domingo, 31 de julho de 2016

Levantamento inédito revela que Rio tem 6,8 mil alunos de outros países, por Antonio Werneck / Natália Boere

O francês Gabriel (à esquerda), a panamenha Vitoria e o português João Pedro estudam na Escola Dínamis: surpresa com a descontração dos cariocas ­ (Foto-Fernando Lemos)
Levantamento inédito revela que Rio tem 6,8 mil alunos de outros países 
Os números mostram que o estado é o quarto que mais atrai estrangeiros no país, ficando atrás de São Paulo (primeiro), Paraná e Minas Gerais.
­ Nascido em Paris em uma família um tanto nômade, Gabriel Esclozas, de 17 anos, se mudou com o pai francês e a madrasta romena para Nova York aos 12, sem saber uma palavra de inglês. Dois anos depois, já adaptado, teve que fazer as malas novamente. Com o visto de residente expirado, a família precisou deixar os Estados Unidos e escolher um novo destino — voltar para a França, definitivamente, não estava nos planos. Elegeram o Rio. — A segunda ex-­mulher do meu pai era brasileira. Nunca tínhamos vindo para cá, foi uma escolha aleatória. 
Em Paris, quando se fala em Brasil, se pensa logo no Rio. Então, viemos. Cheguei aqui sem falar nada de português. Tive que aprender com uma professora particular e com a ajuda de amigos — lembra Gabriel, que cursa o 3º ano do ensino médio na escola particular Dínamis, em Botafogo. Ele é colega da panamenha Vitória Bria, de 17 anos, que está há sete no Rio. 
Também veio por questões familiares: quando os pais se separaram, a mãe, carioca, decidiu voltar para o Brasil. Como Gabriel, veio sem falar português. Mas a língua foi a menor das barreiras. — Eu sofri muito quando cheguei à cidade. Aqui as pessoas andam sem camisa na rua e no meu país você pode ir preso se andar ou dirigir sem camisa. Eu achava que todo mundo estava pelado. Nas ruas próximas à praia, antes de você chegar lá, não tem motivo para estar sem camisa. Eu achava horrível — comenta ela. Já o português João Pedro Duarte, de 16 anos, que está há três no Rio por conta de uma vontade do pai, empresário, de expandir seus negócios, diz que ficou positivamente surpreso com o jeito do carioca logo que chegou à cidade: 
— Em Portugal, as pessoas não sorriem tanto. Para você conseguir o sorriso de alguém, é preciso ser amigo da pessoa. Eu mesmo era mais fechado. Aqui comecei a demonstrar mais meus sentimentos — conta João Pedro, que está no 1º ano do ensino médio da Escola Dínamis. 
QUARTO ESTADO COM MAIS ESTRANGEIROS
Um levantamento inédito do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), feito a pedido do GLOBO, revela que o Rio tem 6.805 estudantes estrangeiros matriculados nas escolas de ensino básico e superior. 
São 4.903 no ensino básico e 1.902 no superior. Os números mostram que o Rio é o quarto estado que mais atrai estrangeiros no país, ficando atrás de São Paulo (primeiro), Paraná e Minas Gerais. 
Boa parte dos alunos estrangeiros do ensino básico frequenta colégios públicos. As japonesas Fernanda, de 14 anos, e Giovanna Aguena, de 12, estudam na Escola Municipal Ary Barroso, em Brás de Pina. 
Filhas de cariocas, as duas nasceram na província de Mie, na região de Kansai, no Japão, e vieram morar no Rio com a família em 2007, quando os pais ficaram desempregados devido à crise econômica no país. — Quando chegamos, ainda no avião minha mãe me disse: “Toma cuidado que lá embaixo é muito perigoso”. E eu não entendi, não tinha noção da violência. Quando eu era pequena, no Japão, em determinados lugares na rua, eu soltava a mão dos meus pais e saía correndo para brincar de pique­-pega. Meu pai corria atrás de mim, minha mãe corria atrás da minha irmã, era como se brincássemos em casa. Aqui, se fizer isso, você perde a criança — comenta Giovanna. 
TRADIÇÕES SÃO MANTIDAS 
As duas ainda falam um pouco de japonês e contam que alguns costumes, como tirar o sapato antes de entrar em casa, permanecem. 
Ao escolher um restaurante para comer no shopping, nada de hambúrguer: vão direto atrás do sushi. Elas contam que o pai ainda mantém hábitos japoneses no trato com as pessoas, o que, às vezes, causa estranhamento. — O japonês é bem mais educado que o brasileiro — observa Fernanda

Os estrangeiros também estão presentes nas universidades cariocas. Na UFRJ, por exemplo, a italiana Giulia Nistri, de 28 anos, faz mestrado em antropologia do corpo e do consumo. Ela é de Florença e veio fazer um semestre do curso no Rio. — Trabalhei com um professor que estudou os índios do Brasil e comecei a me apaixonar pelo país. Até que surgiu a oportunidade de fazer um intercâmbio aqui, e ele me incentivou a vir, porque o Rio é um lugar lindo — afirma Giulia, que está totalmente adaptada à cidade. — Moro no Catete e corro no Aterro do Flamengo todas as manhãs. Para mim, o Rio é um paraíso. 
O guineense Maurício Wilson, de 33 anos, que faz pós­graduação em urbanismo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, também se diz completamente adaptado: — Logo que cheguei, fui abraçado e amparado pela minha comunidade guineense e por outros africanos estudantes, imigrantes e refugiados vindos da África e do Haiti

'The Tonight Show', de Jimmy Fallon, faz sátira com a Rio-2016, por ANCELMO GOIS

VIROU ESCULACHO?

A Olimpíada ganhou destaque em mais um programa de TV americano. Desta vez, foi o “The Tonight Show”, de Jimmy Fallon, da NBC, que fez uma lista, cheias de sátiras, sobre a Rio-2016.

Diz lá que o ponto alto da abertura será o da aparição de uma tela gigante anti-mosquito do zika que irá cobrir o Maracanã. 

O programa foi ao ar esta semana

Carta de Buenos Aires: A cidade oculta, por Gabriela G. Antunes--Jornalista

Frank´s bar, só com senha de entrada (Foto: Divulgação)
Às vezes, uma névoa soprada do Uruguai deixa o rio da Prata e vai, pouco a pouco, tomando Buenos Aires. Começa cobrindo as torres do bairro de Puerto Madero e termina tomando o centro da cidade, escondendo os edifícios de arquitetura francesa e dando, à capital argentina, ares de mistério.

Buenos Aires é uma cidade de pequenos segredos. Muitos prédios ocultam vitrais, obras de arte e outras surpresas. Alguns dos melhores restaurantes da cidade funcionam a portas fechadas, muitas lojas só com horário marcado e alguns dos bares mais interessantes requerem senha para entrar. É a Buenos Aires oculta, acessível apenas para aqueles que sabem.

Os “speakeasy” nasceram nos EUA durante a Lei Seca. Ganharam esse nome graças à recomendação dos garçons aos clientes para manter anônimo o local. Quase um século depois, os bares secretos voltam à moda em todo o mundo. 

Alguns dos bares mais exclusivos de Buenos Aires também acompanham esse ressurgimento do “speakeasy”. É o caso do Frank´s Bar (Arévalo 1445), que oferece enigmas aos clientes pelas redes sociais para que descubram a senha de entrada; ou do Nicky Harrison (Malabia 1754), onde apenas sócios e clientes do caríssimo restaurante de sushi (Nicky Sushi) podem desfrutar do lugar. É preciso jantar no restaurante de Sushi e “pedir permissão” para conhecer a bodega no bar escondido. Por detrás de um café e atravessando uma parede falsa está o bar Victoria Brown (Costa Rica 4827), cuja cenografia nos remete a um livro de Julio Verne. E por detrás de uma floricultura está um dos bares que muitos ranqueiam entre os melhores do mundo, a Floreria Atlantico (Arroyo 872).

Alguns dos melhores restaurantes da cidade também funcionam a portas fechadas, sendo necessário agendar com antecedência, por meio das redes sociais. Esse é o caso da Casa Coupage e Mo Ment, cozinhas de autor como em casa.

Outro segredo é comer nos restaurantes que os argentinos chamam de “coletividade”. O jantar oferecido pela comunidade armênia na UGAB (Armenia 1322) acontece apenas nas noites de sexta e sábado e é como entrar na versão armênia do filme Casamento Grego, com famílias barulhentas, comida caseira, danças típicas e um clima de bairro inigualável.

As melhores vistas da cidade também estão escondidas nos altos de alguns edifícios comerciais. É o caso do restaurante Club Alemán, abrigado no 21º andar de um edifício na Av. Corrientes (327), com espetacular visual do rio, em uma cidade que dá as costas para o rio da Prata.

São alguns dos segredos de Buenos Aires fáceis de descobrir. Outros permaneceram escondidos até desvendados por intrépidos viajantes. A senha, por favor?

'Não vegetem no sofá da vida' ,pede Francisco a jovens na Polônia--G1

Papa Francisco participa da Jornada Mundial da Juventude,que em 2016 acontece em Cracóvia, na Polônia (Foto: Filippo Monteforte / AFP)
(Foto: Filippo Monteforte / AFP)

Papa participa da Jornada mundial da juventude em Cracóvia. Pontífice criticou sedentarismo e pediu ação aos participantes.

Em discurso no Campo da Misericórdia nos arredores de Cracóvia, na Polônia, neste sábado (30), o papa Francisco pediu a uma multidão de jovens que "não sejam substitutos" na vida e que não "vegetem" comodamente no "sofá" da vida.
 "A verdade é outra: queridos jovens, não viemos a este mundo para vegetar, para passá-­la comodamente, para fazer da vida um sofá no qual adormecemos.
Ao contrário, viemos para deixar uma marca", estimulou. "O tempo que estamos vivendo hoje não necessita de jovens-­sofá, mas de jovens com sapatos, melhor ainda, com as chuteiras calçadas.
Só aceita jogadores titulares na quadra, não há espaço para substitutos", convocou Francisco.
O papa criticou os chamados "couch potatoes", termo usado pelos americanos para se referir aos sedentários, que passam várias horas do dia deitados no sofá diante da televisão.
Francisco se referiu, assim, aos que "confundem felicidade com um sofá", que passam horas na frente do computador, "boquiabertos", vivendo o que ele chamou de "sofá-­felicidade", em uma resposta à história narrada no palco por um paraguaio viciado em drogas.
Ao ritmo de música pop, uma multidão de jovens alegres recebeu o pontífice na imensa esplanada, na qual ficarão acampados por toda a noite para compartilhar e meditar sob as estrelas sobre fé e fraternidade.
Centenas de adolescentes, escoteiros, freiras, párocos, famílias com crianças e seus sacos de dormir, sombrinhas e guardas-­sol caminharam a pé por quase 12 quilômetros até o campo para ouvir os conselhos e preocupações do sumo pontífice, assim como seu convite para que "se envolvam" com a realidade, com "a dor" e com as "guerras", tanto externas quanto íntimas. "Nossa resposta a esse mundo em guerra tem um nome: chama-­se fraternidade", disse o papa após escutar o testemunho de Rand, um sírio de Aleppo, suscitando aplausos.
"Sejamos conscientes de uma realidade. A dor, a guerra em que vivem muitos jovens deixa de ser anônima, deixa de ser uma notícia de imprensa, tem nome, tem rosto, uma história, tem proximidade", continuou, com seu jeito original de falar, simples e direto. "Nós não vamos gritar agora contra ninguém, não vamos brigar, não queremos destruir. Nós não queremos vencer o ódio com mais ódio, vencer a violência com mais violência, vencer o terror com mais terror", pediu.
O papa argentino quis transformar o "Woodstock católico" em um momento para sacudir consciências. "Há tantas guerras hoje no mundo", insistiu.
"Na vida, ainda há outras paralisias mais perigosas e muitas vezes difíceis de identificar e que nos custa muito a descobrir. Gosto de chamá-la a paralisia que nasce quando se confunde 'felicidade' com um 'sofá'", explicou.
"Um sofá contra todo tipo de dores e temores. Um sofá que nos faz ficar em casa trancados, sem nos cansarmos e nos preocuparmos", advertiu.
Várias vezes aplaudido, o papa Francisco pediu que se fizesse uma corrente humana, dando-se as mãos como uma mensagem a favor da "multiculturalidade", que "não é uma ameaça, mas uma oportunidade", completou.

RECESSÃO EXPLICA DÉFICIT RECORDE NAS CONTAS PÚBLICAS, DIZ BANCO CENTRAL--(AEstado)

Comentario--os atuais detentores do Poder Republicano incitam o BACEN a fazer Politica com Numeros...vai dar merda, como sempre. Agoraaprincipal motivação  sao duas--manter o Mordomo (de filme de terror)no poleiro e ganhar as municipais.Quando chegara a vez do BRASIL!!!!-------------------------------------------------------------------------------------------------

EM JUNHO, O SETOR PÚBLICO CONSOLIDADO, FORMADO PELA UNIÃO, PELOS ESTADOS E MUNICÍPIOS, REGISTROU DÉFICIT PRIMÁRIO DE R$ 10,061 BILHÕES (FOTO: acima AE)

A queda das receitas, gerada pela retração da economia, e a manutenção das despesas públicas levaram o país a registrar os piores resultado das contas públicas, em junho e no primeiro semestre deste ano.

Em junho, o setor público consolidado, formado pela União, pelos estados e municípios, registrou déficit primário (cálculo das receitas menos despesas, sem considerar os gastos com juros) de R$ 10,061 bilhões, informou hoje (29) o Banco Central (BC). No primeiro semestre, o resultado negativo chegou a R$ 23,776 bilhões, também o pior resultado para o período.

Em 12 meses encerrados em junho, o déficit primário ficou em R$ 151,249 bilhões, o que corresponde a 2,51% do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país. A meta fiscal prevê um déficit primário de até R$ 163,9 bilhões nas contas públicas, este ano. Para chegar a esse resultado do setor público consolidado, a expectativa é que o governo federal apresente déficit primário de R$ 170,496 bilhões e os estados e municípios tenham um superávit de R$ 6,554 bilhões.

O chefe adjunto do Departamento Econômico do BC, Fernando Rocha, explicou que os resultados negativos das contas públicos são explicados pela recessão no país. “Existe uma série de impostos vinculados ao nível de atividade econômica, à renda ou aos lucros. Numa recessão, todos esses impostos tendem a diminuir”, disse. Por outro lado, acrescentou Rocha, “as despesas tendem a ser mais rígidas do que as receitas”. “Salários de funcionários, despesas correntes de manutenção do Estado, saúde, segurança, tendem a se manter. Não têm a mesma flutuação cíclica das receitas. Em alguns casos, podem até aumentar, em contas como do seguro-desemprego. Não é por outra razão que o governo tem anunciado uma série de medidas para tentar conter o aumento de despesas e buscar formas de aumentar receitas”, destacou.
Rocha disse ainda que, no segundo semestre, o setor público costuma apresentar resultados piores do que nos seis primeiros meses do ano, devido a maiores despesas e menores receitas. “Então o segundo semestre deste ano será pior do que o primeiro, mas isso é uma regra que vale para todos os anos, para qualquer situação. A tendência é de crescer o déficit até dezembro”, disse. 

Frei Betto: Shakespeare e Cervantes

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Rio - Em 23 de abril de 1616 — há praticamente 400 anos —, houve festa no céu. Com certeza, um grande sarau literário. Naquela data, dois gênios da literatura universal deixaram o nosso mundo, que tão bem retratam em suas obras: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes.
Shakespeare, nascido em 1564, viveu 51 anos. Cervantes, nascido em 1547, 68. Talvez os dois tenham se admirado com a coincidência de data ao se evadirem dessa Terra tão atribulada e felizes por, afinal, se conhecerem pessoalmente. E exultaram se comungavam a esperança expressada, séculos mais tarde, por Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca.” Espero que sim, pois nesse curto período de vida é impossível ler todos os livros que me atraem.

Shakespeare se casou aos 18 anos com a rica Anne Hathaway, de 26, que lhe deu três filhos: Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Em Londres, trabalhou como ator e escritor. Até 1590, influenciado pelo teatro italiano, escreveu principalmente comédias, como ‘A megera domada’ e ‘A comédia dos erros’.
Cervantes, com sua obra-prima, ‘Dom Quixote de la Mancha’, é considerado o pai do romance moderno. Assim como a obra de Shakespeare consolidou o idioma inglês, a de Cervantes produziu o mesmo efeito no espanhol.
Em 1569, aos 22 anos, Cervantes se refugiou na Itália, após ferir um desafeto com quem duelou. Em 1571, participou da Batalha de Lepanto, quando a esquadra formada por países cristãos derrotou os soldados do Império Otomano, de fé islâmica. Ferido, ficou com a mão esquerda inutilizada.
Ao navegar de Nápoles a Castela, em 1575, foi capturado por corsários argelinos, que o retiveram por cinco anos, até receberem o resgate. Viveu em Lisboa entre 1581 e 1583. De retorno a Castela, casou com Catalina de Salazar, em 1584, aos 37 anos, com quem teve a filha, Isabel. No ano seguinte, publicou seu primeiro romance, ‘A galatea’. Preso em 1597 por dívidas bancárias, durante o ano em que permaneceu no cárcere esboçou ‘Dom Quixote’, cuja primeira parte se editou em 1605 e, a segunda, dez anos depois. Escreveu também novelas, comédias e poemas.
Além da coincidência de falecerem na mesma data, Shakespeare e Cervantes foram mestres no modo de tratar temas políticos com refinado talento artístico e, ao mesmo tempo, dissecar as profundezas da alma humana. Assim como a obra de Shakespeare consolidou o idioma inglês, Cervantes produziu o mesmo efeito no espanhol
Frei Betto é autor do romance ‘Minas do Ouro’ (Rocco)

Jaguar: O canguru do prefeito

Na semana passada eu disse que nesta Olimpíada tudo poderia acontecer, inclusive dar certo. Mas agora, graças ao nosso estapafúrdio prefeito (desculpem o palavrão, mas não achei outro adjetivo cabível), estou pensando em retirar a parte final da frase. Logo ele, um dos mais aguerridos defensores da nossa cidade como sede dos Jogos. Teve sete anos para arrumar as coisas e, quando chegou a hora, disse, numa entrevista ao ‘Guardian’, que foi “uma oportunidade perdida”. 
O canguru do prefeitoFoto: Charge de Jaguar
Foram tantos os protestos que pensei que tinha se arrependido da mancada; talvez algum assessor tenha sussurrado um conselho tipo “menos, prefeito, menos”. Mas que nada. Depois que a delegação australiana reclamou das acomodações (risos) a ela destinadas — apartamentos sujos e inacabados, com goteiras e fiação exposta —, tascou outra tamancada: “Até quinta-feira vai estar tudo pronto, e ainda vou providenciar um canguru para eles se sentirem em casa.” Nunca pensei que fosse capaz de uma grosseria dessas. 

A resposta dos australianos, polida e acachapante, deixou este munícipe que vos fala morto de vergonha: “Não precisamos de cangurus, precisamos de encanadores.” Para piorar a coisa, algum gaiato botou a estátua do marsupial na frente do prédio da Austrália na Vila. 
Mas não ficou nisso: domingo, 19, a velejadora Liesi Tesch e uma fisioterapeuta foram assaltadas no Aterro. Roubaram suas bicicletas. Paes empurrou a culpa para o governo estadual: “Tenho que matar no peito e responder.” Não ficaria surpreso se o Comitê Olímpico Internacional proibisse o prefeito de participar da Olimpíada. Motivo? Tentativa de desestabilizar a equipe da Austrália. 
Por falar no bicho: você já viu um canguru? Eu não. Aprendam com a sabedoria do Millôr: “O capitão Cook, explorador da Austrália, ao ver aquele estranho animal dando saltos de mais de dois metros de altura, perguntou a um nativo qual era o nome do bicho. Ele respondeu no seu dialeto ‘Não sei’.” 
Millôr desconfiou dessa história e pesquisou em alguns dicionários etimológicos. Descobriu que a palavra ‘kanga’, acompanhada do sufixo ‘rôo’, significa ‘quadrúpede saltador’. Em suma:os aborígenes não davam nome para o bicho, apenas diziam que dava pulos. Millôr contou essa história para Paulo Rónai, notável linguista. “Gostei de saber a origem do nome”, disse.
E acrescentou: “Mas achei a outra versão mais bonitinha.

sábado, 30 de julho de 2016

Aristóteles Drummond, Jornalista- Portugal hoje


Portugal vive um intenso momento político e econômico, com uma coalizão de esquerda que reúne ponderados e desequilibrados. Os primeiros procuram acertar politicamente os pontos mais frágeis nas contas públicas, acatando um mínimo de cortes. Afinal, este governo tem um viés populista e altamente demagógico. Tanto que restaurou feriados que haviam sido cortados para ficar na média europeia e diminuiu para 35 horas a jornada do funcionalismo, ameaçando fazer o mesmo no setor privado. Já tem até quem defenda restrições ao pedágio em suas excelentes estradas. Percebe-se, no entanto, que, no fundo, os socialistas não marxistas querem evitar confronto com a União Europeia.
Apesar de tudo, o turismo vive o melhor momento, com a rede hoteleira com ocupação plena. O emprego preocupa, mas, logo que a legislação avance no sentido do bom senso, a situação melhorará. Na cultura, o ministro é velho conhecido (e amigo) dos brasileiros: o ex-cônsul no Rio Luís Castro Mendes, poeta e homem do mundo. E acaba de incorporar ao catálogo nacional o rico acervo das santas casas, iniciativa que deveria ser imitada no Brasil, incluindo igrejas de mais de dois séculos, como muitas do Rio e de Minas.
Outro tema positivo é a saúde, com o médico de família, simplificando e informando a população de tal maneira que, muitas vezes, evita a procura pelos postos. Fenômeno de audiência na televisão é o programa do médico João Ramos, que também faz sucesso com o livro ‘Um médico para toda família’ — o que nos faz lembrar as décadas da obra do saudoso pediatra Rinaldo Delamare.
No mais, infelizmente, o drama dos bancos continua, como em toda a Europa. Itália, Espanha e Portugal vão sofrer com os problemas dos seus, começando pelos estatais. E houve quem criticasse o Proer de FHC, que deu segurança ao nosso sistema bancário.
Enfim, o mundo anda globalizado também em seus problemas, e a presença de uma ordem democrática em que os menos esclarecidos influem tanto quanto, senão mais, do que os mais responsáveis. O Papa anda preocupado com razão.
Contudo, Portugal se favorece por estar fora do eixo do terror. A França já vive seu pior ano no turismo de alta temporada, e as medidas de segurança, necessárias, são irritantes nas estradas e aeroportos. O clima de guerra dificulta a economia, que pede reformas urgentes. Um ano complicado!

    Arte de JAGUAR

    quinta-feira, 28 de julho de 2016

    Olimpic Games Rio 2016--few days left!

    Cristo Redentos, Olimpíadas (Foto: Arte: Izânio)

    A máquina das mentiras da Sete Brasil

    Desde o final de 2014 sabe-se que a Sete Brasil, empresa que forneceria 29 sondas à Petrobras, era uma fabricação duvidosa na origem, anacrônica nos meios e perdulária nos fins. Ideia do petrogatuno Pedro Barusco, produziria equipamentos caros, porém nacionais.

    Lula meteu no negócio de R$ 28 bilhões os fundos estatais (Previ, Petros, Funcef, mais as arcas do FGTS) e atraiu os bancos BTG Pactual, Bradesco e Santander. As coisas só iriam bem se o BNDES financiasse R$ 8,8 bilhões, mas o banco sentiu o cheiro de queimado e retraiu-se. Micou a Caixa Econômica, com R$ 700 milhões.

    Até aí há apenas mais uma petrorroubalheira. No caso da Sete houve mais. Construiu-se uma catedral de patranhas indicativa de que, apesar da Lava Jato, ainda há gente jogando com a boa-fé do público e as ilusões do mercado. Ao longo de dois anos repetiu-se que o problema seria resolvido pelo BNDES. Fechada essa porta, tudo seria acertado com um redimensionamento do contrato pela Petrobras. Era tudo fantasia, e a empresa marchava para a recuperação judicial.

    Em maio do ano passado, o presidente da Sete Brasil, Luiz Eduardo Carneiro, disse à CPI da Petrobras que auditores externos examinaram a empresa e nada acharam de anormal. Mais: informou que Pedro Barusco e João Carlos Ferraz (seu antecessor no cargo) não foram “bons” executivos. Carneiro dizia essas coisas enquanto Ferraz negociava sua colaboração com o Ministério Público.

    Na semana passada, Ferraz contou ao juiz Sérgio Moro que cobrava propinas de 0,9% aos estaleiros que contratava e dividia o butim com João Vaccari, então tesoureiro do PT. O comissariado coletava dois terços, e o terço restante ia para Barusco e outros dois diretores da Petrobras.

    Os bancos que investiram na Sete, bem como empresas que pagavam propinas, têm ações no mercado. A propagação de mentiras e fantasias em torno das atividades da Sete não ofendia apenas os otários que lhes davam crédito. Iludia também o mercado.
    PICLES
    Pela malvada e inexorável passagem do tempo, é possível que a abertura das vagas de Sábato Magaldi e Evaristo de Moraes na Academia Brasileira de Letras venha a ser a primeira de uma série.

    Depois de 2018 a pista receberá um novo candidato: Michel Temer. Ele é autor de livros de Direito e comete poesias (“Anônima intimidade”). Se os seus versos podem jogar luz sobre seu governo, ele ficará no patamar de pedestres de José Sarney, autor de “Marimbondos de fogo”.

    Madame Natasha concedeu uma rápida bolsa de estudos ao presidente da Petrobras, doutor Pedro Parente. É apenas um pedido para que evite repetir uma expressão que usou ao enumerar seus planos para a empresa.

    Ele disse o seguinte:

    “Na hipótese de a gente abrir a maior parte do controle, é com cocontrole.”

    Considerando o que fizeram seus antecessores, ele deveria evitar o uso desse bissílabo mesmo como prefixo. No caso, “controle compartilhado” iria bem.

    Realezas
    Em 1973, o aristocrata Nigel Nicolson encantou o mundo com o livro “Retrato de um casamento”, no qual contou a história de amor de seus pais. Ela, Vita Sackville-West (1892-1962), namorara a escritora Virginia Woolf e outras 50 senhoras, inclusive uma cunhada. Ele, Harold Nicolson, tivera dezenas de romances, inclusive com um crítico de arte.

    Esse era o mundo dos aristocratas, e seria falta de educação espalhar suas histórias. Vita tivera um incandescente romance com a filha da amante do rei Edward VII, que vem a ser a bisavó da atual mulher do príncipe Charles. Virginia Woolf tivera um caso com o namorado do economista John Maynard Keynes.

    Num novo mundo, Juliet Nicolson, neta de Vita, acaba de publicar “A house full of daughters” (“Uma casa cheia de filhas”). O livro atravessa sete gerações de mulheres onde aconteceu de tudo, desde a vida semiclandestina de Pepita, uma dançarina espanhola, amante do primeiro Sackville-West, até o alcoolismo de três das seis adultas e os lençóis compartilhados. Nigel, o filho de Vita e pai de Juliet, perdeu a virgindade aos 31 anos e achava a prática tão desagradável como ir ao vaso sanitário. Juliet nasceu em 1955 e ganhou esse nome porque a mãe tinha um cachorro chamado Romeu. Foi a primeira a cursar uma universidade.

    Atravessando-se o livro da senhora Nicolson, sente-se o vigor das mulheres da família Goldsmith, o ramo materno de Kate Middleton, com seus mineiros que ralavam. Morriam de doenças pulmonares e passavam períodos na cadeia. Dali sairá a futura rainha da Inglaterra.

    Garranchos
    Para a História da Petrobras. O marechal Waldemar Levy Cardoso morreu em 2009. Ele presidiu a empresa em 1969 e ficou no seu conselho até 1985.

    Levy Cardoso morreu aos 108 anos e, além do nome, deixou para a família apenas um apartamento de três quartos, sala e um banheiro, na Rua Tonelero, em Copacabana.

    Doutores
    Não era só a quadrilha dos marca-passos cerebrais do Hospital das Clínicas que agia na medicina pública de São Paulo. Há anos outras quadrilhas de médicos acertados com fabricantes trabalham em torno dos marca-passos de coração.

    Uma delas foi silenciosamente desbaratada há poucos meses.

    Drusices
    O governo sabe que sua lua de mel com as centrais sindicais tem prazo de validade.

    Prenuncia-se um debate do mudo com o surdo em torno da reforma trabalhista. O Planalto ainda não disse o que quer, e as centrais ainda não sinalizaram o que podem negociar.

    Cabides
    Há algo de teatral nas promessas reformistas do governo, pois ele não diz uma só palavra a respeito do Sistema S. Trata-se de um avanço de uns 5% sobre as folhas de pagamento, que nasceu durante o Estado Novo e em 2014 arrecadou R$ 31 bilhões. O ministro Joaquim Levy tentou mexer nessa caixa-preta, e o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, doutor Paulo Skaf, disse que os empresários iriam “à guerra” para defendê-la.

    Na semana passada, a Fiesp, madrinha do famoso pato amarelo que enfeitava as manifestações contra Dilma Rousseff, perdeu um de seus 86 diretores. O empresário Laodse de Abreu Duarte foi exposto como o maior devedor da União, com um espeto de R$ 6,9 bilhões.

    Espertezas
    Há um ano, quando Dilma Rousseff decidiu limitar o acesso de estudantes ao financiamento público de seus cursos superiores, as guildas das faculdades privadas protestaram. O governo não queria emprestar dinheiro a quem tirasse zero nas redações ou não conseguisse fazer 450 pontos no Enem. O doutor José Alberto Loureiro, da rede de educação Laureate, disse que isso significaria uma “limpeza étnica”, porque prejudicaria os pobres.

    Uma pesquisa realizada junto a jovens que pretendem entrar nas universidades revela que oito em cada dez jovens defendem a nota mínima.

    Temer demite 81 funcionários do ‘opositor’ Ministério da Cultura, por AFONSO BENITES

    Comentário--....êsse druso não é de fiar.....vc pensou no Big Brother...é, pode ser..... Olha so a cara do "ministro"......
    O ministro Marcelo Calero, em junho. ACÁCIO PINHEIRO-MINC


    O Ministério da Cultura do governo interino de Michel Temer (PMDB) exonerou nesta terça-feira 81 servidores comissionados da pasta. A demissão coletiva ocorre após uma onda de invasões de prédios públicos vinculados ao MinC, como sedes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em diversas capitais e a Funarte no Rio de Janeiro.

    As ocupações dos prédios, algumas que duraram mais de 60 dias, aconteceram em protesto contra a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff(PT) e contra a extinção do ministério que havia sido decretada pela gestão Temer assim que assumiu a presidência interina no dia 12 de maio. A decisão causou comoção nacional e foi fonte de desgaste logo de cara para Temer, que se viu às voltas com protestos dos servidores públicos da pasta, e também de artistas e intelectuais que viram em sua atitude um gesto de desvalorização da luta da classe artística que conquistou o status de Ministério para a Cultura nos anos 90.

    O peemedebista acabou voltando atrás desse ato, mas continuou enfrentando resistências de funcionários do órgão. Por isso, no Palácio do Planalto, o MinC é visto com o principal foco de oposição interna. As demissões são um sinal de que a gestão não irá aceitar quem pensa diferente da cúpula e, por essa razão, outros desligamentos devem ocorrer nos próximos dias.

    Em nota enviada à imprensa, o ministério informou que os servidores que perderam os cargos não tinham vínculo com o serviço público (ou seja, não eram concursados) e que as exonerações são parte de um processo de reestruturação da pasta. Segundo o documento, a medida promove o “desaparelhamento” do MinC, que já havia sido antecipado pelo ministro Marcelo Calero quando ele foi empossado na função, em 24 de maio. A publicação dos cortes no Diário Oficial acontece logo após os manifestantes desocuparem prédios da Funarte no Rio e em São Paulo.

    Entre os 81 demitidos estão a diretora da Cinemateca Brasileira, Olga Toshiko Futemma, o diretor do museu Villa-Lobos, Wagner Tiso Veiga, e a chefe de gabinete da Biblioteca Nacional, Angela Fatorelli. Os demitidos tinham salários que variavam de 4.600 reais a 8.500 reais. As demissões ocorreram sem um prévio comunicado aos que seriam demitidos. Em algumas secretarias vinculadas ao Ministério, os responsáveis avisaram a parte de seus subalternos que uma demissão coletiva estava em vias de ocorrer, mas não detalharam quem seriam os afetados nem o número de desligamentos.

    Parte dos que deixaram o Governo eram considerados o braço operacional do MinC, não o político. O temor desse grupo é que alguns dos programas que estavam sendo realizados acabem sendo paralisados. “Como não tiveram o cuidado de preparar uma transição entre os que deixam os cargos e os que assumirão, as demissões demonstram que não houve uma preocupação em se manter nenhuma política que já estava sendo tocada”, afirmou o jornalista Leonardo Germani, que foi exonerado do cargo de coordenador de monitoramento de informações culturais.

    Em outras áreas, como na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic), os servidores acreditam que alguns dos projetos financiados pela lei Rouanet deverão ser afetados. Como exemplo, citaram que um núcleo composto por três funcionárias responsáveis por analisar alguns desses projetos foi praticamente desfeito, duas delas foram exoneradas.

    Assim que Temer assumiu o Governo fez circular entre seus ministros que cerca de 4.000 cargos comissionados seriam cortados. O objetivo inicial é que todas as funções sejam destinadas para servidores de carreira, sem, necessariamente ter uma vinculação partidária. No caso do MinC, a pasta informou que fará um processo seletivo interno para ocupar os cargos que ficaram acéfalos após as demissões desta terça-feira.

    Beirut practica un peculiar trilingüismo, por NATALIA SANCHA

    "Amo la vida" en árabe, inglés y francés en una fiesta de Año Nuevo celebrada en Beirut. OUSAMA AYOUBAFP

    “Los libaneses son trilingües”, concluyen los turistas tras una breve estancia en Beirut. Un espejismo que, lejos de reflejar la realidad, esconde el triple analfabetismo del que parecen dolerse las nuevas generaciones. Hi, Keifak?, Ça va?, saludan por las calles alternando el inglés, el árabe y el francés. La conversación proseguirá en dialecto libanés, salpicada de expresiones hechas en los otros dos idiomas. Imposible mantener un diálogo íntegramente en una de las tres lenguas. Imposible dar un número de teléfono en árabe.

    En los barrios cristianos de la capital, como el chic Ashrafiye, la intrusión del francés aún predomina sobre la del inglés: “Merci”, agradecen frente al “shukran” (“gracias” en árabe) que espetan en el musulmán y céntrico Hamra. Una pugna de influencias lingüísticas en la que el francés tiene todas las de perder en plena era de las nuevas tecnologías con la expansión del uso de las redes sociales. El inglés se antoja el rey del WhatsApp . Los libaneses recurren al teclado latino para transcribir la fonética árabe.

    Una alteración fruto del creciente imperialismo lingüístico anglosajón en las urbes libanesas más cosmopolitas que recuerdan a la aljamía (lengua de extranjeros en árabe) extendida en el Al Andalus mozárabe hasta el siglo XIII. Entonces, no se tecleaba en pantallas de móviles con mensajes codificados sino que las poblaciones conquistadas crearon un romance en el que se transcribía la fonética latina con el alfabeto árabe.

    Sin embargo, la conquista del inglés en las conversaciones urbanitas desaparece una vez se traspasan sus confines. Al norte, sur o este de la capital, el dialecto libanés predomina en calles y comercios. El marcado acento extranjero al hablar el árabe de los que regresan al país de vacaciones —la diáspora libanesa se cuenta en nueve millones— son fruto de las mofas de sus conciudadanos.

    En el Líbano del siglo XXI, tan solo los populares telediarios y la prensa escrita mantienen viva esa lengua muerta que es hoy el árabe clásico y al que las nuevas generaciones se empeñan en rematar expulsando de su día a día.

    quarta-feira, 27 de julho de 2016

    Aumentar despesas numa crise fiscal é um disparate--Editorial O Globo--



    Comentário--TEMERidade seria não pagar pelos votos recebidos e a receber... O druso não é de fiar.....mas visita a família na Africa de nariz novo e não só....
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    Aumentar salários de servidores é incoerente

    O presidente interino, Michel Temer, conhece muito bem o descalabro fiscal em que se encontra o país. Tanto que seu governo se prepara para encaminhar ao Congresso propostas emergenciais para começar a reverter a situação calamitosa das contas públicas criada pela gestão lulopetista, a partir de 2009. Destacam-se entre as propostas a de um teto legal para as despesas da União e a da reforma da Previdência.

    Mas o próprio governo Temer tem agido em sentido contrário — eleva gastos, em vez de contê-los. E começa a criar suspeição sobre tetos muito elevados na previsão de déficits. Afinal, eles devem ser reduzidos por meio de corte de despesas e não mantidos, para acomodar a elevação de gastos numa crise de falta de dinheiro no Tesouro. Pior: e ainda com ameaças de que se as corretas propostas de mudanças não forem aprovadas, será aumentada a já escorchante carga tributária, como alertou, em entrevista à “Folha de S.Paulo”, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles

    É fato que, tendo assumido depois da administração ruinosa de Dilma Rousseff, e com o escamoteamento de despesas por meio de técnicas de “contabilidade criativa”, o governo Temer precisa ser transparente e deixar que as estatísticas oficiais reflitam sem retoques a dramaticidade do momento.

    Assim, o governo interino, com acerto, logo propôs ao Congresso nova meta para este ano, com um supostamente realista déficit primário de R$ 170,5 bilhões, cerca de 2,5% do PIB. Mas não demorou para o Planalto anunciar a concessão de aumentos salariais para várias categorias do funcionalismo — servidores da Câmara dos Deputados, do Banco Central, do Ministério da Educação etc. Terminou aprovado um pacote de oito projetos de lei, os quais, somados, resultam em gastos adicionais de R$ 53 bilhões até 2019. Em seguida, chegou a vez de beneficiar o Judiciário, incluindo os ministros do Supremo, cuja remuneração indexa a folha de salários de toda a Justiça na Federação. Criou-se, assim, uma tsunami de reajustes.

    Aumentar despesas numa crise fiscal é um disparate. Mas, nesta leva de aumentos, o governo se defendeu com a explicação de que se tratava de reajustes já negociados na gestão Dilma.

    Mas, na semana passada, o Planalto anunciou que novos projetos de lei de reajustes serão enviados ao Congresso, desta vez para auditores fiscais da Receita — que chantageiam o governo com a ameaça de não lavrar multas — e agentes da Polícia Federal, entre outras categorias. A continuar assim, o Planalto dará razão a petistas que criticam as novas metas fiscais — para 2017, R$ 139 bilhões —, tachando-as de licença para a gastança. De que Dilma foi acusada, e com razão. E Temer indica ir pelo mesmo caminho, de forma incoerente.

    Não é fácil a posição do presidente interino. Precisa governar, porque a crise é grave, mas o ideal é que já tivesse a certeza da permanência no cargo até o final do mandato. Enquanto isso, tenta não contrariar senadores, os juízes do julgamento de Dilma, e, pelo visto, corporações, cuja média de salários é a mais elevada do país e ainda têm estabilidade no emprego. Um mundo à parte no Brasil. O risco, porém, é, ao tentar satisfazer a todos, Temer inviabilizar seu possível governo até 31 de dezembro de 2018.

    Arte de CHICO Caruso

    Charge (Foto: Chico Caruso)
    Charge (Foto: Antonio Lucena)
    Arte de Antonio Lucena

    terça-feira, 26 de julho de 2016

    Nem ódio, nem ira, por Tânia Fusco----Jornalista, mineira...




    Minha amiga Amélia tinha um carrão 4x4 porque sempre gostou de carros grandes, porque achava confortável, porque sentia-se mais segura no trânsito dificil e desarrumado de São Paulo. Meio mundo opinava: Ta maluca? É o carro preferido da bandidagem! Carro grande, quatro portas, potente, atrai ladrão.

    Devidamente ameaçada e amedrontada, Amélia abriu mão do conforto e do prazer de conduzir aquela quase nave. Trocou seu Pajerão por um compacto, 1.0, mais do que racionalmente perfeito para quem não roda muito além do casa/trabalho/casa.

    Reduziu despesas. Barateou a vida e ganhou ingresso para a turma politicamente correta do menos é mais.

    Seguia assim na paz de mais um dos seus dia-a-dia de urbana civilizada, feliz da vida no seu carrinho pequeno, discreto e livre da cobiça dos meliantes que, a cada cruzamento, ameaçam a propriedade e a vida nas ruas da vida.

    News no rádio, corpo suado do dia trabalhado, da hora de treino na academia, caminho de casa na noite fria, mas movimentada, de mais uma quarta-feira quase vencida. 21h. Quinze minutos do banho, sopa e cama. Sinal fechado de tempo curto.

    E aí o estrondo. Tão perto da nuca que podia ser bomba ou bala. No susto, a mão sambou no volante, mas ele não sambou na mão. O carro não se mexeu do rumo. E veio aquele meio segundo entre a perplexidade, o olhar em volta e a indagação: o que foi isso? Bomba, bala ou batida?

    Nenhum movimento ou olhar estranho nos carros vizinhos, mas na calçada, entre poucos e indiferentes passantes, um homem corria levando mochila e bolsa que, meio minuto atrás, ocupavam espaço no banco traseiro do carrinho pequeno o suficiente para não levantar cobiça.

    O frio na nuca era mais do que arrepio do susto. O vento não era imaginário, mas real. Entrava pela janela quebrada a ferro em golpe forte, ágil, certeiro – de profissional.

    Profissional volante, de ponto e alvo certos: janela traseira, no lado esquerdo de um carro qualquer que, no sorteio do destino, parou naquele sinal, próximo o suficiente da calçada para o ataque preciso.

    O coração, que veio à boca naquele minuto longo do susto, seguirá desgovernado dias afora. Você escapou. Mas esteve na mira. A decisão de vida e de morte foi dividida entre o divino e o terrestre querer do ladrão.

    A causa do ataque não era diamante, ouro, dólar, nem Pajero, mas uma mochila velha com roupas de malhar, mais uma bolsa com carteira de poucos reais, documentos, cartões de créditos, que nem poderão ser usados.

    Um ganho. Uma bobagem. Um não vale nada, inclusive a vida. No caso, a sua.

    Minha amiga Amélia foi vítima de pequeno porte, em mais uma história banal, nos incontáveis roubos que não matam, nem ferem, nem viram estatística.

    Um susto. Mais um dos pequenos e surpreendentes assombros cotidianos de agora, quando a vida humana é alvo de tudo – do terror epidêmico, generalizado e tão banal quanto as internacionais baratas, aos pequenos roubos que podem nos custar a vida.

    É um tempo de sustos. Um tempo de medos. Um tempo violento, de mortes banalizadas. Por nada. Por tudo.

    A vida é alvo da ira. Muitas iras. Sem fronteiras, nem freios. Qualquer coisa vira arma, qualquer coisa é munição. Pode ser uma Glock 9mm, comprada na internet ou na esquina, bomba caseira, um ônibus, um carro, avião, um machado, um menino.

    Pode vir de qualquer canto, alcançar qualquer um – uns muitos, uns poucos¬ – em qualquer lugar.

    França, Alemanha, Iraque, Turquia. Afeganistão. Nice. Munique. Ambach. Reutlingen. Cabul. Bagdá. E pra lá de lá. Numa avenida de São Paulo, numa rua do Rio, em Salvador. E pra além de lá.

    Viver anda um negócio muito perigoso até para quem não sai do lugar.

    Anda difícil não ter medo. 

    O otimismo vacila até mesmo quando, na sofrida Istambul, o povo gasta o domingo na rua e pede: Nem golpe, nem ditadura. Eles sabem exatamente do que estão falando, o que estão pedindo.

    Podiam também emendar, espalhar gritos de: Nem ódio, nem ira. Paz e amor. De novo. Revival. Por favor.

    Sobre a vaidade, por Leandro Karnal

    Soberana, mas agressiva quando provocada: a vaidade é lâmina afiada, pronta para o combate. 
    Um colega, cuja postura política é distinta de minha, comentou que jamais aceitaria um convite destes. 
    Respondi que ele deveria esperar primeiro que o convite fosse formulado a ele para saber se aceitaria ou não. Até lá, comentei sardônico, seria lícito supor que a imaginada negativa pudesse ser filha mais da inveja do que da consciência política.
    Narciso de Michelangelo - Óleo sobre tela, 1599 (Foto: Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma, Itália)

    Orgulhosos não se toleram refletidos: rompemos. Guiado pelos cavalos do triunfo, segui no meu deleite interno por alguns dias.

    Depois, como o servo que sussurrava aos generais romanos, fui ouvindo a voz da consciência prudente, que nada mais é do que a voz do medo. Lembra­te de que és apenas um homem. Será que eu conseguiria? Tenho algo a dizer toda semana? Artigos esporádicos? Crieios às grosas. Mas... toda semana? Ser bom num texto é mais fácil do que ser bom sempre. 
    O triunfo empacou no medo. Tal temor também é fruto da vaidade: vou me expor a um mundo gigantesco, como jamais fiz. Teria sonhado alto demais? Piorou minha angústia: lembrei­-me de que estaria ao lado de um homem que leio há anos e considero genial: Luis Fernando Verissimo, filho de outro homem que admiro desde a infância. 
    Fico apenas nesse nome, mas há muitos outros. Minha vaidade é enorme, mas não é patológica. Reconheço qualidades em Luis Fernando Verissimo que nunca existirão em mim. O lago no qual Narciso se admira viu o reflexo da queda de Ícaro... Suas asas de cera não poderiam ter tocado na luz de Apolo. Poderei estar ao lado de Luis Fernando Verissimo? A reunião com o diretor de Jornalismo João Caminoto trouxe, além do encontro agradável, uma certeza clara. Perguntei sobre ponto nevrálgico para toda pessoa com aspiração a escrever e pensar. Serei livre? Terei carta branca? Intelectuais toleram quase tudo, até festa de formatura, mas temos uma ojeriza ancestral à censura. João foi enfático. Sim, eu seria inteiramente livre. 
    O Estadão apenas oferecia o patíbulo: a tipologia do nó da forca e a liberdade do salto para a morte seriam, inexoravelmente, meus. O terrível, pensei, era que a censura e a repressão fizeram brotar pérolas como As Moscas, de Sartre; ou O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Curiosamente, a liberdade não parecia ser um fermento tão poderoso para o pão da criatividade. 
    Quando entrei na Unicamp, há duas décadas, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Era o zênite de anos de bancos escolares, livros, arquivos, viagens e pesquisas. Senti, naquele dia, que eu estava ingressando em algo muito maior. A Unicamp era uma galáxia e eu estava muito feliz com isso. Continuo satisfeito. A sensação voltou agora. 
    Um veículo como o Estadão é maior do que as tiragens dos meus livros, do que o número de alunos regulares ou de seguidores virtuais. Não me deram uma gaveta maior: trocaram o armário e redefiniram a própria concepção de espaço. 
    Com esta coluna, entrarei nas casas todos os domingos e centenas de milhares de famílias irão me receber. Também serei acessado via internet e lido de forma randômica. Abro espaço para ser conhecido, e, consequência inevitável, mal interpretado. Com medo e com orgulho, assino esta primeira coluna. Nela, há uma fórmula que tem sido a minha em textos não acadêmicos e palestras. 
    Se o leitor atento percebeu, sob a prosa despretensiosa existe uma reflexão sobre a vaidade, sobre mídia, censura e conhecimento de si. Com fios de cultura formal e observações do mundo ao meu redor, teço estas palavras na minha Ítaca da Rua Cotoxó. Busco dizer coisas com humor e inteligência (só busco, oh, meus incipientes patrulheiros). 
    Sem humor e sem inteligência, a vida fica insuportavelmente monótona.
    Tenho um misto de medo e de entusiasmo. Toda partida tem um Velho do Restelo, venerando e aziago. Quase sempre ele tem razão, mas não haveria epopeia se o medo nos guiasse. Também não haveria naufrágios
    Minha felicidade nunca esteve nas ondas rasas. Sempre aceitei o jogo ambíguo do risco e do desafio. Um bom domingo a todos vocês!

    GOVERNO CEDE AO LOBBY E EMPRESAS AÉREAS CONTINUARÃO A EXPLORAR A CLIENTELA, nas fôlhas

    VETO DE TEMER MANTÉM EMPRESAS ESTRANGEIRAS LONGE DO MERCADO

    segunda-feira, 25 de julho de 2016

    Esperando. Sempre, por Elton Simões




    Faz tempo que todos os dias a gente espera. Como personagens do teatro do absurdo. Mas nada parece acontecer. Ninguém chega. Ninguém parte. Nada se resolve. Vivemos a mesma agonia todos os dias. Esperando a solução que promete, mas não vem.
    A gente não sabe mais qual a solução. Ou quantas são. Quando chegarão. Se existem. Se de fato aparecerão. Os dias vão se passando. Viram meses. Até anos. E as noticias, embora novas, são sempre as mesmas. Convidam o tédio.

    O tédio, contrariamente as soluções, atende rápido. É mortal. Transforma dias vazios e ideias repetitivas em desesperança. Destrói a vontade e polui a vida. Precisa ser ludibriado. E assim fazemos.

    Discutimos o inútil a exaustão. Mesmo que nada de novo exista para ser dito. Palavras, esquecemos sempre, não substituem a ação. Ficção não vira realidade. É impossível viver de mentiras. Mas enxergar a realidade é doloroso. Esperando permanecemos. Por anos, assim.

    E esperando ficamos. Parados, iludidos, por vezes atônitos. Sempre assistindo a cenário grotesco de degradação ética, institucional e legal. Acompanhando fatos repetitivos cometidos pelos mesmos personagens, sem muitas novidades.

    Enquanto isso falamos. Conversa monótona, repetitiva. Ouvimos explicações que pretendem parecer diálogo mas que na verdade são simples monólogos, na melhor das hipóteses, cômico, e em todas as hipóteses, farsesco.

    Conformados, parecemos ter aceitado a suspensão da vida enquanto nada se resolve. E, no ínterim, inventamos distrações. Promovemos eventos e damos a eles importância que não tem, a um custo que não deveriam ter. A gente se diverte como pode. Talvez.

    De vez em quando, aparece algum mensageiro. Diz que a solução não chega hoje. Certamente amanha, promete. Mas ninguém mais acredita. Não haveria porque acreditar. Resta a indignação, a revolta. Alguém poderia gritar: “Vamos embora”. Certamente todos concordariam. Entusiasticamente.

    Mas ninguém se mexe. Todos ficam imóveis. Esperando. Como ditam as regras deste teatro de absurdos.

    E cai o pano.

    Elton Simões--Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)

    Sob Temer, repasses priorizam aliados, por Caio Junqueira

    Comentario blasé--êsse druso (abaixo) nao é de fiar.....Compra a vista!

    Michel Temer (Foto: André Coelho)
    Michel Temer (Foto: André Coelho)


    No primeiro ano em que a legislação eleitoral instituiu um teto de gastos para as campanhas, o presidente em exercício Michel Temer abasteceu o caixa das prefeituras com cerca de R$ 2 bilhões em convênios liberados em pouco menos de dois meses. Levantamento do Estado, com base em dados da Controladoria-Geral da União, mostra que os valores foram transferidos a 2.448 municípios e se destinaram a 5.213 obras.

    Alguns ministros aproveitaram a liberação para fazer agrados às bases políticas. Pastas como Transportes, Esporte, Desenvolvimento Social Agrário e Ciência e Tecnologia concentraram repasses nos Estados dos respectivos titulares.

    O valor das liberações é equivalente a dois terços do que a presidente afastada Dilma Rousseff transferiu para administrações municipais entre janeiro e o início de maio: R$ 2,9 bilhões. Nos 133 dias em que foi a titular do cargo neste ano, a petista repassou R$ 21,8 mil, em média, diariamente, a 2.413 municípios. Temer, em 51 dias, transferiu, em média, R$ 38,1 mil por dia. Os dados se referem a até 2 de julho, quando a legislação eleitoral impõe restrições aos repasses.

    Arte de CHICO Caruso

    Charge (Foto: Chico Caruso)

    Cartas de Reykjavík, Islândia: Davi vs. Golias, por BEATRIZ PORTUGAL

    Na Islândia bacalhau não é comida, é dinheiro. Portugal é um dos principais mercados do bacalhau pescado na Islândia (Foto: Paulo Calisto)
    Bacalhau é coisa séria. É o peixe mais comum nos pratos islandeses e foi, durante muito tempo, usado como um símbolo do país. Um antigo brasão retrata um bacalhau sem cabeça com uma coroa e o peixe aparece em um dos lados da moeda de uma coroa islandesa. Já até visitei uma igrejinha em um vilarejo de pescadores que tinha o formato de uma posta de bacalhau.

    As águas islandesas são abundantes e nelas não falta esse peixe tão familiar para nós brasileiros. Por aqui o peixe não migra e portanto pode ser apanhado o ano todo e não somente durante alguns meses. Não à toa, pescadores estrangeiros tem pescado na costa islandesa desde o início do século 15, mais ou menos na mesma época em que a Islândia se tornou uma nação de pesca.

    As águas territoriais do país eram de apenas três milhas náuticas em 1901, mas em 25 anos o país expandiu sua área exclusiva de pesca, primeiro de 3 a 12 milhas, depois para 50 e finalmente para 200 milhas. Com isso, surgiram inúmeras disputas sobre os direitos de pesca nas águas do Atlântico Norte. A maior delas foi com a Grã-Bretanha.

    A primeira grande disputa durou de 1958 a 1961, a segunda de 1972 a 1973 e a última, a mais breve e também a mais feroz, de 1975 a 1976. Foi em uma excelente exposição no Museu Marítimo de Reykjavík que soube mais sobre esses conflitos que levam o singelo nome de “Guerras do Bacalhau”.

    Não foram guerras convencionais, mas são os únicos confrontos em que a Islândia participou desde 1550. Vale ressaltar que a Islândia não possui exército, marinha ou uma força aérea. Eles tem apenas uma guarda costeira militarizada, estabelecida em 1926, que é encarregada de defender o país. Na prática, patrulhar as águas territoriais do país e fazer cumprir as leis relativas à jurisdição de pesca.

    Essa guarda costeira consiste de dois navios. Sim, dois. Quem os vê no porto não imagina que aqueles são os únicos que o país tem. Há mais um navio aposentado que virou museu e foi esse navio, que leva o nome do deus Óðinn, que teve um papel preponderante nas Guerras do Bacalhau.

    Apesar de não terem sido guerras no sentido mais usado da palavra (houve apenas uma morte), as Guerras do Bacalhau são uma parte importante da memória coletiva dos islandeses. Para eles, são um exemplo da resistência que a nação pode exibir quando ameaçada. As guerras são sempre lembradas com um ar de vitória, principalmente pelos números do confronto. Contra os mais de 60 navios ingleses (28 destroyers e 32 fragatas), os islandeses “lutaram” com apenas os seus dois navios. Houveram mais de 200 confrontos nos quais a guarda costeira da Islândia cortou as redes de pesca de barcos britânicos. Há videos em que se vê navios perigosamente acertando outros.

    As guerras atingiram seu clímax quando as relações diplomáticas com os britânicos foram temporariamente interrompidas em fevereiro de 1976. A comunidade internacional apoiou a Islândia, não só por conta das tendências das leis internacionais sobre águas territoriais mas também pela disputa ser vista como uma batalha entre Davi e Golias.

    Diz-se que em uma das guerras, o ministro britânico das relações exteriores pediu a um assessor que procurasse um livro altamente respeitado pelos islandeses. Ele queria saber com quem estava lidando e se familiarizar com a mentalidade de seu oponente. O assessor trouxe a obra mais conhecida de Halldór Laxness, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1955. O romance de 1934, “Gente Independente” conta a história divertida de um pobre fazendeiro e pastor de ovelhas determinado a viver desprendido de qualquer pessoa. Supostamente, ao terminar o livro, o ministro teria dito: "nós nunca vamos ganhar esta guerra”.

    CAVALO ENCILHADO, por FLÁVIO FAVECO CORRÊA

    Outro dia a Cristiana Lobo disse no Jornal das 10 da Globo News que se o ministro Henrique Meirelles conseguir fazer a economia crescer sem aumentar impostos ele sentaria na cadeira de Presidente da República. Concordo com ela: seria um poderoso candidato em 2018, diante da completa escassez de alternativas dentro dos quadros políticos tradicionais. Afinal, o órgão mais sensível do corpo humano é o bolso. Como o nosso está furado, qualquer remendo vale.

    Mas se ele, Meirelles, se deixar seduzir pela solução simplista de aumentar impostos ou criar novos, tenho a impressão que deixará de montar no cavalo que parece estar passando encilhado diante dele. O povo, que já paga uma quantidade escorchante do seu salário para sustentar uma monstruosa máquina pública recebendo muito pouco em troca, não quer mais continuar a pagar o pato.

    Não vai aceitar enganações tipo nova CPMF ‘provisória”, que de provisória nunca teve nem jamais terá nada. Se vier, vai ficar para sempre, fornecendo combustível adicional para alimentar a revoltante farra de Brasília que não dá sinais de arrefecer, antes pelo contrário.

    E o Meirelles vai perder o cavalo...

    A história está cheia de exemplos de que a única forma de aumentar a arrecadação é o crescimento econômico. Na verdade, o governo deveria diminuir os impostos para estimular a produção e o consumo.

    Júlio Cesar dizia que governo honesto baixa impostos. Pelo critério do lendário cônsul romano, parece que não tivemos a sorte de ter um governo honesto nas últimas décadas. E estamos a ponto de ver este padrão continuar. Vejamos: a carga tributária aumentou de 16,7% em 1986 para 25% em 2003 até os atuais 36% do PIB , o que parece ainda pouco para aplacar a voracidade do governo.

    Se Júlio Cesar dizia que governo honesto baixa impostos, eu, que não sou economista, digo que governo burro aumenta impostos. Uma burrice dupla: econômica e política.

    Econômica, porque existe um limite científico para a carga de impostos que uma sociedade pode suportar sob pena do tiro sair pela culatra e a arrecadação diminuir: 33% do PIB, segundo a Curva de Laffer dos economistas Christina e Arthur Laffer, da Universidade da Califórnia, e a nossa já está bem acima...

    Política, porque se o objetivo é conquistar o poder, é improvável que se consiga obter este resultado peitando a sociedade. O eleitor julgará o demagogo nas urnas.

    Pensando nisso, não é possível acreditar que o Meirelles seja mentalmente mal dotado. Afinal, ele teve uma carreira brilhante na inciativa privada e foi um bom gestor do Banco Central. Tudo indica, por óbvio, que também quer ter sucesso na vida pública, e nela não há sucesso maior do que receber a faixa presidencial.

    Pelo simples fato da Dilma ter saído, o Brasil já dá sinais de recuperação. Dizem que a crise atingiu o fundo do poço. E, se isso é verdade, a situação só poderá melhorar. Na percepção da sociedade, isso se deve à qualidade da equipe cuja simples presença em cena traz alguma credibilidade para um pais afundado no descrédito.

    Então, porque o Meirelles não iria surfar nessa onda, quando até o famigerado FMI revê para melhor suas expectativas para o Brasil?

    Seria uma tremenda burrice afrontar a opinião pública neste momento aumentando impostos.

    A sociedade espera que as tais medidas impopulares que o Presidente Temer vem anunciando não sejam estas, mas sim demitir os milhares de parasitas incompetentes que sobrevivem no serviço público federal e estabelecer a meritocracia, reformar a previdência, flexibilizar as leis trabalhistas, não só limitar mas reduzir os gastos e o gigantismo do estado, entre tantas outras coisas que certamente podem ser feitas (eles devem saber melhor do que nós quais seriam elas), para reconduzir a nação ao rumo da prosperidade.

    Se isso acontecer, Temer passará para a história como o presidente da reconstrução nacional e Meirelles poderá montar no belo e fogoso cavalo encilhado que está passando à sua frente. Cavalo que, se não for montado agora, nunca mais... Vai galopar para longe, sem ginete, como mais um exemplo de que o Brasil nunca perde a oportunidade de perder uma oportunidade.

    domingo, 24 de julho de 2016

    O futuro no passado, por Luis Fernando Veríssimo---Escritor

    Cidades não se transformaram em laboratórios de convívio civilizado, como previam, e sim na maior prova da impossibilidade da coexistência de desiguais 
    Futuro do Brasil (Foto: Arquivo Google)

    Poucas previsões para o futuro feitas no passado se realizaram. O mundo se mudava do campo para as cidades, e era natural que o futuro idealizado então fosse o da cidade perfeita. 
    Mas o helicóptero não substituiu o automóvel particular e só recentemente começou-­se a experimentar carros que andam sobre faixas magnéticas nas ruas, liberando seus ocupantes para a leitura, o sono ou o amor no banco de trás.  
    As cidades não se transformaram em laboratórios de convívio civilizado, como previam, e sim na maior prova da impossibilidade da coexistência de desiguais. 
    A ciência trouxe avanços espetaculares nas lides de guerra, como os bombardeios com precisão cirúrgica que não poupam civis, mas não trouxe a democratização da prosperidade antevista. 

    Mágicas novas como o cinema prometiam ultrapassar os limites da imaginação. Ultrapassaram, mas para o território da banalidade espetaculosa. 
    A TV foi prevista, e a energia nuclear intuída, mas a revolução da informática não foi nem sonhada. As revoluções na medicina foram notáveis, certo, mas a prevenção do câncer ainda não foi descoberta. Pensando bem, nem a do resfriado. 
    A comida em pílulas não veio — se bem que a nouvelle cuisine chegou perto. Até a colonização do espaço, como previam os roteiristas do “Flash Gordon”, está atrasada. Mal chegamos a Marte, só para descobrir que é um imenso terreno baldio. E os profetas da felicidade universal não contavam com uma coisa: o lixo produzido pela sua visão. Nenhuma previsão incluía a poluição e o aquecimento global. Mas assim como os videntes otimistas falharam, talvez o pessimismo de hoje divirta nossos bisnetos. Eles certamente falarão da Aids, por exemplo, como nós hoje falamos da gripe espanhola. A ciência e a técnica ainda nos surpreenderão. 
    Estamos na pré-história da energia magnética e por fusão nuclear fria. É verdade que cada salto da ciência corresponderá a um passo atrás, rumo ao irracional. Quanto mais perto a ciência chegar das últimas revelações do Universo, mais as pessoas procurarão respostas no misticismo e refúgio no tribal. 
    E quanto mais a ciência avança por caminhos nunca antes sonhados, mais leigo fica o leigo. A volta ao irracional é a birra do leigo.

    De Ramon.Mercader@edu para J.Vaccari@pol, por Elio Gaspari

    Companheiro Vaccari,

    Você não é Ramon Mercader. Como eu, houve poucos no mundo. Matei o Leon Trotsky em 1940, passei 20 anos na cadeia e não contei o que todos sabiam: acabei com o velhote a mando do Stalin. Quando saí da prisão, você tinha 2 anos, e quando morri, em 1978, você tinha acabado de se filiar ao sindicato dos bancários de São Paulo. Eu era um velho de 65 anos, e você, um garoto de 20. Não vou tomar seu tempo contando minha história porque, se você não leu “O homem que amava cachorros”, do cubano Leonardo Padura, peça-o a sua família. O final do livro não presta, mas de resto é coisa fina, sobretudo para quem está preso.
    Vaccari, eu era do aparelho de segurança soviético, você era do braço do sindicalismo bancário petista, coisas inteiramente diversas. Daqui, já percebi que você, o José Dirceu e dois diretores da Petrobras (Duque e Zelada) estão em silêncio. No seu caso, a condenação está em 15 anos e deve aumentar. Se você tiver que pagar cinco anos em regime fechado, sairá da cela em 2020, aos 62 anos. Admiro sua resistência e seu vigor ideológico, mas escrevo-lhe para dizer que são fúteis.
    Na cadeia, eu sabia que tinha sido condecorado com a Ordem de Lenin. Ao sair, fui proclamado “Herói da União Soviética”. Vivi bem em Moscou e em Cuba. Você nunca será um “Herói do PT”. Sua família sofre com sua prisão, enquanto minha mãe estimulava meu silêncio. Tudo o que o PT pode lhe oferecer são algumas visitas discretas de parlamentares. Não ouvi ninguém louvar publicamente seu silêncio. Durante os 20 anos que ralei, eu sabia que no dia 1º de maio a União Soviética desfilava seus foguetes na Praça Vermelha. Graças a artes do PT (e suas), o presidente do Brasil chama-se Michel Temer, e Dilma Rousseff vai morar em Porto Alegre.
    Os empreiteiros que atendiam teus pedidos disseram coisas horríveis a teu respeito. Estão no conforto de suas tornozeleiras eletrônicas, e posso supor que as solícitas OAS e Odebrecht colocarão mais cadeados nas tuas grades. Todos viverão com patrimônios superiores ao teu. Eu morri com saudades de Barcelona, a cidade onde nasci, mas, quando os comunistas espanhóis ofereceram-me ajuda para visitá-la, queriam que eu contasse minha história. Morri em Cuba sem rever a Catalunha, e minhas cinzas foram para Moscou.
    Valeu a pena? Não sei, mas garanto que, no teu lugar, eu chamaria o Ministério Público para uma conversa exploratória.
    Saudações socialistas----Ramon Mercader
    Gula sindical
    Com o afastamento do comissariado, centrais sindicais e sindicatos perderam algumas de suas generosas fontes de financiamento, e há entidades que não conseguem fechar as contas.
    Hoje todo brasileiro dá um dia de seu trabalho para o aparelho sindical. Milhões de trabalhadores pagam também mensalidades para sindicatos. Há anos arma-se a cobrança compulsória de uma “taxa negocial”. Com as caixas vazias, o aparelho está com pressa para aprovar mais essa tunga.
    Se o governo quer fazer uma reforma trabalhista, poderia começar pela estrutura do imposto sindical e pelas contribuições que engordam sindicatos patronais e de trabalhadores.
    Temer ligou e não ligou, mas ligaria
    Só o tempo dirá o tamanho do estrago imposto a Dilma Rousseff pela sua relação agreste com a verdade. Ela tinha doutorado pela Unicamp e fora presa por “delito de opinião”. Falso.
    Temer chegou à cadeira de Dilma com dois episódios esquisitos na caminhada. Em dezembro passado, escreveu uma carta à presidente, e seu conteúdo foi para a imprensa em poucas horas. Temer garante que o texto foi distribuído pelo comissariado do Planalto. Em abril, foi ao ar um áudio do vice-presidente oferecendo um governo de “salvação nacional”. A distribuição dessa plataforma de governo teria acontecido por engano. A verificação do episódio desmente essa versão.
    Há poucos dias, saiu do Planalto a informação segundo a qual a professora Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, concordara em retornar ao cargo depois de receber um telefonema do presidente.
    Falso. A professora não recebeu telefonema nenhum e só reassumiu o cargo atendendo a um apelo do conselho da SBPC.
    Como Helena Nader desmentiu a patranha, o Palácio corrigiu-se: Temer queria telefonar, mas desistiu.
    Fica combinado assim.
    Dá e toma
    A pedido do Ministério Público, a Marinha cassou as medalhas do Mérito Naval que deu aos comissários José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha. Um decreto de 2000 determina a cassação dos crachás concedidos a pessoas condenadas pela Justiça, e em 2015 o Exército expurgara da Ordem do Mérito Militar todos os mensaleiros.
    Os comissários haviam sido condenados em 2012, e em muitos casos as condecorações são concedidas em função dos cargos ocupados pelo homenageado.
    O dá e toma poderia ser evitado se fossem usados critérios mais duros na concessão das medalhas. Nunca é demais lembrar que em 1977 o general Silvio Frota deu a Medalha do Pacificador ao legista Harry Shibata, dois anos depois de ele ter assinado o laudo fraudulento do suicídio de Vladimir Herzog.
    Tudo ficaria mais claro se o ato da cassação viesse acompanhado pelo nome do comandante militar que concedeu a honraria.
    A Oi no STF
    A ex-SuperTele Oi convive com uma estranha estatística. Lidera a lista das empresas que vão até o Supremo Tribunal Federal em litígios que envolvem os consumidores. Batalha em 6.271 processos. Em segundo lugar, vem o banco Santander, com 2.847 casos.
    Tamanha diligência judicial pode explicar o fato de a Oi gastar cerca de R$ 500 milhões anuais com advogados.
    Entende-se uma das razões pelas quais a Oi foi para o buraco quando se vê que desde 2011 a taxa média de sucesso em recursos apresentados ao Supremo está em 3,04%. A dos grandes litigantes contra consumidores é de 0,21%. A taxa de sucesso da Oi ficou em 0,07%.
    Erro
    Estava errada a informação segundo a qual a Odebrecht atrasou o pagamento de R$ 936 milhões pela outorga (leia-se aluguel) do aeroporto do Galeão. Luiz Rocha, presidente da concessionária, esclarece que a cifra correta é R$ 286 milhões.