terça-feira, 30 de setembro de 2014

As jabuticabas eleitorais (Ou as soluções exclusivamente brasileiras...........

  ......para qualquer assunto contra qualquer evidência de lógica em sentido contrário)

Mais  três jabuticabas de nossa frondosa árvore amadureceram esta semana: a proposta de diálogo com os terroristas  decepadores de cabeças do Estado Islâmico, a onda da razão que não chegou até a praia, e a substituição definitiva das lideranças políticas pensantes por marqueteiros que plantam ilusões, vendem mentiras, e colhem milhões.
A teoria da jabuticaba, desenvolvida pelo escritor e diplomata Paulo Roberto de Almeida, que ainda pretende apresentá-la formalmente à comunidade acadêmica, consiste em defender soluções exclusivamente brasileiras para qualquer assunto contra qualquer evidência lógica em sentido contrário.
Foi o que Dilma Rousseff  fez na ONU, antes e durante o discurso de abertura da assembléia geral, formalidade que o protocolo reserva ao chefe de Estado Brasileiro desde 1947.
Depois de lamentar “profundamente” o ataque  aéreo realizado pelos EUA em território sírio contra os terroristas do Estado Islâmico (ISIS), ela disse:
- O Brasil sempre vai acreditar que a melhor forma é o diálogo, o acordo, a mediação da ONU.
Uma platitude ginasiana, que infantiliza a diplomacia brasileira, como se o ISIS fosse uma organização política legítima com quem se pode sentar à mesa e negociar (O que? A forma mais humana de cortar cabeças ?) e não um grupo jihadista sunita que estupra, mata, decepa as cabeças de mulheres e de “infiéis” e espalha o terror, repelido pelos Estados Unidos e uma coalizão de 50 países, pela própria ONU e até pela “moderada” Al Qaeda.
Como se isso fosse pouco, a presidente usou metade do tempo de seu discurso para contar ao mundo as maravilhosas realizações de seu governo, como se o horário obrigatório de propaganda eleitoral tivesse sido imposto ao mundo.
Uma jabuticaba amarga.
Uma jabuticaba eleitoral foi plantada pela campanha de Aécio Neves, que resolveu batizar  um esboço de reação nas pesquisas como o início de uma “onda da razão”, que iria varrer o país para transformar todos os eleitores em filósofos cartesianos.
Onda de razão é uma contradição em termos, quase um oxímoro, como Partido do Socialismo e da Liberdade. Assim como não se conhece uma experiência concreta da convivência de socialismo com liberdade, o significado da palavra “onda” simplesmente exclui a possibilidade de sua convivência com a razão. Ondas são emocionais, turbulentas, irracionais - a antítese da razão.
Um “wishful tinking”  inventado pelos marqueteiros do neto de Tancredo Neves, com ínfimas chances de dar certo.
A terceira jabuticaba  é a nova roupagem do nosso velho conhecido: o  pensamento mágico, aquele que cria do nada o dinheiro com que o governo paga as suas contas, e que, temperado com uma certa dose de delinquência intelectual, transforma Marina Silva em uma “neoliberal”.
A jabuticaba, também chamada guapuru ou fruita (Foto: Arquivo Google)A jabuticaba,também chamada guapuru ou fruita(Imagm: Google
Sandro Vaia Jornalista, foi editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, da Agência Estado e do jornal “O Estado de S.Paulo”.

Cada um tem o inferno que merece, Elton Simões

Talvez em algum momento o inferno não seja mais os outros. O outro, claro, permanece fonte permanente de contingências, frustrações, ou limitações. Os conflitos continuam acontecendo sempre que diferentes projetos se opõem. E o outro, continua sendo um potencial obstáculo. O outro continua potencialmente tornando mais difícil a concretização de projetos, e colocando-se sempre como obstáculo no caminho desejado. Continua sendo impossível evitar a convivência com ele.
Em termos práticos, portanto, nada parece ter mudado. Exceto a maneira insistente, embora talvez inconsistente, como se tem visto o impacto do outro. Nestes dias confusos, o outro não mais é apresentado como uma limitação. Ele passou a ser desculpa. E, tudo indica, das mais eficientes.
O outro passou a ser o culpado de todos os males. Responsável por crises, problemas, e desafios supostamente intransponíveis. Integrante de conspiração improvável, talvez impossível, mas que, se bem vendida e convenientemente empacotada, torna-se até verossímil, embora jamais se transforme em verdade. Até a alquimia criativa das ideias tem suas limitações.
O outro, enfim, passou a ser a grande desculpa para males e mazelas. Sem o outro, indivíduos, população, nação, e eleitores seriam, afinal de contas, obrigados a relutantemente ou não, assumir a de responsabilidade pela origem e solução dos problemas.
É possível que existam vantagens nesta ideia. Se a culpa de todos os males é dos outros, não existia ou existe nada a ser feito exceto culpa-los frequentemente, publica, e escandalosamente. E, no processo, isentar a si próprio de qualquer responsabilidade. É ótima desculpa para a inação. Desaparece a necessidade ou obrigação de desempenhar um papel ativo na sociedade. Tudo sem culpa.
Por outro lado, as outras coisas são o que são. Se existência precede a essência, o homem primeiro existe e depois se define.  A definição que lhes confere essência e sentido, filhos legítimos da consciência.
De uma maneira ou outra, a gente tem que viver no mundo que ajudamos a criar. E o inferno continua existindo. Ele passa ser criado e aperfeiçoado pela ausência de responsabilidade e diligencia em cada passo, em cada gesto, em cada voto.
Eventualmente, o inferno deixa definitivamente de ser o outro. Ele se degenera em realidade. Passa a ser local sem portas ou cadeados. Em sua entrada, um singelo aviso: “Abandone toda a esperança. Você esta no inferno”.
Cada um tem o inferno que merece.
O inferno é logo ali (Foto: Arquivo Google)O inferno é logo ali (Arquivo Google)
Elton Simões Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos.

sábado, 27 de setembro de 2014

Marina, em meio a uma briga interna do PSB que ameaça sua campanha, em Él Pais

O partido convoca eleições para a escolha da diretoria seis dias antes da disputa presidencial

          Marina Silva discursa em São Paulo, no dia 24. 
Enquanto Marina Silva tenta se assegurar no segundo turno, o atual presidente do PSB, o cientista político Roberto Amaral, quer se agarrar ao seu trono. Uma briga interna do partido da segunda colocada nas intenções de votos do Brasil, corre o risco de afetar a candidatura dela, que começa a mostrar suas primeiras fragilidades com as quedas nas pesquisas eleitorais. Amaral agendou uma eleição para a escolha dos 35 novos integrantes da diretoria do partido para a próxima segunda-feira, seis dias antes da disputa presidencial.

Amigo e aliado do ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva, de quem foi ministro de Ciência e Tecnologia, Amaral era contrário à candidatura própria e defendia a manutenção do apoio à reeleição de Dilma Rousseff. Foi voto vencido.
O PSB decidiu lançar Eduardo Campos e ele teve de se contentar na vice-presidência da legenda. Era um cargo figurativo, no qual dava algumas opiniões sobre a formulação do programa de governo, mas não tinha a caneta para tomar qualquer decisão mais importante.
O jogo começou a mudar de cena com a morte de Campos, o então presidente da legenda, em um acidente aéreo no dia 13 de agosto. Amaral foi alçado instantaneamente ao cargo de presidente da agremiação. A neossocialista Marina, que era candidata a vice-presidente da República, virou o nome para encabeçar a chapa do PSB. Foi aí que começaram as brigas internas. Um dos coordenadores da campanha de Campos, Carlos Siqueira, se desligou da função por discordar dos posicionamentos de Marina. Amaral nunca demonstrou amores por ela e, temendo perder apoio interno, decidiu convocar o pleito. Em sua defesa, ele diz que Campos já havia programado a eleição para o dia 29 de setembro, independentemente da campanha eleitoral nacional. Pelo regimento do partido, porém, ele poderia chamar a eleição até dezembro.

A decisão de Amaral só aumentou as fissuras partidárias. O grupo de socialistas de Pernambuco, Estado natal de Campos, reclamou de ter sido deixado de fora da chapa e pediu ajuda ao líder do partido na Câmara e candidato a vice-presidente, Beto Albuquerque. Foi prontamente atendido. Albuquerque cancelou a agenda que teria em Minas Gerais nesta sexta-feira com Marina Silva para tentar impedir a disputa interna. Uma série de reuniões deve ocorrer no quartel-general do PSB em São Paulo.
“É inoportuno nesta hora eleger o presidente do PSB. É hora de eleger o presidente da República. Eduardo marcou esta data porque seria reeleito [pelo PSB]. Qual é o problema de adiar a eleição no partido? O que não pode é adiar a eleição presidencial. Isso desmobiliza”, afirmou Albuquerque ao jornal O Estado de S. Paulo.

Histórico conturbado

A chegada de Marina ao PSB já foi conturbada. Sem êxito em registrar o seu partido, a Rede Sustentabilidade, a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente se filiou ao PSB no fim do prazo legal, em outubro do ano passado. A ideia de se unir aos socialistas foi se manter viva no cenário eleitoral e tentar entregar a eles parte dos 19 milhões de votos que obteve na eleição de 2010, quando era do PV. Partido, aliás, do qual saiu pela porta dos fundos, já que não teve apoio interno e entrou em rota de colisão com a diretoria da legenda.
Internamente, Marina nunca teve tanta força. Os socialistas mais antigos a viam como uma estranha no ninho, pois sabiam que logo ao fim do segundo turno ela deixaria a legenda, independentemente do resultado das urnas. Nos dias que sucederam a morte de Campos, quando o nome dela ainda não havia sido oficializado como a substituta, era comum ver Amaral ou outros membros do partido reticentes em anunciá-la como candidata a presidência.
O sinal mais claro das dificuldades que Marina enfrentaria foi o desligamento de Carlos Siqueira da coordenação da campanha. De lá para cá, enfrentou diversos outros empecilhos partidários, como o não envio de seu material publicitário (como santinhos, panfletos e bandeiras) para parte dos Estados brasileiros e desentendimentos na divulgação de seu programa de governo, que teve de revisto em ao menos duas ocasiões. Isso sem contar a série de ataques externos que vem sofrendo de seus principais adversários, Rousseff e o Aécio Neves (PSDB).
Seja qual for a decisão dos socialistas, de adiar ou não a disputa interna, uma coisa é certa, nunca uma coligação formada por seis partidos pequenos (PSB, PPS, PPL, PHS, PSL e PRP) esteve tanto no centro das atenções em uma eleição brasileira. Agora resta saber se a atual crise é um furacão ou apenas uma brisa.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Erros sem conta, por Míriam Leitão e Alvaro Gribel

Tomara que o próximo governante saiba como resolver o nó energético do país, porque até agora o debate passou apenas pela superfície de uma crise que não tem tamanho. O governo ficou tão temeroso de admitir riscos de falta suprimento em ano de eleição que aprofundou o problema. Se tivesse havido esforço para economizar energia, a tarifa a pagar em 2015 seria menor.
Com campanhas de redução de consumo de luz, racionalização de uso, o país teria diminuído o consumo de energia em 2014. Isso teria poupado água nos reservatórios e menos termelétricas teriam sido usadas. Com menos geração térmica, a conta a pagar seria menor. Porque é assim: quanto mais se usa hoje, mais se paga amanhã. Pelas normas da Aneel, o custo de um ano vai para o seguinte.
A teimosia do governo aumentou a conta do futuro. O especialista Mário Veiga alertou para isso em entrevista que me concedeu no começo deste ano: como choveu bem menos que a média histórica todos os meses, o mais correto do ponto de vista da gestão do setor elétrico seria reduzir o consumo para poupar o bolso e para se prevenir contra o cenário pior.
Quanto maior o consumo das famílias e das empresas, maior é a necessidade de se usar térmicas. Isso eleva o custo das empresas distribuidoras na compra da energia. Outro problema é o das geradoras. Como choveu pouco, as hidrelétricas tiveram menos água nos reservatórios. O ONS mandou que elas gerassem o pico da sua capacidade, mas elas não conseguiram, por falta de água, e foram obrigadas a comprar das térmicas e arcar com a enorme diferença de custos.
O governo é culpado pelo agravamento da crise, por vários motivos. Primeiro, reduziu o preço da energia no momento errado e pelos motivos errados; segundo, adiou o programa de bandeiras tarifárias que entraria em vigor este ano. Será só no ano que vem, porque o governo não quer dar má notícia ao eleitor. O sistema de bandeiras tarifárias funcionaria como um sinal amarelo, o preço subiria quando fosse usada mais energia térmica, que é mais cara. Terceiro, em vez de avaliar sinceramente a grave crise financeira das distribuidoras, preferiu inventar a fórmula do empréstimo via CCEE para empurrar o problema para a conta do ano que vem; quarto, foi ele que, por imperícia nos leilões, deixou empresas descontratadas. Quinto: um empréstimo de R$ 10 bilhões dado pelo Tesouro em 2013 às distribuidoras deveria ter sido pago em 2014, mas foi adiado para depois da eleição.
Ficou conta demais para depois das eleições. As tarifas terão que compensar o empréstimo do Tesouro, os dois empréstimos tomados pela CCEE, os aumentos de custos das empresas e, além disso, entrará em vigor o sistema das bandeiras tarifárias. Como desarmar essa bomba? Ela foi jogada no colo de quem governar o Brasil a partir de 2015.
As geradoras estão arcando com um custo despropositado por não poderem gerar o que lhes manda o ONS. Elas simplesmente não têm água para gerar. E o custo delas não poderá ser repassado porque não está previsto em lei. O governo disse que faz parte do “risco do negócio”. Ora, nenhum setor tem que arcar com um rombo que pode chegar a R$ 20 bilhões por problemas que não foram criados por ele. Isso não é risco do negócio, é erro de gestão governamental.
O Brasil está em uma situação esquisita. Apesar de não ter crescido, foi o país no qual mais aumentou a taxa de carbono na economia, segundo uma pesquisa da consultoria PwC, que acompanha há anos seis anos o grau de “carbonização” dos países. A carbonização da economia brasileira aumentou 5,5% entre 2012 e 2013, pelo uso maior das térmicas, que já começou no ano passado. A nossa matriz está ficando mais suja, apesar de o Brasil estar crescendo pouco.
É muito mais fácil para o governo dizer que tudo que está acontecendo é provocado pela falta das chuvas. A imprevidência da gestão hídrica provocou problemas de abastecimento de água em São Paulo na administração tucana, e isso calou uma parte da oposição. De qualquer maneira, no pouco tempo de um debate, em uma entrevista ou na propaganda eleitoral, é difícil explicar a sucessão de erros do governo na área de energia. Esses quatro anos de Dilma deixam uma pesada herança que será um desafio enfrentar.

De Leila Diniz para Marina/Dilma, por Joaquim Ferreira dos Santos*


“Minhas queridas, não me venham de ré que estou em primeira. Que brigalhada é essa aí embaixo? Controlem a TPM e as pegadinhas dos marqueteiros. Eles podem ter visto trocentas vezes o debate do Nixon com o Kennedy, podem saber todos os papéis que o Collor tinha na pasta e que deixaram o Lula paralisado no debate da TV — mas essas sabedorias são armas do estado macho. Fujam dos ixpertos antes que vocês entrem para a História como personagens daquela minha última novela na Globo, a “Rainha louca”. O povão vota pelo pé na bunda desses coronéis acajus da velha política.

Eu estou aqui longe, numa nuvem forrada de paetês que roubei do cenário do “Tem banana na banda”, e talvez por isso não esteja ouvindo tudo. Mas alguma de vocês pôs as mãos nas cadeiras e propôs a liberação do aborto? Não fujam aos hormônios, minhas negas, e deixem a autonomia do Banco Central para o Aécio.

Eu sou só uma simples vedete de teatro rebolado, mas se eu não tivesse rodado a baiana, se eu não tivesse puxado os desfiles da Banda de Ipanema com as coxas de fora no tempo em que as famílias marchavam com Cristo e os militares, vocês não estavam aí liderando as novas multidões. Por isso, eu digo: acabem com esses ministérios esdrúxulos, essa tal da base aliada, essa corrupção generalizada. Façam como eu diante das feministas intelectualizadas: banana na banda de todos!

Eu sofri o diabo, meus amores, para que vocês chegassem onde estão. Quando a Janete Clair disse que na novela dela não tinha papel para prostituta e me pôs pra fora do elenco, eu também pensei em partir pra cima. Só porque eu disse no “Pasquim” que uma mulher podia gostar de um homem e ir para a cama com outro?! Mas aí eu pensei no poema que fiz quando era garota: “Brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar, o mar é das gaivotas que nele sabem voar”. Deixei pra lá. Saí voando a minha vida, com as minhas próprias asas, e empurrei a baixaria pra quem gosta.

Quando fui à luta, eu estava pensando em mim mesma, claro, que não sou de carregar bandeiras e perder tempo com a vida dos outros. Mas não apelei para o dedo no olho, como vocês estão fazendo, que isso era coisa do Verdugo, no “Telecatch Montilla”. Apelei para a emoção, a sensibilidade, essas armas da natureza feminina. Fui em busca do meu prazer e da minha felicidade. Eu queria ter os homens que quisesse e construir família, muitos filhos. Ninguém entendeu. O preconceito me chamava de galinha. Lutei com as armas da honestidade e morri na merda. Zero de arrependimento.

Sou filha de um dirigente do Partidão e só estou lembrando isso para chegar ao avesso do que vocês podem estar pensando. A política brasileira nunca prestou. Quando quebrou o pau — e vocês me desculpem se eu custei tanto a colocar o assunto na mesa —, eu fiquei na mão. Depois da entrevista pro “Pasquim”, a esquerda me chamava de alienada, a direita me via como perigo à família, e as feministas me tinham como diversionista da causa. Fiquei sozinha. Foi preciso o “reacionário” do Flávio Cavalcanti me abrigar no programa dele para eu sobreviver. Por isso, gatas fofas, livrem-se dessa politicagem antiga. Políticos brasileiros miram-se pela essência do caranguejo. Nenhum é fiel. Governem pra todos, sem 10% nem boquinha pra quem quer que seja.

Uma vez um deputado foi me procurar no teatro, cheio de propostas sacanas. Recusei todas. “Mas você dá pra todo mundo”, reclamou o idiota. Eu disse que sim, dava pra todo mundo, mas pra todo mundo que eu queria. Não pra qualquer um. O homem ficou (*). Acho que essa turma não mudou.

Eu fui perseguida nas ruas de Ipanema porque estava grávida e andava de biquíni sem aquela bata por cima da barriga. Me cuspiram na cara. Tudo isso apenas porque eu queria ir à praia do jeito que bem entendesse. Faz tempo que eu não estou aí embaixo, mas imagino, por mais fodonas que vocês sejam, que a mulherada ainda sofra o diabo. Pensem nelas. Vocês lembram da música do Erasmo, aquela do “Como diz Leila Diniz, homem tem que ser durão”? Eu estava errada. Temos todos, homens e mulheres, que ser sensíveis e honestos.

Mando esta carta porque me identifico com vocês. Uma foi torturada, a outra, empregada doméstica. Vocês sobreviveram fisicamente, eu, na memória. Quando a TV me mandou embora, eu fui vender bata indiana com a Vera Barreto Leite na General Osório. Me humilharam, me fizeram assinar um documento no Dops da Praça XV jurando que nunca mais falaria palavrão na TV. Eu continuei na minha, atrás do que eu considerava o ponto G naquele momento, a felicidade de ser uma mulher livre. O ponto G de vocês agora é governar pra geral.

A vida dá voltas, queridas, te deixa às vezes de cabeça pra baixo, às vezes de cabeça pra cima, e eu que estaria fazendo 69 anos sei muito bem do que estou falando. O importante é manter a compostura e a determinação. Tratem a política de outro jeito. Não é à toa que são duas mulheres por cima da carne seca. Os homens que passaram por aí tiravam imediatamente os melhores nacos para suas gangues. Ninguém aguenta mais essa corja de fominhas. Decidam com justiça, deixem esse papo de expedientes macho pros malandros otários — ou a próxima carta quem vai mandar pra vocês vai ser a Dercy!!!
Beijos. Leila “para sempre” Diniz”.
*Joaquim Ferreira dos Santos é colunista do GLOBO

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A HORA DE MARINA ENGOLIR SAPOS, ATÉ UM EX-BARBUDO, por Carlos Chagas

Apesar do canibalismo demonstrado pelos institutos de pesquisa com relação à eleição presidencial, dos desvios e desvãos das consultas populares, o comportamento do PT, de Dilma e do Lula continuam indicando a vitória de Marina Silva no segundo turno. A pergunta que se faz é como a candidata, se vitoriosa, construirá sua base de apoio político,  no Congresso e no ministério, presumindo-se que a tenha conquistado junto à maioria da opinião pública.
Porque os partidos, à exceção do PT, ou de parte do PT, estão de garras e presas afiadas para fazer do futuro governo o que fizeram do atual: um condomínio para obter a satisfação de seus interesses, nem sempre éticos e quase nunca voltados para o interesse nacional. Não obstante as declarações do vice-presidente Michel Temer e do senador Aécio Neves, de que seus partidos formariam na oposição a Marina, ninguém acredita. Tanto PMDB quanto PSDB precisarão sobreviver, pois só com o PSB e penduricalhos a nova administração não se aguentará. Duvida-se de que será possível governar acima e além de legendas fisiológicas,  pois  o exemplo dos últimos doze anos exigiria um milagre.
O primeiro obstáculo para a suposta nova presidente da República repousa na composição do seu ministério. Escolher apenas os melhores de cada setor, sem considerações partidárias, equivalerá a mergulhar num precipício.  Selecionar os melhores em cada partido, daqueles ávidos de aderir, exigirá  mágica ainda maior, pois os dirigentes de hoje serão os dirigentes de amanhã.  Lotear o governo, como fez Dilma Rousseff, significará um passaporte para o fracasso. Junte-se a tamanho impasse as dificuldades no relacionamento de Marina com os sindicatos, o empresariado, o agronegócio e os meios de comunicação  e se terá a receita de um enigma dentro de um mistério. Frágil ela não é, apesar das aparências  físicas.  Sua força política poderá assentar-se nos novos governadores, ainda que não todos. Afinal, eles dependerão do poder  central,  assim como a recíproca será verdadeira.
Existem otimistas que supõem o aparecimento de um  anjo a pairar sobre as trevas. Anjo meio estranho, de asas às vezes escuras, mas capaz de vir em socorro das agruras do novo governo. Chama-se Lula, única força em condições de levar o PT a uma postura de entendimento, senão de  conciliação. Na campanha, ele tem exagerado em críticas à candidata socialista, mas sua condição de criador da   Dilma não  deixa outra opção. Depois,  no caso de confirmada a derrota da sucessora, o quadro será outro. Deixar o país  naufragar por conta das limitações políticas e partidárias de Marina, mesmo vitoriosa, ou oferecer-lhe a taboa de salvação para continuar à tona.
Raras vezes na História surgiu  um nó como o que se prenuncia para o próximo ano. Por isso não tem sido poucas as opiniões de que Marina deveria engolir os sapos lançados pelo outrora barbudo, mantendo um canal de ligação com o Lula. Ele também já recebeu indicações nesse sentido. Haverá um preço, é obvio, para sanar as cicatrizes da campanha. Talvez valha à  pena.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Marina de Wall Street, por Sandro Vaia

Campanhas eleitorais produzem milagres.
Transformam Neca Setúbal, por exemplo, a notável educadora de 2012 convidada a integrar o governo revolucionário do cicloviário Fernando Haddad, num pérfido logotipo do Itaú interessado em obter perdão de suas dívidas e defender a autonomia do Banco Central para agradar a neoliberal Marina Silva, seringueira de Wall Street.
Marina de Wall Street quer, num golpe de mestre, tirar a comida da mesa das crianças brasileiras para reforçar o banquete dos banqueiros.
En passant, a seringueira quer eliminar o Bolsa Familia, o 13o salário, as férias, o salário mínimo e acabar com esse mar de abundância que passou a assolar a mesa dos pobres brasileiros depois que o PT colocou a miséria fora da lei.
Mas isso Marina de Wall Street não vai conseguir porque o coração valente de Dilma Rousseff não permitirá que aconteça, “nem que a vaca tussa”.
Estamos falando apenas dos lances mais edificantes e mais educativos da campanha eleitoral. Há também as baixarias, como a ameaça daquele Stédile – dos-sem- terra, de colocar sua gente nas ruas “todos os dias” para evitar que a ex-fada da floresta, mesmo que escolhida equivocadamente pelo povo, aplique o veneno neoliberal diretamente nas veias da Nação.
No pasarán!
E os que já passaram não querem nem pensar em comprar o bilhete de volta.
Alternância de poder, desde que seja uma alternância interna - esse parece ser o lema da versão revista e reduzida do tipo de democracia com o qual o PT sonha nas noites de verão.
Uns 40 mil cargos de confiança clamam aos céus: daqui não saio, daqui ninguém me tira.


 
The Wall Street bull
Os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem castigar. O “abraço” na Petrobras, liderado por ex-lider sindical e ex-presidente da República com o rosto visivelmente afogueado e a fala transtornada, exala desespero.
O tratamento que estava reservado aos inimigos de alma, os tucanos de sempre, gêmeos separados no nascimento, teve que ser desviado à criatura nascida e aleitada no mesmo berço, ungida não só pela infância pobre e uma história de vida semelhante à daquele que acredita que o Brasil é obra dele, mas também por uma trágica viuvez política que aumentou seu ar de madonna addolorata e seu cacife de votos.
Como Marina não é elite branca, não é liberal, como teve uma origem pobre, como é magra, frágil, diáfana, não é gerentona, nunca teve uma loja de R$ l,99 nem pode ser chamada de tucana, o PT não sabe como desconstrui-la sem dar um tiro na própria cabeça.
Talvez por isso Lula e o PT não saibam o que fazer com a faca que colocaram entre os dentes.
Marina de Wall Street, definitivamente, foi a mais indigente das invenções retóricas de seus intelectuais organicamente serviçais.

Sandro Vaia é jornalista, foi editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, da Agência Estado e do jornal “O Estado de S.Paulo”.

É possível governar sem o apoio de Renan, Sarney e Maluf?;pPor Maria Celina D'Araújo

Doutora e mestre em Ciência Política, Maria Celina D’Araujo encerra esta série de artiguetes sobre o tema levantado, na campanha eleitoral, primeiro por Eduardo Campos e depois por Marina Silva. Para ela, o normal é governar com os partidos. Quanto a desvio cometido eventualmente por algum integrante do governo em pleno presidencialismo de coalizão, é assunto de ética, polícia e Justiça.

“De 1946 a 1965 e agora, desde o fim da ditadura, praticamos o presidencialismo de coalizão. Isso porque nenhum partido ao qual pertencia o presidente eleito teve maioria em ambas as Casas do Congresso. Daí a necessidade de fazer alianças. Já em 1948 tivemos um acordo interpartidário que colocou do mesmo lado PSD e UDN.

O presidente é escolhido pelo voto direto e como candidato sempre tem expressão maior do que o partido que o registra. Uma vez eleito, não importa o quão popular seja, vai ter que governar com PARTIDOS. O grande poder da República é o Colégio de Líderes nas duas Casas do Congresso. Parlamentares votam com seus partidos, o grau de indisciplina é baixo. O Parlamento não é um mercado persa que funciona no grito individual e no voluntarismo de cada um.

Governar com partidos significa distribuir ministérios e cargos. Isso é assim em todo o mundo, até na emblemática Alemanha de Angela Merkel, que, de fato, está praticando um parlamentarismo de coalizão. É uma regra da democracia representativa em sistemas multipartidários. Dividir o poder é também sinônimo de democracia.

O que parece distorcido no Brasil é entregar cargos a pessoas que notadamente não merecem confiança ou que fazem de seus postos meios para pulos patrimoniais ou para caixa dois de partidos. Isso, contudo, não é um problema do presidencialismo de coalizão. É assunto de ética, polícia e Justiça. Temos agências de controle que funcionam relativamente bem e que precisam ser mais valorizadas. Acontece que o Congresso não tem dado muita atenção, por exemplo, às exigências do TCU, o órgão de controle externo do Legislativo para fiscalizar o Executivo. Sem levar a sério esses controles, as contas e os contratos desandam como está acontecendo na Petrobras.

O problema não é a coalizão, é a falta de controles mais eficazes. Não ter controles interessa aos maus políticos em qualquer tipo de presidencialismo ou parlamentarismo.”

Bia Lessa: 'O mercado não constrói homens, a cultura sim'

O ator Marcos Palmeira reuniu representantes de vários segmentos da arte e da cultura brasileira para uma conversa com a candidata Marina Silva, ontem, na Escola de cinema Darcy Ribeiro, no Centro do Rio. Um deles foi a diretora de teatro Bia Lessa que fez o seguinte discurso, que mesmo que discordemos, é um bom ponto de partida para um debate sobre a cultura no Brasil:
"Há várias categorias dentro da cultura: dança, teatro, artes plásticas, cinema etc. Mas todas estão dentro de duas categorias: a cultura do entretenimento e a cultura desvinculada do mercado.

Vivemos num mundo curioso, num mundo que propõe uma enorme distorção. O valor máximo, acima de todos os outros valores, é o dinheiro. Isso é evidente em todas as categorias sociais.

O homem de valor não é o homem sábio, não é o homem honrado, é o homem rico monetariamente. Essa distorção é evidente em nosso país.

Temos de um lado a cultura do entretenimento, regrada pelo mercado, muito bem-vinda e necessária; e do outro as óperas, os corpos de baile, a arte espontânea, a música popular e erudita, parte do teatro, parte do cinema, a cultura clássica, parte das artes plásticas, que não querem e não podem se submeter às regras do mercado, da mesma forma que um governo não pode e não deve se submeter às regras das empreiteiras.

Demos um passo gigante com o fortalecimento dos pontos de cultura. Mas precisamos de um passo decisivo.

Precisamos existir e precisamos manter independência, precisamos ter liberdade para contribuir efetivamente para a construção de um mundo mais justo e mais humano.

Nossas preocupações e anseios são o entendimento de nossa humanidade rica em complexidade.

O mercado não constrói homens, a cultura sim.

É preciso que o Estado tenha consciência da importância da cultura – um homem não se forma apenas pela educação. A potência de um povo é também sua potência criativa.

Gostaria de ver crescer um Brasil que utilize de seus criadores, seus mestres, seus artistas na formação de um mundo com novos valores.

Isso é muito serio!"

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Marina: 'PF perdeu autonomia no governo Dilma', Marcela Mattos e Daniel Haidar, Veja

A candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, afirmou durante um “face to face” – conversa em vídeo na qual os usuários do Facebook enviam suas perguntas – que a Polícia Federal passa por um processo de “desconstrução” no governo Dilma Rousseff. “Milhares de agentes saíram da PF nos últimos anos em função de desajuste e da perda de autonomia do trabalho”, disse a presidenciável.
A declaração mira em um dos principais argumentos da candidata-presidente, segundo quem a PF tem total liberdade e, ao contrário de gestões anteriores, não empurra denúncias para “debaixo do tapete”. Marina continuou: “Vamos continuar trabalhando para que se tenha a autonomia e isenção necessárias para o combate ao tráfico de drogas e de armas, a investigação dos casos de corrupção e ajudar a combater vários casos de crimes ambientais”.     
Marina Silva em entrevista no Rio - Foto: Vagner Campos 

Petrobras – Mais cedo, Marina Silva afirmou que o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, preso por capitanear um megaesquema de corrupção na estatal, era “funcionário de confiança” da presidente-candidata Dilma Rousseff. Ela citou o delator como exemplo da “governabilidade” do PT e do PSDB.
“Não vou aceitar a lógica que está sendo imposta há 20 anos pelo PT e pelo PSDB, de que composições são feitas de forma pragmática, com base em distribuição de pedaços do Estado. A escolha do senhor Paulo Roberto Costa, que estava há doze anos como funcionário de confiança do governo de Dilma, é resultado dessa governabilidade que as pessoas estão reivindicando que não pode mudar”, afirmou a presidenciável em entrevista a jornalistas em um hotel de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro.
Marina reage com cada vez mais veemência contra críticas de Dilma. Desta vez, afirmou que não vai admitir que "fofocas e mentiras" pautem o debate de propostas. Depois de Dilma ensaiar uma resposta à promessa de reforma trabalhista feita por Marina, a pessebista reafirmou que conquistas dos trabalhadores, como 13º salário, férias e hora extra devem ser respeitadas. Dilma tinha afirmado mais cedo, em uma versão do discurso do medo que pontua sua campanha, que “décimo terceiro, férias e hora extra não se mudam nem que a vaca tussa”. Marina respondeu: “a defesa dos interesses dos trabalhadores é sagrada para nós”.
Marina também voltou a provocar Dilma, para que explique “por que colocou no seu governo 500 bilhões de reais para meia dúzia de empresários usando recursos do BNDES, que equivalem a 24 anos de Bolsa Família”.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A corrupção na Petrobras e nas estatais, por Gil Castello Branco


A cada novo escândalo envolvendo as empresas estatais, lembro-me de frase curiosa do diplomata e economista Roberto Campos: "A diferença entre a empresa privada e a empresa pública é que aquela é controlada pelo governo, e esta por ninguém."
No Brasil, mesmo após tantas discussões sobre as privatizações, ainda existe uma centena de empresas estatais que empregam mais de meio milhão de funcionários e movimentam, anualmente, R$ 1,4 trilhão, montante superior ao PIB da Argentina. Apenas os investimentos do Grupo Petrobras no ano passado somaram R$ 99,2 bilhões, o dobro dos investimentos federais dos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).
A conjunção de recursos volumosos, ingerência política e pouca transparência fez das estatais a Disneylândia dos políticos. Afinal, parafraseando Milton Nascimento na canção "Nos bailes da vida", o corrupto vai aonde o dinheiro está. O ex-deputado e hoje condenado Roberto Jefferson, no seu livro "Nervos de aço", referindo-se aos Correios, confessa: "... é evidente que as nomeações feitas pelo PTB se prendiam, sim, a uma estratégia de captação de recursos eleitorais. Nunca neguei isso."
Essa lógica parece ser a mesma da camarilha infestada na Petrobras para intermediar negócios entre empreiteiras, prestadoras de serviços e políticos. A cada contrato, 3% para a patota. Se o próprio ex-diretor de operações Paulo Costa se ofereceu para devolver US$ 23 milhões, dá para imaginar o tamanho do rombo. A movimentação financeira irregular já identificada na operação Lava-Jato chega a R$ 10 bilhões, oriundos não só do desvio de dinheiro público, mas também de tráfico de drogas e contrabando de pedras preciosas. A importância faz o mensalão (R$ 141 milhões) parecer roubo de galinha.

De fato, as estatais são figurinhas carimbadas nos escândalos recentes. Com as eleições cada vez mais caras — e muitos ainda se valem dos pleitos para aumentar o próprio patrimônio — os partidos aparelham as empresas indicando "operadores" ou utilizam servidores de carreira filiados para viabilizar ganhos ilícitos em obras, contratos de prestação de serviços, aquisição de equipamentos ou, ainda, nos fundos de pensão. Quanto mais esses delinquentes "arrecadam", mais são valorizados politicamente.

Como consequência da interferência do governo, a Petrobras e a Eletrobras se apequenaram como "autarquias" vinculadas ao Ministério da Fazenda, reféns da política econômica. Na Petrobras, a contenção dos preços dos combustíveis, para empurrar a inflação com a barriga até depois das eleições, afetou o caixa e a rentabilidade da empresa. Na Eletrobras, as ações viraram "mico" após o subsídio ao uso das usinas térmicas e a redução das tarifas de energia. Em 2013, segundo cálculos do economista José Roberto Afonso, as duas estatais tiveram déficit primário de 0,71% do Produto Interno Bruto (0,09% para a Eletrobras e 0,62% para a Petrobras). Em conjunto, investiram 2,2% do PIB, mas tomaram 1,58% do mesmo em operações de crédito. Se fossem empresas privadas, quebrariam.

As estatais fogem da transparência como o diabo da cruz. Incluídas na Lei de Acesso à Informação (lei 12.527), pressionaram o governo e foram praticamente excluídas da obrigatoriedade de prestarem informações à sociedade pelo decreto 7.724. Algumas situações beiram o ridículo. No primeiro dia da vigência da lei, a Associação Contas Abertas solicitou à Petrobras o Programa de Dispêndios Globais (PDG), conjunto de informações relacionado às receitas, dispêndios e necessidades de financiamento. A empresa negou sob a alegação de que "a informação não podia ser fornecida por comprometer a competitividade, a governança corporativa e/ou os interesses dos acionistas minoritários". O próprio governo federal enviou-nos os dados.

Na verdade, o que hoje compromete a governança das estatais é, justamente, a falta de transparência. Os investimentos das estatais em julho, por exemplo, só serão conhecidos no fim de setembro. Sequer existe um portal com informações atualizadas e detalhadas sobre esse segmento. Na Petrobras, os mistérios são tantos que a Diretoria e o Conselho de Administração sequer desconfiavam do que Dilma e Lula costumam chamar de "malfeito", expressão que minha avó usava quando fazia um bolo e ele solava. No bom português, o que aconteceu na Petrobras envolve peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Voltando à frase de Roberto Campos, já é tempo de as empresas públicas serem controladas pela sociedade.
Recursos volumosos, ingerência política e pouca transparência fizeram dessas empresas a Disneylândia dos políticos

Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas



Referendo na Escócia: o petróleo também vota, Pablo Guimón, El País

O Blackberry não dá trégua a um passageiro no primeiro trem de Glasgow a Aberdeen na segunda-feira. O jovem engravatado suspira. Fala de um recinto, de tempos, de distâncias. Em seu caderno aberto se lê um cabeçalho: “Aberdeen-PM”. Aberdeen é a capital europeia do petróleo; PM é a abreviatura de primeiro-ministro.

O jovem, chamado Michael, é diretor de comunicação do Partido Conservador na Escócia e acompanhará a visita, difusamente anunciada, que David Cameron planeja fazer ao norte da fronteira. Aberdeen, o palco que Cameron escolheu para sua mensagem final antes do referendo, é a cidade com mais milionários per capita e com menos desemprego (2%) no Reino Unido. Daqui emana a energia que deverá alimentar uma eventual Escócia independente. 
Plataforma de petróleo, a 160 quilômetros de Aberdeen - Foto: Andy Buchanan / AFP

– É verdade que Cameron estará hoje em Aberdeen?
– Sim, mas não diga isso muito alto.
– Onde e a que horas?
– Receio que isso seja secreto. Por segurança, sabe.
Ao chegar, Michael terá piedade do jornalista estrangeiro.
– Sabe? Pegue o meu cartão e me mande uma mensagem daqui a algumas horas para ver se consigo colocá-lo para dentro ou pelo menos dizer quando é.
Aberdeen, o palco que Cameron escolheu para sua mensagem final antes do referendo, é a cidade com mais milionários per capita e com menos desemprego (2%) no Reino Unido. Daqui emana a energia que deverá alimentar uma eventual Escócia independente, o petróleo que proporcionou ao Reino Unido cerca de 750 bilhões de reais em arrecadação fiscais desde a descoberta de jazidas sob o mar do Norte, no final dos anos sessenta. Esse recurso pôs no mapa o Partido Nacional Escocês (SNP), que colocou os pés no Parlamento de Westminster pela primeira vez em 1967 e, sob o grito de “O petróleo é da Escócia!”, conseguiu 11 deputados sete anos mais tarde.

Frank Doran e Joan Ruddock formam um casal peculiar. Ele é deputado liberal-democrata por Aberdeen, e ela é deputada trabalhista por Londres. Estão separados pela afiliação política, mas unidos
 na campanha pelo não à independência. Juntos distribuem, no centro de Aberdeen, panfletos contra a separação. “Confiar um projeto de país ao petróleo é estúpido”, opina ela. “O petróleo é controlado pelas multinacionais, os Governos só criam regulamentações. Se as companhias não estiverem à vontade, irão embora. Aberdeen precisa de investimentos novos. Os nacionalistas propõem um salto às cegas. Nós propomos diversificação com energias renováveis.” “O SNP diz que o petróleo pagará tudo”, acrescenta ele, “mas são jazidas muito maduras. Os dividendos petrolíferos são apenas uma parte da riqueza do nosso país, e a Escócia tem se beneficiado dela como o resto.”A gestão desse combustível e os cálculos sobre o quanto dele ainda resta sob o mar constituem uma das chaves do referendo de quinta-feira. O SNP vende um modelo de país como a Noruega, que destina a arrecadação petrolífera a um fundo soberano que financia políticas sociais. Os unionistas, por sua vez, advertem que só com o respaldo de uma economia forte a Escócia poderia resistir aos vaivéns dos voláteis preços do petróleo; que as jazidas estão se esgotando; que, para cumprir suas promessas de gasto social, o Governo independente deveria elevar os impostos, e isso afugentaria as grandes empresas que precisam de investimentos multimilionários para explorar novas reservas, de acesso cada vez mais difícil.
No outro lado da Union Street fica o gabinete de Jake Molloy, diretor regional do sindicato de transportes RMT. Perguntado sobre o que resta de petróleo debaixo destes mares, ele se aproxima de um mapa das ilhas britânicas, com suas águas divididas em zonas retilíneas. “Os blocos vermelhos são gás, os verdes, petróleo, e os cinzas estão por explorar”, explica. “Tudo isto a oeste das ilhas Shetland, por exemplo, não foi tocado. Não sabemos o que há ali. O que sabemos é que a BP, a Shell, a Total e a Chevron estão investindo bilhões na área. Nesta outra parte, a corporação estatal da Noruega constrói uma refinaria. Quatro grandes estatais e quatro grandes companhias privadas estão investindo muito em nossas águas. Isso dá uma ideia do que há aí embaixo.”
Molloy minimiza o risco de que a incerteza pós-independência possa afugentar as empresas petroleiras. “O sim poderia salvar o setor”, defende, “porque ele seria mais bem administrado. Não é possível fazer pior do que como vem sendo feito até agora. O único momento em que os [parlamentares] de Westminster pensam no petróleo é quando põem gasolina nos seus carros. Este país não teve uma política energética. Fala-se de recursos renováveis, mas não há um plano. Não sou seguidor do [líder separatista Alex] Salmond, mas ele tem razão quando diz que a Escócia pode administrar seu petróleo como os escandinavos. Sendo muito pessimistas, temos reservas para 30 anos. A única coisa que separa a Escócia da independência é o medo”.
A tarde descarrega uma chuva forte sobre Aberdeen. Michael, do departamento de comunicação conservador, não respondeu às mensagens, mas um emocionado Cameron já disse: “Se a Escócia votar sim, o Reino Unido se dividirá e partiremos por caminhos separados para sempre”.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Invadiram minha casa. Mas era apenas business, por Tânia Fusco

Um dia, fora do horário comercial, a tela do seu smartphone acende com a mensagem: “Invadiram sua casa...” Você mora em casa mesmo. Naquele momento, não há ninguém lá. O mundo, qualquer um sabe, anda bem selvagem. Ou seja, no meio segundo antes de abrir a mensagem inteira, seu coração disparou, a adrenalina foi a mil.
Tela aberta, texto inteiro exposto: “Invadiram sua casa e danificaram seu portão? Seguro tal, casa protegida disponibiliza vigilância entre outras assistências por xx mensais”. Ufa! Era só uma empresa idiota, cujo criativo praticava o marketing do susto.
Você respirou aliviado. Era só um “comercial”. Daí, para. Como assim? Só? Qual só, qual nada. É uma empresa - mais uma! - que comprou ou roubou um cadastro com meu número de celular e invadiu minha caixa postal. 
Você tem ganas de responder a mensagem. “A casa da sua mãe também!” Não pode. Ali, no bina da sua telinha, só tem quatro números. É um código, não um telefone que permite respostas. O tal numerosinho é devidamente protegido para aceitar apenas um “OK”. Nada além. Se não concordar, fique quietinho, delete a mensagem, que é todo o direito que você tem.
Ta certo isso, Arnaldo?
Claro que não. Não sou eu a única rabugenta diariamente invadida por dezenas de mensagens do tipo casa protegida – muitas delas inclusive de sua própria operadora.
Aquela mesma operadora que, aliás, quando você precisa de algum serviço, tem que discar um setecentos números de uma plataforma de voz até ser atendida por uma múmia, que “vai estar repassando” você para outras incontáveis mumiazinhas, que também “vão estar” não resolvendo o seu caso. 
 
 Quem nos defende das mensagens eletrônicas vindas dos quatro números codificados, usados até por presidiários para o já manjadíssimo golpe do você-ganhou-50-mil-reais?
As operadoras se garantem com uma tal opção em que o contratante – eu, você e todo mundo – marca um xizinho concordando em receber mensagens da dita cuja. (Se não aceitar, elas chegarão do mesmo jeito. E a vítima precisa ligar para a agência reguladora, que terá um mundo de dias até resolver (?) sua demanda).
De qualquer forma, você concordou em receber mensagens da-que-la operadora. Só dela. Não de eventuais clientes-usuários do cadastro da dita cuja, não é? Seria.
Perguntar não ofende. Alguém tem ideia de quanto vale um cadastro desses com nossos números de celular, e-mails, etc.? Valores de muitos zeros, imagino.
É legal a venda deles? Quem controla? Bandido ou mocinho? Os dois? A empresa vendedora repassa lucros sobre essas vendas para nós clientes/vítimas?
Celular é o mais pessoal dos telefones. É o autêntico “meu número”, do qual, em tese, só eu poderia dispor. Não é nada assim.
Não bastasse a bisbilhotice geral e irrestrita da mega espiã americana NSA, por muito mais do que 30 dinheiros, todo dia, toda hora, aqui na terrinha, qualquer empresinha de fundo de quintal invade nossas telas para vender o que lhe der na telha.
E nós, que protestamos até contra nomes de série de TV (fala sério!), bem carneirinhos, engolimos sem nem regurgitar.
Tânia Fusco é jornalista, mineira, observadora, curiosa, risonha e palpiteira, mãe de três filhos, avó de dois netos. Vive em Brasília. Às terças escreverá sobre comportamentos e coisinhas do cotidiano – relevantes ou nem tanto.

O contra-ataque do Império, por Nelson Motta, O Globo

Como uma nostalgia caricata da monarquia, uma das piores distorções do presidencialismo brasileiro é a sua atitude imperial. Os governantes falam eu fiz isso/eu fiz aquilo como se tivessem feito com as próprias mãos, pagando do próprio bolso.

O governo federal se mostra como um magnânimo monarca quando repassa verbas públicas aos estados e municípios, como um grande favor e um gesto de bondade a ser retribuído. Quando era ministro do Trabalho, Carlos Lupi apresentava em rede nacional estatísticas de emprego e eu quase acreditava que tivessem sido criados por ele e seu ministério, e não pela industria, comércio e serviços… rsrs.
Não é só uma cara de pau algumas vezes hilariante, e outras, constrangedora, mas símbolo de uma cultura popular em que o presidente é imaginado como um imperador, que distribui dinheiro, empregos, progresso e justiça por vontade soberana, como se não existissem o Congresso, os tribunais, o Ministério Publico, a imprensa, as redes sociais e a opinião pública.
Com Lula, nasceu o mito do imperador-operário, ou do sindicalista-imperador, que tudo pode e tudo faz, até uma refinaria de bilhões de dólares como um agrado ao companheiro-imperador Hugo Chávez, que, imperialmente, nunca botou um bolívar no projeto, deixando a conta para a Petrobras e os súditos.
Que candidato seria estúpido o bastante para ser contra o Bolsa Família, o aumento do salário mínimo ou o pré-sal e os seus trilhões de dólares para a Educação e a Saúde? Ficaria falando sozinho e seria chamado de burro e louco pelos adversários.
Quem poderia acabar com o pré-sal, o Bolsa Família, a reeleição, liberar as drogas, o aborto, dar independência ao Banco Central ou privatizar a Petrobras sem maioria parlamentar e aprovação do Judiciário? Nem se fosse imperador, seria deposto.
Numa república democrática, tudo isso parece óbvio, chato e repetitivo, mas não no Brasil, onde estamos em uma acirrada campanha para eleger uma imperatriz, ou imperadora.
Já no Império Americano, mais objetivo, ninguém consegue se reeleger imperador com a economia ruim: foi o que derrotou Jimmy Carter e George Bush pai. 
Comentario meu--ex-fundador do PDT, vi o Brizola cercar-se (apos guindar-se ao PODER!) de todo tipo de puxa-saco. Finalmente entregou o Partido fundado a duras penas, a este homunculo, cuja função inicial era vender-lhe, diariamente as folhas, na banca de jornais em frente a casa dêle, na Av. Atlantica. Desde então faz negocios (Seu nome acima Carlos Lupi)                                                                           com a legenda....a cada eleição. 

Vai trabalhar

Veja só como falar mal de político não é, claro, exclusividade dos brasileiros. No programa inglês “Graham Norton show", exibido pela BBC, o assunto era bombardear os políticos de lá. O comediante John Bishop deu, então, a sua receita para melhorar a política: “Todo homem, para ser político, tinha antes que arrumar um trabalho”.
Comentario meu- ....ja que se tornou PROFISSÃO deve e tem que ser REGULAMENTADA. Como todas as outras, inclusive os padres, pastores e outros candidatos a MESSIAS.
Curriculum Vitae nêles!!!! E MUITA vigilância PATRIMONIAL! Vagabundo descobriu que enganar é mais negocio do que trabalhar. Temos um bando de "171 " fraudando a Nação! Estelionatarios na CADEIA .......(vai faltar vaga).

A guerra na televisão, por Felipe Schulman

No começo da campanha todo mundo faz pose de bonzinho, alegre, amigável, fofo. Os comerciais são baseados, para a oposição, na esperança de um futuro melhor, e para a situação, na ideia da continuidade, sempre repetindo que tudo vai bem, tudo está ótimo.
Na reta final da campanha, as coisas mudam. Começam os ataques: Dilma investe contra Aécio, criticando a construção de um aeroporto em Minas, e Aécio e Marina atacam Dilma, condenando o escândalo de corrupção na Petrobras.
Dilma e Aécio procuram atingir Marina, afirmando que ela é uma incógnita porque muda de opinião e, às vezes apresenta soluções modernas para os problemas nacionais, às vezes sugere saídas retrógradas.
Para o eleitor comum os ataques e insultos dão medo. Se são todos corruptos, como se escolhe o menos corrupto, o menos pior?
Os ataques na TV até traz benefícios ao eleitor: apresentam os problemas dos candidatos e os expõem, o que é importante. A questão é que com isso o voto ideológico acaba ignorado. Devido ao sistema político atual, essa espécie de voto está quase extinta: quase todos votam ou com o intuito de tirar um partido do poder, ou com a ideia de escolher o menos pior, principalmente quando se trata da corrupção. Mas então o que difere os candidatos?
Para mim, que estou vendo tudo isso de perto pela primeira vez, é difícil escolher meu candidato, principalmente por não enxergar tantas diferenças ideológicas entre os presidenciáveis quanto gostaria. É claro que existem algumas divergências importantes, mas para mim falta aos candidatos e partidos brasileiros hoje uma ideologia firme.
Se o PSDB de Aécio se opôs ao assistencialismo petista como agora volta atrás e diz que vai mantê-los? Como enxergar o novo na Marina quando ela se coloca à mercê de um pastor, defendendo ideias do século passado? 
Se Dilma se apresenta como uma gerente supercompetente, como ela perdeu o controle do que acontecia na Petrobrás, bem em baixo do nariz dela?
São as perguntas que ficam enquanto os candidatos se agridem... Quando se trata da luta pelo poder parece que as ideias de todos ficam muito parecidas e para a gente fica difícil escolher.

 








Felipe Schulman é um estudante paulistano e tem 17 anos

Quando a lama elimina as diferenças, por Elton Simões

“Quando os fatos são favoráveis, bate-se pelos fatos. Quando as leis são favoráveis, bate-se pela lei. Quando nem os fatos, nem a lei são favoráveis, bate-se na mesa”. É o que prescreve, com clareza e aparente relação com a realidade, um velho aforismo, quase uma profecia, do direito Anglo-saxônico (*).

É uma máxima que em suas poucas palavras, explica, expõe, e torna explícitas as razões praticas pelas quais nossos ouvidos são diariamente assaltados por um emaranhado de pensamentos (ou nem tanto) falsos, confusos, e, acima de tudo, inúteis e ofensivos. Não precisa o tempo exato, mas identifica a razão pela qual o debate se transformou em um interminável campeonato de arremesso de lama.
Parece já ir longe o tempo em que discutir fatos, leis, projetos, planos e preceitos morais era importante. Época passada que, pelo jeito, pode não voltar tão cedo. As ideias se decompõem aos olhos de todos como vitimas insepultas do cinismo imposto a golpes na mesa.
Negar a culpa, autoria ou envolvimento; provar ou mesmo declarar inocência tem cada vez menos valor, se é que ainda conserva algum. O importante não é mais explicar porque as opções são diferentes e muito menos quais são seus benefícios ou qualidades.
Mais comum e, aparentemente mais aceitável e eficiente, tem sido explicar a ausência de diferenças. Lama é matéria prima ideal e indispensável para esta tarefa. Quando cobertos por ela, as opções parecem ser muito semelhantes.
Ver o que se esconde embaixo da camada de lama parece ser trabalho de Sizifu, reservado aqueles que, movidos por vocação, esperança ou perseverança, ainda procuram a luz no fim do túnel.
Em um debate em que todos afirmam estar seguros da legitimidade e benefícios de suas ideias e projetos, a mesa tem sido espancada com violência, virulência e frequência. Talvez porque os fatos e as leis não ofereçam o desejável e necessário abrigo aos argumentos e objetivos de cada debatedor.
E a lama segue sendo arremessada com precisão e arte, progressivamente eliminando a utilidade do debate, obscurecendo as diferenças entre as opções e ofendendo a inteligência alheia.
Definitivamente, não é época para ouvidos sensíveis. Ao fim e ao cabo, tudo parece muito igual. E muito ruim.

(*) "If you have the facts on your side, pound the facts. If you have the law on your side, pound the law. If you have neither on your side, pound the table."

 





Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A força do mito, O GLOBO--Opinião

O novo mito Marina Silva é mais forte do que pensava o establishment. Suas intenções de voto resistem ao desesperado bombardeio dos candidatos ameaçados pelas urnas por sua complacência com as práticas da "velha política". A frágil seringueira que venceu as terríveis doenças de uma infância pobre e desmarcou na véspera um embarque no voo da morte tornou-se o veículo da indignação com a roubalheira na política e marcha predestinada rumo à Presidência da República. Este é o enredo em configuração.


"Os partidos perderam o vínculo com a sociedade. Não consigo imaginar que as pessoas possam confiar em um partido que coloca por 12 anos um diretor para assaltar os cofres da Petrobras. Querem que os partidos continuem fazendo do mesmo jeito? Prefiro acreditar que podemos começar um novo caminho", diz a mensageira da "nova política" em sabatina promovida por O GLOBO. "Em todos os partidos tem gente corrupta. Nós não empurramos a corrupção para debaixo do tapete. Nem engavetamos processos como era feito", responde Dilma Rousseff também na sabatina.

Os militares no Antigo Regime e a social-democracia hegemônica desde a redemocratização empurraram os gastos públicos de menos de 20% para quase 40% do Produto Interno Bruto brasileiro. A corrupção sistêmica tem aqui suas raízes profundas. Envergonhou os militares, devastou a "direita" fisiológica e desmoralizou a social-democracia, atingindo sucessivamente os grandes partidos de "esquerda" — PMDB, PSDB e PT —, que se revezam no poder há sete mandatos presidenciais, com uma breve interrupção de um "direitista" emparedado pelo impeachment. A perda de governabilidade por Collor teria sido por "corrupção de direita" ou por "corrupção não compartilhada"?

Não sabemos exatamente como será a "nova política". Mas conhecemos o suficiente das práticas degeneradas da "velha política" para rejeitá-las. Sustentação parlamentar não pode ser sinônimo da compra de votos pelo Executivo no Congresso. A falta de aprofundamento dessa questão nos debates eleitorais deixou para Marina o simbolismo das mudanças e, para os demais, a pecha de complacentes com o status quo. A reforma política não é apenas uma exigência moral. É também uma necessidade para tornar funcional nossa democracia representativa.

Não sabemos como será a 'nova política'. Mas conhecemos o  suficiente das práticas degeneradas da 'velha
política' para rejeitá-las  

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Amor (Desamor) nos Tempos Atuais, Dr CARLOS VIEIRA

Por estranha coincidência eu estava lendo uma entrevista no jornal El Pais: Um atual filósofo, residente em Berlim, Byung-Chul Han, pensador coreano, uma nova estrela da filosofia alemã, sobre a “condição humana atual. Uma de suas ideias é sobre a Depressão(até aqui nada de novo!), mas o que destacava era o fato de que depressão tem a ver com a “incapacidade de relação com o outro”; incapacidade de amar, dificuldade de manter a fortaleza de Eros como possibilidade de pensamento e desenvolvimento amoroso nas relações com o ser semelhante.

Referi à estranha coincidência pois, num momento, num café, onde fui abordado por um jovem de mais ou menos vinte anos que me conhecia e sabia que sou psicanalista.

—Tio, você que fica ouvindo o que as pessoas pensam e sentem, é verdade que hoje, a maioria das pessoas, inclusive jovens, sofre de depressão?

—Correto, respondi de imediato. Sofrem sim, mas é preciso saber distinguir depressão como enfermidade psicótica, por exemplo, a famosa Melancolia, e depressão, estados depressivos em personalidades ditas normais. Depressão sem depressão, como dizem os italianos, ou seja, a pessoa revela somente os equivalentes depressivos: cansaço, desanimo, sentimento de vazio, de futilidade, de ausência de crença no futuro, pura descrença nas relações amorosas.

-Mas tio, outro dia, uma amiga minha que faz Medicina falou que vivemos num mundo vazio, sem afeto, sem investimento afetivo nos outros, e isso leva a uma vida superficial, “liquida”, sem sentido de futuro e sem esperança de amar e ser amado, exatamente como você diz. Você escuta isso em sala de análise, como vocês costumam falar?

—Olha Cláudio, nome do jovem conhecido: precisamos esclarecer algumas coisas que a mídia, os programas de televisão, as entrevistas com pessoas leigas andam falando sobre Depressão. Depressão, no sentido psicanalítico é alguma coisa ligada à perda ou incapacidade de investir afetivamente na outra pessoa. Depressão é, às vezes, consequência de grandes frustrações, de ideais não realizados, amores não correspondidos, infância onde não houve suficiente capacidade amorosa dos pais, mães que sofrem do que chamamos de “síndrome da mãe morta”(expressão cunhada por um analista famoso, falecido recentemente, Dr. Anfré Green), condições ambientais precárias de sobrevivência física e emocional, feitura perversa da sociedade de consumo, de fundo capitalista selvagem e de relações de uso, ditas narcisistas, onde imperam os impulsos de voracidade, vampirismo e uso do poder para beneficio próprio. Tem sentido quando o nosso Coreano fala que o amor, que o resgate de Eros é a esperança de uma vida amorosa, tanto no plano dual, duas pessoas, como no sentido social e político – a política é a arte de desenvolver e criar condições para atender às necessidades e desejos básicos dos homens.

-Complicado tio, mas estou cheio de amigos que sofrem disso que você fala. Lembrei-me do primeiro filme – “Ninfomaníaca”, assistiu? Pois bem, quando houve possibilidade de colocar amor na relação, ela entrou, no que entendi como de “crise de pânico”.

-Está aí, Cláudio, um dos vértices de observação de uma crise de pânico – às vezes penso ser uma crise de iminência de morte, de falência psíquica, mas que no fundo revela uma profunda pobreza de vida afetiva e de sentimento de abandono e solidão. Não é raro observar que uma grande parte das pessoas está repleta de ódio, mágoa e ressentimento dentro de si mesmas. Pode lhe parecer estranho mas estou a cada dia mais convencido que Depressão é Ódio, por si mesmo ou por outra pessoa. São João da Cruz dizia: “quem não tem amor dentro do seu coração sofre de solidão”. Acho que uma pessoa que tem muito ódio dentro dela sofre de Depressão. Reflita sobre isso, meu jovem.

Byung-Chul Han, o filósofo coreano, que já publicou na Espanha dois dos seus livros: “La sociedad del cansancio; “La sociedad de la transparência” e um terceiro que lançará em abril, “La agonia de Eros”(na Editora Herder) traz algumas reflexões interessantes e atuais. Neles, diz o entrevistador, Francesc Arroyo:”Neles(os livros) o autor analisa os males do presente: o homem contemporâneo, sustenta o filósofo, já não sofre de ataques virais procedentes do exterior; se lamenta a si mesmo entre a busca do êxito. Um recorrente narcisista para o nada que se esgota e se afunda na depressão. É a consequência insana em rechaçar a existência do outro, de não assumir que o outro é a raiz de todas as nossas esperanças. Mais ainda, somente o outro leva a Eros e é precisamente o Eros que gera conhecimento.

Logo a seguir, Han diz: O Narcisismo faz você perder o outro e esse narcisismo leva à Depressão, comporta a perda de sentido de Eros... Há possibilidades de vencer esse estado depressivo? A forma de curar essa depressão é deixar para trás o narcisismo. Olhar o outro, dar conta da sua dimensão, da alteridade, da sua presença, argumenta, porque frente ao inimigo exterior se pode buscar anticorpos, mas não cabe anticorpos contra nós mesmos. Isso me faz lembrar o que Freud diz em seu estudo sobre a Paranoia, que mesmo projetando tudo seu para o exterior é impossível fugir de si mesmo.

Meu interlocutor Cláudio, meio que espantado com essas ideias, diz:

—Então tio, o amor cura, não?

-É verdade, o amor cura, mas precisamos ter consciência de que também devemos ter amor a nós próprios, o que um psicanalista  recentemente falecido, Dr. André Green, que viveu toda a sua vida em França, disse: existe um narcisismo de Vida, (autoestima, amor-próprio, amor pelos outros), e um narcisismo de Morte (o uso dos outros como objeto, como coisa, para beneficiar seus prazeres), o que hoje chamamos de uso vampiresco e consumista das outras pessoas como se fossem “drogas”.

—Legal tio, vai ver que é por isso que se fala muito em “ficar” e não namorar, amar.

-Perfeito Claudio, você está sacando a questão do Amor e da incapacidade de Amar nos tempos atuais!

“A Fina, a doce ferida...”

“A fina, a doce ferida/ Que foi a dor do meu gozo/ Deixou quebranto amoroso/ Na cicatriz dolorida.

Pois que ardor pecaminoso/ Ateou a esta alma perdida/ A fina, a doce ferida/ Que foi a dor do meu gozo.

Como uma adaga partida/ Punge o golpe voluptuoso.../Que no peito sem repouso/ Me arderá por toda a vida/ A fina, a doce ferida.” (Poema de Manuel Bandeira em seu livro Carnaval.)
Carlos de Almeida Vieira - psicanalista e psiquiatra.