quinta-feira, 31 de julho de 2014

O quanto pode uma ex, por Zuenir Ventura

Comentario meu---entende se porque ha gente que NAO separa nem a pau....

O deputado federal Rodrigo Bethlem, às voltas com um considerável escândalo, parece que não deu importância ao que já foi dito e escrito muitas vezes — que a moral e os bons costumes políticos devem muito a ex-mulheres, graças às quais alguns malfeitos foram conhecidos depois de terminado o casamento.
O folclore sobre o tema criou até máximas: “Ex-mulher é para sempre.” “Político não deve se separar.” “A pior vingança é a de uma ex contrariada.” Há diversos exemplos, como o que ocorreu em 2000, quando Nicéa, mulher por 30 anos do então prefeito de São Paulo, Celso Pitta, denunciou-o em represália a um processo de separação litigiosa movido por ele.
Ela foi à televisão e o acusou de ter distribuído fortunas aos vereadores para encerrarem uma CPI. Outro caso famoso foi o dos quatro auditores paulistas acusados de desvios de R$ 500 milhões. A ex de um deles escancarou em entrevistas a vida de dissipação que levavam com o dinheiro das propinas. Segundo ela, ele não tinha vergonha de dizer: “Ah, eu roubo mesmo.”
A ex da vez é a bela Vanessa Felippe, filha do presidente da Câmara de Vereadores do Rio e que, aos 22 anos, em 1994, foi eleita a mais jovem deputada federal pelo PSDB. Em 2011, ela gravou escondido uma conversa de horas com o ex-marido, guardou as explosivas fitas e há pouco resolveu entregá-las à revista “Época”.
Ao saber disso, o advogado de Bethlem apressou-se em fornecer à redação um atestado médico e uma declaração em que Vanessa voltava atrás e declarava sofrer de problemas psiquiátricos. A intenção da pressurosa operação era evidentemente tentar desqualificar as acusações de corrupção, um recurso comum em casos assim, quando é difícil desmentir testemunhas.
A questão, porém, é que as revelações que o incriminam são feitas por ele, não por ela. É Bethlem quem diz: “Você está careca de saber que fui à Suíça abrir uma conta. Não seja hipócrita.”
É ele também quem confessa em outro trecho quanto embolsava por mês do convênio entre uma ONG e a Secretaria municipal de Assistência Social, da qual era titular: “Em torno de R$ 65 mil, 70 mil”, ele informa à ex-mulher.
O mais curioso é que, em nenhum momento, ele sugere ou insinua que ela estivesse com algum transtorno de personalidade. Ao contrário, quem confessa andar “paranoico” é ele, quando ela pergunta por que estava falando tão baixo ao revelar que seus rendimentos eram de R$ 100 mil por mês. Ele então explica que anda preocupado com a possibilidade de estar sendo grampeado por algum “inimigo”.
Não imaginava que o “inimigo” estava ao lado. 

Deputado federal Rodrigo Bethlem (PMDB / RJ) - Foto: Mauro Pimentel / Terra 

Zuenir Ventura é jornalista

Novos Baianos - Acabou Chorare [1972] | Completo album

            

Frei Betto: Receita eleitoral

Rio - ‘Trate de se apresentar muito bem preparado ao discursar. Em campanha eleitoral, você precisa obter o apoio dos amigos e o apreço do povo. Faça amizades de todo tipo: para ter uma boa imagem, com homens de carreira e nomes ilustres (os quais, mesmo se não têm interesse em declarar seu voto, ainda assim conferem prestígio ao candidato). 

Três coisas levam os homens a dar apoio eleitoral: favor, esperança ou simpatia espontânea. Graças aos mais insignificantes favores, as pessoas são levadas a julgar que há motivo suficiente para declarar seu apoio. Quanto aos que são atraídos pela esperança, aja de modo a parecer disposto a prestar ajuda, e também de forma a perceberem que você é um observador cuidadoso das tarefas executadas por eles. 
O terceiro tipo é o apoio espontâneo, que será preciso consolidar expressando agradecimentos, adaptando os discursos aos argumentos que parecem seduzir cada adepto isoladamente, dando mostras de retribuir-lhes a mesma simpatia, sugerindo que a amizade pode transformar-se em íntima e habitual. 
Volte sua atenção para a cidade inteira, todas as associações, todos os distritos e bairros. Se atrair seus líderes à amizade, facilmente terá nas mãos, graças a eles, a multidão restante. Habitantes de cidades pequenas e da zona rural, se os conhecemos pelo nome, acham que privam de nossa amizade. 
Agora, cuidado com o seguinte: se alguém lhe prometeu fidelidade e você descobrir que tem duas caras, finja que não ouviu ou percebeu; se alguém, julgando que você suspeita dele, quiser atestar inocência, garanta com firmeza que nunca desconfiou do apoio que recebe nem tem por que desconfiar. Você deve ensaiar, até que pareça agir naturalmente; é preciso certa bajulação, a qual mesmo sendo viciosa e torpe no restante da vida, é imprescindível na campanha eleitoral. 
Outro conselho diz respeito a um pedido ao qual não seja capaz de atender: nesse caso, negue de modo simpático ou, então, não negue de jeito nenhum; a primeira atitude é de um bom homem; a segunda, de um bom candidato. Todas as pessoas, no íntimo, preferem uma mentira a uma recusa. Cuide para que sua campanha seja brilhante, esplêndida e popular, que tenha uma imagem e um prestígio insuperáveis.’ 
(Este texto foi escrito por Cícero, em Roma, há 2.077 anos, para seu irmão, Marco Cícero, candidato, em 63 a.C., ao mais alto cargo da República, o de cônsul, equivalente ao de presidente atualmente.)

Frei Betto é autor de ‘Reinventar a vida’ (Vozes)