terça-feira, 28 de abril de 2015

El Árbol de Guernica --A Arvore da LIBERDADE (filme)

Saiba mais aqui---http://es.wikipedia.org/wiki/%C3%81rbol_de_Guernica          

   

Palavras falam além da conta, por Tânia Fusco

Comentario meu---Dona Gramatica deve estar feliz com este texto. Quem lêr, devagar e pensando no exposto/escrito, também. Obrigado Tânia! E.T./O "negrito" abaixo é meu.

------------------------------------------------------xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx---------------------------------------

O beijo é coisa poderosa e, bem dado, delicioso. (Há quem defenda que até mal dado é bom. Há controvérsias.) Nos dias de hoje, pode gerar uma confusão dos diabos, até causar boicotes a uma novela, obrigada a mudar a trama por questão de sobrevivência.

O beijo em questão, claro, é o que abriu a novela Babilônia, da TV Globo, quando um casal senhoronas – Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, no caso – manifestaram seu amor de ficção em horário nobre.
Aquele beijo causou. E, na semana passada, tanto tempo depois do ocorrido, incendiou o programa Na Moral, que, ao seu estilo, discutia limites da TV e seu papel no enfrentamento de preconceitos, nas mudanças de comportamento.
Ferveu. Um pastor berrou sua indignada ira cristã (?), particularmente contra novelistas, que, disse, por serem homossexuais, tentam impor seu modelo – errado e pecaminoso - à sociedade. Aff! Imagina se o tema fosse aborto...
Em outro estúdio, uma família “comum”, participava do programa, representando famílias comuns brasileiras. Dali saíram meneios de desaprovação e palavras dessas que falam além da conta. E revelam mais do que está sendo dito. E negado.
Jovem senhora membro da tal família, de boa verve, contou que eles têm parentes homossexuais com os quais convivem muito bem e com todo o respeito, mas resalvou: “O que não pode é afrontar a gente”.
Beijos entre homossexuais, que “até são respeitados” como tal, afrontam. Entendeu? A diferença, se for só sabida, é tolerada. Explicitada até em beijos, afronta. Não é que a pessoa tenha preconceito... É só que ela não quer ver “aquilo”. Ficou claro?
Desligar o botão da TV ou mudar de canal, nem pensar.
Vários membros da família explicaram a diferença entre saber e ver. A jovem senhora, neta da matriarca – também presente e muito mais aberta às mudanças -, antes havia indagado: dizem que a sociedade já aceita isso, pergunto: qual sociedade? Porque “todos que eu conheço” não aprovam essas coisas.
Entendeu? O grupo que aprova não é sociedade. O que desaprova é. Falas de intolerância explícita.  Se eu não aprovo, não pode existir. Os que desaprovam “têm que” dar o limite do que, embora exista, não deve ser mostrado. 
No dicionário isso é definido como hipocrisia. Quem defende a hipocrisia é hipócrita. Será que os que mais tolerantes podem dizer: aquela parte da sociedade é hipócrita?
Ou o pastor, do “todos” que não aceitam afrontas GLSBT, vai excomungar os que nem sociedade são. Só uns bárbaros, despudorados, desavergonhados, corruptores da moral e dos bons costumes. Corruptores da boa família brasileira.Hipocrisia (Foto: Arquivo O Globo)
Em outro universo e noutra vertente, no fim de semana, o presidente do PDT, Carlos Luppi, ex-ministro de Lula e Dilma, foi claro: “A gente não acha que o PT inventou a corrupção, mas roubaram demais. Exageraram.” (A frase aqui é literal).
Entendeu? O problema não é a corrupção, que existe e, “todos” – até os que nem são sociedade - sabemos, nem foi inventada pelo PT. O problema é o exagero. Foi demais. Acima do tolerável. Pegou pesado. Extrapolou.
É a quantidade que pega. Entendeu? E essa da Petrobrás foi acima da média nacional em todos os tempos. Nunca antes na história desse país “exageraram” tanto.
O bode na sala é a quantidade. Não fosse isso... 
Corrupção? Essa aí, de tão velha, já caiu em domínio público. Tá tombada. Afinal, nem se sabe quem inventou.
E pequenininha – feito molhar a mão do guarda para escapar da multa, sonegar um impostinho aqui outra ali – não é crime. E não está em questão.
Nem pecado é, avaliaria o pastor, que também nem é homofóbico, segundo bradou lá no Na Moral. Só não pode aceitar homossexuais em novelas. Ainda por cima, com beijos na boca.
Isso, convenhamos, afronta a família que, determinam escrituras sagradas, deve estar centrada exclusivamente em um homem e uma mulher. Fora disso é treva.
Vale o mesmo para o caso Lava Jato. O que pega é o montante. Demais, afronta. Entendeu? Ou quer que desenhe?
Hipocrisia? Nem sei o que é isso...
Segundo o Aurélio, apenas um substantivo feminino, que significa:
1. Afetação duma virtude, dum sentimento louvável que não se tem.
2. Impostura, fingimento, simulação, falsidade.
3. Falsa devoção.
Tânia Fusco--É jornalista, mineira, observadora, curiosa, risonha e palpiteira.


'É cuspe e giz' , por ANTÔNIO GOIS

Relato de professor que voltou à sala de aula após 20 anos revela realidade nua e crua de uma escola estadual

"Sou formado em Física, com licenciatura, mas trabalho em outra área. Sempre estudei em colégios e universidades públicas. Percebendo a carência de professores no estado, me inscrevi no cadastro de contratações temporárias. Ano passado tive a oportunidade de lecionar em dois colégios estaduais. Tenho observações a fazer que representam o olhar de um cidadão que deseja cooperar."

Assim começava um e-mail recebido pela coluna, enviado por um professor que ficou mais de 20 anos afastado da sala de aula. Ele queria contar mais de sua experiência, e marcamos um encontro. Pediu que seu nome, bem como o das escolas onde atuou, não fosse divulgado. O objetivo da publicação de seu relato pessoal aqui não é generalizá-lo, pois é certo que há muitas realidades no ensino público. Mas é uma história, como tantas outras, que merece ser ouvida:

"De início, senti muito entusiasmo. O salário era baixo, mas não estava ali por isso. Já no primeiro encontro com o diretor, me assustei com uma pergunta: 'o senhor vai mesmo aparecer, não é'? Ele explicou que o último que veio para dar aulas de Física se apresentou no primeiro dia e nunca mais voltou.

"No primeiro contato com o outro professor de Física da escola, perguntei qual o livro utilizado. 'Nenhum', respondeu ele, explicando que as obras ficavam guardadas num armário porque os alunos 'não queriam carregar os livros para casa e não havia como distribuí-los e recolhê-los a cada aula'. Comentei que pretendia preparar uma aula no Power Point, para deixá-la mais dinâmica. Com certa incredulidade, meu colega respondeu: "Se quiser, pode fazer". Mas o diretor me incentivou. A escola possuía um excelente equipamento de data show, que não era preciso reservar com antecedência, porque poucos usavam.

"Tentei fazer algo diferente, mas fui percebendo que não seria fácil. Vi que, mesmo no ensino médio, os alunos não haviam aprendido conteúdos que já deveriam ter sido ensinados no fundamental. O problema era comum aos colegas de outras matérias. Pedi ao diretor para ver as provas do último professor. As notas, com poucas exceções, variavam de zero a um.

"Ao longo do ano, vi vários alunos em sala usando fones de ouvido, celulares, interrompendo constantemente a lição. Testemunhei até agressões físicas. Sentia que os jovens não me viam como aliado para aprender, mas como um obstáculo a ser superado na obtenção do diploma. Mas como seriam aprovados se nada sabiam e, principalmente, não faziam nenhum esforço para aprender? Se as provas apresentavam resultados tão ruins, os índices de reprovação deveriam ser enormes. Disse ao diretor que não teria condições de aprovar a maior parte da turma. "Pelo amor de Deus, professor, o que será desses alunos?", respondeu ele.

"Fui percebendo como todos davam um jeitinho de driblar a falta de conhecimento. Notas em trabalhos de pesquisa feitos em poucos dias... Projetos sérios nem pensar, pois eles não queriam se engajar em nada. Os próprios estudantes apontavam a solução: 'Professor, quando o senhor vai dar um trabalho? Uma coisa pra gente fazer em casa...'

"Aprovação sem mérito desqualifica o diploma. Por outro lado, o diretor tinha razão, reprovar em massa parecia um desastre. Assim, ante a inevitável incapacidade de despertar o interesse dos alunos em aprender com o crivo dos testes, sucumbimos todos.

"Ao entrar, no fim do ano, na sala de professores com um calhamaço de pesquisas sob o braço, encontrei o mesmo professor que me recebera com desconfiança. Sem conseguir disfarçar o sorriso irônico, ele comentou: 'Viu, professor? Com esta clientela, não adianta: é cuspe e giz!'

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Charge Chico - O GLOBO

Charge (Foto: Chico Caruso)
Imagem Chico CARUSO

Vai acabar dando bode, por Elton Simões

Capra aegagrus ou capra hircus. Segundo a Wikipédia, estes são os nomes oficiais do animal que, recentemente, parece estar na moda. Para os mais íntimos se referem a ele como bode.

O famoso bode Ioiô, que viveu na cidade de Fortaleza do início do século XX,  foi imortalizado ao ser empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará, logo após sua morte, em 1931 (Foto: Museu do Ceará)

O famoso bode Ioiô, que viveu na cidade de Fortaleza do início do século XX, foi imortalizado ao ser empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará, logo após sua morte, em 1931 (Foto: Museu do Ceará)

O proverbial bode tem habitado assiduamente salas de todo tipo. E tem funcionado. Uma vez no recinto, o bode trata de criar artificialmente problemas que desviam a atenção sobre o problema mais difícil e para o qual não se quer dar solução. E funciona.
O fato é que, reduzir as expectativas a simples expulsão do caprino torna a solução simples, rápida e errada. Mas o fato de a solução ser mais simples, não implica que os efeitos de longo prazo sejam desprezíveis.
Talvez o pior efeito do bode na sala seja a redução das expectativas e ambições. Com o bode na sala, os objetivos são modestos, medíocres ou simplesmente desimportantes. O que seria normal, enfim, é comemorado como grande vitória. É desta maneira que o povo que vaia até minuto de silencio agora comemora até publicação de balanço.
Mas embora o bode não tenha causado o problema, é natural que os poderosos de plantão queiram sempre eliminar as próprias culpas. E, para isso, o nosso proverbial caprino é sempre o candidato de plantão. Fabricar bodes expiratórios não requer sacrifício ou esforço. Basta flexionar o dedo indicador. O bode expiatório preferido nos últimos anos, não parece ter nome definido. São apenas “eles”. E, dizem, faz parte da elite.
Nestes dias em que, parece, o piloto sumiu, tudo parece se resumir ao aperto do cinto.  Ficar zangado, de cara amarrada, mal-humorado é normal. Amarrar o bode é esperado, mas não resolve. O bode, coitado, não tem nada a ver com isso.
Mesmo sabendo que para quem gosta, catinga de bode é perfume, convém não abusar. Existe um limite parar bodes na sala e bodes expiratórios.  Paciência tem limite. E enganação tem preço.
Sem solução, a presença ostensiva do bode proverbial no dia a dia nunca acaba bem. Traz confusão, gera complicação, atrai encrenca, perturba a ordem. Dá bode, enfim.

Elton Simões-Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD).

Lula e seu destino, por Ricardo Noblat

Nem sempre o mais simples é o mais certo. Mas com frequência é. Por que Lula se exibe em um vídeo postado na página do seu instituto onde aparece suado fazendo ginástica?

Ora, para dar o recado de que está em boa forma e disposto a enfrentar novos desafios. 
              
Exemplo de um? A campanha para voltar à presidência da República daqui a quatro anos, sucedendo a Dilma. De fato, ele não pensa em outra coisa.
De vez em quando, desafetos de Lula sugerem nas redes sociais que ele não está bem de saúde. Quem não está bem de saúde não faz esteira e nem carrega peso.
Com o vídeo, ele prova que vai muito bem, obrigado. O resto ele mesmo se encarrega de propagar por aí em reuniões montadas para injetar ânimo na combalida militância do PT.
Lula só fala em ambientes blindados contra vaias. Foi assim na última sexta-feira.
“Nós temos de dizer para a companheira Dilma ouvir e para os nossos deputados e militantes ouvirem que nós precisamos começar a dizer o que faremos neste segundo mandato”, cobrou Lula no discurso de abertura do 3º Congresso das Direções Zonais do PT de São Paulo.
“Qual é a política de desenvolvimento que colocaremos em prática? Qual o tipo de indústria que iremos incentivar?”
Lula reprova o governo monotemático de Dilma, que há mais de 100 dias só valoriza o ajuste fiscal como meio de pôr em ordem as contas públicas. É como se nada mais existisse.
O governo só conseguirá enfrentar o mau humor dos brasileiros se for capaz de criar notícias positivas. Ou novas utopias, como prefere Lula. Agarrar-se aos programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida não adianta mais.
Invariavelmente, o discurso de Lula contempla dois tipos de coisas: críticas ao governo, menos ou mais ácidas, a depender da ocasião; e críticas ao PT.
O desfecho passa por um apelo para que o partido esteja sempre pronto a apoiar o governo.
“Nem o PT sobrevive sem Dilma nem Dilma sobrevive sem o PT”, voltou a repetir. “Se Dilma fracassar é o PT quem fracassa e eu não vim ao mundo para fracassar”.
Ou seja: o governo Dilma é ele. O PT é ele. O futuro do projeto de poder do PT está nas mãos dele. 
Lula imagina que a situação seria outra se Dilma tivesse abdicado da ideia de tentar se reeleger. Foi o que ele esperou que ela fizesse no ano passado.
E por isso desarmou eventuais iniciativas daqueles que o assediaram pensando em forçar Dilma a se aposentar. Uma iniciativa abortada tinha a assinatura de líderes do PMDB.
Há exatamente um ano, Lula recepcionou em São Paulo uma comitiva de senadores do PMDB integrada por Renan Calheiros, José Sarney, Romero Jucá e Jáder Barbalho.
Queriam saber se ele concordava em concorrer ao terceiro mandato presidencial.
Lula deu a entender que sim, mas disse que tudo dependeria de Dilma. Não se sentia à vontade para constrangê-la a sair de cena. Mas se ela saísse por vontade própria...
Agora, Lula sente-se à vontade para pavimentar seu retorno ao poder. O PT não tem outro candidato.
O PSDB tem três – Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. Lula derrotou Serra em 2002 e Alckmin em 2006. Calcula que poderia derrotá-los outra vez.
Quanto a Aécio... Acha que ele dará um jeito de não atravessar o seu caminho. Conta com o apoio do PMDB, que não tem candidato a presidente.
Aos que pensam que ele não se arriscará a uma derrota... Lula sofre do mal que atinge quase todos os candidatos: acredita piamente que poderá vencer. Ou melhor: que deverá vencer. 

domingo, 26 de abril de 2015

Luxemburgo-- Filha de Salgueiro Maia diz ter sido "convidada a sair" por Passos, por Lusa


A filha do capitão de Abril Salgueiro Maia, a viver no Luxemburgo há quatro anos, diz que foi "convidada" a sair de Portugal pelo primeiro-ministro Passos Coelho, lamentando a situação atual do país, que compara ao terceiro mundo.

Catarina Salgueiro Maia, de 29 anos, deixou Portugal em 2011, ano em que a 'troika' chegou a Portugal e "em que o primeiro-ministro aconselhou as pessoas a ganhar experiência no estrangeiro", ironizou, recordando os apelos do Governo à emigração.
Com o marido desempregado e um filho asmático, a filha do Capitão de Abril decidiu procurar trabalho no estrangeiro.

Filha de Salgueiro Maia diz ter sido convidada a sair por Passos

"O meu marido esteve seis meses sem trabalho e foi quando decidimos arriscar. Ele tinha cá família e acabámos por decidir vir", contou Catarina Salgueiro Maia à Lusa, durante um jantar de homenagem ao pai, organizado no sábado, 25 de Abril, pelo portal de notícias português Bom Dia, em que também participaram o deputado socialista Paulo Pisco e o cônsul de Portugal no Luxemburgo.

"Eu saí do meu país, porque precisava de estabilidade financeira para criar o meu filho, que é asmático, e o medicamento não é comparticipado em Portugal, apesar de ser uma doença crónica", explicou.

"Uma consulta de alergologia no hospital público demora cerca de dois anos e meio, e nem vou falar dos idosos que morrem nas salas de espera, é um horror", lamentou, considerando que "Portugal, neste momento, é um país terceiro-mundista".

Com três cadeiras por terminar no curso de Línguas, Literaturas e Culturas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Catarina Salgueiro Maia acabaria por só conseguir emprego como empregada num café português, no Luxemburgo, onde chegou a trabalhar "mais de 17 horas por dia", por um salário de 1.300 euros, um valor inferior ao salário mínimo no país, que ronda atualmente os 1.900 euros.
Résultats de recherche d'images pour « Catarina Salgueiro Maia »Résultats de recherche d'images pour « Catarina Salgueiro Maia »

Há um ano, a família decidiu regressar a Portugal, mas em fevereiro acabariam por voltar para o Luxemburgo.

"Mais valia termos ficado quietos. Nós aqui temos uma ideia diferente da situação em que Portugal está: sabemos que Portugal não está bem, mas não temos consciência de que está tão mal", lamentou, garantindo que encontrou o país "pior" do que quando emigrou em 2011.

No dia em que o pai foi homenageado pela comunidade portuguesa no Luxemburgo, Catarina Salgueiro Maia disse à Lusa que pensa "muitas vezes" no que diria sobre a situação atual do país, o Capitão de Abril que comandou a coluna de blindados que forçaria a rendição de Marcello Caetano.

"Às vezes digo que o meu pai, lá em baixo, deve estar às voltinhas no caixão. O meu pai lutou por uma democracia, por um país livre, correto, aberto", recordou, lamentando que hoje haja "pessoas a passar fome, idosos que, ou comem ou tomam medicamentos, e pessoas que são postas na rua, por não poderem pagar a renda".

Durante a homenagem a Salgueiro Maia, o deputado socialista Paulo Pisco considerou que o capitão de Abril "é um exemplo para todos os portugueses", recordando ainda a pensão que lhe foi recusada em 1988, sob o governo de Cavaco Silva, tendo sido depois atribuída a dois antigos inspetores da PIDE, um episódio que considerou "indigno da democracia".

Para Catarina Salgueiro Maia, o caso revela a "falta de coerência" do atual Presidente da República.

"Ele primeiro deu prémios a ex-inspetores da PIDE que torturavam, que massacravam, que matavam, que prendiam, e recusa prémios a quem lutou realmente pelo país? Onde é que está a coerência dele?", questionou.

"Acho ridículo uma pessoa que não deu o mínimo valor a quem lutou pelo país, na altura em que devia ter dado, conseguir subir a um palanque, 41 anos depois e dizer que vivemos em democracia e agradecer a quem fez o 25 de Abril", criticou a filha de Salgueiro Maia.

Cerca de 60 pessoas participaram no jantar de homenagem ao capitão de Abril, organizado pelo portal Bom Dia, um gesto que comoveu a filha.

"É bom saber que, fora de Portugal, o meu pai continua a ser lembrado, e que há pessoas que dão valor àquilo que ele e os outros capitães de Abril conseguiram para o país", disse, considerando que os ideais da Revolução dos Cravos deviam ser recordados durante "todo o ano".

"É preciso que se vivam os ideais de Abril não só neste dia, mas ao longo do ano. Eu acho que é disso que Portugal também está a precisar: defender os ideais de Abril todos os dias, e não ser só para a fotografia", concluiu.

Cartas de Milão: O mais querido, por Mario Vitor Rodrigues

Eleger o prato favorito talvez seja tarefa árdua para a maioria das pessoas; ainda mais fonte de sofrimento se o universo proposto for uma tal de cozinha italiana, porém não é o meu caso. E me antecipo, assumindo a certeza de decepcionar, para dizer que minha predileção não recai sobre um prato de massa.

Exato, mesmo tendo passado toda a infância aqui, nunca me deixei levar por espaguetes,fettuccines, raviólis, lasanhas e quetais. Muito pelo contrário, desde cedo, fugi da pasta como um perfeito boi ladrão, fosse ela asciuta ou ao sugo, com ou sem recheio.
A alternativa? No fundo, só era encarada assim pelos demais. Quando em restaurantes ou tratorias, era meu, isto sim, o monopólio da incredulidade. Simplesmente não concebia o encanto alheio por algo que não fosse um rico, delicado e incomparavelmente saboroso risotto à milanese.
O tempo passou e a verdade é que, noves fora alguma complacência de minha parte, nada mudou. Continuo fã incondicional do também chamado risotto giallo. uma receita, a tal ponto símbolo de Milão, que tem sua origem associada à própria construção do Duomo e deixa para trás outras importantes bandeiras da gastronomia lombarda, como o ossobuco e a cotoletta à milanese – o nosso bife à milanesa.
Da Ásia Menor ao Egito, passando por gregos e romanos, a história mostra que o açafrão – pistilo da crocus sativus -  percorreu um longo caminho até cair no gosto dos milaneses. Mais do que isso, chegou a ser utilizado como erva medicinal, afrodisíaca e houve mesmo artistas que enxergassem nele um bom corante, antes de finalmente ser levado à panela.
Hoje em dia o açafrão é tido como uma das iguarias mais caras do mundo - uma grama, daquele cultivado na Sardenha, sai por vinte euros em boutiques gastronômicas gabaritadas como a Peck -, mas o prato, graças a enormes áreas de plantio em Abruzzo e na Toscana, continua sendo alardeado por toda a cidade, tanto em cardápios de cantinas mais populares como em restaurantes estrelados pelo Guia Michelin.
A boa notícia, porém, está na resposta à pergunta óbvia: aonde é feito o melhor risoto à milanese da cidade? Ninguém sabe. Bice, Ratanà, Il Nuovo Macello, além de nomes badalados como Cracco e Il Luogo de Aimo e Nadia, sem contar uma infinidade de risoterias, tratorias e locais pouco conhecidos, do Navigli à Brera, da Porta Venezia ao Duomo, as dicas são intermináveis e todos fazem questão de dar a sua.
Cá para nós, que continue assim.
Jogo americano vendido para turistas pela orgão de turismo oficial da cidade (Foto: Divulgação)
Jogo americano vendido para turistas pela orgão de turismo oficial da cidade (Foto: Divulgação)

Mario Vitor Rodrigues é escritor, apaixonado por gastronomia.

Partidos escapam de punição do TSE pelo mau uso do Fundo Partidário, por EDUARDO BRESCIANI


Cerca de 60% das prestações entregues desde 2004 ainda não foram julgadas e parte já preescreveu

Presidente do TSE, ministro Dias Toffoli, em plenário do tribunal em Brasilía - Ailton de Freitas / Agência O Globo--Advinhe quem vem ao jantar??!!

BRASÍLIA - Enquanto os recursos públicos repassados aos partidos políticos por meio do Fundo Partidário crescem de forma exponencial, a fiscalização de suas contas segue em marcha lenta. O GLOBO analisou o andamento das prestações de contas dos dez maiores partidos políticos desde 2004. Das 89 prestações entregues neste período, 60% não foram julgadas, sendo que 13 delas não poderão mais gerar punições aos partidos porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, no ano passado, considerar prescritas todas as contas não julgadas em cinco anos. Veja as dez últimas prestações de contas ao TSE, de 2004 a 2014

Dos dez partidos, dois ainda não tiveram as contas de 2009 — à beira da prescrição — analisadas: PT e PR. Os processos estão na pauta do TSE para a próxima terça. Nenhuma conta apresentada a partir de 2011 foi analisada pelo plenário do tribunal, e, das relativas a 2010, somente a do PRB foi a julgamento, tendo sido aprovada com ressalvas. O partido terá de devolver R$ 2 mil. O prazo para entrega da prestação de contas de 2014 acaba esta semana, assim como o prazo de julgamento das contas de 2009.

A presidente Dilma Rousseff sancionou semana passada, dentro do Orçamento de 2015, o aumento do repasse do Fundo Partidário de R$ 319,9 milhões para R$ 867,5 milhões neste ano. Os dez partidos que mais vão receber as verbas do Fundo são: PT, PSDB, PMDB, PP, PSB, PSD, PR, PRB, DEM e PTB. O montante supera em mais de quatro vezes os R$ 198 milhões repassados em 2004, em valores atualizados. O Fundo Partidário é dividido entre as legendas de acordo com os votos recebidos pelos candidatos eleitos para a Câmara.

A decisão de considerar prescritas as contas que não forem julgadas em cinco anos, que afetou 13 prestações, foi tomada em setembro de 2014. O presidente do TSE, Dias Toffoli, deu o voto condutor da posição do plenário. A decisão já beneficiou sete dos dez maiores partidos e, em alguns casos, as legendas se livraram de ter de fazer os ressarcimentos milionários que eram recomendados por órgãos técnicos e pela procuradoria-geral eleitoral.

O juiz Marlon Reis, do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), afirma que o modelo de fiscalização das contas partidárias é ineficiente:

— Falta aos tribunais estrutura, inclusive de pessoal. A legislação não dá à Justiça Eleitoral característica de órgão de controle. Além da longa tramitação, há a previsão de extinção de julgamento, e muitas vezes esse é o caminho.

Reis defendeu ainda a necessidade de se estabelecer sanções mais severas às inconsistências nas prestações de contas.

O PSDB, por exemplo, poderia ter sido condenado a devolver R$ 1,9 milhão pelas contas de 2004, por não ter conseguido convencer o TSE sobre a identificação dos doadores. Cinco ministros já tinham votado nesse sentido em sessão de 2011, mas, diante do novo entendimento sobre a prescrição, o partido se livrou da punição. A legenda ainda escapou da análise das contas de 2007. Havia um parecer da área técnica e da procuradoria pedindo o ressarcimento de R$ 1,7 milhão, também por falha na identificação dos doadores.

O mesmo ocorreu com o PT. A legenda se livrou da análise de um parecer técnico relativo às contas de 2008, que recomendava a devolução de R$ 2,2 milhões, sendo mais da metade proveniente do Fundo Partidário. Para a área técnica do tribunal, R$ 1,2 milhão deveria ser devolvido por aplicação irregular de recursos do Fundo. Outro R$ 1 milhão deveria ser ressarcido pelo fato de o partido não ter conseguido identificar os doadores que declarou. O ministro Henrique Neves, porém, declarou as contas prescritas em setembro do ano passado, dois dias depois de o TSE firmar a jurisprudência sobre o assunto.

No caso do DEM, o parecer era pela desaprovação das contas de 2005, com pena de ressarcimento de R$ 1,5 milhão. Como o processo não foi concluído no prazo, o partido se livrou da análise do mérito. Dos maiores partidos, também foram beneficiados pela prescrição PMDB, PR, PRB e PTB. No caso do PMDB, não havia parecer conclusivo. Os outros três partidos tinham contra si pareceres que recomendavam devolução de entre R$ 43 mil e R$ 130 mil.

Apesar das irregularidades descobertas pelo tribunal, multas acima de R$ 1 milhão são exceções. As sanções em geral têm valores inferiores a R$ 100 mil. Penalidades abaixo desse montante foram aplicadas a seis partidos. Em um dos casos, o PSB pagou multa de apenas R$ 3,27 por problemas na identificação de doadores.

PROBLEMAS EM METADE DAS CONTAS

Das contas que chegaram a ser julgadas, quase metade foi rejeitada ou aprovada com ressalvas. Entre as irregularidades está o uso do Fundo Partidário para a quitação de multas aplicadas à legenda, o repasse de recursos a diretórios proibidos de recebê-los, e a falta de justificativa para despesas. No caso do PTB, a conta de 2008 foi rejeitada com a determinação de ressarcimento de R$ 1,4 milhão e a suspensão do Fundo Partidário pela não comprovação de despesas.

Dos dez partidos analisados, apenas o PP teve aprovadas sem ressalvas as seis contas analisadas. O PSD foi criado em 2011 e, até hoje, nenhuma conta do partido foi julgada.

O TSE afirmou, por meio de nota, que a decisão de aplicar a prescrição aos processos após cinco anos foi tomada com base em uma lei aprovada pelo Congresso em 2009. O tribunal diz que a resolução “acabou com o sigilo bancário das contas partidárias e introduziu maior rigor e transparência” e “será instrumento fundamental para alcançar uma melhor qualidade nos julgamentos das referidas contas”.

A nota afirma que, sobre os processos pendentes, “o TSE está empenhado em julgá-los com respeito ao processo legal e ao contraditório”. Diz ainda que Dias Toffoli solicitou técnicos aos tribunais de contas da União e do Distrito Federal para auxiliar na análise das contas.

UM ALÍVIO PARA AS DÍVIDAS DE CAMPANHA

Orçado em R$ 867,5 milhões, o Fundo Partidário de 2015 deverá ser um alívio para as dívidas acumuladas pelos partidos nas últimas eleições. Desde o final de 2014, as legendas têm enfrentado mais dificuldade para arrecadar recursos de empresas privadas devido à Operação Lava-Jato, que pôs sob holofotes as doações de construtoras a partidos.

Os três primeiros meses deste ano também transcorreram com “torneiras secas”: sem a aprovação do Orçamento pelo Congresso, os partidos estavam recebendo parcelas do Fundo Partidário muito inferiores ao previsto. Agora, os tesoureiros dizem que poderão trabalhar com mais folga no pagamento de despesas, já que o Fundo Partidário ficou três vezes maior em relação a 2014.

O PSDB, segundo seu secretário-geral, o ex-deputado baiano João Almeida, tem um déficit de R$ 14 milhões. No TSE, o registro da dívida ultrapassa R$ 16,2 milhões. O PT, que registrou dívida de R$ 4 milhões na campanha da presidente Dilma Rousseff, herdará parte das dívidas contraídas pelas candidaturas estaduais, como as de São Paulo, Rio e Ceará, onde os débitos superam R$ 35 milhões, R$ 15 milhões e R$ 11 milhões, respectivamente.

— Estamos levando (as finanças), distribuindo o que temos. Amortizamos como podemos e criamos um cronograma para pagar as dívidas — disse Almeida.

DOADORES SÃO ALVO DA LAVA-JATO

As contas do PSDB para 2014 já foram aprovadas pela Executiva do partido e serão entregues no dia 30, com um débito um pouco menor que os R$ 14 milhões já declarados na prestação de contas eleitorais, no ano passado.

O próximo dia 30 é o prazo final para a entrega das prestações de conta e será a data de entrega dos relatórios também do PT, segundo informou o presidente da sigla, Rui Falcão. Os documentos estão sendo concluídos pelo novo tesoureiro, Márcio Macêdo.

Oficialmente, os partidos tentam minimizar o impacto da Lava-Jato sobre a arrecadação partidária. Nos bastidores, a conversa é outra. Há, de um lado, o temor das empresas, mas também uma preocupação das próprias siglas, que ainda não sabem como lidar com doadores históricos, que são hoje alvos das investigações sobre distribuição de propinas em contratos da Petrobras.

O DEM informou que deve receber este ano R$ 36 milhões do Fundo Partidário e que não há dívidas de campanhas absorvidas pelo Diretório Nacional. O tesoureiro do partido, Romero Azevedo, informou que não prevê arrecadar dinheiro com empresas este ano. Ele disse não ter sentido dificuldade em arrecadar com empresários durante as eleições. O Diretório Nacional obteve, na época, R$ 53 milhões e registrou despesas no mesmo valor.

(Colaborou Tatiana Farah)

José Mujica, presidente do Uruguai--Publicado em 31 de jul de 2013

               

Comentario meu---a mera REALIDADE é, se aceite e compreendida, ensinamento e progresso.


                 

sábado, 25 de abril de 2015

Um governo para esquecer, por Fernando Gabeira

Recebi dois livros interessantes: Submissão, de Michael Houellebecq, e Ordem Mundial, de Henry Kissinger. Aproveito uns dias de resfriado para lê-los, mas só vou comentá-los adiante. Não sei se o resfriado turvou minhas expectativas, mas vejo o mundo caindo ao redor: empresas fechando, gente perdendo emprego e, como se não bastasse, estúpidos feriados.

Mas será que estar envolvido numa situação tão pantanosa me obriga a fazer as mesmas perguntas, tratar dos mesmos personagens, dona Dilma e seus dois amigos, Joaquim e Temer?

Nas últimas semanas deixei de perguntar apenas sobre o ajuste econômico, que nos promete uma retomada do crescimento. Começou enriquecendo os partidos e apertando as pessoas. Disso já suspeitava. Cheguei a indagar se não era possível superar o voo da galinha, achar um caminho seguro e sustentável. Constatei que lá fora também se faz a mesma pergunta, não a respeito do Brasil, mas do próprio capitalismo. O sistema tem um futuro, deságua em outra via de expansão?

Quanto à minha expectativa de um crescimento equilibrado, encontrei respostas desconcertantes. Como a do economista australiano Steve Keen, para quem o equilíbrio é uma ilusão e a economia tende a viver num desequilíbrio constante, sem jamais afundar.

Existem muitas previsões sobre o que vai acontecer mais adiante. A de Jeremy Rifkin pelo menos me agrada mais porque é a que mais se aproxima das minhas toscas expectativas. E de uma ponta de otimismo que nunca me deixa, mesmo no resfriado. Rifkin fala da internet dos objetos, da produção descentralizada de energia alternativa, das impressoras 3D e dos cursos online. Tudo pode fazer de cada um de nós um proconsumidor. Da produção em massa haveria um trânsito para a produção das massas, descentralizada e cooperativa.

Aqui acompanhei, por exemplo, a prisão de Vaccari, o tesoureiro do PT. Cheguei à conclusão de que foi motivada pela decisão do partido de mantê-lo no cargo. Quando foi depor na CPI, todas as acusações já estavam postas, incluídas as que revelam nexo entre propinas e doações. O despacho do juiz Sergio Moro fala em quebrar a continuidade dos crimes, evitando que o acusado mantenha uma posição em que, desde o caso da cooperativa dos bancários (Bancoop), desvia dinheiro para os cofres do partido.
Vaccari, Baiano e Youssef

Bastava ao PT afastá-lo enquanto durassem as investigações. Falou mais alto a fraternidade partidária. Tanto que os intérpretes oficiais diziam com orgulho que o partido não abandonaria Vaccari na estrada.

Citado por Kissinger, o cardeal Richelieu, comparando a sorte da pessoa com a de uma entidade política secular, afirma que o homem é imortal, sua salvação está no outro mundo. Já o Estado não dispõe de imortalidade, sua salvação se dá aqui ou nunca.

A maior interrogação ao ver o mundo desabando é esta: como chegaremos a 2018, com um governo exaurido, crise aguda e um abismo entre as aspirações populares e o sistema político?

A primeira pergunta é esta: com ou sem Dilma? O ministro José Eduardo Cardozo diz que a oposição é obcecada pelo impeachment. Disse isso ao defendê-la das pedaladas fiscais. Com a maioria dos eleitores desejando que Dilma se afaste, sempre haverá um motivo. Hoje é pedalada, amanhã é pênalti e depois de amanhã, escanteio, lateral, impedimento – enfim, é uma constante no jogo.

Os 12 anos de governo do PT foram marcados por uma extensa ocupação partidária da máquina pública. O Estado foi visto não só como o grande empregador, mas também como o espaço onde os talentos individuais iriam florescer.

Ao lado disso se construiu também a expectativa de que grande parte dos problemas dependia da interferência estatal. Da Bolsa Família aos empréstimos do BNDES, do patrocínio às artes à salvação do Haiti, da construção de uma imprensa “alternativa” ao soerguimento econômico de Cuba – tudo conduzido pelo Estado.

Com a ruína desse modelo, a oposição popular ao governo tem a corrupção como alvo, mas revela também uma profunda desconfiança do papel econômico do Estado, a ponto de alguns analistas a verem como réplica do movimento Tea Party, uma ala radical do Partido Republicano nos EUA. Se olhamos um pouco mais longe, para o colapso do socialismo, vamos encontrar algo mais parecido com a realidade nacional. Foi muito bem expresso por um ministro húngaro na aurora da reconstrução pela via capitalista: no passado havia uns fanáticos que diziam que o Estado resolve tudo, agora aparecem outros dizendo que o mercado resolve tudo.

Além da corrupção, sobrevive ainda uma expectativa num Estado bálsamo, que cura todas as dores, resolve todos os problemas, traz de volta as pessoas amadas. É compreensível que surja uma resistência apontando para um Estado mínimo e que as esperanças se reagrupem em torno do mercado.

O que resultará disso tudo ainda é muito nebuloso. Tenho consciência de escrever sentado numa cadeira ejetável. Mas, e daí? Quando você mostra que a experiência do governo petista se esgotou, muitos protestam. Com que ideias vão dinamizar a nova fase? Com que grana vão inventar um novo ciclo de bondades balsâmicas?

Se Dilma sobrevive como um fósforo frio, isso é só um problema imediato. É hora de começar a desvendar o futuro. Não tenho dúvida de que todos os exageros, os erros patéticos, a arrogância, a desmesura, tudo será cobrado até que se restabeleça um certo equilíbrio.

Viveremos o teatro fúnebre de um governo que não é mais governo, de uma esquerda oficial petrificada, de jornalistas de estimação analisando minúsculos movimentos mentais de um poder lobotomizado. Como diz um personagem de Beckett, acabou, acabamos. Resta ao governo sonhar com um domingo ideal em que, finalmente, voltadas para suas atividades normais, as pessoas o esqueçam. Imagino a discreta festa palaciana: mais um domingo, ninguém se lembrou de nós, viva!

Fernando Gabeira, escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro (1998-2010)

Imprensa: Algemas de Máximo, herdeiro dos Kirchner, por Vitor Hugo Soares

Máximo Kirchner  (Foto: Notícias)

Ando apressado e quase às cegas pelo amplo, moderno e sempre movimentado aeroporto internacional de Buenos Aires (Ezeiza) à procura da área de embarque, para retorno ao Brasil. Ainda assim é impossível não perceber e acusar o impacto do apelo gráfico e jornalístico da capa da revista semanal Notícias - a VEJA da Argentina, mal (ou bem?) comparando -, com a foto de Máximo, o jovem herdeiro e gestor dos negócios dos Kirchner, algemado. Carrego na mão, de volta a Salvador, um exemplar da incendiária edição.

Depois de rápido e sempre memorável reencontro com Buenos Aires, a amada cidade de tantas idas e vindas desde o começo da carreira profissional (o primeiro e mais turbulento,  no início dos anos 70, ainda como repórter do jornal A Tarde, e a maioria dos demais e sucessivos já na sucursal do Jornal do Brasil na Bahia),  constato mais uma vez: a cidade segue linda, mesmo que não tão florescente quanto aquela do tango famoso de Gardel. Sua gente, sua cultura, seu jeito particular de ser e sua imprensa, no entanto, não param de surpreender a este calejado viajante.

Agora, por exemplo, na mais influente revista da Argentina, edição que começou a circular no Domingo de Páscoa, o filho da presidente Cristina Kirchner aparece do jeito que os brasileiros estão se acostumando a ver, nos desfiles de figurões da política e dos negócios do País, desde o processo do Mensalão. Tudo ampliado, ultimamente, depois da Operação Lava Jato e o escândalo sem tamanho de saque à Petrobras, que multiplicaram os desfiles de malfeitores de colarinho branco a caminho das celas da Polícia Federal em Curitiba, para se entenderem com o juiz Sergio Moro.
A chapa esquenta, ferve e já quase incendeia a política na casa do vizinho à beira do Rio da Prata e da Cordilheira dos Andes. São os primeiros e agitados movimentos da campanha presidencial pela sucessão da atual ocupante da Casa Rosada, no ocaso de seu segundo mandato. Cristina não pode legalmente disputar um terceiro mandato, nem parece ter mais cacife político e eleitoral para tanto, mas trabalha dia e noite, às escâncaras e às escondidas, para de alguma maneira manter a "dinastia dos Kirchner" no centro do poder.

Sob esse ponto de vista, a capa de Notícias,  de grande influência, principalmente na classe média portenha, parece devastadora. Ao fundo da imagem do jovem e badalado herdeiro, e administrador da fortuna do clã mais poderoso do país, aparece com algemas nos punhos para a frente. E o título. "Máximo Kirchner: A foto mais temida por Cristina".

Mais abaixo, a chamada de primeira página:

"A Justiça Federal pensa em interrogá-lo. Indagar-lhe sobre lavagem de dinheiro. "Vingança abutre?". Tensa reunião em Olivos (palácio residencial da presidência da República, nos bucólicos arredores da capital portenha) para decidir sua defesa midiática. O karma de ser líder e uma candidatura "por fueros" (privilégios).

Nas páginas internas, o título da reportagem: “Heredero en la Mira” (Herdeiro na Mira). O texto começa dando a palavra ao acusado: “Mais do mesmo”, diz Maximo Kirchner para negar as suspeitas lançadas sobre ele, de ser detentor de contas no exterior da ordem de 62 milhões de dólares. “Mais do mesmo” se poderia questionar também pela falta de transparência de seus atos e de sua mãe, presidente da Nação”, contesta a revista em sua reportagem de fundo.

Mais não conto, “nem que a vaca tussa”, para usar expressão da nossa ocupante do Palácio do Planalto, no tortuoso começo de seu segundo mandato. Mas informo que no site de Notícias é possível ler tudo dessa história imprópria para menores. O fato é que passei por Ezeiza, quando os primeiros e apaixonados movimentos da campanha presidencial começavam a incendiar a Argentina mais uma vez.

Em visita à Rússia, entre abraços, acordos com pagamentos em pesos ou em rublos, e juras de amizade eterna ao colega Putin, a mandatária deu entrevista à cadeia estatal russa RT. Mexeu com governistas e oposicionistas de seu país ao afirmar que não terá favoritos à sua sucessão. “Favoritos têm os reis, isso não é da democracia, é da monarquia”. O analista portenho Pablo Mendelevich contesta no La Nacion. “Se confirmou: na Argentina há, ou houve até bem pouco,  uma monarquia. É assombroso que exatamente Cristina Kirchner opine que quando um presidente tem um favorito para sucedê-lo não há democracia". E fico nesta parte, porque a história é longa e crua. Interessados no todo procurem a edição de ontem (24) no site do La Nacion.

Neste domingo, e neste ambiente carregado de eletricidade, a população de Buenos Aires vai às urnas nas primárias para as eleições provinciais de julho que vêm, três meses antes das presidenciais. Para este sábado, 25, as previsões sombrias são de que as cinzas da violenta erupção do vulcão chileno Cabulco, que acordou de repente depois de dormir durante quase meio século, cobrirão a capital federal argentina, depois de causar estragos na famosa cidade turística de Bariloche, na província de Neuquén, bem pertinho do local de origem do clã (ou da família imperial) Kirchner. Em Neuquén já se falava ontem em suspender a eleição local de domingo, diante do desastre.

É este o cenário que Cristina Kirchner encontrará no seu retorno da badalada visita ao reino de Putin. O resto, a conferir.
Vitor Hugo Soares-- jornalista  

Itália devolve mensaleiro a país que não extraditou ex-terrorista, por Ricardo Noblat

Perdoem o lugar comum, mas o governo da Itália deu “um tapa com luva de pelica” no rosto do governo do Brasil ao autorizar a extradição de Henrique Pizzolato, cidadão italiano, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, condenado a 12 anos e sete meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro no processo do mensalão – o pagamento de propinas a deputados e partidos para que votassem na Câmara em 2005 como mandava o governo do então presidente Lula.

Cesare Battisti é um escritor e um ex-terrorista italiano, antigo membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo de extrema esquerda ativo na Itália no fim dos anos 1970. Em 1987, ele foi condenado por terrorismo à prisão perpétua pela autoria direta ou indireta dos quatro homicídios atribuídos ao PAC. Escapou de ser preso porque fugiu para a França. E, para não ser extraditado, de lá para o Brasil. Em 2007, o governo da Itália pediu a extradição dele, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009.
Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil condenado no caso do mensalão (Foto: Arquivo / O Estado de S.Paulo)
Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil condenado no caso do mensalão (Foto: Arquivo / O Estado de S.Paulo)
Ocorre que pela primeira vez, o STF decidiu que a última palavra caberia ao presidente da República. E Lula, no último dia do seu segundo mandato, pressionado pela esquerda do PT, negou a extradição. Baseou-se em um parecer da Advocacia Geral da União que alegava que se Battisti fosse extraditado correria risco de morte devido às condições precárias das penitenciárias italianas. De mais a mais, como preso político, ele também correria riscos, segundo Tarso Genro, então ministro da Justiça.
Políticos italianos de todas as tendências condenaram a decisão de Lula. Por meses, o Brasil foi alvo de pesadas críticas nos meios de comunicação da Itália. Como dizer que as penitenciárias italianas não oferecem condições dignas de vida? Como afirmar que Battisti correria risco de morte por ser um preso político? Na Itália, ele não é considerado um preso político, mas um terrorista ou ex-terrorista. A Itália é um país democrático que garante a vida dos seus cidadãos. O Brasil pisou feio na bola.
A defesa de Pizzolato argumentou com as péssimas condições dos presídios brasileiros para tentar evitar a extradição dele. O governo brasileiro se comprometeu a manter Pizzolato na Penitenciária da Papuda, em Brasília, elogiada pelos mensaleiros que cumprem pena. O governo italiano acreditou na palavra do nosso. Quatro agentes federais irão buscar Pizzolato na próxima semana. 

Festa na ilha da fantasia, por Sandro Vaia

O novo presidente da Petrobras, convenientemente constrangido, pede “desculpas” à população ao apresentar, com 5 meses de atraso, um balanço auditado com 6 bi de buraco por corrupção e 21,6 bi de prejuízo por erros de gestão.

O ministro Joaquim Levy percorre agências de risco prometendo que vai colocar as contas em ordem e pedindo, por favor, para não rebaixar o grau de investimento do Brasil para não atrapalhar ainda mais o que atrapalhado já está. E tenta convencer os condestáveis do Congresso, Cunha e Renan, que sem ajuste o futuro será negro.
O panorama visto da ponte não é nenhum campo de girassóis como aqueles que Van Gogh pintava. O governo ainda rumina os 13% de popularidade, a inflação ameaça, o crescimento fica adiado para quando der, e bomba da Lava Jato não para de espirrar lama.
Isso não impede que o senhor Roarke, com seu prestimoso auxiliar, o simpático anãozinho Tatoo, continuem alimentando a sua particular ilha da fantasia, onde qualquer desejo pode ser realizado.
O senhor Roarke prepara agora para junho, em Salvador da Bahia, o V Congresso do Partido dos Trabalhadores. (Usamos algarismos romanos para dar a devida pátina de respeitabilidade ao evento. Trata-se, nada mais e nada menos, de decidir o futuro do Brasil, e en passant, o da Humanidade. Não é coisa pouca).
Sabe-se Deus de que recantos do Brasil surgirá esse exército de sonhadores, envergando seus estandartes vermelhos, com a missão de construir “um partido para tempos de guerra”. O que os guerreiros pretendem decidir é qual tipo de socialismo estão reservando para guiar nosso futuro rumo ao paraíso na Terra.
Decadente e desprestigiado  (Foto: Arquivo Google)
Eles vão decidir isso entre 11 e 13 de junho, mas nós, os burguesotes comuns, já podemos ir tomando conhecimento e consultar o menu que nos preparam. Está aqui, é só clicar em cima:as diversas tendências internas do PT exibem as teses que apresentarão no V Congresso.
Ao contrário do Partido Social Democrático Alemão, que renunciou ao marxismo e à luta de classes no longínquo ano de 1959, no Congresso de Bad Godsberg (vocês viram a tragédia que foi para a Alemanha essa infausta decisão, não é?), o PT ainda tem uma vasta coleção de fantasmas para mobilizar as suas tropas.
Com mais ou menos adereços de mão, ressuscitando o linguajar das assembleias estudantis dos anos 60 (“correlação de forças”, “flanco histórico” , “arco de apoios” e outras relíquias retóricas),as diversas tendências do PT caminham juntas na contramão da História, cada uma percorrendo sua via particular de acesso ao luminoso futuro.
Para algumas, como a “Virar à Esquerda-Reatar com o Socialismo”, é preciso meter o pé na porta, demitir ministros “capitalistas”, como Joaquim Levy, Gilberto Kassab, Armando Monteiro e Kátia Abreu e estatizar a rede Globo e, claro, dar um jeito nessa direita “fascista”. (É bom ressaltar; tudo o que não sejam eles, é “fascista”).
Para outras, como “O Partido que Muda o Brasil”, para quem o PT perdeu “o frescor da juventude”, ele precisa “reinventar-se”.
Nesse caleidoscópio de sonhos regressivos, delírios e fugas da realidade, o V Congresso do PT vai sair em busca da legitimação de uma hegemonia que a sociedade recusa conceder-lhe.
Pior para a sociedade, dirão eles
Sandro Vaia--Jornalista, foi editor do Jornal da Tarde,

Rombo da Petrobras foi a notícia da semana, por Míriam Leitão

Ano novo na Petrobras — O ano de 2014 enfim terminou para a Petrobras na última quarta-feira quando ela divulgou o balanço do terceiro trimestre e o fechado do período. Foi um mar vermelho que ela ainda não atravessou. O prejuízo foi de R$ 21,6 bi. A baixa contábil foi de R$ 50,8 bi. Desses, R$ 6,2 bi resultaram da corrupção na estatal. A dívida bruta saltou 31%; a líquida, 27%. O endividamento em relação à geração de caixa subiu para 4,77 anos; o tolerável seria 2,5. No primeiro trimestre, subiu ainda mais, para 5 anos. Por qualquer indicador que se olhe, a dívida da empresa assusta. O presidente Aldemir Bendine me disse em entrevista que diminuir o endividamento é o maior desafio. O balanço do primeiro trimestre será analisado em 15 de maio. Não haverá dividendo esse ano. As ações ordinárias subiram 12% do fechamento de quarta-feira, antes do balanço, até a manhã desta sexta-feira. 

Delatores condenados — na mesma quarta-feira da divulgação do balanço, o juiz Sergio Moro publicou a condenação de oito pessoas envolvidas na Lava-Jato, incluindo o doleiro Alberto Youssef (9 anos e 2 meses) e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa (7 anos e 6 meses) no primeiro dos processos, que foi o dos desvios na Abreu e Lima. As penas seriam maiores sem a delação.
Terceirização passa na Câmara — a casa aprovou o projeto, incluindo a terceirização da atividade-fim das empresas. O Senado deve demorar a votar a norma, por orientação do presidente Renan Calheiros. O projeto da terceirização provocou uma crise entre o senador e o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara.
Fundo Partidário e orçamento – Em plena crise entre eleitores e os partidos, a presidente Dilma sancionou o orçamento com a aprovação da medida que triplicou o valor do dinheiro para os partidos, para R$ 867,5 mi. O vice-presidente, que estava viajando, disse que o montante poderia ser contingenciado, depois disse que não poderia. Enfim, a improvisação política continua.
Caged veio melhor — O Caged, levantamento feito pelo Ministério do Trabalho sobre os empregos formais, teve um resultado positivo que surpreendeu favoravelmente. Em março foram criadas 19.282 vagas. Mesmo assim houve saldo negativo no primeiro trimestre do ano, de 50.354.
Levy em NY — o ministro da Fazenda Joaquim Levy começou a semana se reunindo com investidores nos EUA, que ouviram os planos do governo para o programa de concessões. Nas próximas semanas, disse Levy, devem ser apresentados os ativos e as formas de financiamento, bem como o cronograma de leilões. As concessões devem ajudar o governo a cumprir com as metas fiscais para o ano.
Investimento estrangeiro cai — O investimento estrangeiro recuou 38% no primeiro trimestre, mesmo com a alta do dólar, o que deixa o ativo em reais mais atraente. O rombo das contas externas em 12 meses até março chegou a 4,54% do PIB; era 4,43% no fim de 2014.
Naufrágio no Mediterrâneo — cerca de 800 imigrantes morreram em naufrágio quando tentavam chegar à Europa.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

LA MUERTE DE ZAPATA-- abril 1919

                 

O suicídio do jornalismo, por Sylvia Debossan Moretzsohn--Observatorio da Imprensa

No início dos anos 1990, a internet ainda engatinhava no Brasil mas já começavam os debates sobre o futuro do jornal impresso e do próprio jornalismo diante da nova tecnologia. Em 1993, aFolha de S.Paulo promoveu seu primeiro fórum internacional para tratar desse tema. Um dos convidados, Warren Hoge, então chefe de redação adjunto do New York Times, sintetizou a crítica aos que exaltavam a hipótese de dispensar essa mediação essencial: os jornais, disse, dão ao público “aquilo que ele não sabe que precisa”.
Falava-se, então, em “informação personalizada”, ainda oferecida pelos jornais de sempre – o que hoje chamamos de “mídia tradicional” –, a partir da qual o público seria incentivado a montar seu próprio jornal. Seria uma expressão da liberdade de escolha. Na época, escrevi que esta seria “uma fórmula que expande o velho princípio do ‘direito de saber’: o público não apenas tem esse direito como já sabe o que quer e sabe onde encontrar. A consequência lógica é, por um lado, a segmentação da audiência e a formação de um círculo vicioso que termina por se revelar o contrário da diversidade prometida: a constituição de guetos fechados em torno de seus próprios interesses” (Jornalismo em ‘tempo real’. O fetiche da velocidade, ed. Revan, 2002, p. 170).
Rapidamente a hipótese de o público montar seu próprio jornal por esse método foi substituída pela exaltação do protagonismo desse mesmo público na produção de notícias. Sem qualquer base para argumentação, porque deveria ser evidente que esse público, de modo geral, não tem acesso às fontes que poderiam fornecer informações nem competência ou tempo para apurar o que quer que seja. Porém, com a ajuda de teóricos afamados que surfam a onda do momento e só produzem espuma, mas têm grande audiência inclusive e sobretudo no meio acadêmico, essa ideia libertária do jornalismo-cidadão se disseminou. E ajudou a minar o terreno em que se pratica o jornalismo profissional, dentro ou fora das grandes empresas de mídia.
Jornalismo caça-cliques
Ao mesmo tempo, as grandes empresas, no Brasil e no exterior, não parecem ter clareza do que devem fazer diante do campo aberto pela internet e, em vez de priorizarem o jornalismo, que exige distanciamento e rigor, cedem progressivamente ao imediatismo e à cacofonia das redes. A justificativa corrente é a de que a alteração no hábito de leitura e consumo de notícias provocada ou favorecida pela disseminação da tecnologia digital jogou o jornalismo num ambiente inédito e imprevisto, que retirou das empresas o sustento da publicidade tradicional. O resultado seria a caça ao clique, como forma de contabilizar uma massa de leitores atraente para o mercado publicitário, ainda que seja difícil estabelecer preferências de consumo – e, portanto, definir o “público-alvo” – num meio tão dispersivo e volátil como o virtual.
Ocorre que a caça ao clique é a morte anunciada do jornalismo, porque o que costuma excitar o público é a surpresa, o escândalo, o bizarro, o curioso, o grotesco. Em síntese, o fait-divers, que sempre foi elemento periférico para os jornais de referência.
O caminho da decadência
A gravidade da situação pode ser medida pela pesquisa publicada pela Quartz, site de notícias de negócios ligado à revista The Atlantic, que põe o Brasil na liderança de consumo de notícias no Facebook: dos 80% que dizem frequentar essa mídia, 67% afirmam utilizá-la para consumir notícias. Restaria indagar o que se classifica como “notícia”: há muitos anos, uma pesquisa sobre a audiência de programas radiofônicos populares indicou que boa parte daquele público considerava “notícia” a publicidade de promoções de supermercado, feita pelos animadores durante os programas.
Ao compartilhar o gráfico, a jornalista Lúcia Guimarães comentou:
“Assim como queimamos a etapa da leitura nos anos 60, passamos do vasto analfabetismo para um sistema sofisticado de TV que uniu o país (…), não vamos migrar para plataformas de jornalismo digital abrangente. Jornalismo, não importa se de papel, ou digital, é um pilar da democracia. Vamos passar direto ao desmonte da experiência da informação consequente.
“No momento em que a mídia no Brasil e nos EUA (New York Times a vários outros a bordo) considera ceder grande parte de sua independência à plataforma do Facebook (saem os links, Facebook vira o anfitrião do conteúdo jornalístico, controla o tráfego), as consequências, no caso do Brasil, são especialmente assustadoras. Já temos uma geração pouco educada e não leitora chegando à idade adulta convencida de que se informar é circular por aqui [pelo Facebook]”.
É a mesma geração que se “forma” nas escolas fazendo pesquisa pela internet sem a devida orientação, com resultados previsivelmente catastróficos.
Varal digital
Lúcia recorda que “a informação jornalística, para o Facebook, é apenas um arranjo para compor o cenário de outras plataformas mais lucrativas” e lembra um comentário de Mark Zuckerberg, definidor de seu conceito de notícia: “Um esquilo morrendo no seu jardim deve ser mais relevante para o seu interesse do que pessoas morrendo na África”. “A relevância a que se refere Zuckerberg”, diz Lúcia, “é a decidida pelo seu orwelliano algoritmo. Uma fórmula matemática decide o que é notícia neste varal digital.”
Daí a sua conclusão sobre o fim do jornalismo – não o jornalismo impresso, mas o jornalismo como o conhecemos e valorizamos –, como quem marcha “de olhos vendados na prancha do navio em direção ao mar”. Lúcia conclui:
“Informar não é agradar. Quem sabe, uma nova geração vai imaginar alternativas para esta alienação que já é claramente refletida no debate político brasileiro, contaminado por polarização e desprezo por fatos.
“Mas, a médio prazo, não posso me sentir otimista sobre este dilema no Brasil.
“Os novos destituídos não serão necessariamente os explorados num mercado de trabalho injusto. Serão os que não sabem, não querem saber ou não sabem o que mais há para saber”.
“Não sabem o que mais há para saber” porque estarão num tempo em que não haverá mais jornais para “dar ao público aquilo que ele não sabe que precisa”.
Assim se deformam os cidadãos involuntariamente alienados, como observou Janio de Freitas em sua coluna de domingo (19/4) na Folha de S.Paulo, ao criticar a falta de divulgação de informações relativas às discussões a respeito da reforma política, de óbvio interesse público: “Informação e ação pública andam a reboque. (…) Nem sempre quem cala consente. Depende de estar ou não informado”.
Reinventar o jornalismo?
Pensemos agora no quadro que vivemos atualmente: a onda de demissões nos principais jornais do país, parcialmente resultante da conjuntura econômica brasileira, que leva as empresas a recorrer ao mecanismo de sempre e reduzir custos cortando profissionais, justamente aqueles que poderiam garantir qualidade ao seu “produto”. Nessas horas retornam com força os apelos em torno da “reinvenção” não só do jornalismo mas do próprio jornalista, supostamente não qualificado para atuar nesse novo ambiente que, ao mesmo tempo, ninguém sabe como funciona ou para onde caminha.
Bem a propósito, o estudante de jornalismo Ricardo Faria lembrou de artigo da revista New Yorker de janeiro deste ano, um texto irônico sobre o “rei dos caça-cliques”, um criador de sites desenhados especificamente para viralizarem e lucrarem com cliques de Facebook (ver aqui). “É o retrato do espírito desta web”, comentou, destacando um trecho significativo em que o “empreendedor” explica seu processo de trabalho:
“Se eu fosse responsável por uma empresa de hard news e quisesse informar as pessoas sobre Uganda, em primeiro lugar eu procuraria descobrir exatamente o que está acontecendo por lá. Então buscaria algumas imagens comoventes e histórias que provocam emoção, faria um vídeo – de menos de três minutos – com palavras e estatísticas simples e claras. Frases curtas e declarativas. E, no final, diria às pessoas algo que elas pudessem fazer, algo que as levasse a se sentir esperançosas”.
“Aquela frase de Saramago ressoa na minha cabeça: ‘De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido’”, desabafou o estudante.
Mas trata-se de um estudante crítico. Quantos não verão aí uma saída “criativa” para a crise da profissão?
Não. Mudam as tecnologias, não os fundamentos. O jornalismo não precisa se reinventar: precisa corresponder ao ideal que o justifica e o legitima socialmente. Já se disse inúmeras vezes que o imediatismo e a cacofonia das redes tornam o jornalismo ainda mais necessário para filtrar, em meio à profusão de banalidades, boatos, falsidades e incorreções, o que é informação confiável e relevante. É, além de tudo, uma tarefa que exige compromissos éticos fundamentais, e isto não é retórica vazia: ética diz respeito a princípios e finalidades. Ética pressupõe autonomia e liberdade. Exige, portanto, uma luta permanente, sobretudo quando as empresas escancaram seu desrespeito a esses pressupostos.
Fábrica de produzir infelizes
Mas para fazer jornalismo é preciso contar com profissionais competentes. A recente onda de demissões atingiu muitos dos mais experientes. Alguns saíram a pedido, insatisfeitos com a falta de perspectiva de valorização na empresa. Os baixos salários da maioria e a falta de um plano de carreira são reclamações recorrentes. Entre os jornalistas começa a se difundir o sentimento de que esta é uma profissão para quem tem até 30 anos e não tem filhos, e que as redações são uma fábrica de produzir infelizes: gente mal paga e que não se reconhece no que faz. Considerando que o jornalismo é uma atividade à qual as pessoas se dedicam por prazer, não é difícil calcular o tamanho da frustração.
Reinventar-se e tornar-se empreendedor de si mesmo é o mantra desse mercado que desmantela qualquer perspectiva de estabilidade e joga purpurina sobre a dramática realidade da precarização, da qual as propostas de terceirização, atualmente em discussão e cinicamente vendidas como um benefício aos assalariados, são o exemplo mais acabado.
As mudanças no mundo do trabalho têm levado contingentes inteiros de trabalhadores qualificados a se degradar – perdão, a se “reinventar” –, obrigando-os a abandonar habilidades duramente aprendidas para se transformarem em pau para toda obra. Simplesmente porque é preciso sobreviver, e porque não se vislumbra saída imediata.
A crise que estamos enfrentando, e que não é de hoje, nos impõe uma resposta à altura, e esta resposta não será individual, como sugere a ideia de “reinventar-se”, que ignora a perspectiva coletiva, sem a qual nada muda. Para os jornalistas, em particular, essa resposta não pode dispensar a luta pela recuperação da dignidade e pela exigência do respeito aos princípios que norteiam a profissão.
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense,