segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A curiosa origem do Dia das Bruxas, Halloween--nas fôlhas

Dia das Bruxas é um festival ligado à cultura americana, mas celebrado em diversos países

O Dia das Bruxas é conhecido mundialmente como um feriado celebrado principalmente nos Estados Unidos, onde é chamado de Halloween.

Mas hoje em dia é celebrado em diversos outros países do mundo, inclusive o Brasil, onde hábitos como o de ir de porta em porta atrás de doces, enfeitar as casas com adereços "assustadores" e participar de festas a fantasia vêm se tornando mais comuns.

Mas sua origem pouco tem a ver com o senso comum atual sobre esta festa popular. Entenda a seguir como ela surgiu.
De onde vem o nome?
O Halloween tem suas raízes não na cultura americana, mas no Reino Unido. Seu nome deriva de "All Hallows' Eve".

"Hallow" é um termo antigo para "santo", e "eve" é o mesmo que "véspera". O termo designava, até o século 16, a noite anterior ao Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro.

Mas uma coisa é a etimologia de seu nome, outra completamente diferente é a origem do Halloween moderno.
Como a festa começou?Fogueiras estão presentes há muito tempo em celebrações de Halloween

Desde o século 18, historiadores apontam para um antigo festival pagão ao falar da origem do Halloween: o festival celta de Samhain (termo que significa "fim do verão").

O Samhain durava três dias e começava em 31 de outubro. Segundo acadêmicos, era uma homenagem ao "Rei dos mortos". Estudos recentes destacam que o Samhain tinha entre suas maiores marcas as fogueiras e celebrava a abundância de comida após a época de colheita.

O problema com esta teoria é que ela se baseia em poucas evidências além da época do ano em que os festivais eram realizados.

A comemoração, a linguagem e o significado do festival de outubro mudavam conforme a região. Os galeses celebravam, por exemplo, o "Calan Gaeaf". Há pontos em comum entre este festival realizado no País de Gales e a celebração do Samhain, predominantemente irlandesa e escocesa, mas há muitas diferenças também.

Em meados do século 8, o papa Gregório 3º mudou a data do Dia de Todos os Santos de 13 de maio - a data do festival romano dos mortos - para 1º de novembro, a data do Samhain.

Não se tem certeza se Gregório 3º ou seu sucessor, Gregório 4º, tornaram a celebração do Dia de Todos os Santos obrigatória na tentativa de "cristianizar" o Samhain.

Mas, quaisquer que fossem seus motivos, a nova data para este dia fez com que a celebração cristã dos santos e de Samhain fossem unidos. Assim, tradições pagãs e cristãs acabaram se misturando.
Quando surgiu o Dia das Bruxas?
Um dos hábitos mais comuns do Halloween é fantasiar-se

O Dia das Bruxas que conhecemos hoje tomou forma entre 1500 e 1800.

Fogueiras tornaram-se especialmente populares a partir no Halloween. Elas eram usadas na queima do joio (que celebrava o fim da colheita no Samhain), como símbolo do rumo a ser seguido pelas almas cristãs no purgatório ou para repelir bruxaria e a peste negra.

Outro costume de Halloween era o de prever o futuro - previa-se a data da morte de uma pessoa ou o nome do futuro marido ou mulher.

Em seu poema Halloween, escrito em 1786, o escocês Robert Burns descreve formas com as quais uma pessoa jovem podia descobrir quem seria seu grande amor.

Muitos destes rituais de adivinhação envolviam a agricultura. Por exemplo, uma pessoa puxava uma couve ou um repolho do solo por acreditar que seu formato e sabor forneciam pistas cruciais sobre a profissão e a personalidade do futuro cônjuge.

Outros incluíam pescar com a boca maçãs marcadas com as iniciais de diversos candidatos e a leitura de cascas de noz ou olhar um espelho e pedir ao diabo para revelar a face da pessoa amada.

Comer era um componente importante do Halloween, assim como de muitos outros festivais. Um dos hábitos mais característicos envolvia crianças, que iam de casa em casa cantando rimas ou dizendo orações para as almas dos mortos. Em troca, eles recebiam bolos de boa sorte que representavam o espírito de uma pessoa que havia sido liberada do purgatório.

Igrejas de paróquias costumavam tocar seus sinos, às vezes por toda a noite. A prática era tão incômoda que o rei Henrique 3º e a rainha Elizabeth tentaram bani-la, mas não conseguiram. Este ritual prosseguiu, apesar das multas regularmente aplicadas a quem fizesse isso.
Como o festival chegou à América?Nos EUA, abóboras entalhadas tornaram-se símbolo desta festa

Em 1845, durante o período conhecido na Irlanda como a "Grande Fome", 1 milhão de pessoas foram forçadas a imigrar para os Estados Unidos, levando junto sua história e tradições.

Não é coincidência que as primeiras referências ao Halloween apareceram na América pouco depois disso. Em 1870, por exemplo, uma revista feminina americana publicou uma reportagem em que o descrevia como feriado "inglês".

A princípio, as tradições do Dia das Bruxas nos Estados Unidos uniam brincadeiras comuns no Reino Unido rural com rituais de colheita americanos. As maçãs usadas para prever o futuro pelos britânicos viraram cidra, servida junto com rosquinhas, ou "doughnuts" em inglês.

O milho era uma cultura importante da agricultura americana - e acabou entrando com tudo na simbologia característica do Halloween americano. Tanto que, no início do século 20, espantalhos - típicos de colheitas de milho - eram muito usados em decorações do Dia das Bruxas.

Foi na América que a abóbora passou a ser sinônimo de Halloween. No Reino Unido, o legume mais "entalhado" ou esculpido era o turnip, um tipo de nabo.

Uma lenda sobre um ferreiro chamado Jack que conseguiu ser mais esperto que o diabo e vagava como um morto-vivo deu origem às luminárias feitas com abóboras que se tornaram uma marca do Halloween americano, marcado pelas cores laranja e preta.

Foi nos Estados Unidos que surgiu a tradição moderna de "doces ou travessuras". Há indícios disso em brincadeiras medievais que usavam repolhos, mas pregar peças tornou-se um hábito nesta época do ano entre os americanos a partir dos anos 1920.

As brincadeiras podiam acabar ficando violentas, como ocorreu durante a Grande Depressão, e se popularizaram de vez após a Segunda Guerra Mundial, quando o racionamento de alimentos acabou e doces podiam ser comprados facilmente.

Mas a tradição mais popular do Halloween, de usar fantasias e pregar sustos, não tem qualquer relação com doces.

Ele veio após a transmissão pelo rádio de Guerra do Mundos, do escritor inglês H.G. Wells, gerou uma grande confusão quando foi ao ar, em 30 de outubro de 1938.

Ao concluí-la, o ator e diretor americano Orson Wells deixou de lado seu personagem para dizer aos ouvintes que tudo não passava de uma pegadinha de Halloween e comparou seu papel ao ato de se vestir com um lençol para imitar um fantasma e dar um susto nas pessoas.
E quanto ao Halloween moderno?Festival se popularizou e é comemorado hoje até mesmo na China

Hoje, o Halloween é o maior feriado não cristão dos Estados Unidos. Em 2010, superou tanto o Dia dos Namorados e a Páscoa como a data em que mais se vende chocolates. Ao longo dos anos, foi "exportado" para outros países, entre eles o Brasil.

Por aqui, desde 2003, também se celebra neste mesma data o Dia do Saci, fruto de um projeto de lei que busca resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao Dia das Bruxas.

Em sua "era moderna", o Halloween continuou a criar sua própria mitologia. Em 1964, uma dona de casa de Nova York chamada Helen Pfeil decidiu distribuir palha de aço, biscoito para cachorro e inseticida contra formigas para crianças que ela considerava velhas demais para brincar de "doces ou travessuras". Logo, espalharam-se lendas urbanas de maçãs recheadas com lâminas de barbear e doces embebidos em arsênico ou drogas alucinógenas.

Atualmente, o festival tem diferentes finalidades: celebra os mortos ou a época de colheita e marca o fim do verão e o início do outono no hemisfério norte. Ao mesmo tempo, vem ganhando novas formas e dado a oportunidade para que adultos brinquem com seus medos e fantasias de uma forma socialmente aceitável.

Ele permite subverter normais sociais como evitar contato com estranhos ou explorar o lado negro do comportamento humano. Une religião, natureza, morte e romance. Talvez seja este o motivo de sua grande popularidade.

Arte de A. LUCENA

Charge (Foto: Antonio Lucena)

Como se proteger da epidemia de sífilis no Brasil?, por Marina Wentzel (Basiléia-Suíça)


Entre junho de 2010 e 2016 foram notificados quase 230 mil casos novos de sífilis no Brasil.

O Ministério da Saúde admitiu nesta semana que o Brasil enfrenta uma epidemia de sífilis. Entre junho de 2010 e 2016 foram notificados quase 230 mil casos novos da doença, de acordo com o último boletim epidemiológico do governo.

Três em cada cinco ocorrências (62,1%) estavam no Sudeste e a transmissão de gestantes para bebês é atualmente o principal problema.

A situação foi qualificada como "epidemia" somente agora, mas vem se desenvolvendo há mais tempo.

Em 2015, por exemplo, no país todo, foram notificados 65,878 casos. A maioria desses ocorreu na região Sudeste (56,2%) e afetou pessoas na faixa etária dos 20 aos 39 anos (55%), que se auto-declaram da raça branca (40,1%).

Não há dados majoritários sobre o nível de escolaridade, pois em 36,8% dos casos reportados essa informação não foi preenchida.

Em 2010, a incidência da doença em homens era maior - cerca de 1,8 caso para cada caso entre mulheres. Essa média caiu para 1,5 homem/mulher em 2015. Ou seja, as mulheres são o grupo cuja vulnerabilidade vem aumentando.
Os casos de sífilis congênita, de transmissão da mãe grávida para o bebê, também cresceram expressivamente.

No ano passado, a cada mil bebês nascidos, 6,5 eram portadores de sífilis. Somente cinco anos antes, em 2010, esse número era de 2,4 bebês em cada mil nascimentos. Ou seja, a incidência da sífilis congênita praticamente triplicou em meia década.

A Organização Mundial de Saúde, OMS, estima que cerca de 900 mil grávidas sejam infectadas com a sífilis a cada ano, resultando em 350 mil nascimentos com problemas, segundo dados de 2012.

A tendência de aumento de casos também pode ser observadas em outros países. Na Inglaterra, por exemplo, os novos casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis caíram 3% entre 2014 e 2015, mas o total de infecções de sífilis adquirida nesse contexto aumentou 20%.

Igualmente, nos Estados Unidos, os casos aumentaram 19% no mesmo período - entre 2014 e 2015 -, de acordo com o CDC, Centro para Prevenção e Controle de Doenças.

A BBC Brasil conversou por e-mail com a médica colaboradora da Organização Mundial de Saúde (OMS), Nemora Barcellos, para entender a doença e a epidemia atual. Leia abaixo os principais pontos da conversa:

BBC Brasil - O que é sífilis?

Nemora Barcellos - Sífilis é uma doença infecciosa sistêmica, crônica. Ela se manifesta em diferentes estágios. Sem tratamento, apresenta evolução em fases: inicialmente com feridas na pele, pode evoluir para complicações que levam ao óbito, podendo afetar o sistema cárdio-vascular e neurológico. A causadora da doença é a Treponema pallidum, uma bactéria espiralada altamente patogênica. A sífilis é uma infecção muito antiga e recebeu inúmeras denominações ao longo dos séculos.

BBC Brasil - Quais são as formas de transmissão?

Dra Barcellos - A principal forma de transmissão é o contato sexual. A gestante também, por via hematogênica (pelo sangue), transmite para o feto a bactéria em qualquer fase da gravidez ou em qualquer estágio da doença. A transmissão via transfusão de sangue pode ocorrer, mas atualmente é muito rara, em função do controle do sangue doado.

BBC Brasil - Quais as formas de prevenção?

Dra Barcellos - A principal forma de prevenção é o uso de preservativos no ato sexual. O tratamento correto e completo também é considerado uma forma eficaz de controle, pois interrompe a cadeia de transmissão. O tratamento de ambos os parceiros é muito importante na prevenção para impedir que ocorra a re-infecção, garantindo que o ciclo seja interrompido.

Em relação à sífilis na gestante e à sífilis congênita, é importante o diagnóstico precoce. É necessário testar todas as mulheres que manifestarem o desejo de engravidar. Um pré-natal qualificado pressupõe como rotina exames para o diagnóstico da sífilis no primeiro trimestre, de preferência já na primeira consulta.
Uma epidemia de sífilis vem sendo reconhecida no Brasil nos últimos anos.

BBC Brasil - As pessoas devem estar atentas a quais sintomas para suspeitar da doença? E como devem reagir nesse caso?

Dra Barcellos - O primeiro sintoma, o cancro duro, no homem é mais visível. O problema maior é seu desaparecimento espontâneo dando a impressão de que a cura ocorreu sem tratamento. Nas mulheres, por questões anatômicas, não é raro o cancro duro inicial passar desapercebido. O histórico de prática sexual sem uso de preservativos deve ser investigado com seriedade em consultas, seja na atenção básica, seja com especialistas da área de ginecologia ou urologia. A existência de testes rápidos para sífilis facilita muito a investigação.

BBC Brasil - Quais as principais causas da atual epidemia de sífilis?

Dra Barcellos - O esgotamento do impacto das campanhas de uso de preservativos e da sua ampla disponibilização parece ser um dos fatores do recrudescimento dos casos de sífilis. Por outro lado, a implicação do desabastecimento de penicilina afeta a evolução individual da doença e a possibilidade de cura. A ideia é que muitos fatores estão implicados no presente crescimento dos casos. Corroborando essa ideia vale ressaltar que o crescimento da epidemia se iniciou antes de se tornar visível e importante a falta do medicamento.

BBC Brasil - Por que a sífilis congênita é o maior problema agora?

Dra Barcellos - A sífilis congênita, passada de mãe para filho, dependendo da intensidade da carga bacteriana, pode resultar em aborto, natimorto ou óbito neonatal. A doença também pode ficar disfarçada e causar o nascimento prematuro de bebês com baixo peso, com outros sintomas como coriza mista de sangue e ranho, sinais e sintomas ósseos, inchaço do fígado e do baço, pneumonia, edemas, fissuras nos orifícios, entre outros males, que podem resultar na morte da criança. Mas o tratamento, quando adequado e precoce, oferece uma excelente resposta.

Os casos de sífilis congênita representam um indicador perverso das lacunas ainda existentes no sistema de saúde vigente, incapaz de identificar mulheres mais vulneráveis e oferecer-lhes acesso e qualidade no cuidado pré-natal.Cancros são um dos sintomas da doenças, mas seu desaparecimento não indica cura.

BBC Brasil - Como a doença se desenvolve?

Dra Barcellos - Na população em geral, a sífilis apresenta diferentes formas de manifestação, de acordo com o período de evolução da doença:

1) Sífilis Adquirida Recente:
Sífilis primária - apresenta lesão genital inicial denominada cancro duro, uma espécie de ferida rígida, com inflamação periférica, que costuma desaparecer espontaneamente em cerca de 4 semanas. O período de incubação médio é de 21 dias;

Sífilis secundária - manifestações da disseminação da bactéria no organismo, o que ocorre após 4 a 8 semanas do desaparecimento da primeira ferida. Aparecem então lesões de cor rosada eruptiva, parecidas com o sarampo, mas que não coçam. Essa é a manifestação mais precoce da sífilis secundária. Outras lesões podem surgir posteriormente, como manchas e feridas nas palmas das mãos e dos pés, na boca, inchaço dos nódulos linfáticos e glândulas, queda de cabelo em formato de "clareira" e condilomas planos; que são erupções na região genital-anal.

A Sífilis Latente Precoce é silenciosa, não apresenta manifestações clínicas e só a sorologia pode dar o diagnóstico.

2) Sífilis Adquirida Tardia:
A Sífilis Adquirida Tardia inclui a Sífilis Latente Tardia e ocorre se os portadores da infecção não foram foram adequadamente tratados ou diagnosticados. O período que a doença permanece no organismo sem se manifestar é variável.

As formas de apresentação desta fase da doença, também conhecida como Sífilis Terciária, ocorrem em períodos que vão de 2 a 40 anos e são:

Sífilis tardia cutânea - lesões na pele em forma de gomos e nódulos altamente destrutivas; Sífilis óssea; Sífilis cardiovascular - aortite sifilítica, principalmente, determinando insuficiência cardíaca; Sífilis do sistema nervoso.

BBC Brasil - Como é o tratamento?

Dra Barcellos - A penicilina G é a droga preferencial para o tratamento da sífilis em todos os estágios da doença. O tipo do antibiótico (benzatina ou cristalina), a via (se por soro ou injeção) e a dosagem dependem das manifestações clínicas e da presença ou não de co-infecção pelo HIV, vírus da Aids. A sífilis terciária necessita um período maior de tratamento. A efetividade da penicilina no tratamento da sífilis está muito bem estabelecida e baseada na experiência clínica de muitas décadas, em estudos observacionais e em ensaios clínicos.

Os casos de sífilis congênita devem ser tratados com penicilina G cristalina e o acompanhamento da criança também está condicionado à adequação do tratamento da mãe. Portadores de alergia à penicilina podem se beneficiar de dessensibilização controlada.

BBC Brasil - A falta de penicilina foi um fator preponderante?

Dra Barcellos - O desabastecimento de penicilina, embora mais sentido no Brasil, em função do aumento do número de casos e da maior necessidade de medicamentos, não é uma exclusividade brasileira. Ele foi também sentido nos Estados Unidos e Canadá. A gravidade é que o quadro de desabastecimento não parece representar um problema pontual ou temporário.

A penicilina benzatina é um produto barato, para populações na maioria das vezes marginalizadas e que provavelmente confere um lucro baixo aos fabricantes. O desinteresse das empresas farmacêuticas na produção dessa substância se alinha ao desinteresse na produção de pesquisa e de novas drogas para outras doenças, também características de países em desenvolvimento, conhecidas como doenças negligenciadas, na sua maioria infecciosas.

BBC Brasil - Como é a situação da indústria farmacêutica no Brasil?

Dra Barcellos - No Brasil, a indústria farmacêutica não realiza a síntese das substâncias, ela adquire o princípio ativo e faz o produto final, dependendo, para tanto, de fornecedores internacionais como a Índia e a China. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Eurofarma, e outras três empresas possuem o registro para produzir a penicilina benzatina.

Aparentemente, o que ocorreu foi uma redução de fornecedores mundiais da penicilina nos últimos anos e a necessidade de buscar outras opções. O Ministério da Saúde tem se manifestado explicando que o problema é resultado da escassez mundial no suprimento de matéria-prima acrescido de problemas pontuais da qualidade da penicilina produzida.

BBC Brasil - Você acredita que poderia ter ocorrido uma asfixia intencional da oferta de penicilina por parte das farmacêuticas para elevar o preço?

Dra Barcellos - Creio que os motivos são múltiplos e esse seria um deles a compor com as questões que já mencionei.

Bandidos bancados por nós? por Antônio Risério--Escritor

Congresso Nacional com a Praça dos Três Poderes (Foto: Bento Viana)
O chamado Congresso Nacional se converteu num tremendo pau de galinheiro. E custa caríssimo aos cofres públicos.

Aproveito, aliás, para dar uma sugestão ao governo: se é para economizar, por que continuar mantendo o Senado e a Câmara? Basta um deles. Um pode muito bem fazer o que o outro faz – e, além disso, a roubalheira seria reduzida.

Bastava ter o Senado, que é numericamente menor e, portanto, deve ter um número menor de ladrões.

O problema é que, em vez de economizar, essa turma quer enfiar mais grana em suas contas. Nossos políticos profissionais são insaciáveis. Não foi por acaso que elegeram o meliante Cunha presidente deles.

Agora mesmo circula na Câmara projeto de um tal de Marcus Pestana, do PSDB de Minas, destinado a encher a burra dos partidos políticos. Quem pagaria? Nós, os eternos otários.

A ideia é passar anualmente três bilhões aos partidos (ou clubes de gatunos): 2% da arrecadação do imposto de renda de pessoa física.

Isto é: querem nos obrigar, por lei, a financiar um bando de vigaristas, que já vivem de meter a mão no bolso dos outros. A bancar uma corja de canalhas para que eles continuem agindo contra os reais interesses e as reais necessidades da população.

O nome do projeto é uma pérola de cinismo: Fundo de Financiamento da Democracia. Mais uma vez, é a retórica cafajeste dos políticos profissionais para tentar engabelar a sociedade brasileira.

Anteontem, aliás, também Renan Calheiros, o Réu, abriu a boca para falar de democracia. Não dá.

Renan e seus pestanas deveriam ser proibidos de pronunciar a palavra “democracia”. Toda vez que o fazem, desmoralizam a expressão. Mas, para se proibirem de falar de democracia, eles precisariam de uma ética da linguagem. E como a teriam, se não fazem questão de ética para nada?

Para ser levado a sério, o Congresso terá de acabar com o escândalo da sociedade jurídica de castas (vale dizer: dar um fim ao foro privilegiado) e com a aposentadoria especialíssima dos políticos, além de não anistiar o crime do caixa 2. No mínimo.

Outro dia, por sinal, o mesmo Renan elogiou o caráter de Cármen Lúcia. Ou seja: ele sabe o que é caráter. Se não tem, é porque não quer.

Na verdade, se o Congresso tivesse caráter, as coisas estariam andando de outro modo no Brasil.

Mas também o STF tem de apressar o passo. Mandar para a cadeia, com os bens confiscados, essa legião de larápios que suja o nome do país.

Até lá, os bandidos que financiem suas bandidagens. Não queiram nos obrigar a fazer isso.

Arte de AMARILDO

Charge (Foto: Amarildo)

Jaguar jantava em Roma quando houve o último terremoto,por ANCELMO GOIS

4xJAGUAR
Jaguar, 84 anos, estava jantando semana passada em Roma, quando ocorreu este último terremoto. 

Ao ouvir o comentário de sua mulher, Célia, de que a mesa estava balançando, o nosso querido cartunista não perdeu o rebolado: 
— Bem que lhe avisei para não tomar vinho depois de três doses de Dry Martini.

domingo, 30 de outubro de 2016

Cartas de Buenos Aires: Dando adeus ao Heraldo, por Gabriela G. Antunes

“Se não der para se unir ao coro ‘don’t cry for me, Argentina!’, pelo menos se junte ao lamento pelo jornalismo”
O último dia do Heraldo (Foto: Gabriela G. Antunes)
Quando os generais da ditadura argentina massacravam a liberdade de imprensa, inclusive amordaçando jornalistas, coube ao Buenos Aires Herald dar um passo à frente e denunciar as atrocidades cometidas pelo regime contra os direitos humanos. Tanto foi assim que o legendário jornalista inglês Robert Cox, na época escrevendo para o Buenos Aires Herald, teve que migrar da Argentina, por ser uma das primeiras vozes ativas contra os crimes cometidos no país.

O Buenos Aires Herald sobreviveu 140 anos como o único jornal diário em inglês da América Latina. Isto é, até essa semana.

Eu havia chegado a Buenos Aires há pouco menos de um ano, quando passei a trabalhar no Buenos Aires Herald. Fui, como se costuma dizer no jargão jornalístico, “foca”, nome reservado àqueles que estão iniciando a carreira. Embora já levasse alguns anos de profissão, como não tinha nome conhecido na cidade, tive que calçar minhas “sandálias da humildade” para recomeçar em outro país. E foi, realmente, uma das melhores escolas que pude ter como jornalista. Graças ao Heraldo, apelido carinhoso que nós repórteres dávamos, conheci o país como poucos colegas de profissão têm a honra de conhecer: sob a ótica dos locais, da miudeza aos furos, olhando de dentro.

Nessa época, por volta de 2011, já sabíamos das dificuldades do jornal pois vivíamos na pele o atraso de salários, o parcelamento do décimo terceiro, as “más influências” do jogo político que ameaçava a imparcialidade do jornal. 
Desde a época do Presidente Carlos Menem, sofria com as perversas decisões de sua direção, que se associava a esquemas políticos de pouca credibilidade.

Ainda que todos soubéssemos que era a crônica de um fim anunciado, nada nos preparou para a “morte do Heraldo”.

Ao testemunhar a demissão de 14 colegas, não pudemos deixar de sentir a sensação do fim de uma era, tanto para nós, mesmo não trabalhando mais no jornal, quanto para o jornalismo latino.

“Nosso” jornal passa a ser um semanário, e não se sabe muito bem quanto tempo resistirá assim. Mas o que sabemos é que a América Latina perde. Circunscrita em nossas próprias línguas e à mercê de agências internacionais, deixamos de contar com nossas vozes para que forasteiros escolham que versão da realidade cumpre melhor seus interesses.

Na última quarta-feira, quando foi publicado o derradeiro editorial diário intitulado “O fim de um jornal”, nós, ex-colegas do Heraldo, nos juntamos em uma espécie de velório, e compactuamos com o sentimento expresso pelo jornal inglês The Guardian, que solidário aos colegas, pôs em palavras o que nós sentimos: “Se não der para se unir ao coro ‘don’t cry for me, Argentina!’, pelo menos se junte ao lamento pelo jornalismo”.

Arte de CHICO Caruso

Charge (Foto: Chico Caruso)

EM PORTO ALEGRE, ANOS 60, por PERCIVAL PUGGINA

Porto Alegre-RS-BR
Não é para me exibir, mas eu vivi, amei e curti a Porto Alegre dos anos 60. E isso me dá uma boa perspectiva para perceber a involução dos padrões de segurança, conduta social e qualidade de vida no Brasil. O que vou contar fala daqui, mas pode se referir a qualquer das nossas grandes cidades.

Em 1964, minha família morava na avenida dos jacarandás floridos, a José Bonifácio, recanto privilegiado da cidade, que, em toda sua extensão, confronta com o belo Parque Farroupilha. Era, então, uma rua tranquila, cujos moradores dispunham do maior jardim da cidade, em usufruto, na soleira da porta. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS, onde ingressei naquele ano, situa-se no lado oposto do parque, que tem forma triangular. Nós morávamos na base e a faculdade ficava pouco além do vértice superior. Pelo centro do parque, naquela direção, abre-se um eixo monumental, cercado de densa vegetação e árvores de grande porte. Ou seja, eu tinha à minha disposição, para ir e retornar da faculdade, iniciando a poucos passos do edifício onde morávamos, essa paisagem privilegiada para a travessia de uns 700 metros.

As aulas do curso de arquitetura se desenvolviam em dois turnos cheios, diariamente, pela manhã e à noite. Durante a tarde, eu trabalhava. Portanto, o caminho que acabei de descrever foi percorrido por mim durante cinco anos, quatro vezes por dia, inclusive no turno da noite, que se encerrava por volta das 23 horas. Aos sábados, como frequentador das reuniões dançantes da faculdade e dos bailes da Reitoria - que se situava exatamente na ponta do triângulo - o retorno à casa e ao leito ficava lá pelo meio da madrugada. Eu andava por esse deserto caminho, diariamente, a pé e só!

Não estou narrando um fato excepcional, um caso raro de sobrevivência na selva urbana, nem se intua dele qualquer proteção especial que credencie meu anjo da guarda a uma medalha de honra ao mérito (ainda que ele as mereça, e muitas, por outros motivos). Tratava-se de algo absolutamente normal, seguro. Tão seguro, leitor amigo, que em momento algum, ao longo desses cinco anos, suscitou a mais tênue preocupação, seja em mim, seja em dona Eloah, a mais zelosa e preocupada das mães desta província.

O que aconteceu com nosso país em meio século foi um desastre demográfico, social, econômico, político e moral. Engana-se quem imagina que seja assim em toda parte. Não, não é. Tenho periódicos reencontros com essa segurança em outros países, quando em férias. Neles não renovo mais a pergunta que algumas vezes fiz, indagando aos "nativos" se era seguro passear em determinado parque ao fim da tarde, ou ir a pé até tal ou qual restaurante à noite. O espanto que a indagação causa me constrange profundamente. Tanto quanto me entristece saber que nos rendemos de modo incondicional aos males que nos afetam. E o fizemos em nome de uma tolerância sem virtude, de uma liberdade sem rumo e de um progresso falido.
Percival Puggina, membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor

O PT no divã, por Maurício Moraes--CartaCapital

A crise do partido não é só conjuntural, é de ideias. Está na hora das lideranças e da militância decidirem o que querem ser
                                   pPrtido busca novos rumos
O resultado do primeiro turno das eleições municipais foi o golpe derradeiro de 2016 na militância do PT. Há dois anos, petistas seguem resilientes em mares bravios, com impeachment, Petrobras, PF e tudo o que o noticiário apresenta, com muitas convicções, mas nem sempre com muitas provas.
A artilharia é diária e vem de todo lado, à direita e à esquerda. A perda de prefeituras importantes, em especial a derrota acachapante do partido em São Paulo, foi o anúncio que alguns tentavam adiar: chegou a hora de rediscutir e relançar o PT. 
Assim que fecharem as urnas do segundo turno e o mapa político do Brasil pós-impeachment estiver definido, será chegada a hora fatal de o PT deitar no divã.
Os espasmos na base já começaram. Alguns setores pedem a renúncia das direções nacional e estaduais, um novo congresso e o fim do PED, o processo eleitoral interno do PT, em uma espécie de reforma política do PT. As propostas encontram resistência em outros campos, sobretudo em setores majoritários que compõem o atual establishment petista. 
Não se trata necessariamente de se opor à dirigência de Rui Falcão ou à corrente dominante, a Construindo um Novo Brasil (CNB). A questão vai além: é geracional. Para novos tempos de PT é necessária uma direção com novas ideias, práticas e soluções para tempos adversos. Uma direção que consiga fazer a autocrítica e avaliar os erros do partido.
É preciso conversar, francamente, sobre práticas da velha política adotadas pelo PT uma vez no governo. Falar, sim, sobre corrupção. E quando se fala em geracional, é preciso lembrar que hoje boa parte da juventude petista também se tornou velha nas ideias, respaldando sem questionar práticas de nossos caciques vermelhos. 
É preciso, portanto, uma nova geração de dirigentes que insira o PT em debates contemporâneos, como o de direitos humanos, nova ordem econômica, sustentabilidade e desenvolvimento, segurança internacional, novos formatos de organização política e política de drogas, para enfrentar os tempos áridos que se iniciam. É preciso se reconectar com as periferias, buscar a paridade de gênero.
Desde o início da grande crise do PT, Lula tratou de liderar o grupo, historicamente diverso. A disputa interna no PT continuou ferrenha. Só que foram-se os tempos em que o objeto de disputas eram teses formuladas pelas diversas correntes petistas.
Correntes mais à esquerda até buscaram emplacar caminhos alternativos, mas no geral boa parte do embate se deu por espaços e cargos irrelevantes, puxadas de tapete gratuitas, em uma briga que mais se assemelha a eleição de diretório acadêmico do que ao que se espera do maior partido de esquerda das Américas.
O avanço da Lava Jato sobre Lula deve não só retirar o ex-presidente da disputa eleitoral em 2018. Os efeitos serão mais amplos. É dado como certo que as “sempre fortes convicções da Lava Jato” devem culminar na prisão do ex-presidente ou na impossibilidade de que ele dispute as eleições.
Com Lula fora do jogo, o PT segue em mares bravios, mas com seu principal capitão mais ocupado em fazer sua defesa do que em apresentar a renovação do projeto político do PT, embora haja dúvidas se mesmo o ex-presidente teria a capacidade de atualizar a agenda petista como o esperado. Em suma, a crise do PT não é só conjuntural, é uma crise de ideias.
O PT precisa decidir o que quer ser. Continuará apostando que será o grande protagonista da esquerda, reeditando com sucesso seu atual modelo? Vai se dar conta de que diminuiu e formará uma frente de centro-esquerda com outros partidos, reconhecendo o êxito de legendas menores como o PSOL na condução de tradicionais bandeiras petistas?
Ou vai se dar por satisfeito em ser um PSB na política, um partido que um dia já foi esquerda e hoje é só mais uma agremiação oportunista na colcha de retalhos da política brasileira?
Se quiser se manter grande na política, a missão do PT é, mais uma vez, captar o zeitgeist, o “espírito do tempo”, na expressão do filósofo alemão Geord Hegel, o espírito dos anseios da sociedade em determinado momento histórico. No fim dos anos 1970, Lula e os sindicalistas do ABC captaram o zeitgeist da época, criando um partido de trabalhadores em meio à decadência do regime militar, a fim de ganhar protagonismo na redemocratização. Voltou a perceber o espírito do tempo nos anos 1990, ao reajustar sua perspectiva e trilhar o caminho rumo à presidência.
O PT de hoje, no entanto, é um partido deslocado de seu tempo. Deslocou-se por estar no governo e se deixar burocratizar. Deslocou-se porque não renovou seus quadros. Tem uma base aflita, militante, que sonha com mudanças estruturais.
Uma base de esquerda que nunca recebeu mensalinhos e que critica o setor financeiro enquanto vê dirigentes que um dia foram sindicalistas se tornarem amigos de banqueiros e não titubear em convidá-los para festas luxuosas com direito a foto na coluna social. O PT é hoje um partido que tem uma dirigência desconectada de sua base social. Isso ajuda a explicar o resultado de 2016. 
E na base, por sua vez, o sentimento muitas vezes é de desânimo e de alienação. Petistas ou se retiram do debate, escondidos em suas bandeiras, não acreditando no estado de coisas. Ou vivem em uma bolha, fazendo altos debates retóricos, brigando por detalhes, reproduzindo o velho sectarismo alienante da esquerda e sua arrogância característica, enquanto a direita empurra sua agenda de desmonte dos direitos sociais como a PEC 241, que vai congelar os investimentos em saúde e educação por duas décadas.
A autoanálise do PT não será rápida e será dolorida. Mas talvez seja a última chance de o PT recuperar e manter sua capacidade de influir na agenda brasileira, não com conchavos de gabinetes, mas com um debate legítimo que surja das ruas e represente os anseios dos trabalhadores e da classe média.
Para tanto, é preciso reconhecer o lugar inglório que a conjuntura reservou ao PT, ser humilde no debate, reconhecer erros e começar a construir a nova fase do PT. E a velha guarda vai ter de entender que, se quiser manter o projeto petista, terá de abrir espaço para uma nova geração que capte o espírito do tempo, o tal do zeitgeist. Aguardamos com ansiedade.

A guerra dos juizecos, chefetes e senadorecos, por RUTH DE AQUINO--Jornalista

Renan pode morrer pela boca. E pela arrogância. Fala demais, se altera demais, seu riso é falso demais
Antônio Cruz (Foto: Agência Brasil)

A disputa entre o Legislativo e o Judiciário descambou para uma linguagem vulgar, quase chula, graças a um presidente do Senado que tem nas costas 11 inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Onze! É dose.
Nove deles relacionados a corrupção na Petrobras, investigada pela Lava Jato. Renan Calheiros pode ter herdado de José Sarney a capacidade de ressuscitar. Mas não herdou a serenidade e a capacidade de aglutinar. O alagoano é muito mais destemperado que seu padrinho maranhense. Pragueja. Assine Época g1 ge gshow famosos vídeos ENTRE O alagoano é muito mais destemperado que seu padrinho maranhense. Pragueja. Se pensa que pode varrer malas, documentos e malfeitos, dele e de seus colegas, para baixo do tapete, é bom repensar, porque a batalha verbal pode lhe valer a derrota na guerra.
Ex-amante da morena mineira com quem teve uma filha e a quem pagava pensão com suposta ajuda de uma empreiteira, Renan pode morrer pela boca. E pela incontinência e arrogância. Fala demais, se altera demais, manobra demais. Seu riso com os dentinhos de fora é falso demais. Tudo demais. Não se iludam com a apregoada paz que juntou na sexta-feira Michel Temer, Cármen Lúcia e Renan Calheiros numa sala para discutir a violência no Brasil.
Não passa de trégua de primeira instância, provisório cessar-fogo. Não existem pontos em comum entre o presidente do Senado e a presidente do Supremo Tribunal Federal. Fingem um convívio pacífico em nome da República. É questão de tempo para isso estourar. A disputa não começou agora. O juiz Sergio Moro já tinha dito que o Congresso “deve mostrar em que lado se encontra”. Moro defende o projeto de dez medidas anticorrupção propostas pelo Ministério Público e assinadas por mais de 2 milhões de eleitores. Renan pressiona o Senado a aprovar projeto para coibir “abusos de autoridade”. De que lado Renan está? O projeto estava engavetado no Senado havia mais de cinco anos. Quem é o relator do projeto? O senador Romero Jucá. O procurador geral da República, Rodrigo Janot, pediu a prisão de Jucá.
Quem é o autor do projeto, datado de 2009? O atual ministro da Defesa de Michel Temer, Raul Jungmann.
Nesse cenário de House of Cards, a PF deslancha a Operação Métis – deusa grega da astúcia, prudência e virtudes – e prende quatro policiais legislativos que, autorizados por Renan, fizeram varredura eletrônica em casas de senadores como Fernando Collor e Gleisi Hoffmann e do ex-presidente Sarney.
Uma das varreduras foi no escritório do ex-genro do ex-senador Lobão Filho, no Maranhão. Usou-se verba pública para buscar grampos em locais não oficiais, fora da responsabilidade do Senado. Com um objetivo aparente, porém não confessado: atrapalhar a Lava Jato. Renan explode. Chama o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, de “chefete” de polícia que “dá bom dia a cavalo” e pressiona Temer a dispensá-lo. Acusa a Polícia Federal de mais “fascista” que a polícia da ditadura militar.

(Renan não gostaria que chamassem a polícia do Senado de “milícia particular” – seria uma clara injustiça). O senador denunciou “arreganhos, truculência, intimidação”. Fez o mesmo. Investiu contra o “juizeco de primeira instância” Vallisney de Souza Oliveira, de Brasília, que autorizou a ação da PF no Senado.

Discreto e com um blog de poesias suas e de outros autores, Vallisney recebeu uma solidariedade de alta patente: da presidente do STF, Cármen Lúcia. “Onde um juiz for destratado, eu também sou. Qualquer um de nossos juízes é”, disse Cármen, sem entrar no mérito da operação em si e sem citar Renan.
Na quinta-feira, o ministro do STF Teori Zavascki suspendeu a Operação Métis da PF, acolhendo o argumento de que só o Supremo poderia investigar os senadores.
As maletas anti-grampo do Senado foram remetidas ao STF. Renan comemorou, com “fé na Justiça”. E saudou “a harmonia entre as instituições”. Logo quem. Renan poderia ter defendido, com elegância, a soberania do Congresso contra policiais federais. Mas seu temperamento explosivo e seu passado de ficha discutível acabam por torná-lo um alvo nas redes sociais, que erguem a bandeira #forarenan.
Todos sabem que renunciou em 2007 para se livrar da cassação. E foi absolvido, em votação secreta no Senado, da acusação de ter suas contas particulares pagas por um lobista. Estamos cheios já de foros privilegiados.
Cármen Lúcia também é contra. Estamos cheios de castas políticas que legislam em causa própria e querem cortes nas aposentadorias sem mexer em suas mordomias vitalícias, imorais e passadas a herdeiros.
Estamos cheios de nepotismo e do “você sabe com quem está falando”. No dia 3 de novembro, o STF julgará uma ação que impede réus com processos no Supremo de ocupar cargos da linha sucessória da Presidência da República. Renan se encaixa exatamente nesse perfil. Mais um episódio, talvez o final de uma temporada. O que acontecerá?

Renan - o piromaníaco - o bombeiro Temer, e o incêndio, por Vitor Hugo Soares--Jornalista

                 Renan Calheiros e Michel Temer (Foto: Ailton de Freitas)

O outubro incendiário da política brasileira, em 2016, se aproxima do fim, enquanto o jornalista observa, em retrospectiva, imagens da viagem do presidente Michel Temer e da primeira dama Marcela à Índia e ao Japão, de retorno abreviada em quase 12 horas. Situação de dar pena (ou fazer sorrir, a depender do ponto de vista e humor do observador) ver o mandatário da vez, no Palácio do Planalto, forçado a retornar “em cima do rastro”, como se diz nas barrancas do São Francisco, o rio da minha aldeia. Praticamente sem ter tempo de gozar das delícias da parte final dos périplos oficiais do tipo. No caso, do outro lado do mundo, que o presidente deixou às carreiras para vir descascar novos pepinos neste incorrigível pedaço do lado de ba ixo do Equador.



De imediato, veio acompanhar, de perto, desdobramentos da prisão de Eduardo Cunha, o poderoso ex- presidente da Câmara dos Deputados, envolvido na Operação Lava Jato, apanhado na capital do país pela PF, e levado ao encontro do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Em menos de uma semana, mal (ou bem?) comparando, Temer parece bombeiro em “plantão de sobreaviso”, que faz das tripas coração na tentativa de apagar o grave fogaréu institucional que o aloprado presidente do Senado, Renan Calheiros, fez grassar em seus domínios. Perturbado, ainda mais, desde a passagem da PF na Operação Métis, braço da Lava Jato, que apavora 7 em cada 10 figurões de Brasília.


O ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavaski, no meio do furdunço geral, correu na frente e, na quinta-feira, suspendeu liminarmente a operação da PF nos domínios do Senado e redondezas, para posterior decisão do pleno do STF. Jogo rápido, mas de resultados duvidosos e imprevisíveis, apesar dos festejos e fogos soltados, apressadamente, pelo senador alagoano do PMDB, ex-amigo do peito e escudeiro de Collor, depois de Lula e Dilma, e agora fiel aliado e seguidor do governo Temer. 


Mas o estrago já está feito, revelam bastidores de fontes quentíssimas da corte. A PF, mais ágil que Teori em sua decisão monocrática, já havia descoberto segredos cabeludos e impensáveis, ao periciar as maletas de varreduras de grampos apreendidas .”Sabe o que aconteceu no submundo do Congresso Nacional”, adianta a bem informada coluna “Esplanada”, da Folha. A conferir. 


Na terra, em volta do Lago Paranoá, e no ar do Planalto Central do Brasil circulam outros sinais claros de que o cerco se fecha sobre núcleos estratégicos e sensíveis do poder. As cenas de nervosismo e estresse explícitas (de pânico mesmo, em alguns casos), puxadas pelo descontrole do presidente do Congresso, reproduzem situações muito parecidas com as do filme “Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”: cult italiano do melhor cinema de suspense político dos anos 70.


O medo atravessa Brasília - sob efeito de Rivotril, em doses cavalares – com reflexos pelo país inteiro (ou quase), como uma espécie de cometa carregado de dúvidas e poderosos personagens, sob suspeição, em sua larga cauda: de parlamentares no exercício do mandato a chefes e comandados da Polícia Parlamentar, apanhados com as suas maletas de aprendizes de arapongas (suspeitos de atrapalhar investigações determinadas pela justiça). Além de burocratas que se dizem “meros cumpridores de ordens”.


Penosa e preocupante é a situação, no todo, com notório jeito e sabor de tragicomédia brasileira. O riso fica por conta do detalhe. Do método para debelar o fogo, bolado pelos atuais conselheiros e alquimistas da corte: a panaceia antiga das fórmulas de conciliação que passam por cima de princípios. Em que praticamente tudo se arranja na base do “deixa disso”, do interesse próprio ou do tapinha nas costas. A receita é do tempo da vovó, mas até poderia dar certo mais uma vez. Desde que o problema fosse apenas passar uma borracha para apagar os malfeitos (e os rastros dos malfeitores) e fazer de conta que nada aconteceu.


Os insultos e atitudes erráticas e descabidas de Renan (que mal escondem a tentativa de ganhar no grito, de defesa preventiva, chantagem e ameaças graves a pessoas e instituições), não passariam de engraçada pantomima se a questão se resumisse a apenas dois dos três principais personagens, da crise em andamento e expansão: o piromaníaco presidente do Senado (a definição é do próprio Renan em sua fase pós-Métis), e o ministro da Justiça, Alexandre de Morais. Ambos notórios mordidos pela mosca da vaidade e do encantamento, delícias e delírios do mando e, principalmente, do prazer de se mostrarem poderosos.


Em casos assim, as vezes basta o tradicional “puxão de orelhas” ou o “remédio” utilizado durante décadas, no sertão nordestino, para corrigir menino que falava demais, (nem se pensava no politicamente correto): A ameaça de “passar babosa na língua”. Sábio e saudoso, Ulysses Guimarães também tinha recomendação capaz de superar situações desse quilate: “Política é conversa de adulto, não de moleque. É doloroso ter de repreender imaturos, com o convite latino: “Puer, sacer est lócus, extra migite”. Em língua crioula: Menino, o lugar é sagrado. Vá mijar lá fora.


O problema – e bota problema nisso – é que em uma das pontas do imbróglio está a ministra presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, que dá evidentes sinais de não estar disposta a participar de nenhum tipo de encenação, no enfrentamento da questão de sensíveis e explosivos contornos institucionais. A firme, sóbria e de pouca brincadeira, presidente do Supremo assumiu como agressão ao Judiciário, e a ela própria, o destempero do presidente do Senado, ao chamar de “juizeco” o magistrado que autorizou a Operação Métis.

Aparentemente decidida a não participar de conciliábulos, (para apagar o incêndio de Renan, quando o governo Temer dá sinais de precisar do incendiário, e de fazer concessões, para aprovar a reforma sobre controle de gastos), é hora de olhar ainda com mais atenção e interesse para a ministra Cármen Lúcia, e seus próximos movimentos e sinais, no vamos ver dos panos quentes dos bombeiros do Planalto. O resto é com o tempo, senhor da razão.

A difícil escolha, por Zuenir Ventura-Jornalista

Marcelo Crivella representa não um eventual desvio, mas um planejado projeto de poder com a política a serviço da religião

Como convencer do contrário os quase 20% de eleitores que amanhã pretendem optar pelo “não voto”, ou seja, os que vão votar em branco, anular ou simplesmente abster-se?

Eu mesmo, que pertenço à geração que lutou tanto para conquistar esse direito, confesso que fiquei tentado a embarcar nessa nau dos desencantados. Poucas vezes meu título de eleitor velhinho, todo amarelado, teimou tanto em permanecer na gaveta, inclusive porque a lei dispensa os idosos de usá-lo.

Foi muito difícil escolher entre dois extremos — um religioso e outro político — para um cargo que, antes de tudo, exige a humildade de um competente gestor. Mas como em eleição não há neutralidade, vota-se mesmo quando se pensa não estar votando, acabei optando por Freixo, apesar de sua tentação pelo método da violência com pedras, paus e rancor, como se isso fosse instrumento de transformação.

O esquerdismo é “a doença infantil do comunismo”, como proclamou Lênin, que não pode ser acusado de reacionário ou direitista. Mas é um mal que tem cura, como a História tem demonstrado sobejamente, inclusive no Brasil.

Já Crivella representa não um eventual desvio, mas um planejado projeto de poder com a política a serviço da religião. Quem me diz isso não são os repórteres que ele xinga de “patifes” da “Veja” e “vagabundos” do GLOBO. Mas ele mesmo, o pastor que nos discursos de campanha promete não misturar religião e política, uma separação que, como ele sabe, é a base constitucional do Estado laico.

Mas em um vídeo feito provavelmente num templo em que estava pregando, ele pede orações, posto que “já temos dinheiro e até aviões”. E com a soberba de quem se acha íntimo de Jesus, afirma com todas as letras: “Os evangélicos ainda vão eleger um presidente da República que vai trabalhar por nossas igrejas para cumprirmos a missão de levar o evangelho a todas as nações da Terra”.

Com humor, ele adverte que a realização do plano talvez não seja para o seu tempo. E, por modéstia, evita dizer que já está fazendo a sua parte no cumprimento da “profecia” que, segundo garante, foi traçada há dois mil anos: “evangelizar todos os países da Terra”.

Não acho justo que prefeitura de uma cidade precisando de tanta atenção como a nossa venha a ser apenas o trampolim para esse ambicioso salto, para essa catequese global. Algumas das piores tragédias do mundo moderno se devem a essa mistura.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Sobre o Voto Não, por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa--Professora e tradutora

Não (Foto: Arquivo Google)

Leio em O Globo artigo do renomado jurista, mestre e diretor da
Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Joaquim Falcão, que ao votar nulo estou me resignando, aceitando o provável resultado, votando no vencedor.

E mais: que ao não votar, ou ao votar em branco, estou contribuindo para a vitória de alguém em quem não confiei com meu voto. É verdade. Mas isso não quer dizer, em absoluto, que ficarei resignada por ter contribuído para essa vitória. Ao contrário, ficarei exatamente como estou agora, revoltada. Sem, no entanto, ter como demonstrar de outro modo o tamanho de minha revolta. Só me resta recusar a escolher entre o ruim e o pior aquele que vai administrar minha cidade.

Voto há 60 anos. Quantas vezes já votei? Quantas foram as vezes em que votei entusiasmada? Quantas as que votei apenas porque era obrigada, mas sem estar plenamente convencida que aquele era o melhor nome?

Há tantas coisas importantes a serem modificadas no Brasil, tantas reformas precisam ser feitas, todas imprescindíveis. Na realidade, o Brasil precisa é de uma Reforma Geral.

Mas eu começaria pela Reforma Política. E nela, pela reforma eleitoral. Acabaria com a obrigatoriedade do voto. É um direito? É a maneira que eu tenho de participar dos destinos de meu país? É o modo que tenho de aceitar ou reprovar os candidatos que se apresentam? Como posso fazer isso a não ser votando ou não votando?

Reformaria, de pronto, essa curiosa interpretação de que o Voto Não é um voto a ser computado aos votos do ganhador. Não é essa, certamente, a intenção do eleitor.

Durante muitos anos acreditei que a democracia – “esse sistema que é o pior excetuando-se todos os outros” - era alimentada pelos nossos votos. Hoje já penso diferente. O que precisamos é encontrar um modo de participar das decisões dos partidos e ter voz ativa na escolha dos candidatos que apresentarão para nossa escolha, com plataformas que digam exatamente a que vêm e o que pretendem fazer depois de eleitos.

Os partidos deveriam ter, obrigatoriamente, regras mais rígidas para aceitar filiados, ser mais exigentes na escolha dos nomes que os compõem.

No dia em que votar for facultativo, os partidos certamente cuidarão mais dos nomes que vão apresentar aos eleitores.

Não tenho certeza se o Voto Não será o grande campeão nestas eleições. Parece que é assim que se apresenta o panorama eleitoral. Mas o que mais me interessa é que na hora das análises sobre o Voto Não, deixem de encontrar desculpas para esse gesto do cidadão. Muitos não votarão por não ter dinheiro para a passagem, muitos por estarem acamados, muitos por já estarem com mais de 70 anos. Mas podem estar certos de uma coisa: se o ambiente político estivesse saudável e os candidatos entusiasmassem, não haveria tantos votos em branco, nem tanta abstenção.

“Vou abandonar a política” por José Paulo Cavalcanti Filho--Advogado



Por que uma decisão tão extrema? “Pela ingratidão do povo para com os políticos”. Apesar disso, vocês querem sempre estar por cima. “Todos os políticos saem mal do poder”. Mas a luta continua, dizem todos. “Afinal, lutamos por que? Para conquistar o poder? E depois o fim é sempre o mesmo, saímos do poder vilipendiados”. Como se sente hoje, tendo mandado no país? “Estou numa fase contemplativa”. Isso quer dizer o que? “Vou abandonar a política”. Mas não é o que parece. De suas andanças nas ruas. Dos seus discursos. E o entrevistado, rindo: “É assim a política... Diz-se o que convém no momento”.

O jornalista que fez essa entrevista conclui: “Na época, eu conhecia mal o entrevistado. Se conhecesse melhor, saberia que nele não há qualquer distinção entre a verdade e a mentira. Diz, em cada momento, aquilo que lhe convém dizer”. E, encerrando: “Nunca ninguém me mentira de forma tão descarada, desavergonhada mesmo”.

Esse entrevistador, imagino que alguns leitores já perceberam, é José António Saraiva. As frases aspeadas estão no seu mais recente livro, Eu e os Políticos (págs. 162 a 170). E o entrevistado, antes que se vá mais longe em conclusões precipitadas, é o ex-primeiro-ministro de Portugal José Sócrates.

Trata-se de um amigo próximo do ex-presidente Lula. Tanto que o brasileiro fez prefácio para seu A Confiança no Mundo. E declarou “Estar honrado em fazer esse prefácio”. Os dois têm mais, em comum, ser íntimos da construtora Odebrecht. A mesma que, inclusive, custeou a viagem de Lula a Lisboa. Em outubro de 2013. Para o lançamento do livro. Essa e outras 5, para outros fins. Segundo a revista Visão (a Veja lusitana), um livro que teria sido em verdade escrito pelo jornalista Domingos Farinho. Ao preço de 100 mil euros. Mas essa é outra história.

As suspeitas que pesam sobre Sócrates são graves. Na compra da TVI pela Portugal Telecom, por exemplo, especula-se que teria usado “verbas de empresas públicas em benefício do PS”. O seu partido. Para “controlar os meios de comunicação social” (Correio da Manhã). Lá, como cá, são os mesmos vícios.

Já na operação Marquês, Sócrates e Lula estão novamente juntos. Mais os dois sócios da JD Assessoria e Consultoria – os irmãos Luiz Eduardo e José Dirceu. Tendo, por trás, a mesma Odebrecht. E sempre usando terceiros, laranjas, para esconder patrimônio. Inclusive um famoso apartamento de luxo. Não em Guarujá, mas em Paris. Comprado por amigo que nunca o usou. E oferecido, graciosamente, para uso de Sócrates. O mesmo que também lhe emprestou milhões de euros. Sempre em dinheiro vivo. Que Sócrates “não confiava no sistema bancário”. E viva “A maravilhosa beleza das corrupções políticas”, se divertia Fernando Pessoa (em Opiário).

Curioso, nessa operação, é que nela tudo lembra a Lavajato. Até pelo perfil duro do Juiz Carlos Alexandre. Similar a Sérgio Moro. Tanto que Sócrates foi preso, em novembro de 2014. Passou 11 meses em uma penitenciária. E dalí saiu com tornozeleira eletrônica. Saraiva completa: “Quando se tornou patente o número de negócios duvidosos em que estava envolvido, vaticinei que ele seria preso depois de deixar o cargo. Acertei em cheio”.

P.S. Maquiavel (em “O Príncipe”) dizia que a história se repete. Enquanto Marx (em “O 18 de Brumário”) sugeria que somente como farsa. Estou desconfiado que mais razão tem o italiano...

MORTE DE SERVIDORES DO SENADO COM SACO NA CABEÇA INTRIGA A POLÍCIA, nas fôlhas

SUICÍDIO OU QUEIMA DE ARQUIVOS?? CASO ESTÁ SENDO INVESTIGADO PELA 10ª DP, NO LAGO SUL

As circunstâncias da morte de Sebastião Araújo Andrade, 34 anos, analista legislativo do Senado Federal, estão sendo investigadas pela Polícia Civil do Distrito Federal. O servidor foi encontrado no banheiro de casa, na QL 16 do Lago Sul - um dos endereços mais nobres da capital federal -, com uma sacola plástica amarrada à cabeça, no final da tarde desta quinta-feira (27/10). O caso está sob a responsabilidade da 10ª Delegacia de Polícia, no Lago Sul.

As informações preliminares dão conta de que o servidor, que trabalhava há sete anos no Núcleo de Acompanhamento Legislativo e recebia um salário base de pouco mais de R$ 24 mil, morreu por asfixia. Os investigadores admitem que o suicídio é uma das linhas de investigação.

O caso intrigou os policiais pela forma como o corpo foi encontrado e a semelhança com outra ocorrência cuja vítima também era servidora do Senado Federal. No último sábado, 22/10, um estagiário da TV Senado também foi encontrado morto por asfixia, com um saco plástico preso na cabeça. A polícia também investiga a possibilidade de suicídio, mas há a suspeita de que os dois casos possam estar relacionados.

Uma terceira morte em Brasília guarda certa semelhança com os dois casos dos servidores do Senado: Ivonilson Menezes da Cunha, 39, o "Gato de Botas", que foi condenado por pedofilia e estava em liberdade provisória, foi encontrado morto em uma mala que boiava no lago Paranoá. O corpo do pedófilo foi encontrado com um saco plástico envolvendo a cabeça. Ele ficou preso por poucos dias e foi condenado ao cumprimento de "pena alternativa". Trabalhava no supermercado Carrefour do Lago Sul.

STJ DECIDE QUE PRISÃO EM 2ª INSTÂNCIA VALE TAMBÉM PARA PARLAMENTARES, NAS FÔLHAS


CORTE JULGOU RECURSO DE DEPUTADO DE RORAIMA PRESO POR CORRUPÇÃO
O DEPUTADO JALSER PADILHA, PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DE RORAIMA, É ACUSADO NO CASO DOS GAFANHOTOS.

A prisão após julgamento de segunda instância não tem exceções e, por isso, vale também para parlamentares. É o entendimento da 3ª Seção do Superior Tribunal de Justiça ao rejeitar recurso do deputado Jalser Renier Padilha, presidente da Assembleia Legislativa de Roraima. Os ministros definiram a tese de que a imunidade parlamentar prevista no parágrafo 2º do artigo 53 da Constituição Federal não se aplica em casos de condenação.
Para o ministro relator do recurso, Nefi Cordeiro, a imunidade é prevista para prisão cautelar sem flagrante de crime inafiançável. 

No caso analisado, o parlamentar foi condenado a seis anos e oito meses de prisão em regime semi-aberto pelo envolvimento no escândalo dos gafanhotos, que apurou desvios de recursos públicos na gestão do governador Neudo Campos (1999-2002).

O ministro determinou a expedição do decreto de prisão no dia 6 de outubro, tendo em vista a decisão do Supremo Tribunal Federal, no início do mês, de permitir a execução provisória da pena após condenação em segunda instância, ou seja, mesmo com recursos pendentes no STJ ou no Supremo Tribunal Federal.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A ORGANIZAÇÃO, por Malu Gaspar, autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X

Como Marcelo Odebrecht chegou ao comando da maior empreiteira do país – e acabou na prisão
Dinastia ODEBRECHT
Marcelo Bahia Odebrecht tinha uma expressão impassível quando se sentou diante de três delegados da Polícia Federal em Curitiba, em maio passado. Aquela seria a sua primeira conversa “amigável” com os responsáveis por seu caso desde que fora preso, quase um ano antes. Os agentes federais do outro lado da mesa sabiam que o mais importante empreiteiro do país negociava afinal a delação premiada, depois de passar meses dentro de uma cela que media 4 metros de largura por outros 4 de comprimento. Sabiam também – item importante do manual de códigos não escritos da Operação Lava Jato – que, mesmo quando os advogados já avisaram aos investigadores que seu cliente decidiu falar, era preciso ouvir a notícia do próprio candidato a delator.

Sentado à mesa de reuniões com uma advogada a seu lado, Marcelo usava uma camiseta azul surrada, calça de moletom cinza e tênis – espécie de uniforme que adotou na prisão. Apesar das roupas gastas sobre o corpo magro, mantinha o porte aprumado, altivo. Quieto, esperou pelas perguntas. Afinal, ele iria realmente falar o que sabia? Iria admitir ter cometido os crimes de que era acusado? Sim, Marcelo confirmou. “Mas vocês têm de ver o que é caixa dois e o que é corrupção”, disse, quase como quem dá instruções a subordinados. Os federais reagiram. “Não é você quem vai nos dizer de qual crime será acusado.”

Poucas semanas antes, os advogados da Odebrecht e os procuradores da República haviam começado a se reunir em Brasília, iniciando as negociações para a mais extensa e provavelmente a mais importante delação premiada da Lava Jato. O processo era cansativo. Executivos das empresas do grupo levavam as informações para os advogados, que submetiam o conteúdo a Marcelo, em Curitiba. Da cadeia, ele definia o que podia ou não ser dito. Só então os temas eram repassados aos procuradores.

Marcelo Odebrecht havia mantido por meses o mesmo discurso a respeito das acusações que partiam da Lava Jato. Já repetia os argumentos mesmo antes de ser preso por agentes da Polícia Federal em sua casa, um imóvel de 1200 metros quadrados no Morumbi, Zona Sul de São Paulo. O grupo empresarial que ele comandava nunca pagara propina, ele dizia, muito menos superfaturara contratos com empresas públicas. As ações da Lava Jato contra a empresa tinham por finalidade constranger e perseguir os funcionários.

Quando Marcelo foi levado para Curitiba, a Odebrecht e seus advogados intensificaram o combate que já faziam à operação liderada pelos procuradores no Paraná. Passaram a lançar mão, 
publicamente e nos bastidores, de todo tipo de estratégia de que uma grande empresa é capaz no Brasil. Nada funcionou. A decisão de Marcelo Odebrecht de admitir crimes e contar pelo menos parte do que sabia podia ser tomada, portanto, como uma capitulação.

Ainda assim, o empresário fez de tudo para não parecer derrotado. Diante dos delegados, tentou explicar o impasse a que tinha chegado, referindo-se a si próprio, como de hábito, na terceira pessoa:
“A partir do momento que tudo se concentrava em Marcelo, os outros não se preocupavam tanto. 
Agora que vários foram presos, eu fiquei sem saída”, disse. Em quarenta minutos de conversa, repetiu algumas vezes que a decisão de colaborar com a Justiça não havia sido dele, e sim do grupo empresarial que liderava. Estava resignado, mas, ainda assim, contrariado. Sacrifício maior do que ficar preso, ele dava a entender, era ter de entregar todo o esquema. Naquele momento, porém, embora tentassem tirar dele uma história qualquer, uma ocorrência que fosse, das muitas que pretendia revelar em sua confissão, ele manteve o mistério. “Vocês vão ver nos anexos de Marcelo”, comunicou, enigmático, referindo-se aos capítulos da delação.

Parecia extravagância e até soberba aquele tipo de comportamento, mas um dos interlocutores do empreiteiro naquele dia resumiu assim sua impressão sobre o encontro: “Ele foi jogador.” Uma coisa, porém, o “príncipe dos empreiteiros” – como era conhecido pelos colegas e passou a ser tratado pela imprensa no auge do sucesso – admitiu: a última barricada de sua defesa havia caído semanas antes daquela reunião, quando a Lava Jato descobriu o setor de “operações estruturadas” da Odebrecht. Para todos os efeitos, tal setor seria responsável pela engenharia financeira de projetos do grupo no exterior. Na prática, dedicava-se exclusivamente à contabilidade paralela da 
empresa e alimentava um sofisticado esquema de pagamento de propinas, responsável por movimentar quase 3 bilhões de dólares ao longo de oito anos.

O “departamento de propinas”, como a Lava Jato o batizara, tinha apenas sete funcionários – três trabalhavam numa sala do prédio da empreiteira em Salvador, outros quatro em São Paulo. A esse pessoal cabia processar os pedidos dos outros departamentos e subsidiárias. Se precisava corromper alguém, um executivo da empresa devia seguir sempre o mesmo procedimento. O primeiro passo era encaminhar o pedido ao chefe do departamento de operações estruturadas, Hilberto Silva. Ele respondia diretamente a Marcelo Odebrecht e tinha os mesmos salários e benefícios de outros respondia diretamente a Marcelo Odebrecht e tinha os mesmos salários e benefícios de outros executivos de seu calibre – cerca de 50 mil reais mensais, além de bônus anuais por desempenho que podiam alcançar 800 mil reais.

Para processar o pedido de propina, os funcionários do setor usavam um sistema de mensagens à parte, sem ligação com qualquer outra rede interna e com servidor sediado na Suíça. Era por esse sistema que se pediam os pagamentos, ordenavam-se os depósitos, emitiam-se os comprovantes e recibos e compartilhavam-se planilhas com registro de tudo o que saía. Os beneficiários do dinheiro eram identificados apenas por codinomes. Os nomes verdadeiros nem mesmo os funcionários do setor conheciam.

Esse sofisticado setor de propinas continuou a funcionar mesmo após o início da Lava Jato, em março de 2014, e só foi definitivamente desativado semanas depois da prisão de Marcelo Odebrecht. Compará-lo aos esquemas de pagamento de propina das outras empreiteiras seria como colocar uma Ferrari ao lado de uma carroça. 
Nas demais empresas, pelo que se depreende da maioria dos casos revelados pela Lava Jato, a propina era geralmente disfarçada por um contrato falso de consultoria. Os pagamentos eram feitos diretamente na conta de empresas de fachada indicadas pelos políticos, no Brasil e no exterior. 
Descoberto o dono da empresa ou o titular da conta, o crime estava desvendado.
No caso da Odebrecht, seguir o caminho do dinheiro era bem mais complicado. Primeiro porque os recursos nunca saíam do Brasil com destino a bancos no exterior. Sua origem era sempre alguma conta de subsidiária da Odebrecht já fora do país – de preferência na Venezuela, conforme se descobriu depois. Uma vez determinado o pagamento, o dinheiro percorria pelo menos quatro diferentes contas de empresas sediadas em paraísos fiscais. As remessas entre um banco e outro eram feitas sem que a Odebrecht precisasse se envolver no processo, por um ex-funcionário que havia se tornado dono de uma corretora de valores – e que em 2010, junto com outros ex-colegas compraria um banco em Antígua, no Caribe, só para movimentar a dinheirama. 
Completando esse caminho tortuoso, depois da quarta camada de offshores, a propina que não era depositada lá mesmo, no exterior, podia ser enviada a uma rede de doleiros no Brasil, transformada em dinheiro vivo e entregue pessoalmente a quem de direito, sem deixar vestígios.

“Se tivéssemos que rastrear esse dinheiro, quebrando o sigilo de cada depósito em cada etapa, muito provavelmente passaríamos anos tentando montar o quebra-cabeça, sem chegar a lugar algum”, reconheceu o procurador Orlando Martello Júnior, responsável por essa investigação específica na 
Lava Jato.
O que mudou o rumo da história foi a delação premiada da secretária Maria Lúcia Tavares, 63 anos de idade e quase quarenta de Odebrecht, presa no final de fevereiro de 2016. Seu nome foi descoberto por acaso, quando a Polícia Federal estava prestes a realizar uma operação para prender o marqueteiro do PT, João Santana, e sua mulher, Monica Moura. Os dois haviam recebido dinheiro da Odebrecht em uma conta no Panamá.

Como parte dessa investigação, a PF havia quebrado o sigilo de vários e-mails de pessoas ligadas à empreiteira, e encontrara em alguns deles, anexados às mensagens, arquivos com planilhas do 
sistema secreto de pagamentos. No registro de criação de uma dessas planilhas aparecia o nome de Maria Lúcia Tavares. O delegado Filipe Pace, que conduzia a investigação, não tinha ideia de quem se tratava. Por precaução, decidiu incluí-la de última hora num complemento de pedido de busca e apreensão já enviado ao juiz Sergio Moro.

Pace não imaginava que a casa da tal funcionária abrigasse material radioativo para a Odebrecht: uma pasta cheia de planilhas e uma agenda com registros de pagamentos, nomes, codinomes e cartões de visita. Em conjunto, forneciam rara perspectiva de como funcionava o até então desconhecido setor de propinas. Em tese, não deveriam estar ali, mas a secretária não havia tido a chance de devolvê-los ao escritório. Em junho de 2015, ela havia levado todo o material para Miami, onde fora prestar contas ao chefe, Luiz Eduardo Soares, transferido para os Estados Unidos pela Odebrecht logo depois que a Lava Jato começou. Quando Tavares voltou ao Brasil, Marcelo Odebrecht já havia sido preso, e ela manteve a pasta e a agenda consigo.

Na casa da secretária, na Bahia, à medida que recolhiam a papelada, os agentes enviavam por WhatsApp fotos do que encontravam para os colegas de Curitiba – os policiais no Sul, por sua vez, comemoravam o resultado como gol do Brasil em Copa do Mundo. Tavares estava encurralada.

Antes mesmo de entrar no camburão para ser levada para a sede da Lava Jato, começou a dar sinais de que não aguentaria a pressão. Nervosa, repetia o tempo todo que sabia ter errado.

No primeiro depoimento, porém – no final de fevereiro deste ano, dias depois de ser presa –, Maria Lúcia Tavares não disse nada. Apresentou-se acompanhada por três advogados da Odebrecht. De volta à cela, novamente sozinha, pediu que chamassem a delegada que acabara de ouvi-la, Renata Rodrigues. Disse à delegada que tinha a intenção de falar, mas os advogados da empreiteira não teriam deixado. Rodrigues avisou que ela precisaria destituí-los. A possível testemunha alegava ter medo. No dia seguinte, quando novo interrogatório começou, Tavares reclamou que estava se sentindo pressionada, desatou a chorar e mandou os advogados embora. Foi então que começou a contar o que sabia.

A secretária explicou em detalhes como tudo funcionava. Falou do sistema que haviam montado na Suíça, deu os nomes dos doleiros que os atendiam e disse ter ouvido Fernando Migliaccio, o chefe do seu chefe, mencionar que alguns pagamentos eram feitos por ordem de Marcelo Odebrecht.

Contou também que ao longo de 2015 a empreiteira sugeriu a ela e aos outros funcionários do departamento da propina que pedissem transferência para o exterior, numa evidente tentativa de mantê-los fora do alcance da PF. Os chefes foram, mas ela e uma outra secretária não quiseram mudar de país.
Tavares, porém, não foi capaz de decifrar os codinomes nas planilhas. Com exceção de Monica Moura e de João Santana, que apareciam como “Feira”, ela não tinha ideia de quem eram os donos dos demais apelidos.

Ocorre que, durante a mesma operação em que a secretária fora presa, os policiais também haviam encontrado, a 1 600 quilômetros de sua casa, um lote de papéis que ajudava a esclarecer parte do quebra-cabeça. Os documentos tinham sido apreendidos num escritório mantido no Centro do Rio de Janeiro pelo presidente da Construtora Norberto Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior. Continham uma lista de mais de 200 políticos com seus nomes e codinomes.
Soube-se então que, no dicionário secreto criado pela Odebrecht, o presidente da Câmara à época, Eduardo Cunha, era o Caranguejo; Eduardo Paes, prefeito do Rio, o Nervosinho; o governador Sérgio Cabral era Próximus; Renan Calheiros, presidente do Senado, o Atleta; a deputada federal gaúcha Manuela d’Ávila, do PC do B, Avião. Outras alcunhas, contudo, permaneciam indecifráveis – como o “Italiano” ou o “Pós-Italiano”, citados em e-mails de Marcelo Odebrecht. (Soube-se mais tarde que, associado à lista de codinomes, funcionava um sistema de senhas e contrassenhas, utilizado apenas nas raras vezes em que o dinheiro era entregue pessoalmente aos beneficiários ou a seus emissários. No caso de “Feira”, por exemplo, quem estava encarregado de entregar o dinheiro deveria dizer “legume”; quem aparecia para receber a bolada só botava a mão no dinheiro se respondesse “pimentão”.)

Na manhã do dia 22 de março de 2016, vinte dias depois da delação da secretária, uma força-tarefa composta por 380 policiais federais vasculhou escritórios da Odebrecht e da construtora Andrade Gutierrez em nove estados brasileiros. Na tarde daquele mesmo dia, os procuradores e policiais federais abriram a entrevista coletiva exibindo as planilhas e os documentos encontrados semanas antes com Maria Lúcia Tavares – e anunciaram à imprensa que ela havia contado tudo o que sabia.

O alto comando da Odebrecht percebeu que já não era mais possível resistir à delação. No início da noite, a empreiteira divulgou uma nota oficial. “As avaliações e reflexões levadas a efeito por nossos acionistas e executivos levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração definitiva com as investigações da Operação Lava Jato. […] Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor.” As negociações da empresa com o Ministério Público afinal deslancharam.

Embora decisiva, não foi apenas a descoberta do “departamento de propinas” que levou Marcelo Odebrecht a acenar com a possibilidade de um acordo de delação premiada à Justiça. As dificuldades financeiras que assolaram a construtora desde que a empresa entrou no radar da Lava Jato também pressionaram o executivo a agir.

A debacle recente foi tão impressionante quanto havia sido o crescimento dos negócios sob o comando de Marcelo. No período de oito anos em que ele presidiu o grupo da família, as receitas da Odebrecht passaram de 40 bilhões de reais anuais para 132 bilhões ao ano – tomado em conjunto, o grupo empresarial tem faturamento inferior apenas ao da Petrobras, no Brasil. Os ramos de atuação da empresa também aumentaram, de sete para 15, no mesmo período. E o número de funcionários quase dobrou, passando de 90 mil para 170 mil contratados. Todo esse contingente estava empregado em grandes obras e projetos de estaleiros, na exploração de petróleo e na fabricação de etanol, na administração de estradas e na construção de submarinos, aeroportos, portos e empreendimentos imobiliários, no Brasil e no exterior. O plano era atingir, até 2020, a marca de 200 
bilhões de reais anuais em faturamento.

Tamanho crescimento veio acompanhado da tomada de empréstimos. Num movimento que acabaria se revelando fatal, a dívida da empresa passaria, em oito anos, de 13 bilhões para 110 
bilhões de reais. Não se tratava, de toda forma, de um comportamento irracional. Nos anos de bonança, quando o Brasil parecia ser uma potência emergente, eram os bancos que procuravam a Odebrecht para oferecer dinheiro, muitas vezes dando crédito sem exigir maiores garantias. Num ambiente econômico desse tipo, tomar dívida não apenas era compreensível, era quase imperativo.

Tudo parecia ir bem, mesmo com a redução do ritmo de crescimento do país, até que, em novembro de 2014, a Lava Jato prendeu diretores e acionistas de diversas empreiteiras: UTC, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Mendes Júnior, Iesa e Engevix. Nenhum executivo da Odebrecht chegou a ser detido, mas houve busca e apreensão em escritórios da empresa. Naquele momento, a Lava Jato ainda estava no escuro quanto às práticas de corrupção do grupo baiano. Credores, sócios e investidores entraram em alerta, de toda forma.

Por causa da operação, o fundo americano Blackstone, que estava prestes a aplicar 350 milhões de reais na Odebrecht Ambiental, subsidiária de saneamento do grupo, suspendeu o aporte, alegando ser um risco para a sua reputação. Credores e sócios passaram a pressionar a empreiteira por maiores garantias e controles contra a corrupção. Nas reuniões, os acionistas da empresa eram constantemente interpelados pelos sócios minoritários sobre os riscos reais de a Lava Jato atingir o grupo. “Fiquem tranquilos, esse risco não existe”, respondeu o próprio Marcelo Odebrecht, certa vez. “Não temos nada a temer.”

Desde 2015, contudo, a construtora, que tem o segundo maior faturamento do grupo, não fecha nenhum novo contrato no Brasil. Tem gastado recorrentemente mais dinheiro do que recebe e, em
março passado, só tinha fôlego para continuar funcionando até meados de 2017. A companhia afirma que depende muito pouco do Brasil, porque 85% de seu cardápio de projetos está no exterior.
Mas seus principais clientes são países como Venezuela, Equador, Peru e Angola – que, ou estão em crise, ou temem continuar pagando a uma empresa que ainda não se sabe que futuro terá. A questão é especialmente delicada porque, se o dinheiro secar e a construtora tiver de entrar em recuperação judicial, todo o grupo será afetado.
Hoje, Marcela Drehmer, diretora financeira do conglomerado, se concentra em convencer o mercado de que a Odebrecht tem saúde para superar o turbilhão. Ex-bailarina, a executiva baiana de traços finos, modos gentis e voz delicada administra uma dívida de 110 bilhões de reais e está à frente da mais complexa reestruturação financeira em curso no Brasil. Seu quartel-general fica em São Paulo, na sede construída pela própria Odebrecht e inaugurada em 2013. É um prédio elegante, em que o hall de entrada está sempre perfumado. Além disso, o que mais chama atenção no ambiente são as frases de Norberto Odebrecht, o avô de Marcelo, estampadas em adesivos espalhados pelas paredes.

“A liberdade com responsabilidade não estimula o individualismo exacerbado. Ao contrário, ela reforça a coesão e a unidade da Organização, pois só Seres Humanos livres e responsáveis podem cooperar verdadeiramente”, diz uma delas, num dos cantos do cafezinho.

Instalada no 16º andar, Drehmer trabalha arduamente para negociar os ativos que podem ser vendidos a fim de colocar dinheiro no caixa. Começou a empreitada logo depois da prisão de seu chefe, em junho de 2015, com uma rodada de apresentações para credores no Brasil e no exterior.

Ainda havia, então, a esperança de que em pouco tempo Marcelo Odebrecht fosse libertado por alguma liminar. Em dezembro, o Superior Tribunal de Justiça negou o último recurso. Da cadeia, Marcelo renunciou à presidência e seu grupo iniciou um saldão de ativos – hidrelétricas, rodovias, gasoduto e vários outros projetos. O objetivo seria arrecadar 12 bilhões de reais em 2016. Mas não mais do que 1 bilhão tinha entrado em caixa até o final de setembro. 
A Odebrecht conseguiu renegociar dívidas, é verdade, trocando garantias e empurrando os vencimentos para 2018 e além, mas ainda não se sabe de onde tirará o dinheiro para pagá-las. No auge da tensão, um escritório de advocacia foi contratado para estudar o cenário de recuperação judicial. Com a proximidade de um acordo com o Ministério Público, a Odebrecht começou a respirar, mas as chances de sucesso do plano de reestruturação ainda dependem de um acordo de leniência com os governos do Brasil e dos Estados Unidos (como as empresas do grupo negociaram títulos nos Estados Unidos e uma delas, a Braskem, vende ações na Bolsa de Nova York, o grupo está sujeito a punições pela lei anticorrupção americana).

Fechar a delação e o acordo de leniência, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, é a senha para que os bancos voltem a emprestar para a construtora, e os governos possam novamente contratá-la, sem problemas. “Fechar a delação é essencial, precisamos virar a página”, Drehmer repete internamente, como um mantra.
Nascido em outubro de 1968, Marcelo é o primogênito de Emílio, por sua vez o primogênito de Norberto Odebrecht, fundador da empresa. Embora herdeiro por direito de um dos maiores impérios empresariais do Brasil, ele ainda precisaria se provar capaz antes de assumir o comando do grupo – ou pelo menos é esse o discurso que gostam de repetir integrantes da família e muitos de seus funcionários. A ideia de que um líder precisa se impor por seus feitos e pelo exemplo faz parte da doutrina criada e divulgada por Norberto Odebrecht em uma coletânea de livros publicados no início dos anos 80, todos sob o título Sobreviver, Crescer e Perpetuar – Tecnologia Empresarial Odebrecht – ou, simplesmente, TEO.

Ensinada em cursos a todos os iniciantes na Organização Odebrecht (é assim que eles chamam a si próprios), a TEO é mais do que um manual empresarial. É uma doutrina, que extravasa o âmbito dos negócios e se debruça sobre muitos aspectos da vida privada e familiar de seus funcionários, incluindo a maneira como devem criar os filhos. A Odebrecht, aliás, estimula a contratação de filhos, parentes e amigos. Em 2012, em uma palestra em Salvador, Marcelo Odebrecht informou que, dos 120 mil funcionários que a empresa tinha, 5 mil eram pais e filhos, e entre 20 a 30 mil eram parentes.
Para ele, aquilo parecia óbvio motivo de orgulho.
Em agosto deste ano, durante uma longa conversa na sede da Odebrecht, em São Paulo, um graduado funcionário destacado para me explicar a cultura e a história do grupo usou um exemplo concreto de como aplicava a TEO na vida familiar. “Neste final de semana, no almoço de família, meus dois filhos, adultos com mais de 30 anos, tiveram uma briga feia e começaram a gritar um com o outro. Peguei os dois pelo braço e disse que fossem conversar sozinhos e decidissem não quem estava certo, mas o que era o certo. É o que a TEO diz, e é como sempre os ensinei”, explicou o executivo – que, apesar do propalado orgulho de ser da “família Odebrecht”, pediu para não ser identificado nesta reportagem. Disse temer que alguma declaração sua pudesse prejudicar as negociações da empresa com a Lava Jato.
Durante um almoço, um dos mais antigos aliados de Norberto e Emílio Odebrecht procurou me convencer de como a doutrina criada pelo patriarca pode ajudar a explicar o comportamento do neto. “A relação de confiança é o pilar da TEO”, afirmou. Em alguns textos, a organização chega a ser descrita como uma “sociedade de confiança”. “Não se trai a confiança do cliente, do parceiro e nem dos liderados. Foi isso o que o Marcelo aprendeu a vida toda. E é por isso que, para ele, essa delação é uma violência”, disse o executivo, que, mesmo sem fazer mais parte do organograma da empresa, e mesmo tendo sido autorizado a falar, acompanhado de um assessor de imprensa da Odebrecht, pediu para não ter o nome revelado. Na Odebrecht é assim. Compete à organização decidir quem fala e quem não fala em público, mesmo quando o sujeito não faz mais parte do quadro de “integrantes”, como eles se referem aos funcionários.

Mesmo agora, combalida pela crise financeira e pelas investigações, a Odebrecht ainda é percebida como uma organização poderosa. Enquanto trabalhava nesta reportagem, tive recusados muitos pedidos de entrevista feitos a funcionários, ex-funcionários, consultores, amigos, inimigos, sócios e concorrentes. Das 52 pessoas que aceitaram falar, apenas quatro concordaram em ser identificadas.
A própria Odebrecht condicionou o acesso a alguns dos seus funcionários à premissa de que não seriam citados nominalmente. Nenhum membro da família Odebrecht aceitou dar entrevista. 
Bisneto de um imigrante alemão que chegou ao Brasil em 1856, Norberto Odebrecht tinha 21 anos de idade quando se tornou empreiteiro, ao assumir a construtora do pai. Corria o ano de 1941, época de escassez e de crise no Brasil, resultado da Segunda Guerra Mundial, e a empresa não resistiu.
Desiludido, o pai de Norberto, que saíra da região Sul para tentar a vida na Bahia, decidiu mudar-se para o Sul e passar o resto dos dias próximo à família. Norberto preferiu ficar e terminar as obras inacabadas. Renegociou as dívidas com os credores e propôs que os mestres de obras trabalhassem como sócios nas empreitadas: não receberiam nada no começo, mas dividiriam os resultados no
final. Muitos toparam o negócio incerto.

Dessa experiência resultou um sistema de remuneração variável em que, quanto mais alto o cargo, maior é a fatia do bônus na renda do funcionário – ou “integrante”. No topo da hierarquia, 70% dos rendimentos dos executivos da Odebrecht dependem do resultado de suas áreas. Depois de quitar as dívidas do pai, Norberto organizou a empreiteira como uma federação de empresários, na qual cada obra funcionava de forma quase autônoma, como uma firma independente. A coisa engrenou e, no início dos anos 50, a Odebrecht estava pronta para crescer. Não precisou olhar muito em volta para descobrir onde estavam os melhores contratos e o seu melhor cliente: no Estado.

O mundo das empreiteiras é o objeto de estudo de Pedro Henrique Pedreira Campos, professor de história na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Publicado em 2014, seu livro Estranhas Catedrais: As Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar (1964–1988) acabou se tornando popular e uma referência mais ou menos obrigatória em tempos de Lava Jato. Numa manhã de junho, num café no Rio de Janeiro, Campos me contou a seguinte anedota. “Dizem que, nos anos 90, seu Sebastião Camargo, da Camargo Corrêa, estava na cerimônia de posse do novo governador de São Paulo, no Palácio dos Bandeirantes, quando encontrou um ex-governador do estado. O velho político o saudou: ‘Sebastião Camargo, você por aqui?’ Ao que o empreiteiro respondeu: ‘Eu estou sempre aqui, governador. Vocês é que mudam.’” Para Campos, o episódio ilustra a ligação das construtoras com o Estado brasileiro. “Os empreiteiros têm influência perene no Estado, e sua ascensão em geral é ligada a forças políticas específicas. A Camargo Corrêa cresceu muito na época em que o governador de São Paulo era Adhemar de Barros, cunhado de um de seus acionistas, Sylvio Brand Corrêa. A Andrade Gutierrez estava sempre presente nas obras de Juscelino Kubitscheck, e assim por diante”, explicou. Já a ascensão da Odebrecht, nos anos 50, não se deu exatamente por intermédio de um político, mas sim de uma empresa: a Petrobras.
De certa forma, as duas empresas cresceram juntas. Criada em 1953 para explorar petróleo em terra, no Nordeste brasileiro, a estatal era sediada na Bahia. Seu primeiro presidente foi o militar e ex-governador Juracy Magalhães, que em duas ocasiões seria ministro da ditadura. Com o impulso de Magalhães, a Odebrecht se incumbiu de construir para a estatal, ainda nos anos 50, um gasoduto, uma refinaria e seu edifício em Salvador. Foi Magalhães quem apresentou Norberto Odebrecht ao general Ernesto Geisel, outro descendente de alemães, e a parceria fluiu. Geisel mal havia assumido a presidência da Petrobras, no final de 1969, quando convidou Norberto Odebrecht para construir o novo edifício-sede da empresa, no Rio de Janeiro.

Vivia-se então o início de um período de ouro para as empreiteiras. O governo militar acabara de adotar uma política de conteúdo nacional, decretando que, a partir daquele ano, só as construtoras brasileiras poderiam participar de obras públicas no país. A obra da Petrobras no Centro do Rio representava a expansão da Odebrecht para o Sudeste do país, um projeto tão importante para Norberto que ele decidiu enviar o próprio filho, Emílio, recém-formado em engenharia na Universidade Federal da Bahia, para comandar os novos projetos. A proximidade com a estatal e a ampliação de mercado fizeram com que a Odebrecht subisse, em apenas dois anos, entre 1971 e 1973, da 19ª para a terceira posição no ranking das empreiteiras nacionais. O crescimento continuou mesmo depois do fim do “milagre econômico”, em 1974. “Durante a ditadura, a empreiteira ganhou dois projetos que a fizeram mudar de patamar: uma fatia da obra do aeroporto do Galeão, no Rio, e a Usina Nuclear de Angra dos Reis”, comentou Campos.

À frente da empreiteira, Norberto se tornou praticamente uma lenda. Bem cedo, pelas manhãs, era isto chegando à garagem da empresa ao volante do próprio carro, quase sempre trajando um indefectível terno de linho branco. Começava a trabalhar cedo e saía tarde. Era idolatrado pelos funcionários, que o chamavam de “dr. Norberto” e disseminavam histórias que desembocavam invariavelmente no elogio do homem simples e humilde. Ele abria a porta para as mulheres e cedia  a vez aos subordinados no elevador. Dizia-se que só preenchia bilhetes, documentos e ordens de pagamento a lápis, como prova de confiança no interlocutor. Certa feita foi barrado por uma secretária na porta da sala de um gerente. A moça, que não sabia de quem se tratava, pediu que Norberto esperasse, pois o seu chefe estava ocupado. Segundo contam, ele se sentou e esperou pacientemente, para assombro dos funcionários que passavam pelo corredor e do próprio subordinado, que não sabia onde se enfiar depois de ter submetido o dono da empresa a um chá de cadeira.
Mas só pode se dar ao luxo de aparentar simplicidade quem de fato tem poder. Na empresa e na família, a palavra de Norberto era lei. Além dos funcionários, seus familiares também deviam seguir regras estabelecidas pelo patriarca. Fazia questão de que todos se reunissem, nos fins de ano e nas férias de julho, na ilha de Kieppe, propriedade da família no litoral sul da Bahia, a 200 quilômetros de Salvador. Outra norma imposta ao clã era a de manter a discrição. “Você não vê um Odebrecht em festas de arromba e colunas sociais”, disse-me, orgulhoso, um de seus maiores discípulos.

Algumas das regras definidas por Norberto para a empresa e a família foram sistematizadas no estatuto da Kieppe, pessoa jurídica que detém 63% das ações da Odebrecht. Uma delas diz que, a partir dos 18 anos, os herdeiros devem receber a parte que lhes cabe do negócio. Outra, que só haverá, a cada geração, espaço para um Odebrecht no comando do grupo. Na geração de Marcelo Odebrecht, eram vinte os herdeiros. Quatro deles, filhos de Emílio: Monica, a mais ligada à Marcelo, é advogada do grupo; Márcia, a terceira filha, trabalha como arquiteta; e Maurício, o mais novo, cuida dos negócios agropecuários da família, como criação de pacas e fabricação de cachaça.

Todos os primos passavam os fins de ano na ilha, seguindo a tradição iniciada pelo avô. Lá, crianças e adolescentes dividiam o tempo entre brincadeiras, nos horários livres, e aulas de matemática, lições de alemão e de TEO, a Tecnologia Empresarial Odebrecht. As obrigações dos jovens herdeiros não se resumiam ao período de férias na casa de praia, obviamente – algo que valia em particular para Marcelo. Em Salvador, nos fins de semana, seus primos e amigos iam jogar futebol na quadra do prédio em que toda a família morava. Marcelo 
costumava visitar obras ou subia até o apartamento do avô, para ter lições. “Ele sempre foi um CNPJ, nunca um CPF”, analisou um consultor que o conheceu no auge do poder, também pedindo para não ser identificado. “Não sou tão íntimo assim, ele pode ficar chateado.” Em 2012, num encontro de empresas juniores em Salvador, perguntaram ao príncipe dos empreiteiros se ele  alguma vez havia tido dilemas a respeito de seu destino como herdeiro do grupo. Depois de uns instantes refletindo, ele respondeu que não. “Fui sendo envolvido e foi tudo muito natural”, disse.

“A orientação para a eficácia exige autodisciplina do empresário”, diz um dos mandamentos da TEO. Norberto Odebrecht serviu no Exército no Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, na Bahia. Emílio fez o mesmo. Marcelo seguiu os passos do avô e do pai, numa época em que a maior parte dos colegas usava a matrícula na faculdade para escapar ao serviço militar (ele cursava engenharia civil na Universidade Federal da Bahia). Dessa experiência veio o hábito, que ele mantém até hoje, de acordar bem cedo para fazer exercícios.
Aos 24 anos, recém-formado, Marcelo começou um estágio na construtora, numa obra em Salvador.
Viajou pelo interior do Brasil, trabalhou para a organização no Reino Unido e nos Estados Unidos,fez MBA na Suíça. Quando não queria ser identificado como um Odebrecht, apresentava-se como Marcelo Bahia. Aos poucos foi assumindo missões de maior responsabilidade e galgando postos no grupo. Aos 33 anos, em 2001, seu pai decidiu que estava na hora de prepará-lo para a sucessão. 
Emílio, porém, achava que não deveria ser ele próprio o responsável por comandar essa etapa final do aprendizado profissional do filho. Assim, afastou-se da presidência do grupo, mantendo apenas sua posição no Conselho de Administração. Em seu lugar, colocou Pedro Novis, executivo com décadas de casa e de amizade com os Odebrecht. Marcelo assumiu a construtora, o coração do grupo. Sete anos depois, aos 40, ele ganharia o comando do conglomerado.
Marcelo Odebrecht se manteve obcecadamente dedicado ao império montado pelo avô. Até ser preso, sua rotina era voltada quase exclusivamente para o trabalho, com alguns poucos momentos reservados para a ginástica e para a família (ele é casado com Isabela Alvarez, uma professora que foi sua primeira namorada séria, a quem chama de Bela. Tiveram três filhas: Rafaella, Gabriella e Marianna).
Completamente avesso ao mundo boêmio, o chefe era chamado por Márcio Faria, diretor da Odebrecht Plantas Industriais preso com ele na Lava Jato, de “não come, não bebe, não fode”.
Metódico, anotava basicamente tudo em seu BlackBerry: ideias, tarefas, compromissos, informações.
Ele e o celular eram tão inseparáveis que os mais próximos diziam que, se alguém jogasse o telefone pela janela, ele se atiraria junto. O celular foi a primeira coisa que os agentes da PF procuraram em sua casa durante a ação de busca e apreensão que terminou com a prisão do empreiteiro. Os agentes saíram de lá com oito aparelhos.
As anotações, além de vasto material para provas, forneciam também algumas pistas sobre a vida privada do príncipe. Não havia músicas, vídeos ou fotos que não os enviados por serviços de mensagem. Nenhuma anotação de leitura, a não ser as de trabalho. Entre as mensagens particulares, e-mails do personal trainer com as séries de musculação que ele deveria cumprir, e registros de consultas semanais com uma terapeuta chamada Kyoko. Vez por outra, uma visita ao cabeleireiro.

Num determinado dia de 2013, Marcelo anotou: “Carinho em Bela/kids.” 
O professor Sérgio Lazzarini, do Insper, instituto de ensino especializado em economia e administração, dedica-se ao estudo da relação entre o Estado brasileiro e os grandes grupos empresariais. Em 2010, ele publicou o livro Capitalismo de Laços: Os Donos do Brasil e Suas Conexões, mostrando, entre outras coisas, que desde 1996 a presença do Estado como acionista direto ou indireto das grandes companhias nacionais só aumentou. No início de setembro, Lazzarini me recebeu em São Paulo, numa das salas do Insper. “Em qualquer ramo econômico que tem como maior contratante o setor público, as empresas precisam desenvolver outras competências além da excelência técnica. A mais importante delas é a política. Em outras palavras, o negócio dessas empreiteiras, mais do que a engenharia, é firmar e gerenciar seus laços com os governos, não importa de que cor ideológica”, analisou. “Quem faz melhor esse jogo assume a liderança.”
Para Lazzarini, manter boas relações com o Estado não é necessariamente mau, e poderia até ser benéfico às empresas e ao país. “O problema, no Brasil, é que as empresas cruzaram a linha, realmente buscando a relação pessoal, o compadrio. As famílias querem retorno, mas não estão  preocupadas com os métodos.”
Quando o negócio é manter boas relações com os clientes – frequentemente políticos com poder para contratar obras –, Emílio, filho de Norberto e pai de Marcelo, é o melhor dos três Odebrecht. Sempre sorridente, é do tipo que abraça o interlocutor, faz piada e não tem pressa para terminar a conversa.
Todo final de ano, enviava aos políticos amigos uma cachaça fabricada em sua fazenda (Lula sempre recebeu a sua), e não costumava recusar um trago nos encontros de trabalho. 
A habilidade de Emílio Odebrecht com os políticos fica evidente nos relatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que registrou os contatos com o empreiteiro em seus diários – até agora foram lançados pela Companhia das Letras os dois primeiros volumes, referentes ao primeiro mandato, de 1995 a 1998. O ex-presidente e o empreiteiro dividiram a mesa em almoços e jantares, reuniões fechadas e com outros empresários, e também viajaram juntos em missões oficiais. Em abril de 1995, depois de um almoço no Palácio da Alvorada, de que também participava a primeira-dama, Ruth Cardoso, o ex-presidente relatou: “Veio trazer sugestões, nada para ele, só a respeito de vários temas de interesse nacional.” E observou: “É curioso. Tem um nome tão ruim a Odebrecht, e o Emílio tem sido sempre correto, e há tantos anos.”
A proximidade de Emílio com Fernando Henrique se estenderia ao ocupante seguinte do Palácio do Planalto. O empreiteiro havia conhecido Lula em 1992, por intermédio de Mário Covas. Não votou nele em 1994, nem em 1998. Depois que o petista venceu a eleição de 2002, contudo, o dirigente da Odebrecht articulou encontros de empresários com o novo presidente e apoiou o governo desde a primeira hora. Em 2008, numa entrevista à Folha de S.Paulo, afirmou que Lula “nunca foi de esquerda” e tentou explicar por que o empresariado temia tanto o petista, antes da eleição. “O empresário não tinha convivido com ele e por isso tinha uma imagem errada dele. Agora, ele não é ‘menino amarelo’”, completou, usando a expressão típica da Bahia, que significa ingênuo, inocente. “Ele sabe perfeitamente o que quer e a estratégia para conseguir o que quer. Muitas vezes aparenta ser um pouco bobo, inocente, mas o ‘menino amarelo’ de inocente não tem nada.” 
O talento de Marcelo Odebrecht para a cordialidade não era tão grande quanto o do pai. Em 2008, quando ele estava prestes a assumir a presidência do grupo, o governo Lula decidiu levar adiante um projeto de construção de usinas hidrelétricas no rio Madeira, na região de Porto Velho, em Rondônia. Era um plano antigo da empreiteira, que Marcelo tomara como missão pessoal realizar.
Antes mesmo que o governo decidisse fazer a licitação, a Odebrecht já havia desembolsado 150 milhões de reais pela elaboração de um projeto que previa construir duas usinas, Jirau e Santo Antônio, em pontos diferentes do rio. Todas as contas de custo e retorno da empreiteira foram feitas considerando a construção das duas usinas. Não espanta, portanto, que Marcelo tenha ficado irritado quando veio a ordem, de Brasília, para licitá-las em separado – e ainda mais irritado quando perdeu a segunda concorrência, a de Jirau, para o consórcio formado pela franco-belga Suez e a Camargo Corrêa.
As concorrentes da Odebrecht haviam apresentado um projeto em que o reservatório de água ficava a 9 quilômetros de distância do local inicialmente previsto no edital de licitação. Marcelo considerou que a regra da concorrência havia sido quebrada. Insistia com o governo para que a licitação fosse anulada. Do outro lado da mesa, porém, estava Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil, e o resultado foi um curto-circuito. O príncipe ameaçou ir à Justiça com o objetivo de anular o leilão. O consórcio rival contra-atacou, dizendo que faria o mesmo, já que a Odebrecht também deslocara seu reservatório – em 250 metros. O governo por fim rebateu dizendo que, se houvesse qualquer contestação, cancelaria tudo e entregaria a tarefa de erguer as usinas à Eletrobras. Foi preciso que Emílio interviesse, visitando Dilma, para desfazer o mal-estar. Ao final, produziu-se um acordo e o resultado da licitação foi mantido.
Durante anos, Dilma pronunciaria o aposto “aquele sujeito complicado” a cada vez que se referia ao jovem dirigente da Odebrecht. Ainda assim, a empresa manteve o acesso ao poder. Marcelo e a presidente aos poucos se aproximaram, depois passaram a manter uma interlocução frequente. Eventualmente, despachavam a sós no Palácio da Alvorada. Marcelo chegou mesmo a receber algumas deferências.
Entre o final de janeiro e o início de fevereiro de 2012, em uma visita oficial a Cuba e ao Haiti, viajou com Dilma na ala reservada do avião presidencial, algo inédito para um empresário até então.
No período que compreende os governos Lula e Dilma, o faturamento da Odebrecht sextuplicou. A empreiteira tomou 70% de todos os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obras no exterior entre 2007 e 2015, e foi a empreiteira que mais recebeu aportes do fundo de investimentos em infraestrutura do FGTS. Foi também, no mesmo período, a empresa brasileira campeã em contratos com a Petrobras. “Os baianos conseguiam tudo”, reclamou o representante de uma grande concorrente, num café em São Paulo, no início de setembro. “Eles estavam na Copa, na Olimpíada, no petróleo, na geração de energia”, enumerou o executivo, mais um dos que pediram para permanecer no anonimato – segundo ele, para não atrair a ira dos rivais.
Um dos maiores doadores de campanha do Brasil – só nas eleições de 2014, distribuiu declarados 85 milhões de reais –, o grupo Odebrecht sempre foi muito bem tratado no Congresso, mesmo quando já havia sido arrastado pelo furacão da Lava Jato. Ao depor na CPI da Petrobras, em setembro de 2015, Marcelo Odebrecht foi explicitamente bajulado pelos deputados. “Vossa Senhoria é daqueles empresários que qualquer estudante de engenharia quer seguir profissionalmente, pela dimensão, pela complexidade, pela atuação no Brasil e fora do Brasil”, descreveu Valdir Prascidelli, eleito pelo PT de São Paulo. Em seguida, levantou a bola para o empreiteiro cortar: “O senhor acha adequada, correta, a prisão, considerando que o senhor sempre esteve à disposição da Justiça? Na sua opinião, há um certo abuso com relação às prisões, a sua e a de outras pessoas, eventuais?” Marcelo cortou a seu modo: “Eu aprendi com meu avô que as melhores respostas começam com as grandes perguntas, e eu agradeço muito as perguntas que o senhor está fazendo, porque elas seriam as minhas respostas.”
Corria o ano de 2013 quando Marcelo Odebrecht recebeu um parlamentar amigo em seu escritório, em São Paulo. O príncipe não era fã daquele tipo de encontro, mas o político, que havia sido alertado a esse respeito, insistiu e acabou conseguindo a audiência. O propósito da conversa era pedir ajuda para a campanha eleitoral, mas, lá pelas tantas, o parlamentar resolveu abordar um tema que o intrigava. “Marcelo, como é que você, um cara bom de conta, foi aceitar fazer esse Itaquerão?”
Até hoje o interlocutor se lembra da resposta do empreiteiro: “Rapaz, não tivemos como escapar. O Lula nos chamou e disse: ‘Vocês já ganharam muito dinheiro com a gente. Esse, vão ter de fazer.’” Itaquerão é como ficou conhecida a Arena Corinthians, localizada no bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. Entrou para a lista de estádios que abrigariam jogos da Copa do Mundo depois que o Morumbi foi considerado inadequado pela Federação Internacional de Futebol, a Fifa, em 2009. O projeto inicial do Corinthians estava orçado em 650 milhões de reais, mas o clube não conseguia crédito para contratar uma construtora. O prazo parecia cada vez mais curto para a conclusão das obras a tempo dos jogos. Depois da convocação de Lula, a Odebrecht aceitou a missão.
Nas contas da construtora, contudo, o estádio com todas as especificações exigidas pela Fifa não custaria menos que 1 bilhão de reais. A linha de financiamento do BNDES para arenas esportivas tinha como limite menos da metade desse valor: 400 milhões por empreendimento. Depois de uma série de reuniões e jantares entre Odebrecht, Lula, Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab, combinou-se que a prefeitura financiaria os outros 600 milhões com um fundo formado pela receita da venda de títulos imobiliários. Tudo no fio do bigode, pois, quando a obra começou, em junho de 2011, os títulos ainda nem existiam e tampouco havia um contrato de construção entre o Corinthians e a Odebrecht. Só noventa dias depois, no início de setembro, é que o vínculo contratual entre o clube e a construtora foi formalizado, num evento que teve a participação do ex-presidente. Lula fez questão de que Emílio e Marcelo Odebrecht comparecessem. Diante da torcida, manifestou sua gratidão. “Eu quero agradecer ao presidente do Corinthians, à diretoria do Corinthians, aos conselheiros do Corinthians, mas quero agradecer sobretudo ao dr. Emílio Odebrecht, presidente do conselho da Odebrecht, e ao Marcelo, presidente do grupo Odebrecht, porque foram duas pessoas que começaram a construir essa obra ainda sem o contrato assinado. Eles já estão trabalhando há noventa dias, e o contrato foi assinado hoje.” Quando terminou de discursar, a torcida gritava entusiasmada: “El, el, el, o Lula é da Fiel!”
Conceição Andrade é uma senhora baixinha de 62 anos, cabelos claros e olhar afirmativo. Trabalhou como secretária na Odebrecht entre 1979 e 1990. Quando começou na empreiteira, tinha um rosto de boneca, quinze quilos a menos, madeixas escuras e se preparava para o vestibular. Quarta dos seis filhos de uma dona de casa viúva que sobrevivia de pensão, a moça pagava os próprios estudos e ainda ajudava nas contas de casa. Queria cursar economia e tinha a convicção de que estava iniciando uma promissora carreira na mais importante empresa de Salvador.
Depois de alguns meses como auxiliar de serviços gerais, conseguiu uma vaga de secretária na gerência financeira. Todo dia, seu chefe, Antônio Ferreira, lhe ditava uma lista com nomes, codinomes e valores a serem pagos. Anos mais tarde, ele seria também chefe da secretária Maria Lúcia Tavares, a delatora que mudou o rumo das investigações sobre a Odebrecht. Ao lado dos nomes da lista, quase sempre havia a indicação de uma obra. Ela anotava tudo, preenchia as ordens de transferência bancária e, em seguida, passava a tomar as providências para que o dinheiro chegasse ao destino. De todas as tarefas que realizava no departamento financeiro, essa era a principal. “Os pagamentos eram a prioridade. Se eu estivesse fazendo alguma coisa e surgisse um pagamento para fazer, a ordem era parar tudo”, lembrou-se Conceição Andrade, em junho passado, durante uma conversa no escritório de um amigo, em Salvador. Andrade conhecia os nomes dos políticos e sabia que o dinheiro era propina, mas fazia como os outros funcionários do departamento: tratava tudo rotineiramente, sem nunca perguntar como nem por quê. “Eu sabia que estava fazendo uma coisa que não era legal. Mas a gente não falava sobre isso nem entre nós. Todo mundo tinha muito medo de tocar no assunto”, ela me disse. 
Naquela época o “departamento de propinas” ainda não era tão sofisticado. A maior parte dos pagamentos era feita por transferência bancária aos próprios políticos ou às contas dos gerentes das obras. Como na ocasião não havia operações pela internet, Andrade telefonava para a agência do Banco Econômico instalada no subsolo do edifício da empreiteira e listava as remessas do dia. 
Depois, ligava para os gerentes de obras e avisava do envio, para que retirassem o dinheiro de suas contas na empresa e entregassem diretamente aos beneficiários.
Por vezes, os políticos e agentes públicos preferiam ir pessoalmente à sede da Odebrecht para receber o dinheiro – ou os presentes, como o chefe de Andrade chamava. O próprio Ferreira os recebia em sua sala e entregava os pacotes. Conhecido pelo jeito expansivo e bem-humorado, o gerente era quem costumava inventar os codinomes. “Ele se reunia com os assessores dele e ia dando os codinomes, fazendo chacotas. As gargalhadas eram tão altas que às vezes eles colocavam a cara para fora da sala, para ver se alguém estava ouvindo.” É dessa época a alcunha Whisky, conferida a Jader Barbalho, do PMDB do Pará; e Almofadinha, apelido dado ao tucano Antônio Imbassahy, então no PFL. Fernando Sarney era “Filhão”, Sarney Filho, “Filhote”, Roseana Sarney era “Princesa”, e Edison Lobão, “Sonlo” (provavelmente a junção da última sílaba do nome com a
primeira do sobrenome). A lista era longa, com mais de 400 nomes, e abarcava desde gente insuspeita como o autor da emenda das Diretas Já, Dante de Oliveira (o Ceguinho), até parentes e assessores de governantes de Angola e do Peru, países por onde a Odebrecht começara sua expansão internacional.
Nessa época, anos 80, o PT ainda engatinhava. O poder estava nas mãos de caciques como Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, mas esses não frequentavam a planilha do departamento financeiro. “O pessoal falava que havia salas reservadas lá no 4º andar, onde ficava o escritório de doutor Norberto, só para receber os grandes – como o Geisel e o Figueiredo, na época da ditadura, e depois ACM, Sarney”, contou a ex-secretária.

Como se não bastassem os “presentes”, muitos beneficiários preferiam acompanhar in loco os fechamentos semanais das faturas das obras de que eram “donos” – ou seja, para as quais haviam contribuído com influência política. Andrade era uma das funcionárias que os recebia, sempre à noite, quando a maioria dos funcionários dos outros departamentos já havia ido para casa. Nessas ocasiões, os “donos” das obras se sentavam na sala do gerente financeiro enquanto esperavam que as faturas fossem fechadas. Assim ficavam sabendo exatamente quanto a empreiteira receberia naquela semana – e, portanto, o percentual que lhes caberia. Uma vez definidos os valores, as faturas eram imediatamente refeitas, de forma a acrescentar a propina no valor a ser cobrado dos órgãos públicos. Todo o processo tomava tempo, o que obrigava a jovem secretária a deixar as dependências da Odebrecht já de madrugada, algumas vezes por mês. “Eu saía exausta, mas pelo menos ia para casa de táxi pago pela empresa. Todos os taxistas da região me conheciam”, contou.
Afora esses benefícios, Andrade era vista como uma funcionária normal. “Naquela época, não havia investigação nem preocupação com nada. Eles sabiam o que estavam fazendo, mas tratavam com grande naturalidade. Era como se a empresa apostasse na impunidade.”
Em 1990, durante o tumulto financeiro provocado pelo confisco realizado pelo governo Collor, Conceição Andrade foi demitida em meio a uma onda de cortes de custos. No dia em que deixou o escritório, tirou de sua gaveta um conjunto de planilhas, guardou tudo numa caixa e levou a papelada para casa, depositando-a no fundo de seu guarda-roupa. Por décadas, cogitou entregar o material à polícia, chamar um jornalista para contar tudo ou incluir os papéis no processo trabalhista  que movia contra a empresa. Sempre desistia. Para ela, assim como para a maior parte dos baianos durante décadas, a organização era uma potência inatacável. Por muitos anos, Andrade acreditou ter tido sua defesa no processo trabalhista boicotada pelo próprio advogado, e até hoje está certa de nunca mais ter conseguido um emprego fixo por ter processado a empreiteira baiana. Só depois que Marcelo Odebrecht foi preso ela decidiu procurar um deputado federal que havia sido amigo de infância, o petista Jorge Solla, e entregou tudo a ele. “Foi quando eu me senti segura para entregar o que tinha. Achava importante mostrar que aquele esquema já acontecia havia muitos anos.”
E embora rudimentar, o método dos anos 80 já anunciava o que viria a ser o “departamento de operações estruturadas” dos anos 2000. Estavam lá as planilhas, os codinomes e o controle estrito de tudo o que saía e quando. Só não havia ainda registros de offshores na Suíça, banco no Caribe, investigações como a Lava Jato ou lei anticorrupção. E, embora a Odebrecht tivesse sido atingida por escândalos desde aquela época, tais casos costumavam gerar mais espuma do que consequências práticas.

O primeiro escândalo nacional envolvendo o nome da empresa aconteceu em 1987, quando o jornalista Jânio de Freitas revelou com antecedência na Folha de S.Paulo o resultado da licitação para a construção da Ferrovia Norte-Sul – obra orçada, à época, em 2,5 bilhões de dólares. A denúncia da Folha demonstrava que dezoito lotes da ferrovia haviam sido divididos por um grupo de empreiteiras, entre as quais a Odebrecht. Em vez de travarem uma disputa pelos lotes, oferecendo cada uma o menor preço possível, as empresas se organizaram em cartel e definiram os vencedores antes mesmo que os envelopes com as propostas oficiais fossem enviados ao Ministério dos Transportes. Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez também faziam parte do acerto e tinham como cúmplices membros do governo José Sarney. Com o escândalo, a concorrência foi anulada, mas o inquérito policial aberto para investigar a fraude nunca chegou a qualquer conclusão. Foi arquivado um ano depois.
O início da década de 90 foi tumultuado, com uma sequência de escândalos que abalariam a imagem da empreiteira. Logo nos primeiros dias de 1992, um ex-diretor do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) divulgou a gravação de uma conversa que tivera com o ministro do Trabalho,
Antônio Rogério Magri, na qual o chefe da pasta dizia ter recebido 30 mil dólares para liberar verbas do FGTS para “uma empresa que está fazendo obras” de “esgoto no Acre”. Como ministro, Magri era também o presidente do Conselho Curador do FGTS. A única obra de saneamento no estado, contratada pelo governo local e financiada com dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, era o Canal da Maternidade, orçado em 110 milhões de dólares, em dinheiro da época. A empreiteira era a Odebrecht, que negava ter dado dinheiro a Magri. A Câmara dos Deputados formou uma CPI, Comissão Parlamentar de Inquérito, e convocou para prestar esclarecimentos o então governador do Acre, Edmundo Pinto, político do antigo PDS. Na antevéspera do depoimento, no dia 17 de maio, o governador foi assassinado em um quarto do Hotel Della Volpe, em São Paulo, onde estava em viagem não oficial. Tinha 38 anos de idade.

Naquela mesma noite, no mesmo hotel e no mesmo andar, estavam quatro executivos da Odebrecht, que, segundo a empreiteira, haviam ido até lá para discutir, com o próprio governador, o depoimento que Edmundo Pinto daria na Câmara. A viúva deu entrevistas dizendo que o crime havia sido político, e o então governador do Paraná, Roberto Requião, declarou ter ouvido do colega acreano, semanas antes, que ele havia decidido “virar a mesa na CPI”.
A polícia paulista, porém, não encontrou evidências de crime político, e encerrou o caso concluindo que se tratava de um latrocínio. Dois rapazes confessaram o assassinato, um ex-funcionário do hotel e um comparsa. Disseram que pretendiam assaltar os hóspedes. Primeiro se dirigiram ao quarto de um americano, mas teriam encontrado pouco dinheiro. Então teriam entrado no apartamento do governador, que teria reagido. Pinto foi alvejado no coração e na cabeça. No final daquele mesmo ano, os assassinos confessos foram condenados a 26 anos de prisão.
A morte do governador do Acre e as investigações sobre o Canal da Maternidade ainda apareciam nas páginas dos jornais quando a Polícia Federal encontrou documentos mostrando que várias empreiteiras, entre elas a Odebrecht, haviam depositado dinheiro nas contas de uma empresa de consultoria de PC Farias, tesoureiro de campanha e eminência parda do governo Collor.
O caso PC tomou conta do noticiário. Entre as denúncias apuradas pela PF estava a de que PC havia intermediado a concessão de um financiamento do Banco do Brasil para obras da Odebrecht em Angola. O escândalo culminou no impeachment de Fernando Collor de Mello, mas nenhum diretor  da empreiteira chegou a ser indiciado ou processado.
Aqueles eram os primeiros anos de Emílio Odebrecht no comando do grupo. Quando apareceram as denúncias, ele mandou publicar notas oficiais refutando qualquer prática de crime e, depois do assassinato do governador do Acre, deu uma entrevista ao Jornal do Brasil se dizendo vítima de uma “armação” orquestrada por inimigos da empresa. A CPI do Canal da Maternidade continuou suas investigações e acabou levando à demissão de Magri – mas a Odebrecht mais uma vez saiu do processo sem arranhões.
Meses depois, a empresa seria arrastada para uma nova CPI, desta vez montada para apurar o pagamento de propinas com o objetivo de obter liberações de recursos do Orçamento federal. No final de 1993, a Polícia Federal apreendeu na casa de um dos diretores da Odebrecht em Brasília, Ailton Reis, dezoito caixas de documentos com nomes de políticos, acompanhados de percentuais e relatórios com informações sobre a Comissão de Orçamento do Congresso. Os papéis também registravam pedidos de dinheiro por parte dos políticos. 
Depois de avaliar o material, o senador José Paulo Bisol, do PSB, que havia sido candidato a vice-presidente na chapa de Lula em 1989, chamou a imprensa para dizer que havia encontrado provas
de que um grupo de empreiteiras formava um cartel para dominar as concorrências de obras públicas no país e obter recursos do Orçamento, à custa de propinas. Bisol chamou o que encontrara de “uma estrutura de poder, paralela e secreta, formada pelas empreiteiras”.
“Não é um poder paralelo. É superior. O Estado brasileiro é instrumento nas mãos desse poder”, disse o senador na ocasião. Mais de 200 políticos eram citados no material apreendido, e Bisol queria que todos fossem investigados. 
A Odebrecht revidou. Em nota oficial, criticou o “caráter político da apreensão”, que classificou como uma agressão a seus dirigentes. No mesmo dia, em tom beligerante, Emílio Odebrecht dava uma entrevista coletiva dizendo que o senador Bisol não tinha compreendido o conteúdo do material apreendido. Segundo o empreiteiro, a Odebrecht nunca negara contribuir para campanhas políticas, e sempre acompanhara abertamente os trabalhos de elaboração do Orçamento no Congresso Nacional. Os papéis nada mais eram do que documentos internos da holding Odebrecht relacionados a esse acompan hamento, alegou. O contra-ataque funcionou. Bisol manteve as declarações, disse ter recebido ameaças de morte, mas foi ridicularizado por colegas parlamentares e demovido da ideia de investigar todos os nomes citados na lista. Em seu relatório final, a CPI do Orçamento sugeriu a cassação de dezoito parlamentares. Ao final, apenas seis teriam o mandato cassado. Outros quatro renunciaram e os demais foram inocentados.
Nenhuma empreiteira foi incriminada.
Duas décadas mais tarde, as anotações do celular de Marcelo Odebrecht citavam uma certa “Armadilha Bisol” em meio a táticas de reação à Lava Jato. “Armadilha Bisol/contra-infos. RA?EA/Veja?”, dizia a nota enigmática.

Logo nos primeiros meses da Operação Lava Jato, a Odebrecht e as demais empreiteiras investigadas tentaram levar a cabo uma estratégia de defesa comum. Para coordená-la, convocaram um peso-pesado: ninguém menos do que Marcio Thomaz Bastos. O ex-ministro da Justiça de Lula chegou a reunir-se com o procurador-geral, Rodrigo Janot, em busca de um acordo de leniência conjunto, mas a ideia foi rechaçada pelos procuradores de Curitiba. Eles se sentiam seguros do seu poder de fogo e estavam prontos para lançar uma ofensiva contra as empreiteiras, a fase da Lava Jato batizada de “Juízo Final”, afinal deflagrada em novembro de 2014.

No final daquele mesmo mês, Thomaz Bastos morreu, vítima de problemas pulmonares. A partir daí, cada empreiteira foi para um lado. Num extremo ficaram a Camargo Corrêa e a utc, que já tinham executivos e acionistas presos e começaram a tentar um acordo com o Ministério Público. No outro, a Odebrecht, que apostava na estratégia tantas vezes bem-sucedida: negar tudo e partir para o confronto.
A estratégia de embate da empresa se desenrolava em várias frentes. Numa delas os advogados buscavam formas de anular a Lava Jato, por meio de liminares em tribunais superiores. Na arena 
pública, o grupo mantinha o mesmo discurso: a Odebrecht não buscaria nenhum acordo com os procuradores porque nada tinha a temer. A cada acusação veiculada na imprensa, notas oficiais eram emitidas, contestando veementemente toda suspeita – ou prova – que se levantasse. Foi assim, por exemplo, quando se anunciou que Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, afirmara em depoimento ter recebido 23,5 milhões de dólares da empreiteira em sua conta na Suíça. Veio a nota. A Odebrecht negava tudo.
Por via das dúvidas, os advogados da empresa começaram, nessa mesma época, a preparar executivos do grupo para possíveis depoimentos, em caso de prisão. O esforço incluía o chefe, Marcelo, mas as sessões não eram fáceis. A todo momento ele se recusava a suprimir determinadas falas das declarações ou, pelo contrário, insistia que determinadas coisas não deveriam ser ditas.
Logo os defensores desistiram do treino. Marcelo Odebrecht era “impreparável”.
Houve também jogadas subterrâneas. Entre outubro e novembro de 2014, em plena campanha eleitoral, advogados da Odebrecht encontraram-se às escondidas, em Curitiba, com policiais insatisfeitos com a direção da Polícia Federal. Segundo depoimentos de um inquérito sigiloso da corregedoria da PF, um desses dissidentes havia procurado os representantes da empresa oferecendo informações sobre irregularidades que poderiam levar à anulação da operação.
Ocorreram várias reuniões, mas os tais dissidentes não conseguiram produzir muito mais do que uma coleção de cópias de páginas do Facebook dos principais delegados da Lava Jato, páginas em que eles atacavam Dilma Rousseff e o PT e elogiavam o tucano Aécio Neves. Os papéis foram entregues ao O Estado de S. Paulo e ajudaram a abalar a imagem da operação, mas não eram suficientes para produzir a nulidade jurídica desejada. Meses mais tarde, quando apreendeu o telefone celular de Marcelo Odebrecht, a Polícia Federal constatou que ele anotara, num tópico sobre a Lava Jato: “Trabalhar para parar/anular (dissidentes PF…).”
Engajado no esforço anti-Lava Jato, Marcelo tomou para si algumas iniciativas. Procurou representantes de empresas que, como ele, eram contra os acordos de delação, e também jornalistas de grandes veículos, a fim de convencê-los da tese de que havia um complô envolvendo Ministério Público, PT e governo Dilma para prender os empreiteiros e deixar soltos os políticos. Não funcionou.
No mercado e na mídia, a pergunta que mais se fazia na virada de 2014 para 2015 era justamente por que os executivos das outras empreiteiras estavam presos, e os da Odebrecht não. Marcelo, então, cogitou montar armadilhas para os jornalistas. No final de janeiro de 2015, fez uma encomenda ao presidente e diretor financeiro da Odebrecht Óleo e Gás, revelada meses mais tarde, quando os computadores da organização foram apreendidos: “Veja se vcs conseguem produzir esta semana (até 4a) um ‘dossiê’ contra nós, com todas as ‘offshores’ da org. Inclusive com detalhes de algumas transações que possam parecer importantes. Um dossiê que parece que pode ‘nos destruir’,mas que na prática são todas offshores legais.”

Em seguida, dirigiu-se aos seus assessores de imprensa: “Vcs têm que encontrar alguém (sem ligação conhecida conosco) que possa entregar este dossiê à Época na 5a feira pela manhã (para não dar muito tempo de checar), dizendo que ou publicam na próxima edição ou que vai dar para outro.

Pode ser alguém de outra empreiteira dizendo que ‘quer nos envolver no rolo todo’. E já preparem a resposta forte a ser dada de nossa parte para desmoralizá-los totalmente na semana seguinte. Inclusive enviarei nossa resposta a João Roberto Marinho.”
A troca de e-mails se encerra algumas mensagens adiante, com uma conclamação do chefe:
“Precisamos partir para uma guerra de guerrilha!” O plano, contudo, acabou não indo adiante. Não se sabe que caminho ele tomou dentro da empresa, mas de toda forma o tal dossiê nunca chegou à equipe da revista Época, segundo seu diretor de redação, o jornalista João Gabriel de  Lima. As informações que surgiam na imprensa nesse período tinham, na verdade, o efeito inverso ao que Marcelo desejava. Se havia “guerra de guerrilha”, ele estava perdendo. Em junho de 2015, o BNDES tornou públicos os dados de financiamentos concedidos a obras brasileiras no exterior. Até então, os números eram mantidos em sigilo. Soube-se aí que, dos 11,9 bilhões de dólares liberados pelo banco entre 2007 e 2015, 8 bilhões tinham ido para a Odebrecht. Só para o porto de Mariel, em Cuba, o empréstimo alcançava 680 milhões de dólares. A polêmica em torno dos dados recém-revelados tirou Marcelo do sério. “Estou irritado por estar na linha de fogo do debate político”, declarou, em meados de junho, durante um seminário do jornal Valor Econômico. “Não fizemos nada de ilegal ou imoral.” Foi a última vez em que ele participou de um evento público.
O próprio Marcelo Odebrecht abriu a porta de casa, em São Paulo, para os agentes da Polícia Federal, na manhã do dia 19 de junho de 2015, uma sexta-feira. Usava bermuda e tênis e se preparava para os exercícios matinais. Ao entender do que se tratava, balbuciou uma ironia, algo como “vocês demoraram”, e os deixou entrar. Naquele momento, outros 220 agentes estavam espalhados pelo Brasil cumprindo 38 mandados de busca e apreensão e outros oito de prisão. No pacote também estavam incluídos escritórios e executivos da Andrade Gutierrez, mas o foco principal era mesmo a Odebrecht. Entre os que foram abordados pelos policiais, houve quem tentasse fugir, quem chorasse ou se desesperasse. Marcelo manteve a fleuma.
Em meio às buscas em sua casa, quando um dos agentes quis mostrar um documento ao delegado e o chamou – “Chefe!” –, o príncipe dos empreiteiros foi o primeiro a responder. Só depois notou que não era com ele.
Diante do fato consumado, tentou ter o controle da situação. Antes ainda de ser transferido para Curitiba, no auditório da superintendência da PF em São Paulo, na companhia dos demais detidos, Marcelo já lia o despacho que determinou sua prisão. Quando advogada Dora Cavalcanti chegou, ele mal esperou que ela sentasse ao seu lado para começar a apontar problemas no documento.
Na cadeia, isolado, procurou manter a rotina regrada e os mesmos hábitos de antes. Acordava ainda de madrugada para se exercitar. Fazia abdominais, barra e até mesmo corria, quando as grades entre a sua cela e o espaço comum eram abertas, oferecendo alguns poucos metros a mais para a prática do cooper. Todo dia anotava os exercícios feitos e o número de vezes que os praticara. Em julho de 2015, quando foi transferido para o Complexo Médico-Penal, na região metropolitana de Curitiba, passou a ter acesso a um espaço maior para o banho de sol e tentava atrair outros presos, como o ex-ministro José Dirceu, para a atividade física. Na maior parte do tempo, porém, ficava sozinho. Lia os próprios processos e fazia anotações para a defesa, que transmitia, durante a visita diária, a uma advogada destacada especialmente para isso.
Apesar da combatividade dos advogados, aos poucos foi ficando claro para a defesa da Odebrecht que não seria fácil tirar da cadeia Marcelo e seus executivos. O primeiro pedido de libertação, feito logo após a prisão, foi considerado sem efeito em poucos dias, porque um agente da carceragem de Curitiba apreendeu um bilhete de Marcelo para seus advogados em que se lia, entre outras instruções: “Destruir e-mails sondas.” Embora a Odebrecht sustentasse que o termo “destruir” significava apenas tentar desconstruir a validade de um e-mail como prova, o juiz Sergio Moro considerou que ali havia indícios de que o empreiteiro pretendia obstruir a investigação.
Decretou nova prisão preventiva, e a defesa teve de recomeçar seu trabalho, redigindo um novo pedido de habeas corpus. Só em outubro de 2015 o Tribunal Regional Federal de Porto Alegre se manifestou sobre o caso, negando o recurso.
A defesa recorreu, desta vez ao Superior Tribunal de Justiça, e por um tempo acreditou-se que lá o pedido seria atendido. Meses depois, o então senador Delcídio do Amaral diria, em sua delação
premiada, que naquele período a presidente Dilma Rousseff havia autorizado uma negociação heterodoxa entre o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o presidente do STJ, Francisco Falcão.
De acordo com Delcídio, Falcão teria garantido a Cardozo que, se a presidente nomeasse um aliado seu para a vaga aberta na câmara que julgaria o recurso de Marcelo, ele conseguiria os votos suficientes para soltar o empresário. O apadrinhado, Marcelo Navarro Dantas, foi nomeado e votou pela libertação, mas os outros ministros foram contra. Cardozo, Dilma e a própria empreiteira sempre contestaram veementemente as afirmações de Delcídio. Na bolsa de apostas sobre o que constará da delação da Odebrecht, o esclarecimento sobre esse episódio é dado como um dos mais prováveis “anexos de Marcelo”.

Semanas depois da primeira derrota dos recursos da Odebrecht, no final de setembro de 2015, 
Emílio desembarcou em Curitiba para visitar o filho. Como não estava na lista de pessoas autorizadas a ingressar no Complexo Médico-Penal, recebeu uma autorização especial, por “razões humanitárias”, para entrar no presídio. Depois que Marcelo foi preso, Emílio, com 70 anos, voltou ao dia a dia do grupo. Estava preocupado com o futuro dos negócios e também com o destino do filho – cada vez mais parecia que Marcelo não teria data para sair dali. Com jeito, sugeriu começarem algum tipo de negociação com o Ministério Público. Naquele momento, porém, o príncipe ainda não admitia ouvir falar no assunto, e continuou resistindo mesmo quando, dias depois, o mesmo pedido foi feito pela mulher e pelas filhas. Depois daquela visita, pai e filho não se viram mais. 
“O senhor prefere falar ou o senhor prefere ficar em silêncio?” O juiz Sergio Moro, da 13a Vara Federal de Curitiba, abriu com essa pergunta o primeiro depoimento de Marcelo Odebrecht depois de preso.
Era 30 de outubro de 2015. Depois de 133 dias na cadeia usando apenas moletons e tênis, o empreiteiro voltara a vestir terno. Estava cercado de advogados. Não parecia cansado nem abatido.
“Peço respeitosamente para fazer algumas considerações iniciais”, disse. Moro aquiesceu. “Eu queria reiterar que minha intenção é e sempre foi de colaborar com as investigações.” O desabafo seria longo. “Em retribuição a isso, o que eu vi? Prisões preventivas, uma sobre outra, buscas e apreensões, interceptações telefônicas e telemáticas; inclusive de minha família. Inclusive de minhas filhas menores de idade. Quebra de sigilo fiscal e bancário. Bloqueio de bens…”
Marcelo balançava a cabeça em tom de reprovação. O juiz interrompeu. “As suas filhas não foram interceptadas, sr. Marcelo.” O empresário parecia ter decorado sua fala, e não queria ter de fazer nenhum detour. “Se me permite, Vossa Excelência pode depois esclarecer isso…” Moro insistiu: “O senhor disse que foi e eu estou esclarecendo.” Marcelo continuou a falar. “Todas as medidas extraordinárias que causam transtorno enorme – não é só à minha família, mas a várias pessoas –, elas foram tomadas em cima de especulações que talvez não tivessem prevalecido se os investigadores tivessem se dado ao trabalho de me ouvir. Tá? Olha, mesmo após a extensa devassa que foi feita na minha residência, nas empresas Odebrecht, absolutamente nada ficou provado contra mim. Não surgiu qualquer evidência que justificasse a minha prisão preventiva.” 
Na prática, o mais importante empreiteiro do país estava dizendo a Sergio Moro que suas decisões eram infundadas e despropositadas. O juiz voltou à carga. “Essas contas no exterior que o mp afirma que seriam da Odebrecht?” Marcelo resistia. “Vossa Excelência, se o senhor permitir, é importante para mim fazer essas considerações iniciais.” Durante dezessete minutos, Marcelo espinafrou o trabalho do juiz. Por se considerar alvo de “publicidade opressiva” – nome que os teóricos do direito dão à espetacularização dos processos criminais pela mídia –, ele disse que preferia entregar sua defesa por escrito. “Mas não deixarei de forma alguma de esclarecer a todos os questionamentos contidos na minha denúncia. Tá? Por isso, para melhor expor a minha defesa, eu estou encaminhando por escrito, de forma detalhada, mas de-ta-lha-da, resposta a todos, absolutamente todos os fatos que me são imputados, inclusive em relação às anotações pessoais, para que não fique nenhuma dúvida sobre a minha inocência. Certo?” 
O texto de dezenove páginas, escrito em forma de perguntas e respostas formuladas pelo próprio Marcelo, na verdade não respondia às indagações de Moro. Tampouco citava as contas que, segundo os ex-funcionários da Petrobras Pedro Barusco e Paulo Roberto Costa, haviam sido usadas pela Odebrecht para pagar mais de 16 milhões de dólares em propinas. 
Além de não confessar e de não delatar, Marcelo também se recusava a abandonar o comando do grupo Odebrecht. Os outros quatro executivos da organização que haviam sido presos com ele tinham pedido demissão imediatamente. O empreiteiro, não. Embora em seu lugar estivesse um executivo experiente – o ex-diretor jurídico Newton de Souza –, Marcelo ainda era o presidente.
Assim, por seis meses, o líder maior da Organização Odebrecht foi um hóspede do sistema carcerário. 

Foi só em dezembro de 2015, quando o STJ negou o último recurso da Odebrecht, que Marcelo afinal renunciou ao cargo. A percepção de que o empreiteiro e seus homens de confiança passariam o Natal e o Ano-Novo na cadeia baixou o moral da família e da empresa. Quando 2016 começou, a necessidade de um acordo com o Ministério Público tornou-se evidente para todos – ou quase todos.
Os advogados da Odebrecht se reuniam com os procuradores e sondavam o terreno, mas as conversas não andavam. Faltava convencer o chefe da organização. Foi só quando ficou claro que os detalhes de funcionamento do “departamento de propina” haviam sido descobertos que Marcelo Odebrecht afinal cedeu às pressões da família, que o queria ver em liberdade, e dos executivos da empresa, que procuravam salvá-la da bancarrota.
O frio daquela manhã curitibana, no final de setembro, parecia ainda pior na carceragem da Polícia Federal, com suas paredes de concreto aparente. Mesmo assim Marcelo Odebrecht, normalmente quieto e monossilábico, estava falante e animado. Aquele era o dia marcado para a sua terceira reunião com a força-tarefa da Lava Jato. Ainda não eram os depoimentos formais da delação. Os procuradores preferiam chamar de entrevista.
Meia dúzia de procuradores de Curitiba e de Brasília, assessores diretos do procurador-geral, Rodrigo Janot, e os advogados da Odebrecht ocupavam uma sala reservada especialmente para a ocasião, com 25 cadeiras azuis organizadas como numa sala de aula. Passariam horas ouvindo, do próprio empreiteiro, as histórias que Marcelo estava disposto a contar para selar o acordo de delação premiada.
O que se negociava, naquela sala, eram os detalhes do conteúdo da delação e um acordo de leniência entre a Odebrecht e o Estado brasileiro, representado pelo Ministério Público. Desde que a empresa se declarara disposta a uma “colaboração definitiva”, cinco meses antes, vários impasses já haviam sido superados. Emílio Odebrecht, que de início tentara ficar de fora do acordo, acabou aceitando falar, e já dera a sua própria entrevista ao mp. A intenção da empresa de tentar classificar todos os pagamentos a políticos como mero “caixa dois” – e não como propina em troca de favores e contratos –, repelida desde o início pelos procuradores, também já fora superada. Marcelo Odebrecht também já havia entendido que não poderá voltar mais a trabalhar no grupo que presidiu.  
Aos poucos, aparavam-se as arestas. Faltava, porém, discutir temas cruciais para o acordo, como o valor da multa a ser paga pela empreiteira – o Ministério Público quer mais de 5 bilhões de reais; advogados de defesa acham que conseguem fechar por 3,5 bilhões – e a data de libertação de Marcelo Odebrecht – o empreiteiro gostaria de ser solto imediatamente, mas os procuradores preferem mantê-lo preso até que se completem três anos de cadeia, em junho de 2018. Apesar das indefinições, praticamente todos os envolvidos consideram a delação da Odebrecht um passo sem volta. Havia, de toda forma, algo muito particular naquela negociação a portas fechadas, em Curitiba. Em barganhas anteriores, do mesmo tipo mas com outras empresas, era comum que policiais federais fossem chamados para ajudar, já que conheciam as investigações por dentro e em detalhes – logo,  podiam auxiliar nos interrogatórios e na pressão exercida sobre os candidatos a delatores. Não foi o que aconteceu no caso da Odebrecht. As conversas se deram na sede da Polícia Federal, é verdade, e delas participava um detento sob custódia da PF, mas os policiais ficaram do lado de fora da sala.
Desde o início, os federais haviam sido resistentes a um acordo com a empreiteira. Achavam que, numa troca de pena por informações, só a Odebrecht tinha a ganhar, já que acreditavam ser capazes de descobrir, por conta própria, tudo o que a empresa poderia contar. Queriam também ver o empreiteiro o maior tempo possível atrás das grades: consideravam simbólico e importante que Marcelo Odebrecht cumprisse toda a pena. Ciente do “ânimo da tropa”, o procurador-geral achou melhor não incluí-los nas conversas. Janot deu ordem expressa aos procuradores para que não contassem nada aos policiais. Marcelo, é claro, também foi instruído a manter segredo sobre o que estava sendo dito e negociado. Ele fazia questão de deixar isso claro sempre que um agente ou delegado tentava obter alguma informação dele a esse respeito: “Desculpe, doutor, mas eu assinei um acordo de confidencialidade; não posso comentar”, dizia, sem esconder certo prazer com a situação. 
Era como se o empreiteiro, depois de tanto tempo isolado não apenas do mundo, mas também da própria Odebrecht, tivesse retomado certo protagonismo. Depois de meses de silêncio e mau humor, ele parecia circular mais leve pela carceragem. Até antigas rusgas com o doleiro Alberto Youssef, primeiro preso na Operação Lava Jato, primeiro delator e dono do único aparelho de tevê de sua ala, haviam diminuído. De vez em quando os dois assistiam juntos ao Jornal Nacional.
O ânimo de Marcelo Odebrecht no dia da reunião com os procuradores contrastava com o baque que sua empresa havia sofrido – mais um – na véspera. Na segunda-feira, dia 26 de setembro, a Polícia Federal realizara nova operação. Batizada de “Omertà”, tinha como alvo principal Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda sob Lula e chefe da Casa Civil no governo Dilma – era ele o “Italiano” das planilhas apreendidas com a secretária Maria Lúcia Tavares. A denúncia apresentada ao juiz Sergio Moro para justificar aquela fase, quase toda redigida pelos delegados da PF, sustentava que Palocci agia como intermediário dos interesses da Odebrecht. Em troca, dizia o documento, o ex-ministro havia recebido 128 milhões de reais do caixa de propinas da empresa, e distribuíra parte do dinheiro ao PT. Com 193 páginas, a denúncia expunha, na íntegra, dezenas de e-mails, codinomes e um número impressionante de detalhes do que descrevia como “a maior máquina de lavagem de dinheiro que a Lava Jato já descortinou” e um “esquema de produção de corrupção em escala global”.

Entre as mensagens apreendidas, Marcelo aparece dando instruções sobre pagamentos de propina e oferece relatos de suas reuniões com o primeiro escalão dos governos Dilma e Lula. Num dos emails, comenta uma derrota da Odebrecht: a Justiça havia frustrado a pretensão da empresa de obter determinadas isenções de impostos. Na mesma mensagem, contudo, o príncipe comunica a seus subordinados que o ex-ministro Palocci havia lhe pedido uma lista de providências que o governo pudesse tomar para compensar as perdas da Odebrecht com o revés judicial. O empreiteiro encarrega executivos de preparar a tal lista de compensações e comemora: “Vamos ganhar mais agora do que se tivéssemos ganhado” na Justiça.  
Nos dias que se seguiram à revelação dessa conversa, Marcelo Odebrecht não se queixou da exibição de seus e-mails. Tampouco reclamou da operação na entrevista com os procuradores, que o descreveram como tranquilo e resignado. A Odebrecht também assistiu à Omertà sem dizer nada.
Nenhuma nota oficial foi emitida, nenhuma declaração pública foi divulgada. A empresa parecia, finalmente, ter aprendido qual era o lado forte daquela negociação.
Até o final de setembro, ninguém se arriscava a estimar uma data para o fechamento de um acordo formal entre a Odebrecht e a Lava Jato. Havia, contudo, a expectativa de que o processo caminhasse com rapidez. Uma vez concluída a lista de temas a serem esclarecidos, ainda será necessário enviá-la ao Supremo Tribunal Federal para ser homologada pelo ministro Teori Zavascki, responsável pelos processos da Lava Jato. Só então começarão a ser tomados os depoimentos oficiais de todos os delatores, incluindo vários executivos da empresa. Só então se poderá saber quando Marcelo Odebrecht sairá da cadeia e só então será possível estimar, com um pouco mais de segurança, quais são as chances de recuperação do grupo Odebrecht. 
De uma coisa, apenas, já se tem certeza em Curitiba. Ao terminar, o acordo terá produzido o maior inventário da corrupção já realizado na história do Brasil. Não é o destino para o qual o príncipe foi talhado. Mas não deixa de ser um feito.

Editora Record----MALU GASPAR