150728-Banksy2Jornalista britânico que cobriu levantes pós-2011 em todo o mundo aposta: sistema não suportará sociedade conectada em rede que ajudou a criar-Entrevista a Jonathan DerbyshireProspect|Trad.Gabriela Leite/Inês Castilho
 
Ao cobrir, para a TV britânica, a fase mais recente da crise na Grécia, o jornalista Paul Mason alcançou quase-onipresença em seu país: Mason falando com Alexis Tsipras e outros membros do Syriza; Mason em mangas de camisa diante da câmera, diante do banco central da Grécia; Mason desviando de bombas em outro confronto entre anarquistas e a polícia — isso forma parte da iconografia da crise grega para muitos britânicos.

Agora, enquanto a Grécia e o resto da Europa recuperam seu fôlego, Mason retornou para a Inglaterra para lançar seu novo livro: “Post-Capitalism: a guide to our future” [“Pós-capitalismo: um guia para nosso futuro”]. Não é um trabalho de reportagem, mas uma ampla análise histórica e econômica. Inspirada pela análise de Marx sore relações sociais capitalistas, ela vai, no entanto, além disso — de uma maneira que, reconhece o autor, talvez não agrade alguns de seus amigos na extrema esquerda. O livro é uma análise do “neoliberalismo” — o capitalismo altamente financeirizado que dominou a maior parte do mundo desenvolvido nos últimos 30 anos — e, ao mesmo tempo, uma tentativa de imaginar o que poderia substituí-lo.
“Pós-Capitalismo: Um Guia para Nosso Futuro”, de Paul Mason, foi publicado por Allen Lane.
O capitalismo, escreve Mason, é um sistema altamente adaptativo: “Nos grandes momentos de encruzilhada, ele se transforma e muda, em resposta ao perigo”. Seu instinto mais básico de sobrevivência, ele argumenta, “é impulsionar mudanças tecnológicas”. Mas o autor acredita que as tecnologias de informação que o capitalismo desenvolveu nos últimos vinte anos ou mais não são, apesar das aparências, compatíveis com o capitalismo — não em sua forma presente, e talvez nem em qualquer outra forma. “Quando o capitalismo não puder mais se adaptar à mudança tecnológica, o pós-capitalismo irá se tornar necessário”.
Mason não está sozinho ao acreditar que a humanidade está à beira de uma profunda revolução tecnológica, é claro. Ouve-se isso de outras vozes: que falam, por exemplo, sobre a “Segunda Era da Máquina” e a promessa (assim como a ameaça) de máquinas inteligentes e da “internet das coisas”. O que torna singular a análise de Mason é, no entanto, a maneira pela qual ele funde um balanço das mutações tecnológicas do que costumava ser chamado de “capitalismo tardio” com uma tentativa de identificar o que Engels chamou, no final do século XIX, de a “parteira da sociedade”, a classe capaz de liderar a transformação social. Segundo o livro, não será a velha classe trabalhadora, como Marx e Engels pensaram, mas o que Mason chama de “rede”. Ao colocar em contato permanente milhões de pessoas, Mason escreve, “o capitalismo da informação criou um novo agente de mudança na história: o ser humano bem formado e conectado”.
Encontrei-me com Mason em Londres e comecei a entrevista pedindo a ele:
Paul Mason: para ele, "indivíduos em rede"  são um novo sujeito histórico, que substituíram a velha classe trabalhadora do marxismo, e se converteram no que Engels chamava de "parteiros da história"
Paul Mason:  “indivíduos em rede” são um novo sujeito histórico, que substituíram a velha classe trabalhadora do marxismo, e se converteram no que Engels chamava de “parteiros da história”
Pergunta-Descreva, por favor, o modelo “neoliberal”, que segundo você chegou a um ponto de ruptura
Resposta-O neoliberalismo é tanto uma ideologia quanto um modelo econômico. O capitalismo precisa ser compreendido em seu conjunto em cada fase de sua existência. Vivemos o que podemos chamar de capitalismo neoliberal. Este sistema que funciona com um núcleo que opera de acordo com valores neoliberais e uma periferia que não opera. Argumento que o neoliberalismo, como sistema funcional, está em crise porque sua mola central — o amplo consumo financeirizado, combinado com baixo crescimento dos salários — é uma máquina para produzir bolhas e seu estouro. No livro, sustento que uma eventual saída para o sistema (rumar para um info-capitalismo bem sucedido) pode ser viável em certas circunstâncias, mas esta transição é improvável.
Lado a lado com o que você identifica como as características negativas do neoliberalismo (financeirização excessiva e desestabilizadora), também há a revolução tecnológica.
O neoliberalismo foi a forma econômica na qual ocorreram os avanços mais dramáticos da técnica humana sobre a natureza. Em segundo lugar, foi o período no qual países como China e Índia desenvolveram-se de modo surpreendente, um fenômeno que ainda precisa ser compreendido em sua totalidade. Argumento, porém, que esta forma econômica não é mais capaz de conter os níveis do dinamismo tecnológico que conseguiu liberar. Não acredito que o próprio neoliberalismo, eu seus próprios valores neoliberais, seja o condutor da mudança tecnológica. A economista Mariana Mazzicato prova esse ponto: não são apenas o Vale do Silício, o empreendedorismo e o dinheiro dos fundos de hedge que produzem o iPhone — é a Nasa, são as grandes universidades como Stamford.
O que estamos vendo hoje é que a rapidez da inovação não está sendo combinada com implementação de políticas ou evolução de modelos de negócios. Isso impõe uma questão: até que ponto o poder de transformação destas novas tecnologias resultará numa terceira revolução industrial? Eu não vejo isso acontecer sob paradigma neoliberal.
Mas, como você mesmo aponta, a nova tecnologia também foi possibilitadora do neoliberalismo, por ter aprimorado a capacidade de explorar o que é chamado algumas vezes de “capital humano”.
A era Keynesiana produziu a última geração de indivíduos hierarquizados, coletivizados. Eu fui produzido por ela e sei que este mundo acabou. Uma das virtudes de se ter 55 anos é ter visto o novo mundo nascer. Hoje, como Foucault afirma, somos empreendedores do self. A internet permitiu que as massas fossem parte do laboratório social do self. Ela nos permite fazê-lo de uma maneira que nem começamos a entender. Ela criou um novo sujeito humano.
A divergência entre eu e os apoiadores do neoliberalismo é em torno de uma questão: o sujeito humano vai transcender o sistema atual, romper com ele e reformar a sociedade humana? Todas as visões de transformação social têm, a partir de agora, de enxergar o que eu chamo de “indivíduo em rede”. Acredito que as revoltas que narrei em meu livro anterior, Why It’s Kicking Off Everywhere (“Por que está começando em todo lugar”, em tradução livre), são revoltas destas pessoas. Se elas são um novo sujeito histórico, que substitui a velha classe trabalhadora do marxismo, essa é uma grande coisa. É uma grande novidade que devemos buscar compreender.