terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Simples assim, por Tânia Fusco--Jornalista


Arte: André Mello / Editoria de Arte

É muito difícil ser infeliz no Carnaval. Quem gosta da bagunça, tem três (ou cinco, ou sete, ou mais) dias pra se acabar. Quem não gosta, tem, no mínimo, um feriadão, que pode ser gasto como bem lhe aprouver.

Há quem duvide, mas, vida afora, é sempre mais fácil ser feliz do que infeliz. E nem me venha com aquela frase feita: o que temos são momentos de felicidade. Puta confusão. O prazer é que é coisa de momentos. Acontece, abastece e passa. Ai cabendo desde o prazer de comer até o sexual, que é o mais (bem ou mal) falado.

Ser feliz é não estar infeliz. Simples assim.

Tirando os infelizes patológicos, os momentos de infelicidade é que podem ser contados. Na maior parte do tempo a vida segue normal. Ou seja, mais feliz do que infeliz.

Podemos ter ansiedade e não estar infeliz. Podemos ter frustrações – e temos! – e não estar infeliz. Um pouco caídos, meio tristes, mas não infelizes.

Ser infeliz é decisão pessoal e intransferível. Ter desacertos é uma coisa, fazer disso infelicidade de longa data é outra. E quem dá o start para um lado ou outro é sempre o dono da vida, do corpo físico que aqui reside temporariamente.

Os do pacto com a infelicidade são óbvios. Você pergunta um corriqueiro tudo bem? E eles, sempre desanimados, lamentam: Ah! Tenho quilos de trabalhos para fazer hoje, amanhã, depois de amanhã...

Não dá para simplesmente dizer: tudo ok hoje, agora, neste instante. O que virá, virá. Não é agora. Pra que sofrer por antecipação e por tão pouco?

Há também os que nunca estão sem uma dor física. Ou tiveram ontem, na semana passado, durante o mês inteiro... Ou há alguém da família que não está bem.

Você olha em volta e esta tudo beleza com a figura. Só ela dispensou as lentes de enxergar isso. Assim não dá mesmo pra ser mais feliz que infeliz. Ainda que seja carnaval e que, no mínimo, esteja em casa desfrutando o prazer de assistir uma série atrás da outra, como se fosse um filmão de horas.

Viver não é linha reta. Tem curva, montanha, estrada boa, estrada ruim e pedágio. A existência de momentos ou coisas mais custosas não significa infelicidade obrigatória. (Custoso é uma expressão bem mineira que amplia o significado do difícil).

Imagine a chatice que seria se tudo na vida fosse programado do nascer ao morrer? Você ali - aborrecidíssima, imagino - sabendo exatamente a hora que teria prazer, que iria encarar o custoso, curva, montanha e mar bravo.

Tudo com data marcada. Pior ainda, sabendo desde o começo quando iria morrer e como.

Ó que merda?

O bom da vida é o carrossel de emoções. Vai dizer que não?

Não é uma delícia aquele dia, que começou lascado, você pega uma capa de chuva – porque, ainda por cima, está chovendo muito – e acha perdido no bolso uma nota de cem dólares, um maço de cigarros, uma velha declaração de amor, ou uma cantada, escrita num guardanapo amassado e já amarelado pelo esquecimento?

Pronto. Lá se foi o lascado. Prevaleceu a felicidade da boa surpresa.

E naquele dia que você tirou para fazer a coisa mais chata do mundo – arrumar papéis, documentos e assemelhados, por exemplo -, toca o telefone e é um antigo namorado, um velho e sumido amigo em dia de saudades?

Pronto. Horas de conversas potocas, abobrinhas, risadas, e você volta pros papéis como se fosse a maior delícia do mundo. Ou nem volta. Deixa para o dia seguinte. Feliz e sem nenhuma culpa.

Coisinhas tão pequenas dão prazer grande. Desarrumam qualquer ensaio de infelicidade. Ser feliz é mais simples, mais fácil.

A vida – de cada um e de todos nós -, não programada, graças a Deus!, é meio assim como um time de futebol. Tem a fase boa, quando tudo dá certo e você leva o campeonato. Tem a fase ruim, quando o time não rende, o craque é contundido, e você fica na lanterna ou até cai para a segunda divisão.

Lascou-se! Vai ter de começar de novo. Humildemente tem que acertar o time e suar a camisa para encarar e vencer na série B, e voltar, em glorias ou nem tanto, para a primeira divisão.

Há tsunamis. Cai o avião e morre o time inteiro. O carro da escola que estreia no grupo especial derrapa errado e causa tragédia. Nessas tenebrosas circunstâncias, tem outra saída se não começar do zero?

Sobrou, tá vivo, tem cura? Segue em frente. Pior que a situação custosa só a morte. Que, no lugar comum, é mesmo a única certeza da vida. Seja você puxado para o azedo e infeliz ou suave e feliz, vai morrer um dia.

Não é muito melhor levar de boa, somando só a simplicidade de ainda estar vivo e, se preciso for, vez por outra, até encarar mar de surfista com sua pranchinha de isopor?

Põe as fichas no novo. Leva a escola pra Avenida sem alas, tudo junto e misturado feito a Beija Flor. Surpreendente. Se não der certo, marcou a ousadia. Para o que der e vier, fez diferente do costumeiro.

Como no futebol ou no samba, não há má fase que não passe. E passa muito mais rápido quando a gente desazeda. Então, melhor ficar no bloco do hoje deu ruim, amanhã vai dar bom.

Toca o barco, rearruma o time, bota fé: ser feliz é sim mais fácil. Ainda que o Carnaval e o feriadão estejam acabando. Ano que vem tem de novo. Ô benção!

Samba do senador doido, por Chico Alencar--Professor de História (UFRJ)

Romero Jucá (Foto: André Dusek)
O jornalista Sérgio Porto (1923-1968), que se assinava Stanislaw Ponte Preta, era um craque na ironia. Um carnavalesco e tanto. Assim, compôs o “Samba do Crioulo Doido”, de imenso sucesso em 1966: “Foi em Diamantina/ onde nasceu JK/ que a Princesa Leopoldina/ arresolveu se casar/ Mas Chica da Silva/ tinha outros pretendentes” e vai por aí, abilolada. Hilário! Ele fustigava a Ditadura, que queria impor às Escolas de Samba enredos com narrativas da História oficial. Se fosse hoje, Lalau seria questionado pelo título da música, não pela letra.

Lembrei desse samba ao conhecer o discurso do senador Romero Jucá (PMDB/RR), na semana que antecede o carnaval, criticando a “perseguição da imprensa” e fazendo digressões históricas.

Sua Excelência, que é inteligente, assertivo e pragmático, pisou no tomate. Comparou sua situação de investigado na Lava-Jato a eventos históricos marcantes. Com toda a impropriedade, misturando alhos com bugalhos.

Jucá aproximou-se das vítimas da nada santa Inquisição, na Idade Média, esquecendo-se que a “caça às bruxas” era mesmo, quase sempre, às mulheres (menos de ¼ dos que foram para as fogueiras eram homens), acusadas de feitiçaria, heresia e pecados demoníacos da carne. Homem do poder, forte em todos os governos, o senador não cabe nessa similaridade.

Seguindo na visita à História, o parlamentar de Roraima chegou à Revolução Francesa... por vias tortas. Disse que a guilhotina sumária derivava do clima de ‘J´accuse!’ (não a banheira, atenção!) da época. Só que o libelo ‘J´accuse!’, de Émile Zola, referente ao rumoroso Caso Dreyfus, de injusta perseguição, é de 1898, em plena Terceira República. Escrito mais de um século depois da Revolução, portanto.

Por fim, Jucá chegou ao nazismo. Pontificou: “a cruz de Israel era pregada nos judeus”. Referia-se aos marcados para morrer no Holocausto. Só que esses tinham gravadas como identificação para o extermínio a estrela de Davi – “cruz de Israel” nunca existiu.

Além do mais, aproximar essa tragédia produzida pelo totalitarismo ao desconforto dos denunciados pelo desvendamento do conluio público-privado, que se evidencia na vida brasileira atual, é um rematado absurdo.

Romero Jucá, que nas delações da Odebrecht é o Caju (taí uma fruta que recupera de excessos momescos), devia moderar sua ansiedade e não entrar em seara com a qual não tem intimidade. A não ser que, só de brincadeira, queira compor um samba aproveitando a música do saudoso Stanislaw (apesar de declarar-se fã da polifonia dos Mamonas Assassinas): “Foi na Idade Média/ onde nasceu a Inquisição/ que começou minha injusta e cruel perseguição/ Mas na Revolução Francesa/ a guilhotina pescoços cortou/ e, sem qualquer critério,/ um século depois me vitimou...”

Evoé, Momo!

O NOVO COLLOR, por CARLOS CHAGAS--Jornalista

João Doria Jr. (Foto: AP Photo/Nelson Antoine)
Doria GRAY???
Mais uma vez, o prefeito João Dória Júnior procurou o governador Geraldo Alckmin para jurar que não é candidato a presidente da República, em 2018. Mentira ou precipitação?

Contam-se nos dedos de uma só mão as vezes em que, na história da República, eram para valer as afirmações de presidentes da República que, quando candidatos, desmentiam suas pretensões.

Traduzindo: João Dória Júnior só não disputará o palácio do Planalto caso careça de popularidade, recursos e de um partido que o apoie. 

Quanto a concluir que dispõe de chances, é outra conversa. Recente pesquisa revelou ser o alcaide paulistano conhecido de 70% dos consultados, inclusive no Nordeste.

O que parece respaldar as referências a João Dória Júnior é o mesmo fenômeno que, guardadas as proporções, um dia alimentou a candidatura de Fernando Collor: a busca pelas elites conservadoras de um novo nome capaz de derrotar adversários desgastados, de um lado, e de outro quem parecia disposto a virar o país de cabeça para baixo sob acusações de implantar o socialismo e sucedâneos.

Os desgastados de hoje são o próprio Alckmin, Aécio Neves, José Serra, Ciro Gomes, Marina Silva e mais classificados como ultrapassados políticos profissionais, à maneira do que foram em 1989, Aureliano Chaves, Ulisses Guimarães, Mário Covas, Paulo Maluf, Leonel Brizola e outros. 

A “perigosa ameaça ideológica” de agora, em condições de revogar as linhas conservadoras e reacionárias, é o mesmo: o Lula, que perdeu para Collor mas, anos depois, elegeu-se contra Serra.

Dizem que a História só se repete como farsa, mas ressurge o vaticínio de Marx e de Lenin: a possibilidade de o segundo turno das eleições do ano que vem ferir-se entre João Dória Júnior e Lula.

Um, centralizando a esperança das elites financeiras e da parcela da classe média que se aferra ao modelo neoliberal. Outro, disposto a mudar as diretrizes agora impostas pelas reformas do governo Michel Temer. Claro que descontado o interregno em que o Lula e o PT já ocuparam o poder, fator capaz de gerar mudanças nas concepções atuais do eleitorado. Mas, de qualquer forma, a disputa poderá travar-se entre as duas forças históricas e conflitantes de sempre: conservadores e reformistas.

ASSIM VÃO AS FEMINAZIS NO OCIDENTE, por PERCIVAL PUGGINA

Raise the voice for women's rights!
Femen, protestos e grita (Google)
Impressionado com o que vejo exposto em cartazes e corpos pintados durante manifestações feministas, mundo afora, fui atrás do termo "feminazi", no Google, e me deparei com diversos conteúdos que reprovam o vocábulo. Alegam que seria improcedente estabelecer qualquer analogia entre o feminismo e o nazismo. Ah, é? Então, vamos a isso.

Houve um feminismo cuja importância sociológica e econômica não pode ser negada. Abusos e desvios de conduta à parte, representou um esforço legítimo em favor da dignidade da mulher. No entanto, de algumas décadas para cá, surgiu um feminismo cujas pautas potencializam os males do machismo.

Este, nem em sua expressão mais vulgar consegue ser tão grosseiro e devasso quanto o feminismo das "feminazis". Com tais características, tinha tudo para virar movimento político, representante de um grupo social que se diz oprimido, e ser, então, abraçado pela esquerda. Hoje, todo esquerdista comprometido acaba sendo, também, feminazi. Ironicamente, o vocábulo serve aos dois gêneros.

Lembram do "Mamãefalei" e de suas entrevistas em vídeo, muito interessantes, feitas com invasores de escolas? Numa delas, o entrevistador mencionou a certa moça que ela dançava muito bem. A dita cuja, indignada, disparou: "Machista!". Quando ele lhe indagou o motivo daquele rótulo, ela, mostrando o treino para a conduta odienta, não parou para pensar: "Porque eu não autorizei você a me dizer que eu danço bem". Toda(o) feminazi (não vão me enlouquecer!) está num jogo de poder, naquele clássico formato que a esquerda (sempre ela) administra como coisa sua: dívida histórica, contas a ajustar, ódios a nutrir e vinganças a aplicar.
A mocinha expressava exatamente essas convicções e sentimentos. Dado que os indivíduos de cromossomos XY teriam oprimido os de cromossomos XX, através dos milênios (o que não foi verdadeiro em todas culturas), gerou-se um débito que começou a ser acumulado nas cavernas e uma agravante onipresente nas relações entre homens e mulheres.
Como produto dessa interpretação, desenvolve-se um ódio de gênero e uma criminalização da condição masculina, buscando a inversão do quadro anterior para a futura prevalência de um poder feminino na política e no direito. Voilá! Ficou claro, agora?

O que no nazismo era representado pela raça, no feminazismo é representado pelo sexo. Leiam os cartazes e os corpos que comparecem pintados às suas manifestações. Pode ser que exista neles e nos louvores à genitália feminina alguma sutil menção a algo tão propriamente da mulher como a maternidade, a geração, a criação de filhos e a amamentação. Nunca vi. Mas se houvesse, seria algo tipo "Meu leite, minhas regras!".

Quando mencionei os feminazis, veio-me à mente o ministro Roberto Barroso, do STF que, em recente voto favorável a realização de um aborto, afirmou que tais atos deveriam de livre decisão feminina, assegurada em nome do princípio constitucional da igualdade, porque homens não engravidam. Viram o que Deus fez? Imagino que, analogamente, por decorrência do mesmo princípio, os homens deveriam menstruar ou, as mulheres, parar de ovular. E vamos ficar por aqui, ministro.

Não devemos esquecer a aliança tácita do feminazismo com a esquerda mundial. As feminazis, por exemplo, jamais mencionam a situação das mulheres nos países onde vige a lei da sharia. Aliás, dia 23 de janeiro, em protesto contra a posse de Trump, feminazis loiras, para incomodar os republicanos, desfilaram em Berlim gritando Allahu Akbar...
Por fim, nem feministas nem feminazis abriram a boca quando Reinaldo Azevedo desfechou contra Joice Hasselmann, durante 24 minutos, ao vivo, pela TV Jovem Pan, o mais estúpido e grosseiro ataque verbal que a imprensa brasileira já assistiu. Mas Joice é uma jornalista "de direita" e isso parece fazer dela uma subespécie daquilo que Dilma Rousseff chamaria de "mulher sapiens".

Percival Puggina, membro da Academia Rio-Grandense de Letras

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Quem sobrará... Ricardo Noblat

Furacão em Brasília (Foto: Arquivo Google)
La Cour des Miracles, siége de "La Coquille"
A história contada pelo primeiro amigo, o advogado José Yunes, parceiro de o presidente Michel Temer há mais de 40 anos, tem começo, meio e fim, mas não resiste à meia dúzia de perguntas inocentes.

Tudo indica que foi concebida para livrá-lo de maiores encrencas com a Lava Jato, blindar Temer e oferecer uma saída honrosa para Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil da presidência da República.

Por ora, Padilha deixou o cargo para tratar da saúde ameaçada por um tumor na próstata. Imagina voltar ao governo no próximo dia seis. Se o fizer não será sozinho. Com ele, a Lava Jato entrará de vez no Palácio do Planalto e se instalará a poucos metros do gabinete de Temer.

Haverá situação mais incômoda para um presidente carente de popularidade e com uma agenda repleta de graves problemas?

Na primeira ocasião, Padilha se verá constrangido pela pergunta sobre o conteúdo do pacote que pediu a Yunes para receber e que depois mandou buscar no escritório dele em São Paulo.

Era um pacote com certa espessura, segundo Yunes, e que lhe foi entregue pelo doleiro Lúcio Funaro, operador de negócios do ex-deputado Eduardo Cunha. Hoje, Funaro está preso em Brasília e Cunha em Curitiba.

Yunes foi citado na delação de executivos da Odebrecht. O tal pacote conteria parte dos R$ 10 milhões pedido por Temer a Marcelo Odebrecht, na época presidente da empresa, para financiar campanhas do PMDB em 2014.

Temer pediu o dinheiro, mas, segundo ele, de acordo com a lei. Na delação, consta que foi dinheiro de propina, registrado na contabilidade oculta da Odebrecht. Yunes conta que não sabe quem foi buscar o pacote.

A acreditar-se no que ele disse é curioso que Yunes jamais tenha conversado com Padilha sobre o pacote. Não o fez “por uma questão de ética”, justificou-se. Mais curioso que tenha informado a Temer há dois anos sobre o que se passara.

Extraordinariamente curioso é o fato narrado por Yunes de que Temer não tivesse até a semana passada procurado Padilha para se informar a respeito.

Há mais furos nessa história do que numa peneira. Por que Padilha pediria a Funaro para deixar um pacote com dinheiro ou com qualquer outra coisa no escritório de Yunes se Yunes, conforme jura, não conhecia Funaro e nunca arrecadou dinheiro para o PMDB?

Por que a Odebrecht, dispondo de meios para fazer entregas em qualquer lugar do país, se valeria de Funaro e de Yunes para repassar dinheiro a Padilha?

Que amigo da onça, Yunes! Antes mesmo da quebra do sigilo que cerca a delação da Odebrecht, antecipou-se a uma futura convocação, bateu na porta da Procuradoria-Geral da República e deixou perplexos os que se dispuseram a ouvi-lo.

Quis salvar a própria pele. Estragou a pele de Padilha em um momento de extrema fragilidade dele. E ensombreceu o destino de Temer e do governo. Logo agora.

Logo quando o ministro da Fazenda havia anunciado o fim da recessão. Logo quando o governo reunia indicações de que o pior ficou para trás. Logo quando Temer mais precisava de Padilha para aprovar a reforma da Previdência.

Até aqui, Temer perdeu oito ministros da sua equipe original. Do chamado núcleo duro do governo, só resta Moreira Franco.

Com o fim do carnaval, os próximos três a quatro meses serão de forte turbulência com prisões de políticos e condenações que só esperam a assinatura do juiz Sérgio Moro (alô, alô, Lula!).

A questão principal não é quem será atingido. Mas quem sobrará.

De mulatos e mulatas, por Antonio Risério-Escritor,


A PPC – Polícia do Politicamente Correto – quer proibir, na base do delírio ideológico, um número razoável de palavras da língua portuguesa. É mais um modismo norte-americano que a universidade brasileira importou. E aqui se casa com outro modismo “made in USA” que também importamos: o racialismo.

Dessa lista de vocábulos, insistem em querer banir de nosso repertório lexical a bela palavra “mulata”, que sempre me faz lembrar de Clementina de Jesus cantando (“ensaboa, mulata, ensaboa”) e do admirável uso estético que dela fizeram os poetas de nossa música popular.

Nesse papo furado acadêmico-ativista, duas coisas não deixam de chamar minha atenção. A primeiro é que eles evitam o masculino “mulato”, insistindo no feminino “mulata”. A razão é simples.

Quando dizemos “mulato”, não se tem como sobrepor, à cor, o estigma da violência sexual. Além disso, racialistas preferem esquecer o fato de que mulatas sofreram o diabo nas mãos de mulatos, longe de qualquer solidariedade racial.

A outra coisa é a insistência em fazer de tudo para que mulata venha de mula, quando existem outras hipóteses etimológicas até mais consistentes, como a que indica a origem árabe da palavra, mulad, significando cruzamento de árabe e preto. O sadomasoquismo é inseparável desse tipo de militância.

Mas o problema, na verdade, não é a palavra mulata. É a ideologia racialista norte-americana (criada originalmente pelos senhores escravistas-racistas do sul dos EUA), que, copiada pelos racialistas e a turma do "politicamente correto" no Brasil, decretou que mestiços não existem.

Os EUA são uma anomalia planetária: o único país do mundo que não reconhece oficialmente a existência de mestiços de branco e preto. Mas, em vez de fazerem uma reflexão sobre a esquisitice de serem únicos nesse quesito, eles acham que o resto do planeta é que está errado.
Arte de LAN

E querem (não raro, conseguem) impor seu ponto de vista ao mundo. É o movimento para absolutizar o absurdo binarismo ianque, a dicotomia racista, como se Camila Pitanga e Sônia Braga fossem ilusões de ótica.

Na base dessa ideologia racial que nosso ativismo acadêmico importou, o que está é o horror puritano à mistura. A mixofobia anglo-saxônica. Mas nem vem que não tem. Não queiram me obrigar a ver o mundo – e o povo brasileiro – pelas lentes racistas de uma ideologia senhorial-acadêmica incorporada pelo ativismo norte-americano.

Jamais entrarei na viagem dessa fantasia racista. E digo alto e bom som: viva o mulato! viva a mulata!

Ninguém é de ferro, por Elton Simões


Olho a tela com coração dividido. Confesso. As notícias vêm cobertas de imagens bonitas, em palco iluminado onde desfila um Carnaval sem fim. Olhando para frente ou para trás, os olhos só alcançam a realidade dura e perversa. Como se este estado de alegria fosse apenas um hiato, ou, talvez pior, uma ilha.

Difícil e inútil apontar a contradição entre a beleza da alegria, ainda que temporária, ou por vezes, simplesmente falsa. Seria muito melhor não pensar. Entregar-se a comemoração daquilo que a gente nem se lembra mais. Não consigo. Nunca localizei botão que desconecta o cérebro dos olhos.

O ser humano, quando possível, ignora as agruras do dia a dia. Não sem bons motivos. Mentiras doces confortam mais que verdades amargas. Por isso parar para festa seja talvez fundamental. Certamente a gente pode usar um pouco de alegria.

Infelizmente a 4ª feira chega logo. Implacável. Fria. E a gente é obrigado a olhar de frente as dificuldades. E enxergar é preciso. Enxergar não garante que os problemas resolvidos. Mas não se tem notícia de que qualquer problema tenha sido resolvido sem que tenha sido enxergado antes.

Talvez na 4af a noite a gente possa voltar a se preocupar com o ambiente que ajudamos a criar. Entender como e porque a vida tem se resumido ao acompanhamento de crimes de toda espécie, violentos ou não.

E que desta contemplação surja o aprendizado e o reconhecimento da nossa história que levou a tudo isto. Somente aí é possível mudar. História não é passado. É presente. Foi ela que produziu cada um de nós. E gerou a maneira como nos relacionamos, somos tratados e tratamos aos outros. Cada um de nós carrega dentro de si a história, própria e coletiva. Cada um de nós tem a responsabilidade de entende-la e, quando necessário, moldar o futuro.

Daqui a pouco a tela vai mostrar imagens diferentes. Sem modelos, sem nudez, e sem beleza. Neste começo de ano já marcado por maldade insolente, é urgente entender e mudar a nação que gerou tanta iniquidade.

Mas pode esperar até a fim do carnaval. Ninguém é de ferro.

Elton Simões--Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)

A suruba não é só do Jucá, por RUTH DE AQUINO

"Juquinha” prestou um serviço à nação com seu sincericídio, ao falar sobre o foro privilegiado
Fabio Rodrigues Pozzebom (Foto: Agência Brasil)
Romero Jucá (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)
Olha a cabeleira do Jucá, será que ele é, será que ele é?

Conhecido na delação da Odebrecht como Caju, uma referência ao tom dos cabelos, hoje grisalhos, o presidente do PMDB e líder do governo no Congresso, senador Romero Jucá, poderia ter se eclipsado com uma fantasia de José Sarney, pioneiro na tendência acaju em Brasília. Era véspera de Carnaval, quando a capital fica deserta já na quarta-feira. Mas o senador pernambucano insistiu em continuar Jucá ou “o Juquinha” do Congresso. Prestou um serviço à nação, com seu sincericídio, ao falar sobre o foro privilegiado.

“Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo. Jucá queria “estancar a sangria” da Lava Jato. Pela língua destravada, acabou exonerado do Ministério do Planejamento de Michel Temer 11 dias após ser nomeado. Jucá durou mais tempo como ministro da Previdência Social de Lula: quatro meses. Caiu por acusações de irregularidades com empréstimos bancários. Sangria não, suruba sim.

Traduzindo o raciocínio de Jucá: se for para acabar com o privilégio de políticos suspeitos, que só podem ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal e não por nenhum “juizeco” (nas palavras de Renan Calheiros), que então se estenda o fim do foro para os presidentes, magistrados e procuradores. Nada de “prejudicar” só o Legislativo. Suruba precisa ser geral. Fim da suruba também. Para o Executivo e o Judiciário. Até aí, muita gente concorda. Só que o argumento deveria ser igualdade, e não vingança.

Meses antes de assumir a presidência do STF, Cármen Lúcia me falou sobre o foro privilegiado para parlamentares, presidentes e vice-presidentes da República. “Sou contrária a esse foro especial para qualquer pessoa. E já votei assim. Acho que qualquer um de nós tem de responder em igualdade de condições. Uma característica essencial da República é a igualdade. Temos ótimos juízes, competentes e sérios no Brasil. Não vejo nenhuma razão para que casos de algumas pessoas sejam transferidos para o Supremo.”

Durante quase uma hora, Jucá ocupou a tribuna do Senado para defender uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que estenderia aos presidentes do Senado, da Câmara e do STF as prerrogativas do presidente e vice-presidente da República, que não podem ser investigados por nada anterior ao mandato. Pegou tão mal que Jucá desistiu. Mas não amansou. Sob a desculpa de “modernizar uma lei que ficou anacrônica”, Jucá convoca todo mundo para a mesma cama.

Estamos longe de uma “suruba para todos”. O Supremo acaba de proibir o juiz Sergio Moro de investigar José Sarney, o imortal. Ou “o incomum”, assim entronizado por Lula, numa das piores passagens da biografia do petista, convenientemente esquecida por militantes. Lula livrou Sarney de um processo de cassação da presidência do Senado em 2009, acusado de fazer o que melhor sabia, favorecer secretamente parentes e aliados. Agora, Sarney pediu ao STF para não ser investigado por Moro por ter sido citado por Sérgio Machado junto a dois políticos com mandato: Renan Calheiros e Romero Jucá. Sempre eles. Bingo. Sarney é incomum. Foi acusado de receber R$ 18,5 milhões de propina da Transpetro por nove anos.

O senador que disputa com Moreira Franco o posto de melhor amigo de Temer pediu desculpas pela expressão “suruba”, mas parecia envaidecido com a repercussão. Disse ter se inspirado na letra de uma música irreverente. “Eu brinquei que assim não dá, senão vira a música dos Mamonas (Assassinas), a suruba portuguesa.” 
O refrão da música “Vira-vira” diz assim: Roda, roda e vira, solta a roda e vem/Neste raio de suruba, já me passaram a mão na bunda/E ainda não comi ninguém.
Esse indivíduo é o favorito no PMDB para disputar a presidência do Senado em 2020.

Jucá não gosta de “parte da imprensa”, que segundo ele adota métodos do nazismo e da Inquisição. “Não dá chance a ninguém de se defender: escolhe aleatoriamente e parte para o estraçalhamento, sem se preocupar com a verdade, sem se preocupar com a família das pessoas, com a história de cada um.” Há uma parte da imprensa que ele gosta. Possui duas emissoras de televisão em Boa Vista, um jornal impresso e duas emissoras de rádio.

A suruba não se resume ao foro privilegiado. Engloba os maus costumes de Brasília. A folga de Carnaval dos deputados, por exemplo, vai durar 12 dias. Pensar que muitos só foram ao plenário na quarta-feira para registrar presença e não ter o dia descontado no fim do mês. E se mandaram para o aeroporto. Na Câmara, houve apenas uma sessão solene de homenagem aos 100 anos do Lions Club. Isso é piada, não é, Juquinha? Isso é suruba, não é, Jucá?

Arte de AMARILDO

Charge (Foto: Amarildo)

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Arte de Antonio Lucena

Charge (Foto: Antonio Lucena)

Lei da ex, por Ancelmo Gois



Amor (Foto: Arquivo Google)
O coração tem razoes......
Três dos enjaulados na Lava-Jato devem muito da cruz que carregam às delações de ex-mulheres. 
Outras duas exs, de gente que está solta, estão conversando com o Ministério Público Federal.

Oliveira mais antiga de Portugal nasceu há 3350 anos, por CARLOS DIAS

As obras da barragem do Alqueva abriram uma oportunidade única para que fossem abatidas centenas de árvores e testar um método de datação das oliveiras milenares.

A oliveira das Mouriscas 

Um misto de respeito e perplexidade são inevitáveis quando se observa um dos seres vivos mais antigos de Portugal. Foi recentemente datado como tendo a espantosa idade de 3350 anos, como se pode ler na página online do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas. É uma oliveira. 
A sua sombra, certamente, acolheu celtas, iberos, lusitanos, celtiberos, cónios, romanos, visigodos, alanos ou árabes que se alimentaram das azeitonas que produziu. É contemporânea do faraó Ramsés II e de Moisés (1250 anos a.C.).

Continua de pé e a produzir azeitona na freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes, revelando um estado vegetativo que lhe permite acrescentar mais uns séculos à sua tão longa existência se, entretanto, as acções do homem não a reduzirem a lenha.

A datação foi cientificamente comprovada em 2016 pelo professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) José Penetra Louzada, que descobriu o único método existente a nível mundial para datar árvores antigas quando o seu interior se encontra oco, como é o caso das oliveiras milenares.

Desde 2008, ano em que foi registada a patente, a UTAD “já datou mais de uma centena de oliveiras milenares”, adiantou ao PÚBLICO José Louzada. 
Entre os exemplares observados, encontra-se a “árvore das Mouriscas que está entre as mais antigas do mundo”, salienta o docente. 
Antes deste exemplar, estava em primeiro lugar, na lista portuguesa, “outra oliveira em Santa Iria da Azoia, com 2850 anos, que esteve em risco de ser derrubada para alargar uma rotunda”, observa. A população movimentou-se para que fosse datada e hoje a comunidade tem orgulho da sua árvore, que deixou de ser vista como um “empecilho”. Não faltam placas a assinalar o local aos visitantes.

Para a pesquisa do novo método de datação foram decisivas as obras da barragem do Alqueva e a construção de auto-estradas no Alentejo, refere o docente, salientando a necessidade que houve em “derrubar muitas centenas de árvores que ficaram disponíveis para elaborar o estudo, durante mais de uma década de trabalho.”

Os dois métodos de datação até então existentes tinham como base a identificação e contagem dos anéis ou a análise de radiocarbono da madeira formada nos primeiros anos de vida. Contudo, a observação implicava danificar parte dos troncos. E nenhum deles funcionava com as oliveiras milenares por estarem ocas. Louzada desenvolveu uma fórmula matemática para a sua datação que não danifica as espécies e se baseia em padrões de crescimento através de medições do diâmetro, altura e perímetro das oliveiras. 

Para terem a certeza que o método padrão definido para as oliveiras estava correcto, pediram a colaboração do Instituto Tecnológico e Nuclear para fazerem datação a carbono 14, e verificou-se que “coincidia a 100%”, acentuou o especialista. 
Árvores à venda

O desafio para a obtenção de um novo método que se adequasse às oliveiras foi lançado por Soares dos Reis, proprietário de uma empresa de venda de árvores milenares. A dada altura, quando pretendia exportar exemplares para o estrangeiro, era confrontado com a exigência do comprador de um certificado sobre a idade das árvores passado por uma entidade credível e independente.

“Toda a investigação, incluindo o fornecimento de exemplares para estudo, registo da patente, tudo foi pago pela minha empresa”, adiantou ao PÚBLICO Soares dos Reis. A patente deste método está registada na proporção de 50% para UTAD e 50% em nome pessoal do empresário.

Soares dos Reis diz que está ligado ao transplante de árvores, em especial oliveiras, há mais de 15 anos. E foi para se distinguir da concorrência neste comércio que financiou a pesquisa de um novo método de datação. “Assim agrego um certificado de idade à oliveira vendida ao cliente mediante um método patenteado que tem apenas uma margem de erro de 2%”, assinala Soares dos Reis, realçando a importância da construção da barragem do Alqueva neste processo e de outras obras públicas. 
“Levaram ao arranque de milhões de oliveiras que até a essa data era impensável serem removidas”, revela o empresário, sublinhando que, neste número, “encontravam-se milhares de árvores centenárias e milenares cujo destino seria a destruição para lenha.” A sua recuperação para venda como arvores decorativas de jardins públicos, privados, adegas, lagares, campos de golfe, hotéis “permitiu que fossem salvas milhares de oliveiras centenárias.” Em relação às árvores milenares diz ter negociado “apenas algumas dezenas” com destino a Espanha, França e o Dubai, essencialmente.

Na realidade, a quase totalidade das árvores milenares “são zambujeiros, também conhecidas por oliveiras bravas que foram enxertadas” para produzir um fruto maior e desta forma obter mais volume de azeite, refere José Louzada, salientando a “capacidade de regeneração praticamente infinita” desta espécie.

É óbvio que as células iniciais de uma oliveira milenar “não estão lá, já morreram há muitos séculos, mas houve uma regeneração e desta forma vive quase perpetuamente”, explica. 

A oliveira de Mouriscas é originariamente um zambujeiro que foi enxertada e produz duas qualidades de azeitona. Quando se suspeitou que poderia ser a mais velha de Portugal, um grupo de cidadãos desta freguesia pediu que a árvore fosse datada e certificada. O investigador da UTAD, juntamente com a empresa Oliveiras Milenares, fizeram a recolha dos elementos e foi confirmado que tem a idade de 3350 anos. O certificado foi atribuído em Setembro de 2016.

A necessidade da Filosofia, por HARON GAMA

Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, em maio de 1968. “No final da vida, quando percebeu que a filosofia e o saber possuíam um tempo de maturação mais longo do que a vida humana, Sartre resolveu fazer política”, diz o texto
Ronaldo Lima Lins especula, em novo livro, sobre os caminhos e limites à busca do conhecimento. Ao fazê-lo, dialoga com Orwell, Rousseau, Hanna Arendt e Sartre

RESENHA DE--O saber e os ventos do não saber-Ronaldo Lima Lins

O saber e os ventos do não saber, de Ronaldo Lima Lins, é um livro que contém dez ensaios, todos voltados para a discussão sobre os caminhos possíveis e os impedimentos relativos à busca do conhecimento, sobretudo quando se trata da solução de problemas humanos. Como é comum na obra do autor, a pesquisa, a descoberta, o aprofundamento nas questões humanas envolvem vários níveis de leitura, desde filósofos já conhecidos, autores de literatura, leitura de acontecimentos históricos, mas também a observação do ponto de vista do homem do povo com suas perguntas e respectivas saídas. A escuta e observância deste, muitas vezes negligenciado pelo universo da alta cultura, pode servir como estopim para que se parta à descoberta de algo que, a princípio, não se imaginara, como apresenta o primeiro ensaio, “Os ventos do não saber”.

Partindo de um livro de Thomas Cahill sobre a análise de duplos no mundo das ideias, Platão/Santo Agostinho e Aristóteles/Tomás de Aquino, o autor discorre sobre os possíveis modos de exposição das ideias. Os primeiros centrados no estilo e na arte de escrever, os segundos no processo de entendimento do próprio texto. Tudo ocorre como se nos movêssemos entre dois modos de interpretar o mundo, ora baseados em Platão, ora em Aristóteles. Mais adiante, a presença de Jean Paul Sartre servirá como fiel da balança, uma tentativa de se escapar da interpretação que nos acompanha desde tempos remotos. Com a Crítica da razão dialética, o filósofo francês tentará apresentar a saída – ela estaria ancorada na análise dos embates históricos, como os da Revolução Francesa.

Sartre parece querer nos mostrar o que está por trás dos saltos da história, principalmente naquilo que se refere ao rompimento com o pensamento aristotélico. O que há de novo na obra sartreana, no entanto, seria a hipótese de justiça, da qual necessitam os seres os humanos, sobretudo os mais fracos socialmente. O fim das utopias, no entanto, teria levantado um sinal de alerta, jogando por terra muitas das interpretações que envolveriam o progresso do pensamento e da justiça. Ronaldo Lima Lins, neste ponto, analisa a função da ideologia dominante, que teria incutido nos pensamentos “a tese de que se acham superadas todas as formas de elaboração de sistemas filosóficos alternativos”, dentro dos quais estaria incluído o próprio Sartre. O ensaio tenta provar que quantidade nada determina. O pensamento humano não pode partir da matemática. Se a maioria já não acredita na filosofia, não crê que filósofos possam chegar à verdade, isso não significa que esta mesma maioria esteja com a razão.

Tal tese pode ser comprovada a partir dos regimes democráticos onde, apesar de eleitos por grandes maiorias, muitos chefes de Estado mostram-se pequenos e prestes a levar nações à bancarrota. Exemplos não faltam. Em consequência, Lima Lins desenvolve seu raciocínio dizendo: “Sabe-se que hipóteses descansam às vezes por séculos, enterradas no solo movediço do Tempo – e se erguem, renascem e retornam para obcecar as mentes ou indicar caminhos insuspeitados.”

O segundo ensaio, “O Eu e os Outros”, começa invocando Rousseau, alguém que decidiu voltar o foco da atenção para si mesmo, “de acordo com o princípio segundo o qual o mais próximo se mostra melhor.” Este pensador queria, na verdade, mudar o mundo; retirou-se, então, da convivência em sociedade na esperança de descobrir, sem o contágio do tempo, caminhos a trilhar. A experiência foi válida, mas não o suficiente para o que pretendia. Tais tentativas podem mostrar-se até certo ponto enganosas porque, por mais que alguém se afaste da vida social, este sempre estará imbuído do imaginário que o formou – no caso de Rousseau trata-se do imaginário ocidental.

O que conseguiu, na verdade, foi produzir uma boa obra literária, e esta não lhe foi vã, pois abria mais indagações do que portava certezas. O professor emérito da UFRJ constata: o problema do saber está intrinsecamente ligado à condição de não se estar sozinho. A literatura seria um modo de indagação e compartilhamento. Assim, não só se poderia conhecer melhor o outro como também estudá-lo nos seus mais diversos aspectos. Constatando a impossibilidade de uma total certeza sobre o conteúdo do saber, sobre a perenidade de sua verdade, o seu valor não estaria neste mesmo conteúdo, mas no processo. 
Isso não exime os intelectuais de colocarem o dedo na ferida quando constatam que precisam “salvar” o mundo, quando este caminha privilegiando a injustiça. O ensaio termina citando o filósofo Slavoj Zizek, que nomeia esta época de período pós-político e pós-filosófico. Eis o pensamento do autor nas palavras de Lima Lins: “uma etapa da história menos preocupada com a ética e mais voltada para as formas industriais de exibição de saber.” No final do ensaio, há a assertiva de que a humanidade sempre que se viu cercada, conseguiu algum tipo de saída. Respiramos até certo ponto aliviados, pois predomina a perspectiva humanista na marcha da História.

O terceiro ensaio inicia referindo-se a George Orwell, que entoa uma crítica ao então totalitarismo soviético no seu romance 1984. O ficcionista de língua inglesa apresentava um quadro de ausência da política. É sintomática a afirmação no começo do ensaio, porque aponta os mecanismos socioeconômicos como causas do abandono do diálogo e do entendimento. O mercado regeria as relações, deixando os embates parlamentares a reboque. Outro ponto importante discutido neste texto é sobre o processo de uniformização. Enquanto o ocidente temia o comunismo por causa de uma ideologia igualitária, a mesma uniformização passa a fazer parte do mundo capitalista, “as mentalidades se adaptaram a um só formato para a aceitação de produtos idênticos lançados e adquiridos em toda parte.”

Além disso, predomina “o imperativo da competição e da busca desenfreada do capital em favor do crescimento, com base em baixos salários e numa competição em escala mundial.” Como situaríamos o conhecimento em tal estrutura? Ele seria possível num tal processo de uniformização? Passando pela necessidade da política (o homem é um ser que vive em sociedade), necessidade do diálogo e mesmo do entendimento, mais uma vez surge aqui a premência do “outro” como alguém possível de provocar a reflexão. 
O autor revisita as relações de poder à época do absolutismo, do Iluminismo, da Revolução Francesa, citando também Tocqueville, de A democracia na América. De acordo com esta obra, “a população agia segundo os seus interesses com lucidez perfeita”.

O mundo científico, a princípio, teve muito a lucrar a partir das democracias modernas, mas pouco a pouco a delimitação do campo de pesquisa, devido à complexidade de diversos ramos do conhecimento, transformou o saber em não saber. À medida que o pesquisador avança dentro da sua especialidade, abandona o todo, distanciando-se dele de tal maneira que, muitas vezes, sua pesquisa abrange uma parte tão restrita, que os próprios pressupostos que nortearam sua busca já se encontram muito distantes. Em tais circunstâncias o saber, em vez de diminuir o desconhecimento, torna-o ainda maior. Aqui se encaixa o título do ensaio: “Abandonados no infinito”. 
À medida que se avança no universo da pesquisa, uma quantidade ainda maior de saberes fica para trás. Talvez fosse melhor seguir o preceito hegeliano, segundo o qual seria imperiosa “a necessidade de um pensamento que, além de toda a atividade, pensasse a si mesmo.”

“Sendo não sendo”, o quarto texto, focaliza o pensamento do ponto de vista daquele que pensa e, ao mesmo tempo, visa ao processo do pensar, como afirma Hegel: “o pensamento que se volta para si mesmo para conhecer-se”. Os homens produzem algo objetivo, mas se realizam neste objeto deixando traços da característica humana. Todo o texto percorrerá esta linha de reflexão com a intenção de comprovar a necessidade do contraditório e da filosofia. Esta jamais pode existir numa via de mão única.

“O oculto e sua beleza” transita entre as flutuações do saber e do não saber, fazendo um paralelo entre a beleza que pode se mostrar e a que ainda não se descobriu. Na verdade, o saber não caminha numa linha evolutiva linear pacífica, sem sobressaltos, o que o faz desafiador é sua necessidade de se apresentar nos momentos de dificuldades pelos quais a humanidade passa. Onde há problemas é preciso desenvolver um saber para superá-los. Mais uma vez este investimento não pode ser solitário. O saber acumulado e a troca constante entre seres sociais agilizarão o processo.

“Depois da Ventania”, último ensaio do livro, começa citando Hannah Arendt e seu estudo sobre um possível pensamento político na obra de Kant. O texto baseia-se na dicotomia mobilidade/imobilidade. “Do ponto de cruzamento dessas duas tendências se faria a luz.” Kant, em sua vida reclusa, soube observar os movimentos despertados pela Revolução Francesa. Esta, no momento em que ocorria, não apontava o que viria depois. Muitos fatos da história humana, no auge de suas realizações, não permitem que se vislumbre a ventania que serão capazes de produzir. Antes do Iluminismo, a monarquia francesa apresentava uma sociedade imóvel, vivia-se como se tudo sempre pudesse permanecer estático.

O ensaio avança ao focalizar o século XX, com seus intelectuais e os consequentes embates de ideias, cita a amizade entre Sartre e Camus e o posterior rompimento entre os dois. Sartre teria sido um intelectual que tentou encontrar, através do saber, respostas para os problemas também imediatos do homem. No final da vida, quando percebeu que a filosofia, o saber, a universidade, enfim, possuíam um tempo de maturação mais longo do que a vida humana, resolveu fazer política, trabalhando a serviço do seu tempo, nesta arte tão difícil e tão desvirtuada.

Não é possível numa pequena resenha abordar todos os ensaios deste novo livro de Ronaldo Lima Lins, autor requintado na arte de descrever as minúcias do pensamento. No final, o ensaísta conclui que, apesar das derrotas infligidas pelo próprio saber, como a própria produção de armas cada vez mais letais, o importante talvez não seja o conteúdo, isto é, o resultado do ato de pensar, mas o seu próprio processo, a curiosidade, aquilo que move o homem ir adiante: “mesmo assim, a curiosidade, esta curiosidade, bombardeada ou não, permanece. Um dia, talvez, saberemos até onde é capaz de nos levar…”
O autor: Ronaldo Lima Lins é professor emérito da Faculdade de letras da UFRJ

Hotel de Eduardo dos Santos é confiscado em Abu Dhabi, NAS FÔLHAS


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Este é o segundo caso nos EMIRADOS ÁRABES UNIDOS do Presidente Angolano, depois de no mês passado as autoridades locais terem confiscado os 4 edifícios arranhas-céus no Dubai, desta vez é um HOTEL DE 5 ESTRELAS EM ABU DHABI.


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J. Eduardo Santos alias ZÉDU
Estes 4 edifícios foram construídos no Dubai e são propriedade de Eduardo dos Santos, fazem parte deles: escritórios, lojas e apartamentos em aluguer. 
Neste momento estão encerrados porque o sheikh Mohammed o príncipe do Dubai, não aceitou que um presidente tenha um investimento desses na sua terra, segundo ele assim estaria a fazer pacto com os corruptos que desgraçam os seus povos, só é permitido no Dubai comprar um apartamento de t3 ou alugar uma mansão por 5 anos no máximo.

Este Hotel confiscado foi construído em nome da Empresária de 27 anos sobrinha do Chefe da casa militar da República de Angola. 

Como existe um processo top secreto de investigação dos Homens de Negócios Africanos no Médio Oriente em conexão com o F.B.I, esta empresária cai no sistema. 
Foram feitas investigações nos dossiers da firma proprietária do Hotel consta os nomes de J.E. Santos como sendo um acionista com 75%, 15% H.V. Kopelipa e 10% a sobrinha do Kopelipa amante do J.E.Santos; dai as atividades do Hotel foram encerradas.

Convocada a empresária para prestar declarações a mesma, residente na Venezuela não compareceu na data marcada. 
As autoridades dos EMIRADOS convidaram os outros sócios maioritários a comparecerem para explicarem a origem dos valores da construção do Hotel de 80 andares e como do costume enviaram um Advogado Português.

Infelizmente sem sucesso, pois a lei Islâmica não permite Advogados em casos de corrupção.

Então assim o Hotel foi confiscado para o governo de Abu Dhabi e a conta Bancária do Hotel foi bloqueada, onde foi encontrado um valor de 65 $ milhões.

Este montante,dizem, será transferido aos Refugiados Sírios na Turquia.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Jorge e Bruno Luz, lobistas ligados ao PMDB, desembarcam no Brasil, por RENATA MARIZ

Alvos da Operação Blackout foram levados para a Superintendência da PF no Distrito Federal
O lobista Jorge Luz deixa o IML após ser preso pela PF ao desembarcar no Brasil - Foto Ailton de Freitas

BRASÍLIA - Com prisão decretada pelo juiz Sérgio Moro, os lobistas ligados ao PMDB Jorge Luz e seu filho, Bruno Luz, chegaram ao Brasil, no aeroporto de Brasília, na manhã deste sábado e foram levados para a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal. Segundo a PF, eles ficarão em Brasília até quinta-feira, quando serão transferidos para Curitiba.

Eles estavam em Miami, onde foram presos pela polícia de imigração dos Estados Unidos. Pai e filho entraram na lista de procurados pela Interpol, depois que o mandado de prisão foi expedido no Brasil na 38ª fase da Operação Lava-Jato, deflagrada na última quinta-feira.

Jorge e Bruno embarcaram na noite de ontem num voo comercial direto de Miami que pousou em Brasília por volta das 7h30. Ao chegarem ao setor de imigração do aeroporto, a Polícia Federal os conduziu a uma viatura, na área interna do terminal, que seguiu para a Superintendência Regional do órgão. Eles não passaram pelo desembarque de passageiros.

POR BAIXO DO TAPETE
A viatura com os presos ficou parada no estacionamento da Superintendência da PF, sem que ninguém descesse. Depois, saiu em direção ao Instituto de Medicina Legal (IML), retornando cerca de meia hora depois.

Os presos usaram tapetes que parecem ser da própria viatura para se esconder dos fotógrafos durante o trajeto. Eles colocaram o objeto nas janelas do veículo e na frente do próprio rosto.
Bruno Luz deixa o IML em Brasília após ser detido por policiais federais na chegada ao Brasil - Foto Ailton de Freitas 

A Polícia Federal garantiu que Jorge e Bruno Luz deixassem o aeroporto de Brasília discretamente, sem passar por nenhuma área de circulação pública.

Não há previsão de depoimento ou qualquer outro procedimento neste sábado em relação a Jorge e Bruno Luz. Eles estão na carceragem da PF em Brasília. O advogado que os defende, Gustavo Teixeira, afirmou que não estuda, ao menos por enquanto, pedir a soltura dos clientes por meio de habeas corpus.

Teixeira disse que pai e filho já prestaram "depoimentos formais e informais aqui no Brasil ao Ministério Público Federal e à PF" e sustenta que os dois órgãos sabiam desde 2015 que os clientes dele estavam nos Estados Unidos. O advogado se diz surpreso que Jorge e Bruno "agora, como que num passe de mágica, tornam-se foragidos e suas prisões necessárias por fatos que teriam ocorrido até dez anos atrás".

- É no mínimo curiosa essa mudança de postura - disse Teixeira.

Jorge aparece na Lava-Jato como um dos mais antigos e importantes operadores do PMDB no esquema de cobrança de propina, com a ajuda do filho. Ele teria atuação na Petrobras desde os anos 1980. Um relatório da Polícia Federal de 2015 já alertava para risco de fuga para o exterior dos dois operadores. Bruno Luz tem dupla cidadania, brasileira e portuguesa.

Segundo as investigações, Jorge e Bruno estão envolvidos em pelo menos seis episódios de corrupção e lavagem de dinheiro no esquema da Petrobras e foram citados por ao menos dois delatores da Lava-Jato: Paulo Roberto Costa e Fernando Soares, o Baiano.
Bruno e o pai, Jorge Luz, operadores do PMDB e alvos da 38ª fase da operação Lava-Jato -Foto Divulgação

Segundo o advogado Gustavo Teixeira, que os defende, os clientes não foram presos “presos nem muito menos algemados” nos Estados Unidos, mas sim abordados pela polícia de imigração. Depois disso, acrescenta Teixeira, decidiram se apresentar espontaneamente às autoridades brasileiras, custeando as próprias passagens e sem restrição de liberdade.

Segundo o procurador da República Diogo Castor de Mattos, integrante da Lava-Jato, agentes políticos do PMDB no Senado "ainda na ativa" foram beneficiários da propina supostamente repassada por Jorge e Bruno Luz.

De acordo com as investigações, os operadores do PMDB usaram contas de offshores no exterior para pagar propina "de forma dissimulada". Foram identificados pagamentos em contas na Suíça e nas Bahamas.

Pai e filho são investigados por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A atuação mais frequente de ambos se dava nas diretorias Internacional da Petrobras, de Serviço e de Abastecimento.

A pinguela está balançando, por Ruy Fabiano--Jornalista

Às vésperas do carnaval, o governo se vê diante de mais um terremoto ministerial. As denúncias do advogado José Yunes, ex-assessor especial de Michel Temer e seu amigo há mais de 50 anos, de que serviu de “mula” (receptor) ao chefe da Casa Civil, Elizeu Padilha, em pagamento de propina da Odebrecht, afastam de vez do governo o principal ministro e conselheiro do presidente.

E não apenas: respingam no próprio Temer, íntimo de ambos, que os teve e manteve no assim chamado núcleo duro palaciano. Fica, no mínimo, a suspeita de que não ignorava os fatos, que, por sinal, também o incluem nas delações de Marcelo Odebrecht.

O presidente é acusado de ter pedido e recebido R$ 10 milhões para a campanha de seu partido, o PMDB, que então presidia. O dinheiro teria sido pago em caixa dois, e parte dele teria sido destinado a Padilha, nos termos da narrativa de Yunes.

Temer nega o caixa dois e garante estar tudo registrado na Justiça Eleitoral. As denúncias, óbvio, carecem de comprovação, embora Marcelo Odebrecht as sustente com convicção, não ocultando a origem ilícita do dinheiro. Podem não gerar – e não vão – providências imediatas, de ordem jurídica, mas politicamente configuram mais um abalo para o presidente e seu governo.

Se fosse apenas isso, já seria muito. Mas há mais, muito mais. A essas denúncias, somam-se as de outras empreiteiras, igualmente implicadas na Lava Jato – Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, OAS, Delta, UTC -, prenunciando uma quaresma mais barulhenta e predadora que o próprio carnaval. A pinguela está balançando.

Aguarda-se, na sequência imediata do feriado, a divulgação, pelo Ministério Público, dos demais nomes mencionados pelos 77 executivos da Odebrecht, já homologados pelo STF.

Não se sabe quantos são; sabe-se apenas que são muitos, quase duas centenas, a maioria gente do governo anterior e do atual, indo em cheio ao coração do Congresso.

Não por acaso, um dos temas mais ruidosos na Câmara e no Senado, no curso da semana, foi, mais uma vez, o foro privilegiado. O país quer o fim do foro; os políticos, não. O líder do governo no Senado, Romero Jucá, tentou estender o princípio de intocabilidade do presidente da República, que não responde por atos praticados fora de seu mandato, aos presidentes da Câmara e do Senado.

Perdeu. E acabou por se referir ao foro como “uma suruba”, em que ou todos dela participam ou então ninguém, deixando claro que quer a generalização, nada de “suruba selecionada”. Um momento de rara elevação verbal no Parlamento.

Em meio a tamanha algaravia, Temer viu a nomeação do novo ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB-RS), gerar atritos em sua própria base parlamentar. O deputado Fábio Ramalho (PMDB-MG), coordenador da bancada mineira, que queria no cargo alguém de seu estado, anunciou ter rompido com o governo.

Ramalho não é nenhuma sumidade – é, antes, um ente do baixo clero -, mas ocupa a 1ª vice-presidência da Câmara; é o sucessor imediato de Rodrigo Maia que, citado na delação da Odebrecht e agora também por Fernando Cavendish, da Delta, como beneficiário de propina, corre risco potencial de deixar o cargo.

Nessa hipótese, ainda vaga (mas nada é tão vago na atual conjuntura quanto o próprio governo), Temer teria um inimigo à frente da Câmara; Ramalho seria o seu Eduardo Cunha, embora sem o mesmo talento predatório deste. Mas, quando se cruza uma pinguela, o peso de uma piaba pode fazer toda a diferença.

De quebra, o governo perdeu, subitamente, um de seus quadros mais expressivos, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que, alegando questões de saúde, demitiu-se. Serra havia imprimido à política externa grandes transformações, a começar pelo rompimento com o bolivarismo e a abertura de novos mercados. Seu sucessor deverá ser também um tucano.

Em resumo, ao fim dos tambores de Momo, voltam a rufar os da Lava Jato, dando continuidade ao (merecido e indispensavel, nota do blogcalvário da classe política.

Bovespa cai e dólar sobe com cenário externo e incertezas políticas, Por Aline Cury Zampieri e José de Castro

O Ibovespa opera em queda, em linha com a correção de trajetória vista nos mercados internacionais de ações. 
O índice caía 0,87%, para 66.877 pontos, pressionado por dúvidas sobre os impactos das políticas reflacionárias do governo americano sob o comando de Donald Trump. 
Segundo operadores, desde ontem os mercados passaram a expressar maior preocupação com execução no tempo e na magnitude esperada do tripé da agenda pró­crescimento de Trump (reforma de impostos, desregulamentação e infraestrutura) e já houve realização em setores intensivos em gastos de capital. 

Os futuros do petróleo caíam 0,8% em Londres e o minério de ferro em Qingdao, na China, caiu ­0,92%, a US$ 90,50. A queda do petróleo provoca baixa das ações da Petrobras. A ON recua 2,79% e a PN cai 2,19%. Já Vale mostra que continua na montanha­russa iniciada após o anúncio de seu novo acordo de acionistas. Os papéis abriram em queda, mas viraram e passaram a subir. Vale PNA subia 0,54% e Vale ON ganhava 0,09%. 

Os papéis recuaram pela manhã após o anúncio de que Murilo Ferreira, presidente da empresa, não renovará seu contrato e deixará o cargo em 26 de maio. Ele disse que sua idade, perto de 65 anos, foi uma das razões que o levaram a deixar o comando da mineradora. 
As ações do Grupo Pão de Açúcar (GPA) estão entre os destaques de queda do Ibovespa neste pregão. Os papéis perdiam 2,2%. O Grupo Pão de Açúcar registrou prejuízo líquido de R$ 45 milhões no quarto trimestre de 2016, ante lucro líquido de R$ 9 milhões no mesmo período de 2015, segundo demonstrações financeiras divulgadas na madrugada desta quinta­feira no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O resultado é o consolidado do grupo atribuído aos sócios da empresa controladora. 
Do outro lado, a alta do dólar puxa papéis de exportadoras. Fibria ON avançava 0,9%, Suzano PNA tinha alta de 1,9% e Embraer ON avançava 0,6%. Essas companhias são exportadoras e nos últimos meses têm mostrado forte correlação com o comportamento do câmbio. O dólar subia 1,37% há pouco, após dois dias de queda. A moeda está na casa dos R$ 3,09, fato que já começava a inviabilizar as exportações, segundo empresas. 

As ações da Marfrig sobem 1,47%. Quase um mês após o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ampliar sua participação na Marfrig Global Foods por meio da conversão de debêntures em ações, a companhia reportou nesta quinta­feira que teve um prejuízo líquido de R$ 726 milhões em 2016, redução de quase 50% ante o prejuízo de R$ 1,424 bilhão visto em 2015. 
Em grande medida, esse desempenho se deve ao melhor resultado financeiro. Devido à apreciação do real, que reduz as despesas com juros, e à gestão de dívida (a empresa fez captações no exterior para quitar dívidas mais caras), a Marfrig reduziu o prejuízo financeiro em R$ 1,1 bilhão no ano passado, para aproximadamente R$ 2 bilhões. 

O Credit Suisse elevou o preço alvo para o Ibovespa este ano, de 68 mil pontos para 74 mil pontos. A recomendação dentro do portfólio de América Latina, no entanto, segue como underweight (abaixo da média do mercado), já que o potencial de alta é de apenas 8%. A revisão para cima do preço­alvo é baseada nas análises dos balanços das empresas e reflete basicamente um processo mais forte que o esperado de queda da inflação nos últimos meses, o que abre espaço para um ciclo de alívio monetário mais forte e diminui os gastos financeiros das empresas e seu custo de capital. 
Câmbio 
O último pregão de fevereiro é marcado por forte alta do dólar ante o real, a maior desde dezembro. Operadores dizem que, além do ambiente externo mais arisco, os negócios locais são claramente influenciados por uma corrida para a moeda derivada do enxugamento de mais de US$ 4 bilhões do mercado de câmbio, com a liquidação do vencimento de swaps cambiais. 

Ainda não está claro qual será a estratégia para os swaps ao longo de março, mas analistas avaliam que, assim como em fevereiro, o BC não deverá ter pressa no anúncio de eventuais leilões de rolagem. 
O BC não anunciou operação de rolagem para esta sexta-­feira. Dessa forma, vai liquidar no dia 1º de março o vencimento de US$ 4,6 bilhões em contratos de swap cambial. É a maior retirada para um mês desde a ocorrida ao longo de outubro do ano passado (e liquidada em novembro), que somou US$ 7,7 bilhões. 
“É um volume expressivo de saída de dólar num mercado que vendeu moeda em cima de expectativas”, diz um operador, lembrando a corrida pela moeda é intensificada pelo dia de fechamento da Ptax do mês, que vai liquidar os contratos com vencimento na próxima quarta­feira. 
Em abril, vence um total de US$ 9,711 bilhões, o maior volume dos vencimentos de swap ainda no mercado. 
MOREIRA FRANCO em pity explicito
A pressão hoje ocorre em um ambiente de fluxo negativo. Dados do BC mostram que, em fevereiro até dia 17 está negativo em US$ 3,1 bilhões, com saídas de US$ 4 bilhões da conta financeira ­ que registra empréstimos, investimentos diretos e aplicações em renda fixa e bolsa, entre outras linhas. 
O noticiário político foi citado ao longo da manhã como um fator adicional de incerteza. A saída do governo de Eliseu Padilha ­ homem de confiança do presidente Michel Temer, depois do pedido de demissão de José Serra e de ruídos entre importantes membros do PMDB por causa da entrevista dada ao Valor pelo ministro Moreira Franco ­ acabou ampliando incertezas, num momento em que o mercado já conta com a aprovação da reforma da Previdência neste ano. 

Às 15h53, o dólar comercial subia 1,76%, a R$ 3,1107. 

Na máxima, bateu R$ 3,1182. No mercado futuro, o dólar para março ganhava 1,58%, a R$ 3,1062. 
O real é a moeda que mais perde nesta sessão, mas outras divisas também recuam. Uma cesta de moedas emergentes, que inclui a brasileira, tinha hoje a maior desvalorização em mais de cinco semanas. 
No mês, o dólar ainda perde cerca de 1,7% ante o real

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

OLHA O CARNAVAL AI GENTE!!! VAMOS, COMENTE. VALENTE TUPINIQUIM!!


O não ridículo de Marcela Temer, por BERENICE BENTO

E se ela for uma mulher trans não cirurgiada? Na plasticidade das identidades de gênero, pouco importa o que você tenha sob o vestido azul. O que importa é o vestido azul. E isso não é ridículo. É poder


O ano de 2016 virou história. Cada um fará a seleção afetiva daquilo que vale transformar em memória. Para mim, uma certeza. A categoria política e analítica “gênero” entrou definitivamente no léxico político nacional. Todas as vezes que um parlamentar ocupava a tribuna da Câmara para falar da ordem natural do ser homem e ser mulher, contribuía para provar que as masculinidades e feminilidades não são assunto da natureza, mas dizem respeito às relações de poder.

O que assistimos em 2016? À batalha das identidades femininas. Muitos desqualificavam a presidente Dilma Rousseff por não ter um comportamento adequado ao seu gênero. Outros, ao contrário, afirmavam que ela tinha a força e a sensibilidade que a tornavam sob medida para o cargo para o qual havia sido eleita.

Os meses se passaram e eis que aparece uma mulher jovem bonita, recatada e do lar. As qualidades típicas de gênero de Marcela Temer foram estampadas sem economia nas páginas de revistas. Qualidades? Isso mesmo, para muitos a definição da “mulher de verdade” está assentada no tripé beleza, honradez e heterossexualidade (maternidade, do lar). Ao destacar essas qualidades, os ideólogos do poder jogavam perspicazmente com as matrizes hegemônicas do gênero feminino. E por que exploraram tanto a imagem de Marcela? Para agregar valor e poder simbólico ao marido, um homem que, embora possua grande capital de gênero (homem/branco/rico/heterossexual), carece de capital político. Ele precisou vampirizar a juventude da “recatada” Marcela-vestido-azul. Mas também valeria perguntar, num esforço para me distanciar das leituras vitimistas, quem vampiriza quem?

Seja com a presidente Dilma Rousseff, seja com Marcela Temer, o que notamos foi a plasticidade da categoria gênero. Determinados atributos (passividade/ atividade; recato/ousadia; emocionalidade /racionalidade) são acionados de acordo com os interesses pontuais.

A plasticidade esconde o estruturante: as relações entre masculinidades e feminilidades não são naturais, são, ao contrário, históricas, sociais, cultuais e políticas. Joan Scott, historiadora inglesa, defende que as masculinidades/feminilidades são formas primeiras de dar sentidos às relações de poder. Ou seja, as relações de gênero devem ter o mesmo status explicativo para as estratificações sociais que as classes sociais, a religião, a raça e a sexualidade.
Essa centralidade foi explicitada midiaticamente ao longo de 2016.
O leitor atento poderá se perguntar: afinal, o que é gênero? Se não é da ordem natural, como identificar uma “mulher de verdade”? Ao afirmar o caráter plástico, estou dizendo que não existe mulher e homem in natura. O vestidinho azul de Marcela foi um ato generificado que negociou com as idealizações hegemônicas do feminino. E, ao fazer isso, ela está nos revelando que não há uma essência interior que é posta em prática quando ela veste o vestido de princesa da Disney, senta-se de pernas fechadas, com as mãos sobre os joelhos, usa uma maquiagem discreta e faz um penteado de donzela.

Ela, por inteiro, é uma citação das normas de gênero que dizem qual a forma apropriada que as “mulheres de verdade” devem empreender ao se comportar, antítese à Dilma Rousseff e eis aí o segredo. Construir uma imagem antitética do feminino performatizado pela presidente Dilma Rousseff, numa econômica discursiva de verdade e poder.

O que é gênero? Essa foi a pergunta que atormentou o juízo de parlamentares e outros poderosos no ano passado. De repente, uma turba de pessoas trans começou a exigir o reconhecimento social e legal de suas identidades de gênero. Mas como? Mulheres sem vagina? Homens sem pênis? E eis aqui, mais uma vez, o caráter não fixo, não natural, do gênero. E se a bela, recatada e do lar Marcela Temer for uma mulher trans não cirurgiada? Impossível! Gritaram muitos. Não, não é impossível. No reino da plasticidade das identidades de gênero, pouco importa o que você tenha embaixo do vestido azul. O que importa é o vestido azul. E isso não é ridículo. É poder.