domingo, 24 de dezembro de 2017

Arte de LUSCAR

MUITOS 'NOMES INTOCÁVEIS' FISGADOS PELA LAVA JATO CONTINUAM ATRÁS DAS GRADES (AE)

LISTA TEM POLÍTICOS, EMPREITEIROS, DOLEIROS, GESTORES ENTRE OUTROS
PROCURADORES DA FORÇA-TAREFA DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Uma cena impensável até outro dia, e para perplexidade geral, marca o País na proximidade das festas de mais uma passagem de ano. Políticos, ex-ministros, empreiteiros, doleiros, gestores públicos, ex-dirigentes da Petrobras, todos fisgados pela Lava Jato, continuam atrás das grades. São quadros históricos de Brasília, nomes até então tido como intocáveis, que caíram na malha fina da grande investigação. Muitos já estão condenados, pegaram penas severas, outros estão prestes a receber o veredicto.

Integram esse rol o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB), dois ex-presidentes da Câmara, Eduardo Cunha e Henrique Alves, ambos também peemedebistas, o ex-ministro Geddel Vieira Lima, o ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, ex-diretores e gerentes da estatal petrolífera, como Jorge Zelada e Renato Duque, o empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, ex-deputados, como André Vargas (ex-PT/PR), ex-senadores, como Gim Argello (PTB/DF). E por aí vai.

A lista é extensa.
Na sexta, 22, chegou lá Paulo Maluf. Emblemático nome da política, condenado a 7 anos, nove meses e dez dias por lavagem de dinheiro que teria desviado dos cofres públicos quando exerceu o mandato de prefeito de São Paulo, ele está entrando na Papuda, onde já estão o ex-senador Luiz Estevão, quase 30 anos de pena por desvios de dinheiro das obras do Fórum Trabalhista de São Paulo, e o ex-ministro Geddel Vieira Lima, este o homem do famoso bunker de R$ 51 milhões em dinheiro vivo.

Alguns chegaram lá em 2015, como Vaccari Neto, capturado em abril daquele ano. Ele vai passar o seu terceiro Natal atrás das grades, no Complexo Médico Penal de Pinhais, arredores de Curitiba, base e origem da Lava Jato.

Outros estão recolhidos há menos tempo. Por exemplo, Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras, que chegou em julho, alvo da Fase Cobra da Lava Jato. É o seu primeiro Réveillon lá.

Em setembro de 2016, chegou Antônio Palocci, capturado na Omertà. Um mês depois, passou a fazer companhia ao grupo Eduardo Cunha. Mais um mês adiante, novembro de 2016, foi a vez de Sérgio Cabral, que governou o Rio por oito anos sucessivos e agora já acumula penas de 87 anos de cadeia - a ele impostas pelos juízes federais Sérgio Moro e Marcelo Bretas.

Assim, Cunha e Cabral - o primeiro na cadeia de Curitiba, o outro no Rio - experimentam o segundo Natal confinados.

Henrique Alves, que até ministro foi, é alvo de duas missões de uma só vez, a Operação Manus e a Operação Sépsis, que vieram na esteira da Lava Jato.

Na Custódia da Polícia Federal em São Paulo estão os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS/J&F. Chegaram em setembro, acusados de usar informações privilegiadas de suas próprias delações premiadas para auferir ganhos milionários no mercado financeiro. Ricardo Saud, executivo do grupo, também vai passar o Natal e a virada para 2018 na cadeia, mas no caso dele em Brasília.

Muitos já passaram por lá, mas, graças a decisões judiciais - a maioria pelas mãos do ministro Gilmar Mendes, do Supremo -, conseguiram sair da prisão ou pegaram regime domiciliar. É o caso dos ex-governadores Garotinho e Rosinha, do 'Rei do Ônibus' Jacob Barata Filho, do ex-bilionário Eike Batista, da mulher de Sérgio Cabral, Adriana.

No último dia 19, o empreiteiro Marcelo Odebrecht - depois de quase mil dias recolhido - deixou o Complexo de Pinhais. Preso em 19 de junho de 2015, ele passou dois réveillons atrás das grades. Agora, vai ficar em casa os próximos dois anos e meio, com tornozeleira eletrônica. Faz parte do acordo de delação premiada que fez.

Assim como Palloci e Léo Pinheiro, Odebrecht confessou ter cometido crimes. A maior parte dos outros encarcerados nega. (AE)

Arte de IZANIO

Gilmar manda investigar áudio que o acusa de receber dinheiro para soltar Garotinho, por Fausto Macedo e Luiz Vassallo

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Comentario desairoso indignado---até quando esse sapo sem barba vai seguir tripudiando da inteligencia alheia????Ninguém trava esse pulha, meliante legal e desavergonhado??

O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes pediu para que o Corregedor Nacional de Justiça, ministro João Otávio Noronha, e ao diretor-geral da PF, Fernando Segovia, 'tomem providências' para investigar áudio em que é acusado de tomar propinas para soltar o ex-governador do Rio Anthony Garotinho e tirar a tornozeleira de Rosinha Garotinho. 

Em áudio atribuído ao juiz eleitoral Glaucenir Oliveira, da Vara de Campos dos Goytacazes, que mandou prender Anthony Garotinho pela primeira vez, é mencionada 'mala grande' ao ministro Gilmar Mendes, que determinou a soltura do ex-governador.

O autor do áudio, que diz ser 'Glaucenir', afirma ter conversado com o juiz da 100ª Vara de Campos dos Goytacazes a respeito da soltura de Rosinha Garotinho.

"Ele ontem me ligou , trocou uma ideia comigo, com a soltura do Garotinho e decidiu perguntar ao Gilmar Mendes mediante oficio muito respeitoso , por sinal, se podia estender as medidas cautelares diversas da prisão não só ao Garotinho mas também aos outros envolvidos no processo, tendo em vista que um dia anterior ao que o Gilmar soltou o Garotinho, o Dias Toffoli proferiu uma decisão em relação ao outro réu, que é o Fabiano Alonso, e soltou ele também e decretou essas medidas alternativas. E a rosinha, como vocês sabem, já estava com medidas alternativas, prisão domiciliar e com a pulseira da tornozeleira eletrônica. Pois o assessor do ministro Gilmar mendes ligou para o colega hoje, à tarde, e disse que o Gilmar mendes determinou que nenhum dos réus vai ficar com medidas cautelares".

Ele faz acusações ao ministro. "E eu não quero aqui ser leviano, estou vendendo peixe conforme eu comprei, de comentários ouvidos aqui em Campos hoje, de pessoas inclusive do grupo do Bolinha, tá? E o que se fala aqui em Campos eu tenho acesso de pessoas que sabem que entendem porque estão no meio. Então, eu estou vendendo peixe conforme eu comprei, mas o que se cita aqui dentro do próprio grupo dele é que a quantia foi alta".

O autor do áudio, supostamente Glaucenir, diz ter sugerido ao magistrado que peça suspeição. "Eu até falei para ele. Se fizer isso faça numa linguagem técnica mas mostrando por a mais b a razão da sua insatisfação e ´porque você não tem mais trabalhar no processo, porque quem sabe ler, o pingo é letra, né? Vai entender a sujeirada que o Gilmar Mendes está fazendo".

E volta a falar em propinas.
"A gente leva pedrada, tiro, enquanto o grande general desse poder judiciário que é ele agora, parece que é o dono do poder, mela o trabalho sério que a gente faz, com sarcasmo , falta de vergonha, e segundo os comentários que ouvi hoje, comentários sérios de gente lá de dentro, é que a mala foi grande", afirma.

Glaucenir Oliveira, suposto autor do áudio, espalhado em grupos de WhatsApp de juízes e procuradores, foi o magistrado que mandou prender Anthony Garotinho duas vezes. A primeira, no âmbito da Operação Chequinho, que investiga o uso do programa Cheque Cidadão, do município de Campos, para obter apoio eleitoral. Na segunda vez, o magistrado deflagrou a Operação Caixa D'Água, contra supostas propinas de R$ 3 milhões da JBS ao ex-governador do Rio. De acordo com a denúncia, a suposta organização criminosa chefiada por garotinho tinha até mesmo a participação de um segurança usado para ameaçar e extorquir empresários.

A prisão foi revogada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, na última quarta-feira, 20.

COM A PALAVRA, GILMAR
"O ministro Gilmar Mendes solicitou providências ao Corregedor Nacional de Justiça, ministro João Otávio Noronha e instauração de inquérito ao diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, a respeito do áudio que circulou hoje nas redes sociais no qual são feitas graves acusações caluniosas à sua pessoa e às recentes decisões tomadas por ele. Também foram comunicados o presidente e o corregedor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O ministro Gilmar reitera que suas decisões são pautadas pelo respeito às leis e à Constituição Federal"

COM A PALAVRA, GLAUCENIR
A reportagem está tentando localizar o magistrado desde a manhã deste sábado, 23. O espaço está aberto para manifestação.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Arte de J. Bosco

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AUMENTO DE R$ 55 BILHÕES, nas folhas (ABr)

DÍVIDA PÚBLICA AUMENTA 1,6%, ATINGINDO OS R$ 3,49 TRILHÕES
MONTANTE INCLUI ENDIVIDAMENTO INTERNO E EXTERNO DO BRASIL

DÍVIDA PÚBLICA AUMENTA EM R$ 55 BILHÕES EM NOVEMBRO, CHEGANDO A R$ 3,493 TRILHÕES (FOTO: DIDA SAMPAIO)

A Dívida Pública Federal – que inclui o endividamento interno e externo do Brasil – aumentou em R$ 55 bilhões em novembro. O estoque da dívida subiu 1,60%, passando de R$ 3,438 trilhões em outubro para R$ 3,493 trilhões em novembro, informou nesta quarta (20), em Brasília, a Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda.

Esse crescimento da dívida ocorreu por conta da apropriação positiva de juros, no valor de R$ 25,70 bilhões e pela emissão líquida de R$ 29,48 bilhões.

A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), que é a parte da dívida pública que pode ser paga em reais, teve o estoque ampliado em 1,83%, passando de R$ 3,311 trilhões para 3,371 trilhões.

O estoque da Dívida Pública Federal Externa (DPFe), captada do mercado internacional, teve redução de 4,46%, encerrando novembro em R$ 121,40 bilhões (US$ 37,22 bilhões). No último boletim, referente a outubro, houve um aumento de 6,88%, o que fez com que a DPFe encerrasse em R$ 127,07 bilhões (US$ 38,78 bilhões).

Endividamento do Tesouro
A variação do endividamento do Tesouro pode ocorrer por meio da oferta de títulos públicos em leilões pela internet (Tesouro Direto) ou pela emissão direta.

Além disso, pode ocorrer assinatura de contratos de empréstimo para o Tesouro, tomado de uma instituição ou de um banco de fomento, destinado a financiar o desenvolvimento de uma determinada região. Já a redução do endividamento se dá, por exemplo, pelo resgate de títulos.

De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), a dívida pública poderá fechar este ano entre R$ 3,45 trilhões e R$ 3,65 trilhões.

Em novembro, os maiores detentores da dívida pública eram os fundos de Previdência (25,37%). O estoque desse grupo passou de R$ 840,17 bilhões para R$ 855,60 bilhões, entre outubro e novembro.

Em seguida, estão as instituições financeiras, com 21,84%, os fundos de investimentos (25,96%), os investidores estrangeiros (12,67%), o governo (4,60%), seguradoras (4,02%) e outros (5,54%). (ABr)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Arte de Antonio Lucena

Charge (Foto: Antonio Lucena)

Charge (Foto: Antonio Lucena)

Arte de Cazo

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

OPERAÇÃO LAVA JATO --Não à delação do marqueteiro é revés para Lava Jato e alívio para PMDB do Rio, por DANIEL HAIDAR

Proposta de Renato Pereira foi rejeitada pelo STF, mas acabou divulgada de forma inédita. Situação cria imbróglio legal na corte e é mais um golpe nas investigações
O marqueteiro Renato Pereira, ao lado de sua advogada Danyelle Galvão

Narradores talentosos conseguem construir histórias à semelhança de uma boneca russa, como se uma trama escondesse outra sucessivamente. Não à toa a proposta de delação do marqueteiro Renato Pereira parece ter virado uma dessas. As declarações do estrategista que se tornou a cara do sucesso eleitoral do PMDB do Rio parecem saída de dentro da delação da Odebrecht contra os principais políticos fluminenses, só que com novas provas e novos crimes. Tem potencial não só de acabar de vez com os planos do partido que dominou a cena no Estado como, de quebra, já criou um novo e delicado imbróglio legal no Supremo Tribunal Federal para a Operação Lava Jato.

Embora sejam raros os casos de delações recusadas pelo Supremo Tribunal Federal na operação– antes de Pereira, só o ex-deputado Pedro Corrêa teve proposta rejeitada pela corte – a situação do marqueteiro pode abrir um precedente para que novas propostas de delação sejam recusadas em sequência, na visão do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Isso porque, depois do acordo firmado entre Pereira e Janot, o ministro Ricardo Lewandowski rejeitou a homologação da delação porque entendeu que o ex-procurador geral concedeu benefícios penais sem que houvesse previsão legal para isso. Pereira tinha conseguido de Janot o perdão judicial em vários crimes narrados, mesma situação do empresário Joesley Batista. E o Supremo Tribunal Federal já tinha deixado essa possibilidade de benefício em aberto no julgamento em plenário que validou a delação da JBS. 
Mas Lewandowski foi voto derrotado naquela ocasião e agora abriu nova divergência ao analisar o caso do marqueteiro.

A discordância de Lewandowski também trouxe uma situação inédita. Sob o argumento de que já tinham sido publicados na imprensa trechos da delação de Pereira, o magistrado tornou pública a íntegra dos depoimentos, vídeos e documentos do marqueteiro. Se algum delatado não sabia quais riscos corria, a retirada de sigilo da proposta de delação terminou de mostrar quais foram os crimes revelados pelo marqueteiro e facilitou a ocultação de provas pelos criminosos delatados. Pereira ficou sem o bônus do benefício penal, mas arcou com o ônus de ser alcaguete e o Ministério Público avalia que a retirada de sigilo também trouxe risco à segurança da família do marqueteiro.

Com a recusa da delação de Pereira também foram prejudicadas investigações da força tarefa da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro, de acordo com o procurador Eduardo El Hage. Sem acordo homologado, as revelações podem acabar inutilizadas, porque o Ministério Público Federal tem considerado que não podem ser utilizadas provas e informações obtidas em proposta de delação premiada caso um acordo não seja assinado e homologado. Ou seja, sem homologação, é como se nada existisse a não ser que procuradores descubram as provas por conta própria de outras formas. El Hage criticou a rejeição da homologação, porque a delação do marqueteiro revelaria crimes desconhecidos na área de comunicação do Governo do Rio de Janeiro e da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Em proposta de delação, marqueteiro narra
como recebeu pagamento
dissimulado para ajudar Pezão 
Os depoimentos iniciais do marqueteiro mal tinham começado a desvelar todos os crimes. Pereira ainda não tinha detalhado como funcionou a guerrilha virtual de apoio ao PMDB nas redes sociais, por exemplo, nem o favorecimento de órgãos de imprensa na publicidade do Governo do Rio de Janeiro, assuntos insinuados na proposta de delação. E o marqueteiro tomou o cuidado de falar apenas que cometeu a prática de “caixa dois” na proposta de delação, como o empresário Emilio Odebrecht chamava de “ajuda” aquilo que procuradores consideravam serem pagamentos de propina. Para os procuradores que analisaram a delação de Pereira, não foram delatados apenas pagamentos de "caixa dois". Para investigadores, a delação de Pereira trouxe provas de lavagem de dinheiro e crimes contra a administração pública em contratos dos governos Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão – no governo do Rio – e Eduardo Paes – na Prefeitura do Rio. E Paes, mesmo depois da delação da Odebrecht, ainda é cogitado como candidato ao governo do Rio em 2018 – a delação do marqueteiro pode enterrar esses planos.

Cabral, preso e condenado a 72 anos e quatro meses de prisão, já estava em situação comprometedora mesmo sem as revelações do marqueteiro. 
Mas a delação poderia dar impulso para ações penais contra o ex-prefeito Eduardo Paes e o governador Luiz Fernando Pezão. Não à toa advogados de políticos do PMDB pediram acesso à delação de Pereira logo depois da divulgação da rejeição do acordo por Lewandowski.

No caso do ex-prefeito do Rio, Pereira disse que começou a receber pagamentos em espécie de Paes antes da campanha eleitoral de 2012. Segundo a proposta de delação do marqueteiro, o ex-prefeito “avisou que eu seria procurado por Leandro Azevedo, da Odebrecht, o que de fato ocorreu”. Azevedo já tinha revelado esses pagamentos em acordo de delação premiada. Mas Pereira trouxe provas complementares: e-mails e informações sobre os locais de entrega dos pagamentos. O marqueteiro também revelou os locais em que recebeu pagamentos em espécie de um assessor de Paes, lotado na Prefeitura do Rio, entre agosto e setembro de 2012.
Em proposta de delação, marqueteiro revela  acerto com Paes para receber pagamento dissimulado  e ajudar na campanha de Pedro Paulo 

O marqueteiro também narrou como foram os encontros com Pezão, em seu apartamento, de onde saíram definições para receber pagamentos dissimulados em 2014. Pereira disse que recebeu pelo menos 5 milhões de reais da construtora Andrade Gutierrez, que foram repassados por ordem de Pezão. Segundo o marqueteiro, Pezão tinha combinado esses repasses com o empresário Sérgio Andrade, sócio da Andrade Gutierrez.

Mesmo no auge da Operação Lava Jato, na campanha de 2016, Pereira disse que voltou a receber pagamentos dissimulados. O marqueteiro contou, na proposta de delação, que ganhou cerca de 180 mil reais por mês, em espécie, antes da campanha oficial, pouco depois de uma reunião em março de 2015 com Paes e seu candidato à sucessão, o deputado Pedro Paulo Carvalho Teixeira (PMDB). O dinheiro também foi entregue por funcionários da Prefeitura, de acordo com o marqueteiro. Antes da campanha oficial, Pereira disse que também recebeu um pagamento, combinado com Paes, do empresário Jacob Barata, hoje um dos presos da Operação Lava Jato.

"Diante disso, em maio de 2016, fui chamado à Prefeitura para discutir o pagamento das parcelas referentes aos três últimos meses de pré-campanha, à produção de filmes para o PMDB e a despesas extras. Nessa oportunidade, Eduardo Paes consultou-me sobre a possibilidade de realizar um último pagamento via caixa dois, com o objetivo de sanar todas as despesas pendentes (cerca de dois milhões de reais) com um único empresário, o sr. Jacob Barata, do Grupo Guanabara", afirmou em proposta de delação. "Dias depois, enquanto estava viajando, recebi mensagem de Eduardo Paes via Wickr solicitando que uma pessoa da Prole fosse buscar um milhão de reais em espécie na sede da Guanabara Diesel, na Avenida do Brasil", acrescentou.

O marqueteiro também delatou que recebeu pagamentos dissimulados para ajudar a senadora Marta Suplicy (PMDB) e que foi beneficiado em licitação pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf (PMDB), com quem combinou o resultado. Na Fiesp, Pereira fez a campanha "quem vai pagar o pato?", que colocou um pato de borracha na Avenida Paulista.

Ao falar de todos os pagamentos delatados, o marqueteiro disse que eram oriundos de serviços de campanha, mesmo fora de anos eleitorais. Justificou que fazia serviços eleitorais para Paes e Pezão mesmo antes das campanhas oficiais. Mas, na avaliação de procuradores, a situação é mais complicada do que o simples “caixa dois”, porque houve ocultação da origem desses pagamentos e o marqueteiro disse que participou de fraudes e combinações de resultados de licitações na Prefeitura do Rio e no Governo do Rio, antes e depois das campanhas.

O marqueteiro João Santana também tinha a versão de que só recebeu pagamentos de "caixa dois" e que usou todos esses recursos para saldar dívidas de campanhas, mas acabou condenado por lavagem de dinheiro pelo juiz Sérgio Moro. Para complicar a situação dos políticos, foi nesse processo de Santana que o tesoureiro João Vaccari Neto , do PT, acabou condenado pela primeira vez em segunda instância por intermediar o repasse de dinheiro de um empresário para Santana. Se adotados os mesmos critérios que condenaram Vaccari e Santana, os políticos do PMDB precisam torcer para continuar inútil a delação do marqueteiro.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

As relações perigosas entre Gilmar Mendes e Joesley, por Rodrigo Rangel, Daniel Pereira

Como magistrado, ministro do Supremo é implacável com a JBS e os irmãos Batista. Mas, em privado, a relação entre eles reúne um histórico de favores
Último encontro - Na imagem acima, Joesley (de paletó, sem gravata) chega ao IDP, em Brasília, acompanhado por Gilmar Mendes (no fundo),... (//Reprodução)

O ministro Gilmar Mendes, há quinze anos no Supremo Tribunal Federal (STF), é um homem de posses muito além de seu salário de 33 700 reais. 
Uma de suas principais fontes de renda é o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), do qual é sócio junto com seu filho Francisco Schertel Mendes, de 34 anos. O IDP, além de uma fonte de receita, passou a ser uma fonte de dor de cabeça para o ministro, depois que veio a público o caso da JBS e das traficâncias dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Isso porque, nos últimos dois anos, Gilmar e Joesley mantiveram uma parceria comercial e uma convivência amigável, a ponto de se visitarem em Brasília e São Paulo, trocarem favores, compartilharem certezas e incertezas jurídicas e tocarem projetos comuns. 
De 2016 a junho deste ano, a JBS transferiu 2,1 milhões de reais para o IDP em patrocínios que nem sempre foram públicos. Os valores de patrocínios de empresas iam parar, por vezes, na conta pessoal de Gilmar Mendes. 
É o que revela uma das mensagens obtidas por VEJA, que na edição desta semana traz mais detalhes sobre a relação entre o juiz e o empresário.

Em entrevista na reportagem, o ministro Gilmar Mendes disse que Joesley Batista quis conhecê­-lo após um pedido de patrocínio ao seu instituto. 
Ele admite ter encontrado o empresário algumas vezes, mas garante que a relação nunca ultrapassou os limites éticos.

Arte de Myrria

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Charge do Frank

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Arte de BENNET

random image

Diretor da PF confraterniza com réu em festa, nas folhas

© Se o esforço para conquistar o público interno vem dando resultado, da porta para fora a nova direção é vista com desconfiança

O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, foi convidado especial do ex-senador Clésio Andrade (PMDB-MG) para a cerimônia da 24º edição do prêmio de jornalismo da CNT (Confederação Nacional do Transporte), em Brasília.

Segovia e sua mulher se sentaram para jantar em uma mesa reservada especialmente para Andrade, que renunciou ao mandato de senador em 2014.

Andrade preside a CNT e é réu no processo do chamado mensalão tucano, em Minas Gerais.

Sua renúncia foi interpretada na ocasião como um gesto para levar o processo do STF (Supremo Tribunal Federal) à primeira instância da Justiça.

O diretor-executivo da PF, Sandro Avelar, número 2 do comando da polícia, acompanhou Segovia no evento da CNT.

Após a cerimônia de entrega do prêmio, Avelar e Segovia jantaram com Andrade na mesa principal da cerimônia, próxima à pista de dança.

O jantar foi servido aos presentes à mesa, ao contrário da maioria dos convidados, que teve a opção do buffet distribuído pelos cantos do salão.

A cerimônia ocorreu em um centro de convenções em Brasília.

O diretor-geral da polícia conversou a sós com o ex-senador por alguns minutos e tirou fotos com Andrade.

Depois, acompanhou o show dos cantores sertanejos Leonardo e Eduardo Costa e dançou com a mulher ao som de clássicos como "Não aprendi dizer adeus", "Solidão", "Você vai ver" e "As Andorinhas".

O prêmio da CNT é um dos mais tradicionais do país, e jornalistas dos principais veículos de imprensa, inclusive da Folha, foram convidados para a cerimônia de premiação. Andrade foi vice-governador de Minas na primeira gestão de Aécio Neves (2003-2006).

Ele é acusado pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro na denúncia que apontou desvios de R$ 3,5 milhões de estatais em Minas para financiar, em 1998, a campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo, do PSDB.

Andrade, que na época concorreu como vice, nega as acusações.

POLÊMICO
Tendo assumido o cargo com a pecha de estar incumbido de blindar políticos e frear investigações, o novo diretor-geral da Polícia Federal teve de explicar as relações com os que o indicaram.

A escolha de Segovia foi vinculada a uma articulação dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, do ex-presidente José Sarney e do ministro do TCU Augusto Nardes, chancelada pelo presidente Michel Temer.

Procurada, a assessoria da PF disse que o diretor-geral recebeu um "convite institucional" da CNT e que gestões anteriores também foram convidadas para o mesmo evento no passado.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

STF aprovará restrição ao foro de políticos se não houver pedido de vista, por MATHEUS LEITÃO MENU BLOG DO MATHEUS LEITÃO

Comentário cético---ora Matheus, e vc acha que acrescerão a perda automática de Mandato ? 
E que os Gilmars, Toffolis e Lewandovskys, além do Moraes Imoral, aceitarão perder parte da própria "carteira" de clientes??
A ver vamos, mas, me parece muita areia pro nosso camiãozinho, né? A menos que a Vergonha tenha mudado de campo......Ai vai!
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Malfeitos entrelaçados
Se não houver um pedido de vista nesta quinta-feira (23), o Supremo Tribunal Federal (STF) vai aprovar a restrição do alcance do foro privilegiado para políticos, um avanço contra a impunidade.

Prevalecerá o entendimento do ministro Luís Roberto Barroso, em sessão prevista para o início da tarde, de que políticos só devem ter direito a uma corte especial caso o crime do qual forem acusados tiver sido cometido no exercício do mandato ou em razão dele.

Os supostos delitos praticados por parlamentares e ministros antes da posse, e sem relação com o exercício do cargo, seriam levados à primeira instância da Justiça, evitando a prescrição das ações.

Ministros ouvidos pelo Blog afirmaram que a restrição ao foro, que pode desafogar o STF e reduzir em até 90% os processos e investigações criminais, só não ocorrerá se houver um pedido de vista.

“A restrição ao foro passará, talvez com mais votos do que se imagina - no máximo com dois contrários. Só há risco de um novo pedido de vista”, afirmou um magistrado.

Em junho, o ministro Alexandre de Moraes pediu vista, interrompendo o julgamento. Isso pode ocorrer novamente, se outro magistrado precisar de mais tempo de análise da matéria.

Moraes será o primeiro a votar nesta quinta (23). Até agora, já existem 4 votos a favor da mudança, do ministros Barroso, Marco Aurélio Mello, Rosa Weber e Cármen Lúcia.

A decisão de restringir o foro se insere num quadro de direito penal moderado mas efetivo, numa ala da corte liderada pelo próprio Barroso e pelo ex-ministro Teori Zavascki, morto em um acidente de avião no início deste ano.

Entre as medidas estão a execução da pena após condenação em 2º grau, desnecessidade de autorização da Assembleia Legislativa para processar governador, cumprimento imediato da decisão do júri nos casos de crime de homicídio e exigência da devolução do dinheiro e pagamento da multa para progressão do regime prisional.

O segredo de Lula, por JUAN ARIAS

Comentário admirativo---subscrevo em gênero, numero e grau. Supimpa! Parabens Paco!
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O segredo da imortalidade política de Lula talvez resida em ser tão bom psicólogo como político
Lula em Congresso do PCdoB UESLEI MARCELINO REUTERS

Lula acaba de afirmar que “não vai ser difícil ganhar as eleições” e já prepara novas caravanas pelo país, desta vez no Estado do Rio. Esconde Lula algum segredo para demonstrar essa certeza? Por que as eleições presidenciais de 2018 estão, de fato, tão fortemente condicionadas a que ele possa ou não ser candidato? Existe um consenso de que a presença de Lula no cenário político brasileiro perseguirá este país enquanto viver, livre ou na prisão. Apesar de todas as acusações e condenações por corrupção que recaem sobre ele, ninguém se atreve a dá-lo por morto politicamente, porque um de cada três eleitores continua sendo seu, considerem-no ou não culpado. A causa dos pobres segue com ele.

O segredo da imortalidade política de Lula talvez resida em ser tão bom psicólogo como político. Sua sensibilidade para conhecer os ângulos mais obscuros e as fraquezas dos outros não é fruto de estudos acadêmicos. É um dom dele, desde que se destacou como jovem líder sindicalista. O jornalista José Nêumanne Pinto, autor do livro O Que Sei de Lula, e que o acompanhou dia após dia desde que começou a se sobressair no sindicato, narra uma característica que o revelava como alguém com grande olfato para saber o que as plateias às quais se dirigia gostavam de escutar. Começava a tratar de um tema e se via que não empolgava logo mudava de assunto, até encontrar algo que despertava os ouvintes, embora fosse o contrário do que havia começado a falar.

Não sei se Lula é o melhor estrategista do Brasil. Talvez não seja no sentido acadêmico do termo, mas sim como “olfato político”. Como os cães de caça que rastreiam a presa, Lula sabe descobrir onde o sapato aperta nos outros e o que cada público deseja escutar, como fazia quando jovem sindicalista. Não importa que possa parecer contraditório, o importante é contentar todos ao mesmo tempo.

Lembro-me que quando ainda não conhecia bem esse lado psicológico natural de Lula fiquei surpreso um dia em que, já presidente, pela manhã falou em São Paulo a uma plateia de empresários que se queixavam da lentidão do Congresso em aprovar as leis. Lula entendeu e lhes disse: “Não me tentem porque tenho um demônio que a cada vez que me levanto me pede: ‘Lula, feche o Congresso!’” É o que queriam escutar aqueles empresários. Coincidentemente, à tarde teve de falar no Congresso, que celebrava não recordo que aniversário de sua criação. Lula, que só aguentou um ano como deputado porque não gostava daquele ambiente, fez naquela tarde uma grande defesa do Parlamento como indispensável à democracia.

Aos banqueiros ele provocava: “Vocês nunca ganharam tanto dinheiro como comigo”. Era verdade. A banca sempre gostou de Lula. No país profundo, no Nordeste pobre, dizia a seus seguidores cobras e lagartos contra os ricos que “os impediam de sair da pobreza”. Lula pôde ser sempre ele e o contrário. E com uma característica capaz de aglutinar consensos: que nunca foi extremista, como bem ressaltou meu colega Xosé Hermida aqui, em um de seus artigos. Foi talvez esse seu maior acerto político. Para sair do dilema paralisante da ideologia, Lula alcunhou uma definição de si mesmo que lhe trouxe sucesso: “Eu não sou nem de esquerda nem de direita: sou só sindicalista”. Com isso se colocava acima das intrigas entre os dos dois lados para se propor como do partido dos trabalhadores, que engloba a todos nós.

Essa obsessão por não aparecer como extremista observei na primeira vez que no Planalto me encontrei com ele, com outros cinco correspondentes estrangeiros, para uma entrevista. Estava para chegar ao Brasil para se encontrar com ele José María Aznar, então primeiro-ministro espanhol, do partido direitista PP. Quando a entrevista acabou, me levou a um canto da sala e me perguntou: “Acha que Aznar pensa que sou de extrema esquerda?” Quando se encontrou com ele, a primeira coisa que lhe disse foi: “Nem você, Aznar, é tão de direita como dizem na Espanha nem eu tão de esquerda como pensam aqui”. Sua preocupação sempre foi poder sentar-se a todas as mesas do poder sem se importar com a cor da toalha.

Dias atrás, Lula, à espera de ainda poder voltar ao poder, disse: “nem Bolsonaro é de extrema direita nem eu sou de extrema esquerda”. Sempre presente sua obsessão de não parecer extremista. Lula sabe que aos pobres não interessa sua ideologia, mas, sim, que o sintam como aliado, enquanto aos ricos basta saber que não é um Maduro. Nunca lhes infundiu medo. Estava sempre à vontade com eles.

Ninguém é mais hábil que Lula para saber jogar ao mesmo tempo com vários baralhos e fazer ver que todos ganham. Sabe do que gostam uns e outros, e seu método é tratar de contentar a todos. É outro de seus segredos. Nêumanne também conta isso em seu livro: “Lula aplicou, com grande êxito, seu enorme talento de fazer amigos e influenciar pessoas, adotando o comportamento incomum de ouvir a todos, aparentemente concordar com cada um e nunca deixar o interlocutor com a sensação de sua discordância, mas nunca desistiu de sua posição politicamente conservadora, ou melhor de sua posição pragmática”.

Dois casos emblemáticos de como Lula tentava, por exemplo, bajular os pobres e os ricos ao mesmo tempo: costumava dizer que os hospitais públicos brasileiros eram tão bons e modernos que as pessoas até queriam ficar doentes para poderem ser internadas. Não era verdade, mas os pobres gostavam de ouvir isso. Dizia também que com ele os pobres no Brasil já “podiam viajar de avião e ir de férias para Bariloche, na Argentina” e que o problema era que os ricos não queriam viajar em um avião ao lado de um pobre de chinelos. Não era verdade, mas os pobres se sentiram lisonjeados e os ricos não ficaram ofendidos porque sabiam que Lula, desde que deixou a presidência, nunca tinha subido em um avião de carreira sentado ao lado de um pobre. Viajava nos aviões particulares dos milionários.

Há quem não tenha entendido que Lula, depois de todo o drama do impeachment de Dilma, com o país enfurecido com o conservador Temer, tachado de golpista e traidor, tenha dito: “Não tenho mais idade para gritar ‘Fora, Temer!”. Entende-se, conhecendo a psicologia de Lula de querer aproveitar tudo para somar em vez de subtrair.

Explica-se assim que, apesar de tudo o que arde no país, Lula já esteja tecendo acordos eleitorais com a pior direita do PMDB, com os caciques mais corruptos desse partido. É que Lula sabe que, se consegue candidatar-se e ganhar, precisará de seu apoio para poder governar. Afinal, 80% dos corruptos do PMDB e do PP, por exemplo, governaram com ele e com Dilma no período em que já estavam roubando. Muitos foram seus ministros, e Temer era o vice de Dilma, escolhido por Lula.

Goste-se ou não, acabe ou não dando frutos, no final, Lula é um pragmático que conhece como poucos e desde dentro as misérias e fraquezas de uma classe política que foi companheira sua no poder. 
Quando o então presidente do Uruguai, José Mujica, quis saber de Lula a origem do escândalo do Mensalão, que na época levou a cúpula do PT para a cadeia por ter comprado o Congresso, Lula lhe respondeu sibilinamente: “É que no Brasil só há um modo de poder governar”. Considerava isso uma fatalidade à qual ele então se havia submetido.

Bem sabe Lula e sabe o Congresso, mercadoria exposta ao melhor comprador. E hoje, mais que nunca, envolvidos nas redes de corrupção e com medo de cair em mãos dos juízes, deputados e senadores corruptos se unem em um mesmo abraço de afogados. Lula e os demais, a direita e a esquerda, sabem que, como nas máfias, amigo é para sempre. Porque, afinal, não há outro caminho. Da máfia não se sai ileso. Hoje o Governo Temer e o Congresso, naufragados em um mesmo mar de problemas com a Justiça, e Lula, acossado com eles, buscam um pacto de sangue que salve a todos.

Lula tem uma vantagem sobre os demais políticos acusados de corrupção. Não precisa buscar provas materiais para se defender das acusações dos juízes. Em sua estratégia, mais que lutar para apresentar documentos que provem sua inocência, se proclamou um “perseguido político” A única coisa que lhe interessa é aparecer discriminado por defender os pobres. Gritou isso até para a ONU. Nenhum de seus colegas acusado de corrupção se atreveu a tanto.

Fora ou dentro da prisão, presidente ou não, é bem possível que Lula siga, enquanto viver, amarrado a sua estratégia. Sem contar o medo que tantos políticos, incluindo os ainda não denunciados, começam a ter de uma possível delação premiada de Lula, que poderia fazer a República tremer. Não haverá. Não lhe interessa, já que, ao contrário de seus colegas, Lula na prisão continuaria sentindo-se uma vítima. Continuaria fazendo política e, se o instigam, até fundaria um novo partido com os presos. É o que dizem os que o conhecem melhor.

Lula é assim, goste-se ou não. Nunca se dará por vencido nem jogará a toalha. O final só o destino dirá.

DIA INTERNACIONAL DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, por NACHO CARRETERO

“Como esse cara me convenceu de que eu era tonta?”: o abuso machista que ninguém parece ver

Os especialistas atendem cada dia mais casos do abuso psicológico de gênero chamado gaslighting: muito sutil e difícil de compreender para amigos e familiares e para as autoridades

Uma mulher cobre seu rosto GETTY


Marina é o nome fictício —a seu pedido expresso— de uma mulher de 37 anos que durante dois anos sofreu maus-tratos psicológicos por parte de seu namorado. 
Concretamente, uma forma de abuso conhecida como gaslighting. Trata-se de um abuso sutil, manipulador, mediante o qual se desgasta a autoestima e a confiança da mulher em si mesma a ponto de anulá-la, de transformá-la em um punhado de dúvidas e medos.

A vítima quase nunca tem consciência de estar sendo abusada. Ou, pelo menos, não como se entende geralmente o termo, já que não há uma agressão clara. Simplesmente, quanto tudo é colocado em dúvida, tudo se discute e seus pontos de vista são sempre menosprezados, a mulher vai se fechando em si mesma. Trata-se também, consequentemente, de uma forma de abuso muito difícil de explicar para a vítima e ainda mais complicada de denunciar.

Marina conta: “Ele discutia sobre tudo. Tudo colocava em dúvida. Até as coisas que não têm discussão, como meu estado de espírito ou meus sentimentos. Tudo era um exagero meu, uma invenção ou uma paranoia. Tudo estava em minha cabeça, então acabei acreditando. Acabei acreditando que era eu que não estava à altura e, para não continuar decepcionando-o, me calava. Parei de opinar, parei de responder e simplesmente de me expressar. Fiquei completamente anulada como pessoa e ele tinha controle total sobre mim”.

Marina estava esgotada. “Fiquei sem forças, sem energia, todo dia preocupada em não aborrecê-lo, em não decepcioná-lo. Até que compreendi que aquilo não era normal, que não podia viver assim e que alguma coisa estava acontecendo.”

E quando Marina compreendeu, esbarrou na incompreensão. “Isso não é abuso, me dizia uma amiga. Você está exagerando... Isso me afundou mais. O pior golpe que recebi foi quando decidi denunciar. Quando já não conseguia mais porque ele me insultava, me depreciava, isso me gerou ansiedade e problemas psicológicos. 
Fui ao juizado e arquivaram meu caso. Disseram que não era abuso, que não havia provas...”. Marina chora. E, quando recupera o fôlego, acrescenta: “Cheguei a pensar: tomara que me arrebente a cabeça. Tomara que me dê uma pancada assim posso ir ao juiz sangrando e vão fazê-lo se afastar de mim”.
O gaslighting quase nunca exige o uso da violência explícita

O nome desse tipo de violência vem do filme Gaslight, de 1944. É um retrato da violência machista psicológica. 
No filme, o marido manipula sua mulher com sutileza até convencê-la de que ela imagina coisas, lembra mal as discussões e até a faz duvidar de sua candura. Nisso basicamente consiste esse tipo de abuso psicológico. 
O abusador altera a percepção da realidade da vítima fazendo com que não seja consciente que padece de um abuso ou de uma situação que deve denunciar.

Bárbara Zorrilla é psicóloga especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência de gênero. “O abuso gaslighting é uma forma de violência muito perversa, porque é contínua e se consegue mediante o exercício de um assédio constante, mas sutil e indireto, repetitivo, que vai gerando dúvidas e confusão na mulher que o sofre, a ponto de chegar a se sentir culpada das condutas de violência do abusador e duvidar de tudo que acontece à sua volta.”

“Parei de opinar e de me expressar. Fiquei completamente anulada como pessoa e ele tinha controle total sobre mim.”

Segundo Beatriz Villanueva, consultora especializada em gênero, esse tipo de abuso é tão frequente quanto invisível. “É um tipo de violência que encontro muito nas consultas. São mulheres que chegam esgotadas. A maioria vem sem ter consciência de que estão sofrendo maus-tratos psicológicos. Vêm porque estão cansadas, para baixo, anuladas. E é falando, raspando, que se dão conta de que estão o dia todo tentando se defender, tentando fazer valer seu ponto de vista, mas não conseguem nunca. E chegam a considerar que não valem nada.”

Há alguns dias, Beatriz conversou com uma jovem que lhe dizia sentir-se triste, temerosa, insegura. Mas não associava nenhuma dessas frustrações à possibilidade de estar sofrendo violência psicológica por parte de seu namorado, por quem dizia estar apaixonada. Beatriz lhe fez ver a situação que estava sofrendo. “Costuma haver uma incredulidade: ‘Eu? Maltratada?’ Mas em seguida, recapitulando, se dão conta de que foram anuladas por seus parceiros. E que isso as consumiu, as deixou sem forças.”

O gaslighting costuma passar por um processo reconhecível. “No início o abusador manipula constantemente as interações com o parceiro. Se ela lembra algo do tipo: ‘É que você me prometeu tal coisa’, ele responde com expressões do tipo: ‘Eu não te prometi nada’, ‘Por que você inventa essas coisas?’, ‘Está louca?’. Também invalida o ponto de vista da mulher quando expressa seus sentimentos ou se queixa de algo. ‘Eu não vi isso, você está exagerando; que filme você criou; como pode dizer isso...’. Tudo isso se sustenta com discussões constantes que desgastam ao extremo e deixam a mulher sem força, duvidando de seu próprio julgamento e sentindo-se uma pessoa pouco confiável ou inútil”.
“Como esse cara me convenceu de que eu era tonta?”

María tem 44 anos e ficou com seu parceiro por 13. Durante cada um deles sofreu maus-tratos psicológicos e só na última fase da relação teve consciência do que estava sofrendo.

María nasceu no Equador e muito jovem se mudou para a Espanha. Ela nos atende por telefone com a condição de manter o anonimato. Diz continuar tendo muito medo. “Minhas opiniões eram sempre sem sentido. ‘Você é de fora, não faz ideia.’ ‘Você não sabe o que está falando.’ No início, me falava até com educação, mas pouco a pouco ia anulando todas as minhas opiniões. Também as que tinham a ver com o que eu sentia. ‘Mas o que você está dizendo, como pode se sentir assim? Você é de fora, deveria estar agradecida...’ E, claro, eu pensava: ‘É verdade, deve ser assim’.”

“Com o tempo ele se tornou mais violento na forma de falar, invalidava tudo que eu dizia de forma agressiva. Mas fazia na frente das crianças, para que eu não respondesse nem me defendesse, porque ele sabia que eu não queria discutir na frente de nossos filhos. Então me dizia que era uma inútil ou que não servia para nada e eu me calava. De tanto dizer isso, acabou me calando sempre. Porque, claro, se eu respondia ficava pior. E preferia não discutir”.

“Pouco a pouco fui me convencendo de que não sabia me defender. Tinha medo de quase tudo. Mas não tinha consciência de que era por causa dele. Fui me anulando como pessoa. Não me atrevia a expressar opiniões na frente dele ou discutir alguma coisa. Se estávamos com amigos eu ficava quieta, não me atrevia nem a rir se alguém fazia alguma piada.”

“Cheguei a pensar: tomara que me arrebente a cabeça. Tomara que me dê uma pancada assim posso ir ao juiz sangrando e vão fazê-lo se afastar de mim”.

“O pior é que acreditava que ele tinha razão, que minhas opiniões não valiam e que era melhor ficar calada. Me eliminou como pessoa. Eu ficava esgotada, porque estava sempre preocupada em não incomodar, não discutir. Isso é esgotador. Tive ansiedade e engordei 20 quilos. Não conseguia mais.”

Beatriz Villanueva conta que o processo transforma a mulher em “uma pessoa insegura, em dúvida, que se questiona se está dizendo bobagens. Uma pessoa convencida de que suas opiniões não valem, que tem medo de falar, discutir, expressar seus pontos de vista...”.

Os últimos anos da relação de María foram os mais difíceis. “Foi o que me fez reagir”, explica. “Começou a exigir que o tratasse de senhor e me proibiu de dirigir. Foi quando me dei conta de que isso não era possível, que isso não é normal. E pedi ajuda à família e à justiça. O que acontece é que não me compreendiam totalmente. Não conseguiam ver que isso fosse abuso. E a juíza, que era uma mulher, arquivou meu caso. Aí desabei. Desabei totalmente. Ainda bem que segui adiante e por fim ele já recebeu uma ordem de afastamento.”

“Agora olho para trás e me dou conta de muitas coisas. De que me fez chegar a duvidar de se eu era uma inútil, me convenceu disso. Mas eu nunca fui tonta. Como esse cara conseguiu me convencer disso?”.
“Não há justiça para mim”

“Continuamos sem identificar a violência quando não há agressões físicas, sem entender que os efeitos dos maus-tratos psicológicos podem ser devastadores e até irreversíveis”, explica a psicóloga Bárbara Zorrilla.

Em não poucas ocasiões, o próprio entorno da vítima não percebe que essa situação seja um abuso. Em geral costuma ser interpretado como problemas de casal ou altos e baixos. Um cenário que empurra a mulher para se fechar em si mesma, não compartilhar a problemática e até, às vezes, convencer-se de que, assim como não param de repetir, não está sendo vítima de abuso.

“A própria vítima não tem consciência. Como a pessoa que me ama vai me maltratar? Quando por fim compreende, é muito doloroso. É muito difícil”, explica Beatriz Villanueva.

Ana, uma mulher de 45 anos de Valência, se separou de seu agora ex-marido quando este a agarrou pelo pescoço e a empurrou contra a parede. Foi só a ponta de um enorme iceberg de sofrimento psicológico. De fato, o empurrão, como ela reconhece, foi o que desencadeou sua reação depois de mais de dois anos de abuso sutil e incessante.

Um dos problemas que Ana enfrenta agora é que seu ex-marido continua assediando-a. “Me manda mensagens ou whatsapps dizendo que não sei cuidar de nossa filha e que não sirvo para isso. O que me dizia sempre quando estávamos juntos. Me manda fotos pornográficas dizendo que assim é que teria de ser...”.

“Me disseram que aí não havia insultos, que não tinha me batido. E que não podiam fazer nada. Que isso não era abuso.”

Ana foi a um quartel da policia militar espanhola com as mensagens e tentou explicar os maus-tratos psicológicos aos quais o marido a submetia havia anos. “Mas nem me deram bola. Me disseram que não havia insultos ali, que ele nem tinha me batido. E que não podiam fazer nada. Que isso não era abuso.” A voz de Ana embarga.

Foi também ao juizado, mas seu caso foi arquivado. “Estou abatida, tenho ansiedade. Não tenho forças, nem vontade de me arrumar nem de sair de casa. Consigo me convencer de que não sirvo para nada. E tudo sem insultos nem golpes. Então não há justiça para mim. Não há justiça...”.

A violência gaslighting, como explica Beatriz Villanueva, quase nunca exige o uso da violência explícita. Inclusive, muitas vezes, se reveste de um certo bom mocismo: “Eu só quero ajudar, apesar de parecer que faço tudo errado; me ouça, confie em mim, é para o seu bem...”. Por isso, às vezes, também os homens sofrem de gaslighting por parte de suas parceiras. Nesses casos ainda é mais difícil para a vítima, e sobretudo para o entorno, detectar que o homem está sofrendo abuso.

“A tática é o afeto intermitente. Demonstrações de amor e carinho, arrependimento, condescendência e promessas de felicidade futura fazem a mulher acreditar que se ela mudar, ele também o fará e que só poderá encontrar a felicidade a seu lado porque só tem a ele”, explica a psicóloga Bárbara Zorrilla. “A violência explícita é reprovada e castigada. Qual é a alternativa? Usar a manipulação, o vitimismo. O gaslighting”, acrescenta Beatriz.

Isso desemboca em cenários muito graves. Muitas mulheres só são capazes de reagir quando são agredidas fisicamente. Também, às vezes, é quando o entorno e as autoridades abrem os olhos.
Frequente e entre jovens
“Este tipo de abuso é muito mais frequente do que se vê e percebemos. Também em gente jovem. Se perpetua, e responde a papéis os casais assumem”, explica Beatriz.

A psicóloga Bárbara Zorrilla considera que instituições e autoridades devem melhorar e ampliar sua formação em violência de gênero: “As mulheres precisam que tanto seu entorno como a administração publica, por meio de seus recursos de atenção especializada, as ajude a identificar essa violência, sua intencionalidade, seus mecanismos e suas consequências. Para isso é preciso continuar trabalhando na sensibilização da população em geral e na formação de todos os profissionais que as atendem, não só no âmbito judicial, mas médico, policial... para que possam acompanhá-las, ajudá-las a construir seu relato, dotá-las de credibilidade e devolver-lhes a liberdade que lhes hão roubado”.

ESPECIAL SOBRE VIOLÊNCIA MACHISTA

TRF2 pode cassar prisão domiciliar de Adriana Ancelmo, nas folhas

Ministério Público considera que benefício concedido à ex-primeira-dama condenada a mais de 18 anos é 'enorme quebra de isonomia'


Rio - O Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) julga nesta quinta-feira recurso da ex-primeira-dama Adriana Ancelmo que concedeu a ela prisão domiciliar. Adriana Ancelmo foi condenada a mais de 18 anos de prisão por associação criminosa e lavagem de dinheiro. O Ministério Público Federal (MPF) sustentou à Justiça que a concessão do regime domiciliar para a prisão preventiva (ligada à investigação, e não à pena) representa “enorme quebra de isonomia” num universo de milhares de mães presas e sem igual benefício. O Ministério Público Federal (MPF) sustentou à Justiça que deve ser cassada a prisão domiciliar.
Adriana Ancelmo foi condenada a mais de 18 anos de prisão

O Núcleo Criminal de Combate à Corrupção (NCCC) do MPF na 2a Região (RJ/ES) considerou a prisão domiciliar inadequada e desproporcional. Para o MPF, o interesse dos filhos menores da ré deve ser tão considerado quanto a situação social da família, que dispõe de profissionais como babás, professores particulares e orientadores pedagógicos. Os filhos, sendo o mais novo de 11 anos, contam com a convivência com avós e acesso aos psiquiatras autores de laudos trazidos pela defesa. “A prisão não configura perigo maior a eles que o representado à formação de todos os menores cujas mães estão efetivamente reclusas”, afirmam os procuradores.

De acordo com o MPF, a prisão preventiva é necessária, entre outros motivos, porque a liberdade da ré compromete a garantia da ordem pública e da instrução criminal, uma vez que torna altamente provável a continuidade da ocultação de patrimônio obtido ilicitamente por ela e pessoas próximas.

O MPF lembrou aos desembargadores que o Código de Processo Penal (art. 318) firma ser possível a substituição da prisão preventiva pela domiciliar para mães de menores de 12 anos, mas não em todos os casos. O entendimento nesse processo já foi corroborado pelo desembargador federal Abel Gomes, relator das ações da Lava Jato no TRF2, que citou o fato de que a ré fez diversas viagens sem os filhos e a gravidade de sua conduta, como apontaram as investigações.

De capacete preto e miras laser, a nova forma de matar impunemente no Rio, por MARÍA MARTÍN

Nova lei dificulta investigação de operação que matou sete pessoas em São Gonçalo
Um dos sobreviventes da ação conjunta da Polícia Civil e o Exército contraria versão oficial
Um dos quatro sobreviventes da operação foi alvejado nas mãos e na coxa com tiros de fuzil. ALAN LIMA
Aos 19 anos, o padeiro Luiz da Silva* voltou a nascer. O jovem é um dos quatro sobreviventes da operação conjunta da Polícia Civil e o Exército que deixou sete mortos no último dia 11 no complexo de Salgueiro, em São Gonçalo, a segunda maior cidade do Rio. 
Até hoje, nem a Polícia Civil nem as Forças Armadas deram explicações sobre o acontecido. Numa primeira nota conjunta após a matança, afirmaram que houve “resistência armada” naquela noite, uma versão que foi mudada depois por eles mesmos. A segunda declaração afirmava que policiais e soldados entraram com três blindados no conjunto de favelas e que nenhum deles atirou. Quando chegaram, os corpos já estariam sem vida, de acordo com essa versão. Mas o depoimento de Luiz, prostrado numa cama e com três tiros de fuzil no corpo, deixa em evidência a falta de transparência das autoridades e a desconcertante versão oficial sobre a operação. Quem atirou, relatou o jovem, estava escondido na mata, vestia roupa preta, capacete e portava armas com marcador laser.

Por volta de meia noite e meia, Luiz saía da casa da sua namorada e pegava sua moto para voltar para sua residência, uma casa com portas reforçadas com papelão. No caminho encontrou um amigo a quem deu carona e seguiram pela estrada das Palmeiras, uma via de duas mãos com mato, poças de esgoto e casas humildes nas encostas. Num determinado momento ouviram fogos de artifício, normalmente lançados pelos traficantes para alertar sobre a presença policial. Como não viram movimentação na rua, continuaram. De repente, dois carros passaram muito mais rápido que o habitual. E vieram os disparos. Caíram.

Luiz foi atingido por três tiros de fuzil nas duas mãos e numa coxa. Seu amigo, em coma induzido desde então, foi alvejado no maxilar. “Me joguei na beira da vala, quando uns seis homens de preto com capacete saíram do mato com miras laser”, relembra o jovem um dia depois de ter tido alta hospitalar. “Pegaram meu telefone e falaram que iriam voltar para me matar. Tiraram fotos nossas. Eles quebraram as lâmpadas dos portões das casas onde a gente estava e ficou muito escuro”, continua com um fio de voz, sem conseguir sequer se sentar. No tempo que Luiz ficou na estrada, quando os blindados nem tinham aparecido ainda, ele viu mais dois homens que iam numa moto serem abatidos.

O jovem, que trabalha numa padaria próxima da sua residência desde os 12 anos e sustenta a mãe, só foi socorrido por volta das quatro horas da manhã pela sua irmã e seu patrão, o único conhecido com carro que a família tem. “Fiquei perdendo sangue no chão durante horas. Vi passar um caveirão e um tanque de guerra mas ninguém me ajudou. Perdi muito sangue. Eu só pensei que iria morrer”. Ele não sabe se conseguirá voltar a trabalhar.
Estrada das Palmeiras onde, ao longo de um quilômetro, foram encontrados sete cadáveres. ALAN LIMA

O relato de Luiz, e de mais três testemunhas ouvidas pela reportagem nesta segunda, coloca em cena um elemento que a Polícia e o Exército nunca reconheceram: homens de preto, mascarados, com armamento dotado de lanterna e mira laser, e capacetes. O equipamento descrito pelos moradores não é da Polícia Civil, segundo três fontes de divisões especiais da instituição. Segundo as mesmas fontes, as armas com laser e o capacete balístico estão longe de ser de uso padrão dos agentes. Na última semana, o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar, negou veemente que houvesse militares escondidos no mato. Nesta terça, em resposta aos questionamentos da reportagem sobre a existência de soldados na mata, a assessoria de imprensa enviou uma nota de uma semana atrás.

Esses homens de preto também ameaçaram Marcela, viúva de um dos sete mortos daquela noite. O marido, segundo o relato da mulher, saiu de casa para abrir a bomba de água que fica na beira da estrada –os moradores costumam fazer rodízio para usar as bombas pela falta de fornecimento na região. O homem, pai de uma menina de sete anos, morreu ali mesmo. “Os de preto não deixaram me aproximar. Botaram uma lanterna na minha cara e disseram que era para todo mundo sair ou matariam a gente. Me xingaram de piranha, vagabunda... Eles ainda arrastaram o corpo dele e colocaram sua cabeça no valão [a poça de esgoto]”.

Marcela também afirmou que os encapuzados, embora tivessem acabado de atirar, atribuíram as mortes a briga de facção. Uma versão que o porta-voz do Exército, em conversa com a reportagem, deixou nas entrelinhas após o episódio. “Me disseram: 'Olha o que a facção rival fez!", relata Marlene, a mãe de outra vítima. "Briga de facção com caveirão, quando se viu isso?", questionou. “Quando eu cheguei os blindados já estavam do lado dos mortos e os homens que vimos eram todos da Polícia Civil. Eles não me deixaram me aproximar porque disseram que iam esperar a perícia, mas eles estavam catando cápsulas do chão”, relata a mãe.

O caso de Salgueiro não só evidenciou uma operação questionável, mas também os efeitos da Lei 13.491/17 que, sancionada no mês passado pelo presidente Michel Temer, ampliou competências da Justiça Militar Federal. A legislação alterou o conceito de crime militar para abranger o homicídio doloso (com intenção de matar) de militares das Forças Armadas contra civis. Com a mudança, a atribuição para dirigir investigações e julgar crimes que envolvam soldados que matam recai exclusivamente na esfera militar e não mais na Polícia Civil ou na Justiça comum.

A Delegacia de Homicídios de Niterói São Gonçalo, responsável pela investigação, não tem mais poder para intimar os militares a depor ou entregar suas armas para perícia o que prejudicaria o inquérito, como reclamou o delegado Marcos Amin. Os agentes, no entanto, demoraram seis dias para tomar o depoimento de Luiz –o protocolo das Divisões de Homicídios exige que esse trámite seja imediato, principalmente se a testemunha está ferida e seu estado de saúde pode sofrer complicações. Mais rápido foi, segundo o relato do jovem, um outro grupo de policiais que se apresentou no quarto do hospital, sem papel nem caneta nem objetivo declarado, no mesmo dia em que foi internado. “Ficaram na arrogância comigo. Estava sozinho no quarto, nem boa tarde disseram. Me perguntaram se eu era bandido e eu respondi que não. Eu sempre fui tranquilo. Eles disseram que era mentira, que se eu não dissesse a verdade eles iriam furar meu soro e colocar veneno dentro”.

Questionada mais uma vez sobre a dinâmica e objetivos da operação além das ameaças relatadas pela testemunha, a assessoria da Polícia Civil limitou-se a informar que a investigação segue em andamento. Acompanhada do seu cunhado, Marlene, a mãe de um dos jovens mortos chegou a ir na delegacia prestar um depoimento que, disse ela, nunca tomaram. “Ao sairmos da delegacia, um policial bateu no ombro do meu cunhado e disse que a operação tinha sido um sucesso. Ficamos em silêncio. Mas eu teria dito que foi uma operação de assassinos”.

O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), do Ministério Público, instaurou um inquérito para apurar a atuação dos policiais civis – todos da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) – mas não tem competência para investigar os militares. O Exército afirmou que não haveria apuração interna sobre o ocorrido pois não havia indícios de crime militar dos seus homens. O Ministério Público Militar do Rio abriu uma investigação para apurar o episódio.

*Todos os nomes desta reportagem foram trocados por segurança

Arte de CHICO Caruso

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Entra em vigor Lei de Migração que dá mais direitos a estrangeiros

Lei facilita regularização de estrangeiros e cria visto humanitário.
Muitos imigrantes chegam ao Brasil na condição de refugiados.

No Brasil, entrou em vigor nesta terça-feira (21) a Lei de Migração que dá mais direitos aos estrangeiros, refugiados ou não.

Nos computadores da corretora de valores passam fortunas em ações, dólares. Na tela, na frente do Jeff, tem algo muito mais valioso: a família, que ele deixou na República Democrática do Congo, na África.

“Minha primeira filha”, diz ele, mostrando a foto.

Jeff era professor de contabilidade e ativista de direitos humanos. Teve que fugir porque o país dele vive uma guerra civil.

“Eu quero vir com junto com minha família aqui no Brasil como foi lá no Congo”, afirma ele, ainda tropeçando no português.

Jeff é um dos três africanos contratados pela corretora, todos com formação universitária e todos ralaram muito até chegar aqui.

“Demorou, demorou muito, mas eu quando eu peguei primeiro emprego, meu primeiro emprego foi atendente de restaurante. Nunca desanimei, estava sempre atrás do meu sonho”, conta Rachel Ntumba, assistente administrativa.

A força e a riqueza de São Paulo foram erguidas por imigrantes. E é isso que o pessoal da corretora faz todos os dias: construir riqueza. Abrir as portas para os estrangeiros, refugiados, não é nada mais do que a velha receita paulistana e brasileira: confiar no talento de quem vem de fora.

“Eu percebi que eles eram diamante bruto. São profissionais extremamente capacitados, têm uma experiência profissional maravilhosa e que podem também agregar à empresa com toda a diversidade e experiência que eles tiveram de vida”, diz Fernanda de Lima, CEO da Gradual Investimentos.

A nova Lei de Migração substitui o Estatuto do Estrangeiro, de 1980. Ela facilita a regularização dos estrangeiros, evita deportação imediata da fronteira, cria o visto humanitário para vítimas de desastres ambientais, combates armados e violação de direitos humanos. E os estrangeiros passam a ter os mesmos direitos trabalhistas dos brasileiros.

O advogado Manuel Nabais da Furriela diz que a lei tem alguns defeitos, como a burocracia para decidir quais grupos que tem direito ao visto humanitário, mas, no geral, tem muitos avanços. 

“A legislação anterior, que era o Estatuto do Estrangeiro, ainda do regime militar, previa que o estrangeiro seria alguém ou poderia ser alguém que colocaria em risco a segurança nacional. Essa nova legislação vê o estrangeiro de uma forma a não o criminalizar”, explica Furriela, que é da Comissão Especial do Direito do Refugiado da OAB-SP.

Talvez fique mais fácil realizar alguns sonhos aqui no Brasil.

“Eu ter meu filhinho com meu esposo do lado, a minha casa própria, quem sabe, né, e ter um lado feliz”, confessa Rachel Ntumba.

Temer se reúne no Planalto com ministro Gilmar Mendes, do STF, por Andréia Sadi

Qui se ressemble s`assemble!

O presidente Michel Temer se reuniu nesta terça-feira (21) no Palácio do Planalto com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O encontro ocorreu na semana em que o STF vai retomar a discussão sobre a limitação do foro privilegiado para políticos.

Procurado pelo blog, Mendes disse que o assunto não foi tratado no encontro.

"Não falamos sobre isso, até porque ninguém está apostando que se encerra nesta semana."

O ministro disse que foi convidar o presidente para participar da inauguração do Centro Cultural da Justiça, no Rio de Janeiro, no próximo dia 15.

"Deixei um ofício do convite lá, para entrar na agenda do presidente", afirmou o ministro. (nbl--..me engana que eu gosto!)

Na noite desta terça, o Palácio do Planalto incluiu o encontro na agenda do presidente e disse que o assunto entre os dois foi a "entrega de convite para exposição".

Segóvia absolve Temer sem investigar, por Alex Solnik -- Jornalista.

Em suas primeiras declarações o novo chefe da PF Fernando Segóvia disse a que veio.

Veio para dançar conforme a música, e não para tocá-la, como seu homônimo famoso de nome Andrés fazia ao violão.

Falando para uma plateia composta por vários investigados pela PF, inclusive o próprio presidente da República afirmou que a mala de 500 mil de Rocha Loures não é suficiente para condená-lo.

Absolveu Temer sem investigar.

Arrogou-se o papel de juiz.

Jamais se viu tamanha demonstração pública de subserviência de um chefe da Polícia Federal e tanto desrespeito ao Poder Judiciário.

Segóvia desqualificou a investigação comandada por seu antecessor e os agentes da própria PF, o encaminhamento “açodado” da PGR e até a homologação do STF.

Bateu de frente com a cúpula do Judiciário e por pouco não foi aplaudido em cena aberta por Temer.

Por fim, como era de esperar, garantiu que o combate à corrupção vai continuar.

Desde que distante do Palácio do Planalto.

Frei Betto: “Não deposito esperanças nas eleições de 2018”, por Marcelo Auler

Frei Betto
No feriado de 15 de novembro, para um grupo de 250 pessoas de seis dioceses diferentes do Estado do Rio de Janeiro que discutiam, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, quais os caminhos a trilhar para atender ao apelo do Papa Francisco de “Igreja em Saída”, Frei Betto – o palestrante – sinalizou que, embora importante, as eleições do próximo ano, não podem ser vistas como a forma para o país sair da crise:
“Veja bem, não é nem achar que as eleições do ano que vem vão resolver tudo o que está aí. Não vão. Eu não deposito as minhas esperanças, as minhas fichas todas nas eleições de 2018. Nós temos que pensar mais em longo prazo. Elas são importantes, sem dúvida. Mas, o mais importante é fazer o que, nos últimos anos, nós deixamos de fazer. Fortalecer os movimentos sociais (…) É daí que vem. O poder Popular.”

Betto respondia à questão de qual deve ser o papel da “Igreja em Saída” proposta pelo Papa diante da crise política brasileira. Para ele, isso deve acontecer de duas formas: denunciar e, para não ficar apenas na denúncia, ir em busca do “anúncio”. Ele explica:

“O que é o anúncio? É fortalecer os movimentos sociais. Esse é, a meu ver, o papel número um, hoje, de todo mundo, que tem sede e fome de Justiça, que quer mudar esse país, que quer o Brasil melhor, etc.. Fortalecer os movimentos sociais“.

250 pessoas se reuniram no feriado, em Nova Iguaçu (RJ) se deslocando de suas cidades para debater a mobilização social. O descrédito em tudo o que acontece não imobiliza. (Foto: Marcelo Auler)

O encontro em si realizado no Centro de Formação de Nova Iguaçu (Cefor) – que me trouxe à lembrança os tempos em que ali convivi com dom Adriano Hypólito, que profeticamente ergueu aquele prédio – mostra a inquietação de leigos e religiosos, de diversos pontos do Estado, com certa paralisia da Igreja. Bem diferente da época em que à frente dela estavam ícones com dom Adriano, dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, dom Luciano Mendes de Almeida, os primos Aloísio Lorscheider e Ivo Lorscheiter.

Hoje, é verdade, a Igreja espalhada pelo país encontra focos de resistência. No Estado do Rio, duas dioceses que se destacam são justamente a de Nova Iguaçu, com dom Luciano Bergamin, bispo que junto à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acompanha as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e o bispo de Barra do Piraí e Volta Redonda, Francisco Biasin.
Celso Pinto Carias

Dom Luciano, de Nova Iguaçu, acolheu em sua diocese “não representantes das igrejas, mas pessoas de igreja” que, no fundo, formam grupos minoritários. São uma espécie de resistentes aos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI que esvaziaram os movimentos sociais. A partir deles, a igreja, de uma maneira em geral, embora haja sempre exceções, parou de apoiar tais movimentos.

“Mas, com certeza há pessoas e grupos que mantém essa direção e nós acreditamos que a tendência, com o Papa Francisco persistindo mais alguns anos, será de incentivar ainda mais grupos como esses“, prevê Celso Pinto Carias, assessor da CNBB para as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Foi para “articular pessoas dispersas na rede de comunidades, que não estão tendo mais o apoio de dioceses e paróquias”, que se montou a reunião do dia 15, na qual as expectativas foram superadas.

Ao final ficaram as propostas de fomentar grupos na comunidade, de Fé & Cidadania e, ao mesmo tempo, de Vivência de Evangelização, Espiritualidade e Ação. “Quem esteve lá se propôs a motivar, fomentar a criação desses grupos“, lembrou Carias.

Em seguida, previu: “uma vez que as pessoas fiquem mais bem articuladas, melhor organizadas, consigam mobilizar um grupo maior, sempre terá consequências na perspectiva de encontrarem saídas para a crise política. Ao final terão isso no horizonte“.

“O grande grito que a Igreja deve dar, pode dar, em nome de Jesus, nesse caminho, é de um Brasil mais justo, onde não haja disparidade tão grande, tão imensa. Um país mais fraterno. Onde todo mundo possa alcançar o bem querer e o bem estar de todos. Quando a gente fala de todos significa que aqueles já que têm, que pensem naqueles que menos têm“.

No entendimento de Betto – que não permite a postagem do vídeo – não adianta apenas denunciar, embora denunciar seja um primeiro passo. Mas é preciso também anunciar. 

Embora Betto não aposte todas suas fichas nas eleições de 2018, como ele mesmo diz, ela tem a sua importância. Isso, nota-se, em outro artigo dele, publicado na quinta-feira (16/11) no jornal Hoje Em Dia, de Minas Gerais – Esperança Abraâmica.

“É óbvio, para 97% da população brasileira, que não apoia o governo Temer, porque ele só tem 3% de apoio, no qual estão incluídos aqueles que no Congresso, na Câmara dos Deputados, destruíram duas vezes a Justiça.

Ou seja, cometeram um ato legal, mas injusto, ao impedirem que o presidente, que cometeu gravíssimos crimes, que não há como esconde-los, porque são públicos, não seja investigado e ajuizado pelo nosso sistema Judiciário.

Pois bem, o papel de uma Igreja em Saída, dentro desta crise, eu consideraria um duplo papel:

Primeiro, denunciar o retrocesso que o Brasil sofre em relação a direitos adquiridos.

Nós estamos, em um ano e meio de governo, retrocedemos 150 anos.

Porque até na questão da escravidão nós retrocedemos. Esquecendo que o Brasil tem, majoritariamente, uma população negra – 53% da população brasileira é negra, segundo o IBGE, hoje – e nós somos a segunda nação negra do mundo. Só há uma nação que tem mais negros que no Brasil, que é a Nigéria.

Frei Betto reunido em Nova Iguaçu com “pessoas de igreja” que buscam saídas. 

Então, o nosso papel é denunciar este retrocesso e, ao mesmo tempo, eu não gosto de ficar na denúncia, precisa ir também para o anúncio.

O que é o anúncio? É fortalecer os movimentos sociais. Esse é, a meu ver, o papel número um, hoje, de todo mundo, que tem sede e fome de Justiça, que quer mudar esse país, que quer o Brasil melhor, etc.. Fortalecer os movimentos sociais. 

Veja bem, não é nem achar que as eleições do ano que vem vão resolver tudo o que está aí. Não vão. 

Eu não deposito as minhas esperanças, as minhas fichas todas nas eleições de 2018. Nós temos que pensar mais a longo prazo. Elas são importantes, sem dúvida.

Mas, o mais importante é fazer o que, nos últimos anos, nós deixamos de fazer. Fortalecer os movimentos sociais.

É aquele pequeno movimento que você cria, que você participa. O movimento de teatro. Movimento de jovens. Movimento de mulheres que costuram. Movimento LGB-Todos.

Pequenos movimentos que começam e lá na frente, como pequenos afluentes, irão formar o grande rio que vai dar na cachoeira da virada.

Mas, se não houver isso, esse somatório, nós não iremos construir no Brasil o que é o mais importante de tudo: o Poder Popular. É daí que vem. O poder Popular.

Acho que essa é a nossa missão.

E gostaria que a CNBB resgatasse o seu papel profético. Ou seja, que ela, como aconteceu nos anos 70, 80, 90, voltasse a ser a voz dos que não têm voz. Expressasse uma palavra profética diante de tantas injustiças e retrocessos que a gente assiste.

(…) Uma Igreja em diáspora, tem que ser uma Igreja que em qualquer diversidade, em qualquer situação, é uma Igreja que não perde a caridade, não perde a esperança. Hoje, nesse Brasil, tão desesperançado em que as pessoas quando questionadas se vêm luz no fim do túnel?, respondem ‘Não, Betto, roubaram a luz e roubaram o túnel“.

Então, está difícil, porque antes, pelo menos, tinha o túnel e íamos procurar a luz. Agora, roubaram tudo. Eu deixo essa mensagem para vocês:

Vamos guardar o pessimismo para dias melhores“.