terça-feira, 23 de agosto de 2016

Como vencer Usai BOLT....(web)

Meme  (Foto: Reprodução)

UFA. E AGORA, JOSÉ?, por MARLI GONÇALVES

Não olha para mim que eu também não sei. Confesso que vivi e confesso que não sei. Fui consultar para que lado o vento vai soprar e não consegui qualquer precisão, ainda está tudo virando doido, pra todos os lados, igual biruta de aeroporto, sem direção

O Hino Nacional bastante cantado, bra-bra-brá, todo mundo de verde e amarelo para lá e para cá sem ser por isso chamado de coxinha, batendo no peito e gritando Brasil! Brasil! Certa sensação de Pátria, de dever cumprido e um enorme alívio, como se tivéssemos passado as duas últimas semanas segurando o ar, sem respirar. É isso que o povo não entende por que que aqui deu tanto pano para manga o caso do nadador Pinóquio e seus amigos. Orgulhinho nacional ferido; teria sido muito chato se fosse verdade. Agora é o banzo.
Charge de Miguel
Haverá Engov para tanta ressaca? O Rio de Janeiro vai continuar lindo. As pessoas vão continuar fazendo coraçãozinho com a mão cada vez que virem uma câmera. Mais umas duas semanas de entrevistas e histórias de superação, mordendo a medalha que todo mundo quer pegar, um pouco de descanso, e lá os atletas voltarão para suas dificuldades cotidianas. O país é o Brasil, onde a dificuldade é cotidiana para todos, ou quase todos.

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou...Drummond, como conseguia escrever coisas tão verdadeiras e belas? Que andam vigorosas pelo tempo, mandando pôr os pés no chão depois da euforia, da distração, das novidades de um momento que, pronto, passou para a História. Arquive-se.

Nesse meio tempo, se você andou longe atrás de alguma bolinha, tatame pista, estádio ou assemelhado, pouca coisa diferente aconteceu, como se elas ficassem em suspensão para não dividir o escasso espaço no noticiário. Só o mesmo de sempre. Mulheres mortas por seus (ex) companheiros, empresas de valores e caixas eletrônicos explodidos, acidentes horríveis nas estradas, pavios acesos nas cadeias, o pastor deputado desmascarado, o tempo com uma variação térmica dramática, candidato topetudo americano expelindo sandices, mortes de gente muito legal e outros nem tanto. No dia que a criatura foi divulgar a carta que escrevia há três meses - sacanagem - foi atropelada por um pedido de investigação vindo da Corte Suprema.

Pronto, está atualizado. E o que vem pela frente?

Ah, na política nacional deram passadas largas para definir o futuro da presidente Dilma, afastada, lembra dela? - esperando o julgamento final do Senado, tudo agora para se definir por esses próximos dias. Ela, completamente abandonada, no meio de um turbilhão que se forma no horizonte das delações premiadas e que as primeiras informações dão como devastador em todas as direções. Um pouco mais de um mês para definir as eleições municipais, pobres e estraçalhadas, e que nenhum deles, dos candidatos, tem bem noção do que vai fazer, além do retrato do santinho.

Não há Arca de Noé capaz para salvar esses espécimes fruto de uma cópula entre ideais perdidos e o mundo cruelmente real.

Esse jogo é mata-mata. A oposição que era governo, e que gerou sua própria sina, na verdade a oposição que sobrar porque boa parte já se acomodou de novo na boca do dragão, continua apostando no romantismo, soluçando golpe, segurando cartaz de Fora! Botaram areia movediça no chão do poder.

Não veem que talvez já já pode ser chegada a hora de dar ordens objetivas, mais gerais e compreensivas a todos, palavras de ordem, uma, duas, três ou todas juntas, e que elas venham em maior uníssono mostrando que ainda realmente não estamos contentes. 

Lembro-me de uma linda luta que foi assim - Diretas Já!

Arte de CHICO Caruso

Charge (Foto: Chico Caruso)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A agora?, Elton Simões

Comentario inodoro---o Elton, vivendo no exterior esqueceu a maxima da patropi que diz--Sou Brasileiro, profissao Esperança!---

Foi bonita a festa. Foi inferior a outras edições. Mas Fiquei contente. . Tudo foi certamente menos do que havíamos prometido. Obviamente mais do que a gente se julgava capaz.

Não houve catástrofe. Dentro da bolha, as coisas funcionaram razoavelmente. Nada perfeito. Tudo mais ou menos. Mas ficamos satisfeitos. Comemoramos o sucesso. Surpreendemos a nós mesmos. Tratamos improviso como virtude e fomos em frente. Esperar pouco parece ser receita certa para viver agradavelmente surpreso.

Quando preciso, fomos à luta. Defendemos com galhardia o Biscoito Globo. Desmascaramos atletas mentirosos. As instituições, pelo menos em relação a falsos assaltos, parecem estar funcionando regularmente. Comemoramos.

Tudo isso não deixa de ser irônico. Um país que planejava usar a festa como ferramenta de inserção no clube dos países sérios, viveu a festa em clima de distopia. Mostrou somente que que era capaz de, com muito sacrifício, e apesar de suas próprias mazelas, fazer o mínimo pelo máximo custo. Mesmo sem atingir nossos auto-propostos objetivos, ficamos contentes. Mesmo pagando caro por cada sorriso, cada vitória.

Olhando para frente, talvez a festa não tenha valido a pena. E é improvável que a gente tenha aprendido com nossos erros. Faz muito tempo que a gente perdeu a capacidade de fazer as perguntas certas no tempo certo.

Mas agora isso é passado. Agora acabou a festa. Voltamos ao cotidiano, forcados a enfrentar os mesmos problemas que permitimos ignorar por algumas semanas. 
Voltamos a vivenciar a carência, o generalizado vazio de homens e ideias.

A realidade é implacável. Sempre se impõe. A noite esfriou, o dia não veio, não veio a utopia, e tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou. 
E, ao fim e ao cabo, quando o efeito da alegria efêmera da festa sem limites passar, restara somente o concreto. E a dívida. E gente a se perguntar: e agora?

Elton Simões--Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).


BRASIL DETONA ITÁLIA, FAZ 3X0 E CONQUISTA O OURO NO VÔLEI MASCULINO


SELEÇÃO JOGA DE FORMA BRILHANTE E SE TORNA TRICAMPEÃ OLÍMPICA. FOTO: INOVAFOTO
Na quarta final seguida, o Brasil despachou a Itália e conquistou o ouro do vôlei masculino, duas pratas, mais um ouro. 
A sequência impressionante de quatro finais olímpicas do vôlei masculino acabou coroada neste domingo, nos Jogos do Rio, do mesmo jeito como começou. Assim como em 2004, uma vitória sobre a Itália na decisão valeu o título, o terceiro da história. 
Mas ao contrário das duas ocasiões anteriores, veio em casa, com Maracanãzinho lotado em êxtase para conduzir a equipe a vencer por 3 sets a 0, com parciais de 25/22, 28/26 e 26/24, e repetir as façanhas de Barcelona, em 1992, e de Atenas, há 12 anos.
Os vices em 2008, para os Estados Unidos, e 2012, para a Rússia, fizeram o público cantar mais forte "o campeão voltou" nos instantes finais. Mais do que enfatizar o retorno do ouro ao peito dos brasileiros, significa exaltar o poderio verde-e-amarelo na modalidade. O Brasil acumulou a décima medalha olímpica de vôlei na história, a quinta de ouro. Somente União Soviética e Rússia juntas, com 19 medalhas, foram mais premiadas.

A torcida teve a presença de Neymar. No dia seguinte à conquista inédita do ouro olímpico o atacante do Barcelona se sentou na primeira fileira do Maracanãzinho e ao aparecer no telão do ginásio, teve o nome gritado pela animada plateia. A euforia pela final atingiu o ápice da comoção, com o grande número de bandeiras, as comemorações a cada ponto e a coreografia ritmada pelas músicas escolhidas pelo DJ do ginásio.

Junto com o auge da animação da torcida ao longo de oito jogos, a seleção atingiu o topo das suas atuações. Antes quase eliminada na fase de grupos, avançou em quarto lugar da chave para apresentar na decisão o melhor do repertório. Força no saque como nunca antes havia se visto, tranquilidade nos momentos de pressão e a defesa para anular o temido ataque italiano.

O Brasil chegou ao recorde de quatro finais seguidas no vôlei diante da adversária com quem iniciou a série de decisões. A Itália tinha para a disputa ingredientes a mais do que somente o ouro para se motivar. Valia o título inédito para um país potência no modalidade e disposto a vingar a derrota em Atenas, em 2004. A equipe confiava no retrospecto de ter vencido o rival na primeira fase e apostava em Zaytsev, o segundo maior pontuador do torneio, atrás só de Wallace.

O italiano, filho de ex-jogador russo campeão olímpico em 1980, não ameaçou tanto no primeiro set, fechado em 25 a 22 em um erro de saque dele. O Brasil começou atrás e engrenou após vencer disputado rali para igualar em 12 a 12. A força do saque foi decisiva para desequilibrar o início da final. Só no primeiro set foram cinco aces brasileiros, dois deles de Lucarelli. Na semifinal contra a Rússia, por exemplo, foram dois pontos nesse fundamento durante todo o jogo.

O saque continuou forte no segundo set, importante para responder ao ataque italiano. Zaytsev passou a dar mais trabalho junto com Juantorena. Os dois concentravam mais da metade dos pontos e ao fazer o time equilibrar a partida, criou no ginásio o temor da repetição do confronto anterior, pela primeira fase, a vitória da Itália de virada por 3 sets a 1. Mas após salvar dois set points, os italianos não evitaram nova vitória, dessa vez por 28 a 26.

No set seguinte, a luta era para conter a ansiedade. A cada ponto a medalha ficava mais perto, porém a Itália não tinha desistido, mesmo com 2 a 0 contra. O bloqueio ficou mais forte, assim como as reclamações contra decisões de arbitragem. No jogo de nervos prevaleceu quem tinha menos a perder naquele momento. Quando os erros adversários pareciam pesar a favor do Brasil, o ginásio reforçou o apoio.

O símbolo da conquista foram os pontos finais do terceiro set. A torcida ficou em pé, assim como Neymar, acompanharam o desenrolar da partida, empatada em 23 a 23. Teve vaia para os saques italianos, vibração com os match points e emoção junto com os jogadores para celebrar o ponto final. Um bloqueio encerrou a final com comemoração coletiva. Voluntários, atletas, comissão técnica e torcida fizeram virar carnaval a final olímpica, fechada em 26 a 24.

domingo, 21 de agosto de 2016

O dia seguinte, por Dorrit Harazim

Thiago Braz comemora a medalha de ouro depois do seu salto de 6,03cm (Foto: Reuters)
Vai dar saudade deles. Foram lindos de ver em todas as suas muitas configurações — tivessem porte de mastim ou pernas que chegavam à altura das axilas. O britânico William Harvey, grande figura da medicina de seu tempo, não se referia a atletas quando descreveu o movimento animal como “música silenciosa do corpo humano”. Mas é em Jogos Olímpicos que a capacidade ou não de controlar esse movimento com a mente fica de monstrada em toda sua plenitude. Na Rio 2016 não foi diferente.

O pódio do salto com vara masculino proporcionou o retrato-síntese das 11.547 variáveis individuais com que os atletas de 207 países desembarcaram para disputar suas provas. No topo do pódio, o jovem brasileiro Thiago Braz, de 22 anos, sereno apesar de calouro em Jogos e contido apesar de ter batido o recorde olímpico. No degrau mais baixo, o americano Sam Kendricks, com ar de felicidade planetária acarinhando o bronze que para ele valia ouro.

No degrau reservado ao medalhista de prata, um homem amargo, devastado e instável de 27 anos. Renaud Lavillenie não fracassara na prova em si — não se pode chamar de fracasso uma clássica derrota para um adversário que lhe fora inegavelmente superior. A grande derrota autoinfligida de Lavillenie foi não aceitá-la. O francês tem farta companhia na negação, apenas o que se revelou mais mesquinho e rancoroso.

A valquíria holandesa Dafne Schippers, atual campeã mundial dos 200 metros, também odiou ser atropelada em 0,13 de segundo por um furacão jamaicano chamado Elaine Thompson. Mas tratou de escancarar logo o tamanho da decepção. “Péssimo. A prata para mim não vale nada. Vim aqui para levar o ouro”, disse a atleta, ao sair da pista descalça, tendo usado a sapatilha como projétil de descarrego da raiva. E foi em frente.

Não só quedas do Olimpo testam o equilíbrio físico e emocional de atletas. Despedidas em triunfo também podem ser difíceis de administrar depois de apagada a pira olímpica. Uma coisa é ser Usain Bolt e conseguir transformar o encerramento da carreira numa festa de arromba para 3,5 bilhões de convidados. Outra é voltar para casa em glória, sem ser Bolt.

Dependendo do naco de vida despendido para chegar ao topo, são inúmeros os casos de campeões graúdos que perderam o rumo diante do vazio uma vez alcançada a tão cintilante meta. Depois de um ouro olímpico apenas outro ouro olímpico tem valor — não há campeonato mundial que tenha peso ou simbolismo equivalente.

Só que para muitos esportistas a perspectiva de ter de esperar mais quatro anos para talvez, muito talvez, voltar ao topo é por demais cruel. Ninguém menos do que Michael Phelps ficou sem rumo após conquistar oito ouros em Pequim. Superou o vazio, somou mais quatro pódios em Londres e viu-se novamente à deriva, desta vez com depressão. Por sorte, conseguiu se reerguer na vida e na água, para a doce despedida das piscinas no Rio, com mais cinco ouros, uma prata e um baita sorriso.

Um pouco como o atleta de elite descrito por F. Scott Fitzgerald em “O grande Gatsby”, também Greg Louganis, nome maior do salto ornamental, despencou para o que chamou de “inexplicável fundo do poço”, seguido de tentativa de suicídio. “Só não tive depressão nem nada parecido porque eu mesmo decidi ficar fora d’água por seis meses depois dos Jogos de Barcelona e Atlanta”, conta o grande velocista dos 50m e 100m nado livre, Alexander Popov, que só voltou a nadar quando se sentiu “faminto, desesperado por treino”.

Ele diz ter descoberto em tempo hábil que no hard drive do seu cérebro ainda sobrava espaço para outra coisa além de nadar . Em artigo recente sobre o tema, a repórter americana Maddie Crum computou em 4.990 horas a média de tempo que os 11.547 atletas presentes na Olimpíada do Rio dedicaram a treinos no último quadriênio. Considerando-se que a média de idade dos participantes nos Jogos anteriores foi de 26 anos, a perspectiva de investir um quadriênio inteiro de treinos sem garantia de vir a integrar a próxima equipe olímpica exige disciplina e voluntarismo notáveis por parte do atleta.

Crum lembra o caso antigo do nadador Jerry Heidenreich, que não se classificou numa seletiva americana por 0.01 segundo, menor margem de tempo antes de um resultado ser considerado empate. Portanto, no mínimo mais quatro anos e 4.990 horas de treino se quisesse tentar novamente. Há atletas que comparam o vazio depois de um pódio a um pneu que fura e fica sem ar, à parada brusca de uma máquina em alta velocidade, à depressão pós-parto.

Para os que cogitam parar, o dilema também apresenta ansiedade. Ao anunciar sua aposentadoria depois de conquistar um ouro nos Jogos de Lillehammer, a esquiadora Diann Roffe foi indagada sobre seus planos dali em diante. “Vou me matricular na vida em sociedade”, respondeu. Como todo atleta de elite, Roffe tinha até então uma rotina autocentrada — seus treinos, batimentos cardíacos, nutrição, metas, tudo girava em torno dela.

Tudo isso e muito mais não ficou à vista nos 15 dias de majestosas competições no Rio. Nem deveria ficar, por prematuro. E para não poluir o incomparável espetáculo dos melhores atletas do mundo em 302 disputas para a consagração do melhor. Um luxo.

Zwi Skornicki internacionalizou a Operação Lava Jato, por Elio Gaspari--Jornalista


 
Zwi Skornicki em Paris--Place Vendome-Min. da Justica ao fundo(Foto: Arquivo Google)

Desde julho passado o engenheiro Zwi Skornicki vem contando suas traficâncias com a Petrobras aos procuradores da Operação Lava-Jato. 
Seus depoimentos internacionalizaram o escândalo, dando nome aos bois. Zwi era conhecido no mundo do petróleo por ser o poderoso representante dos estaleiros Keppel Fels, de Cingapura. Uma figura inesquecível para os peões que o viam circulando nas oficinas com um Rolex cravejado de brilhantes.

Ficou famoso quando a Polícia Federal mostrou a casa cinematográfica que tinha em Angra dos Reis e a coleção de 12 carros que guardava em seu sítio (três Porsches e duas Ferraris). A Keppel é um gigante da indústria naval, controlando 22 estaleiros em vários continentes, inclusive no Brasil. Seus contratos com a Petrobras chegaram a US$ 6 bilhões, e Zwi distribuiu dezenas de milhões de dólares em propinas, irrigando contas de petro-larápios, comissários petistas e do marqueteiro João Santana.

Até aí, Skornicki seria apenas mais um personagem da Lava-Jato, mas ele abriu a caixa-preta das operações internacionais. Todos, repetindo, todos os seus acertos foram submetidos à diretoria da Keppel em Cingapura. Ele tinha escritório na filial brasileira da empresa, continuou frequentando-o depois de sua condução coercitiva à Polícia Federal, em 2015, e, segundo acredita, suas salas continuam lá. O engenheiro não era um operador vulgar: “Eu era o único representante mundial da Keppel que participava de reuniões internas de estratégias de mercado da empresa”.

Nas suas palavras, quando pediram-lhe 0,7% no contrato de US$ 650 milhões da plataforma P-51 e 0,6% na encomenda de US$ 700 milhões da P-52, ele foi a Cingapura e “sempre” levou o recado: “Deixei claro que seria propina” e “foi aceito”. O mesmo se deu com outras negociações. Quando Pedro Barusco pediu uma lasca de 1,2% no contrato da plataforma P-56, os diretores de Cingapura pechincharam e ofereceram 0,9%. Até hoje a petrorroubalheira tinha um jeito de jabuticaba.

Sabia-se das traficâncias dos holandeses da SBM, mas eles conseguiram sair de fininho, pagando uma multa. Estimulado por perguntas de seus advogados, Skornicki apontou para o comando da Keppel. Primeiro, o do seu principal executivo no Brasil, Tay Kim Hock, figura conhecida na noite de Copacabana e nos campos de golfe do Rio. Ele deixou a empresa em 2012. Skornicki arrolou quatro outros diretores da Keppel, entre eles Choo Chiau Beng, principal executivo do conglomerado até 2014.

Há dois anos, quando Skornicki foi levado para depor à Polícia Federal, a Keppel informou que nada tinha a ver com ele. Lorota, tanto que ele continuou utilizando sua sala na empresa. Seu contrato com a Keppel até hoje não foi cancelado. Para os críticos do instituto da colaboração, vai a lembrança de que Skornicki falou só graças a ela, para se livrar de uma pena severa.

Pelo baralho velho e viciado, ele seria apenas um empreendedor, a Keppel teria padrões rígidos de combate à corrupção, e a Viúva ficaria com o mico. 
Pelo baralho novo, Skornicki contou o que fez e uma parte do que sabe, e aceitou pagar uma multa de US$ 24 milhões. Ele seria liberado neste mês, com direito a seis meses de tornozeleira em casa, mais três anos e meio de serviços comunitários. 

Em busca do tempo perdido, por José Casado--Jornalista


Temer já tem 100 dias, mas só vai começar mesmo quando acabar o governo Dilma. O capítulo final do impeachment estreia às 9h da próxima quarta-feira no Senado

A conversa começara num tom de franqueza. Com polidez, Michel Temer tentava se antecipar às críticas dos convidados: — Sem sacrifícios, não conseguiremos. Vamos para medidas amargas... — dizia, quando foi cortado pelo paraibano senador Cássio Cunha Lima, em desabafo: — Amargo é o desemprego, presidente. 
Temer e um grupo de influentes parlamentares do PSDB esgrimiam dúvidas à mesa do jantar.

Sob o olhar atento dos peemedebistas Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Infraestrutura), ele mapeava os limites do esteio governamental no Congresso. Os senadores tucanos ruminavam o próprio ceticismo em relação à presidência Temer. Queixaram-se, por exemplo, da complacência do governo e do PMDB com sucessivos aumentos salariais do funcionalismo, em meio à crise que levou a um déficit orçamentário de R$ 170 bilhões neste ano.

— Encontrei 14 aumentos salariais assinados, precisava cumprir — argumentou Temer. Acrescentou:
—Ainda há mais três categorias (de servidores) para resolver. — Assim não dá — reagiu o paulista Aloysio Nunes Ferreira, líder do governo no Senado. O cearense Tasso Jereissati reclamou: —Isso já foi longe demais, onde é que vai parar? O capixaba Ricardo Ferraço completou: — Não estamos trabalhando com o mesmo diagnóstico (da crise).

Sobraram censuras e advertências sobre o tempo perdido com os sinais de leniência do governo e do PMDB. Lembrou-se da negociação do socorro aos Estados endividados. Pressionado, Temer cedeu naquilo que qualificara como “indispensável”: um teto para despesas estaduais com pessoal, limitando a correção dos salários do funcionalismo à inflação do ano anterior, ideia herdada do governo do PT.

Outro exemplo foi o aval presidencial ao PMDB para aprovar aumento salarial dos juízes do Supremo. A repercussão será geral, pelo efeito vinculante aos salários de toda a cúpula do Judiciário, Legislativo e Executivo. Resultará em gasto adicional de R$ 5 bilhões, pela calculadora tucana. Temer admitiu concessões “além do que devia”.
Atenuou com a fragilidade de governo interino diante da organização sindical, incitada pelos adversários petistas. Situação delicada para qual não há alternativa, insistiu, enquanto estiver sob o signo da transitoriedade que a Constituição impõe ao cargo de presidente interino. Mudança haverá, prometeu, quando o Senado transformar o vice-presidente em titular.

Acenou com a vontade de trabalhar com eficácia para, em dois anos, assentar a biografia na “pacificação política”, “unificação do país” e na “retomada do desenvolvimento”. Para tanto, repetiu, serão necessárias as “medidas amargas” que pretende enunciar em discurso previsto para o feriado de 7 de setembro. Sonha com um legado de economia em crescimento e leis trabalhistas e de previdência social reformadas.

— Ou faz isso, ou o governo não aguenta — ouviu. — O presidente deve e vai surpreender — socorreu Moreira Franco. Despediram-se na madrugada de sexta-feira, depois de quase quatro horas na residência do Jaburu, em Brasília. Foram dormir confortados por múltiplos sonhos de poder e resignados a uma certeza: o governo Temer já tem 100 dias, mas só vai começar mesmo quando acabar o governo Dilma. O capítulo final do impeachment estreia às 9h da próxima quarta-feira no Senado.

A melhor lição olímpica, por Mary Zaidan--Jornalista.


O Brasil fez bonito. Atletas, organizadores, voluntários, público daqui e de todo o lugar do planeta. Um espetáculo de orgulhar até os mais ranzinzas. Mas em seu cotidiano o país está longe do espírito e das lições olímpicas. Digladia-se com o seu próprio sucesso, alimenta polêmicas inúteis. E não tem Engov capaz de refazê-lo da ressaca do dia seguinte, quando tudo voltará a ser como antes.

Nesse meio mês de jogos, abriram-se espaços para os especialistas em tudo, muitos execrando atletas de modalidades das quais nem mesmo conhecem as regras. Até a torcida foi vítima da chatice do politicamente correto, alvo de críticas por vaiar atletas, reação usual em todos os cantos do mundo, tão legítima quanto o aplauso.

A má vontade com os jogos em um momento que não cabia mais debater se o Rio tinha ou não de sediá-los frequentou rodas de artistas e intelectuais, bares, esquinas, redes sociais e a mídia convencional. Exemplo cristalizado pela Folha de S. Paulo depois da medalha de prata em das meninas em Copacabana: “Militar, dupla não consegue quebrar jejum de 20 anos no vôlei de praia”.

Além de desdenhar das atletas, a manchete, para lá de agressiva, expôs uma das maiores polêmicas dos jogos: o patrocínio militar. Quase um terço da equipe do Brasil – 145 dos 465 atletas que participaram dos jogos – integra o Programa de Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas. Tem patente de terceiro-sargento e recebe soldo.

O Brasil não é nem o primeiro nem o único país em que as Forças Armadas bancam treinamento de atletas. Acontece na totalitária China, na social-democrata França, na anárquica Itália. Mas, por aqui, o que deveria ser investimento em competitividade se transformou em rixa ideológica. Ridícula, boba, de ocasião.

Um antagonismo ranheta e ultrapassado de fundamentalistas de direita e esquerda que expressa o quão imaturo o país ainda está.

De um lado, extremistas de direita derretendo-se em loas não à competência dos atletas, mas ao fato de eles serem militares. De outro, esquerdóides fazendo pouco do mérito dos medalhistas. Para essa turma, bater continência à bandeira – que já havia dado pano para manga no Pan-americano de Toronto – é crime.

E para arrematar o conjunto de absurdos, o Ministério da Defesa se vangloria não das vitórias brasileiras, mas do fato de uma dúzia das medalhas serem de atletas-militares. Como se militar fosse melhor do que civil, como se uma categoria fosse mais brasileira do que outra.

Fora o enfado de ranços dessa natureza, tudo deu certo. Os jogos da zika endêmica e da violência extrema surpreenderam pela ausência do Aedes Aegypti, que sabidamente some no inverno, e pela presença de policiamento ostensivo.

Quase tudo. Não fosse a morte a tiros do soldado Hélio Vieira Andrade, no Complexo da Maré, a escancarar de forma trágica que o Rio real não é o olímpico, as ocorrências negativas dos jogos se limitariam a pedras atiradas em um ônibus com jornalistas, dois assaltos de fato e outro inventado por nadadores americanos, que feriu mais o brio dos brasileiros do que a morte do militar de Roraima.

É inegável que o Rio - e com ele, o Brasil -- ganhou com os jogos. Aceleraram-se projetos de reurbanização, de transporte urbano, como a extensão do metrô e a construção do VLT, de revitalização da área central. Mas amanhã vai acordar meio zonzo, ainda tonto. Depois, doído.

A péssima qualidade dos serviços públicos, as greves permanentes na Educação e na Saúde, a falta até de insumos básicos nos hospitais e a insegurança turvam o olhar para o tão propalado legado da Rio 2016. O Estado, literalmente falido, não tem dinheiro para nada. E a cidade não sabe o que vai acontecer quando os seis mil homens da Força Nacional, convocados para garantir a segurança olímpica, forem embora.

Mas, como na terça-feira de carnaval, hoje ainda é domingo. Vale a folia.

No encerramento da Rio 2016, o Brasil poderá festejar o seu melhor desempenho olímpico da história. E reverenciar a meritocracia. Sejam homens, mulheres, gays, pretos, brancos, amarelos, civis, militares, crentes ou agnósticos, vencem os mais preparados, os melhores. E os que não chegam ao pódio tentam melhorar as suas marcas. Sem ódio. Uma lição que vai muito além dos jogos. Aprendê-la seria um legado e tanto.

Arte de CHICO Caruso

Charge (Foto: Chico Caruso)

O Congresso no bolso da indústria farmacêutica, por Najla Passos

Raio-X de uma relação promíscua: o dinheiro e favores oferecidos aos deputados para restringir genéricos, favorecer testes com cobaias humanas e garantir lucros bilionários–Este texto é um dos capítulos do livro
“A Privatização da Democracia: Um Catálogo da Captura Corporativa no Brasil”


Em 2014, a indústria farmacêutica alcançou no Brasil um valor de mercado recorde de US$ 29,4 bilhões, e a expectativa é que, até 2020, amplie o faturamento para cerca de US$ 47,9 bilhões/ano, segundo dados da consultoria GlobalData2.

O Brasil é hoje o sexto maior mercado em vendas de medicamentos do mundo, com forte perspectiva de ocupar o quarto lugar já em 2017. A despeito da crise internacional, o mercado brasileiro de medicamentos é pujante, desconhece recessão há quase quinze anos e estima ter fechado 2015 no azul.

Esses bons resultados dependem de momentos de expansão econômica, mas se devem, principalmente, às decisões políticas tomadas nas principais instâncias de poder do país. Decisões como a aprovação da Lei 9.279/96, a chamada Lei de Patentes, que criou forte esquema de proteção para o monopólio de exploração de medicamentos no país e, apesar das mudanças legislativas propostas desde então, ainda favorece os interesses dos grandes laboratórios multinacionais em detrimento daqueles da população brasileira.

“É a Lei de Patentes que evita a entrada de medicamentos genéricos no mercado, mantém os monopólios dos grandes laboratórios e, consequentemente, faz com que os preços dos remédios fiquem mais caros”, explica Jorge Bermudez, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, um dos maiores centros públicos de pesquisa e produção de medicamentos do país, que atua no suporte do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo ele, a redução das brechas para concessão e extensão das patentes, conforme proposto em projetos de lei em tramitação no Congresso, é de vital importância para a saúde da população. “O direito à saúde tem que ser preponderante ao direito comercial”, justifica. Mas, para manter seus lucros, a indústria farmacêutica investe pesado em estratégias de captura para convencer os parlamentares a manter a legislação tal como está, ou torná-la ainda mais aberta à concessão de patentes.
Representação corporativa fracionada
As 259 empresas farmacêuticas que atuam no Brasil organizam-se em representações corporativas diversas. Os laboratórios multinacionais e a indústria de capital nacional organizam-se em entidades diferentes. Os dois grupos possuem bandeiras comuns, como a desoneração dos medicamentos, mas também pautas antagônicas, como a própria Lei de Patentes.

Os laboratórios multinacionais são representados, principalmente, pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), criada em 1990. Presidida pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, o jornalista Antônio Britto, representa 56 laboratórios estrangeiros que, hoje, são responsáveis pela venda de 80% dos medicamentos de referência e por 33% dos genéricos disponíveis no mercado brasileiro3. No campo oposto estão entidades que respondem pela indústria nacional. A de organização mais recente é o Grupo Farma Brasil, que representa as nove maiores farmacêuticas de capital nacional. Essas companhias respondem por 36% do mercado total farmacêutico e 53% do segmento de genéricos4. Entretanto, como elas mantêm muitas parcerias com os grandes laboratórios multinacionais, acabam por limitar o Grupo Farma Brasil a um posicionamento tímido em relação às pautas públicas que envolvem o segmento.

Outra é a Associação Brasileira da Indústria de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), que tem protagonizado os maiores embates com os laboratórios estrangeiros em defesa dos interesses nacionais. Segundo seu vice-presidente, Reinaldo Guimarães, este segmento do setor farmacêutico tem peso crescente na economia nacional: responde por 50% da venda de unidades de medicamentos e fatura algo entre 40% e 50% dos lucros totais.
Lobby e poder
Para tentar influir nas decisões pertinentes ao setor, esses grupos se valem de variadas estratégias de lobby, uma atividade legal no país, mas não regulamentada. Para Pedro Villardi, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (GTPI/Rebrip), que reúne diversas organizações da sociedade civil, a falta de regulamentação do lobby mantém a prática invisível e gera um déficit democrático para o país. “Enquanto o lobby não for regulamentado, a gente não vai saber quem atua no jogo democrático”, afirma Villardi, que também é coordenador de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia).

O vice-presidente da Abifina admite que a falta de transparência também abre brechas à corrupção. “O sujeito vai lá, promove encontros, apoia campanhas eleitorais, conversa, oferece vantagens. Lobby é isso. E não me parece algo condenável, a não ser quando há troca de favores, quando não se baseia em convicções efetivas sobre as políticas de que ele trata, mas responde a incentivos financeiros para votações em determinados sentidos. Aí fica uma coisa complicada. E isso existe, é evidente que existe”, atesta.
No parlamento, tramitam dez proposições para regulamentar o lobby, todas elas emperradas na burocracia legislativa. É que a regulamentação, a exemplo do que ocorre em outros países, torna a atividade transparente, o que não é interessante para quem faz uso indevido dela. Nos Estados Unidos, por exemplo, os grupos de interesse precisam registrar no parlamento todo o dinheiro empregado em atividades de lobby, o que permite que a sociedade identifique como e por que tais grupos tentam convencer os parlamentares a tomarem determinada decisão. A organização não governamental Center for Responsive Politics, que edita o premiado OpenSecrets.org e faz o acompanhamento da atividade de lobby naquele país desde 1998, apurou que, só de janeiro a abril de 2015, os diferentes setores da economia norte-americana investiram U$S 3,24 bilhões na atividade. Dentre esses setores, o da Saúde foi o que mais gastou: US$ 134,7 milhões.
Doações eleitorais
Entre as principais estratégias de lobby utilizadas pelo setor está a doação para campanhas eleitorais, que passou a ser considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2015, com resultados a serem observados a partir das eleições deste ano. Nas eleições de 2010, a Interfarma investiu R$ 1,8 milhão em doações nominais para dois candidatos ao Senado e 18 à Câmara. Do total, oito ainda atuam no parlamento: o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) e os deputados Saraiva Felipe (PMDB-MG), Osmar Terra (PMDB-RS), Renato Molling (PP-RS), Bruno Araújo (PSDB-PE), Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Nelson Marquezelli (PTB-SP) e Darcísio Perondi (PMDB-RS). Eles ajudam a reforçar a chamada “bancada do medicamento”, uma estrutura informal que, segundo críticos, auxilia os grandes laboratórios internacionais a defenderem seus interesses no parlamento. Na campanha de 2010, também receberam doações da Interfarma políticos de partidos que se classificam como de esquerda, como os ex-deputados Cândido Vaccarezza (PT-SP) e Manoela D’Ávila (PcdoB-RS)5.

A indústria nacional atua tanto para reforçar as representações dos laboratórios multinacionais quanto para defender interesses próprios. Como as maiores empresas farmacêuticas brasileiras lucram com as parcerias firmadas com as estrangeiras, é do interesse delas que o setor prospere. Mas também há aquelas empresas de capital nacional mais voltadas à produção local que advogam interesses antagônicos.
Traçar a linha que diferencia umas e outras é sempre uma tarefa complexa, principalmente devido à falta de transparência sobre lobby no país. “De uma maneira geral, os laboratórios internacionais querem impor regras de patentes muito duras, e os nacionais já são mais flexíveis, já aceitam dialogar”, explica o vice-líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (PT-SP), autor de um projeto de lei que proíbe a concessão de patentes de segundo uso, ou seja, não garante o monopólio para a empresa que já produz um medicamento e descobre que ele serve também para curar outra doença. Uma pauta, portanto, que interessa tanto à indústria nacional quanto aos usuários de medicamentos.
Nas eleições passadas, as empresas de capital nacional doaram nominalmente para 27 candidatos à Câmara Federal, fora os repasses direcionados aos partidos. Destes, 19 foram eleitos. A Hypermarcas foi a que mais investiu (R$ 6,2 milhões), seguida pela Geolab (R$ 1,39 milhão), Eurofarma (R$ 1,02 milhão) e União Química Farmacêutica Nacional (R$ 890 mil). Os deputados que mais receberam contribuições do setor foram Arlindo Chinaglia (PT-SP), o candidato derrotado por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na disputa pela presidência da Casa, Newton Lima (PT-SP), autor do projeto de lei que muda a Lei de Patentes de forma a facilitar o acesso ao medicamento, mas que não conseguiu se reeleger, e o atual presidente da Frente Nacional pela Desoneração de Medicamentos, Walter Ihoshi (PSD-SP).
A indústria nacional também fez doações generosas para a presidenta reeleita, Dilma Rousseff (PT), que recebeu um total de R$ 6,7 milhões de seis laboratórios. Nenhum dos laboratórios de capital nacional doou nominalmente para a campanha do principal concorrente, o senador Aécio Neves (PSDB), mas a Hypermarcas contribuiu com R$ 5 milhões para o comitê financeiro da campanha para a presidência do PSDB, e a Eurofarma, com R$ 200 mil. O PSDB Nacional recebeu R$ 1,64 milhão em doações de cinco laboratórios e o PT Nacional, R$ 1,08 milhão de quatro.
Viagens internacionais
Com o recuo nas doações para campanhas eleitorais após 2010, a Interfarma desenvolveu outras estratégias para influenciar os deputados. Entre elas, uma parceria com o Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, com sede em Washington, que, entre 2011 e 2013, patrocinou a viagem de 32 parlamentares aos Estados Unidos e à Europa para participarem de seminários sobre ciência, tecnologia e inovação.

O diretor do Brazil Institute é o jornalista brasileiro Paulo Sotero, que, de 1990 a 1996, quando o Brasil discutia os termos da sua abertura econômica, atuava como correspondente do jornal Estado de S. Paulo na capital norte-americana e produzia as notícias relativas às questões de patentes e propriedade intelectual. É ele o organizador do livro O Congresso Brasileiro na Fronteira da Inovação, que narra a experiência da parceria Brazil Institute e Interfarma.
Conforme Sotero conta no livro, a parceria realizou três conferências acadêmicas no Wilson Center, do Massachusetts Institute of Technology, no Brazil Institute do King’s College, de Londres, e no Instituto das Américas, sediado na Universidade da Califórnia em San Diego. Além de fazer um tour pelos países que visitavam, os parlamentares de cada grupo participaram, em média, de 40 horas de conferências sobre os mais diversos aspectos de políticas públicas sobre inovação, patentes e pesquisa clínica.

Dos 32 parlamentares que a Interfarma levou para viagens ao exterior, 19 continuam atuando com mandatos, como os senadores Jorge Viana (PT-AC) e Paulo Buaer (PSDB-SC), além do deputado Walter Ihoshi (PSD-SP), que recebeu contribuições para a campanha eleitoral de laboratórios nacionais e preside a Frente Parlamentar para Desoneração dos Medicamentos.
Porta giratória
Porta giratória é a expressão usada para descrever a contratação de ex-gestores públicos pela iniciativa privada ou vice-versa. No Brasil, a prática não é crime: são poucos os cargos públicos que exigem do seu ocupante uma quarentena de quatro meses após a demissão. Por isso, a porta giratória é um mecanismo de captura corporativa muito utilizado por diversos setores para influir nas decisões do país, já que ex-gestores públicos trazem consigo não apenas acesso privilegiado às instâncias de poder, como também um acúmulo de conhecimento do modus operandi do órgão em que atuou.
O mecanismo também tem sido utilizado pela indústria farmacêutica. O ex-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, demitido do órgão em outubro de 2014, por exemplo, foi contratado pela Interfarma em maio de 2015.

Também o presidente da Interfarma tem longa experiência em cargos públicos. Jornalista, Antônio Britto atuou em veículos como o jornal Zero Hora, no Rio Grande do Sul, e na TV Globo, na capital federal. Convidado para ser o secretário de Imprensa do então presidente eleito Tancredo Neves (PMDB), em meados dos anos oitenta, foi o porta-voz das informações médicas que precederam a morte prematura do político. Pelo mesmo PMDB, candidatou-se a deputado federal e foi eleito em 1986. Em 1994, foi eleito governador do Rio Grande do Sul. Só deixou a vida pública em 2002, quando decidiu trabalhar para a iniciativa privada e assumiu a Interfarma em 2009.
O exemplo da Lei das Patentes no Brasil
Em defesa do setor que fatura cerca de US$ 1 trilhão por ano no mundo6, parlamentares desconsideram matérias que poderiam baratear o custo dos medicamentos e garantir um tratamento mais digno para cobaias humanas.
Em 2013, a Suprema Corte dos Estados Unidos negou, por unanimidade, o patenteamento de genes “originais”. O entendimento foi de que o isolamento de determinados genes para determinar a probabilidade de um paciente vir a desenvolver câncer não constituía uma invenção. Com isso, ficou estabelecido que, naquele país, só é possível patentear organismos vivos que tenham sido modificados geneticamente.

O Brasil, entretanto, ainda não decidiu como tratar o tema. Grande parte da sociedade civil, da comunidade acadêmica e da indústria nacional são contrárias ao patenteamento de organismos vivos por questões sociais e éticas. “O patenteamento de seres vivos torna o campo patentário atual, já bastante amplo no Brasil, ainda mais impeditivo e restritivo [para a defesa da saúde], e pode prejudicar, por exemplo, a fabricação de vacinas”, explica Jorge Bermudez, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, um dos principais centros públicos de pesquisa e produção de medicamentos do país.
Mas a medida tem o apoio das grandes entidades que representam os laboratórios multinacionais no país, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) e dos deputados que as “representam”.
Na Câmara, tramita o Projeto de Lei (PL) 4961/05, do deputado Mendes Thame (PSDB-SP), que prevê a alteração da Lei de Propriedade Industrial (9.279/96) para introduzir na legislação a concessão de patentes de seres vivos. A justificativa, na contramão do processo iniciado nos Estados Unidos, é que, caso o Brasil não permita o patenteamento dos microrganismos vivos, ficará em desvantagem em relação aos demais países do mundo.

A matéria ganha cada vez mais adeptos no Legislativo. Em outubro de 2015, a Comissão de Desenvolvimento Econômico (CDE) aprovou o parecer favorável ao PL do deputado Laercio Oliveira (SD-SE), para quem “o patenteamento de materiais de origem biológica é fundamental para alinhar a norma de propriedade industrial com marcos legais nacionais e internacionais sobre acesso a recursos da biodiversidade”.

Situação bem diferente ocorreu em 2013, quando o então deputado Newton Lima (PT-SP) tentou aprovar na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) um parecer no sentido oposto. Antes que o documento pudesse ser votado, o deputado Bruno Araújo (PSDB-SP) pediu a suspensão da sessão para a realização de uma audiência pública sobre o tema. O debate nunca aconteceu, mas o projeto foi enviado para a comissão seguinte sem que o parecer de Lima fosse apreciado. Bruno Araújo foi eleito deputado, em 2010, com doações da Interfarma, a principal entidade que representa os laboratórios internacionais no Brasil. Em 2011, 2012 e 2013, viajou para os Estados Unidos e para a Europa em viagens patrocinadas pela entidade.
O episódio ilustra bem como a chamada “Bancada do Medicamento” atua no parlamento para defender os interesses da indústria farmacêutica internacional, um setor que lucra algo em torno de US$ 1 trilhão por ano e não mede esforços para faturar ainda mais.
Reforma da Lei das Patentes
A legislação brasileira que trata das patentes é bastante abrangente no que refere à proteção de patentes, mais até do que exigem os tratados internacionais sobre o tema. Por isso, tramitam na Câmara 16 PLs apresentados por deputados de diferentes partidos que buscam reformar a Lei 9.279/96, que disciplina as regras de patenteamento no país.

O mais antigo é o PL 139/99, do deputado Alberto Goldman (PSDB-SP), que reforça na legislação brasileira o mecanismo da suspensão dos monopólios por não uso, ou seja, permite o licenciamento da patente quando o detentor não explorar o objeto da patente no território nacional. Já o PL 5402/13, dos ex-deputados Newton Lima (PT-SP) e Dr. Rosinha (PT-R), defende uma profunda revisão da lei atual, prevendo a adoção de diversos mecanismos que protegem os direitos dos pacientes.
O PL fixa o período de vigência das patentes em 20 anos, o mínimo permitido pelos tratados internacionais que regulam o assunto e dos quais o Brasil é signatário. Pela legislação atual, se o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi) atrasar a análise dos pedidos, esse prazo pode ser dilatado. “Isso é uma aberração, porque, ao estender os monopólios, a lei impede a fabricação de genéricos e evita que o preço dos medicamentos caia. Exemplos são as novas drogas para tratamento de câncer e hepatite B, todas elas caríssimas”, ressalta o dirigente da Fiocruz.

O projeto também inova ao introduzir o uso público não comercial de patentes, desde que para fins de interesse público, inclusive os de defesa nacional e interesse social. Em outras palavras, permite a produção ou importação de versões genéricas de drogas patenteadas para uso em programas públicos de saúde. Desse modo, as patentes continuam em vigor no setor privado, mas isso não impede que o governo utilize genéricos no SUS para tratar, por exemplo, uma epidemia. O projeto ainda proíbe a concessão de patentes para medicamentos de segundo uso, ou seja, aqueles que já foram patenteados para o tratamento de determinada doença e passam a ser usados no de outra enfermidade.
Críticas
As críticas ao atual modelo de proteção de patentes não são exclusividade brasileira. O tratado internacional pactuado na década de 1990, o chamado Acordo Trips da Organização Mundial do Comércio (OMC), que embasou as leis nacionais acerca do tema, tem sido condenado por especialistas de várias partes do mundo. Prêmio Nobel de Economia em 2010, Joseph Stiglitz é um dos que tem questionado o sistema. “Há um reconhecimento crescente de que o sistema de patentes, como atualmente concebido, não só impõe custos sociais incalculáveis, mas também tem falhado em maximizar a inovação”, alertou, em artigo de 2013.

No Brasil, a legislação aprovada em 1996 foi ainda mais vantajosa para detentores de patente do que previa o Acordo Trips, e o país pouco utiliza os já escassos mecanismos de proteção ao paciente previstos na sua legislação. “O Artigo 68, por exemplo, é letra morta”, alerta o coordenador do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (GTPI/Rebrip), Pedro Villardi, em referência ao mecanismo que prevê que os responsáveis pela patente devam iniciar a produção local do medicamento em até três anos. “Essa norma nunca é cumprida. Já o artigo 40, que interessa à indústria farmacêutica porque impõe a dilatação do prazo das patentes quando há atraso, é cumprido de forma automática”, critica Villardi, que também atua na Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia).
Outra vantagem da lei pouco explorada pelo Brasil é a licença compulsória de patente em função de interesse público, que, quando acionada, consegue resultados surpreendentes. Foi o que ocorreu em 2007, quando o país licenciou a patente do medicamento Efavirenz, usado então no tratamento de mais de 35 mil pessoas vivendo com HIV/AIDS. Com o uso dessa medida, o preço do medicamento caiu de US$ 580 por paciente/ano para US$ 158 paciente/ano. Isso possibilitou ao Sistema Único de Saúde (SUS) uma economia de US$ 103 milhões num período de cinco anos.
Na mira dos poderosos
Diz a crônica política brasileira que a primeira versão da Lei de Patentes chegou ao Congresso Nacional redigida em inglês, enviada diretamente por Washington, tamanho o interesse dos Estados Unidos no assunto. “A força dos movimentos de defesa da saúde conseguiu melhorá-la um pouco, mas ainda assim foram aprovados muitos mecanismos que não interessavam e não interessam ao país”, conta Villardi.
Vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), Reinaldo Guimarães lembra que a lei causou um impacto negativo tão grande na indústria nacional que quase a destruiu por completo. Isso porque o Brasil desconsiderou o prazo de 10 anos previsto pelo Acordo Trips para que os países em desenvolvimento fortalecessem sua indústria local antes de adotarem a legislação patentária – ao contrário da Índia, por exemplo, que cumpriu o prazo e, com isso, transformou-se em uma potência farmacêutica. “Os parlamentares estavam encantados com a ideia de globalização, de abertura econômica, que naquela época era muito forte, e acabaram aprovando uma lei que fez com que, para a indústria multinacional, se tornasse mais conveniente fechar fábricas no Brasil e importar medicamento acabado, enquanto as indústrias nacionais sofreram um baque muito grande”, explica.
Conforme o estudo “A revisão da Lei de Patentes – Inovação em prol da competitividade nacional”, produzido em 2013 pelo Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara, a sanção da legislação brasileira sobre patentes levou à falência 1.096 unidades produtivas de química fina e fármacos do Brasil, além de provocar o cancelamento de 355 novos projetos. “A indústria nacional só veio a se re-estabelecer na década seguinte, com a adoção da política de incentivo aos genéricos”, lembra o vice-presidente da Abifina.
A preocupação é que, agora, os interesses corporativos dos grandes laboratórios sejam novamente colocados como prioridade pelo parlamento. Em 2014, a CCJ já havia negado a análise de mérito do pacote de PLs que miram a revisão da Lei 9.279/96. A matéria, entretanto, foi desarquivada em 2015, na véspera do recesso parlamentar, no mesmo dia em que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou publicamente seu rompimento com o governo.
O deputado Felix Mendonça Júnior (PDT-BA), que até então era o relator da matéria, foi destituído do cargo pelo presidente da CCJ, Artur Lira (PP-AL). O novo relator nomeado para a matéria foi o deputado André Moura (PSC-SE). Muito próximos politicamente, todos eles colegas de “bancada evangélica”, Cunha, Lira e Moura são considerados, hoje, três dos deputados mais poderosos na Casa. Por isso, a simples atenção deles ao tema indica o quanto ele é importante no parlamento.
No seu parecer, o relator surpreendeu ao defender a constitucionalidade dos PLs 139/99 e 5402/13, em detrimento dos outros 14. Entretanto, a apreciação da pauta pela CCJ tem sido sucessivamente adiada, o que indica que ainda não há consenso sobre o assunto e que está aberta a temporada de negociações sobre a pauta.
Dentre os parlamentares próximos aos laboratórios está o deputado Manoel Junior (PMDB – PB), recentemente cotado para assumir o Ministério da Saúde, que se elegeu em 2014 com contribuição dos laboratórios Eurofarma e Biolab. E também seus colegas de partido, os deputados Osmar Terra (RS), que recebeu R$ 150 mil em doações da Interfarma em 2010, e Darcísio Perondi (RS), que também obteve R$ 150 mil da entidade no mesmo pleito. O grupo também inclui o ex-ministro da Saúde do governo Lula, Saraiva Felipe (MG), que, em 2010, recebeu R$ 150 mil em doações da Interfarma e, no ano seguinte, viajou aos Estados Unidos com “patrocínio” da entidade.
Pílulas de farinha no Senado
O Senado também tem ajudado a compor a “Bancada do Medicamento”. Sua mais nova representante no grupo de pesquisas clínicas no país que envolvam seres humanos, afrouxando restrições éticas da atual legislação.
Segundo o presidente da Interfarma, no artigo “Aposta Arriscada”, publicado no site da entidade em setembro de 2015, o volume de recursos investido pela indústria farmacêutica em pesquisas clínicas realizadas no Brasil “é rigorosamente ridículo”. De acordo com ele, no mundo todo, o setor investe algo entre US$ 120 bilhões e US$ 160 bilhões na área a cada ano, o que corresponde a um percentual de 12% a 16% do seu faturamento total. O Brasil recebe apenas US$ 300 milhões desse montante. O PL seria uma forma de reduzir obstáculos à realização de pesquisas clínicas.
Para Jorge Venâncio, médico e coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão ligado ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) que faz o controle social da atividade no país, o projeto implica uma redução drástica dos direitos das pessoas que participam das pesquisas clínicas. Segundo ele, a proposição legislativa permite até que os laboratórios possam suspender a medicação testada com sucesso em um paciente, mesmo que isso o leve morte, ou ainda expor doentes que teriam uma alternativa de tratamento reconhecida aos placebos, as famosas “pílulas de farinha”. Venâncio critica também o fato de o projeto retirar a centralidade do controle das pesquisas do crivo da sociedade, em especial dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). “Este processo significa um retrocesso muito grande na nossa legislação”. Ele lembra que a Índia aprovou uma legislação similar à proposta por Ana Amélia em 2005, com resultados desastrosos. “Só nos três primeiros anos, foram registradas 2,6 mil mortes em pesquisas clínicas. A Suprema Corte do país acabou suspendendo a prática lá até que uma nova legislação seja elaborada”, relata.
Candidata de primeira viagem ao Senado, Ana Amélia não recebeu doações de campanha da indústria farmacêutica quando concorreu ao parlamento, em 2010. Mas, depois de eleita, logo caiu nas graças do setor. 
Em 2014, quando disputou o governo do Rio Grande do Sul, recebeu R$ 50 mil da distribuidora de medicamentos Dimed. O relator do projeto é outro alinhado à indústria: o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), advogado, candidato derrotado à vice-presidência da República pelo PSDB no pleito de 2014, recebeu doação da Interfarma para a campanha eleitoral de 2010, quando se elegeu senador. Participou também das viagens promovidas pela entidade ao exterior. Hoje, é relator do PLS 200/2015, que libera geral as pesquisas clínicas com seres vivos no país, na Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação (CCTI).
1. Este artigo é uma versão editada de matérias publicadas originalmente em dezembro de 2015 pela Repórter Brasil.
2. GlobalData. “Mercado farmacêutico brasileiro deve atingir US$ 48 bilhões em 2020”, Setor Saúde, 26 ago. 2015. Disponível em: http://setorsaude.com.br/mercado-farmaceutico-brasileiro-deve-atingir-us-48-bilhoes-em-2020/.
3. Interfarma. “Sem travessas para conter expansão”, 31 de ago. 2015. Disponível em: http://www.interfarma.org.br/noticias_detalhe.php?id=692.
4. Scaramuzzo, Mônica. “Laboratórios criam Grupo FarmaBrasil”, Valor Econômico, 12 de jul. 2012.Disponível em: http://www.valor.com.br/empresas/2748678/laboratorios-criam-grupo-farmabrasil.
5. Em 2010, uma ação movida pelo Ministério Público Federal (MPF) questionou as doações da Interfarma para quatro candidatos a deputados pelo Rio Grande do Sul, já que a legislação brasileira proíbe doações de entidades de classe. Após 2011, a entidade não financiou mais campanhas eleitorais, apesar de a Justiça afinal ter considerado que as doações foram regulares, por considerar que a Interfarma não se configura como uma representação corporativa tradicional.
6. Thomson Reuters. “Global pharma sales to reach $1.3 trillion”, 4 de ago. 2015. Disponível em: http://thomsonreuters.com/en/articles/2015/global-pharma-sales-reach-above-1-trillion.html.

Idade para se aposentar pode chegar a 70 anos, por Murilo Rodrigues Alves e Adriana Fernandes

Vejam a alegria e as mãos de quem NUNCA trabalhou a sério......Uma vida cavalgando nuvens em detrimento da maioria, democraticamente tosquiada.
A proposta de reforma da Previdência que o governo do presidente em exercício Michel Temer vai enviar ao Congresso pode prever a adoção da idade mínima para aposentadoria em duas etapas. Ao final delas, o trabalhador precisará ter completado 70 anos para ter direito ao benefício integral. Num primeiro momento, está cristalizada a idade mínima de 65 anos para homens e um pouco menos para as mulheres (provavelmente, 62). O período de transição para adoção da medida será de 15 anos para eles e um tempo maior, ainda não estipulado, para elas.

Depois de instituída a idade mínima de 65 anos, haverá um intervalo de dez anos sem mudança na exigência e, em seguida, será fixada a nova faixa de idade, de 70 anos para ambos os sexos, mas com período de transição maior para as mulheres. “Assim, teríamos uma reforma para os próximos 40 anos”, afirma um integrante do governo que acompanha as negociações.

Por determinação de Temer, além das mulheres, os professores também terão um período maior para transição. “Seria uma amostra de maior consideração com a educação”, afirmou um interlocutor do presidente. Atualmente, os professores podem se aposentar comprovando 30 anos (homens) e 25 anos (mulheres) de contribuição.

Salários de juízes no Brasil superam os dos Estados Unidos e da Inglaterra, por Alexa Salomão

Juízes (Foto: Patrick Semansky / AP )

O salário dos juízes no Brasil tem um teto. Não pode ultrapassar o salário de ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, hoje em R$ 33.763. Na prática, já se sabe há um tempo, não é bem assim. 

Um levantamento conseguido em primeira mão pelo Estadao mostra que a correlação é bem mais desproporcional. 
Um desembargador (como é chamado o juiz de segunda instância nos Estados) em Minas Gerais ganha, em média, líquido, R$ 56 mil por mês. Em São Paulo, R$ 52 mil. No Rio de Janeiro, R$ 38 mil.

Esses valores superam os pagos a um juiz similar no Reino Unido, que recebe cerca de R$ 29 mil, e até dos Estados Unidos, cujo salário mensal médio é de R$ 43 mil. Chega a ser superior a juízes da Suprema Corte de países da União Europeia, como Bélgica e Portugal.

Os salários básicos são engordados por adicionais legais, sustentados por interpretações da legislação. 
Mas formam vários andares acima do teto. 
Como disse a ministra Cármen Lúcia numa audiência no STF: “Além do teto, tem cobertura, puxadinho e sei mais lá o quê”, numa referência ao fato de que o limite vale mesmo apenas para os 11 ministros do Supremo.

Jaguar: Elke Maravilha

Rio - Queria fazer um pedido a meus amigos e pessoas que admiro: parem de morrer. Minha crônica periga virar obituário. Logo depois de Ivo Pitanguy, lá se foi a Elke. 
Nos anos 1970 eu morava no Leme; éramos vizinhos. Quase todos os dias a gente ficava biritando na Fiorentina até a casa fechar. Ela namorava um negão, e eu, uma negona. 
Teve um lance engraçado num festival de cinema em Ubá. Para não chocar a sociedade local, eu fingia que Elke era a minha mulher. Tudo nos ‘conformes’: um casal de gringos e outro de afrodescendentes...
Elke MaravilhaReprodução

Ela deu entrevista para o ‘Pasquim’ em maio de 1972, quando tinha 27 anos. Chegou rodeada de gays. “Eles me curtem. Neste Carnaval tinha mais de mil Elkes. No meio deles me sinto protegida.” E contou uma história gaiata: “No Baile dos Enxutos, um turista americano perguntou se eu era homem ou mulher. Eu disse: ‘Sou homem, é claro.’ Ele disse: ‘É o travesti mais perfeito que conheci. Nenhuma mulher é tão afeminada.’” “Recebe muitas cantadas de mulheres?” “Muitas! Eu curto é homem, homem é uma delícia.”

Tinha um cultura surpreendente. Ela explicou. “Meus avós eram czaristas, torciam pelo time que perdeu. Ricos e cultos, tinham várias casas de campo na Europa. Meu pai casou com uma alemã. Me ensinaram várias línguas, francês, espanhol, alemão, inglês. O grego, aprendi com meu ex-marido.”

Elke falava tanto palavrão quanto Leila Diniz. “Como é FDP em grego?” “Disnenas to muni.” “Como chegou ao Brasil?” “Fugimos primeiro para a Alemanha, depois fomos para a França e finalmente para o Brasil. Meu pai era agrônomo e, como não sabia português, resolveu recomeçar a vida no campo. Então fomos para Itabira, terra do Drummond. Morei num monte de cidades. 
Antes de chegar ao Rio, morei em Porto Alegre, onde me casei com o grego.” “Como virou modelo?” “Alexis leu no jornal que Guilherme Guimarães ia dar um desfile de modas. ‘Esta é a sua chance’, disse. Eu não queria de jeito nenhum, mas meu marido teimou: ‘Vou te deixar na porta da casa dele.’ Até pensei em fazer uma horinha na portaria e voltar dizendo que não deu certo. Mas, já que estava lá, resolvi tentar. Toquei a campainha, ele me atendeu. Me mandou tirar a roupa e vestir outra.” 
A patota do ‘Pasquim’, assanhadíssima: “Ficou nua na frente dele?” “Deixa eu lembrar... Acho que sim. Ele disse: ‘O desfile é dia tal.’” “E como foi o desfile?” “Elogiaram muito a minha técnica. Eu apenas andei. Quando disse para o Guilherme que nunca tinha pisado numa passarela ele quase desmaiou.” (continua...)

Arte de AROEIRA

COI abre investigação e Ryan Lochte pode ser punido--deu no jornal



Ryan Lochte teria sido assaltado após festa

Mark Adams, porta-voz do COI, confirmou que um caso foi aberto contra Gunnar Bentz, Jack Conger, Jimmy Feigen e Lochte, que é o dono de seis medalhas de ouro olímpicas. 
Entre as diversas punições que ele poderia sofrer está uma eventual suspensão, penas financeiras ou até mesmo a perda de medalhas, em casos extremos.
Lochte pediu desculpas oficiais por conta do episódio nesta sexta-feira, depois que a delegação americana também apontou que tal comportamento era "inaceitável".
"Há sentimentos que foram afetados nesse país", admitiu Mark Adams, o porta-voz do COI. "Ficamos chateados com o que ocorreu. Achamos que o pedido de desculpas de Lochte é apropriado", insistiu.
Ainda que o caso num posto de gasolina tenha ocorrido fora da disputa de provas - a natação já havia sido encerrada no Rio-2016 -, o COI vai avaliar se o comportamento dos atletas olímpicos durante o evento deve ou não ser punido. O caso também colocou pressão sobre os Estados Unidos, que querem organizar os Jogos de 2024 em Los Angeles. Os organizadores da campanha temem que o projeto seja afetado pela polêmica.

"Aceitamos seu pedido de desculpas e apreciamos isso", disse Mario Andrada, diretor-executivo do Rio-2016 encarregado da área de comunicação. "A população brasileira se sentiu humilhada pelas mentiras e que sua imagem foi afetada. Ficou decepcionada com as ações", disse.

Segundo ele, os organizadores do evento receberam 1,8 milhão de mensagens no Twitter se queixando do comportamento dos americanos. Isso representou 2,5% de total de menções nas redes sociais durante 24 horas dos Jogos. "Havia uma indignação que somente poderia ser lidada com um pedido oficial de desculpas", explicou.

"Obviamente que a população se sentiu humilhada. Acho que os brasileiros vão aceitar o pedido de desculpas", disse Mario Andrada. "Esse caso tem lições importantes. A mentira tem pernas curtas, mesmo sendo um atleta. O que foi definido como complexo de vira-lata acaba depois dos Jogos Olímpicos. Temos de dar esse caso como encerrado", completou.

Nos pênaltis, Brasil bate a Alemanha e fatura o inédito ouro olímpico

Neymar Jr
Rio - Fim do jejum. No Maracanã, nas cobranças de pênalti e contra a Alemanha, o Brasil garantiu o último título que faltava ao seu futebol. Depois do empate em 1 a 1 no tempo normal, a Seleção derrotou a Alemanha na cobrança de pênaltis e garantiu o ouro inédito. Com o resultado, o Brasil chega a seis medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio Neymar comemora o seu gol no tempo normal--foto Alexandre Brum

O JOGO
O primeiro tempo entre Brasil e Alemanha começou equilibrado. A primeira chance foi dos visitantes e o travessão brasileiro foi carrimba. Em bela troca de passes, Brandt finalizou na trave, assustando o goleiro Weverton.

O Brasil respondeu logo depois. Após bela jogada, Neymar tocou para Douglas Santos, que cruzou na medida para Luan, porém, o jogador brasileiro não pegou bem na bola e facilitou o corte de Süle.

Aos 26 minutos, a seleção brasileira conseguiu o seu gol. Em falta próxima ao gol, Neymar cobrou com perfeição, sem chances de defesa para o goleiro Horn.

Atrás do placar, a Alemanha foi para cima e colocou a bola na trave brasileira em mais uma oportunidade. Meyer jogou a bola na área, Bender desviou e a bola tocou no travessão. 

O Brasil seguiu inferior no segundo tempo e levou o empate. Após falha da zaga brasileira, a bola saiu da direita pra o meio e Meyer finalizou, sem chances de defesa para o goleiro Weverton.

Precisando novamente de gols, o Brasil finalmente chutou uma bola no gol alemão. Aos 17 minutos, Renato Augusto arriscou de fora da área e a bola acabou indo para fora, assustando o goleiro Horn. O Brasil evoluia e criou uma bela chance logo depois. Renato Augusto avançou e cruzou para Gabriel Jesus, o atacante errou por pouco, mandando para fora.

A seleção brasileira seguia melhor no jogo. Neymar tentou chamar a responsabilidade e lançou Felipe Anderson, o meia se enrolou e não finalizou. Depois, o camisa 10 chamou a zaga alemã para dançar e arriscou de fora da área, a bola acabou indo para fora. 

Os últimos minutos foram de pressão do Brasil, mas sem muita criatividade, fechada, a Alemanha conseguiu evitar as chances de gol da equipe verde e amarela e o duelo foi para a prorrogação.

Prorrogação
O primeiro tempo da prorrogação foi mais equilibrado com duas chances para cada equipe. O Brasil chegou bem em lance de Neymar, que lançou Luan, porém, o jogador do Grêmio se enrolou na hora de finalizar e perdeu a chance. A oportunidade alemã aconteceu em contra-ataque. Petersen lançou e Brandt apareceu na grande área e tocou por cima do gol.

A segunda etapa começou com outra grande oportunidade do Brasil. Neymar lançou Felipe Anderson, mas o jogador brasileiro chutou mal em cima do goleiro alemão. O restante da prorrogação seguiu sem maiores emoções e decisão foi para os pênaltis.

Penalidades
Nas penalidades, as cobranças eram realizadas com perfeição por ambos os lados. Ginter, Gnabry, Brandt e Süle fizeram para a Alemanha. Marquinhos, Rafinha Alcântara e Luan acertaram para o Brasil. Até que chegou a vez de Petersen cobrar, o artilheiro alemão cobrou e Weverton defendeu. A bola do ouro foi de Neymar, que converteu a cobrança e deu o título olímpico ao Brasil.

FICHA TÉCNICA---Brasil 1 (5) x (4) 1 Alemanha
Data e horário: 20/8, às 17h30
Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Árbitro: Alireza Faghani (Irã)
Auxiliares: Reza Sokhandan e Mahammadreza Mansouri (ambos do Irã)
Cartões amarelos: Zeca e Gabriel (BRA); Selke, Prömel e Sven Bender (ALE)
Gols: Neymar, aos 26'/1ºT (1-0); Meyer, aos 13'/2ºT (2-0)

Brasil: Weverton, Zeca, Marquinhos, Rodrigo Caio e Douglas Santos; Walace e Renato Augusto; Gabriel (Felipe Anderson, aos 25'/2ºT), Luan, Gabriel Jesus (Rafinha, aos 5'/1ºP) e Neymar. Técnico: Rogério Micale.

Alemanha: Horn, Toljan, Klostermann, Ginter e Süle; Sven Bender, Meyer, Lars Bender (Prömel, aos 22'/2ºT), Brandt e Gnabry; Selke (Petersen, aos 31'/2ºT). Técnico: Horst Hrubesch.

No Pan-2015, outro americano aprontou no Rio, por DANIEL BRUNET

Comentario sardonico--a ausência de grandes artistas privou os "nortistas extremos" de simancol. Creem-se superiores. Exercem a propria violência no exterior e terminarao (TUDO termina!) como a NONA LEGIAO de ROMA.......
Olga Kurylenko encarna Etain, chefe guerreira que lidera os pictos na resistência contra os legionários romanos

Não é a primeira vez que um americano apronta por aqui. Quem não se lembra do caso de Kevin Neuendorf, gerente de imprensa do Comitê Olímpico Americano, que no Pan-2007, no Rio, escreveu no quadro de uma sala do Riocentro a expressão "Welcome to the Congo" (Bem-vindo ao Congo), numa referência ao calor carioca. 
A "brincadeira" do gringo foi descoberta e noticiada pelo coleguinha Ary Cunha.

sábado, 20 de agosto de 2016

A voz do morto, por José Paulo Cavalcanti Filho--Advogado




Comentario dubitativo--acho que nao entendi....mas, gostei de lêr.

“Cada palavra dita é a voz de um morto”, escreveu Fernando Pessoa. O que nos remete à primeira regra da cavalaria ibérica – aquela que recomenda cessar a peleja quando o combatente já não pode se defender. 
Em casos assim, o silêncio é elegância obrigatória. Não foi o que se deu, poucos dias faz. Volta ao palco um concurso de cátedra realizado em 1959. Entre o querido mestre Paulo Freire e nossa confreira, na Academia Pernambucana de Letras, a professora Maria do Carmo Tavares de Miranda. Como ela já não está entre nós, sinto-me obrigado a fazer sua defesa.

A versão nova dá tom político a esse concurso. Opondo educação laica e religiosa. Algo que não faz sentido. Pior é que esse vício está virando praga. Agora mesmo, por exemplo, uma filósofapaulista defende a tese de que o Juiz Sérgio Moro foi treinado pela CIA. Para entregar o pré-sal às multinacionais do petróleo. A mesma que, em vídeo famoso, diz ter “horror à classe média”. Já eu tenho horror a quem vê a realidade só a partir de suas ideologias. Por ser prática ruim. Esquecendo outros valores. Entre os quais a ética. Em que crimes comuns, como o de corrupção, acabam absolvidos (ou relativizados) na compreensão de que tudo se deu por boa causa. Como se os fins justificassem quaisquer meios. Quase como se roubar para enriquecer fosse pecado e roubar para o partido uma virtude.

Disputava-se a cátedra de História e Filosofia da Educação. Na hoje Universidade Federal de Pernambuco. Uma concorrente era Maria do Carmo Tavares de Miranda. Com doutorado em Filosofia na Sorbonne – talvez, por isso, Gilberto Freyre a chamasse de A filosofa de Paris. E pós-doutorado em Freiburg (im Breisgau, Alemanha). Membro de numerosas entidades internacionais – como a Sociedade Interamericana de Filosofia ou a Academia Internacional de Filosofia de Arte, em Atenas (Grécia), da qual era Vice-Presidente. Foi professora visitante em numerosas universidades estrangeiras. E assistente, na Alemanha, do enorme filósofo alemão Martin Heidegger. Um ano depois de sua morte, Maria do Carmo publicou Sobre o comando do campo de Martin Heidegger. Tendo ainda traduzido dele, para o português, Da Experiência do Pensar. Só para lembrar, a professora traduzia 8 idiomas – entre os quais grego, latim, aramaico e hebraico.

O outro era Paulo Freire – ainda jovem, com pouco mais de 30 anos, e já uma presença estelar. Pouco depois, em 1969, eu estudava fora. Atendendo pedido gentil (não tanto) de nossos militares. E decidimos, um grupo de estudantes latino-americano, ir até Washington. Onde ele estava exilado. Para conhece-lo. Foi um dia glorioso. Lembro que ficou preocupado quando soube que o governo militar começava a ensinar, por aqui, Moral e Cívica. Porque, nos disse, “toda dominação começa com a educação”. No fim, sorteou conosco um pequeno elefante africano talhado em madeira. Lamento não ter ganho.

Todo concurso público compreende provas e títulos. Ganha (quase sempre) quem está mais preparado. Mas o que ocorreu?, então. Segundo Dimas Brasileiro Veras (em Sociabilidades Letradas no Recife), “As referências são unânimes em ressaltar que a prova didática contribuiu para o insucesso de Paulo Freire... Os relatos são inúmeros em ressaltar a retórica e a erudição da professora”. Nada sugerindo qualquer favorecimento. Nem preferências políticas. Em resumo, não é preciso arranhar a memória de Maria do Carmo (uma “desconhecida”) para elogiar Paulo Freire. Pessoa especial, e de quem tanto nos orgulhamos, Freire certamente dispensaria, em casos como esse, que lhe fossem dados méritos além daqueles que já tem.

Avishai Cohen e seu jazz de rua, com influência de Bach, por Flávio de Mattos--Jornalista


Avistai Cohen (Foto: Divulgação)
Sempre que parava em uma esquina de Nova York e começava a tocar o seu baixo, juntava logo gente ao redor do jovem israelense Avishai Cohen. As pessoas se surpreendiam com o talento daquele “músico de rua”. Notavam que tinha um toque diferenciado e se perguntavam por que estava ele tocando ali e não em um dos famosos palcos de jazz daquela cidade.
Acabado de chegar em Nova York, tocar nas ruas, nos parques e no metrô foi a maneira que Avishai Cohen encontrou para sobreviver. Fora os bicos que ainda fazia como pedreiro, na construção civil. Ele havia saído de Israel determinado a completar sua formação musical nos Estados Unidos e pretendia vencer todos os obstáculos para alcançar seu objetivo.
Cohen nasceu em um kibutz, perto de Jerusalém. Começou a estudar piano aos nove anos de idade, levado pela música de Bach, que sua mãe escutava em casa. Aos 14 anos, a família mudou-se para a América e foi morar em St. Louis, no Missouri. Lá ele continuou com as aulas de música, mas descobriu o jazz. Inspirado no som da Jaco Pastorius, adotou o baixo como seu instrumento.
Voltaram depois para Israel e ele ingressou na Academia de Música e Artes de Jerusalém, conciliando seus estudos de piano clássico, com o baixo do jazz. Na época do serviço militar obrigatório, cumpriu os seus dois anos tocando na banda do Exército. Acabado esse tempo, foi o momento da grande decisão, voltar para os Estados Unidos, a fim de fazer carreira como músico de jazz.
Cohen chegou em Nova York, em 1992, com 22 anos, sem nenhum contato na cidade. Ele conta que seu primeiro ano ali foi o período mais duro de sua vida. Matriculou-se no Departamento de Música da New School e o desafio diário era enfrentar o trabalho na construção, que lhe garantia o dinheiro para a anuidade, e frequentar as aulas na universidade.

Mas foram os cursos da New School que proporcionaram a Avishai Cohen aproximar-se do meio musical de Nova York. Um de seus colegas de aulas era o pianista Brad Melhdau, que o apresentou ao pianista panamenho Danilo Perez. Ele convidou Cohen para integrar seu trio na gravação do disco que iniciava, Panamonk (1996). Com esse contrato, o baixista deixou de tocar nas ruas e no metrô, e nunca mais teve que voltar para uma obra.

O salto definitivo na carreira de Avishai Cohen aconteceu em 1997, com um telefonema do pianista Chick Corea. Ele havia escutado uma fita demo de Cohen e o queria em seu novo grupo. Os seis anos que passou como membro do sexteto Origin, foram fundamentais para a formação musical do baixista. Cohen sempre se refere ao amigo Chick como o seu grande mestre. E a Bach, como sua referencia permanente.

As diferentes influencias recebidas ao longo de sua trajetória é que fazem tão especial o som de Avishai Cohen. Desde todo o Bach que ouvia em casa, até o vibrante som contemporâneo das ruas de Nova York. Passando pelas raízes israelenses, a música mediterrânea, o jazz latino dos tempos de Perez e a modernidade de Corea. Tudo temperado com sua musicalidade própria.

No cd At Home (2005), o sexto que gravou como líder, encontramos o baixista em plena maturidade, na balada Remembering. Avishai Cohen sempre compõe ao piano e, muitas vezes, em shows, deixa o baixo e ataca um solo nesse instrumento, com absoluta propriedade. Aqui, o piano dita a linha melódica do arranjo, enquanto seu baixo estabelece um perfeito diálogo com a linguagem dos teclados.

Em From Darkness (2015), o trabalho mais recente de Avishai Cohen, já o encontramos com uma abordagem mais intensa, como na faixa Lost Tribe. O trio piano, baixo e bateria tocando ao vivo no estúdio, como se no palco estivesse.

No vídeo a seguir temos a performance do novo trio de Avishai Cohen, que tem Omri Mor, no piano e Noam David, na bateria, com o bolero Besame Mucho. A apresentação foi gravada há exatamente duas semanas, dia cinco de agosto, no Festival de Jazz de Marciac, na França.

P.S.: Vale lembrar, existe outro músico de jazz, israelense, com o mesmo nome de Avishai Cohen, é o trompetista, também em ascensão, irmão da sensacional clarinetista Anat Cohen.