi “repartido, em partes iguais, entre a sociedade de advogados e José Dirceu”. “O primeiro desses pretensos contratos de prestação de serviços veio a ser acordado apenas verbalmente, ainda em 2007, com Henrique Granadeiro, que na altura era presidente não executivo da PT”, escreveu o MP no primeiro depoimento de Abrantes Serra.

A Espírito Santo Financial, uma holding do GES, pagou pelo menos desde Março de 2011 e Julho de 2014, 30 mil euros mensais, acrescidos de IVA, ao advogado, que foram repartidos em partes iguais entre este e Dirceu. Só o brasileiro recebeu um total de 585 mil neste âmbito. Recebeu ainda através do pagamento de despesas, financiadas por via de um cartão de crédito associado a uma conta controlada pelo advogado português.

No Despacho de arquivamento, o MP conclui que a sociedade de Abrantes Serra funcionava como “mero ponto de passagem” para os pagamentos a Dirceu e  sem “efectiva representação e domínio” sobre a actividade exercida pelo ex-ministro brasileiro.

Interrogado novamente já este ano, Abrantes Serra assumiu que os serviços que prestou ao GES consistiam sobretudo em “apresentar pessoas e abrir portas” ao grupo nos países onde este se estava a implantar. “Tenho bons conhecimentos em vários pontos do mundo”, referiu o arguido, cujo advogado, Rogério Alves, o descreveu, durante o interrogatório, como uma espécie de embaixador.

Ao PÚBLICO, Rogério Alves congratulou-se com o facto de o seu cliente não ter sido acusado. “Para nós este é um assunto encerrado”, realça. Contactado pelo PÚBLICO, o advogado de Ricardo Salgado não quis comentar as palavras do MP, não tendo o de Granadeiro reagido em tempo útil. Com Ana Henriques

domingo, 29 de outubro de 2017

Arte de AROEIRA

A sonda de Temer e a sombra de Dom Sebastião na entrevista de Moro, por Vitor Hugo Soares

A sombra de Dom Sebastão na entrevista de Moro a Camarotti e a tremenda semana de outubro em Brasília que termina com Temer no hospital em São Paulo
…Gerson Camarotti e Sérgio Moro:
Dom Sebastião na conversa
Temer (com a primeira dama Marcela)
na saída do Hospital do Exército.

“Estou inteiro”, afiançou um evidentemente combalido presidente Michel Temer, ao deixar as dependências do Hospital do Exército, acompanhado da primeira dama Marcela (com sinais de sombras no semblante, em geral suave e tranqüilo) , na noite da tremenda quarta-feira de outubro, em Brasília. Para reforçar, o mandatário faz aos jornalistas e fotógrafos, um sinal simbólico de “positivo”, com o dedo levantado.

A caminho do Jaburu, com expressas recomendações médicas de repouso e cuidados especiais, o paciente acabara de passar por dois sustos daqueles que nos fazem sentir saudades do humor inteligente, ágil e corrosivo de Millôr Fernandes. Ele, seguramente, saberia, como nenhum outro, mostrar a nudez do rei, com sabor crítico bem de acordo com cenário tragicômico atual da vida brasileira, presenciado no mesmo dia na Câmara e no hospital do planalto central do País.

No plano pessoal, Temer, depois de horas de mal-estar e forte desconforto, acabara de passar por exames de urgência médica e de receber o diagnóstico de obstrução urológica. No hospital militar, foi submetido a um procedimento de emergência chamado de “sondagem de conforto” para aliviar os rins. Precisará, no entanto, usar uma sonda pelos próximos dias, até passar o período da crise braba. Não a política, governamental e moral (cada vez mais complicada e sem norte aparente que conduza a uma saída sem traumas), mas a da saúde física, pessoal e intransferível, que em geral não tolera barganhas nem arranjos de ocasião.

Refiro-me, é claro, à crise decorrente da neoplasia benigna de que o mandatário da vez é portador, cuja “bola” cresceu a ponto de lhe obstruir o canal da uretra. Só então, superado o mal-estar, seu urologista de confiança indicará o tratamento definitivo a ser adotado, se cirúrgico ou não. Nesta sexta-feira, divulga o Palácio do Planalto, o mandatário não perde tempo e já dormirá em São Paulo, onde neste sábado, 28, estão programados exames mais detalhados e definidores dos próximos passos.

Agora um esclarecimento pessoal e intransferível, para contextualizar melhor o assunto. Isso que o jornalista descrevo no artigo não é fruto apenas das informações do furo jornalístico bem apurado da repórter Andréia Sadi (que faro e que disposição incansável tem esta profissional que cobre Brasília e seus desvãos!) sobre a crise de saúde do marido de Rafaela, que se somou drasticamente ao dia de apuros políticos na Câmara dos Deputados.

Explico melhor:
Não faz muito tempo, em Salvador, passei por um piripaque (a expressão soteropolitana assenta bem no caso) muito parecido com o desconforto de quarta-feira, do manda chuva da vez no Palácio do Planalto. O mal-estar de estourar os nervos com a uretra obstruída pela bola da neoplasia benigna que também cresceu demais, a corrida para a emergência no hospital, a mando do médico e amigo especial; a sondagem de alívio para acalmar os rins; depois a volta para casa com uma sonda na uretra, recomendações severas de repouso e muitos medicamentos contra o desconforto físico e para evitar infecções. Depois mais exames, idas e vidas ao consultório médico e ao hospital, até a cirurgia a laser diagnosticada para enfrentar a complicação principal. E estamos aqui.

A diferença, no caso, é que Temer soma outras (e graves) preocupações, que vão além da crise urológica, o que não é pouco, diga-se a bem da verdade. Malfeitos e problemas acumulados no plano político, governamental e ético, que cobram saídas, cada vez mais difícies e complicadas, à medida que 2018 se aproxima. É fato que na quarta-feira mesmo, do desconforto de saúde, o ocupante do Palácio do Planalto pulou outra fogueira. De novo nas mãos do plenário da Câmara, sob o comando do “mui amigo e aliado” do DEM, Rodrigo Maia, o mandatário conseguiu escapar da segunda denúncia de organização criminosa e tentativa de obstrução apresentada pelo ex- procurador geral da República, Rodrigo Janot, antes de ir embora.

Desta vez, o placar da escapatória foi mais estreito que na primeira denúncia, de corrupção. E a nova procuradora- geral, Raquel Dodge já coloca em andamento a questão das denúncias de malfeitos no Porto de Santos, outro problemaço do morador do Jaburu. Sem falar na continuidade do trôpego projeto de reformas do governo do PMDB, a exemplo da Previdência (crucial, segundo o ministro Meireles), mas que a perda de força e densidade no Congresso, revelada na votação desta semana para salvar o presidente e dois ministros, torna praticamente inviável nos moldes originais pretendidos pelos atuais donos do poder. Como ter repouso no meio de um furdunço deste? Responda quem souber.

Antes do ponto final, um Interlúdio (obrigado a Henri Miller mais uma vez) para falar da entrevista do juiz Sérgio Moro ao jornalista Gerson Camarotti, transmitida pelo canal privado Globo News. Para o autor deste artigo (um viciado na leitura do antigo Pasquim e das boas entrevistas desde os bancos da Faculdade de Jornalismo da UFBA), um marco da imprensa no Brasil destes dias temerários. Conversa para ver, rever e guardar, pois ficará ainda mais relevante com o passar do tempo, independentemente da continuidade da Lava Jato (como tantos anseiam), ou de seu soterramento (como alguns atuam para conseguir). Não descerei a detalhes da entrevista de abordagem ampla, diversificada, equilibrada, inteligente e relevante – não só no tratamento do tema central da corrupção, – vinculada à percepção do problema pela sociedade brasileira em geral, e a reação de seus representantes políticos, empresários, membros do judiciário e governantes.

Só o registro da emblemática resposta do juiz sobre a sua resistência a não se meter na política e nas disputas eleitorais – e sobre o futuro do magistrado – depois da Lava Jato.

“Temos no Brasil aquela percepção, influenciados talvez por nossa herança portuguesa, latina, não sei, de que existe um momento de redenção nacional. E pode vir um “Dom Sebastião” e resolver todos os problemas. Muitas vezes isso pode ser identificado com a personificação de alguém, mas muitas vezes pode ser uma personificação, por exemplo, com a Operação Lava Jato”. Na mosca!. O juiz de Curitiba sabe das coisas e deixa claro, na conversa com Camarotti, que seguirá em seu digno e competente trabalho de magistrado. Sem se prestar a alimentar a onda de embusteiros que começa a pipocar no País, com um falso salvador da pátria em cada esquina, para enganar sebastianistas desavisados que ainda povoam o Brasil. Viva!

Arte de Sponholz

sábado, 28 de outubro de 2017

Boxeador, 'stripper', ator... e novo primeiro-ministro do Canadá, por MIGUEL ÁNGEL BARGUEÑO

The fight took place at the Hampton Inn Convention Centre in Ottawa on March 31, 2012. It was a bout for the cancer charity Fight for the Cure. Live coverage in English was provided by Sun News Network.
Justin Trudeau, apareceu em uma série, fez strip-tease e fumou maconha
Justin Trudeau em evento de gala beneficente, foi ‘campeão’ de boxe.

Quando o político espanhol Albert Rivera defendeu em maio os políticos da nova geração, certamente não pensava no conceito de “nova geração” que existe atualmente no Canadá. Justin Trudeau (Ottawa, 43 anos), o empolgante primeiro-ministro canadense, é mais do que um tipo atraente, com um corpo bem definido, que passou por aventuras no boxe e fez um certo strip-tease, e com um álbum de fotos que está circulando pela Internet e provocando suspiros.

Esqueça as imagens de peito descoberto de Putin, da primeira imagem promocional do próprio Rivera nu, de Pedro Sánchez, de Varoufakis e dos bonitões do Partido Popular basco. No que se refere à imagem, Justin Trudeau, com uma beleza no meio do caminho entre Matthew McConaughey e o príncipe de A Pequena Sereia, é o líder mais atraente da política mundial. Mas não apenas sua fachada é chamativa: de sua história familiar a suas excêntricas aparições na televisão, tudo indica que estamos diante de um político fora do comum.

Em 2012, Justin Trudeau trocou socos com Patrick Brazeau, do partido conservador. Não que no Canadá as coisas se resolvam assim: era simplesmente uma luta beneficente. Trudeau, como era de se esperar por seus genes de vencedor, derrotou Brazeau em três assaltos; deixou o nariz de seu rival como um tomate, apesar de as apostas serem favoráveis a este último. (Aqui se pode ver o combate completo). Brazeau pediu revanche, mas Justin, inteligente, respondeu que não era boxeador, mas político. A experiência foi registrada no documentário God Saves Justin Trudeau(Deus salve Justin Trudeau).

'God Save Justin Trudeau'
Fez um strip-tease
Não é preciso pedir muito para que tire a roupa. Depois da aventura no pugilismo, e também por motivos beneficentes (país admirável o Canadá, no que se refere à variedade de iniciativas beneficentes), aceitou, em 2013, realizar um strip-tease.

Na verdade, como se pode comprovar no vídeo completo, só tirou a gravata, o paletó e a camisa social... E, ainda assim, os suspiros das espectadoras, que se soltavam à medida que ele se despia, são claramente perceptíveis.

Genes premonitórios
Um livro improvável em que aparecem várias referências aos pais de Justin (Pierre Trudeau e sua esposa, Margaret) são as memórias de Ron Wood, guitarrista dos Rolling Stones. Como estrelas máximas do espetáculo, os Stones se reuniram com líderes de todo o mundo. Pierre é definido pelo músico como “um playboy rico e charmoso que saia com modelos e estrelas de cinema”. Pierre tinha 51 anos quando se casou com Margaret, de 22.

Durante turnê dos Stones pelo Canadá em 1977, a jovem primeira-dama ficou inseparável do grupo, para alguns, inseparável até demais. Os rumores de que teve um romance com Mick Jagger são históricos, ainda que, ao que parece, também tenha ficado íntima de Ron Wood. “Ambos sabíamos que aquilo não podia ter futuro, mas compartilhamos algo muito especial”, escreve o guitarrista.

Liberal, como seu pai
Justin é filho de um dos grandes personagens canadenses do século XX, o primeiro-ministro Pierre Trudeau. Liderou o país nada menos do que de 1969 a 1984, excetuando alguns meses de Governo conservador em 1979, quando foi relegado à oposição. Com leis avançadas sobre o aborto, o divórcio e a homossexualidade, ele é o responsável pela imagem de modernidade que o país possui desde então. Em 1969 recebeu John Lennon e Yoko Ono, e na saída ela disse: “[Trudeau] é uma pessoa belíssima, mais do que esperávamos”. Após o afundamento do Partido Liberal em 2011 —passou a ser a terceira força política—, seu filho Justin tomou as rédeas e agora os liberais estão novamente no poder.
Com sua mulher, Sophie Gregoire

Direto com as mulheres

… ou pelo menos com a que se casou. “No primeiro encontro olhou nos meus olhos e me disse: ‘Estou te esperando há 31 anos. Você vai se casar comigo. Vamos formar uma família”, disse Sophie Grégoire, de 40 anos, em uma entrevista à Women on the Fence. Eles se conheciam desde criança, já que ela era da mesma sala de aula que o irmão de Justin, Michel, que morreu anos depois em uma avalanche de neve enquanto esquiava.

Após perderem o contato, voltaram a se cruzar em 2003, em um baile beneficente, e se casaram em 2005. Ela trabalhou como repórter de televisão (primeiro no canal LCN, depois na CTV) até 2010; também atuou como personal shopper (pessoa que ajuda clientes a comprar roupas, decorar a casa, etc) e instrutora de ioga. O casal tem três filhos, de 8, 6 e 1 ano.

Beijou um apresentador de TV
Justin deu um beijo no apresentador e comediante canadense Dany Turcotte (uma das celebridades mais famosas do Canadá) quando, em 2012, compareceu como convidado a seu programa de entrevistas. Rapaz sensível ou especialista em redes sociais que sabe buscar em cada momento uma imagem chamativa? Em outro programa, protagonizou um esquete em que saia rolando por uma escada.

Tem um corvo tatuado
Possivelmente muitos políticos têm tatuagens, mas tratam de escondê-las. Justin, ao contrário, tem uma parte de sua pele tatuada e a exibe com orgulho.

Quando tinha 23 anos gravou um globo terrestre no ombro esquerdo, desenho que concluiu ao completar 40 anos acrescentando ao redor um corvo dos haidas, indígenas da Colúmbia Britânica. Já disse que no futuro não vai haver mais tinta; tendência incompatível, ao que parece, com ser primeiro-ministro.

Defende a legalização da maconha
É um dos assuntos que mais provocam debate no Canadá. “O Partido Liberal está comprometido com a legalização e a regulamentação da maconha, algo que faremos imediatamente”, afirmou Trudeau. Em uma entrevista ao Huffington Post, reconheceu ter fumado maconha já sendo membro do Parlamento. “Estávamos em casa, em um jantar com amigos, e as crianças estavam na casa da avó, e um dos nossos amigos apertou um cigarro de maconha e passou. Dei um tapa”. Não é fumante habitual: admite ter provado cinco ou seis vezes na vida.

E atuou em uma série
Vestido com um uniforme militar e usando um bigodinho ridículo, milhões de espectadores puderam vê-lo na série The Great War no papel do general Talbot Papineau, um dos heróis canadenses da Primeira Guerra Mundial. (Nesse trailer, aparece no minuto 1:17). É sabido que os políticos têm dotes interpretativos... mas Justin Trudeau foi ator de verdade. Não resta dúvida de que se arrisca em tudo. Existe alguma coisa que falta o político da moda fazer?

Arte de Myrria

Petrobras na era Temer: estrangeiras avançam na nova divisão do poder do pré-sal, por DANIEL HAIDAR

Primeiro leilão após mudanças na regras de exploração reforça papel de gigantes mundiais--Petrobras e Shell se destacam. Liminar chegou a impedir negociação por algumas horas
Representante de empresa confirma lance em leilão do pré-sal 

As petrolíferas estrangeiras se movimentaram nesta sexta-feira para garantir um lugar na nova divisão de poder do pré-sal após as mudanças nas regras para a exploração da maior reserva de petróleo do país. Nos primeiros dois leilões para exploração dos campos do pré-sal sem presença obrigatória da estatal Petrobras em todos os blocos ofertados, as gigantes mundiais do setor esquentaram a disputa, especialmente nas áreas que tiveram sinalização prévia de interesse da empresa brasileira. Foram arrecadados 6,15 bilhões de reais com as duas rodadas de licitação nesta sexta, cerca de 80% da pretensão inicial do Governo. Para duas das oito áreas em negociação não houve lances. O Governo federal e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) comemoraram o resultado. “Esse leilão representa a retomada dos investimentos no setor”, afirmou Décio Oddone, presidente da ANP.

Os consórcios liderados pela Petrobras, com a participação de estrangeiras, venceram em três dos oito campos em disputa, incluindo o bloco de Peroba, na Bacia de Santos, que tinha as estimativas de petróleo mais generosas, de 5,3 bilhões de barris (leia detalhes abaixo). A segunda maior vencedora do certame foi a anglo-holandesa Shell, que lidera o consórcio que arrematou dois blocos. Já a norueguesa Statoil levou o último campo negociado nesta sexta. Tanto a Shell com a Statoil já operavam no pré-sal, mesmo sob as regras anteriores, mas o leilão marcou a volta de empresas ao mercado brasileiro, como a gigante norte-americana ExxonMobil, que ficou 40% da área arrematada pela companhia norueguesa.

Para levar um campo, o consórcio tinha que fazer a oferta mais generosa à União em termos de "óleo lucro", ou seja, quanto da fatia do volume de petróleo que sobra após os custos de produção e investimento iria oferecer ao Estado brasileiro. Os consórcios com participação da Petrobras puxaram para cima as ofertas, ampliando o potencial arrecadatório da União do futuro. “O desenho anterior de leilão nunca geraria competição. Dessa vez, pelo menos algumas empresas disputaram áreas”, afirma o economista Helder Queiroz, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP). “O modelo anterior engessava muito a Petrobras. O resultado de agora confirma que ela está cada vez mais seletiva, com foco bem específico no pré-sal.”

Além de não exigir a participação obrigatória da Petrobras em todos os blocos do pré-sal, os leilões desta sexta-feira também exigiram menor percentual de conteúdo local na produção dos campos ofertados. Isto é, diminuiu o valor gasto com empresas brasileiras em serviços e projetos durante a exploração e a produção dessas áreas, o que, para o mercado, é considerado um alívio nos custos operacionais. Essas novas regras do pré-sal foram um atrativo para as petrolíferas estrangeiras, avalia Carlos Assis, sócio líder do Centro de Energia e Recursos Naturais da EY no Brasil e América do Sul. “Ninguém gosta de tomar decisão de investimento com algo compulsório colocado (a operação da Petrobras). Conseguir a operação é importante, permite criar diferenciais”, afirmou. Para o consultor, também há maior incentivo à concorrência e à inovação com novas regras. “A diversificação de empresas, pensando no desenvolvimento da cadeia, é muito importante. Não se afunila tudo em um só grande operador. Desenvolvem-se novos fornecedores, novas formas de fazer negócios e mais inovação”, afirmou.
Guerra jurídica e partilha

Os novos leilões do pré-sal sob o Governo Michel Temer (PMDB) marcaram uma nova era no setor petroleiro do Brasil, atravessado por ferrenha disputa política e ideológica. Nesta sexta, uma liminar da Justiça do Amazonas chegou a impedir a realização do certame até que o Governo conseguiu derrubar a medida. Movida pelo Sindicato dos Petroleiros do Amazonas, a ação contra os leilões protestava contra a não obrigatoriedade de participação da Petrobras.

A resistência dos sindicatos petroleiros ecoa a visão vigente nos Governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, quando a presença compulsória da Petrobras no pré-sal, descoberto em 2007, era defendida como um componente essencial para o crescimento do país. De lá para cá, a Petrobras passou por um furacão, incluindo os abalos provocados pela Operação Lava Jato. Com a empresa sem fôlego com o excesso de investimentos e o desequilíbrio nos preços da gasolina, o próprio Governo Dilma acabaria capitulando e negociando o fim da obrigatoriedade de participação da estatal na exploração da megareserva.

A volta das estrangeiras com força também marca o fim do sonho das grandes empresas nacionais privadas no setor. Uma das grandes apostas, o empresário Eike Batista turbinado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), está arruinado - Eike responde a ações penais em prisão domiciliar, mas perdeu seu império empresarial após uma série de apostas fracassadas e prejuízos milionários. 
Nos leilões desta sexta-feira, só uma empresa nacional estava inscrita, a Ouro Preto Óleo e Gás, do empresário Rodolfo Landim, ex-funcionário de Eike e ex-presidente da BR Distribuidora. Mas a empresa de Landim saiu derrotada no único lance que fez.

A CONFIGURAÇÃO NAS ÁREAS DO PRÉ-SAL LICITADAS NESTA SEXTA
No bloco de Peroba, na Bacia de Santos, que tinha as estimativas de petróleo mais generosas (5,3 bilhões de barris), o grupo liderado pela estatal brasileira saiu vencedor, com 40% de participação da Petrobras, 20% da chinesa CNODC e 40% da britânica BP Energy. O consórcio da Petrobras venceu com uma oferta em óleo excedente de 76,96%, ou seja, saiu vitorioso porque se comprometeu a entregar a maior parcela do petróleo produzido no campo à União, depois de descontados gastos de produção (esse volume é o chamado "lucro em óleo").

Os consórcios da Petrobras também fizeram as ofertas mais elevadas nos outros dois campos em que a estatal também tinha manifestado preferência - neste caso, pelas regras em vigor, mesmo em caso de derrota, a Petrobras teria garantido 30% de participação na exploração das áreas. Na briga pelo bloco Alto de Cabo Frio Central, a Petrobras venceu com a BP que tinha também 50% de participação e uma oferta de lucro em óleo de 75,86%. No campo Entorno de Sapinhoá, a Petrobrás venceu com 45% de participação, divididos com a anglo-holandesa Shell (30%) e a sino-espanhola Repsol Sinopec (25%), com oferta de 80% de lucro em óleo. Esses foram os campos mais disputados e tiveram as maiores ofertas de lucro em óleo, puxadas pela estatal brasileira.

Entre as estrangeiras, a Shell liderou e consagrou-se operadora de dois campos. No bloco Sul de Gato do Mato, a Shell ficou com 80% de participação e a francesa Total com 20%, com 11,53% de oferta de lucro em óleo, o mínimo aceito na licitação. No campo Alto de Cabo Frio Oeste, a Shell garantiu 50% de participação, com 20% da chinesa CNOOC e 25% da QPI, do Catar, com uma oferta de lucro em óleo de 22,87%, também o percentual mínimo exigido. Já a norueguesa Statoil arrematou o campo Norte de Carcará, do qual será operadora com 40% de participação, divididos com a portuguesa Petrogal (20%) e a americana ExxonMobil (40%) com uma oferta de lucro em óleo de 67,12%.