terça-feira, 30 de junho de 2015

Mandioca, Mulher Sapiens, Brahma, Caneco, Tulipa, Pixulecos e Cambalache, por Elton Simões

Dilma Rousseff, abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (Foto: Evaristo Sá / AFP)Dilma Rousseff, abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (Foto: Evaristo Sá / AFP)
 
Manha de domingo é coisa para ser aproveitada. É presente da vida. Dá a possibilidade de relaxar, ler jornais, ficar em dia, enfim. Sobretudo diante de uma (ou varias) xícara de café.
E é aproveitando este prazer que me encontrei em um café, lendo, após semana corrida, as notícias atrasadas da semana, admirando o verão canadense pela janela e ouvindo tango argentino pelo computador. Mistura talvez estranha, certamente improvável. Eu sei...
Enquanto o fone entrega a voz de Gardel a meus ouvidos, fico sabendo que a mandioca foi o assunto importante na semana na terrinha. Assisto, sem querer acreditar, vídeo presidencial homenageando o tubérculo, seguido de incrível digressão sobre a “Mulher Sapiens”. Felizmente, Gardel, sopra em meus ouvidos, explicação provável:
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“(…) es un despliegue
de maldad insolente
ya no hay quien lo niegue.
Vivimos revolcaos en un merengue
y en un mismo lodo
todos manoseaos…”
Com a memoria inda severamente impactada pela mandioca presidencial, vem mais noticias da lama que parece assolar os pais. Falam de prisões, hipocrisia e cinismo. Mais, uma vez, Gardel parece ter compreendido:
“Hoy resulta que es lo mismo
ser derecho que traidor..!
Ignorante, sabio, chorro,
generoso o estafador!
Todo es igual! Nada es mejor!
Lo mismo un burro
que un gran profesor!
No hay aplazaos ni escalafon,
los inmorales nos han igualao.
Si uno vive en la impostura
y otro roba en su ambicion,
da lo mismo que sea cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizon…
Que falta de respeto,
que atropello a la razon!
Cualquiera es un señor!
Cualquiera es un ladron!”
E, com cenas de cinismo explicito, vem a demonstração de que a mau gosto e a falta de imaginação não poupam nem mesmo as paginas policiais. Falam de Brahma, Caneco, Tulipa e Pixulecos. Triste, mas nada que Gardel ja não tenha explicado:
El que no llora, no mama,
y el que no afana es un gil.
Dale nomas! Dale que va!
Que alla en el horno
nos vamo a encontrar!
E, diante de mandiocas, mulher sapiens, Caneco, Tulipa e Pixulecos, só resta torcer para que as a gente não termine como tango argentino e que, em algum momento, seja possível obter, ainda que com atraso, justiça. Se não, resta apenas aceitar o diagnostico e conselho de que tudo é Cambalache:
“No pienses mas,
sentate a un lao.
Que a nadie importa
si naciste honrao.
Que es lo mismo el que labura
noche y dia, como un buey
que el que vive de los otros,
que el que mata o el que cura
o esta fuera de la ley.”
Elton Simões--Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

Las 300 mejores playas de España y Portugal, por Guillermo Esaín / Belinda Saile / Fernando Hernández Puente

 
El verano ya está aquí. Momento para lanzarse a la playa y disfrutar del mar, de las olas, del sol, del chiringuito, de fiestas sobre la arena... Hay centenares de playas para elegir, solo en España más de tres mil. Hemos buceado en 'El Viajero' para juntar en un mapa las 300 playas y calas que hemos recomendado en los últimos tres años, las últimas, de ayer mismo. Aquí están.
Puedes aumentar el mapa donde más te interese, hasta lograr una detallada imagen de satélite. Cada playa tiene su punto de localización. Pinchando en ellos se desplegará una pequeña ventana con el nombre, una foto y un cartel que invita a "ir a la playa". Si pinchas aquí, llegarás a la información publicada en 'El Viajero'.
Ahora solo falta que busques la tuya. ¡Y a hacer las maletas! 
Pincha aquí para ir al mapa de playas
Hay playas de todo tipo, que también podrás descubrir en nuestros reportajes temáticos: desde las 20 mejores playas nudistas a diez arenales situadas junto a espectaculares desembocaduras de río, pasando por diez playas salvajemente asombrosas. Y para tramos de costa concretos, por ejemplo: calas de Cabo de Gata donde el bañador es opcional, las mejores playas de Andalucía, las playas más asombrosas del Cantábrico o los chiringuitos más molones en las 26 guapas de Sitges.

Jaguar: 'Vem Quem Tem', o disco-entrevista

Rio - Por falta de espaço, tomei coragem para jogar fora uma pilha de elepês que atravancavam o apartamento. Não me servem para nada, a vitrola escangalhou. Mas o primeiro que peguei, ‘Vem Quem Tem’, de João Nogueira, me fez adiar o plano. Jogar um disco desses no lixo é um atentado cultural digno do Estado Islâmico. É de 1975, muito antes do nascimento do Diogo Nogueira. E conta com a participação da patota do ‘Pasquim’: Redi (que fez a capa), Sérgio Cabral (o pai), Albino Pinheiro e eu. Na contracapa, uma entrevista, que transcrevo.
“A gente se conhece há muito tempo e há milhares de litros de cerveja. Outro dia, na inauguração da ala infantil da Em Cima da Hora, em Cavalcanti, nos encontramos e resolvemos fazer a contracapa do disco do João em forma de entrevistim. Tinha um gravador dando sopa, e o papo que saiu foi esse:
Cabral: — Que time é teu?
Nogueira: — Andaraí no teu gramado. Mas no fundo mesmo sou é Flamengo.
Albino: — Você ainda é um cidadão do Méier?
— Vou ficar lá até virar rua.
Cabral: — Diga um verso que gostaria de ter feito.
— “Vamos indo de carona na garupa leve /de um cavalo baio / no clarão da noite...” É do Paulo César Pinheiro.
— Você está cada vez melhor como cantor. A que atribuir esta fantástica melhorada?
— Negócio seguinte: Não sou propriamente cantor, sou é compositor. Quando comecei a cantar tinha um pouquinho de medo de microfone, como todo mundo. Tem cantor que no show é excepcional mas no estúdio embatuca, né? O Adelson Alves me deu umas regrazinhas de dicção e tal, isso no primeiro disco, depois fui aprimorando.
Albino: — Qual é a desse disco?
— Esse é o meu terceiro elepê. As músicas são todas novas, exceto ‘Homem com um braço só’, homenagem que fiz pro Natal da Portela. Na saudade, né? ‘Não tem tradução’, de Noel Rosa, está valendo até hoje, o homem sabia de tudo.
Eu: — Duas homenagens que você presta. Tem mais?
— ‘Mineira’, uma graça que fizemos a Clara Nunes. De parceria com Claudio Jorge, ‘Chorando pelos dedos’, homenagem a Joel do Bandolim, bem presente neste disco. Eu não podia deixar também de me lembrar do Monarco e do Seu Alcides, da ala de compositores da Portela,da qual faço parte com muita honra. Esse samba tem 25 anos, ‘Amor de Malandro’.” (continua)

Muito além das fronteiras, Coluna José Casado

As agruras de algumas empreiteiras extravasaram os inquéritos locais sobre a corrupção na Petrobras. O grupo Odebrecht, por exemplo, agora é investigado em cinco países: Colômbia, Panamá, Estados Unidos, Itália e Suíça.
Na Colômbia, a Agência de Infraestrutura anuncia uma “consulta urgente” ao Conselho de Estado, corte suprema para assuntos administrativos, para que decida se o Estatuto Anticorrupção já é aplicável ao grupo brasileiro, contratado para obras de US$ 3 bilhões.
A lei proíbe o Estado colombiano de negociar com empresários responsabilizados por delitos como “suborno transnacional”, assim como “suas empresas, suas matrizes e subsidiárias”. A inabilitação “será de 20 anos” — diz o artigo 1º do Estatuto Anticorrupção, citado na consulta ao Conselho de Estado.
 No Panamá, a procuradoria-geral confirma investigações sobre o grupo Odebrecht “a pedido” da Justiça brasileira e da ONG Transparência.
O Brasil pediu informações sobre a empreiteira e empresas locais como a Del Sur, suspeita de intermediar propinas no caso Petrobras.
A Del Sur existiu no papel, sob patrocínio do escritório de advocacia Patton, Moreno & Asvat, que representou os interesses da Odebrecht Offshore Drilling Finance Ltd. na emissão de US$ 1,6 bilhão em títulos, em 2013.
Já a Transparência foca em suborno do ex-presidente Ricardo Martinelli (2009-2014), que fugiu do país. Pressiona pelo exame da empreitada de US$ 1,4 bilhão na construção de 13,7 quilômetros do metrô da capital, liderada pelo grupo Odebrecht (55% do consórcio).
A auditoria desse contrato (N° SMP-28-2010) começa amanhã, anuncia a controladoria. Ele havia sido julgado “regular’’ pela KPMG — auditoria privada que aprovou as contas da Petrobras (2009 a 2011), expurgadas em US$ 17 bilhões.
A obra no Panamá também está sob investigação da Procuradoria de Nápoles, por causa das relações do ex-presidente Martinelli com Valter Lavitola, antigo aliado do ex-premiê italiano Silvio Berlusconi. Lavitola dirigiu o jornal “L'Avanti!” (contrafação do antigo "Avanti!", do Partido Socialista). Há três anos reside no presídio de Poggioreale, bairro-sede da Camorra napolitana.
Suas digitais permeiam a lavagem de quase US$ 200 milhões, supostamente propinas pagas a Martinelli. A promotoria acha que Lavitola atuava junto ao ex-presidente como “facilitador” de empresas, inclusive brasileiras.
Por isso, pediu ao Panamá, Brasil, EUA e Suíça para localizar e interrogar colaboradores de Lavitola em várias empresas (duas no Brasil, a Pesqueira S. João da Barra, de Casemiro de Abreu, e a Imobiliária Lagiuva, de Búzios). Entre os procurados, três são brasileiros: Alexander Heródoto Campos, Neire Cassia Pepe Gomes e Danielle Aline Louzada.
Como as empresas de papel de Lavitola têm vínculos com a Bonaventura LLC, de Miami, a Itália requisitou ajuda americana. É o segundo caso de investigação nos EUA, nas últimas quatro semanas, em que aparece o grupo Odebrecht. Dias atrás a procuradoria brasileira anunciou um pedido para rastrear finanças de Bernardo Freiburghaus, cuja prisão foi decretada com base em documentos fornecidos pela Suíça sobre propinas pagas a executivos da Petrobras.
Nunca antes o ilícito local foi tão global.

Operação Lava-Jato: STF recebeu 30 petições sigilosas, por Francisco Leali

BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu na última semana 30 petições que estão tramitando com o mais alto grau de sigilo. No STF eles ganharam o grau de processo oculto, quando não se pode verificar no sistema do tribunal disponível na internet o andamento, nem sequer à existência do processo. As petições ocultas só podem ser consultadas pela Procuradoria Geral da República (PGR) e pelo gabinete do ministro Teori Zavaszki, relator dos casos vinculados à operação Lava- Jato.
Política e Justiça, uma cega mistura (Foto: Arquivo Google)










Segundo pessoas com acesso ao caso, as 30 petições teriam relação com as denúncias feitas pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, em delação premiada e fariam parte das novas diligências já solicitadas pelo Ministério Público Federal, conforme noticiado nesta segunda-feira pelo O GLOBO.
Na primeira fase da operação Lava-Jato, antes de formular os pedidos de inquérito no STF sobre autoridades que haviam sido citadas nas delações de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e do doleiro Alberto Youssef, o procurador-geral Rodrigo Janot tinha remetido 42 petições ocultas. Nas novas petições dizem respeito apenas aos fatos narrados por Ricardo Pessoa.

DINHEIRO E ELEIÇÕES SÃO INCOMPATÍVEIS, por Carlos Chagas

É crime desviar dinheiro da Petrobrás para empreiteiras pagarem propina a políticos e a partidos, visando manter e ampliar contratos superfaturados com a empresa. Mas não será crime, também, candidatos comprarem votos com esses recursos podres para eleger-se, distorcendo o processo eleitoral?
Está na hora de o Congresso rever fundamentalmente as regras do jogo. A Câmara deixou de votar a proibição de empresas doarem para partidos, ainda que não possam mais fazê-lo para candidatos. Como o Supremo Tribunal Federal interrompeu o julgamento da questão, quase um ano atrás, continuamos diante da prática criminosa de eleições compradas. De mandatos adquiridos pelos mais ricos ou pelos que recebem, direta ou indiretamente, através dos partidos, dinheiro para iludir o eleitor.
Dirão inocentes e acomodados que no resto do mundo é assim. Em países como os Estados Unidos, nem mesmo há propaganda gratuita pelo rádio e a televisão, podendo os candidatos comprar tempo a peso de ouro, na medida de suas posses e das doações recebidas. De quem? Das corporações e empresas que lá, como cá, fazem apenas investimentos para cobrar depois da eleição, em termos legislativos e executivos, junto aos que ajudaram a eleger.
Deve-se cortar o mal pela raiz, ainda que não pareça tão fácil quanto iludir o eleitorado com falsas promessas. Porque eleições como as que realizamos exalam mau cheiro. Muita gente vota por ideologia, propostas e preferências capazes de bissextamente ser honestas, mas a maioria do eleitorado deixa-se influenciar pelas campanhas milionárias movidas a dinheiro sujo.
Fazer o quê? Parece difícil encontrar a saída para evitar essa distorção celerada, coisa que apenas se conquistará com a educação do eleitor, a longo prazo. É preciso, porém, começar a tentativa. Será que uma fiscalização profunda sobre os candidatos que fazem do dinheiro, podre ou não, a razão de seus mandatos, limitaria o abuso? Por que não torná-los inelegíveis? Teria a Justiça Eleitoral condições para identificá-los e afastá-los durante as campanhas?
Do jeito que o processo se desenvolve teremos sempre uma representação canhestra. Já se tentou a experiência de bancadas classistas, no passado. Não deu certo porque a compra de votos também chega às categorias e sindicatos. Acresce que modificações necessárias na lei eleitoral serão promovidas pelos legisladores viciados pelo sistema vigente, infensos a mudar de verdade o festival de corrupção. Ainda este mês tivemos prova disso, com a votação da reforma política na Câmara. Imaginar a correção pelo Supremo Tribunal Federal seria quebrar a harmonia e a independência entre os poderes, ainda que para preencher o vazio da omissão do Congresso.
Assim estamos a um ano das eleições municipais e três das eleições nacionais. Tempo sempre haverá para o aparecimento de fórmulas que, senão perfeitas e ideais, ao menos possam significar o aprimoramento. São incompatíveis dinheiro e eleições.

Erro, exagero, imprecisão, por Carlos Brickmann

Joseph Pulitzer, um dos grandes jornalistas de todos os tempos, costumava dizer o que é jornalismo com três palavras: “Precisão! Precisão!! Precisão!!!” Quando assumiu o comando doSaint Louis Post-Dispatch, em 1878, definiu assim a linha política do jornal: “Não servirá a um partido, mas ao povo. Não apoiará o governo, mas o criticará”. Pulitzer morreu em 1911. Sorte dele.
Na guerra partidária maluca e sanguinolenta que o Brasil vive, ninguém pode criticar as decisões do juiz Sérgio Moro sem ser imediatamente acusado de defender os corruptos do governo. Não pode dizer que apesar da estiagem recorde a água continuou a fluir em São Paulo, embora com falhas, sem ser acusado de tucano branco e rico de olhos azuis. Para quem diz que não houve estiagem em São Paulo e que os problemas no abastecimento de água foram causados pela incompetência do governo tucano, houve entretanto estiagem quando o assunto é eletricidade, coisa do governo federal. E, em qualquer caso, todo erro é justificado por algum outro erro cometido por um adversário: a Venezuela prende os opositores sem julgamento, mas em Guantánamo também há presos não julgados, e ficam elas por elas. Quando alguém diz que a Ucrânia foi invadida, a resposta é do mesmo tipo: e os atiradores brancos que mataram negros nos Estados Unidos?
É a frase famosa em ação: “Somos, mas quem não é?”

Nossa opção – a errada
A imprensa engoliu a isca inteira, mais anzol e carretilha:
>> Alexandrino Alencar, até recentemente diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, hoje preso, foi apontado como “ligado a Lula”. Não é mentira; mas, até por força de seu cargo, foi também ligado da mesma maneira a Fernando Henrique, a congressistas, a ministros, a gente de todos os partidos. É a mesma coisa que dizer que Sarney é ligado a Lula. É, como foi ligado a Fernando Henrique, ao general Figueiredo, ao regime militar. E, seja quem for o substituto de Dilma no governo, Alexandrino, ou quem o substituir no cargo, será ligado a ele. Ou isso ou perde o emprego.
>> Um cavalheiro de Curitiba que adora ser penetra pediu habeas corpus preventivo para impedir a prisão de Lula – que, a propósito, nem estava sendo investigado, segundo informou oficialmente o juiz Sérgio Moro. A primeira notícia foi de que Lula tinha pedido o habeas corpus. Até poderia ter pedido, já que não há ilegalidade nisso; mas o fato é que não pediu.
>> O ex-ministro Antônio Palocci foi acusado de ter recebido pagamento por consultoria prestada a empresas privadas durante o período em que exercia mandato de deputado federal pelo PT. A notícia é verdadeira; mas não é notícia, já que não há qualquer proibição legal a isso. Quem considera que um parlamentar não deve prestar consultoria não tem que denunciar nada, tem apenas de propor a mudança da lei com a qual não concorda. Este colunista, por exemplo, acha que esse tipo de atividade deveria ser ilegal. Mas, enquanto não é ilegal, ninguém pode ser acusado por exercê-la.
>> A mensagem do empreiteiro Marcelo Odebrecht a seu advogado, recomendando que determinado e-mail seja destruído, é legalmente confidencial. As conversas entre clientes e advogados não podem, de acordo com a lei, ser interceptadas. O bilhete foi não apenas interceptado como distribuído à imprensa, para ampla divulgação. Isso pode, Arnaldo? A lei não terá sido violada? Se admitirmos que a lei pode ser violada, por que essa e não outras – por exemplo, as que vedam a apropriação de dinheiro público?
>> Imagine o caro colega que, por qualquer motivo, seja preso. Ao entregar um bilhete à Polícia, para que o encaminhe a seu advogado, não passará por sua cabeça a possibilidade de que alguém, ilegalmente, o leia? Escreveria no bilhete alguma proposta de ação ilegal – por exemplo, “destruir um e-mail”? Como ninguém, nem mesmo seus mais duros adversários, imagina que Marcelo Odebrecht seja burro, será que cometeria mesmo essa besteira? Ou estará certa sua versão de que “destruir” não significa sumir com o e-mail (que, aliás, já estava em poder da Justiça, após a busca e apreensão), mas “destruir” a interpretação de que se tratasse de um crime?
Enfim, esta é a cobertura dos fatos que a imprensa nos oferece. Voltando a Pulitzer, há dele uma bela frase a ser relembrada: “Nossa República e sua imprensa irão crescer e cair juntas. A definição do futuro da República estará nas mãos dos jornalistas das futuras gerações”.

O concorrente
O grande rival de Joseph Pulitzer na imprensa americana foi William Randolph Hearst, dono de jornais, revistas, emissoras de rádio, um estúdio de cinema (era amante da estrela Marion Davies, sensação de Hollywood). Hearst, na disputa com Pulitzer, optou pelo jornalismo sensacionalista. No final do século 19, estimulou os Estados Unidos a entrar em guerra com a Espanha para expulsá-la de Cuba. Mandou um grande ilustrador para Cuba com a missão de retratar a violência dos espanhóis contra os cubanos. O ilustrador lhe escreveu que não tinha o que retratar, já que essa violência não ocorria. Hearst respondeu: “Faça os desenhos que eu faço a guerra”.
Entre a precisão de Pulitzer e a imprecisão de Hearst, boa parte da imprensa brasileira fez sua escolha. E não foi só, como Hearst, por decisão editorial: é também, e talvez principalmente, por falta de competência.

Troca-troca
Um grande jornal impresso informa que, na guerra entre motoristas de táxi e o aplicativo Uber, na França, o ministro do Interior pediu à polícia que aprove um decreto contra o Uber. Mais à frente, no mesmo texto, o ministro do Interior ordenou à Polícia que aprove um decreto para proibir o Uber.
Este colunista não sabe se na França a hierarquia é diferente. Mas, em outros países, o ministro não pede à polícia que aprove um decreto. O ministro determina à polícia que tome determinada medida. E a polícia não tem posição hierárquica que lhe permita aprovar ou não um decreto do governo: tem é de cumpri-lo, ponto final, ou arcar com as consequências. Será a lei na França tão diferente? Ou será que a notícia foi feita por algum jornalista sobrecarregado de serviço, que já teve de escrever para o on-line, o twitter, o blog e agora vai para o impresso?

Zoneou
Outra notícia de um grande jornal impresso que deixou este colunista, como diria a presidente Dilma, estarrecido: dois cavalheiros agrediram um rapaz gay em São Paulo, há alguns anos. Agora, como punição, cada um dos agressores foi multado em R$ 21.250 – pena, a propósito, irrisória. Quem pratica violência deve ser contido, deve ficar isolado da sociedade, para não ameaçar a segurança física dos demais cidadãos. Mas vamos à parte notável: segundo o veículo, a pena foi aplicada não por um juiz, ou um tribunal, como costuma acontecer, mas pela Secretaria estadual da Justiça de São Paulo. Sempre segundo o jornal, o secretário concluiu que o motivo da agressão não foi o alegado pela defesa (briga de trânsito), mas discriminação em razão de orientação sexual.
Desde quando secretários de Estado decidem questões criminais, ouvem defesa e acusação e aplicam penas? Terá mudado a lei?
Alguma coisa muito estranha aconteceu neste país. Ou na imprensa.
Carlos Brickmann --Jornalista

domingo, 28 de junho de 2015

O plano oculto de Lula para voltar ao poder, por Juan Arias

Nas últimas manifestações populares brasileiras, um humorista desenhou Lula escondido no meio do povo, gritando “Fora Lula!”. 
Uma charge simbólica e emblemática do que Lula está vivendo desde suas críticas inesperadas a Dilma e ao seu partido, o PT, que ele fustigou tão enfaticamente quanto poderiam fazê-lo os indignados da
Por essa razão, é grande a curiosidade em saber se Lula prepara alguma nova estratégia, já que, como diz no jornal O Globo o catedrático Eugenio Giglio, especialista em marketing político, “ninguém pode acusá-lo de ingenuidade”.
Os meios de comunicação estão convidando analistas políticos a tentar desvendar um possível plano oculto de Lula, o político com a maior capacidade de se metamorfosear e tirar proveito dos tropeços e triunfos alheios, além de seus próprios.
Para entender a possível estratégia secreta de Lula é preciso destacar que, como chamou à atenção o senador Cristovam Buarque, suas duras críticas ao Governo e ao PT não encerraram um mea culpa dele. A culpa seria de quem traiu suas ideias e não seguiu seus conselhos.
Quando lhe foi útil, Lula soube “engolir” a oposição, que ficou muda e paralisada enquanto ele governou como rei seguro de sua força popular
Quando lhe foi útil, Lula soube engolir a oposição, que ficou muda e paralisada enquanto ele governou como rei seguro de sua força popular e seu prestígio internacional.
Hoje, porém, está nascendo uma oposição nova que não é a oposição institucional dos partidos, mas a da sociedade e das ruas. É uma oposição que, desta vez, ameaça a força política de Lula e do PT e que pode criar problemas para os sonhos de Lula de voltar ao poder em 2018.
O que fazer? Há quem assegure que a manobra mais astuta de Lula em toda sua trajetória política pode ser a de voltar à oposição e até de colocar-se à frente desse novo protesto social para metabolizá-lo, apresentando-se como seu líder. Com isso ele voltaria às suas origens de opositor implacável, papel que exerceu durante a maior parte de sua vida.
Lula possui um faro especial para detectar os humores da rua. Ele sabe que está desgastado mas não morto; continua a acreditar que essa nova oposição, que deseja e reivindica um país menos corrupto e corroído pela crise econômica, ainda não tem um líder indiscutível com força suficiente para hastear uma nova bandeira que desaloje a sua.
Que solução melhor que apresentar-se como o novo Moisés, disposto a arrancar seu povo das garras da crise para conduzi-lo a um novo período de bonança? Com suas críticas a Dilma e ao Governo dela e as flechas lançadas contra seu próprio partido, desse modo Lula se uniria à nova oposição que critica os políticos tradicionais e corruptos.
Desta vez Lula não precisaria combater a oposição, já que teria decidido metamorfosear-se em opositor. Assim, é possível pensar que em 2018 os brasileiros insatisfeitos, aqueles que participaram das manifestações contra Dilma e o PT, dificilmente encontrarão outro líder melhor que esse que começou a gritar como eles: “Fora Dilma!” e “Fora PT!”.
Lula continua a acreditar que essa nova oposição, que deseja e reivindica um país menos corrupto e corroído pela crise econômica, ainda não tem um líder indiscutível
Tudo isso é o que se comenta neste momento entre os profetas que tentam interpretar o novo Lula insatisfeito e irritado com os seus e que adverte que está começando a perder sua força original, como o Sansão da Bíblia. Claro que ninguém sabe ainda o que a opinião pública contestatária, que já convocou uma nova manifestação nacional de protesto para o dia 16 de agosto, poderá pensar dessa possível estratégia maquiavélica de Lula.
Sem contar com a caixinha de surpresas do enigmático e severo juiz Moro, em cujas teias Lula já deixou entrever que pode acabar enredado.
Em meio à glória que o rodeava, um dia Lula chegou a comparar-se a Jesus, defensor dos pobres. Mas há nos Evangelhos uma cena significativa que tem relação com isso. Vendo que alguns começavam a abandoná-lo, Jesus perguntou aos apóstolos, que eram seu proletariado ambulante, em sua maioria analfabetos: “Quereis vós também retirar-vos?”. O fogoso Pedro se adiantou e respondeu por todos: “Não, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna”. (João, 6, 67)
Entretanto, na hora em que o Mestre foi condenado à cruz, quando mais precisava de seu apoio, os apóstolos fugiram, mortos de medo. Pedro chegou a dizer: “Eu nem conheço tal homem”. (Mateus 26,72)
A história, até a religiosa e literária, pode às vezes ser mestra e profeta.

Lula: Retrato na moldura de Brizola

Meio atirado já às traças do esquecimento, (estranho até em um país  desmemoriado) transcorreu, domingo, 21/06, o décimo primeiro aniversário da morte de Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul e uma das figuras mais marcantes da política brasileira ao longo de décadas. Goste-se ou não dele, um nome sobre cuja cabeça e memória se encaixam preceitos fundamentais do célebre Decálogo do Estadistas, de Ulysses Guimarães. A começar pela Coragem, primeiro e principal mandamento do homem público. 
Por décadas, o gaúcho de Carazinho foi figura amada e seguida até a devoção por muitos. Temida, traída, atacada e perseguida por outros tantos (com igual intensidade, ou mais). Sempre, porém, legendária personalidade de governante ativo e de administrador capaz em sua geração (protótipo no campo trabalhista - herança da proximidade com Getúlio Vargas; e da Educação, com E maiúsculo -, ao lado de Darcy Ribeiro).
Acima de tudo, Brizola é um nome associado aos maiores e melhores combates políticos, sociais e na defesa de comportamento ético e moral das figuras públicas em geral,  e dos governantes em particular .
Um fato inexorável, jornalística e politicamente falando: No redemoinho insano deste junho de 2015, a justa e merecida celebração da data ficou esmaecida. As pautas e os espaços nas editorias de política, geral e de comportamento da grande, média ou pequena imprensa foram tomados por outros acontecimentos.
A saber: a) As mais recentes "tonterias" da presidente Dilma Rousseff (como qualificam os espanhóis e a gente de língua castelhana na América do Sul); b) as manobras do ex-presidente Lula (pós desastroso Congresso Nacional do PT em Salvador), na tentativa, meio óbvia demais, de se desvincular do PT e da atual mandatária do Palácio do Planalto (mesmo que só momentaneamente, nesta tormentosa hora de escárnio e corda no pescoço). Sem tirar os olhos da sucessão presidencial em 2018, diga-se.
Lembrou, com extrema sensibilidade, o jornalista e escritor Juan Arias, na edição brasileira do jornal espanhol El Pais, a charge que corre nas redes sociais, na qual o ex-presidente da República e fundador do PT, aparece (mal) disfarçado no meio de grande manifestação popular de protesto contra o governo, carregando um cartaz com a palavra de ordem: “FORA LULA!” 
Espaços fartos de imprensa foram destinados ainda: c) À troca das mãos pelo pés do empresário Marcelo Odebrecht, autor do arrogante e complicador bilhete capturado pela PF. O principezinho (das colunas sociais e das reportagens laudatórias até recentemente), manda chuva da megaempresa brasileira com braços multinacionais, fundada na Bahia (ora recolhido em uma cela do prédio da Federal em Curitiba), determina aos seus advogados que destruam provas recolhidas pela Operação Lava Jato .
Pepinaço, no linguajar soteropolitano, por mais que os advogados façam ginásticas mentais para negar ou "interpretar" o verdadeiro sentido das palavras do autor); d) a morte trágica e violenta em acidente de carro, no interior de Goiás, e o enterro de superstar em Goiânia, do músico e cantor sertanejo Cristiano Araújo e de sua jovem noiva. O artista regional, de repente guindado, nos principais veículos noticiosos, ao posto de celebridade de primeira grandeza do Brasil.
E estamos de volta a Leonel Brizola, ao relembrar da sua partida há 11 anos. Irônico, talvez, que isso aconteça nestes dias juninos em que o ex-presidente Lula atravessa uma das etapas mais polêmicas, contraditórias e complicadas de sua trajetória de ex-dirigente sindical, fundador do PT, ex-chefe da Nação, e liderança política sob intenso foco de observação nacional e internacional. Mais complicada, ainda, depois da Operação Lava Jato e seus desdobramentos recentes, conduzidos desde Curitiba, pelo juiz Aldo Moro, a "incógnita do futuro do ex-presidente", segundo Arias, no El País.
Leonel Brizola, no palácio Piratini discursando na rádio pela Campanha da Legalidade, agosto de 1961 (Foto: Museu da Comunicação Hipólito José da Costa)
Leonel Brizola, no palácio Piratini discursando na rádio pela Campanha da Legalidade, agosto de 1961 (Foto: Museu da Comunicação Hipólito José da Costa)
Mas foi Brizola, sem dúvida, quem, durante anos, traçou sobre a moldura brasileira, o retrato mais expressivo, questionador e polêmico de Lula e seu PT e sobre o significado de ambos na vida e na história das últimas décadas no Brasil. Recordo, antes do ponto final, duas pinceladas marcantes da obra. Nos anos 80, o ex-governador cunhou, talvez, a frase mais definitiva sobre o partido saído das lutas sindicais no ABC paulista: "O PT é a UDN de macacão e tamanco. É como uma galinha que cacareja para a esquerda e põe ovos para a direita".
Sobre Lula, anos mais tarde, um trecho definidor, no vídeo que circula na Internet: "Eu cheguei aqui (do exílio) e fui logo visitar o Lula. Me recebeu como um imperador. Dono do ABC. Nós pensamos diferente. O Lula está dentro do sistema, sua mente está dentro do modelo econômico. Como o Fernando Henrique, só que o Lula vem por baixo e o FHC vem por cima. Os dois se acotovelam para executar o mesmo programa neoliberal". Mais não digo, a não ser: que falta faz Brizola!

Lula herda a si mesmo, por Ruy Fabiano

Em sua palestra a religiosos, semana passada, Lula queixou-se do ambiente de ódio ao PT, que teria se instalado no país. Mencionou episódios de petistas vaiados e hostilizados em restaurantes e locais públicos – e até em hospitais.
Esqueceu-se apenas de um detalhe: de que tal ambiente é construção dele próprio e de seu partido, que, no poder, investiram na máxima maquiavélica de dividir para governar.
A fala de Lula deu-se dias após o 5º Congresso Nacional do PT, em que um dos temas era justamente “Um partido para tempos de guerra”. A guerra instalou-se com a posse de Lula, em cujos discursos a constante era o “eles”, as elites (da qual, diga-se, ele próprio e a cúpula do PT fazem parte), contra “nós”, o povo.
Ao adotar o discurso de vitimização do povo, indispunha os setores que o PT contemplava contra o restante da sociedade. Chegou ao extremo, na eleição passada, de tentar indispor São Paulo, que massacrou eleitoralmente o partido, contra o Nordeste.
Não percebia que, agindo assim, criava uma cilada contra si próprio, gerando focos de rejeição entre os não abrangidos pelo seu projeto de poder. A agressão perpetrada pela professora Marilena Chauí, na presença de Lula – que achou muita graça e aplaudiu –, contra a classe média, considerando-a “fascista, ignorante” e “uma abominação”, é um dos momentos mais patéticos desse processo.
Agressão despropositada e politicamente desastrosa, já que a estabilidade política se ancora exatamente na classe média - e por uma razão simples: não se trata de um todo homogêneo; ao contrário, é caleidoscópica, reunindo as mais diversas tendências político-ideológicas. Ao ofendê-la, a professora, um dos ícones do partido, conseguiu a façanha de uni-la – e atirar no próprio pé.
O PT, assim como a esquerda brasileira em seu conjunto, é bem mais classe média que proletário. Foi no ambiente de classe média dos intelectuais da USP e de outras academias que o partido foi gestado, ganhou corpo e chegou ao poder.
Lula é um mito da porção intelectualizada da classe média, que idealiza o operário, como Jean Jacques Rousseau e outros intelectuais europeus do século XVIII idealizaram o “bom selvagem”, a população nativa dos territórios colonizados. O mito é uma construção, um símbolo, não uma realidade.
Lula (Foto: Ricardo Stuckert)
LULA FRENTE E VERSO.....
Nada o desfaz mais rapidamente que a própria realidade. E esta se apresentou, nesta era petista, por duas vias, simultâneas e inapeláveis: a incompetência gerencial e a corrupção. O PT estruturou-se a partir de um discurso moralista, que tinha como palanques a imprensa e as CPIs.
Ali, transmitiu à sociedade – e especialmente à classe média – a convicção de que só a moralização político-administrativa daria jeito no país. Degolou, ao tempo em que era oposição, diversas lideranças políticas, culpadas ou inocentes (pouco importava), tendo em vista a construção de sua própria credibilidade moral.
Enquanto o fazia, ensaiava mensalões nos âmbitos municipais e estaduais onde já era governo. Santo André e Campinas, cujos prefeitos foram assassinados, em tramas políticas gestadas dentro do partido – e ainda carentes de maiores esclarecimentos -, precedem a chegada do PT ao poder federal. Os métodos se mantiveram, se expandiram e saíram do controle.
Hoje, o partido se vê às voltas com a polícia e o Judiciário. Parte de sua cúpula foi à cadeia. Outra parte deve segui-la. O próprio Lula admitiu, nessa mesma palestra aos religiosos, que “o próximo” (referia-se à prisão de seu amigo Marcelo Odebrecht) seria ele. Há dias, o advogado Maurício Ramos Thomaz impetrou habeas corpus preventivo contra eventual prisão de Lula.
Pode ter sido pegadinha, mas o simples fato de levantar dúvidas mostra a que nível chegou a credibilidade do ex-presidente. O PT é vítima do próprio veneno: investiu no discurso moralista e agora é seu principal alvo. 
A delação premiada de Ricardo Pessoa – que poupa Lula – evidencia as conexões criminosas do partido, suas relações incestuosas com as empreiteiras.
O governador de Minas, Fernando Pimentel, um dos políticos mais próximos de Dilma, enfrenta também o Código Penal, com escassas chances de sucesso. Sua vitória em Minas não apenas garantiu a de Dilma como serviu para a tentativa de desmoralização política de Aécio Neves, derrotado em sua própria terra.
O que se vê, no entanto, é que não se tratou propriamente de uma vitória eleitoral, mas de uma bem sucedida operação criminosa. Pimentel corre hoje o mesmo risco de sua amiga Dilma, de não concluir o mandato. O partido, que usou à exaustão a desculpa de “herança maldita”, é hoje herdeiro de si próprio.
Não tendo a quem acusar, Lula acusa sua sucessora, na tentativa de se descolar de um legado que o inviabiliza politicamente. Dilma, a “mulher sapiens”, é obra de Lula, não do PT, que teve que engoli-la. O país que entrega aos brasileiros é bem pior – econômica, política e moralmente – que o recebido das mãos de Fernando Henrique, ainda que este estivesse longe do ideal.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

E tudo graças à mandioca, por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

 Charge do Sponholz (Foto: Charge do Sponholz)                                  (Charge do Sponholz)
Em dois meses, de 24 de abril a 22 de junho deste ano, Luiz Inácio Lula da Silva passou de atleta da terceira idade, cheio de gás e de conselhos para quem quer recuperar a força física, conforme vídeo transmitido pelo Instituto Lula, a um velho amargurado afirmando que em relação à popularidade, ele e Dilma estão no “volume morto”, enquanto o PT está “abaixo do volume morto”.
Disse mais, que já estava velho, com 69 anos, cansado. “Já estou falando as mesmas coisas que eu falava em 1980”.
(A fórmula para o sucesso é: A=X+Y+Z, onde A é sucesso, X é trabalho, Y é lazer e Z é boca fechada (Albert Einstein))
E sugere ao PT: “Renovem sua liderança. Chamem os jovens”.
E num dos momentos mais amargos:
— Eu lembro como é que a gente acreditava nos sonhos, como a gente chorava quando a gente mesmo falava, tal era a crença. Hoje, precisamos construir isso, porque hoje a gente só pensa em cargo, a gente só pensa em emprego, a gente só pensa em ser eleito, e ninguém hoje mais trabalha de graça.
Várias são as leituras que leio dessas palavras do Lula. Mas a que mais se afinou com o que penso é a seguinte: Lula, tal qual um apache no alto da montanha, molhou o dedo indicador e o espetou para o alto para ver de que lado sopra o vento. Sopra contra o PT, portanto a tempestade de areia que se forma no horizonte virá para sufocar o partido. Melhor montar em seu alazão e dar a partida para uma nova corrida. É o que ele está fazendo.
Será que tem alguém que, ao contrário do que eu disse acima, acredita nessa novela fiada pelo fundador do PT? Além, é claro, da bancada do PT no Senado que emitiu nota de desagravo a quem não foi agravado, só agravou?

E de dona Dilma que acha que o Lula, pobre vítima da Imprensa Malvada, de tanto ser agredido, tem todo o direito de agredir, tanto à Imprensa quanto à ela?
A verdade é que ela fez essa declaração depois dos Jogos Indígenas, onde descobriu os poderes da mandioca e da bola feita de folhas de bananeira.

Os poderes da mandioca se espalharam pelo Brasil mais que seus vários nomes: aipim, macaxeira, mandioca. São muitos: no Rio, a carioquíssima farofinha na manteiga; em SP, o bolinho de aipim frito e a sopa de mandioca; em Pernambuco, o bobó de camarão com aipim, o bolo Souza Leão e a deliciosa tapioca; no Paraná, o Barreado... Paro por aqui pois a fome aperta...
Mas não conhecia seu papel como uma das maiores conquistas da civilização brasileira. Nem sabia de seus poderes metafísicos abundantes, ao ponto de permitir que dona Dilma nos desse a infinita glória de corrigir Charles Darwin e introduzir na cadeia da evolução uma nova bípede, a Mulher Sapiens.
Fiquei com uma enorme curiosidade, confesso. Porque será que dona Dilma não quis entregar a bola de folha de bananeiras a um assessor? Preferiu discursar e falar da Mulher Sapiens com a bola embaixo do braço?
Será que uma coisa está ligada à outra?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa--É professora e tradutora

A Arte de Amarildo

http://s2.glbimg.com/58cSe9SipL_UkAeJjRb3nUbttaXXD4DUFfC675R-jpVIoz-HdGixxa_8qOZvMp3w/i.glbimg.com/og/ig/infoglobo1/f/original/2015/06/25/amarildo_-_25-06-2015.jpg

Crise se estende e atinge o mercado de trabalho, por Míriam Leitão

A notícia econômica mais dolorosa é o aumento do desemprego. Atrás de cada número, há uma pessoa, uma história triste. 
A perda do emprego afeta psicologicamente o trabalhador e a família. O orçamento fica menor. É um momento difícil.
Imagem Google
Em maio, o desemprego chegou a 6,7% nas seis maiores regiões metropolitanas do país, alta de 0,3 ponto no mês. 
Há um ano, a taxa estava em 4,9%. As empresas estão cortando custos. A crise se estendeu e atingiu o mercado de trabalho. 
A capacidade dos empresários de manter os trabalhadores está diminuindo. Como os economistas tinham previsto, a crise demora um tempo para chegar ao mercado de trabalho. 
O empregador monitora a economia antes de demitir. É caro qualificar os funcionários e os custos da demissão também são altos. Mas a crise se prolongou. Os empresários, agora, estão ajustando seus custos.
Como a tendência é que os indicadores da economia continuem ruins, o mercado de trabalho deve permanecer fraco no segundo semestre. 

Tradicionalmente, acontece o contrário.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Made in Peru...

Quando os mercados ruem…, por Felipe Amin Filomeno


    Imagem: Diego Rivera, O Homem e a Encruzilhada (detalhe)

Em 1944, foi publicado A Grande Transformação, livro em que Karl Polanyi argumentava que a crescente subordinação da ordem social às forças do mercado tinha efeitos disruptivos, os quais, afinal, despertavam na sociedade uma reação de auto-proteção na forma de regulação do mercado. Para Polanyi, a Grande Depressão dos anos 1930 representou o fracasso do projeto de mercado mundial auto-regulável centrado na Grã-Bretanha, o qual despertou reações progressistas (como o New Deal, nos EUA), mas também reações perversas (como o nazi-fascismo na Europa).
Em 2003, Giovanni Arrighi e Beverly Silver estenderam a análise de Polanyi, mostrando que o “movimento pendular” entre livre-mercado e regulação não era historicamente restrito ao período que vai do século XIX a meados do século XX. Em meados de 1970, como parte de seus processos cíclicos, o sistema-mundo capitalista entrou em uma nova fase de liberalização de mercados. Associada, desta vez, ao declínio da hegemonia norte-americana, esta onda foi orientada ideologicamente pelo neoliberalismo de Hayek e Friedman.
Assim como na primeira metade do século XX, a liberalização da economia pós-1970 despertou reações de auto-proteção na sociedade. Na América Latina, onde esta onda foi vivenciada na forma de programas de ajuste estrutural patrocinados pelo FMI, a reação tomou força após o ano 2000. As políticas neoliberais haviam contribuído para estabilizar a economia (especialmente a inflação), mas seus efeitos negativos sobre o crescimento econômico e a distribuição de renda reduziram sua legitimidade, levando a população a eleger governantes com programas anti-neoliberais. Neste caso, a “auto-proteção” da sociedade assumiu a forma de “social-democracia globalizada” (no Brasil, no Chile e no Uruguai) e de “socialismo bolivariano” (na Venezuela, Equador e Bolívia). A promoção do livre-mercado (que, nos anos 1990, conviveu com oligopólios no setor financeiro e em indústrias privatizadas) foi substituída, democraticamente, por uma maior intervenção do Estado na economia e uma recuperação das redes de proteção social para garantir crescimento com inclusão. Esta auto-proteção progressista não precisa (e nem deve) anular o mercado, mas sim, seguindo os preceitos de Adam Smith, usá-lo como instrumento de governo, para fazer os capitalistas competirem, reduzindo seus lucros ao mínimo necessário para compensá-los pelos riscos do empreendedorismo.
Na Europa, ao contrário, quando a crise mundial manifestou-se agudamente a partir de 2010, os governos — liderados pela Alemanha — responderam com medidas de austeridade fiscal e monetária. Na Espanha, França, Grécia, Irlanda e Portugal, tais medidas desencadearam protestos em massa pelas ruas de suas capitais. A insistência das elites na austeridade como solução única (salvo iniciativas na França de Hollande para fazer com que os mais ricos assumam parte maior do ônus da crise) criou um impasse que arrisca o processo de integração regional da Europa e prolonga a recessão.
Esta situação é solo fértil para a emergência de formas perversas de “auto-proteção” social contra o mercado. Nas eleições presidenciais francesas de abril, o partido de extrema-direita Frente Nacional, representado por Marine Le Pen, obteve seu maior número de votos até então (6,4 milhões, comparados a 5,5 milhões em 2002). Na Grécia, justamente o país mais afetado pela crise, o partido neo-nazista Aurora Dourada conquistou em maio seus primeiros assentos no Parlamento desde o fim do regime militar no país em 1974 (21 das 300 cadeiras).
Para Immanuel Wallerstein, o sistema-mundo capitalista vive uma conjuntura histórica de bifurcação, em que a ação coletiva da humanidade determinará que tipo de ordem mundial teremos no futuro, para o bem ou para o mal. Quando as elites estão dispostas a fazer concessões e movimentos anti-sistêmicos progressistas se tornam os porta-vozes da “auto-proteção” da sociedade, a probabilidade de uma ordem social mais justa e estável aumenta. Por outro lado, quando as elites são reacionárias e movimentos de fascistas, xenofóbicos e intolerantes encarnam a “auto-proteção” contra o mercado, o resultado pode ser desastroso. Se, na primeira metade dos anos 2000, os governantes argentinos tivessem insistido na austeridade econômica e reprimido duramente os cacerolazos e piqueteros, talvez nossa vizinha Argentina teria hoje um governo fascista.

* Felipe Amin Filomeno é doutor em Sociologia pela Johns Hopkins University e Professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina.

O momento Gorbatchov de Lula, por Elio Gaspari

Lula, essa metamorfose ambulante, apresentou-se com uma nova roupa. Dizendo-se “velho” e “cansado”, defendeu uma “revolução interna” no Partido dos Trabalhadores. Quer colocar nele “gente nova, gente que pensa diferente”. Por duas razões, é possível que esteja perdendo seu tempo.
Primeiro porque não está falando sério. Ele diz: “Não sei se é defeito nosso, ou do governo”. Se acha que o defeito pode ser do governo, e não “nosso”, acredita que alguém seja capaz de separar um do outro. Diz mais: “Eu acho que o PT perdeu um pouco de sua utopia”.
Casos como o do assassinato de Celso Daniel, o mensalão e as petrorroubalheiras dificultam e percepção de que o PT tenha perdido só “um pouco de sua utopia”. Com a proteção que Lula e o partido deram aos comissários nos escândalos que hoje os trituram ele perdeu toda a utopia. Pior, detonou as utopias históricas dos grandes contratadores de negócios com o Estado.
Num fato inédito desde que o Marechal Deodoro foi acusado de proteger uma empreiteira, conexões petistas levaram maganos para a cadeia. Os companheiros que prometiam prender empresários corruptos ajudaram a conduzir bilionários simpáticos à sua tesouraria para a carceragem de Curitiba, e foram junto.
O segundo motivo pelo qual Lula pode estar perdendo seu tempo foi exposto ao país no congresso do partido em Salvador, quando o nome do tesoureiro João Vaccari Neto recebeu uma ovação do plenário. A “gente nova” que um dia foi para o PT hoje grita nas ruas para que ele se vá.

Aos 69 anos, a guinada utópica de Lula tem alguns ingredientes da ilusão de Mikhail Gorbatchov quando pensou em rejuvenescer o sistema político soviético. Ele achou que o Partido Comunista tinha conserto.
Felizmente para o Brasil, o PT pode viver sua crise sem destruir o Estado. Como no baralho do regime de Gorbatchov não havia a carta da regeneração, ele acabou como garoto-propaganda das malas Louis Vuitton.
Apesar de tudo isso, não se deve subestimar a metamorfose ambulante. Lula surgiu no cenário nacional emergindo vitorioso de uma greve com a qual pouco teve a ver, a da Scania em 1978. E triunfou nos dois anos seguintes liderando paralisações ruinosas. Já entrou em assembleia tendo feito um acordo com o patronato e, ao sentir o clima de peãozada, renegou o acerto, marchando heroicamente para uma derrota. Saiu vitorioso no fracasso. 
Cresceu a cada um desses lances, chegou ao Planalto e colocou um poste no seu lugar.
Charge (Foto: Amarildo)
A Arte de Amarildo
A primeira eleição de Lula deveu-se em boa parte às suas virtudes. A partir daí, os êxitos do PT deveram-se principalmente às inclinações demofóbicas de seus adversários. Quando Lula surpreende dizendo que tanto ele como a doutora Dilma estão no “volume morto”, a oposição rejubila-se, como se isso lhe bastasse. Esquece-se que até bem pouco, quem estava literalmente no volume morto era o governador Geraldo Alckmin, ameaçado por um racionamento de água em São Paulo.
Depois de dez meses de ansiedade, subiu o nível do sistema Cantareira e o tucano é candidato a presidente.
A guinada e o rejuvenescimento petista são utopias que Lula vende mas não compra. Sua esperança está onde sempre esteve: na demofobia dos adversários.
Elio Gaspari é jornalista

Liberdade, Liberdade.......torne-se Realidade!

As voltas que o mundo dá
Amigo de Lula de longa data, Frei Betto lamentava, ontem, que só agora o ex-presidente reconheceu que o PT “perdeu um pouco a utopia e hoje só em pensa em cargos”.

Em 2004, Betto escreveu o livro “Calendário do poder”, sobre sua passagem como assessor de Lula, quando cuidou do natimorto Fome Zero. Na obra, afirmou que o PT trocou “um projeto de Brasil por um projeto de poder”.

Pecador arrependido...
Outro, digamos, dissidente, o ex-deputado Paulo Delgado, um dos fundadores do PT, diz que também fica contente em saber que Lula, “que vivia em pecado”, voltou a valorizar a “virtude” dos velhos tempos.

Carlos Chagas-- DO ANO DO PINÓQUIO AO ANO DA HIENA

O ano passado será conhecido como o Ano do Pinóquio, tantas as mentiras contadas durante a campanha eleitoral, não se limitando apenas às promessas não cumpridas de Dilma, mas de todos os candidatos.
Imagem Picasso

Neste 2015, porém, o patrono será outro. Por enquanto vivemos o Ano da Hiena, aquela que ri enquanto come cocô. Ninguém escapa.
Começa pelo trabalhador, maior vítima da inflação, que assiste a perda do valor aquisitivo de seu salário, enfrenta o desemprego e a redução de seus direitos. Nada tem que comemorar, mas até agora não explodiu, como seria de esperar. 
O empresário também sofre, em especial o pequeno, sem crédito para expandir seus negócios e obrigado a sacrificar a família levando-a, para trás do balcão. Sem falar na carga de impostos sempre crescente. Certos potentados passam algumas semanas na cadeia, mas basta ver as fotografias, quando são libertados, para concluir que as grades não recuperam ninguém.
A mídia não fica atrás, na medida em que só parcialmente cumpre o dever de informar. Denuncia a corrupção no governo e no Congresso mas omite-se na análise da miséria e da pobreza, sem desmentir presidentes que falam na incorporação de 36 milhões de brasileiros à classe média. 
Mentira ou ilusão, tanto faz, mas vá algum dos barões da imprensa tentar viver com o salário mínimo, como sobrevivem perto de 50 milhões de trabalhadores.
O que dizer do PT, posto em frangalhos pela ação de seus dirigentes empenhados em cargos e empregos, como também em marcha batida para fazer um papelão nas eleições municipais de outubro do ano que vem. E nas de 2018, caso não se dê o milagre da multiplicação do bom senso. Quando foi para o poder, o partido era uma esperança. Doze anos e meio depois, transformou-se numa caverna de frustrações.
A tentação é de fulanizar os risos e a refeição. A presidente Dilma, por exemplo, deu para mostrar os dentes sempre que vê uma câmera do televisão ou comparece a uma solenidade qualquer. Até mesmo diante da agressão verbal que sofreu do Lula, sorriu ao dizer que o antecessor, mais do que qualquer outro, tem o direito de criticá-la. Ignora o que vem por aí, continua pedalando sua bicicleta e mandando, lá do fundo do poço, sorrisos em profusão.
Por último, o próprio Lula, que se não riu nas duas oportunidades públicas em que demoliu o PT e a sucessora, foi flagrado às gargalhadas quando se refugiou na sala de Paulo Okamoto, no Instituto Lula. 
Pior a situação não poderia estar para ele, perdendo para Aécio Neves, nas pesquisas, por mais de dez pontos. Seu apelo à revolução petista e à volta da utopia exprime seu estado de espírito, ainda mais porque em vez de unir, dividiu os companheiros de alto a baixo.
Como ainda faltam seis meses para o 31 de dezembro, outros candidatos poderão manter suas apostas. Que tal o Ano do Rato?

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Juros do cartão de crédito e cheque especial são armadilha, por Míriam Leitão

No Brasil, a taxa básica de juros está em 13,75%. Mas os juros do cartão de crédito chegaram a 360,6% em maio, na média. No cheque especial, os bancos cobraram 232%. São números de agiotagem, nada menos do que isso. É uma armadilha que as pessoas devem evitar.

As linhas de crédito sem análise prévia têm juros punitivos, são feitas para as pessoas usarem como última opção. Todos deveriam saber do perigo de tomar dinheiro com taxas tão altas. 
Mas assusta o fato de o saldo dos juros no cheque especial ter aumentado 10,5%, nos 12 meses terminados em maio. 
No cartão de crédito, o crescimento foi de 13,3%.
É preferível que as pessoas busquem as linhas de crédito pessoal dos bancos, com taxas menores, e usem o dinheiro para quitar as dívidas mais caras. De fato, é para fugir desses juros absurdos. 
Eles vão destruir suas finanças, o seu orçamento. O alerta também serve para os pequenos empresários: juros tão altos vão quebrar o seu negócio.
A Selic está em 13,75%; e a inflação, mesmo alta, está em 8,8%. 
Não faz sentido os juros do cartão de crédito e do cheque especial serem tão altos aqui no Brasil. 
O Chico Pinheiro, nos bastidores do Bom Dia Brasil, me pergunta se em outros países essa enorme disparidade é normal. Não é. A nossa realidade não conversa com o restante do mundo.
É uma anomalia brasileira que a regulação bancária não conseguiu combater. 
O Banco Central fica completamente paralisado em relação ao problema.Ele se recusa a estabelecer um limite. Preferiu aumentar a divulgação sobre as taxas cobradas para que os bancos compitam entre si. O resultado é que as instituições subiram os juros, ao invés de baixar.
A impressão é que houve um tabelamento dos juros pelo teto.

A não vítima, por Eliane Brum

Um homem se apresenta no Facebook dela, psicanalista e escritora. Ele mora nos Estados Unidos, mas é irlandês com mãe brasileira. É viúvo, tem dois filhos, um adotado, já adulto, de 25 anos, e uma adolescente de 13. Trabalha com geologia e faz negócios com petróleo. Tem 60 anos, sente-se sozinho, faz seis anos que se tornou viúvo e busca um amor para dividir a vida. Por inspiração da mãe, começou a buscar perfis de brasileiras no Facebook. Chegou até ela, explica, pelo sorriso da foto. Eles conversam em inglês. O inglês dele é melhor do que o dela, ele a corrige com carinho, a ensina. O inglês dela melhora a cada dia. Tornam-se presentes um para o outro, apesar da distância. 

Ele acompanha o dia dela, ela acompanha o dele. Ele quer saber o que tem para o jantar, como foi o dia de trabalho, como ela dormiu, qual é a crocância do pão no café da manhã, o que a deixa triste ou feliz, do que ela tem medo. Ela, viúva também, com mais de 60 anos, filhos adultos com suas próprias famílias, descobre que se sentia só antes dele. Que, apesar de gostar do seu trabalho, de conviver com vários bons amigos, de ter uma vida rica de sentidos, faltava algo da ordem do essencial. Antes dele, ela tinha aceitado com demasiada facilidade que o amor e o sexo estavam encerrados para ela. Antes dele, tinha sido obediente demais ao sujeitar-se ao padrão social que impõe o envelhecimento da mulher como o fim do desejo – ou como a impossibilidade de despertar paixão. Percebe que lhe faz falta compartilhar o que chama de “o comum da vida”. E agora, a cada noite, ela diz: “Me acolhe nos seus braços”. E ele a acolhe. Ela dorme entre braços imaginários, mas tão reais. E a cada manhã, ele divide com ela o pão com manteiga, o croissant, a geleia de pêssego. Divide também as dúvidas, os sonhos dele de se aposentar em breve para viver outro tipo de vida, o passeio ao zoológico que ele faz com a filha, as demandas da bela casa em que ele vive e que ela já conhece por fotos. Conversas comezinhas, conversas tão importantes. Em determinado momento, ele faz um comentário picante. Gostaria de vê-la preparando o jantar de calcinha. Ela dá uma resposta seca. Ele recua, nunca mais faz nenhuma alusão. É um homem sensível, às vezes é possessivo, ela gosta. É como se ele a conhecesse por dentro, como se a tivesse conhecido desde sempre, porque a compreende. Mas não é um galã. As fotos que ele envia para ela, muitas, são fotos de gente comum, nem tão bem enquadradas, nem tão bem focadas, sempre posadas, como são as fotos de gente comum. Ele é um homem da sua idade, sem barriga tanquinho, sem músculos jovens, com as marcas do tempo, os cabelos brancos, entradas que anunciam a calvície. Como ela, que é bela, mas carrega todas as suas marcas. Ela surpreende-se consigo mesma. Não imaginava apaixonar-se por alguém tão “real” assim. Alguém que envelhece como um homem comum, sem nenhuma excepcionalidade, exceto a de estar presente, de compreendê-la tão bem, de querer estar com ela. E ele quer. Pergunta se ela estaria disposta a mudar-se para os Estados Unidos para tentar uma vida com ele, se seria capaz de ajudá-lo a terminar de criar a filha adolescente. Como ele poderia adivinhar que ela sempre quisera uma filha, mãe de meninos que era? Ela busca algo físico nele, encontra as mãos. Acha as mãos dele lindas, fortes. Mãos de homem. Quer as mãos dele sobre o corpo dela. Agora é mais sério. Ele virá ao Brasil só para vê-la, para descobrirem se o romance virtual realiza-se no concreto dos dias, se a pele responde ao toque, se é possível sonhar com uma vida juntos sem a mediação da tecnologia. Ela conversa com a filha dele pelo telefone. A menina diz: “Eu amo você porque você ama o meu pai”. Ela vai para Paris visitar um dos próprios filhos, e ele já conversa com a sua nora pelo celular. O filho dela está preocupado, questiona, duvida, aponta as incongruências da história. Ela não quer escutar. Cobre os buracos do roteiro com seu desejo de continuar vivendo um romance. Pesquisa hotéis no Brasil, peregrina com as amigas por lojas de lingerie. Ela sabe que a pele já não tem a elasticidade da juventude, que os músculos são flácidos, mas sente-se linda. Abre o provador mal coberta por rendas, sem pudor – onde foi parar o pudor? Pergunta: “Como eu estou?”. Ela sabe como está. Linda. Emagrece quase 10 quilos, já não sai na rua de qualquer jeito, sente-se desejada quando passa. As pessoas já não acreditam que ela esteja na fila certa quando se posta junto aos idosos no banco. Ela está ansiosa. Muito. Antes de vir ao Brasil, porém, ele fará uma viagem rápida à Nigéria, junto com o filho. Vão tratar de negócios de petróleo. Em seguida, virá vê-la. Ela prepara-se para a chegada dele. Imagina várias vezes por dia o momento em que ele emergirá da sala de desembarque do aeroporto. Se ele vai dar um sorriso quando a enxergar. Se arrancará sua calcinha, acertará o fecho do sutiã. Imagina o sexo. Não lembra quando foi tão feliz, tão inteira. No dia da viagem para a Nigéria, ele manda fotos dele de terno, roupas de viagem, uma pasta elegante de trabalho. Envia fotos de vários momentos, ela o acompanha quase em tempo real.
De repente, ele passa horas em silêncio. Ela preocupa-se, pede notícias. Quando ele finalmente responde, está arrasado. Foram assaltados no país africano. Os ladrões levaram cartões de crédito, dinheiro, documentos, tudo. O filho reagiu e está em coma num hospital. Ao final da mensagem, ele pergunta se ela poderia lhe emprestar dinheiro. Só 775 dólares para pagar o hospital e o transporte até o aeroporto. Ela então desconfia. Por que ele não procura a embaixada americana, por que não conversa com seus parceiros de negócios? Ela começa a achar a história mirabolante demais. Ele já tem o nome e uma conta de alguém que o ajuda, explica como ela pode fazer uma remessa de dinheiro do Brasil. Ela percebe que o tom dele mudou. Titubeia. Ele a pressiona, ela não gosta. Quanto mais ele pressiona, mais ela recua. A filha dele manda uma mensagem pedindo notícias do pai, preocupada com a falta de informações. Ela fica ainda mais desconfiada. Não dará o dinheiro, mesmo que isso signifique perdê-lo. O romance acaba. Ao voltar aos Estados Unidos, ele ainda diz para ela. Sua primeira crueldade explícita: “Você não respondeu para a minha filha. Você não tem condições de ser mãe”. Logo depois, o perfil dele desaparece do Facebook.
Ela faz o que poderia ter feito muito antes. Se quisesse. Se realmente quisesse. Pesquisa as fraudes do gênero na Internet. Descobre os blogs e sites brasileiros e internacionais sobre as quadrilhas que atuam no golpe cada vez mais comum. Vê supostas fotos dos criminosos. Vários homens amontoados num cubículo com seus lap tops no colo conversando com mulheres como ela. Mulheres como ela significando mulheres mais velhas e sozinhas, mulheres carentes e por isso mais frágeis, mais dispostas a acreditar no inacreditável. Mulheres já desacostumadas a serem desejadas. Enviando a elas fotos de outros homens, que possivelmente não saibam que são usados para seduzir. Imagens capturadas nas redes sociais, podem ser de qualquer um. Um golpe bem planejado, a vítima em potencial é contatada só depois de uma pesquisa na Internet. Inclusive de suas condições para manter um romance em inglês, o que no Brasil é um indício de pertencer pelo menos à classe média e, portanto, ter algum dinheiro guardado ou acesso à crédito. Para cada uma delas um perfil de homem, em imagens e história de vida, uma proposta que já sabem esperada por aquela mulher tão meticulosamente analisada. Para cada mulher uma abordagem, uma forma de se comportar, um rosto e uma personalidade correspondentes às fantasias dela, um enredo adequado àquela que expõe – pode ser mais ou menos, mas expõe – um pouco de si a cada dia nas redes sociais.
Ao seu redor, amigos e familiares não acreditam como ela, uma mulher tão inteligente, tão vivida, tão bem sucedida, tão conectada ao mundo, pode ter caído num golpe. Um golpe assim era para outras, não para alguém com seu perfil. Ela lê depoimentos de mulheres como ela que foram muito além dela, mulheres que perderam milhares de dólares que haviam economizado ou mulheres que se endividaram para manter o roteiro amoroso vivo. Lê entrevistas com supostos criminosos que contam como o esquema funciona. Naquela noite vê fotos dos quadrilheiros, que assume como reais – podem não ser, como as do amante não eram, mas ela acredita que sejam. Se antes acreditou no romance, agora acredita na fraude. Fica mal. Bem mal.
É a sua noite de vítima. “Eu os identifiquei com ratos. Parecia que ratos andavam sobre o meu corpo. Eu expus tanto a minha intimidade, e era para aqueles homens das fotos na Internet ou outros como eles. Um ao lado do outro, sentados no chão, falando com mulheres como eu. Me expus não com fotos da minha nudez, porque não faria isso, mas de forma muito mais profunda do que isso. Passei a noite encolhida, com os ratos sobre o meu corpo.”
É o segundo capítulo da vítima. A enorme vergonha de ter caído numa história como essa, que agora para todos aparece claramente como uma fraude desde sempre. E o discurso que corre por baixo, o discurso social. Nem sempre pronunciado, mas presente: “Então você achou que, aos 50, aos 60, um homem iria se apaixonar perdidamente por você?”. Agora é oficial, você não só é uma vítima, mais pobre e mais endividada depois do golpe, mas “uma mulher velha e burra”. E como espernear contra esse encaixotamento imposto às mulheres, depois de ter se entregado a um homem que jamais existiu? Depois de estar se sentindo uma “mulher velha e burra”? De intuir que se sentirá uma “mulher velha e burra” para sempre? É a aniquilação final.
Não necessariamente, porém. Pode ser. Ou não.
Essa é a parte mais interessante. Quando nos encontramos, ela queria denunciar o golpe sem se identificar. O desejo que me anuncia é o de que outras mulheres sejam alertadas para a fraude. É um desejo comum, eu o escutei muitas vezes. Há as vítimas que se calam por vergonha (ou por medo, no caso das que são violadas e espancadas). Essas ficam presas no lugar de vítima, precisam de ajuda para romper com o silêncio de algum modo e sair do lugar que as condena à imobilidade. Ou permanecem para sempre como estátuas aprisionadas num gesto que estanca a vida. Mesmo quando o ato que as vitima cessa, elas continuam vítimas, porque não conseguem dar sentido ao vivido e se inventar de outro jeito. Acreditam que só sabem ser vítimas, que vítima é tudo o que são. Agarram-se a essa identidade como se fosse a própria pele porque, por mais incômoda que seja, estão lidando com o conhecido.
E há aquelas que rompem com o lugar da vítima denunciando, seja à polícia, seja a outras mulheres, à imprensa, ao mundo inteiro. Criam um blog ou uma ONG, algumas passam a perseguidoras de seus algozes, outras ajudam mulheres que passam por experiências semelhantes a sair da paralisia. Essas deslocam sua posição no jogo. De certo modo, continuam identificadas com o vivido, que determina suas escolhas dali em diante, mas pelo avesso e de forma ativa. A pele de vítima já não as veste.
Conversamos por duas horas e meia. Conheço o seu nome e o seu trabalho, mas é nosso primeiro encontro ao vivo. Ao escutá-la, percebo que ela teve o seu momento de vítima, a noite dos ratos. Era necessário que assim se reconhecesse, porque foi efetivamente enganada. Era um fato. E não se nega os fatos. Mas, em seguida, é necessário dar sentido a eles. Sem isso, o lugar de vítima se cristaliza. Em vez de uma mulher complexa, com suas perdas e seus anseios, haverá apenas um arremedo dessa mulher, o da vítima que jamais supera sua condição. Sem criar sentidos que permitam seguir adiante, seria preciso acreditar na versão de quem tentou extorqui-la, a de que é uma “mulher velha e burra” que acredita em qualquer coisa, inclusive que pode ser amada e sexualmente desejada, apesar de não ser jovem nem ter um corpo de passarela.
Aceitar essa versão como a única verdadeira tem roubado algo muito mais importante do que dinheiro das mulheres que caem nessa fraude. Aceitar essa versão é cimentar o olhar social que permite que fraudes como essa aconteçam. É deixar-se enquadrar numa cultura que oprime as mulheres com o mito contemporâneo da eterna juventude. É acatar a ideia de que marcas e beleza não são compatíveis, de que desejo, paixão e sexo são prerrogativas limitadas pela idade.
Ela, não. Ela desfere um contragolpe.
Já não estou diante de uma vítima. Pergunto a ela: “Se você soubesse o que sabe agora, que esse romance é uma fraude, preferia não tê-lo vivido?”. Ela não hesita: “Preferia ter vivido tudo o que vivi. E ter parado exatamente onde parei. Ele me deu muito”.
Não é uma ilusão. Por paradoxal que pareça, ela ganhou muito. Enquanto viveu o romance, ele era real. O homem, que hoje sabemos que não existe, era real. Essa realidade a resgatou, dia a dia, de uma vida menos viva. “Eu precisava do olhar do outro. De um homem que não corresse quando eu dissesse a minha idade, que me lembrasse de que sou desejável, que me lembrasse principalmente de que quero compartilhar não o extraordinário, mas o comum da vida. Quero ter alguém comigo dividindo o café da manhã, compartilhando as experiências do cotidiano e também arrancando a minha calcinha. Estou aberta para isso e antes não estava. Ele me devolveu algo que estava anestesiado em mim. Às vezes era tão forte essa percepção que sentia como se tivesse voltado a ovular. De certo modo voltei, não biologicamente, mas de uma maneira mais profunda. Antes eu me sentia só um corpo mais flácido do que na juventude, um rosto marcado pela idade. O olhar dele foi o espelho onde eu pude me enxergar muito além disso, pude me enxergar como uma mulher, na inteireza do que é ser uma mulher. Ele não existe? Talvez seja um coletivo de pessoas conversando comigo para me extorquir depois? Mais um golpe sórdido? Não importa. Porque esse olhar sobre mim mesma ninguém pode me tirar, esse olhar agora é meu. Seja lá quem for, me despertou, me ajudou a resgatar a minha integridade como mulher, como pessoa, o muito mais que eu sou para além de um corpo que envelhece. Nesse sentido, sou muito grata.”
Para ela, talvez o conselho a outras mulheres seja: “Caia no golpe, acredite, mas não pague”. Mesmo os 700 dólares, que seria só o início da extorsão, seria um preço baixo a pagar pelo que recebeu, caso tudo se resumisse a uma troca de mercado. É uma brincadeira, claro. Para que ela possa manter a realidade do que viveu, mesmo depois de saber que se tratava de uma fraude, era preciso que fosse real em algum momento. O amor que viveu, mesmo depois de comprovado o golpe, é real no que nela produziu de realidade. Sob esse olhar, o maior lesado foi o golpista, que não viveu nem o amor, nem recebeu o dinheiro.
Se o golpe só funciona porque a sociedade ocidental determinou que mulheres deixam de ser desejáveis ao envelhecer, a maior perda seria não financeira, mas acreditar nessa construção social como uma verdade totalizante. Talvez essa seja a fraude maior, aquela que arranca dessas mulheres, dia após dia, algo muito mais caro do que dinheiro. Arranca-lhes uma dimensão da vida. Para esse crime não há polícia, não há quadrilha, não há materialidade. Para esse crime só existe a resistência, a não capitulação de cada uma.
Para esse crime há o que ela fez: o contragolpe. Ela mostra as fotos do homem que para ela agora é um ex-namorado, de uma história de amor que deu certo por algum tempo e acabou por razões bastante heterodoxas. Ela ainda está se despedindo dele, por isso as fotos continuam no celular. “Olha essas mãos, olha esse peito”, comenta. Eu não vejo nada que despertaria meu desejo, aquele homem não diz nada para mim. De certo modo, não é assim o amor? Uma verdade apenas para aquele que o vive, que vê no objeto do amor o que ninguém mais vê? O outro não é, em certa medida, uma construção, uma realidade particular daquele que ama, como mostra Ela, o brilhante filme de Spike Jonze?
Ela me parece bem. E uma mulher tão bonita.
Entre as mudanças que o romance produziu nela, está a de se descobrir capaz de se apaixonar por um homem possível. Não um padrão de beleza, não um cara mais jovem, um homem da sua idade, com sua bagagem particular de derrotas, perdas, desejos e sonhos. Passado, mas também presente. De novo o paradoxo: o homem que era uma fantasia a ensinou a acolher o homem real.
A cada vez que ela sai de casa, agora, arruma-se pensando que pode encontrar esse companheiro possível. Sem esquecer, jamais, que amar é um risco. Não só o da fraude, que ela acabou de viver, mas um risco ainda maior, que é o de não ser uma fraude. O de se arriscar ao outro, a ser alcançada por um outro. Um risco fascinante, que agora ela voltou a achar que vale a pena.
Quando nos despedimos, ela se preparava para pegar um avião para passar o dia com um velho amigo, um com o qual sabe que não viverá uma história cotidiana, mas que poderia abraçá-la naquele momento. Enquanto aquele, que ela ainda não conhece, estava atrasado para o café da manhã, depois de tanta expectativa ela achava que poderia ser bom ter um homem que simplesmente lhe arrancasse a calcinha. Ele havia lhe dito: “Venha, os ipês floresceram”.
Há alguns dias, recebi uma mensagem dela: “Os ipês, exatamente, não vi... Mas voltei florescida”.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista

Outras noites de São João: a festa que veio das celebrações pagãs da Europa, por José Manuel Abad Liñán


    São João de Aracaju. / Marcos Borges/ Prefeitura de Aracaju
A noite de São João, que espalha festas que vão da Espanha e Portugal ao Brasil, é fruto da cristianização de um rito pagão, a chegada do solstício de verão no hemisfério norte. 
A partir dessa data na Europa, o sol começa a baixar no horizonte (os dias começam a ficar mais curtos lentamente) e, para ajudar a estrela nesse transe, o astro é aquecido com as fogueiras. Foi essa tradição que os colonizadores portugueses trouxeram para o Brasil, onde se enraizou e se misturou com as festas e instrumentos locais.
Essa não é a única tradição ligada a um evento astronômico, diz Juan Antonio Belmonte, cientista do Instituto de Astrofísica das Ilhas Canárias (Espanha) e especialista em arqueoastronomia, a ciência que estuda o uso da astronomia nas culturas antigas:
 "As Cruzes de Maio também têm origem pagã e astronômica e estão vinculadas à antiga tradição celta de Beltane ou Bealtaine, no início de maio, que festejava o auge do verão. No calendário atual, as estações são divididas de forma diferente da dos celtas, provavelmente também como se fazia no mundo celta hispânico, para os quais o verão começava no início de maio e não com o solstício", destaca o pesquisador.
Por quê? "Ao contrário de nós, os celtas celebravam o momento culminante de cada estação, não seu início." Assim, o auge do outono, chamado de Lugnasad, coincidia aproximadamente com a festa da Virgem de Agosto, em meados de agosto; o do inverno, em novembro (Imbolc, a atual festa de Todos os Santos); e a comemoração da primavera era próxima da atual Candelária, conhecida como Candlemas, no início de fevereiro. "Quatro das festas cristãs mais importantes são, na verdade, festas pagãs" relacionadas com eventos astronômicos, disse o especialista. "Do ponto de vista de horas de sol, especialmente no centro e norte da Europa, faz sentido celebrar o verão de maio a agosto, que são os dias mais longos do ano", diz.
O Natal é o exemplo mais evidente de cristianização de um evento astronômico. "Comemora-se o nascimento do Sol Invicto, o solstício de inverno. Na Bíblia, não há nenhum registro de quando Jesus nasceu, mas diz-se que em torno do portal havia ovelhas pastando. Isso era impensável na Palestina em dezembro; as ovelhas estavam nos estábulos", diz o pesquisador Juan Antonio Belmonte. Jesus de Nazaré teria "nascido na primavera ou no verão, mas em um determinado momento o papado estava interessado em cristianizar um dos marcos mais importantes do calendário pagão". Essa data também coincidia com a comemoração do nascimento do deus Mitra, uma das duas religiões mais populares no século III e IV, curiosamente com o seu grande rival, o cristianismo.

Solstício de inverno no hemisfério sul

Nessas mesmas datas, Peru, Equador e Colômbia comemoram o Inti Raymi, uma festa de adoração ao deus Sol inca, Inti, que marca a chegada do solstício de inverno no hemisfério sul.
"Era uma festa em decadência, mas devido ao interesse turístico nos últimos anos o deus Inti voltou a passear pela cidade. Em Sacsayhuamán [esplanada ao norte de Cuzco, Peru], realiza-se um festival com danças típicas", diz Belmonte.
É preciso ir ao Japão para ver outra tradição ligada aos solstícios. A religião oficial do país, o xintoísmo, homenageia sua deusa do sol Amaterasu, considerada uma antepassada da família imperial. "A cada 20 anos, um templo completamente renovado é inaugurado para a deusa na cidade de Ise. Os destroços dos templos anteriores são espalhados por todo o país como relíquias."
Embora Belmonte não estabeleça um vínculo entre as duas tradições, no cristianismo existe um ciclo com duração muito semelhante: o chamado ciclo metônico, de 19 anos, usado para definir a data da Páscoa de Ressurreição.
Sua definição parece típica de um trava-línguas: "O Domingo de Glória é o primeiro domingo após a lua cheia, sempre depois do equinócio da primavera e que não termine em domingo. Por isso é sempre lua cheia na Semana Santa”.
Sabe-se que as civilizações desaparecidas davam muita importância às mudanças das estações. "Não há registros da época pré-histórica, mas temos monumentos que indicam que as culturas conheciam o solstício de verão. Stonehenge (UK) é um exemplo." Mas "é importante indicar que não se trata de um observatório", mas um lugar de comemoração, de controle mágico da natureza. Para Belmonte, o cromlech inglês é "um templo funerário que inclui orientações astronômicas, como as pirâmides do Egito".
É preciso esperar os gregos para encontrar os primeiros observatórios: "Foram os primeiros a observar o céu com objetivos científicos, embora os egípcios e babilônios já olhavam para o céu com senso prático para estabelecer relógios estelares e medir o tempo; observavam o céu para estabelecer calendários mais ou menos regulares". O instrumento astronômico mais antigo registrado é a máquina de Anticítera, descoberta entre os destroços de um naufrágio. Graças a uma tomografia em camadas "sabe-se que é um dispositivo que permitia calcular as órbitas planetárias e as horas de uma maneira relativamente precisa", diz o pesquisador. "Os gregos no período helenístico conseguiram criar instrumentos avançados de observação."