sábado, 26 de novembro de 2016

O Congresso quer enquadrar o Judiciário, por Joaquim Falcão--Professor da FGV Direito Rio.


Brigar ao mesmo tempo com o Judiciário e com os eleitores é estratégia de risco máximo 

Prédio do Congresso Nacional (Foto: Bento Viana)
Muitos deputados e senadores querem apagar o passado e descriminalizar o caixa dois. Têm duas táticas principais. A primeira é óbvia. Querem dar ordem direta ao Judiciário. Para usar a expressão da moda, querem enquadrá-lo como se dissessem aos juízes: “De agora em diante, esqueçam quem pagou e como pagou minha campanha. Tratem de outros assuntos”.

Mudar as regras faz parte das tarefas constitucionais do Congresso. Mudar as regras para resolver casos concretos e já conhecidos, não. É querer influenciar a decisão judicial. É velada obstrução da Justiça. A lei não serve para tanto. Coloca em questão a independência dos Poderes.

A segunda é que querem mandar às escuras. Ou seja: nem votação aberta, nem votação nominal. Os eleitores não saberão quem está votando e o quê. Deputados sem rosto tentam aprovar texto que permita uma interpretação extensiva do que seria o caixa dois. Querem mudar o passado. Alcançar e desfazer atos já praticados de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas.
Coloca-se em questão a representatividade da democracia. Amplia-se o vácuo entre governo e Congresso fragilizados e eleitores. Brigar ao mesmo tempo com o Judiciário e com os eleitores é estratégia de risco máximo. Ninguém quer ser governado por quem quer dar ordens no escuro.
Muitos congressistas já perceberam o risco e se posicionam contra a manobra. O pressuposto dos que querem descriminalizar o caixa dois é que o Judiciário e as ruas não poderão reagir. Afirmam que o Congresso é soberano. Mas mesmo quando não representam e se escondem do eleitor?
Aqui reside o risco da crise institucional. Mesmo que a manobra tenha êxito, Judiciário e Ministério Público ainda terão espaço suficiente para apontar fatos, e fatos, e fatos, e fatos para a opinião pública, a mídia, nacional e internacional, capazes de desestabilizar qualquer base eleitoral.
Sangrar, sem sangue, o Congresso. Que um Congresso representativo prevaleça.

Delatores ameaçados, por Germano Oliveira

Beatriz Catta Preta (Foto: Reprodução)
A advogada Beatriz Catta Preta abre a porta de casa localizada na rua Hungria, bairro Jardim Europa, São Paulo, e se depara com o doleiro Lúcio Bolonha Funaro no sofá da sala brincando com seus dois filhos. 
Ela estremece. Funaro saca uma arma, aponta para sua cabeça e desfia um rosário de ameaças. Para não realizá-las, impõe a Catta Pretta uma condição: que convença seu cliente, o empresário Julio Camargo, ex-consultor da Toyo Setal, a não sustentar denúncias contra seu aliado, o então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha. 
Em negociação de delação premiada, no início de 2015, Camargo havia se comprometido a dizer aos investigadores da Lava Jato que Cunha recebeu US$ 5 milhões de propinas na venda de navios-sondas da Samsung para a Petrobras em 2008.

Funaro, que já havia sido defendido por Catta Preta no episódio do mensalão, tinha acesso à residência da advogada, mas àquela altura já era uma espécie de capanga de Cunha. A ameaça surtiu efeito. Num primeiro momento, sob a orientação de Catta Preta, Camargo livrou a cara do deputado. Só em maio deste ano, Camargo decidiu revelar os subornos recebidos por Cunha e forneceu os detalhes mais sórdidos do pagamento de propina em contas na Suíça. Iniciava-se ali o processo de perda do mandato de Cunha e da conseqüente prisão pela Lava Jato.

As criminosas ameaças de Funaro a Catta Preta, até então uma jurista responsável por defender dezenas de delatores da Lava Jato, levaram a advogada a abandonar os clientes e a praticamente encerrar a profissão. Mas desnudou uma faceta obscura do mundo das delações premiadas.

Arte de CHICO Caruso

Charge (Foto: Chico Caruso)

JUCÁ DIZ QUE ‘EMENDA CLÁUDIA CRUZ’ É RESPONSABILIDADE DO PT E DO PCDOB (AE)

Comentário sem vergonha---LÍDER DO GOVERNO NEGOU QUE TENHA FEITO QUALQUER MANOBRA--Classifique quem quiser esta pessonha....
SENADOR CONTINUA DEFENDENDO A PARTICIPAÇÃO DE PARENTES NO PROGRAMA FOTO: ROQUE DE SÁ/AGÊNCIA SENADO

O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-AL), negou que tenha feito qualquer manobra para permitir que parentes de políticos possam participar da nova fase de repatriação. 
O senador responsabilizou a oposição, que foi autora do destaque que retirou artigos do texto e criticou que, agora, parentes poderão repatriar sem qualquer contrapartida.

"A emenda 'Cláudia Cruz' é responsabilidade do PT e do PCdoB. Na minha versão do texto, havia contrapartida para que parentes só repatriassem se pudessem comprovar que a origem de seus recursos é separada do político. Agora ficou muito pior, qualquer um vai poder repatriar, inclusive a Cláudia Cruz", afirmou. 
Ontem, o senador foi acusado pela oposição de ter feito uma manobra e quebrado o acordo que proibiria parentes de participar do programa.

Apesar da polêmica gerada, o senador continua a defender a participação de parentes no programa e alega que proibi-los, além de inconstitucional, é um erro do ponto de vista da arrecadação de recursos. Jucá argumenta que seu parecer não citava apenas a participação de "parentes de políticos", mas de "parentes de agentes públicos" em nível federal, estadual e municipal nos três Poderes.

"Esta Lei não se aplica (...) aos demais agentes públicos, na União, em Estado, no Distrito Federal ou em Município, da administração pública direta ou indireta, no exercício de seus mandatos ou investidos em seus cargos, empregos ou funções em 14 de janeiro de 2016", diz o texto. 
O parágrafo retirado afirmava que os parentes dos citados acima estariam permitidos.

Perda de arrecadação
O agente público é qualquer pessoa que preste serviço público, sendo funcionário público ou não. "Isso atinge mais de 500 mil pessoas. Estamos falando de pessoas que ocupam cargos em qualquer esfera de poder", afirma Jucá. O senador calcula que, se cada agente público tiver 15 parentes, 7,5 milhões de pessoas estariam impedidas de repatriar.

"É uma medida que eu considero irracional, porque significa perda de arrecadação. Sobretudo é inconstitucional", afirmou o senador. Ele disse ainda que, caso a Câmara impeça a participação de parentes, ele vai verificar junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) a validade desta proibição.

EX-PRESIDENTE CUBANO FIDEL CASTRO MORRE AOS 90 ANOS EM HAVANA, porTiago de Vasconcelos

EX-PRESIDENTE CUBANO E LÍDER DA REVOLUÇÃO MORRE AOS 90 ANOS
CASTRO E O PRESIDENTE DO VIETNÃ. FOTO DIVULGADA NO DIA 16/11
O ex-presidente e líder da revolução cubana Fidel Castro morreu aos 90 anos. 
A informação foi confirmada pela rede cubana estatal de televisão e por diversas fontes oficiais na madrugada deste sábado. A estatal cubana Cubavisión não deu mais detalhes.

Fidel Castro assumiu o poder em Cuba após a revolução de 1959, que destituiu do ditador Fulgêncio Batista. Desde então, Castro foi primeiro-ministro e presidente de Cuba até 2008, quando deixou o cargo para o irmão mais novo Raul Castro.

A última aparição pública de Fidel foi em abril, num discurso no último dia do congresso do partido comunista cubano de 2016.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Oligarquia paulista, o atraso do Brasil, por POR JOÃO TELÉSFORO


Imagem: mural anônimo na Avenida Paes e Barros,
 São Paulo-SP
Dos barões do café aos banqueiros e a movimentos com o MBL, elite de SP afirma-se há mais de cem anos como grande entrave à democratização do país

Até mesmo nos meios “progressistas”, nunca faltam aqueles que consideram a sociedade e a política do Nordeste como mais “atrasadas” com relação às do centro-sul, em especial paulistas. Segundo representação predominante, em São Paulo estaria a “modernidade” das práticas econômicas e políticas, enquanto os velhos coronéis e regimes mais exploradores e clientelistas estariam concentrados entre a “baianada” ou os “paraíbas” lá de cima (termos que paulistas e cariocas utilizam pejorativamente para se referirem a nós, nordestinos).

Além de uma visão bastante seletiva – cega para nomes como Paulo Maluf, trensalão do tucanato paulista, trabalho escravo em pleno centro de São Paulo (ver aqui, aqui, aqui…) -, esse imaginário padece de graves problemas de memória. Esquece, por exemplo, que a maior e mais prolongada resistência à abolição da escravatura no Brasil não veio do Nordeste “atrasado”, mas dos prósperos cafezais paulistas, conforme explica Alfredo Bosi, professor da USP, no fulminante artigo “A escravidão entre dois Liberalismos”, publicado em 1992.

Replico algumas passagens do texto de Bosi, pertinentes à questão:
“Hoje, calados os louvores sem medida com que se exaltou a lucidez ou o espírito moderno dos fazendeiros do Oeste Novo, pode-se reconstituir com isenção os passos deveras prudentes dados pelos homens do café, desde a sua aberta recusa à Lei do Ventre Livre (os votos de Rodrigo Silva e Antônio Prado em 1871), até o seu ingresso no movimento já triunfante em 1887; então, o problema da força de trabalho já fora equacionado em termos de imigração europeia maciça subvencionada pelos governos imperial e provincial. 
Os estudos de Conrad e Gorender, que ratificam, por sua vez, pontos de vista de Joaquim Nabuco e José Maria dos Santos, põem a nu a relutância dos republicanos paulistas, muito sensível nos anos 70, no que tocasse a medidas drásticas [de abolição da escravidão]. (…)

Em 1870, dizia-se na Assembléia Legislativa de São Paulo, que esta era a Província que menos deveria recear a diminuição de braços, pois aí estavam se concentrando todos os escravos do Norte do Império. Nessa ocasião, Paulo Egydio defendia a legitimidade do comércio de escravos, considerando-o ‘uma indústria muito legítima e consagrada entre nós’. Manifestava-se contra a restrição dessa liberdade pela sobrecarga de impostos: ‘meia sisa, impostos imperiais e municipais, gravando as vendas’.

A abolição que, para as províncias do Norte e Nordeste e para os profissionais urbanos, poderia vir sem maiores traumas, não interessava ainda aos fazendeiros de São Paulo que apenas esboçavam os seus projetos de migração.(…)

A adesão franca à campanha abolicionista da parte dos paulistas do Oeste [apenas em 1885] estava, pois, condicionada a um subsídio oficial que fosse bastante copioso para a obtenção dos braços livres. O subsídio veio em abundância: entre 1887 e 88 chegariam aos nossos portos quase 150 mil imigrantes. Proclamada a República, sob o domínio do café, põe-se em marcha a grande imigração“.

A oligarquia cafeicultora paulista foi o último bastião a ser derrotado pela luta abolicionista no Brasil – e sua suposta adesão à causa não veio de graça, mas em troca de um conjunto de privilégios subsidiados pelo Estado. Ademais, conforme explica Bosi, com base em ampla literatura, esse setor também bloqueou, à mesma época, a reforma agrária e a industrialização do país, sempre agarrada à defesa – tendenciosa e abusiva – dos sacrossantos direitos de propriedade e de “livre-comércio”, utilizados à exaustão para justificar, respectivamente, a escravidão e o tráfico negreiro.

Quando se observa o desenrolar da história do Brasil desde então sob esse prisma, constata-se uma grande linha de continuidade: a oligarquia paulista continuou a ser a maior adversária interna das lutas do povo brasileiro para edificar uma nação digna, justa e livre – a liberdade herdeira da luta abolicionista, e não do “livre-comércio” que era utilizado em defesa do tráfico, e que hoje vemos repetir-se no discurso de organizações como o “Movimento Brasil Livre”, cuja força também se concentra em São Paulo.

Não espanta, então, que o núcleo duro da máfia do governo do PMSDB, de Michel Temer, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e companhia, seja representação política desse mesmo velho setor oligárquico escravocrata. Não importa o quanto procurem disfarçar-se com tons “modernos” e “sofisticados”, com tinturas parisienses ou mesóclises, como já faziam seus ancestrais escravocratas; sempre terão cheiro de naftalina e prática de bandeirantes, matadores de índios/as e negros/as.

Esse setor nunca deixou de defender um mesmo projeto em suas linhas básicas, ainda que adaptado e reformulado ao longo dos tempos, desde o século XIX. Eis a síntese de seu programa, sintetizado por Alfredo Bosi: “entrosamento do país em uma rígida divisão internacional de produção; defesa da monocultura; recusa de toda interferência estatal que não se ache voltada para assegurar os lucros da classe exportadora”. Em suma, querem seguir fazendo sua fortuna e seu poder com base na exportação de soja, minérios, sangue, suor e lágrimas do povo brasileiro.

A situação periférica, subordinada e dependente do Brasil no sistema-mundo, nosso subdesenvolvimento social, econômico e tecnológico, não lhes incomoda; estão contentes com a perpetuação do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, que a eles gera grandes dividendos. Entregam sem cerimônia à superexploração gringa, pois, nossos recursos naturais e bens estratégicos, nossa força de trabalho e inteligência. Enquanto o leilão do país, de suas almas e carnes, continuar a lhes propiciar lucros e poder, seguirão adiante. Ao menos até que a rebeldia do povo brasileiro – aí incluído o povo paulista, em seu mosaico de diversidade, que não se confunde com sua oligarquia reacionária –, que segue se aquilombando em todo tipo de ocupação e luta pelo país, os destrone e proclame a nova abolição.
João Telésforo-- é Mestrando em Direito na UnB e militante das Brigadas Populares.

A nova crise política só tem um pai: Temer--por Ricardo Noblat

Comentario oportunista--onde andam os paneleiros anti-dilma?
Michel Temer, presidente da República (Foto: Pedro Kirilos / O Globo)

O artigo nono da lei 1.079 de 10 de abril de 1950, invocada para tirar Dilma Rousseff do cargo, define os crimes de responsabilidade que podem levar um presidente a julgamento e à perda do mandato.

Diz o inciso três do artigo que é crime “não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição”.

Diz o inciso sete do mesmo artigo que é crime “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

Haverá certamente quem encontre em tais disposições amparo bastante para propor o impeachment do presidente Michel Temer caso reste provado que ele fez o que o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero lhe imputa.

Disse Calero a certa altura do seu depoimento à Polícia Federal sobre a pressão que sofreu do ministro Geddel Vieira Lima, secretário do governo, para que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) liberasse a construção de um prédio em Salvador onde ele comprara um apartamento:

"Que na [última] quinta, 17, o depoente foi convocado pelo presidente Michel Temer a comparecer no Palácio do Planalto; que nesta reunião o presidente disse ao depoente que a decisão do Iphan havia criado 'dificuldades operacionais' em seu gabinete, posto que o ministro Geddel encontrava-se bastante irritado; que então o presidente disse ao depoente para que construísse uma saída para que o processo fosse encaminhado à AGU [Advocacia-Geral da União], porque a ministra Grace Mendonça teria uma solução";

"Que, no final da conversa, o presidente disse ao depoente 'que a política tinha dessas coisas, esse tipo de pressão'”.

A revista VEJA publicou, ontem à noite, em seu site, que Calero entregou à Polícia Federal gravações de conversas que teve com Temer, mas também com Geddel e o ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil. E que elas provariam tudo o que ele afirmou no depoimento.

O governo obteve a confirmação da existência dos áudios. “As gravações não são de boa qualidade, porque foram feitas com um aparelho que aparentemente estava no bolso do Calero”, informou à VEJA um ministro com gabinete no Palácio do Planalto.

O episódio que pôs Calero em rota de colisão com Geddel, e que o levou a pedir demissão, foi promovido à condição de uma robusta crise política por envolver agora o presidente da República e alguns dos seus mais prestigiados auxiliares.

Nunca antes na história do país um presidente teve conversas gravadas por um dos seus ministros. Nunca antes um ministro foi à polícia e relatou as causas de sua saída do governo. A polícia agiu as pedido da Procuradoria Geral da República, que pensava em abrir inquérito para investigar Geddel.

Pensará em fazer o mesmo com Temer depois do que contou Calero, o mais novo homem-bomba da República?

A oposição ao governo lambe os beiços diante do que lhe foi servido de graça. O governo balança como uma vara fina sujeita a ventos fortes. O estado delicado da economia não passará ileso pela mais nova crise política que tem um único pai: Temer com suas fraquezas.

Arte de Antonio LUCENA

Charge (Foto: Antonio Lucena)

Calero gravou conversas com Temer, Geddel e Padilha--Estadao



Em depoimento à PF, ex-ministro da Cultura acusa o presidente de ter o pressionado para que liberasse um empreendimento em Salvador de interesse do ministro Geddel

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que em depoimento à Polícia Federal afirmou ter recebido pressão do presidente Michel Temer para liberar um empreendimento imobiliário em Salvador (leia aqui a íntegra), disse aos investigadores ter gravado conversas sobre o assunto. Foram alvo do "grampo" de Calero o próprio presidente, o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, e o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha.

Para que as gravações sejam periciadas e analisadas pela Polícia Federal é preciso que o Supremo Tribunal Federal autorize a abertura de investigação.

No depoimento à PF, Calero narrou ter recebido pressão de vários ministros para que convencesse o Instituto do Patrimônio Histório Nacional (Iphan) a voltar atrás na decisão de barrar o empreendimento La Vue, onde Geddel diz ter adquirido um apartamento, nos arredores de uma área tombada de Salvador.


Michel Temer e Marcelo Calero (Foto: André Coelho)

O sax alto Phil Woods e o peso de ser o Novo Bird, por Flávio de Mattos --Jornalista,


Phil Woods (Foto: Divulgação)
Ser considerado o herdeiro de Charlie “Bird” Parker, nem sempre, era um elogio para o saxofonista Phil Woods. Ele teve que trabalhar muito para conquistar o merecido respeito para seu trabalho. Claro que a influência de Charlie Parker era notória, como foi importante em todos os músicos de jazz que vieram depois. Não poderia ser menor para quem tivesse escolhido o sax alto como seu meio de expressão.

Phil Woods contudo teve que ouvir comentários sarcásticos, como os do também sax alto Art Pepper. Ele dizia que Woods amava tanto a Charlie Parker que acabou casando-se com sua viúva Chan Parker. E o baixista Charles Mingus, não conteve seu olhar de desdém quando viu Woods tocando o saxofone que havia pertencido ao ídolo, com o nome de Charlie Parker gravado na campânula.

Aquela foi uma fase difícil para Phil Woods, com a sombra de Bird sempre presente em sua vida. Phil e Chan se casaram em 1957, dois anos depois da morte de Bird. Phil tinha 26 anos e Chan estava com 34, e já tinha dois filhos. A mais velha, Kim, de um casamento anterior, e Baird, filho de Charlie. Phil Woods havia empenhado o seu saxofone para botar comida na casa, por isso estava usando o que pertencera a Charlie Parker, explicou ele depois.

Nascido em Springfield, Massachusetts, em 1931, Phil Woods ouviu o primeiro disco de Charlie Parker quando tinha 14 anos. O garoto já tocava o sax alto desde os 12. Naquele momento, ele teve a certeza de iria ser um músico de jazz. Até ali, Phil tentava copiar os solos de Benny Carter e Johnny Hodges, seus ídolos anteriores. Porém quando escutou Parker tocando Ko-Ko, buscou transcrever cada nota daquele solo, sem modificar nenhuma.

No ano seguinte, Phil Woods foi a Nova York estudar improviso com o pianista Lennie Tristano. Ele sabia que ali poderia ter a oportunidade de ouvir seu ídolo tocando. E foi Tristano mesmo quem lhe proporcionou o encontro. O trio do pianista iria abrir um show para Charlie Parker e o músico o convidou para ir até lá. Phill Woods pôde conhecer Parker nos bastidores e ouvi-lo tocar por mais de duas horas, naquela noite.

Mas foi só aos 19 anos que Woods mudou-se para Nova York. Ele matriculou-se na Juilliard School para estudar clarinete e composição clássica. A universidade, naquela época, se dedicava apenas à música erudita e não tinha cursos de saxofone, nem de jazz. Esse foi um tempo em que o músico estudava Brahms e Mozart no clarinete, pela manhã, enquanto à noite estava com seu saxofone tocando nos clubes da Rua 52.

Quando conheceu Chan Parker, Phil Woods já era famoso, entre os músicos e seguidores do jazz, como o “New Bird”, o herdeiro do estilo de Charlie Parker, no sax alto. Ele integrava a banda de Dizzy Gillespie, com quem Parker havia tocado também. Em paralelo, o jovem músico iniciava a colaboração com o saxofonista Gene Quill. A dupla assinava Phil & Quill e tinha o som marcado pelo duelo de saxofones, como na peça Altology.

Porém, por muitos anos, Woods tornou-se mais um acompanhante de luxo para cantores e outros solistas. Integrou as orquestras de Quincy Jones e Benny Goodman e fez parte das bandas de Thelonious Monk, Buddy Rich e Charlie Barnet. Enquanto isso, seu trabalho como líder ficou um pouco relegado.

Em 1968, Phil Woods entrou em crise, insatisfeito com os rumos de sua carreira. Na época, o jazz perdia espaço para o rock e para a música pop. Woods, no entanto, ganhava muito dinheiro tocando nesses discos. Além do mais, ele tinha ainda outra boa fonte de renda na publicidade, era o autor das músicas de todos os anúncios da Coca-Cola. E quase nada de jazz.

O músico resolveu largar tudo e mudar-se com família para a França. O casal já tinha então dois filhos mais. Lá, Phil Woods criou o grupo experimental European Rhythm Machine. Ironicamente, a partir de seu trabalho no exterior é que Woods passou a ser requisitado em seu país, convidado, pela primeira vez, a fazer parte do cartel principal do Newport Jazz Festival.

Phil Woods separou-se de Chan Parker, em 1973, e voltou para os Estados Unidos, enquanto ela permaneceu na França. Em Nova York, o saxofonista montou seu primeiro quarteto da nova fase e gravou o álbum Musique du Bois, que o reposicionou na cena jazz norte americana. Nesse disco está a faixa The Summer Knows, tema do filme Houve uma vez Verão (Summer of ’42).

A partir daí, Phil Woods fez uma longa carreira, que lhe proporcionou quatro prêmios Grammy. Foram mais de 150 álbuns gravados como artista principal e 600 participações em gravações com outros artistas. Entre essas, a colaboração com o violonista brasileiro Irio de Paula, Encontro On Jobim (2001), em que sola o tema Corcovado. Phil Woods morreu em setembro de 2015, aos 83 anos, vítima de um enfisema pulmonar.

No vídeo a seguir, temos Phil Woods, livre, em um descontraído ensaio geral com a Barcelona Jazz Orquestra, na Espanha, em agosto de 2010. O tema que apresenta é My Man Benny, que escreveu inspirado em sua primeira influência o saxofonista Benny Carter.

Valentões e corrupções, por José Paulo Cavalcanti Filho--Advogado


Em Brasilia, a Câmara dos Deputados foi invadida por jovens que protestavam contra a corrupção. E pediam a volta dos militares. Já, nas ruas do Rio, outros jovens agrediam, fisicamente, jornalistas que estavam exercendo suas profissões. Inclusive ferindo o repórter Caco Bercellos, da Globo. Para a deputada Jandira Feghali (dilmista do PC do B), os de Brasilia seriam “intolerantes e fascistas”. Só esqueceu de dizer o mesmo daqueles do Rio. Sua terra, gente sua. Estes, para ela, estariam só praticando um protesto legítimo. Que nada, minha senhora. São é dois grupos muitos parecidos. Um à direita, outro à esquerda. Filhos, ambos, da mesma intolerância. Do mesmo passado. Do mesmo autoritarismo travestido em democracia.

A graça no caso de Brasilia, se isso for graça, é que a crença daqueles valentões se funda numa lenda falsa. De que o Golpe Militar de 1964 era imune à corrupção. Os fatos provam o contrário. Já em 1968, ainda tenra nossa tão feia ditadura, tivemos uma Comissão Geral de Investigações – CGI (Decreto–Lei 359) criada, precisamente, para promover o confisco dos bens adquiridos, de maneira ilícita, no exercício de função pública. Foram tantos casos, envolvendo militares e gente ligada a eles, que era mesmo necessário fazer algo.

Esta CGI tinha poderes (art. 38) para apurar quaisquer atos de corrupção. Sem que se conheça, hoje, as investigações realizadas. Por terem sido incineradas (é o que se diz). Pena. Mas foram muitas. Até porque, caso diferente fosse, e nem razão haveria para criar uma CGI assim. Aqui mesmo, no Recife, acabou famoso um general, diretor de banco do governo, que enriqueceu apostando com um empresário que seus empréstimos seriam liberados. A juros simbólicos. Eram sempre. E ligeiro. Caixinha, obrigado.

A evidencia de corrupção ampla, nesse período, não para por aí. No início de 1969, começava a nascer a Operação Bandeirantes – OBAN. Pensada para ser o braço clandestino dos órgãos de segurança. E responsável por boa parte das torturas e desaparecimentos forçados que se deram, na época. O ato (informal) que celebrou sua criação deu-se em 01/7/69. Contando, inclusive, com a presença de figuras importantes das elites políticas e empresários de São Paulo.

Tanto foi o sucesso (na versão das forças de repressão) desse empreendimento que, em fevereiro de 1970, o major Waldyr Coelho (chefe de Coordenação de Execução da Central de Operações da OBAN) sugeriu, ao Comando do II Exército, a criação de uma OBAN específica contra a corrupção (documento ACE 16.645–70, Arquivo Nacional). Sem sucesso. Tudo como circunstanciamos no Relatório Final que fizemos, na Comissão Nacional da Verdade.

Naquele tempo, a ideia de combater a corrupção se limitava a punir só os que recebiam grana. Sem atingir empreiteiros ou militares que lhes davam cobertura. Talvez porque fossem, todos, velhos companheiros da Ditadura. Hoje é diferente. Nossas prisões, já era hora, passaram a ser frequentadas, também, por donos de construtoras e agentes políticos – que substituíram, na periferia do poder, aqueles militares. Inclusive ministros e governadores. Por enquanto.

Corrupção havia, sim. Muita. Praticada, indistintamente, por civis e militares. No fundo, e infelizmente, por ser um desvio da própria natureza humana. Só que, nos negros anos, não se sabia dos submundos do poder. Porque havia censura. Completa (quase). Enquanto, hoje , temos imprensa livre. Essa é a maior diferença. E ainda bem.

Nenhum deputado admite ser o autor da emenda que anistiaria o caixa dois, por AFONSO BENITES

Comentário ragging---além de corruptos, covardes!
Ao adiar medidas anticorrupção, Câmara vive seu dia de caça-fantasmas--Pressa em votação tem relação com a delação da Odebrecht

 Deputados na sessão desta quinta-feira na Câmara. ZECA RIBEIRO-- CÂMARA DOS DEPUTADOS

Ninguém sabe. Ninguém viu. No dia em que a Câmara decidiu adiar para a próxima semana a votação do projeto das Dez Medidas Contra a Corrupção, quase todos políticos e jornalistas no Congresso Nacional buscavam quem seriam os autores da emenda ao projeto de lei que resultaria na anistia aos crimes correlatos ao caixa dois, que é doação oculta e ilegal de recursos para campanhas eleitorais. Parecia uma operação dos Caça-Fantasmas. 
Nenhum dos que foram apontados como articuladores das propostas quiseram admitir que o era. Um deles, quando questionado em uma coletiva disparou: “Você acredita na cegonha? Acredita na Branca de Neve? Claro que não tenho nada a ver com isso”.
No plenário da Câmara o clima estava pesadíssimo, um dia depois da divulgação da notícia de que 60 funcionários da Odebrecht estavam em vias de assinar um termo de delação premiada em que denunciariam entre cem e 200 políticos brasileiros no esquema bilionário de desvio de recursos da Petrobras.
Ninguém discursava a favor da anistia ao caixa 2, pelo contrário, as falas todas eram no sentido de elogiar o projeto de iniciativa popular que foi liderado pelo Ministério Público Federal e quer endurecer as regras contra a corrupção. 
Mas todos sabiam que, a qualquer momento, a emenda, que teve uma versão em papel timbrado, sem nenhuma assinatura, circulando entre jornalistas chegaria para ser votada. O texto dela dizia o seguinte: “Não será punível nas esferas penal, civil e eleitoral, doação contabilizada ou não contabilizada ou não declarada, omitida ou ocultada de bens, valores ou serviços, para financiamento de atividade político-partidária ou eleitoral realizada até a data da publicação desta lei”.

A anistia não estava escrita textualmente, mas, da maneira como foi redigida, alguns consultores legislativos da própria Câmara entenderam que a nova regra poderia gerar interpretações diversas no sentido de perdoar todos os crimes relacionados ao caixa 2, entre eles corrupção, lavagem de dinheiro e peculato. O diabo mora nos detalhes. 
Boa parte dos investigados pela operação Lava Jato foi denunciada exatamente por esses delitos e, caso a lei passe, estarão livres de algumas dessas punições.

“Estava tudo armado para ser tudo destruído", diz Onyx Lorenzoni

O movimento, intensificado entre a noite de quarta-feira e a manhã quinta-feira, acendeu um sinal de alerta em algumas das proeminentes figuras do Judiciário brasileiro. 
O juiz federal Sergio Moro, o responsável pela operação Lava Jato na primeira instância, emitiu uma nota na qual dizia que toda anistia era questionável e deveria ser amplamente debatida pela sociedade. “Anistiar condutas de corrupção e de lavagem de impactaria não só as investigações e os processos já julgados no âmbito da operação Lava Jato, mas a integridade e a credibilidade, interna e externa, do Estado de Direito e da democracia com consequências imprevisíveis para o futuro do país”.
Dois procuradores da República que atuam na força-tarefa da Lava Jato também se manifestaram contrários à anistia. Um deles afirmou que essas mudanças devem ter relação com a delação dos funcionários da Odebrecht. “Hoje não é dia de luva de pelica. Hoje é um dia de luva de boxe. Nós não temos mais o que discutir senão fazer os deputados caírem em si”, afirmou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, durante um evento do MPF em Brasília. O coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, usou suas redes sociais para dizer que “retrocessos não podem ser admitidos”. Antes de pressionar pela internet, Dallagnol já havia estado em Brasília em ao menos três ocasiões para conversar com deputados e pedir que eles não destruíssem completamente o projeto original enviado pelo Ministério Público e que teve o apoio de mais de 2 milhões de brasileiros.
Reações parlamentares
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), apontado por adversários como um dos que encabeçavam a emenda da anistia, decidiu adiar a votação para a próxima terça-feira por entender que o clima era desfavorável e que era necessário haver mais debates sobre o assunto. O relator do projeto da Comissão Especial, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) comemorou o adiamento. “Estava tudo armado para ser tudo destruído. Mas houve uma articulação do bem para evitar que isso acontecesse”.

Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), durante sessão que pode decidir a cassação do mandato de Eduardo Cunha (Foto: Luis Macedo/Agência Câmara)
Rodrigo MAIA--filho do Cesar Maia
 e genro do Moreira Franco...
Maia foi mais um entre os vários que negaram qualquer possibilidade de se anistiar o caixa dois. “Não há anistia para crime que não existe. O que há aqui é uma confusão. É um jogo de palavras para enfraquecer o Parlamento brasileiro”, afirmou Maia. 
O presidente da Câmara ainda reclamou, indiretamente, da tentativa de interferência de membros do Ministério Público e do Judiciário na votação desta terça-feira. “Ninguém pode se sentir ofendido por essas decisões, pela soberania da Câmara e do Senado. A gente tem liberdade de votar da forma que a gente quiser. A pressão da sociedade é legítima, contanto que nenhum poder queira subjugar outro poder”.

Líder de um dos partidos envolvidos no acordo de abrandamento das medidas anticorrupção, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) seguiu na mesma linha de Maia. “Foi má abordada essa questão da anistia. Não há artifício para anular um crime e nós não queremos isso”, afirmou.

Como ninguém assumiu, a dúvida sobre os patrocinadores da proposta de anistia permaneceu. Essa foi a segunda vez que tentou-se anistiar o caixa dois. A outra, ocorreu durante a campanha eleitoral deste ano, quando a Câmara estava esvaziada. “É claro que quem está tramando essa proposta, tem vergonha de assumir a sua autoria (...) Aqui no Congresso parece existir fantasmas”, disse o líder da REDE, Alessandro Molon, um dos partidos que ao lado do PSOL apresentaram uma proposta para que toda as votações envolvendo esse tema sejam nominais com a identificação de cada um dos deputados. 
A primeira tentativa de que isso ocorresse, foi derrubada. 
Outras deverão ocorrer na próxima semana.

Arte de AMARILDO

Charge (Foto: Amarildo)

LÍDER DO GOVERNO (Romero Jucá) ABRIU BRECHA PARA REPATRIAÇÃO A PARENTES DE POLÍTICOS, (AE)

"LEVAMOS UMA 'VOADORA' DO JUCÁ", DIZ SENADOR MAGNO MALTA
LÍDER DO GOVERNO DEU UMA 'PERNADA' NOS SENADORES AO ABRIR BRECHA PARA QUE PARENTES DE POLÍTICOS PARTICIPEM DA SEGUNDA FASE DA REPATRIAÇÃO (FOTO: JONAS PEREIRA/AG. SENADO)
O senador Magno Malta (PR-ES) externou em plenário sua revolta com a manobra feita pelo líder governo, Romero Jucá (PMDB-RR), para permitir que parentes de políticos possam participar da segunda fase da repatriação. O dispositivo ficou conhecido entre a oposição como "emenda Cláudia Cruz", em referência à esposa do deputado cassado Eduardo Cunha.

"Ontem tomamos 1x0 do senador Romero Jucá, foi uma bola nas costas. O senador fez um acordo conosco em plenário de que tiraria a emenda que inclui parentes e, hoje de manhã, a gente descobre que nós tomamos uma pernada dele, uma voadora de frente", afirmou o senador.

Na votação de ontem, após forte pressão, inclusive de senadores da base, para que Jucá retirasse do texto os parágrafos que permitiam que parentes participassem da repatriação, o próprio senador o fez voluntariamente. O que não ficou claro na votação de ontem era que o substitutivo do senador não fazia nenhuma vedação à inclusão de parentes e, na prática, permitia que eles integrassem o programa. A manobra só foi percebia hoje de manhã pelos integrantes da oposição.
Fabio Rodrigues Pozzebom (Foto: Agência Brasil)
Romero JUCA ri-se!

"Não sei se existe qualquer tipo de recurso, mas deixo aqui o meu registro de indignação. Falei pessoalmente com Jucá que o que ele fez não foi honesto", afirmou Malta.
A notícia pegou de surpresa também outros senadores, assessores parlamentares e funcionários do Senado, que relataram só terem percebido a manobra na manhã de hoje, quando o texto final da votação foi formalmente protocolado na Secretaria Geral da Mesa Diretora. 

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pediu para que essa história fique no passado. "Isso ficou na sessão de ontem. Temos que olhar para frente, temos uma agenda enorme de votações a cumprir", minimizou. Segundo interlocutores, Renan estava ciente da manobra. O peemedebista jogou a responsabilidade para a oposição e disse que o destaque deles foi posto de forma "equivocada".

Recurso. A oposição no Senado passou a manhã buscando uma forma de reverter a manobra do líder do governo. A avaliação da assessoria técnica do Senado é que não haveria maneira regimental de modificar o que foi feito. Nesta tarde, o senador José Pimentel (PT-CE) informou em plenário que a oposição irá buscar a derruba do dispositivo na votação da Câmara.

"Ontem foi uma sessão atípica. Todos nós estávamos muito tensionados nessa matéria. É verdade que o nosso destaque pedia a retirada daqueles itens. No entanto, o texto do artigo 11 revogou o artigo anterior nessa redação nova do substitutivo. Vamos enfrentar essa questão na Câmara Federal." (AE)

COMENTÁRIO JOCOSO---..bandos cúmplices até para confundir a maioria silenciosa, esses FDP não hesitam diante de NADA!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Vista parcial do governo Temer, por LUIZ RUFFATO

Por que não mais ouvimos panelas batendo contra a corrupção?


Geddel Vieira Lima em reunião no Palácio do Planalto. UESLEI MARCELINO REUTERS

Desde que assumiu o governo, o presidente não eleito Michel Temer vem demonstrando verdadeiro desprezo pela moralidade pública. Colocando-se acima das leis — ele, que se autointitula jurista! —, ignora as claras manifestações de irregularidades cometidas por seus subordinados, além de as consumar ele próprio, elevando a prática da corrupção, que infelizmente sempre existiu neste país, a mero acidente de percurso. Temer se fortalece com o silêncio das ruas, alimentando-se da hipocrisia e do cinismo daqueles que, exatamente em nome do combate à corrupção, derrubaram a presidenta Dilma Rousseff, democraticamente eleita e contra quem não se produziu até hoje uma mínima prova de ilegalidade.

O episódio mais recente talvez seja emblemático da maneira como Michel Temer age — ou melhor, não age. Não se trata de denúncia da imprensa — aliás, a grande mídia brasileira há muito blindou o governo Temer — nem queixa de adversários, mas de acusação de um ministro a outro, ambos nomeados por ele e que, portanto, comungam de suas ideias. O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero disse, com todas as letras, ter sido pressionado pelo ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, a, contrariando parecer do Iphan, aprovar a construção de um prédio de 31 pavimentos em uma área tombada de Salvador, onde por acaso Geddel possui um apartamento avaliado em 2,5 milhões de reais. Confrontado, o ministro admitiu ter advogado em causa própria, afirmando, com sarcasmo, que sua preocupação, no caso, era com a retomada do crescimento econômico.

Geddel Vieira Lima é homem-forte do governo Temer. Ele tem como função assessorar o presidente da República no relacionamento e na articulação com movimentos sociais, entidades patronais e de trabalhadores com a finalidade de criar e manter canais de consulta e participação popular na definição da agenda de prioridades do País. Para quem não lembra, Geddel Vieira Lima era um dos chamados “anões do Orçamento”, escândalo ocorrido no começo dos anos 1990 e que levou à cassação de cinco deputados e um senador e à renúncia de outros quatro deputados. Ele ainda foi ministro da Integração Social no governo Lula, entre 2007 e 2010, quando privilegiou sua base eleitoral, a Bahia, com 90% das verbas liberadas por sua pasta. Além disso, Geddel Vieira Lima recebe mensalmente 55.288,25 reais — soma de seu salário de ministro com os proventos da aposentadoria como deputado, ultrapassando em R$ 21.525,25 o teto constitucional de 33.763,00 reais.

Outro homem forte do governo Temer é o contorcionista Romero Jucá. Vice-líder do Governo Fernando Henrique Cardoso, ocupou por três meses o cargo de ministro da Previdência Social do Governo Lula (entre março e julho de 2005), quando foi exonerado por suspeita de corrupção. Isso não impediu que Lula o nomeasse no ano seguinte líder de seu governo, cargo que manteve ainda no Governo Dilma Rousseff até março de 2012. A convite de Michel Temer, assumiu o Ministério do Planejamento, deixando a pasta 10 dias depois da nomeação, após o vazamento de um áudio em que aparecia conspirando contra Dilma e contra a Operação Lava Jato. Ele ainda é alvo de quatro investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), por crimes como lavagem de dinheiro, corrupção passiva, apropriação indébita previdenciária, falsidade ideológica, etc etc etc. Romero Jucá é o líder do Governo Temer no Senado.

Sete dos 23 ministros de Temer estão citados na Operação Lava Jato: Raul Jungman (Defesa), Bruno Araújo (Cidades), Eliseu Padilha (Casa Civil), Ricardo Barros (Saúde), Mendonça Filho (Educação), Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), além do tucano José Serra, candidatíssimo à Presidência da República, atual ministro das Relações Exteriores, acusado de receber, via caixa dois, 23 milhões de reais da empreiteira Odebrecht para financiar sua campanha eleitoral em 2010. O próprio Michel Temer é considerado, pela Lei da Ficha Limpa, inelegível em 2018. A pergunta que fica é: por que não mais ouvimos panelas batendo contra a corrupção?

Lista dos erros, por Miriam Leitão--Jornalista



A herança deixada pelo governo Dilma foi pesada, mas só será enfrentada se o governo Temer não se 
perder no seu próprio labirinto. E é o que começa a acontecer

Os erros do governo Temer vão minando a pouca confiança que reapareceu logo após o fim do governo Dilma. O caso do ministro Geddel Vieira Lima mostra falta de entendimento básico. Ninguém pode usar um cargo público para tratar de questões de seu interesse pessoal. É simples, não é novo, é crime tipificado e faz parte do conjunto de comportamentos de autoridades que está atormentando a vida do país.
Um ministro que gasta mais tempo se explicando e pedindo que o avalizem não tem condições de conduzir a espinhosa articulação com o Congresso. Ele foi apanhado em um caso de tráfico de influências e demonstrou sequer ter entendido o que fez de errado. Aliás, essa dificuldade cognitiva foi geral. Presidentes da Câmara e do Senado saíram em socorro do ministro Geddel com argumentos que zombam da nossa inteligência.

Um deles é o de que o ex-ministro Marcelo Calero não teria entendido a conversa. Entendeu sim e explicou muito bem ao país. Líderes dos partidos da base assinaram manifesto em favor de Geddel. Diante de tanto prestígio o governo afirmou que o assunto estava superado. Com isso, desautorizou a Comissão de Ética Pública. Se está superado, o que faz a Comissão de Ética? Depõe contra o governo o argumento de que como a solução acabou sendo técnica o problema não existe.

Se é preciso explicar, a essa altura, que isso é tráfico de influências, fica realmente complicado. Outro erro começa a ser ensaiado na proposta de nova lei da repatriação. O senador Romero Jucá eliminou a proibição de que parentes dos políticos possam fazer parte do programa. A vedação foi incluída na lei por motivos tão óbvios e cristalinos que também não precisam ser explicados.

O governo Temer despachou o ministro da Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, para Genebra, para defender os incentivos fiscais aprovados pelo governo Dilma para a indústria automobilística brasileira. Essas isenções e benefícios fazem parte do conjunto de políticas desastradas que exauriu os cofres públicos. Uma das medidas é a que dá ao exportador 3% do valor exportado.

O país está cortando gastos essenciais e quer brigar na OMC pelo direito de dar dinheiro a exportador de carro? Francamente. Desde que começou a fase interina do governo, as autoridades têm falado que enviarão ao Congresso uma reforma da Previdência, mas a comunicação oficial parece seguir o roteiro sobre como fazer para ela fracassar.

Todas as más notícias foram antecipadas a conta-gotas, sem qualquer esforço para convencer o país da necessidade dessas mudanças. Com o aviso prévio dos interesses que serão feridos, a coalizão da resistência vai aumentando. Até agora a reforma não foi enviada ao Congresso. As autoridades que estão no comando desse processo se aposentaram precocemente.

Geddel acumula a aposentadoria de deputado com o salário de ministro e ganha acima do teto constitucional, mas disse que não abrirá mão disso porque seria “um simbolismo ruim”. Ele inverteu a lógica. Simbolismo ruim é um ministro que ganha acima do teto constitucional comandar a articulação política para aprovar teto para as despesas públicas. As reações contra a reforma da Previdência sempre ocorrem quando o assunto surge, mas a dinâmica populacional do país é incompatível com a idade com que grande parte dos brasileiros se aposentou ou planeja se aposentar.

A reforma da Previdência não é de direita, nem de esquerda, é uma imposição da vida. As pessoas vivem mais, há proporcionalmente menos jovens e crianças e a equação tem que ser refeita. Serão várias reformas nas próximas décadas. O equilíbrio das contas públicas exige o combate às vantagens concedidas a certas categorias ou corpora- ções profissionais.

O Brasil terá que escolher o que fazer com o dinheiro público, por isso precisa de cada vez mais transparência sobre que destino será dado aos impostos pagos pelos contribuintes. Essa é uma agenda inescapável, mas que fere interesses. Por isso é normal que se questione a coerência da autoridade que está propondo a mudança.

A herança deixada pelo governo Dilma foi pesada, mas só será enfrentada se o governo Temer não se perder no seu próprio labirinto. E é o que começa a acontecer.

De Niro`s raging again


“As farmacêuticas impedem a criação de novas terapias contra o câncer”, CHRIS SANDER | INVESTIGADOR DO INSTITUTO DE CÂNCER DANA-FARBER, por NUÑO DOMÍNGUEZ

Pai da bioinformática conta como a computação pode ajudar a compreender a complexidade de cada tumor

Chris Sanders. ÁLVARO GARCIA
Os grandes projetos de sequenciamento do genoma do câncer iniciados há uma década demonstraram que cada tipo de tumor é tão diferente de outro em nível genético e molecular que parecem doenças distintas. Essa heterogeneidade também ocorre dentro de cada paciente – uma célula de um tumor pode ser muito diferente da célula ao lado. E toda essa variabilidade pode explicar por que algumas pessoas (e células) respondem aos tratamentos oncológicos e outras não.

“Com tanta complexidade, o problema só poderá ser resolvido com a utilização de computadores”, diz Fátima Al-Shahrour, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO) da Espanha. Al-Shahrour é especialista em bioinformática, uma disciplina em expansão que mistura o poder de cálculo dos computadores atuais com ferramentas oriundas da matemática e da estatística para analisar a imensidade do Big Data genético do câncer. 
Al-Shahrour foi uma das organizadoras de um congresso internacional do CNIO e da Fundação La Caixa voltado ao entendimento e combate da heterogeneidade do câncer graças à bioinformática.
Chris Sander, um dos pais dessa disciplina, foi o grande nome do congresso. É pesquisador do Instituto do Câncer Dana-Farber de Boston (EUA) e um dos líderes do Atlas do Genoma do Câncer, um consórcio norte-americano que estudou as variações genômicas de 30 tipos de tumores em 20.000 pessoas. “Essa base de dados agora nos ajuda a enxergar os detalhes microscópicos do que ocorre no câncer”, diz Sander. Físico teórico, foi para a área da biomedicina há mais de quatro décadas. Desenvolveu algoritmos capazes de resolver problemas de biologia que estavam fora do alcance dos maiores supercomputadores do mundo e criou unidades de bioinformática no Laboratório Europeu de Biologia Molecular e no Centro do Câncer Memorial Sloan-Kettering de Nova York. Nessa entrevista ele explica como a bioinformática pode ajudar a encontrar novas terapias combinadas mais efetivas e acessíveis.
Pergunta. O que diria a uma pessoa com câncer sobre como a bioinformática pode melhorar os tratamentos?

Resposta. Já demonstramos, por exemplo, que há tumores cerebrais que parecem muito similares, mas quando analisados do ponto de vista molecular e genético ocorre que cada pessoa tem um tumor diferente. É a heterogeneidade do câncer, o que implica que cada um necessitará de uma terapia diferente. Podemos listar a paisagem complexa de cada tumor e o número de drogas disponíveis para encontrar a combinação correta. Inicialmente vamos estudar isso em testes clínicos com pacientes, e depois começará a ser feito nos hospitais, como terapia.

P. O senhor defende que os pacientes também podem ter um papel mais ativo na luta contra o câncer.

R. Sim. Até agora, a força da genômica no câncer são os mais de 60.000 tumores analisados no nível da genética molecular. Essa é a montanha de dados que temos. O que nos falta é uma informação equiparável sobre pessoas. Essa informação está bloqueada nos hospitais e é incompleta. Temos que trabalhar para estruturá-la bem, publicá-la e compartilhá-la, de forma que possamos passar de uma montanha de dados genéticos a outra de dados de saúde pessoais, prontuários médicos, estilos de vida etc.. Meu pedido aos pacientes é que trabalhem com a comunidade de engenheiros informáticos, os geeks, e que os deixem captar suas informações sobre saúde através de seus smartphones, de modo a podermos obter essa informação diretamente deles. Isso já está acontecendo, há programas pilotos em andamento.

P. As pessoas precisam se preocupar por exporem informações sobre sua saúde?

R. Deveríamos criar um direito constitucional pelo qual cada pessoa teria a propriedade sobre sua informação genômica e de saúde. Uma vez que esse direito exista, você poderá guardar esses dados só para você ou compartilhá-los. Há pessoas com um câncer muito agressivo que querem compartilhar seus dados enquanto estiverem vivas, porque esperam ajudar outras pessoas conectadas, como no Facebook. Se conseguirmos proteger esse direito, criaremos a liberdade de compartilhar informação. E, se fizermos isso bem, teremos uma base de dados extremamente poderosa. Poderemos multiplicar por 10 ou por 100 os benefícios que a bioinformática já propicia no tratamento de tumores.

P. Os computadores também podem encontrar novos usos para fármacos já existentes?

R. Sim. Especialmente com as chamadas terapias combinadas, quando várias drogas são usadas juntaspara combater tumores que são resistentes a um fármaco. Uma decorrência disso é que se pode evitar o uso dos fármacos mais caros, de digamos 200.000 euros [711.200 reais], e substitui-los por uma combinação de outros já aprovados e muito mais baratos. Esse reposicionamento representa uma enorme oportunidade. Mas os grandes laboratórios farmacêuticos se opõem. Fizeram grandes contribuições para curar o câncer, mas não estão interessados em fazer testes clínicos se não tiverem a oportunidade de lucrar um monte de dinheiro. Se uma combinação contiver um medicamento barato, os grandes laboratórios não farão o teste, porque não aumentará seus lucros. Por isso temos que encontrar a forma de fazer testes clínicos alternativos, financiados com dinheiro público. É um problema social e político, mas há a oportunidade de propiciar um enorme benefício para os pacientes com câncer se fizermos testes públicos, por exemplo, sobre tumores muito especializados, que não interessam às grandes companhias.

P. Então os grandes laboratórios se opõem ao desenvolvimento de novos tratamentos?

R. Sim. Estão pondo o foco numa gama muito pequena, devemos ampliar a mira.

P. Quando chegarão as terapias melhoradas graças à bioinformática?

R. Já. É parte do sistema global de desenvolvimento de novas terapias. Veja, por exemplo, o melanoma, uma doença mortífera e muito rápida. Os novos testes clínicos de imunoterapia tiveram uma taxa de sucesso de 40% a 50% dois anos depois do tratamento, ou seja, há pessoas que potencialmente se curaram ou pelo menos não morrerão de melanoma. É um feito inovador. Não decorre diretamente da bioinformática, mas ela está ajudando a melhorar os resultados ao relacionar os tratamentos com o perfil genético das pessoas e ao mostrar quem pode responder melhor.

P. Como acredita que a vitória de Donald Trump afetará a ciência nos EUA?

R. Eu o chamo de Dump [lixo, em inglês], por razões óbvias. Há 77 anos já vimos aonde levam certos movimentos políticos. Acredito que esse seja o maior risco. Alguns dos políticos que ganharam as eleições negaram a base científica da mudança climática, e inclusive nas fileiras dele questionam a evolução. Se essa animosidade contra a ciência se traduzir em cortes orçamentários, haverá um problema na pesquisa do câncer. Como cientistas devemos erguer a voz para que não haja um novo movimento anticientífico.

P. A medicina personalizada poderia incrementar a desigualdade em algo tão importante como a saúde?

R. Há um problema sem resolver. Se quisermos reduzir as mortes por câncer no mundo com uma só ação, ela seria uma campanha mundial contra o tabaco e a favor de mudanças na dieta e nos hábitos de vida. Numa recente conferência científica em Cingapura houve uma exposição da Phillip Morris, uma das empresas do câncer, dizendo que ela está fazendo pesquisas positivas sobre biologia de sistemas. Quando olhei do que se tratava, estavam desenvolvendo novos cigarros um pouco menos perigosos, e os apresentavam como se fosse ciência! Como seres humanos, estamos permitindo que haja mortes por câncer totalmente desnecessárias, e deveríamos parar com isso. Se não solucionarmos esses problemas sociais, a ciência não poderá mudar as coisas.

Arte de CHICO Caruso

Charge (Foto: Chico Caruso)

Falamos com várias avós sobre como era sua vida sexual, por SABINA URRACA


Se você está aqui é porque sua avó transava com seu avô. Como eles faziam? Elas nos contam
Meryl Velasco e amigas

Ajudei minha avó Juana a tomar um banho. Para ela, tudo que havia entre as pernas, na frente e atrás, se chamava bunda. Virei-me, dando-lhe intimidade para que se lavasse. Ela então disse, com aquela franqueza cômica com a qual tratava os temas sexuais: "De tanto ter filhos, não tenho buracos separados. Acho que tenho um só grande por onde sai tudo junto. Eu não sei muito bem o que tem aí, porque nunca vi".

Imaginei minha avó, atrás de mim, com um poço insondável entre as pernas. Esse poço era, na realidade, uma lagoa de repressão e desconhecimento. Minha avó me disse, certa vez, que ela "não se entendia muito bem" com meu avô. Mesmo assim, muitos pontos de sua vida se atêm à norma social da época. O corpo como ente impuro, maldito segundo as palavras da Igreja, o olhar de Cristo e da sociedade sempre presentes, a mão que afasta a do noivo, a virgindade, o sangue e a ameaça de pecado constante, tudo isso confluindo nesse buraco de mistério.
Ernesto García e Juana Rosa Hernández

A primeira desgraça
Assim a mãe de Angelita chamou a primeira menstruação de sua filha. Esta mulher de 90 anos, nascida em Badajoz, recorda o cheiro do quarto quando sua mãe as proibia de tomar banho nesses dias. "Às vezes, se havia baile e estávamos com o sangue, não nos deixava ir." As regras eram o primeiro aviso de perigo. Seu corpo se tornava um templo que você devia proteger. Mas, como é possível ser guardiã de um templo se você não sabe que tipo de perigos pode enfrentar?

Carmen Baladrón, espanhola de Madri, de 70 anos, afirma: "Tudo era muito cru, porque éramos ignorantes, escravas do 'você logo vai saber'". Como tudo o que se relaciona aos processos do corpo, a menstruação era um tema das saias para dentro. Meryl Velasco, de 67 anos, nascida em Donostia, lembra cenas que encheram sua infância de mistério: "Minha tia fez uma bata para minha mãe e esta lhe disse: 'Esta cor tão clara não me convence; pode manchar, você já sabe de quê'. Ao ver que eu estava escutando, cortaram a conversa".
Flertar
Esse verbo carregado de maldade, flertar, foi o que usaram as freiras do colégio para informar o pai de Mari Carmen Grande que sua filha passeava com meninos ao sair do colégio. A Igreja, guardiã da moral na Espanha franquista, se encarregava de ficar de olho em cada um de seus fiéis, apesar de nesse caso se tratar de uma criança de doze anos que ainda não sabia de onde vinham os bebês. No entanto, uma espécie de força invisível fazia as meninas temerem o simples contato. Meryl Velasco lembra que quando criança nunca tinha tido uma conversa com um menino que não fosse de sua família. "Se um menino me pegava pela mão, sentia até enjoo."

Carmen Baladrón expõe a falsa moral da Igreja: "Um padre nos mandou ir a sua casa para pegar os resultados de um exame de religião. Meu pai, quando soube, foi conosco. O padre ficou assustado ao vê-lo. Veja só, o que o padre ia querer para nos mandar ir buscar os exames em sua casa?". A família, sem saber que o caçador estava tão perto, formava uma jaula de proteção e vigilância em torno da pureza da jovem. "Pouco antes de me casar", lembra Meryl, "fui uma noite com meu noivo arrumar o apartamento que tínhamos comprado. Quando voltei para casa, meu pai caiu em cima de mim, e me chamou de puta para cima".

A nonagenária Angelita ri lembrando seu primeiro beijo, que deu em quem foi seu marido, falecido há 30 anos. "Você não vai acreditar, mas foi no dia do casamento, na frente da família. Pensei: que beijo mais difícil".
Teresa Plaza junto a um padre JESÚS MARÍA "CHUMA" PLAZA

Teresa, trinta anos mais jovem que Angelita, viveu uma realidade mais aberta do que a normal. Mudou para Madri saindo de sua Soria natal, e compartilhava um apartamento com amigos. É a única de todas as entrevistadas que lembra de falar com amigos sobre sua vida sexual. Para as demais entrevistadas, de uma forma natural, o muro entre vida íntima e vida social ficava claramente delimitado. Sobretudo em um assunto tão delicado como 'a entrega da flor'.
A flor
Carmen Baladrón ri quando lhe pergunto por sua perda da virgindade: "Meu marido dizia brincando: 'Há quem case por ter transado. E eu me caso para transar, porque esta mulher não me deixou provar nada'". Mari Carmen Grande concorda com ela: "Era preciso morrer virgem e mártir. E minha mãe era muito dura com isso, de escopeta e cachorro, como costumo dizer".
Juana Rosa Hernández e sua mãe

Havia algumas mais informadas que outras, mas, para quase todas as entrevistadas, ao se casarem, o véu que ocultava tanto mistério era tirado. A nonagenária Angelita lembra que, na hora H, com seu marido "eu fechava as pernas com força. Pensava que era impossível que aquilo coubesse em mim. Eu nunca tinha colocado nem o dedinho ali dentro, então você já imagina o que era pensar no membro".

Tanto Meryl como Teresa concordam no choque que tiveram ao ver pela primeira vez um pênis ereto. "Eu nunca tinha visto um pinto duro", reconhece Teresa, "e lembro que não conseguia parar de rir." Meryl fala sem rodeios de sua inocência naquele momento: "Não sabia nem onde tinha que enfiar as coisas, se você me entende. Era tudo muito confuso. Foi também muito bonito. No dia seguinte fomos viajar de lua-de-mel para as ilhas Canárias, na Espanha, e eu não conseguia olhar ninguém na cara, porque me parecia que conseguiam ver nos olhos que tinha transado".
Uma aspirina
Este era, segundo Angelita, um método anticoncepcional: "Uma aspirina bem apertada entre os joelhos. E que não caísse". Cecilia Novella, cubana residente em Valência, nascida no dia em que começou a Segunda Guerra Mundial, chegou à Espanha com 17 anos para estudar medicina. Vinda de um universo mais liberal, observava com curiosidade a repressão espanhola. Nunca se casou e teve uma vida sexual livre, sendo uma das pioneiras do DIU. Lembra-se dessa Espanha obscura, na qual, na aula de Anatomia, o professor anunciou: "Amanhã as meninas não venham para a aula, que vamos dar a lição do aparelho sexual masculino".

Carmen Baladrón reconhece que a contracepção era um pântano de desconhecimento: "Não usávamos nada, até que um amigo nos trouxe da França uns comprimidos que eram colocados na vagina. Era muito incômodo, então dávamos marcha ré. Íamos às cegas".
Meryl Velasco e amigas em La Concha
A gravidez indesejada fora do casamento era um fantasma que pairava sobre os jovens. Teresa Plaza estremece ao lembrar quando acompanhou uma amiga para abortar: "Era um apartamento comum, no meio de Madri, onde uma senhora fazia abortos sem nenhuma condição higiênica". Mari Carmen Grande lembra de uma colega que ficou grávida solteira. "Tinham sido colocada para fora de casa, então a acompanhei para dar à luz. Vi-a absolutamente perdida, enlouquecida com sua situação. Você podia se tornar uma pária social."
Seu prazer é seu
Angelita morre de rir quando lhe digo essa frase feminista. "Antes se fazia amor para fazer filhos ou quando dava vontade no marido. Agora se diz que é muito importante que a mulher esteja contente. Eu não sei se tive o gosto pelo sexo, o que se sente. Acho que uma vez ou outra sim".
Meryl lembra as primeiras sensações daqueles anos: "Havia vezes, antes de você se casar, que beijava e trocava carícias com seu namorado, e você sabia que se continuasse por aí um raio te fulminaria: de um lado, na cabeça por fazer errado, e no baixo ventre porque, se continuasse, era isso o que ia acontecer". E lembra com um sorriso o longo caminho percorrido: "Éramos autodidatas. Até que não nos saímos mal para a pouca ideia que tínhamos". Teresa concorda, mas reforça um dado, fundamental para ela: "Nossa liberdade, quase o tempo todo, consistia em saber mentir, inclusive às vezes para si mesma. Você aprendia a mentir aos dez anos e não parava mais. Era nossa única arma".

Cuando Alemania deportó al patriarca de los Trump, por LUIS DONCEL

El abuelo de Donald Trump, Friedrich Trump.

Donald Trump llegará el próximo 20 de enero a la presidencia de Estados Unidos gracias, en gran medida, a un discurso duro contra la inmigración. El hombre que se ha propuesto “hacer América grande de nuevo” podrá en ese momento recordar a su padre Fred, nacido en suelo estadounidense en 1905, a los pocos meses de que su familia fuera expulsada de Alemania. La anécdota ya era conocida. Pero un investigador ha dado ahora con el documento que certifica el momento en el que la familia Trump tuvo que hacer las maletas, y buscarse la vida en la otra punta del mundo.

Entonces no podían saberlo, pero las autoridades bávaras iban a cambiar la historia del siglo XXI con una carta. “Se hace saber al ciudadano americano Friedrich Trump, ahora residente en Kallstadt, que dispone hasta el 1 de mayo del presente año para abandonar el Estado de Baviera. En caso contrario, debe estar preparado para su expulsión”, decía el documento del 27 de febrero de 1905, publicado por el periódico Bild.
La historia es tan enrevesada como fascinante. Friedrich ya había abandonado Kallstadt en 1885, con solo 16 años. Como tantos alemanes, llegaba a una América inmersa en la fiebre del oro con deseos de hacer fortuna. Pero en lugar de buscar el metal preciado, él se dedicó a abrir locales en los que ofrecía comida, bebida y, según su biógrafa Gwenda Blair, prostitutas. El negocio le fue bien y, ya con dinero en el bolsillo, volvió a su ciudad natal. Allí conocería a su mujer, Elisabeth.
Tras idas y venidas, la familia decidió establecerse definitivamente en Kallstadt, que entonces pertenecía al reino de Baviera, y hoy al Estado de Renania-Palatinado. Pero las trabas administrativas se interpusieron en su camino. “Al emigrar a EE UU en 1885, Trump se había ido sin notificarlo en su país, como estaba obligado, y sin cumplir el servicio militar. Por ese motivo, las autoridades le negaron en 1905 la renacionalización”, asegura Paul, director emérito del Instituto de Historia y Folklore de Palatinado.
El abuelo del presidente electo lo intentó todo para revocar la decisión. Escribió una carta al “muy querido, noble, sabio y justo soberano” príncipe regente Leopoldo en el que le pedía permiso para quedarse. Sin éxito. La familia Trump abandonaría Alemania de forma definitiva el 1 de julio de 1905 rumbo a Nueva York. Allí nacería a los tres meses el padre del que hoy puede ser uno de los hombres más famosos del mundo.
A Kallstadt le cuesta acostumbrarse a la popularidad. Antes de victoria de Trump, muchos vecinos decían esperar que no ganara. Primero, porque el pueblo se llenaría de curiosos. Y segundo, porque, como reconocía su alcalde, sentía una gran simpatía por Trump. “Aquí son mucho más queridos los Heinz que los Trump”, aseguraba a EL PAÍS el pasado junio Simone Wendel, directora del documental Kings of Kallstadt. Porque la familia Heinz, mundialmente famosa por el kétchup, también procede de este pequeño pueblo vinícola. En la popularidad de los Heinz influyen los 40.000 euros que la familia donó para reparar el órgano de la iglesia. 
En el pueblo nadie podía recordar un gesto parecido por parte de Donald Trump. Aunque, eso sí, el futuro presidente aparecía en el documental de Wendel. “Adoro Kallstadt”, aseguraba.

Arte de Antonio LUCENA

Charge (Foto: Antonio Lucena)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Psiu, Moreira, por Ilimar Franco

Comentário airoso--o gato angora ainda vai cair do galho.....Subiu em arvore podre e pensa que cresceu......
Moreira Franco (Foto: Edilson Dantas)
Foi o presidente Temer quem convocou os líderes para prestar solidariedade ao ministro Geddel Vieira Lima. Temer também deu uma chamada em Moreira Franco. Ontem, em Paris, depois de ter insinuado (anteontem) que Geddel era um risco, pediu para virar o disco. 
Contam que ele andou ligando para o Planalto, dizendo que não tinha sido “bem assim”

Arte de AMARILDO

Charge (Foto: Amarildo)

Custo-benefício, por Dora Kramer

O presidente Michel Temer tem perfeita noção de que sofrerá críticas e que poderá ter prejuízo de imagem em decorrência da decisão de manter o secretário e articulador político da Presidência, Geddel Vieira Lima. 
Sabe muito bem da contestação à sua legitimidade e sabe melhor ainda que um governo de baixa popularidade não pode se dar ao luxo de relegar questões éticas a um plano inferior em sua escala de prioridades, nesses tempos em que finalmente tal fator é reconhecido como um valor primordial. 
Tudo isso foi levado em conta no exame do episódio em que o ministro foi acusado por um colega (Marcelo Calero, depois demissionário da pasta da Cultura) de advogar em causa própria ao pedir que o Patrimônio Histórico Nacional não vetasse a construção de um edifício – onde Geddel comprara um apartamento – nas cercanias de uma área tombada em Salvador, até que a Justiça decidisse sobre o embargo da obra. 

De outro lado, o presidente pesou e mediu as consequências da saída do articulador no momento em que o governo não pode contratar crises na base parlamentar. O apoio explícito dos líderes desses partidos, de conhecimento do Planalto desde a segunda­feira, e em especial do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, diz bastante sobre o risco. 
Na contabilidade do Palácio entrou também o fato de Temer ter dito a Marcelo Calero nas duas conversas que tiveram antes do ministro pedir demissão definitiva pelo telefone, que deveria “se entender” com Geddel e tomar uma decisão por critério técnico. Portanto, na visão do presidente, essa recomendação significou um apoio à posição de Calero. 
Temer não considera que o secretário-­geral da Presidência tenha tido uma atitude adequada diante das circunstâncias e da conduta exigida por parte do agente público. Por mais que o grupo recentemente apeado do poder tenha se dedicado – e permitidos que seus aliados, entre os quais o PMDB – com desfaçatez ao exercício da mistura do público com o privado. 

Erros cometidos não justificam nem autorizam a reincidência. De onde o trabalho da Comissão de Ética Pública desta vez terá de forçosamente ser levado em consideração de maneira consistente, diferentemente do que ocorre desde a sua criação no governo Fernando Henrique Cardoso. 
Dilma Rousseff chegou a desautorizar a comissão ignorando a recomendação de demitir o então ministro do Trabalho, Carlos Luppi, envolvido em denúncias sobre convênios fraudulentos. O mesmo já tinha ocorrido no governo de Luiz Inácio da Silva, quando a comissão indicou a necessidade de Carlos Luppi optar entre o ministério e a presidência do PDT. Ele se licenciou do partido depois de muita pressão e ataques aos integrantes do colegiado. 
Por consciência de que o assunto não seria “esquecido” até que os conselheiros retomassem os trabalhos em 14 de dezembro, o próprio Geddel Vieira Lima pediu reconsideração ao conselheiro que havia pedido vista a fim de que o assunto possa ser revolvido o mais rápido possível.
No Palácio, a torcida é para que a decisão seja branda, uma advertência estaria bem para o caso não passar em branco. Difícil será se a conclusão for a de que houve motivo para ser recomendada a demissão. 
O governo não quer “antecipar crises”, mas convenhamos, nessa hipótese ficará numa sinuca: acata a sugestão ou desconsidera a comissão. Divergente. O governo ainda está procurando entender se houve mais motivos para Marcelo Calero pedir demissão. 
Por isso mandou recuperar a fala dele numa reunião do Conselho Nacional de Cultura onde foram propostas duas moções de repúdio à PEC dos gastos. Segundo relatos de um representante da Casa Civil e outro da Secretaria de Comunicação, o então ministro não impôs reparos aos protestos.

Cabral envolve Pezão para ver se escapa da Justiça do Rio, por Ricardo Noblat

Comentário oloroso---é...ta fedendo....defunto velho é assim mesmo.
Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (Foto: Paulo Nicolella)
Nada de pessoal. Pura esperteza de Sérgio Cabral.

No seu primeiro depoimento à Polícia Federal depois de ter sido preso, o ex-governador disse que não recebeu e nada teve a ver com eventuais propinas pagas pelo consórcio de empreiteiras responsável pela reforma do estádio do Maracanã.

Alegou que a reforma foi feita ao longo do primeiro e do segundo mandato do atual governador Luiz Fernando Pezão.

Ao lançar a suspeita sobre o período de governo do seu sucessor, tudo o que Cabral pretende é que isso leve Pezão a ser investigado. Porque se for, o caso sairá da órbita do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro e subirá para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília.

Cabral não tem, mas Pezão tem direito a fórum especial como governador. Só pode ser investigado e processado pelo STJ. Ali, Cabral imagina que tudo correrá mais devagar e melhor para ele.

Foi justamente por isso que o Ministério Público Federal, e também o juiz Sérgio Moro em Curitiba, preferiram deixar Pezão de fora. A hora dele poderá chegar mais adiante, em separado de Cabral.

Circo pegando fogo....Imagens falam mais alto......nas fôlhas

Manifestantes nas ruas de São Paulo, 12/04/2015 (Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo) | Manifestantes nas ruas de São Paulo, 12/04/2015 (Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo)

Ordem no Planalto é para que os ministros se comuniquem mais (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)Ordem no Planalto é para que os ministros se comuniquem mais (Foto: Roberto Stuckert Filho)
A Lava-Jato corroeu a presidência petista de Dilma Rousseff, está perto de chegar em Lula, botou na cadeia José Dirceu e João Vaccari, ex-presidente e ex-tesoureiro do PT. Com o pedido de prisão para José Sarney, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Romero Jucá, o procurador-geral Rodrigo Janot levou a faxina para os salões do PMDB.

Desde 2014, quando a operação começou, a oligarquia nacional cultiva a fantasia de que ela seria paralisada por poderosos interesses. Enganou-se em todos os casos. Ela não chegaria à Odebrecht. Chegou. Não prenderia o doutor Marcelo. Prendeu. Ele não falaria. Falou. O impensável aconteceu e continuará acontecendo porque as forças poderosas tornaram-se impotentes.