sábado, 31 de outubro de 2015

Arte de AROEIRA

Relatório do Coaf mostra movimentações milionárias nas contas de Lula, Palocci, Pimentel e Erenice, revista Época




Há duas semanas, analistas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, mais conhecido pela sigla Coaf, terminaram o trabalho mais difícil que já fizeram. O Coaf, subordinado oficialmente ao Ministério da Fazenda, é a agência do governo responsável por combater a lavagem de dinheiro no Brasil. Reúne, analisa e compartilha com o Ministério Público e a Polícia Federal informações sobre operações financeiras com suspeita de irregularidades. Naquela sexta-feira, dia 23 de outubro, os analistas do Coaf entregavam à chefia o Relatório de Inteligência Financeira 18.340. Em 32 páginas, eles apresentaram o que lhes foi pedido: todas as transações bancárias, com indícios de irregularidades, envolvendo, entre outros, os quatro principais chefes petistas sob investigação da PF, do Ministério Público e do Congresso.

Eis o quarteto que estrela o relatório: Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, líder máximo do PT e hoje lobista; Antonio Palocci, ministro da Casa Civil no primeiro mandato de Dilma Rousseff, operador da campanha presidencial de 2010 e hoje lobista; Erenice Guerra, ministra da Casa Civil no segundo mandato de Lula, amiga de Dilma e hoje lobista; e, por fim, Fernando Pimentel, ministro na primeira gestão Dilma, também operador da campanha presidencial de 2010, hoje governador de Minas Gerais. O Relatório 18.340, ao qual ÉPOCA teve acesso, foi enviado à CPI do BNDES. As informações contidas nele ajudarão, também, investigadores da Receita, da PF e do MP a avançar nas apurações dos esquemas multimilionários descobertos nas três operações que sacodem o Brasil: Lava Jato, Acrônimo e Zelotes. Essas investigações, aparentemente díspares entre si, têm muito em comum. Envolvem políticos da aliança que governa o país e grandes empresários. No caso da CPI do BNDES, os parlamentares investigam as suspeitas de que os líderes petistas tenham se locupletado com as operações de financiamento do banco, sobretudo as que beneficiaram o cartel de empreiteiras do petrolão.
SEGURO O ex-presidente  Lula e o relatório do Coaf (acima). Também foram identificadas operações de compra de títulos  de previdência  por R$ 6,2 milhões (Foto:  )
Ao todo, foram examinadas as contas bancárias e as aplicações financeiras de 103 pessoas e 188 empresas ligadas ao quarteto petista. As operações somam – prepare-se – quase meio bilhão de reais. Somente as transações envolvendo os quatro petistas representam cerca de R$ 300 milhões. Palocci, por exemplo, movimentou na conta-corrente de sua empresa de consultoria a quantia de R$ 185 milhões. Trata-se da maior devassa já realizada nas contas de pessoas que passaram pelo governo do PT. Há indícios de diversas irregularidades. Vão de transações financeiras incompatíveis com o patrimônio a saques em espécie, passando pela resistência em informar o motivo de uma grande operação e a incapacidade de comprovar a origem legal dos recursos.
FARTURA A empresa de Palocci movimentou as maiores quantias. O relatório (acima) mostra, entre seus clientes, a Caoa, suspeita de comprar uma medida provisória (Foto:  )
MISTÉRIO O governador Pimentel também fez aplicações de R$ 676 mil no mercado segurador sem prestar informações sobre a origem do dinheiro, segundo o Coaf (acima) (Foto:  )
LOBISTA Erenice, ex-ministra de Lula. Uma empresa de seu filho recebeu dinheiro de Fábio Baracat, suspeito de pagar propinas por contratos com o governo  (Foto:  )
O Coaf não faz juízo sobre as operações. Somente relata movimentações financeiras suspeitas de acordo com a lei e regras do mercado, como saques de dinheiro vivo na boca do caixa ou depósitos de larga monta que não tenham explicação aparente. O Coaf recebe essas informações diretamente dos bancos e corretoras. Eles são obrigados, também nos casos previstos em lei, a alertar o Coaf de operações “atípicas” envolvendo seus clientes. É obrigação do Coaf avisar as autoridades sobre operações suspeitas de crimes. A lavagem de dinheiro existe para esquentar recursos que tenham origem ou finalidade criminosa, como pagamentos de propina. Não cabe ao Coaf estipular se determinada transação é ilegal ou não. Cabe a ele somente informar a existência dessa transação às autoridades competentes, caso essa transação contenha características de uma operação de lavagem de dinheiro. Foi isso que o Coaf fez no caso do quarteto petista. Cabe agora à PF, ao MP e ao Congresso trabalhar detidamente sobre as informações reveladas pelo Coaf.
GRANDE FAMÍLIA Lula e família. Uma de suas empresas transferiu R$ 48 mil a Fernando Bittar, sócio de um dos filhos do petista e dono de um sítio abribuído ao ex-presidente (Foto:  )

Lula aos 70: labirinto, sobrevivência e temor, por Vitor Hugo Soares

Aniversário Lula (Foto: Arquivo Google)
“Porque el tiempo passa/ Nos vamos poniendo viejos/ Y el amor
(Porque o tempo passa/ nós vamos ficando velhos/ E o amor)
No lo reflejo como ayer/ En cada conversación/ Cada beso cada abrazo
(não o reflete como ontem/ Em cada conversação/ Cada beijo, cada abraço)
Se impone siempre un pedazo/ De temor”
(se impõe sempre um pedaço/ De temor)
(Versos da letra de Años, música composta pelo artista cubano Pablo Milanês, sucesso no Brasil e na América Latina nos anos 70/80)

Fotografia produzida e distribuída, pelo Instituto Lula, depois da festinha comemorativa dos 70 anos do ex-presidente Lula, em São Paulo, terça-feira (27) à noite  - com a presença da atual ocupante do Palácio do Planalto, Dilma Rousseff -,  é emblemática do vendaval que sopra na vida do fundador e maior líder do PT, nestes dias tormentosos de fim de outubro .
Imagem significativa pelo que expõe, mas, principalmente, pelo que fica oculto ou mal disfarçado. Retrato irretocável de melancolia do poder em desalinho. Reflexo evidente do inferno astral e do labirinto pessoal e político enfrentado na semana do seu aniversário, por Luís Inácio Lula da Silva. Até bem pouco tempo um dos líderes mais aclamados e acatados (temido também por muitos adversários) de seu País e da América Latina).
Habitualmente tido e visto na condição de um quase intocável, Lula agora tropeça, bambeia e acusa os golpes. Isso ficou claro na quinta-feira (29), nas palavras e gestos do seu discurso na abertura da reunião do diretório nacional do PT, em Brasília. Três dias depois de ter ingressado no clube "dos setentinhas", para usar a expressão de Chico Buarque de Holanda no vídeo de parabéns, gravado com açúcar e com afeto, que ofertou ao líder e amigo em tempo de dissabor. 
A imagem produzida na casa de festejos nas vizinhanças do Instituto que leva o nome do homenageado, seu entorno e circunstâncias, mal conseguem disfarçar a realidade inexorável de "Sua Excelência o Fato", no dizer de Charles de Gaulle. São simbolicamente expressivas as palmas contidas de Dilma (posta à distância do homenageado, na composição do registro fotográfico); o sorriso enigmático da ex-primeira-dama, Marisa Letícia; e o abatimento do próprio Lula, segurando o netinho de braços abertos em frente do bolo com a vela alusiva aos 70 anos.
A foto deixa a estranha impressão de que, na festa, pairava no ar a sombra "do pedaço de temor”, de que fala a famosa canção de Pablo Milanês. 
Soube-se mais tarde que, depois da comemoração, na saída da casa de festejos paulistana, às 23h, Luís Claudio Lula da Silva, um dos filhos do ex-presidente, foi abordado por agentes da Polícia Federal.
De um deles, Luís Cláudio recebeu a intimação para prestar depoimento na PF, semana que vem. O filho de Lula é investigado pela Operação Zelotes e sua empresa de materiais esportivos foi um dos alvos, entre os vários mandados de busca e apreensão cumpridos pela PF, por suspeitas de atividades ilegais. Uma nora do aniversariante foi acusada, também, por um delator da Lava Jato, de receber propina.  
Neste ponto, provavelmente, a razão principal da faca nos dentes de Lula, durante o seu discurso de anteontem, em Brasília: "É tudo muito incerto no país. Tem 19 pedidos de impeachment, denúncia contra o presidente da Câmara, denúncia contra o presidente do Senado, contra o filho de Lula . Eu tenho ainda mais três filhos que não foram denunciados e sete netos. Porra, não vai parar nunca isso. E ainda tenho uma nora que está grávida”, disse o ex-presidente em trecho do discurso reproduzido no El País. 
No fim, por coragem ou por bravata, disse estar preparado para apanhar mais, nos próximos três anos. "Vou sobreviver”, avisou em recado a quem interessar possa. A conferir. 
Ainda assim, quanta diferença de outros aniversários de Lula, quando ele festejava comendo bolo com os vizinhos e amigos no ABC e agendas superlotadas.
Ou daquele 27 de outubro de 2002, quando disse, logo após votar no segundo turno da eleição que o tornaria presidente do Brasil: "Este é o momento mais feliz da minha vida". Lula fazia então 57 anos. Chefes de estados e grandes empresários ligando sem parar. O cantor, compositor e então futuro ministro de seu governo, Gilberto Gil, telefonava, direto de Paris, dando parabéns e votos de sucesso e longa vida. Esta semana, aos setentinha, os vídeos de Dilma Rousseff e de Chico Buarque e as velas sopradas na tensa festinha foram os destaques. E, pela imagem divulgada, os "pedaços de temor", da canção cubana, em volta da mesa. 

Muito mais do que confiança, por José Paulo Kupfer

confiança (Foto: Arquivo Google)
O programa de ajuste fiscal do governo continua navegando em círculos num mar revolto. 
Em meio a um boicote no Congresso, a equipe econômica se esfalfa no vaivém das revisões das contas públicas, sempre para pior, indicando uma dinâmica adversa e, em consequência, o aprofundamento dos déficits e a escalada das dívidas públicas.
Os números do chamado governo central — Tesouro Nacional, INSS e Banco Central —, em setembro, divulgados ontem, só reforçam essa perspectiva negativa.
Desde o início do ano, o deficit primário acumulado chegou perto de 0,5% do PIB, o maior de toda a série histórica iniciada há 18 anos. Com isso, ficou mais do que inviável manter a meta, já modestíssima, de superávit em 0,15% do PIB para 2015, anunciada na revisão de julho.
A previsão oficial agora é de um buraco primário de 0,8% do PIB, no fim do ano. E isso jogando para frente a cobertura das pedaladas fiscais apontadas pelo TCU, com o que o déficit do ano poderia dobrar, em relação à nova estimativa.
Se fosse incontestável que a retomada dos investimentos — e, em consequência, do crescimento — é função exclusiva da confiança dos agentes econômicos na condução da política econômica e esta dependesse também exclusivamente do reequilíbrio das contas públicas, o horizonte de reversão do atual ciclo contracionista estaria fora de qualquer campo de visão.
Mas essa teoria, cara ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e encampada por boa parte do pensamento ortodoxo, embora necessária para repor a economia na rota da expansão do nível de atividades, está longe de ser suficiente para esse objetivo.
Um estudo atualizado produzido pelo Centro de Estudos do Instituto Ibmec (Cemec), sob a coordenação de seu diretor, o economista Carlos Antonio Rocca, professor da Faculdade de Economia da USP e ex-secretário de Fazenda de São Paulo, analisa e hierarquiza os fatores que, nos tempos atuais, mais pesam na decisão de investir das empresas brasileiras (“Fatores da decisão de investir das empresas não financeiras — um modelo simples”, disponível em http://bit.ly/1M3vOwL).
A conclusão é de que, dos três principais elementos considerados no processo empresarial de decidir investimentos, a confiança, medida pelo indicador da Confederação Nacional da Indústria (CNI), comparece com o menor peso relativo.
A análise, elaborada a partir dos balanços consolidados de uma amostra significativa de empresas de capital aberto e das maiores de capital fechado, de 2005 a 2014, mostra que a decisão de investir leva em conta, prioritariamente, indicadores de rentabilidade do investimento e de expectativa de crescimento do PIB num horizonte de três anos adiante do ano de referência.
“Os resultados obtidos sugerem que, a partir de 2010, a permanência de taxas de retorno inferiores ao custo de capital, em combinação com a ausência tanto de perspectivas de mudança desse quadro quanto de crescimento mais vigoroso da economia, derrubou os investimentos”, explica Rocca.
É o setor de infraestrutura, por não enfrentar as restrições de insuficiência de demanda, o mais indicado, segundo o economista, para, no momento, atrair investimentos. Mas o governo ainda terá de suar a camisa para despertar o interesse de investidores.
“Embora alguns passos tenham sido dados e outros anunciados, ainda não foram estruturadas todas as condições para encorajar o setor privado, inclusive estrangeiro, a investir nessa área”, diz Rocca.
“O melhor modelo de financiamento, nesses casos, o de project finance, exige projetos, mecanismos e instituições que minimizem tanto os riscos de construção quanto os regulatórios e políticos, sem falar na superação desafiadora das condições de financiamento, no atual ambiente dos mercados financeiros e de capitais”.
José Paulo Kupfer é jornalista

Arte de Chico Caruso

Charge (Foto: Chico Caruso)

‘Top Top’ Garcia,deve depor sobre tráfico de influência, nas fôlhas


Aspone dos governos petistas é suspeito de tráfico de influência
Os deputados Alexandre Baldy (PSDB-GO) e Miguel Haddad (PSDB-SP) entram na CPI do BNDES com requerimentos de convocação do de Marco Aurélio Garcia, aspone para assuntos internacionais aleatórios de Lula e agora de Dilma. 
O conhecido “Top Top” é suspeito de tráfico de influência na concessão de crédito do banco de fomento do governo federal para o financiamento de ditaduras africanas.

A suspeita é que o BNDES financiou obras em ditaduras, durante os governos do PT, porque nesses países não há órgãos de controle.

Países como Cuba, no Caribe, e ditaduras africanas não têm ministério público, tampouco tribunais de contas e auditores fiscalizando obras.

O dinheiro não era fiscalizado nas ditaduras financiadas, nem no Brasil: o BNDES negava acesso aos contratos até mesmo ao TCU.

Um presente de 2 milhões de reais, por: Rodrigo Rangel

O petista Marco Maia, ex-presidente da Câmara (Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo)
O petista Marco Maia, ex-presidente da Câmara (Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo)
As histórias mais comuns de corrupção normalmente envolvem a parceria de um empresário ganancioso com um político desonesto. O primeiro é agraciado com contratos públicos milionários. Em troca, distribui recompensas como malas de dinheiro, carros importados, imóveis de luxo. No rastro da Operação Lava-Jato, a Polícia Federal descobriu que um grupo de petistas montou um esquema de negócios escusos no Ministério do Planejamento. O padrão era o mesmo do petrolão. Em troca da assinatura de um contrato vultoso, a empresa repassava parte do valor recebido para o PT. Seguindo o dinheiro, os policiais e procuradores identificaram quem arrecadava e quem recebia a propina. 
Chegaram então a figurões do PT beneficiados pelo dinheiro sujo na forma de financiamento de campanha eleitoral, presentes e regalias, entre elas o direito de usufruto de um apartamento em Miami. Chamou a atenção dos investigadores esse imóvel de alto padrão fincado no belíssimo litoral da capital hispânica dos EUA, refúgio de fortunas honestas e desonestas.
A história do apartamento em Miami começou a ser contada em agosto passado, quando a Polícia Federal prendeu Alexandre Romano, ex-verea­dor petista de Americana, no interior de São Paulo. Romano atende pelo apelido de Chambinho. De apenas um contrato milionário dado pelo Ministério do Planejamento à empresa de informática Consist, foram desviados 50 milhões de reais. Chambinho cuidava da distribuição da bolada. Como era praxe, João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, ficava com fatias gordas. A polícia calcula que Vaccari tenha recebido do esquema cerca de 10 milhões de reais. Parte considerável do dinheiro desviado beneficiou também a senadora Gleisi Hoffmann, ex-ministra da Casa Civil (PT-PR), e o marido dela, Paulo Ber­nardo, ex-ministro do Planejamento no governo Dilma. VEJA revelou que a escritura do apartamento em Miami estava entre o material reunido pelos policiais na apuração do caso Consist. 
A revista descobriu ainda que Marco Maia (PT-RS), ex-presidente da Câmara dos Deputados, passou férias no imóvel hoje sob suspeita. Maia afirmou a VEJA que, a convite de Chambinho, se hospedou no apartamento por dez dias, mas "uma única vez".
Depois do depoimento do ex-vereador Chambinho à polícia, o apartamento de Miami ganhou enorme relevância na investigação. Em depoimento prestado aos investigadores no curso das negociações para fechar um acordo de delação premiada, o ex-vereador disse que o apartamento está registrado em nome de uma empresa aberta por ele na Flórida, mas que Marco Maia é o verdadeiro dono do imóvel, comprado por 671 000 dólares (2,5 milhões de reais no câmbio da semana passada). Se se confirmar a revelação feita aos policiais, além de coletor e distribuidor de propinas, Chambinho - que tem em seu nome um segundo apartamento no mesmo condomínio - se prestava ao papel de "laranja" de luxo.
O apartamento sob investigação tem 164 metros quadrados, fica na South Tower at The Point - e conta com três quartos e dois banheiros. O prédio faz parte de um condomínio de cinco edifícios situado a poucos metros da praia e proporciona aos condôminos o uso de uma marina e de um spa. Os investigadores já tinham indícios de que Chambinho fala a verdade sobre a propriedade do imóvel em Miami. 
A polícia sabe, por exemplo, que a decoração do apartamento que o ex-vereador diz pertencer a Marco Maia foi feita sob orientação da mulher do deputado. 
Por decisão do Supremo Tribunal Federal, que não encontrou conexão do caso Consist com o petrolão, a investigação saiu da alçada do juiz Sergio Moro, em Curitiba, e agora corre na Justiça Federal de São Paulo. A parte relativa aos políticos com foro privilegiado será remetida ao STF, a cujos ministros, em última instância, Marco Maia deverá se explicar.

Uma campanha a ser adotada: 'Que Diferença Faz?' por Sandra Starling

Com certo pé atrás tomei conhecimento de campanha do Ministério Público de Minas Gerais intitulada “Que Diferença Faz?”. Tive receio, confesso, de que fosse mais uma dessas manias que andaram grassando por aí, em que se toma um único tema e se faz dele o centro do mundo.

Por exemplo: o que se quer com essa moda de afrodescendência? Se tiver havido uma só pessoa no mundo que não teve origem na África, dou minha mão à palmatória. A não ser que já estejamos sendo visitados por seres de outros planetas, toda a humanidade é afrodescendente. Existe uma dívida para com a escravidão dos negros, que desonrou nosso país? Escravidão é escravidão, seja ela de branco ou de negro. Uma desonra. Já está mais do que provado que muitos dos africanos para aqui trazidos eram escravizados em suas próprias terras. Aliás, entre gregos e romanos, os escravos – ao que eu saiba – nada tinham a ver com a cor da pele. Cristãos europeus foram escravizados por populações mouras, negras, no Mediterrâneo, no século XVI.

Faltou mais destaque, mais ênfase, sobre a questão da pobreza – que, inclusive, explica a exclusão dos negros. A pobreza, esta sim, é a mais violenta dívida social que ainda existe no mundo. A diferença entre uns poucos muito ricos e uns muitos muito pobres me dá vergonha. Isso deveria ser combatido com todas as armas e sem os paliativos que livram os pobres da extrema pobreza material e os torna indigentes políticos, manipulados pela má-fé dos que disso se aproveitam. E muito pouco se disse dos nossos índios – estes, os mais excluídos dos excluídos no Brasil de hoje.

Em boa hora, porém, e apesar de não concordar com todos os temas abordados pela tal campanha (por exemplo, não sou partidária de cotas pela cor da pele), admirei que ela não se restrinja a este ou àquele aspecto da gama imensa de diferenças entre as pessoas. Procura abordar de tudo e sobre todos numa linguagem direta, sem subterfúgios.
Penso, apenas, que faltou um aspecto que julgo fundamental nos dias de hoje: a denúncia da intolerância para com a opinião diferente. Sobretudo a opinião política. O Brasil está se transformando em campeão de boçalidade entre petistas e tucanos ou apenas antipetistas. Referi-me a isso no artigo a propósito do que aconteceu durante o velório de José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte.
Pelo que entendo, tal campanha deveria ser adotada nas escolas, nas comunidades, nas igrejas, nos cultos de todo tipo e que se transforme também em espécie de refrão a ser dito pelos artistas nos palcos e em suas apresentações país afora. Que cada um de nós faça cumprimentos com o gesto de superposição dos dedos indicadores um em frente ao outro, antes dos tradicionais beijinhos que os brasileiros se dão.
Seria bonito que isso virasse moda aqui, do mesmo modo pelo qual os japoneses se curvam uns em respeito aos outros.
Isso faria a nossa diferença!

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Proposta indecente, por Míriam Leitão

É sintomático que alguém tenha proposto uma mudança no projeto de repatriação de recursos anistiando doleiros, sonegadores e o caixa dois. Ela foi formatada como um terno sob medida para os investigados pela operação Lava-Jato e cabe direitinho em todos que têm dinheiro na Suíça e não sabem dizer a origem dos recursos, ou sequer admitem a existência das contas.
Como disse o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ), a proposta é inconstitucional. E imoral. Se aprovada, a anistia pode ser questionada no Supremo Tribunal Federal. As críticas foram tão fortes que a Câmara adiou a votação para terça-feira. Mas todo o cuidado é pouco. Quem fez a proposta não entendeu o momento que o país está vivendo, de repúdio à corrupção, de fortalecimento das instituições que combatem o crime de lavagem de dinheiro e corrupção. Como é mesmo que surgiu um absurdo destes numa hora dessas?
O deputado Manoel Junior (PMDB-PB), no seu relatório, tirou a proteção que havia sido colocada no projeto do governo e incluiu explícitas possibilidades de anistia de dinheiro de origem escusa. O deputado é o mesmo que foi cotado para ministro da Saúde na reforma ministerial, e só no último momento a presidente decidiu não nomeá-lo.
A ideia do projeto foi levantada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Ele tentou evitar que a regra fosse usada como veículo para limpeza de dinheiro sujo e foi ouvir especialistas para incluir cláusulas de proteção.
— O meu projeto, o 298 de 2015, foi escrito após ouvir tributaristas como Heleno Torres. A preocupação era como trazer recursos para o país sem legalizar dinheiro sujo. Eu incluí, portanto, dois dispositivos de proteção contra recursos ilícitos e a obrigação de que quem estivesse internalizando o dinheiro fizesse uma declaração junto ao Ministério Público sobre a origem legal do recurso —, disse o senador.
O governo, por exigência da Câmara, decidiu apresentar o projeto como de iniciativa do Executivo. E estabeleceu as mesmas travas de proteção. Consultou o Ministério Público e ouviu a OCDE, que idealizou o projeto em 49 países, para evitar que virasse uma lavanderia. Mas cometeu o erro de ceder a quem não devia:
— O deputado Eduardo Cunha exigiu que o projeto fosse enviado primeiro para a Câmara. Assim ele não poderia ser alterado no Senado, do contrário volta à Câmara para a palavra final. O governo concordou. Agora se entende sua insistência —, diz o senador.
O relatório ao Projeto de Lei 2.960, do deputado Manoel Junior, contendo as perigosas alterações, foi considerado, na área econômica, uma porta aberta aos crimes que têm sido investigados. Os maiores colaboradores da Justiça têm sido os doleiros e eles seriam beneficiados com as medidas propostas.
— A presidência da Câmara prometeu ao Planalto adotar o texto do Senado, quando exigiu que ele se tornasse um projeto do Executivo. Mas só permaneceu o nome do programa. O resto foi desfigurado —, disse um técnico do governo.
A ideia da área econômica era trazer os recursos para financiar a reforma do ICMS. Só seria permitido que quem tinha enviado recursos ao exterior sem declarar à Receita pudesse trazer o dinheiro de volta pagando um imposto e uma multa. A soma dos dois ficaria no mesmo percentual da alíquota imaginada no projeto do senador Randolfe: 35%.
A grande questão não é nem a tramitação do projeto, porque sempre haveria a possibilidade de ser vetado — ainda que seja curioso o veto a um projeto do próprio governo. Mas a dúvida mesmo é como uma alteração indecorosa dessas pode ser feita a esta altura dos processos de investigação de crimes financeiros em várias operações, principalmente na Lava-Jato.
Qual parte o deputado e seu óbvio inspirador não entenderam do momento que o Brasil está vivendo? 
A desfaçatez tem limites e neste caso foram ultrapassados. A ideia é proteger o país do dinheiro sujo e trazer recursos que possam contribuir para o desenvolvimento do país em momento de financiamento escasso e arrecadação em queda. O Brasil não quer ter esses recursos ao preço de anistiar crimes contra os quais está lutando. Da ideia original, nada ficou. O espanto é a cara de pau de quem incluiu as mudanças.

PF investiga se ex-ministro recebeu R$ 10 milhões, por Jailton de Carvalho

A Polícia Federal investiga se empresas de lobby contratadas pela Mitsubishi e pela Caoa, representante da Hyunday, pagaram R$ 10 milhões ao ex-ministro Gilberto Carvalho e a outros agentes públicos que teriam ajudado na aprovação de três medidas provisórias favoráveis às duas montadoras entre 2009 e 2013. No interrogatório de Eduardo Gonçalves Valadão, um dos sócios da SGR presos na Operação Zelotes, a delegada Rúbia Danyla Gama Pinheiro vinculou o ex-ministro à sigla GC e a um dos números encontrados num manuscrito apreendido com um dos investigados.
"O que significa GC 10, isso é uma alusão ao Gilberto Carvalho e o aumento do valor dos colaboradores para R$ 10 milhões?", quis saber a delegada. Valadão recorreu ao direito de permanecer calado e não respondeu a pergunta. No mesmo interrogatório, Rúbia Danyla perguntou: "conhece Gilberto Carvalho? Alguma vez já o procurou para fazer valer interesse de seus clientes. A exemplo do que fez em relação ao longo do depoimento, Valadão deixou as perguntas sem resposta.
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria da Presidência da República (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)Gilberto Carvalho (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

O horror em estado bruto, por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

O Horror (Foto: Alex Falcò / Cartoon Movement)
O Horror (Foto: Alex Falcò / Cartoon Movement)
Barbara Oliveira de Sousa foi presa em abril deste ano por tráfico de drogas. Detida, foi enviada para o presídio Talavera Bruce. Foi submetida a exames médicos? Houve algum exame para ver se ela era portadora de alguma doença que pudesse contaminar as outras detentas? Por ser, ao que parece, uma evidente usuária de drogas, algum psicólogo foi ouvido para ajudá-la a passar pela abstinência e verificar se ela era um perigo para si mesma e para as colegas de cela?
Não.
Como manda a Lei, ela foi ouvida por algum juiz logo após sua prisão? Sua família foi avisada de sua detenção?
Não. Logo após a prisão, não. Foi ouvida, sim, e acompanhada por um defensor público, mas somente em agosto, portanto três a quatro meses depois da prisão. Na audiência, ela não soube dizer se estava grávida ou não.
Ela não soube dizer, mas seu bebê sabia que era preciso ‘saltar para a vida’, na belíssima expressão de João Cabral de Melo Neto. Ele nasceu em 11 de outubro e pelo que saiu nos jornais, dois dias depois foi enviado para um abrigo, não teve que ficar internado, o que indica que nasceu com nove meses de gestação.
Se foi esse o caso e deve ter sido assim, Bárbara já devia apresentar sinas evidentes de gravidez. Não foi por outro motivo que o Juiz da 25ª Vara Criminal, ao fim da audiência, encaminhou um pedido para que ela fosse submetida a um teste de gravidez. O magistrado também pediu que ela passasse por exames para detectar a dependência química e a sanidade mental.
Foi cumprida a ordem do juiz?
Não, naqueles dias não. Só esta semana, depois do parto, ela foi encaminhada ao Hospital Penitenciário Heitor Carrilho.
Casos como esse talvez sejam comuns em nosso sistema penitenciário vexaminoso, que só os italianos acreditam ser de primeira linha. No Talavera Bruce há 30 internas grávidas, sendo que apenas três estão sentenciadas: as outras 27 são presas provisórias. (Presas provisórias? Por quanto tempo estão ou ficarão nessa situação?).
A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária - SEAP,  informou que todas as gestantes que dão entrada no sistema são encaminhadas para o Talavera Bruce, onde ficam divididas em duas celas. Ainda segundo o órgão, todas são acompanhadas e fazem exame pré-natal. O Globo
Mas Barbara com certeza não fazia parte de “todas”. Não fez nem exames de rotina, que dirá o pré-natal.
Esquizofrênica recebendo remédios controlados, segundo sua família; dependente de drogas, segundo consta na ficha de entrada do SEAP, o fato é que Barbara, agressiva e incontrolável, foi enfiada numa cela solitária.
E o que aconteceu nessa cela no dia 11 de outubro, aqui na Cidade Maravilhosa, não é roteiro de filme de terror. É o relato nu e cru de como o horror anda tomando conta de nossas vidas aqui no Brasil.
Barbara, com as cruciantes dores do parto e encerrada numa cela isolada, berrava dizendo que estava tendo um filho. Segundo suas colegas de prisão, apesar dos gritos de todas pedindo socorro para a parturiente, ela, trancada no Isolamento, só foi atendida horas depois.
E saiu da prisão com o filho nos braços e o cordão umbilical ainda ligado ao seu corpo.
É um retrato hediondo do Brasil. Triste, medonho, brutal...

Família Lula prefere viver em imóveis de ‘amigos’--CH

Lulinha toma conta do corpo na academia do prédio onde vive, em Moema (SP). Fotos: Hoje em Dia
Enrolada em acusações de corrupção, a família Lula da Silva mantém um suspeito hábito de morar em imóveis que não lhe pertencem, ao menos oficialmente. Assim como Lula nos tempos de sindicalistas vivia em uma casa supostamente de propriedade do compadre e advogado Roberto Teixeira, seu filho Luiz Cláudio da Silva há três anos reside em imóvel de uma empresa controlada pelo mesmo Teixeira. E Fabio Luiz, o “Lulinha”, escolheu viver em apartamento pago por um amigo.
Lulinha optou por um apartamento na exclusiva região dos Jardins, em São Paulo, pago pelo amigo empresário Jonas Leite Suassuna Filho.
Em 2010, o apartamento onde Lulinha morava, nos Jardins, tinha aluguel mensal fixado em R$ 12 mil mensais. 
Lulinha foi para outro apartamento do mesmo Jonas, em Moema, cujos vizinhos pagam ao menos R$ 40 mil entre aluguel, condomínio e IPTU.
Quando Lula foi eleito em 2002, consta que Lulinha ganhava R$ 1.300 em um zoológico. Em 2010, já era sócio de ao menos seis empresas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Arte de AMARILDO

Charge (Foto: Amarildo)

Pedaladas eleitorais, por Celso Raeder

Comentario meu--- Sem menosprezo pelas experiências e vivências de outrem, acrescentaria.--E que pensarao aqueles e aquelas que sacrificaram a propria VIDA, para que acontecesse o happening de1984?! , Desde 1964 até 1984 muito houve chao a percorrer, na marra e sem aplausos, antes pelo contrario.
Constatando, no presente recente, que foram ludibriados na sua vontade de mudar o BRASIL, por alguns arrivistas esfomeafos por cartoes corporativos, sinecuras estatais, ternos sob medida e cabeleireiros idem--alias, tudo aquilo ao que os primeiros "renunciaram" e que estes sempre foram incapazes de ganhar com o proprio suor e competencias.
Contentaram-se em enganar aos bem intencionados e, em alguns casos, ainda lhes chamaram de --invejosos!--estes pobres de espirito, miseraveis mentais e morais, aos quais cabera, cêdo ou tarde, prestar contas a Nacao. Nem que seja no inferno! Amaldicoados sejam os traidores, em causa propria, da Esperanca de um Povo!
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Saí de casa no dia 10 de abril de 1984, ao lado daquela que seria a mãe do meu primeiro filho, com destino à Candelária. Um mar de gente ocupava as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco. Éramos um milhão de pessoas em catarse cívica, participando do histórico comício das “Diretas Já!”. Naquela época, o campo das esquerdas era disputado entre petistas e brizolistas. Sim, havia uma diferenciação entre siglas e lideranças políticas. Embora o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva representasse a expressão máxima do Partido dos Trabalhadores, ainda assim a legenda era muito maior do que ele. O mesmo não acontecia com o PDT de Leonel Brizola.
Lembro-me muito bem da fisionomia de alguns militares, vestidos em trajes civis, infiltrados e dispostos a criar confusão. Mas a ordem do comando geral do movimento, para que não houvesse reação às provocações, foi cumprida à risca. E o que se viu foi um banho de cidadania e civismo. Oradores se revezando, lágrimas rolando, uma energia e vibração no ar de tamanha intensidade, que os generais não tinham mais como evitar a retomada do poder pelo povo e para o povo. Na Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio, um milhão de pessoas gritaram por eleições Diretas, 10/04/1984 (Foto:  Arquivo O Dia)
Na Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio, um milhão de pessoas gritaram por eleições Diretas, 10/04/1984 (Foto: Arquivo O Dia)

Sou tomado por essas lembranças para entender em que momento nós, o povo, perdemos o papel de protagonistas de nossa história. Lutamos tanto pela restauração da democracia, e tudo o que nos restou foi um cheque em branco, que a Justiça Eleitoral convencionou chamar de voto? Aí está a mãe de todas as distorções, que se sucederam, governo após governo, até culminar na desmoralização político-institucional que se vê hoje.
O voto, que deveria estar condicionado ao cumprimento dos compromissos assumidos em troca dessa “moeda”, virou cartão de crédito no bolso do eleito. É nesse ponto que a democracia perde o sentido de bem universal e se transforma em instrumento de poder nas mãos de grupos de assalto.
De Collor a Dilma, o eleitor votou naqueles que apresentaram (?) as melhores propostas. Então, está claro, a escolha foi pelo plano de governo que eles divulgaram em campanha. Por essa perspectiva — a correta, por sinal —, nem precisaria ser necessário flagrar governos chafurdando na lama para legitimar o impeachment. Se a presidente Dilma perder o mandato, que seja por suas pedaladas eleitorais. Do contrário, é trocar seis por meia dúzia.
A sociedade brasileira exige uma democracia de verdade, aquela que saiu do peito do jurista Sobral Pinto, no alto do palanque das Diretas Já: “Todo o poder emana do povo...”. Se governo ou oposição não entenderem esse sentimento, vão continuar brigando pelo poder, sem o respaldo das ruas.-----Celso Raeder é Jornalista

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Arte de CHICO Caruso

http://s2.glbimg.com/U2bUwosUH9cOFlGLSjwsewiqTNs=/i.glbimg.com/og/ig/infoglobo1/f/original/2015/10/27/chico_caruso_-_28-10-2015.jpg

O paraíso para as empreiteiras, por Elio Gaspari

Se a doutora Dilma não vetar um gato colocado na tuba da Medida Provisória 678, as grandes empreiteiras de obras públicas ficarão com um pé no inferno e outro no paraíso.
O inferno é a carceragem de Curitiba.
O paraíso será a conquista de um passe livre em futuros contratos, sem as restrições impostas pela legislação. Coisa jamais vista.
A história desse gato é uma viagem ao mundo de Brasília, onde fazem-se leis que se transformam em privilégios e, às vezes, acabam em escândalos.

Os fornecedores do governo odeiam a Lei das Licitações. Quando podem, esburacam-na. Em 1998, criou-se para a Petrobras um “procedimento licitatório simplificado”. Deu no que deu. Em 2011, com o objetivo de acelerar as obras para a Copa do Mundo, surgiu o “Regime Diferenciado de Contratação” (RDC) para as empreitadas dos jogos. Nele, entrou o conceito de “contratação integrada”, permitindo que uma obra seja licitada apenas com um anteprojeto. As empreiteiras ganhariam liberdade para definir materiais e até mesmo os testes de qualidade de seus serviços. A maluquice do Trem Bala poderia ter sido transformada num “projeto integrado”. Felizmente, o BNDES matou-a.
Até aí, tudo bem, pois havia pressa para a Copa. Ela se foi, e o VLT de Cuiabá, previsto para custar R$ 1,8 bilhão, está com os trabalhos parados. Se tudo der certo, ficará pronto em 2018, o ano da Copa na Rússia. Até lá, 40 trens continuarão estocados nos pátios. Passaram-se cinco anos da criação do RDC, e ele expandiu-se, valendo também para obras do PAC, presídios ou mesmo postos de saúde.
No ano passado, o Planalto preparou um projeto de lei que mudava a Lei das Licitações, embutindo o conceito de “projetos integrados”. Jogo jogado, admita-se que a ideia é boa, modernizadora, globalizante ou seja lá o que for. O governo e os peões das empreiteiras poderiam botar a cara na vitrine defendendo-a. Com a Lava-Jato na rua, o projeto sumiu.
Agora, sem maiores discussões, os “projetos integrados” reapareceram no texto da conversão da Medida Provisória 678. Originalmente, ela permitia um regime especial de contratação para empresas de segurança durante as Olimpíadas do Rio. Virou uma árvore de Natal e incluiu no regime especial de contratação obras de infraestrutura como estradas, portos ou aeroportos. Empreitadas desse porte acabam entregues a grandes empreiteiras, precisamente aquelas que trocaram as capas de revistas de negócios pelas páginas de notícias policiais.
O Supremo Tribunal Federal decidiu que não se podem colocar jabutis em medidas provisórias, mas os peões do Congresso podem argumentar que a medida provisória já estava em tramitação e, portanto, está fora do alcance do veto.
A doutora Dilma tem todo o direito de dizer que não respeita os delatores que destamparam o bueiro da Petrobras. Desde os primeiros dias da Lava-Jato, ela manteve uma posição de antipática neutralidade pelo trabalho dos investigadores. A Polícia Federal e os procuradores estão atrás da industria de gatos em medidas provisórias e já pegaram alguns negócios esquisitos. Em relação à Lava-Jato, a doutora repete que nada teve a ver com a história. Se o Ministério Público e a Polícia Federal chegarem a atos que ela sancionou, a conversa será outra.
Elio Gaspari é jornalista

Se prenderem Lula, tudo bem, por Ricardo Noblat

Lula, durante a festa dos seus 70 anos (Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)
Lula, durante a festa dos seus 70 anos
Entre petistas de alto calibre e ministros do governo, circula a informação extraída de uma pesquisa de opinião pública mantida sob segredo onde ficou comprovado: a maioria dos brasileiros não reagiria negativamente a uma eventual prisão de Lula por conta das investigações da Lava-Jato.

É isso o que tem aumentado o nervosismo de Lula. Ele está com medo até de dormir em casa.
A fúria tomou conta dele por causa da ação da Polícia Federal contra um dos seus filhos, suspeito de envolvimento com a compra de Medidas Provisórias assinadas por Lula quando era presidente. 
E com a intimação para depor pelo mesmo motivo de Gilberto Carvalho, ex-chefe do seu gabinete.

Seu reencontro, em São Paulo, com Dilma, durante a festa dos seus 70 anos, foi indisfarçavelmente frio. Eles dividiram uma mesa com mais quatro pessoas e mal conversaram. 
Mas a insatisfação de Lula com Dilma e José Eduardo Cardoso, ministro da Justiça, não é tão grande como pode parecer.

A insatisfação é maior com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente Teori Zavaski, relator da Lava-Jato, que estariam tomando decisões que complicam sua vida. Lula não entende como pode enfrentar problemas com pessoas que lhe devem a indicação para os cargos que ocupam.

Na conta dos dissabores amargados por Lula, está também o comportamento de ministros indicados por ele para o Tribunal de Contas da União, que recentemente recomendaram ao Congresso a rejeição das contas do governo de 2014. Ele os considera uns ingratos.

Lula tomou da Polícia Federal uma bola pelas costas ao se descobrir investigado no âmbito da Operação Zelote, que antes mirava apenas os de agentes da Receita Federal subornados por empresários devedores de impostos. A Zelote está interessada também no favorecimento à indústria automobilística.                 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O fiador da estabilidade, por José Casado

Eduardo Cunha (Foto: Ailton de Freitas)                  Eduardo Cunha (Foto: Ailton de Freitas)

Na semana passada, a cada 48 horas a Procuradoria-Geral da República registrou no Supremo Tribunal Federal uma nova documentação acusando o presidente da Câmara dos Deputados de crimes de suborno e lavagem de dinheiro em contratos da Petrobras.
Os documentos combinam confissões de ex-funcionários da estatal e intermediários de empresas privadas com o resultado dos mais recentes rastreamentos de bens, direitos e valores dos quais o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e familiares seriam beneficiários e, supostamente, escondiam no exterior.
Na quinta-feira, o juiz Teori Zavascki decretou sigilo sobre as novas peças (protocoladas no STF como apensos 4, 5 e 6 aos volumes 9 e 10 do Inquérito nº 3.983). Mencionou especificamente os depoimentos.
Quem teve acesso impressionou-se: a movimentação descoberta ultrapassa muito o valor (US$ 10 milhões) já identificado em contas nos bancos Julius Bär, Merrill Lynch e BSI, de Genebra, onde Cunha aparece como beneficiário.
Foi o banco Julius Bär quem o delatou à Justiça da Suíça. No último 17 de abril, em Berna, o procurador federal Stefan Lenz denunciou Cunha por suborno e lavagem de dinheiro, crimes para os quais a legislação local prevê um mínimo de três anos de prisão em regime fechado (artigos 305 e 322 do Código Penal suíço).
Cinco meses depois, em 28 de setembro, a Suíça comunicou o encerramento da investigação e a transferência do caso ao Brasil. O procurador Lenz indicou que “foram detectados vários pagamentos e transferências de títulos” a partir do Merrill Lynch International, nos Estados Unidos.
Lenz escreveu a Brasília: “A procuradoria federal não conseguiu esclarecer a origem exata destes demais ativos e o fundo econômico destas transações. Mesmo assim, com base nas constatações e em razão destes recebimentos (de dinheiro), incompatíveis com a função de Cunha como presidente da Câmara dos Deputados, existe uma suspeita inicial suficiente de que, também em relação a estas transações efetuadas para Cunha, trata-se de produto de crimes.”
Duas semanas atrás, na sexta-feira 9 de outubro, procuradores do Brasil e dos EUA decidiram tornar mais fluida a cooperação. Patrick Stokes, do Departamento de Justiça, coletou evidências locais contra a Petrobras, seus fornecedores privados e pessoas físicas suspeitas de crimes contra a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. Essa legislação (FCPA, na sigla em inglês) tem alcance extraterritorial e prevê penas de até 20 anos de prisão, confisco e banimento de empresas do mercado americano.
No Supremo, prevê-se para dezembro a decisão do juiz Teori Zavascki sobre a denúncia contra o presidente da Câmara. A atual movimentação no inquérito sugere apuração de possíveis crimes continuados, o que poderia justificar até pedido de prisão.
Em teoria, esse seria o limite do Supremo. Sem sentença judicial definitiva, a Câmara tem exclusividade constitucional em decisão sobre mandato, permanência no comando da Casa e até sobre o seguimento do processo.
O Legislativo possui uma centena e meia de parlamentares sob suspeita em inquéritos no Supremo. O Executivo atolou-se em cumplicidades. Sobrou para o Judiciário o papel de fiador da estabilidade das instituições.
José Casado é jornalista

O mito Lula começa a desmoronar, por Ricardo Noblat

Lula (Foto: Divulgação)
Seria temerário vaticinar o fim de Lula. Ou o fim de qualquer político, especialmente. Essa gente costuma ter muito fôlego.
Mas o mito Lula, o político que encarnou os desejos dos brasileiros mais pobres e de uma esquerda que jamais alcançara o poder; aquele que denunciou a existência de 300 picaretas no Congresso e se disse diferente de tudo o que está por aí; o mito vai sendo progressivamente desmontado.
Lula reunirá condições para tentar voltar à presidência da República pela terceira vez? A essa altura, parece difícil. Em compensação, ainda está para nascer quem poderá derrota-lo.
O mito começou a ser construído quando Lula liderou greves de trabalhadores na região do ABC paulista, lá se vão 35 anos.
Foi capaz de resistir ao vendaval provocado pelo escândalo do mensalão, que varreu do mapa alguns ícones do PT como o ex-ministro José Dirceu de Oliveira.
E consolidou-se, por fim, com a saída consagradora da presidência da República em 2010, exibindo um índice de aprovação superior aos 70%, e deixando Dilma Rousseff em seu lugar.
Tudo indicava que Lula só não sucederia Dilma se não quisesse, ou se fosse vítima do destino.
Não sucedeu no ano passado porque Dilma teimou em se reeleger. E agora... Agora, Lula rola ladeira abaixo.
Paga o preço de ter escolhido uma sucessora incompetente. E também de ter deixado os escrúpulos de lado – se é que já os teve um dia.
Pesquisa recente do IBOPE, divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo, conferiu que 55% dos brasileiros dizem que não votarão mais em Lula de jeito nenhum.
Rejeição acima de 40% é fatal para qualquer candidato. E não há sinais no horizonte de que o sol voltará a brilhar para Lula. Pelo contrário.
Um segundo vendaval ameaça engolir Lula. E ele não se resume apenas à Operação Lava-Jato comandada pelo juiz Sérgio Moro.
A Lava-Jato é só uma face do vendaval de muitas faces. Moro coleciona depoimentos que incriminam Lula e pessoas a ele estreitamente ligadas,
A Polícia Federal, que investiga o pagamento de propinas a agentes da Receita Federal, bateu à porta de um filho adotivo de Lula e do ex-ministro Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula nos seus dois mandatos.
Há sólidos indícios de que Medidas Provisórias assinadas por Lula para beneficiar a indústria automobilística foram compradas. Quem pagou? Quem recebeu o dinheiro?
Há outro filho de Lula sob investigação. E o próprio Lula está sendo investigado sob a suspeita de ter favorecido empreiteiras enquanto presidiu o país – e de ter-se tornado lobista delas desde que trocou o Palácio da Alvorada por seu apartamento em São Bernardo.
Ninguém se espantará se um dia a Polícia Federal apreender documentos no Instituto Lula. Ou, no limite, se Lula acabar preso. O clima para isso já existe.

Anarquistas coroados, por Pedro Lago


Coração da anarquia (Foto: Arquivo Google)


E lá fomos nós.
Percorrer os arredores
do cinema Odeon.
Lá onde um velho
pedia água no botequim
e o batalhão silenciava
em segredos.
Lá onde a luxúria escorria
pelas mesas do hotel para
solteiros e a Lapa começava
a ferver em utopias.
Lá fomos nós.
Na gênese de pequenos universos
que se entreabriam nos detalhes.
Passo a passo pela madrugada,
que nos oferecia um gosto amargo
e era bom e crescia.
Lá onde as imperfeições
Junto aos odores das calçadas
formavam uma ópera de espantos,
um drama da desgraça
e da beleza das vísceras.
Seguimos entre sons e rutilamentos,
pelas luzes das barracas
e os bares cheios.
Tropeçamos nos meios-fios,
rindo dos problemas,
como quem se liberta
das masmorras.
E nos embebedamos como
dois bárbaros exautos,
trincando copos,
fora do veneno,
dentro do grito,
na coroação da
nossa anarquia.
Pedro Lago (Rio de Janeiro, 1981) é poeta

Dinheiro e porrada no mundo da lua, de olhos arregalados, por Tânia Fusco--Jornalista

Depois de sofrer “reprimendas” por dirigir taxis cidade afora, o prefeito do Rio de Janeiro, justificou: “Dirijo pouco, tenho motorista, é aquela fase burguesa de prefeito, que só anda de motorista.”
Ele e todas as excelências mundo afora desfrutam da fase burguesa a cada vaga conseguida nas urnas ou em cargos assumidos de primeiro, segundo e terceiros escalões.
É quando também se distanciam das ruas e suas cotidianas aflições, dificuldades e queixas. Passam a viver no mundo da lua, como disse um deputado sobre presidenta Dilma.
Ficassem mais próximos do povo e saberiam direito porque vêm tremulando bandeiras do “Vocês não me representam”. 
Principalmente, saberiam de onde vem a rejeição e a perplexidade da população, alimentada diariamente, além das news do Lava Jato, por pérolas proferidas sem a menor cerimônia pela turminha em fase burguesa.
Ai vão algumas dos últimos dias:
— Ele acha que tudo é dinheiro e não entende que tem gente que está na política por poder ou por vaidade — disse um integrante do PMDB.
Estava no jornal, dita em off, avaliando o comportamento do presidente da Câmara, seu par de partido.
Perguntamos nós e nossa insignificância: quer dizer que vai-se para a vida pública, se não por dinheiro – esse grandão que rola nos subterrâneos -, apenas por “poder e vaidade”? 
A coisa tá feia. Outras motivações de maior grandeza – espírito público, desejo se servir, atuar pela população, a favor do país, atuar em causas de seu segmento social – nem se cogita? Caíram completamente em desuso.
Segue o baile sem máscaras:
— Tem duas coisas que só não resolvem quando é pouco: dinheiro e porrada — disse, segundo o jornal, o excelência em questão “a mais de um interlocutor”.
A mesma matéria explica: “Além de sua visão de mundo, a frase mostra afinidade com o doleiro..., de quem é amigo.” E lá vem a frase similar do tal doleiro:
— Aprendi na vida que há dois jeitos de resolver um problema. Ou é com dinheiro ou é na porrada — disse (o doleiro), em entrevista publicada na edição de agosto da revista “Piauí”.
Precisa de explicação sociológica para as violências e os desrespeitos que comem soltos Brasil adentro?
Tem mais:
“Esse comportamento de dizer de olhos arregalados que não vai sair é típico do psicopata. O psicopata nunca cede, ele vai até o final com aquela versão e com as mesmas palavras. Isso vai cansar. Vamos ver se a Câmara vai ficar com o rabo entre as pernas, envergonhada por algo que está percorrendo o mundo inteiro, um presidente de uma instituição desse jeito.”
Essa delicadeza toda - do psicopata ao rabo entre as pernas - vem da fala de um colega de partido, eleitor do excelência presidente, e em referência ao dito cujo, que vive momento de “alvo a ser destruído”.
Guerra é guerra. Em praça pública como nunca antes na história desse país.  E com a mesma metralhadora - e todas as letras - o velho parlamentar avalia: “A Câmara é uma tragédia. Eu nunca vi coisa tão ruim."
No mesmo dia, a manchete reforça: “1/3 do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados é alvo de inquéritos. Sete dos 21 membros do colegiado são alvo de ações no Supremo sob suspeita de crimes como lavagem de dinheiro.”
A Câmara foi o alvo desta semana porque a crise anda concentrada no condutor da Casa. Mas o furdunço alcança toda a classe dirigente e política do país, em liquidificador que põe bons e maus na mesma massa.
Aí o IBOPE registra e faz manchete:
A três anos das próximas eleições presidenciais... aponta um nível alto de rejeição entre os políticos mais cotados como possíveis candidatos em 2018.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece numericamente na frente, com 55% de rejeição (não votaria "de jeito nenhum") entre os prováveis candidatos ao Planalto. Estão empatados tecnicamente com ele -- a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais -- José Serra (PSDB), com 54%, Geraldo Alckmin (PSDB), com 52%, e Ciro Gomes (PDT), com 52%.
Além dos quatro, o Ibope mediu a rejeição a uma eventual candidatura de Aécio Neves (PSDB) e de Marina Silva (Rede). Marina é rejeitada por 50% dos entrevistados, e Aécio, por 47%.
Ou seja, no binóculo de hoje, para pelo menos a metade da população, ninguém dos politicões é confiável para assumir a vaga da tia Dilma. Surpresa?
Outras sondagens indicam que, enfastiada, a população quer reduzir tudo em relação ao cenário político - menor mandado, redução do número de parlamentares em todas as casas legislativas, menor tempo de propaganda eleitoral, horário reduzido dos “anúncios” na TV e no rádio. E mais, a perda de mandato para quem trocar de partido. Tolerância para essa troca só depois do mandato cumprido.
 Mundo louco (Foto: Arquivo Google)
“A pesquisa mostra ainda um crescimento na rejeição de Lula, Aécio e Marina, nomes para os quais há dados comparativos de pesquisas feitas no ano passado. Em maio de 2014, apenas 33% não votariam em Lula "de jeito nenhum". Aécio era apontado com 37% de rejeição e Marina, com 36%, em pesquisa de abril.”.
Nada pessoal. Só um fastio com o modelo de política praticado desde muito, mas evidenciado nas mídias com pensamentos, palavras e obras nestes derradeiros anos.
O ex-presidente FHC, que lança livro de memórias dos seus dias do palácio fala de “chantagens do Congresso”, esquecendo – parece – que a coisa tem mão dupla, há chantagens também do Executivo. Caneta em punho, todos com a cabeça torta pelo longo uso de velho modus operandi.
Em entrevista, FHC também disse que hoje: "Não são os políticos que estão dando as cartas. Eles estão dançando a música dos outros".
Bom aguardar cenas dos próximos capítulos para descobrir que baile é esse e que maestro conduz a orquestra por hora desatinada e desafinada que só. Benza Deus. 

Zelotes: PF faz busca no escritório do filho de Lula, por Jailton de Carvalho, Jaqueline Falcão e Gabriela Valente

Na nova fase da Operação Zelotes, deflagrada nesta segunda-feira, a Polícia Federal (PF) fez busca e apreensão no escritório da LFT Marketing Esportivo, de Luís Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
 Luis Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula (Foto: O Globo)
Luis Claudio Lula da Silva,filho do ex-presidente Lula(Foto: O Globo)
Segundo testemunhas, uma viatura da Polícia Federal chegou antes das 6h no escritório, localizado no bairro dos Jardins, na região central de São Paulo. Policiais fizeram buscas no prédio e saíram por volta das 6h20m, carregando documentos. Funcionários do edifício disseram que um carro da Receita Federal ficou por volta de duas horas no prédio. Um funcionário disse que o filho do ex-presidente esteve no prédio por volta das 9h e ficou no seu escritório, que fica no 5º andar, por cerca de meia hora.
A PF prendeu seis suspeitos de envolvimento com fraudes no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Entre os detidos estão Alexandre Paes Santos, os lobistas Halysson Carvalho e Mauro Marcondes Machado, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cristina Mautoni, do escritorio Marcondes & Mautoni, José Ricardo Silva, considerado um dos chefes do esquema, e o sócio dele Eduardo Valadão.

Ex-secretário-geral da Presidência depõe na Zelotes (AE)


O ex-ministro foi intimado a prestar depoimento e compareceu espontaneamente à PF (Foto: Marcelo Camargo/ABr)
O ex-ministro Gilberto Carvalho foi ouvido nesta segunda-feira, 26, pela Polícia Federal, em um inquérito da Operação Zelotes, que investiga a suposta compra de Medidas Provisórias para favorecer o setor automotivo. Gilberto Carvalho foi ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, no Governo Dilma (2011-2015), e assessorava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.
O ex-ministro foi intimado a prestar depoimento e compareceu espontaneamente à PF. Ele não foi alvo dos mandados de buscas e nem de condução coercitiva que atingiram investigados na nova fase da Zelotes deflagrada hoje.

Agenda
Segundo investigadores, Gilberto Carvalho foi citado por vários personagens envolvidos no suposto esquema de compra de Medidas Provisórias. O nome do ex-ministro consta de uma agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos, o ‘APS’, relacionado a informações sobre a MP 471.
O ex-ministro teria se reunido com representantes das montadoras para tratar dos incentivos fiscais quatro dias antes da edição da MP 471. Um encontro consta de uma agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos, que atuava em conjunto com a Secretaria-Geral da Presidência, uma das empresas de lobby envolvidas na negociação. ‘APS’, como é conhecido, tem ligações com a ex-ministra Erenice Guerra, que era secretária executiva da Casa Civil na época das tratativas.
As anotações registram valores e regras dos contratos de lobby, além de nomes de executivos que teriam participado das negociações para viabilizar a MP. Numa das páginas está registrado um “café” com “Gilberto Carvalho” em “16/11/2009”. (AE)

LULA E O IMPERATIVO DE SOBREVIVÊNCIA, por Carlos Chagas

Ao completar  70 anos, amanhã, pode o Lula considerar-se na plenitude de sua capacidade para realizar o Bem ou o Mal?
Lula e secretaria Rosemary
 Como já se dedicou a ambos os objetivos, ora atendendo os pobres e os  necessitados, ora privilegiando os ricos e os vigaristas, continua em aberto a possibilidade dele tentar  voltar ao palácio do Planalto. Não se diz voltar ao poder porque deste jamais se afastou, tanto controlando o PT quanto interferindo no governo Dilma. Muita gente considera inviável o  retorno do ex-presidente, dado o desgaste do partido dos companheiros e o fracasso hoje evidente da administração da sucessora.  Madame deixou de ser a esperança de continuidade de um período ao menos em parte voltado para os menos favorecidos. Transformou-se  em instrumento fisiológico de uma base parlamentar  ávida de sinecuras e favores variados.  Atende sugestões esparsas do antecessor mas permanece a maior parte do tempo lambuzando o país de incompetência.
Caso decida ou não possa evitar  candidatar-se em 2018,  o Lula  carregará o fracasso da Dilma. Talvez o peso venha a ser demasiado para obter a vitória,  como revelam as pesquisas atuais.  Nessa hipótese, precisará encontrar quem o substitua como candidato, mas quem?  Nos quadros do PT a safra  revela-se decepcionante. Jacques Wagner, Aloísio Mercadante, Ricardo Berzoini? Não dá.  Será, o ex-presidente,  obrigado a aceitar  o encargo,  por falta de alternativas?  Mas,  se perder, não estará  acionando  a pá-de-cal na aventura um dia saudada como capaz de mudar o Brasil? Apoiar um candidato de origem diversa, tipo Ciro Gomes, será um risco, mas pior   seria   aceitar Michel Temer, do PMDB.
 Nesse cipoal encontra-se o ex-torneiro-mecânico, ao completar 70 anos. Desejando ou não retornar, quando tiver 73, sua candidatura será um imperativo de sobrevivência, não apenas pessoal, mas do movimento que criou.  Só  que obstáculos levantam-se de todos os lados. As acusações de haver-se tornado milionário, envolvendo também sua família. Relações pouco claras com empreiteiros hoje morando na cadeia. O desgaste natural da idade. A falta de renovação no próprio partido. O distanciamento da classe operária, atualmente órfã de lideranças em condições de reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. E mais o desemprego crescente, o aumento de impostos, taxas e tarifas,   a redução de direitos sociais, a queda nos índices de crescimento econômico e a inflação.
O diabo é que,   mesmo enfrentando tamanha carga negativa, o Lula poderá não encontrar argumentos para recusar  a candidatura.  Arriscado a enfrentar a derrota,  não lhe será possível saltar de banda.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Arte de Aroeira

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Era uma vez um aristocrata branco e uns negros batutas, por Ancelmo Gois

Oito batutas
Dois livros recentes, “Os oito batutas”, de Luiza Mara Braga Martins, e “História de uma dinastia”, de Clóvis Bulcão, abordam uma relação de afeto e mecenato quase improvável para os anos 1920. De um lado, o aristocrata Arnaldo Guinle (1884-1963), de família com prestígio na Corte francesa e que emigrou para o Brasil, onde ergueu talvez o maior império econômico do país até hoje. Do outro, uns músicos, quase todos negros e pobres, entre os quais Pixinguinha (1897-1973) e Donga (1890-1974), que depois se transformaram em deuses da nossa música.
Os dois músicos lideraram uma orquestra chamada Os Oito Batutas (que, curiosamente, teve sete integrantes na fase de maior prestígio), que existiu entre 1919 e 1923. Eles são uma espécie de pais fundadores da Música Popular Brasileira. Aliás, um dos primeiros sambas gravados no país, “Pelo telefone”, é de Donga. Eles foram, como recorda Luiza Martins, o primeiro conjunto brasileiro a tocar na Europa a música popular urbana que se fazia no Rio de Janeiro de então — choros, maxixes, tangos brasileiros, sambas carnavalescos, lundus, batuques e valsas, além de ritmos nordestinos.
Numa época em que não existiam leis de incentivo à cultura, o empresário Arnaldo Guinle foi um grande mecenas. Pagou do seu bolso as primeiras turnês dos Batutas pelo Brasil. “Além das apresentações, os músicos tinham como missão passar para partituras cantigas de músicos populares relevantes de cada região”, lembra Clóvis Bulcão. Três anos mais tarde, em janeiro de 1922, antes da Semana de Arte Moderna de São Paulo, Arnaldo mandou os Batutas para uma turnê em Paris. Apesar das críticas de boa parte da imprensa, tipo “negroides ridículos e pardavascos que tocam violas”, a excursão foi um sucesso de público.
Aliás, o tricolor Arnaldo teve um papel chave também na popularização do futebol recém-chegado ao país, a ponto de financiar a realização do Campeonato Sul-Americano de 1919, no Brasil, o primeiro título de peso da nossa seleção. Ou seja: o ricaço ajudou o Brasil a ser conhecido hoje como a terra do samba e do futebol.
Em Paris, os Batutas ficaram por seis meses, de fevereiro a agosto. O sucesso foi tanto que o grupo recebeu uma boa oferta de grana para ficar por mais tempo. Mas aí pintou um banzo danado. Pixinguinha sentia falta do Brasil. Dizia que “a pátria é para nós como a mulher que deixamos distante e amamos muito”. Ou então: “A conversa era: ‘Ça va? Ça va?’ e ‘À demain! À demain’. Não dava para aguentar mais.”
Depois da temporada em Paris, o autor de “Carinhoso” falava um pouco de francês. Pixinguinha deu entrevista na língua de Édith Piaf para o documentário “Saravah”, do diretor francês Pierre Barouh, em 1969.
O jornalista Irineu Marinho (1876-1925) foi outro incentivador dos Batutas. O jornal “A Noite” criticava o preconceito racial de que o grupo era alvo. Donga, em entrevista ao MIS, disse que, se não fossem Arnaldo Guinle e Irineu Marinho, o grupo não existiria.
Ccerta vez, Pixinguinha foi abordado por um ladrão, que lhe exigiu o dinheiro e o relógio. Só que, de repente, o fora da lei o reconheceu. Pediu desculpas e se declarou fã do artista. A noite terminou na manhã seguinte com os dois tomando cerveja na casa do músico.
Pixinguinha sabia que o negro não era aceito em muitos lugares. “O Guinle, muitas vezes, me convidava para ir a um ou outro lugar. Eu sabia que o convite era por delicadeza, e sabia que ele esperava que eu não aceitasse. E assim, por delicadeza, também não aceitava” (IEB, 1996).

Arte de Antonio Lucena

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Portugal – tempo de incerteza em clima de confronto, por C. Fino

Comentario meu-- êste, intelectualmente, limitadissimo governante, ja enquanto Primeiro-Ministro (em tempos de vacas-gordas européias), ultrapassou largamente o seu proprio nivel de competencia. Mas manteve-se, politicamente,  gracas a eternas discordâncias dentre forcas politicas, no Pais. Depoir de ter-se melindrado com as denuncias de que tem e recebe 3 aposentadorias (reformas, em Portugal), expoe, a cada momento atual, a imensidade da sua tacanhez moral, intelectual e politica. 
Por isso foi, suponho, recusado como professor, numa Universidade sul-brasileira, que assim revelou-se defensora da inteligência e contra a miséria mental deste satrapa, cujos ventriluquos mandantes ainda serao conhecidos. O futuro é cheio de novidades...
Cavaco Silva (Foto: Divulgação)
Cavaco Silva (Foto: Divulgação)
Tal como se esperava, de acordo com a tradição da democracia portuguesa, o Presidente da República Cavaco Silva indigitou a semana passada Passos Coelho, líder do centro-direita (PSD/CDS), no poder há quatro anos e força política mais votada nas eleições legislativas de 4 de Outubro (38,5%), para formar novo executivo.
Mas fê-lo num contexto em que a possibilidade de renovação do mandato do atual governo se mostra cada vez mais remota.
Tendo perdido a maioria absoluta (28 lugares a menos no Parlamento), a coligação no poder só conseguiria continuar a governar se conseguisse chegar a um entendimento com os socialistas do PS.
Em vez disso, porém, o cenário que se desenha – pela primeira vez desde Abril de 1974 - é o de um entendimento à esquerda, entre socialistas do PS, comunistas do PCP e Bloco de Esquerda, forças que, juntas, têm 50,7% dos votos, e controlam, portanto, a Assembleia da República.
Nestas condições, o chefe de Estado poderia ter evocado os perigos que, no seu entender, uma tal solução encerra e procurado, pela via da conciliação e do diálogo, alguma solução de compromisso. Mostraria assim que estava acima dos seus estritos interesses partidários, enquanto homem do PSD, comportando-se, como é seu dever constitucional, como o presidente de todos os Portugueses.
Em vez disso, Cavaco Silva mostrou-se irritado e até disposto a barrar por completo um governo à esquerda que lhe venha a ser apresentado, criticando nas entrelinhas o PS por não se entender com o PSD e lançando um anátema sobre as forças políticas à esquerda dos socialistas, o que é claramente discricionário e inconstitucional (Bloco e PCP têm, juntos, quase um milhão de votos – 20% do eleitorado).
Aa razões invocadas por Cavaco para esse banimento da vida democrática - o facto dessas forças se manifestarem contra o Euro, criticarem a atual configuração da União Europeia e serem em princípio contra a NATO - só aparentemente têm alguma força argumentativa e mesmo assim só num universo mental imbuído de um espírito de Guerra Fria, completamente ultrapassado.
Basta lembrar que na Europa há hoje forças eurocépticas dentro do próprio Parlamento Europeu e que governos de direita em França chegaram a retirar, durante anos, o país da estrutura militar da Aliança Atlântica. A própria Inglaterra (também com um governo de direita) prepara-se agora para realizar um referendo sobre a continuação ou não do país na União Europeia... Ora nada disso obsta ou tem obstado, como é óbvio, a que as forças políticas que em diferentes países defendem essas posições possam governar.
Muito crispado e com um discurso deslocado, Cavaco Silva acentuou escusadamente o clima de confronto político no país, abrindo, pelos impasses que se antevêem, um perigoso tempo de incerteza. E quase induzindo ele próprio, pela intransigência e o fecho a soluções políticas legitimamente negociadas, a desconfiança dos mercados que invoca para se opor a um governo de esquerda.
Limitado nas suas capacidades por se encontrar em final de mandato e não poder por isso dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas, Cavaco tem opções limitadas.
Que irá fazer se a esquerda – como está agora obrigada -  conseguir apresentar um programa estruturado, que, sem pôr em causa os compromissos internacionais do país, apresente – nos limites orçamentais existentes – uma outra filosofia de funcionamento, uma alternativa realista à austeridade?
Vetar e manter o governo atual em meras funções de gestão, sem orçamento durante meses, até que o próximo presidente convoque novas eleições? Tentar criar um governo da sua própria iniciativa? Tudo situações geradoras de tensão com o Parlamento e por isso perigosamente instáveis. Tudo pior do que aceitar um governo à esquerda, que teria – mesmo que mais tarde venha a falhar em resultado das suas contradições - pelo menos a virtude de inserir no jogo político forças que até agora têm sido marginais ao sistema e que por essa via poderiam temporizar ou moderar as suas posições.
Monstruosidade
A posição confrontacional de Cavaco não passou despercebida na Europa – onde, hoje, o maior perigo vem das forças populistas e ultraconservadoras -  com vários articulistas a mostrarem-se chocados com o radicalismo do presidente português.
O britânico Telegraph, por exemplo, escreveu:
“O senhor Cavaco Silva está efetivamente usando o seu cargo para impor uma ideologia reacionária no interesse dos credores e da União Monetária Europeia, tendo o notável desplante de o tentar disfarçar como defesa da democracia.”
Trata-se – diz o articulista - de uma atitude perigosa, bastando lembramo-nos do que se passou antes na península ibérica e na América Latina. E conclui:
“Os socialistas da Europa enfrentam um dilema. Estão por fim a despertar para a desagradável realidade de que a união monetária é um empreendimento da direita que perdeu o verniz democrático e mesmo que eles se mantenham dentro arriscam-se a verem-se impedidos de chegar ao poder. Bruxelas criou um monstro”
Na mesma linha, a insuspeita Forbes norte-americana escreveu que “a decisão do presidente português mostra que a UE se está a tornar igual à URSS”, acentuando que não é negando a democracia que se constrói a Europa:
"Aqueles que querem acreditar que a sistemática denegação da democracia nos estados europeus acabará por conduzir à criação de uns Estados Unidos da Europa pacíficos e democráticos estão a enganar-se a si próprios. A negação da democracia não pode gerar democracia. Nem paz. Quando o Euro acabar por falhar - como deverá acontecer - a Europa mergulhará de novo no caos. E quando mais tarde o Euro falhar e mais repressivas se tornarem as instituições que o querem manter, mais desastroso será o seu provável falhanço.
Temos que contrariar esta monstruosidade. Antes que ela nos destrua a todos."
Carlos Fino é Jornalista 

A troca de guarda na defesa das empreiteiras, por Elio Gaspari

Imagine-se um cidadão que está com dores no estômago. Vai ao médico, ele lhe receita um remédio, mas a dor piora. Essa foi a situação das grandes empreiteiras que procuraram bancas de advogados no início da Operação Lava-Jato.
Os doutores inventaram a teoria segundo a qual as empresas eram santas, submetidas a extorsões. Depois, disseram que os malfeitos eram coisa de um ou de outro diretor, nunca da companhia. Colaborar com o Ministério Público, nem pensar. Como diria a doutora Dilma, “não respeito delator”. Estavam tratando os clientes com um remédio vencido.
Passou o tempo, mais de uma dezena de ilustres empresários foram para a cadeia, e aconteceu o impensável: Marcelo Odebrecht está na carceragem de Curitiba. A confissão de pessoas e empresas passou a ser comum, e hoje quem está enroscado na Lava-Jato quer pelo menos estudar como a Camargo Corrêa está se desenroscando, graças à colaboração.
O sujeito que estava com dor de estômago foi a outro médico e ouviu o seguinte: o senhor está com um câncer, o que tenho a lhe recomendar é uma quimioterapia, coisa braba, e não há garantia de cura.
As empresas e a turma da tornozeleira da Lava-Jato estão numa situação parecida. Só lhes resta esperar que o juiz Sérgio Moro termine seu serviço. Depois disso, poderão recorrer aos tribunais superiores de Brasília. Será a hora da quimioterapia.
Trata-se de buscar brechas em depoimentos e acusações. Em alguns casos, nada haverá a fazer. Em outros, pode-se tentar a quimio. Por exemplo: um condenado a dez anos em regime fechado pode ter sua pena reduzida para cinco. Passará menos de dois anos trancado, vestirá sua tornozeleira e irá para Angra do Reis.
Isso poderá ocorrer na medida em que os processos seguirem para as instâncias superiores com defeitos estimulados pela popularidade dos acusadores e pela onipotência que se infiltrou na cabeça de alguns deles. Diversas lombadas existentes no caminho da Lava-Jato são públicas e ainda podem ser corrigidas. Por exemplo:
O grampo ilegal encontrado na cela de Alberto Youssef estava ativo em abril de 2014, quando ele a ocupava? Uma sindicância da Polícia Federal diz que não. Um agente disse à CPI da Petrobras que sim.
Há pontos dos depoimentos de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, que não batem com os de Youssef. Também não batem com os de Fernando Baiano, que o acusa de ter escondido US$ 3 milhões.
Marcelo Odebrecht (Foto: Geraldo Bubniak)
Marcelo Odebrecht (Foto: Geraldo Bubniak)
Alguém está mentindo, mas o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal os obriga a dizer a verdade, sob o risco de voltarem para a cadeia. Um procurador chegou a dizer que não se deve mexer em “bosta seca”. Essa doutrina perderá valor ao chegar a Brasília.
A advogada Beatriz Catta Preta administrou os acordos de colaboração de nove acusados. Alguns deles estavam em posições conflitantes no inquérito. Num caso, o do empresário Julio Camargo, o nome do deputado Eduardo Cunha foi omitido na primeira fase e mencionado no depoimento ao juiz Moro. Catta Preta desligou-se de todos os seus clientes e foi para Miami.
Essas lombadas serão insuficientes para desmontar o processo. Servirão apenas para reforçar a medicação quimioterápica de alguns réus. No chute, será possível oferecer a esperança de uma redução à metade das penas de alguns deles.
Como ensinou um velho rábula: “Na primeira instância, juízes e promotores falam, e na Lava-Jato falaram bastante. Nas instâncias superiores, em Brasília, o que foi espetáculo transforma-se numa papelada silenciosa. Nela, só vale o que está escrito”.--Elio Gaspari é jornalista