sábado, 31 de maio de 2014

Um juiz para a História, Ruy Fabiano

Jamais o anúncio de uma aposentadoria no Supremo Tribunal Federal, mesmo de alguém que ocupava sua presidência, foi motivo de tanto espanto e comentários quanto a do ministro Joaquim Barbosa, anunciada esta semana.
Isso dá a dimensão que sua figura pública adquiriu, circunstância rara entre os integrantes da Suprema Corte, em regra conhecidos apenas nos meios acadêmicos e jurídicos.
Contrariou colegas, advogados, políticos, militantes; sobretudo, contrariou os padrões vigentes no meio jurídico nacional, onde a graduação política do réu exerce influência decisiva na condução (e desfecho) de seu julgamento.
Não é casual que o Mensalão tenha sido um divisor de águas na história política e jurídica do país. E o Mensalão definitivamente remete à figura de seu relator, o ministro Joaquim Barbosa.
O fato histórico de ter levado a Suprema Corte, por força de seus argumentos e das provas que soube articular, a condenar personagens da elite política e econômica do país – um país cujas tradições as absolveriam –, confere-lhe méritos bem acima de seus proclamados defeitos, que evidentemente existem.

Fala-se, por exemplo, de seu temperamento mercurial: pois foi graças a ele, com todas as suas impropriedades, que convenceu a opinião pública de que o monstro da impunidade estava sendo ali enfrentado. E a opinião pública correspondeu-lhe plenamente ao esforço e audácia, que lhe custaram não poucos contratempos.
A militância partidária o responsabiliza pela condenação de seus líderes, esquecida de que não votou só. E ainda: de que a votação não se baseou em abstrações. Provas havia em abundância, e o mérito de Barbosa foi a de ter sabido enunciá-las e relacioná-las com engenho, coragem e coerência, convencendo a maioria de seus pares, homens de grande cultura jurídica.
As demonstrações de decepção por parte da alta cúpula do PT – sobretudo do ex-presidente Lula -, que esperava subserviência de Barbosa em troca da nomeação, dizem bem da mentalidade tosca e segregacionista ainda vigente no país.
O partido que postulava vocalizar o povo agiu como um clássico senhor de engenho.
João Paulo Cunha, um dos condenados, disse que Barbosa deveria ser grato por ter sido o primeiro negro nomeado para a Suprema Corte do país. Outros, inclusive Lula, disseram coisas na mesma linha de raciocínio. São colocações perfeitamente racistas, que Barbosa soube refutar com sua conduta.
Se o que motivou sua nomeação foi a cor da pele, e a exploração política dela decorrente – e disso não há dúvidas, pois foi mais que confessado -, ele prestou inestimável serviço à causa da luta antirracista, recusando o papel de subserviência que lhe cabia. Respondeu com a exibição de independência, lastreada em sólida cultura jurídica, à altura dos maiorais da Corte. Fez jus aos requisitos constitucionais, ao contrário de outros que ali estão.
Barbosa entra para a História, não obstante sua curta permanência no STF. Outros ali ficarão por mais de duas décadas e deles ficará a memória de terem sido antagonistas num julgamento de peso simbólico incomparável.
Leva consigo o peso da causa que personificou – a quebra da impunidade, numa Justiça jejuna em condenações políticas -, com todos os excessos que protagonizou, sobretudo as desnecessárias picuinhas na execução das penas.
Como quem cumpre uma missão, da qual nem ele parece ter a exata dimensão histórica, deixa atrás de si um rastro de espanto e perplexidade, palavra-síntese de sua passagem-relâmpago pelo Judiciário brasileiro.

Ruy Fabiano é jornalista.

BELEZA INTERIOR, Victoria De Masi

Cirurgias íntimas: aumenta quantidade de consultas para embelezar genitais, na Argentina.

Os retoques mais procurados são para diminuar a vagina e aumentar a espessura do pênis. Os tratamentos podem chegar a custar 30.000 pesos (cerca de R$ 7,5 mil).
Leia mais----aqui

Mito derrubado: brasileiros e argentinos nem sempre se entendem em portunhol

Giselle Sousa Días, enviada especial do Clarín a Florianópolis --aprofunde AQUI a sua ignorancia da lingua brasileira--

Muitas palavras soam parecidas, mas significam outra coisa e no Brasil elas são chamadas de “falsos amigos”. Chaves para evitar cair no ridículo.
Quando a pessoa chega ao Brasil deve saber que o portunhol às vezes ajuda e que outras vezes pode deixá-la a ver navios ou fazendo um papelão.

Se você for comprar um biquíni não peça “um novo corpiño” (leia-se corpinho) porque seu corpinho*, embora esteja um pouco flácido e barrigudo, não está tão mal.

HUMOR--
Um psicólogo que vive em Ciudad Satélite chama por telefone às quatro da manhã seu colega que vive no Pedregal e diz:
- Pancho, vem com urgência, tenho um caso único no meu consultório.
- Mas como a estas horas; irei de manhã.
- Tem que ser agora, esta é uma grande oportunidade: É único!
O médico do Pedregal, de pijama pega seu carro e chega a satélite. Recebe seu companheiro:
- Verás, é sensacional.
- Mas o que pode ser tão urgente?
- Tenho um argentino no meu consultório...
- E o que que tem, eu também atendo muitos!
- Sím, mas... com complexo de inferioridade?

Urubu tá com raiva do boi - Baiano e os Novos Caetanos

                                

Pau e circo, por Nelson Motta, O Globo

"Macaco que muito mexe quer chumbo" é um velho e sábio ditado mineiro sobre os perigos da superexposição e do exibicionismo, mas certamente nem passou pela cabeça de Lula e Ricardo Teixeira quando fizeram o diabo para trazer a Copa do Mundo para o Brasil, imaginando os benefícios políticos e comerciais e esquecendo os riscos e consequências de se colocar no centro das atenções do mundo como sede de um evento dessa grandeza. E veio chumbo grosso.
Recebidas como ofensas ao país, as críticas internacionais foram respondidas com bravatas grandiosas e apelos ao patriotismo paranoico, como se os estrangeiros só revelassem as mazelas e precariedades que estamos cansados de conhecer por maldade, inveja e má-fé, ou talvez por tenebrosas conspirações para atrapalhar a nossa Copa. É reserva de mercado: só nós podemos nos esculachar.
Mas, depois de sete anos, das 167 intervenções urbanas prometidas, só 68 estão prontas e 88 atrasadas, e Lula explicou tudo: “Vai levar alguns séculos para a gente virar uma Alemanha.”

                        
                                   Ricardo Teixeira e Lula. Foto: Ricardo Stuckert / PR

O complexo de vira-latas também se caracteriza pela incapacidade de reconhecer erros, de responder a críticas e de tentar disfarçar o sentimento de inveja e inferioridade com a força bruta de hipérboles, bravatas e rosnados.
Quando Nelson Rodrigues disse que a vitória na Copa de 1958 nos livrou do complexo de vira-latas, ao contrário de Dilma, não entendi que havíamos nos tornado cão de raça ou mesmo cachorro grande, mas que nos livrávamos do complexo porque nos assumíamos como vira-latas bons de bola.
Sim, a vira-latice étnica e cultural é uma de nossas características mais fortes, para o bem e para o mal, e isso não há Copa nem metáfora genial que mude. Nesse sentido, ninguém é mais vira-latas do que os americanos, que também são os cachorros grandes do mundo.
Outra expressão atual da vira-latice é a ostentação, como o novo estilo de funk que celebra a riqueza e o exibicionismo, com orgulho e sem vergonha. É a trilha sonora perfeita para o Brasil ostentação da propaganda oficial que nos mostra no melhor dos mundos e fazendo a Copa das Copas.
Macaco que muito mexe…

Nelson Motta é jornalista.

Made in Brazil, por Maria Helena RR de Sousa


O Governo LuloDilma inovou: anúncios na TV e no Rádio estimulando o Brasil a gostar da Copa, a se entusiasmar com a competição, a torcer, a enfeitar as ruas e casas e a receber bem os convidados. Garanto que os vira-latas do tempo de Nelson Rodrigues não fariam melhor!

Apesar de encaFIFAda, torço pelo meu país e por seis pequeninos que moram em meu coração e que merecem assistir, como eu assisti em 58 e 70, o que é a rua explodir de alegria. E ouvir um brado de Gooool, que ecoa de norte a sul! É alegria inesquecível!
Tivemos sete anos para nos preparar para receber os torcedores. Sete anos! O mesmo tempo que Jacó serviu Labão, pai de Raquel, com resultado parecido. O que é Made in Brazil custa a ficar pronto e quando fica, não está inteiramente pronto. Como o turista logo perceberá ao desembarcar.
Assim mesmo, gostaria que os visitantes levassem daqui uma boa impressão. Dizem que ainda somos vira-latas, mas já não somos, infelizmente, pois cachorrinho mais amoroso e simpático, não há. Acho é que fomos trocados por uma raça muito brava! Cuidado!
Com meus votos de Boas Vindas, pois, alinhavei estas mal traçadas linhas:
*Aqui no Rio, sinto muito, esqueceram cadeirantes, cegos, surdos. Nos estádios e nos ônibus. Não sei se foi só aqui... Também não repararam que devia haver informações em Braille onde isso é pertinente; assim como nos museus e igrejas audioguias para os deficientes visuais e, a pedido, visitas guiadas em várias linguagens de sinais.
*Outra triste curiosidade Made in Brazil: em países civilizados, mirantes acima do mar têm gradis para impedir fatalidades. Aqui, ontem, dois turistas caíram das pedras do Arpoador. Ali, naquela ponta, o mar é bravo e as pedras escorregadias. Mas a ninguém ocorreu um anteparo...
*O turista desavisado, ao ver o caos que é o nosso trânsito, aluga uma bicicleta. Mal sabe ele que nossas ciclovias, de repente, não mais que de repente, são interrompidas e que ele não pode ir, de uma ponta à outra de um bairro, na sua magrela. Nem se distrair dela...
*Nossas calçadas são um treino para corrida de obstáculos; achar um banheiro público é mais difícil que acertar na loteria; as embalagens, dos biscoitos aos medicamentos, são misteriosas; os sistemas – ou seja – a Internet, caem com uma frequência assombrosa; as ligações pelo celular, idem com estrelinhas.
*Procure sair com um saquinho para o lixinho que você vai criar: lixeiras existem, mas são muito distantes umas das outras e normalmente estão entupidas.
*Pontualidade não é uma característica brasileira. Não se fie nos horários dos ônibus.
*Mas a FIFA é suíça, não se esqueça.
*Não pegue o táxi que passa. Use apps e Taxi Ranks. O motorista pode não saber falar inglês, mas garanto que é mais simpático que o motorista parisiense.
De resto, o clima é agradável e nosso futebol imbatível! Divirta-se!

                       

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora e tradutora.

Rio Eu Amo Eu Cuido | Fábio Porchat

                    

--Humor---A charge de Amarildo

                    

O Dia---Jaguar: Protesto a favor

Baderna, com milhares de manifestantes, com direito a quebra-quebra e saque de black blocs, coquetéis molotov, pedradas e bordoadas da PM, essa ferocidade não tem nada a ver com o Rio--

Rio - Baderna, com milhares de manifestantes, com direito a quebra-quebra e saque de black blocs, coquetéis molotov, pedradas e bordoadas da PM, essa ferocidade não tem nada a ver com o Rio. O humor carioca tem que ser — não resgatado, que resgate é papo de sequestrador — recuperado. Marcamos nosso protesto na terça, em frente ao Real Chopp, em Copacabana. Motivo: o bar, por força de mandado judicial , foi intimado a botar uma tarja tapando a palavra ‘Chopp’. A ação foi movida pelo dono do galeto ao lado, que solertemente registrou a marca em seu nome. E, para tripudiar, ainda botou uma placa anunciando que no galeto é que se saboreia o verdadeiro Real Chopp. Foi esquisito terem proibido a palavra ‘Chopp’, e não Real.
Quer dizer que, de acordo com a sentença do juiz, só o Galeto pode anunciar ‘Chopp’? Nenhum bar pode pendurar na parede a tabela com preços do ‘Chopp’? Antes de sair para o protesto, fiz cartazes com os dizeres: “Real Chopp só tem aqui. Recuse imitações”. Três ‘manifestantes’ seguravam os cartazes: Otávio Augusto, Teófilo Otoni e eu. Black blocs não apareceram, o que, confesso, me deixou meio decepcionado. A guarnição de um carro da polícia na frente do bar observava entediada a (falta de) movimentação. Foi um fracasso muito divertido.
***
Vai ter Copa, diz aquele alemão da Fifa com cara de vilão de filme de 007, vai ter Copa, trombeteiam a bilionária propaganda do governo e bonequinhos do Fuleco nas lojas da Saara (encalhados). Os estádios em obras, vistos do alto, parecem bocas gigantescas berrando: vai ter Copa. Vai ter Copa, garante a filha e neta dos trambiqueiros do futebol, mesmo porque “o que tinha que ser roubado já foi”. Então, amigos (imagina o que João Saldanha estaria escrevendo), vai ter Copa. Mas cadê as ruas enfeitadas de verde e amarelo, os carros com bandeirinhas brasileiras? E Fuleco (que nome) lembra fuleiro. Onde desencavaram esse tatu azul de desfile de fantasia? Do baú do Clóvis Bornay? Houve um concurso ou nos foi impingido? Ziraldo faria de graça um símbolo da Seleção mil vezes melhor. Já me programei : assistirei aos jogos pela tevê, imersão total, como dizem os antenados. Comprei todo o estoque de cerveja sem álcool do mercado. E tentarei ser politicamente correto, torcendo contra a Seleção. Sem o menor sucesso, como aconteceu quando Médici mandava no Brasil.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Elections européennes : résultats définitifs et analyses en direct, FranceTVinfo


Notre infographie (ci-dessous) montre que si le Parti socialiste, de son côté, n'est arrivé en tête que dans deux départements (contre quatre en 2009), le grand perdant est surtout à chercher du côté de l'UMP, qui avait été le grand vainqueur des européennes de 2009. Du Nord aux Alpes-Maritimes en passant par la Gironde, le parti de Jean-François Copé a en effet été battu dans des dizaines de départements.

O governo não é a solução, é o problema, por Carlos Alberto Sardenberg

Não existe produção de prótese ortopédica no Brasil. Pode-se importar, mas é caro. Uma prótese de membro inferior, por exemplo, sai por uns R$ 4 mil, boa parte disso em impostos. Uma enorme dificuldade, cuja solução já existe.
Dois jovens brasileiros, Lucas Strasburg e Eduardo Trierweileir, de Novo Hamburgo (RS), inventaram o Revo Foot, prótese de perna e pé, feita de plástico reciclado, invento premiado em feira mundial, e que deve custar em torno de R$ 200, antes dos impostos, claro. Mas não conseguiram ir além do protótipo: não há no Brasil um sistema de certificação para permitir a produção comercial.
Voemos do Sul para o município de Ibimirim (PE), mais exatamente para o Sítio Frutuoso, onde o agricultor José Gabriel Bezerra tem uma próspera lavoura de milho, melancia e feijão, num ambiente de seca e perdas. A propriedade é irrigada. Sabem como? Um poço que ele construiu com seu próprio dinheiro, cansado de esperar pelas prometidas obras públicas.

               
                               Lucas Strasburg e Eduardo Trierweileir

A primeira história apareceu no programa do “Jornal da CBN” “Young Professional”, em entrevista a Milton Jung. A segunda veio numa extraordinária reportagem de Letícia Lins e Cleide Carvalho, no GLOBO do último dia 18.
Os jovens gaúchos desenvolvem sua ideia há mais de seis anos, com objetivos claramente sociais: produzir algo nacional, bom e barato Era inicialmente um trabalho de fim de curso, da Escola Técnica Liberato, pública.
E uma ousadia: trocar fibra de carbono por plástico reciclado? Parecia piada. Pois chegaram a uma prótese testada e retestada em diversos laboratórios universitários e privados. Experimentaram em um parente — prótese do pé esquerdo — que está muito satisfeito. Batizaram de Revo Foot e tiraram o segundo lugar num concurso do Massachussets Institute Of Technology para inovadores globais com menos de 35 anos.
Toca produzir a coisa no Brasil, claro. Não pode. Precisa certificar. OK, como faz? Não faz. Os órgãos públicos não têm normas, muito menos máquinas para testar essas próteses.
Sabem o que Lucas e Eduardo resolveram fazer? Estão tentando produzir a primeira máquina brasileira de certificação de próteses, junto com normas e demais mecanismos.
É louvável a garra dos rapazes, mas está na cara que essa não é mais função deles. É do governo, do setor publico. Devia ser…
A história do agricultor de Ibimirim tem o mesmo conteúdo. Ele tocava lá seu sítio, sempre batalhando com a falta de água. Ouviu muitas promessas e anúncios de instalação de poços e cisternas. Como mostra a reportagem do GLOBO, até que muitos poços foram perfurados. Mas falta a energia elétrica para bombear a água. No outro, falta a canalização para distribuir. Mais adiante, a população local não pode utilizar a água, pois é levada para áreas mais populosas.
Sabe de uma coisa? — pensou José Gabriel Bezerra. “A gente tem de resolver.” Mudou-se para São Paulo, arrumou emprego na construção civil, juntou R$ 30 mil, voltou para Ibimirim e aplicou tudo num poço de 150 metros. Resolvido.
Mas, cuidado. O governo finalmente construiu ali na região cinco adutoras profundas. O agricultor tem medo que essas puxem a água do seu poço. Era só o que faltava. Frase exemplar de Bezerra: “Gastei tudo o que tinha para não depender do governo. Mas tenho medo que, com as adutoras, a água da gente acabe.”
Não há como não se lembrar de Ronald Reagan: o governo não é a solução, é o problema.
E o problema maior é que não dá para se livrar do governo. A esquerda costuma acusar os liberais de querer destruir o Estado. Mesmo, porém, que sonhem com isso, os liberais sabem que o Estado e seus impostos são inevitáveis.
Vai daí, eis uma agenda bem brasileira, adequada para um ano de eleições presidenciais. O Brasil só vai voltar a crescer com mais investimentos privados e públicos.
Para que floresçam os privados, é preciso que o governo, primeiro, não atrapalhe as iniciativas de gente como os jovens de Novo Hamburgo. E, segundo, dar o necessário suporte a negócios como o do agricultor do sertão.
Primeiro ponto, portanto, é abrir espaço e criar boas condições para o investimento privado. Isso requer ação política, mudança de legislação, incluindo privatizações.
O segundo ponto é dar eficiência e produtividade às ações do Estado. E foco em educação, saúde e segurança.
Para o resto, é melhor fazer a concessão de obras e serviços para o investidor privado. Quando isso não for possível, o governo deve trabalhar com os parâmetros de produtividade do setor privado.
Tem muito lugar em que é assim, inclusive no Brasil, como a boa escola técnica Liberato.
Carlos Alberto Sardenberg é jornalista.

We are the champions, my friend, por Glauco Fonseca

Os elogios aos que planejam são abundantes. A Inglaterra está com as olimpíadas de 2058 prontas. Os Emirados Árabes Unidos se preparam para a Copa de 2124. Mas como são bons esses gringos. Nós é que somos os babacas, não é? Aqui pra vocês, ó! Planejar é fácil. Isto a maioria consegue. Quero ver é fazer na hora, improvisar em cima da perna, fazer nas coxas. Ahá! Não conseguem, não é? Pois nós conseguimos. Ninguém é capaz de fazer tudo de última hora que nem a gente no Brasil. E o que mais me espanta é que isto não é aplaudido nem valorizado no resto do mundo civilizado.
Se alguém disser para um inglês que ele terá de organizar uma Copa do Mundo em menos de dois anos, ele entra em convulsão, fazendo mais espuma na boca que uma Jacuzzi cheia de Alba Microperolado. Peça a um americano para ele dirigir numa avenida que inicia com quatro pistas e que vira em duas ali adiante. Ele desanda a chorar e clama pela quinta emenda. Dirija-se a um japonês e diga que ele terá instalar as tais “estruturas temporárias” em menos de 5 dias. Ele só não irá amarelar por que já é amarelo, mas vai optar por fugir do Godzilla, perigo com o qual já está bastante familiarizado.
Nós somos brasileiros e fazemos as coisas sempre de última hora. Esta é a nossa especialidade. Ninguém faz as coisas “em cima do laço” como a gente. É bem verdade que sai tudo mais caro, os materiais nem sempre são os melhores, tampouco os recursos humanos, mas se é pra fazer na corrida, somos Sennas e Piquets, campeões mundiais. O ideal seria fazer, por exemplo, um viaduto com tempo, os melhores engenheiros e pessoal de obras, comprando insumos com antecedência com vistas aos melhores preços e à melhor qualidade. Mas quem precisa disso? Na hora agá, teremos o viaduto pronto. Meio tortinho, mas se passar um carro de cada vez, o bicho não vai cair.

Além de “experts” em OTT (sigla usada por altos executivos para a metodologia Over-The-Thigh, em português Sobre-As-Coxas), temos ainda a nosso favor as condições meteorológicas. Uns pensam que é sorte, outros que é apenas falta de juízo. Nós achamos que o sistema PGNR (Please God, No Rain) nos possibilita realizar façanhas que, se chovesse por um ou dois dias, nos deixaria em maus lençóis, comprometendo um evento inteiro. Portanto, sempre que disserem que os brasileiros são péssimos em planejamento, devemos bater no peito e gritar SIM!
Já houve, é verdade, milhares de tentativas de implantar modelos de gestão que privilegiassem o planejamento estratégico. Como somos inteligentes, aprendemos ligeirinho e desandamos a fazer planejamentos a torto e a direito. Depois nos ensinaram “Project management” e a gente aprendeu e começou a fazer, até que viu que não era nosso forte esse negócio. Passamos a adotar nossas próprias plataformas e sistemas. SAP? Ultrapassado. Nosso sistema, inspirado no modelo de governança implantado pelo PT, é baseado em uma proposta insuperável, sistema este chamado de Formato Único e Delinquente de Estratégia Unida.
A Sigla? F.U.D.E.U.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Paulinho da Viola e Os Quatro Crioulos - Pout-pourri (+playlist)

                 

O legado de Joaquim Barbosa: balanço é positivo, por Míriam Leitão

Anunciada a aposentadoria do ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), começa a especulação sobre se ele pensa em entrar na política ou não. De vez em quando, dava indícios de que sim; outras vezes, não. Como ministro e presidente do Supremo, Joaquim foi fundamental para um passo importante na vida do país.
Bastante sólido, o voto dele em relação ao caso do mensalão foi estruturado de uma forma que o país conseguiu lembrar de todo o episódio, além de ter sido acompanhado pela maioria dos ministros. Os que tinham sido denunciados pelo Ministério Público foram julgados e condenados e, nesse momento, estão cumprindo pena.
No julgamento da avaliação do trabalho de um presidente da Suprema Corte, o importante é saber como ele votou, como foi nos autos. O balanço é positivo.
O Brasil tinha a sensação de que a Justiça jamais chegaria aos muito poderosos, mas ele demonstrou que mesmo sendo indicado por um presidente que era do PT, na hora de julgar, separou as coisas. Nesse aspecto, a presidência dele foi altamente positiva. Ele deixa esse legado.
Joaquim foi um bom ministro. Todas as polêmicas nas quais ele esteve envolvido não têm a menor importância. O que conta é como se comportou como juiz, o que julgou, a força demonstrada ao longo de todo o processo como ministro e presidente do Supremo.
Quando ele entrou, comemorou-se a chegada do primeiro negro no STF. Ele sai e até agora não entraram outros. O que se quer é que seja mais normal haver negros na elite brasileira. Essa barreira tem que ser derrubada.
A aposentadoria dele está sendo bastante comentada porque como relator do processo do mensalão, ele inovou. Foi um caso que vai ficar na história do Brasil. Sobre ele sempre se falou muito: a favor, contra.
Joaquim disse que vai se dedicar à vida privada. Certa vez, numa conversa que tivemos, ele dissera que não ficaria até o final, até os 70 anos.
Acho que muita gente do atual governo vê com alívio a saída dele. Mas reduzidas todas as paixões provocadas por essa gestão, o que vai ficar é a lembrança de um ministro que foi forte, combativo, que apoiou suas convicções sobre um sólido conhecimento jurídico.

Anorexia de Afetos, por CARLOS VIEIRA


Outro dia conversava com um amigo sobre esse tema, tão atual: a questão da dificuldade nas relações afetivas. A sociedade dita pós-moderna, não é senão uma sociedade que instiga a cultura do Ter e não do Ser. Feliz é aquele que consome os objetos dos seus desejos, consequentemente, infelizes são as pessoas que não atingem esse nível de situação econômico-financeiro. A riqueza é o paraíso e a pobreza é viver no inferno.

Claro que não estou deixando de dar sentido ao progresso material de uma sociedade, mas estou enfatizando que é esse progresso a meta prioritária da sociedade capitalista selvagem. Não se educa para desenvolver a mente no sentido de que ela proporcione estados de consciência de si mesmo, de felicidades, a felicidade é sinônimo do Ter. Acontece que o desejo de ter é insaciável, é uma operação quantitativa e não qualitativa: é ter mais e mais, pois todo aquele que pode ter tudo(?) pode ser considerado plenamente realizado. Vivemos num mundo que cultiva a voracidade e a inveja, dois estados mentais que apontam para uma realização “oceânica”, onde não houvesse mais conflitos de diferenças, onde não houvesse dor mental ou frustração, condição para o crescimento humano, psíquico, de alma, e não do bolso, da conta bancária, do acúmulo de bens. Não considerar as questões afetivas é o mal do Século XX/XXI. Lembro agora de uma passagem num livro de Cecilia Meireles – “Episódio Humano”, onde a nossa escritora maior revela a sensibilidade de pensar a experiência humana, e escreve uma espécie de ensaio, chamado – “Aquele mundo que perdemos...”. Escreve Cecilia: ”Não há mais coisas para viverem conosco. Há, somente, coisas para nos servirem. Não nos podemos demorar diante da paisagem pela simples alegria de a sentirmos bela. É preciso seguirmos o caminho da vida. Mas para onde é que leva essa vida que os homens inventaram? Por que é que os homens acreditam que ela é melhor do que a outra, a outra que nasceu de si mesma, que brotou como as fontes e que iria cantando até o mar? Agora, cantando, evidentemente, não irá. E o mar, também, depois de tantos transtornos, não temos nenhuma esperança que exista: e não sabemos, portanto, se o há de alcançar ou não.”

Então, o que vemos hoje é uma espécie de refúgio, uma ilha onde as pessoas se protegem do sofrimento ou não acreditam mais na beleza da vida amorosa. O que resulta disso é que se protegendo da dor também se protege do prazer.  Talvez, muitas delas, feridas precocemente por pais ausentes, indiferentes afetivamente; experiências afetivas que frustraram muito e deixaram feridas abertas (gato escaldado tem medo de água fria) acompanhadas de uma descrença em seu próprio amor e no amor dos outros; um mundo onde ninguém mais sabe lidar com sentimentos de amor, ódio, ciúme, rivalidade e inveja, preferindo se escudar e viver relações somente de prazer físico, material. É verdade que a intimidade sempre exigiu e exige capacidade para conviver com os conflitos das diferenças. Ninguém quer tolerar aquilo que não seja a satisfação do próprio desejo! Frustrado, advém ódio, às vezes vingança, esfriamento da relação e completa falta de tolerância para viver a falta da sua expectativa. “Mas para onde é que leva essa vida que os homens inventaram?”, adverte a nossa Poeta. Penso que leva para uma existência vazia, líquida, onde somente o consumo aparece como uma grande ilusão de felicidade. Será que a destrutividade e o ódio estão predominando sobre o amor? Será que os homens estão perdendo a noção de humanidade, civilidade, respeito, tolerância à alteridade, paciência com suas limitações? Hoje mata-se fácil; hoje não se briga mais entre amigos e depois se abraçam; hoje qualquer discussão é motivo de tentativa de homicídio: as casas noturnas, os jogos de futebol, são brincadeiras de adultos que já não se pode brincar mais, terminam sempre em atitudes animalescas e comportamentos de vândalos.

É tempo ainda de rever a educação, a orientação psicológica dos jovens, o resgate de uma ética que não seja perversa e egoística, a capacidade dos pais acolherem seus filhos sem com isto negue a necessidade de encarar seus problemas. Vivemos num momento de muita Evitação, ao invés de um confronto sadio que promova crescimento.

“Se alguém passar por nós pensará que estamos bem perto um do outro, mais perto que o pequeno caminho entre o meu lábio que canta e o teu coração que escuta. No entanto, nós dois sabemos que é mentira. Sabemos que estamos como os dois polos da terra”. Deixo o leitor com esse pensamento de Cecília Meireles em seu texto: “Um pedaço de canção partida.”
Carlos de Almeida Vieira - psicanalista e psiquiatra.

Moradores de Búzios, RJ, fazem 'bundaço' na Câmara Municipal, Tomás Baggio Do G1 Região dos Lagos

Moradores protestam contra decreto que impede vice-prefeito de assumir.
Prefeito da cidade, André Granado, está no exterior.

bundaço búzios (Foto: Blog Repórter Eduander Silva) 
O 'bundaço' está acontecendo nesta manhã em Búzios (Foto: Blog Repórter Eduander Silva)
 
As recentes confusões na política em Armação dos Búzios, na Região dos Lagos do Rio, motivam a realização de um protesto inusitado na manhã desta quinta-feira (29) na cidade. Chamado de "Bundaço", o ato reúne manifestantes com fantasias durante a sessão da Câmara dos Vereadores. Eles protestam contra o decreto legislativo que autorizou o prefeito André Granado a continuar exercendo as funções de chefe do Executivo mesmo estando fora do país, impedindo, desta forma, a posse temporária do vice-prefeito conforme ordena a Lei Orgânica Municipal.
 
Está se achando ultrajado por ter um prefeito que governa a cidade por rede social? Acha o fim do mundo a Câmara de Vereadores rasgar a Constituição do País? Você tem a impressão de que a cidade de Búzios está sendo motivo de piada na região dos lagos, no Rio de Janeiro, no Brasil e no Exterior? Você está tendo a sensação de que colocaram a sua bunda na janela pra passarem a mão nela? Pois, então, seus problemas acabaram! Vamos dar uma resposta a altura para todos aqueles políticos que acham que temos a cara de bundão. Vamos comparecer a Sessão da Câmara nesta quinta-feira, dia 29 de maio, ás 10 horas e dar o troco, começando pelo legislativo", diz o convite para o protesto enviado pelas redes sociais na internet.
                                     bundaço búzios (Foto: Blog Repórter Eduander Silva) 
Vereadores estão no meio da sessão e o 'bundaço' reúne mais de 30 pessoas na Câmara de Búzios----(Foto: Blog Repórter Eduander Silva)
 
O imbróglio começou após a Câmara Municipal aprovar um decreto autorizando a viagem do prefeito "sem prejuízo das funções de chefe do Poder Executivo". Na prática, Granado continua como prefeito mesmo estando fora do país. Considerando ilegal a decisão da Câmara de manter Granado no cargo, o vice-prefeito Carlos Alberto Muniz entrou na Justiça no dia 16 deste mês pedindo para assumir o cargo de prefeito. O pedido foi aceito pelo juiz da Comarca de Búzios, Marcelo Villas.
No dia seguinte, a Procuradoria da prefeitura entrou com um mandado preventivo no Tribunal de Justiça do Estado para manter Granado como prefeito. O pedido também foi aceito, se sobrepondo ao anterior. Com isso, quando o vice chegou na segunda-feira (19) para assumir, os procuradores da prefeitura apresentaram o mandado preventivo e Carlos Alberto não conseguiu entrar no cargo. O vice recorreu novamente e obteve a nova decisão favorável. Na quinta-feira (22) ele conseguiu tomar posse, mas teve que sair menos de 24 horas depois por conta de um novo recurso da Procuradoria. Com isso, Búzios voltou a ficar sem prefeito na cidade.
Nesta quarta-feira (28), o Ministério Público também entrou na Justiça pedindo a anulação do decreto legislativo e a posse imediata do vice. O processo ainda não foi julgado.
"É importante demostrar a nossa indignação. Colocamos a bunda de fora para demostrar aos vereadores que o que eles fizeram foi um atentado a ordem nesta cidade. Qualquer bunda é mais bonita do que o ato que eles praticaram, por isso não temos que ter vergonha" concluiu Luiz Carlos, um dos participantes do protesto.

Comentario meu--..alias, o que nao falta em Burios (RJ) é bundao! Alguns mais aconchegantes que outros  e também exigentes. Mas, no geral, o produto é de qualidade e poliglota. Peida em varias linguas.....mas o fedor é similar ao nacional.

Crise de representatividade no Brasil atinge sindicatos, por Sérgio Roxo

Comentario meu-- o cara pra ser politico ou sindicalista deveria PROVAR curricularmente, que trabalhou, no minimo, dez anos. Além de ausência de folha-corrida. 
Se virou profissao tem que REGULAMENTAR pro eleitor saber e poder, escolher!

Mas a maioria presente, (e passada!) ta de olho numa carreira confortavel (produzir vento) com pagamento (pro-labore) garantido pelo Imposto Sindical (aquele mesmo que a gente dizia que ia acabar, lembra Baiano?!) isento de Imposto de Renda e, com alguma maleabilidade pessoal (novo nome das subserviência ao Poder) terminar como Ministro (Juiz do Trabalho),Mesmo sem entender de Direito. Esta a mais rendosa carreira, até aos 70 anos. Mas, Baiano, como você passou a dizer--brasileiro so respeita dinheiro--Concluo (por vc) E o trabalhador que se dofa!
----------------------------------------------xxxxxxxxxxxx---------------------------------------------
SÃO PAULO - A crise de representatividade detectada na raiz de diversas manifestações ocorridas pelo país desde junho do ano passado parece estar atingindo agora os sindicatos. Essa é pelo menos a opinião de alguns especialistas que estudam o setor e que enxergam nas paralisações lideradas, nos últimos dias, por dissidentes sindicais no Rio de Janeiro e em São Paulo um distanciamento da base em relação a suas lideranças sindicais. Elas estariam inclusive sendo colocadas em xeque em algumas categorias.
— É evidente que o contexto social (da proximidade da Copa do Mundo) é propício a manifestações — avalia Ricardo Antunes, professor de sociologia do Trabalho da Unicamp: — Mas há uma crise de representação na sociedade brasileira que atinge também o movimento sindical.
Nas situações mais extremas, diz o especialista, surgiram movimentos grevistas dissidentes da direção de seus próprios sindicatos.
— Os organismos de representação que não falam pelo conjunto da categoria geram um mal-estar em setores descontentes — destaca Antunes, lembrando que isso foi visto tanto na paralisação de garis do Rio quanto na dos motoristas de ônibus em São Paulo na semana passada.
Para Adalberto Cardoso, diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), as dissidências também são resultados das disputas internas travadas nos sindicatos:
— Há sim uma correspondência entre os movimentos de rua e parte das greves que está acontecendo: os sindicalistas descobriram que as novas tecnologias de informação permitem uma organização para além e por fora do sindicato.
Cardoso não acredita, no entanto, em um movimento das bases contra os dirigentes sindicais.
— O que está acontecendo é a facilidade das oposições poderem operar como se fossem sindicato. Trata-se de uma disputa das elites sindicais.
O cientista político Leôncio Martins Rodrigues acredita, por sua vez, que os dissidentes podem estar, sim, buscando espaço.
— A radicalização é uma estratégia comum para chegar ao poder — lembra ele.

Hoje o sindicato não nos representa’
O motorista Hélio Alfredo Teodoro, de 40 anos, é um dos líderes do grupo de dissidentes dos rodoviários do Rio. Ele afirma não ter pretensão de assumir o comando oficial da categoria e conta que sua única participação na política sindical foi ter ajudado na campanha da chapa que hoje está no poder.
— Hoje, o sindicato não nos representa — diz ele: — Não admitimos que o sindicato aceite uma proposta dos patrões sem perguntar à categoria. A classe acordou agora.
O motorista não relaciona a onda de manifestações que acontece desde junho de 2013 com a dissidência dos rodoviários.
— São anos apanhando, chega uma hora que você explode — diz.
Mas os especialistas destacam como a proximidade da Copa do Mundo se tornou um trunfo importante nas negociações de classe.
— Todos nós buscamos o melhor momento para conseguir o que queremos. E, para os grevistas, a Copa é esse momento. Tudo nesse período tem que ser definido rapidamente. O país está na vitrine — diz Antunes.
— As categorias de trabalhadores esperam os momentos mais favoráveis para fazer greve. A Polícia Federal sempre faz greve quando um evento está para acontecer — acrescenta Adalberto Cardoso.
Para ele, é natural que os grevistas tentem provocar o maior dano possível à imagem do governo, o que ele considera “legítimo”. Cardoso não acredita, no entanto, que esteja ocorrendo um aumento do número das greves e sim uma maior visibilidade para as paralisações que são encampadas.
O panorama de hoje parecer diferente do vivido em 2002. Depois da eleição de Lula, muitos sindicalistas passaram a fazer parte do poder.
— Os sindicalistas (hoje) possuem cargos, fazem parte do poder. Eles não podem fazer greves contra eles mesmos — analisa o cientista político Leôncio Martins Rodrigues.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior das centrais sindicais, historicamente ligada ao PT, foi a que mais mudou a forma de atuação, dizem os especialistas.
— A CUT não deixou de exercer seu papel, mas não exerceu como nos anos 1980 e 1990 — destaca Antunes.
O estudioso acredita que a participação do ex-presidente Lula foi fundamental para que se consolidasse essa mudança de postura.
O Lula é um mestre da cooptação, e houve cooptação de setores da CUT, com ex-dirigentes que foram para ministérios. A CUT sofre com esse difícil papel de ser, ao mesmo tempo, governo e uma central que defende os interesses dos trabalhadores.
Adalberto Cardoso não concorda que o país tenha vivido um período de calmaria sindical:
— Não é verdade essa história de que o sindicato não reivindica. Se a direção do sindicato não faz greve ou não consegue aumento, perde a eleição. Desde 2005, 80% das categorias obtiveram aumento acima do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor).
Claiton Gomes, secretário-geral do Sindicato dos Profissionais de Ensino de São Paulo (Sinpeem), filiado à CUT, reconhece que alguns sindicatos não souberam lidar com a chegada do PT ao poder.
— Muitos ficaram meio perdidos e confundiram o governo com o movimento — afirma Gomes, que esteve na diretoria da entidade.

Ruy Maurity & Trio - Serafim e seus filhos

                    

Rubens Paiva: chance de aprofundar valores humanos, por Carlos Tautz

A decisão do juiz federal Caio Taranto de acatar a denúncia do Ministério Público contra os cinco militares do Exército pela tortura e assassinato, em 71, do ex-deputado Rubens Paiva tem significados que vão além da eventual condenação dos réus. Ao confirmar agora a tese de outra recente decisão anterior, de processar cinco militares e um civil pelo atentado ao Riocentro em 81, o magistrado avança na consolidação de uma base legal que ajuda a aprofundar valores sociais de rejeição à tortura e ao assassinato. E estimula policiais violentos, justiceiros de ocasião e linchadores covardes, no presente, a pensar duas vezes antes de liberarem de dentro de si a besta fera que os faz acorrentarem seres humanos a postes.
Foi para isso que chamou a atenção a filha do ex-parlamentar em entrevista a O Dia, mostrando que tais decisões reforçam um ambiente social que repele casos como os de Amarildo e Claudia.

A decisão também é importante por que recusa a tese de que crimes cometidos contra os opositores da ditadura estariam cobertos pela Lei da Anistia e toma os delitos como o que são de fato: crimes contra a
humanidade, "dentro de um padrão amplo e repetitivo de perseguição a determinado grupo (ou grupos) da sociedade civil, por razão política", como argumentou Taranto.

Mais: tanto o processo do Riocentro quanto o de Paiva receberam impulso decisivo após o resgate dos arquivos dos coronéis Molina e Malhães. O primeiro foi assassinado em Porto Alegre há dois anos por dois PMs que lhes deram 15 tiros de três calibres. Malhães faleceu em morte suspeitíssima há um mês, em Nova Iguaçú, após nove horas nas mãos de ladrões que estariam atrás somente de armas enferrujadas, como nos quer fazer acreditar a Polícia Civil do Rio.

Estes e outros casos mostram inequivocadamente que, ao contrário do que dizem Aeronáutica, Exército e Marinha, os arquivos da repressão não foram destruídos. Escondem-se em gavetas de militares da reserva e, enquanto não se provar diferentemente, nas instalações das três forças (afinal, instituições conservadoras... conservam!). Precisam, portanto, vir à tona.

No processo de Paiva, há, ainda, situação delicadíssima. Um dos réus é o general aposentado José Belham, de Brasília. Ele é pai do diretor-adjunto da Abin, Ronaldo Martins Belham, que pela natureza do cargo tem informações de cocheira sobre a ditadura.

Assim, se, por um lado, não se pode condenar o filho pelos crimes do pai, é fato que Ronaldo ocupa um lugar estratégico. E que ele, ao usar desta ou aquela maneira os arquivos a que tem acesso privilegiado, pode ajudar a reescrever a história, ou mantê-la distorcida como está hoje.

Carlos Tautz, jornalista e coordenador do Instituto Mais Democracia - Transparência e controle cidadão de governos e empresas

A favor da seleção, por Zuenir Ventura

Conheço pessoas que, por motivação política, estão entre os 46% contrários à Copa, segundo uma pesquisa (49% a favor). Elas acreditam que assim vão ajudar a derrotar Dilma e o PT nas próximas eleições, mas isso talvez seja um equívoco.Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, mostrou aqui neste espaço há tempos que a relação entre futebol e governo obedece a uma lógica mais complexa. Em 1998, o Brasil perdeu, e FH se reelegeu no primeiro turno. Em 2002, a seleção ganhou e o mesmo presidente não fez o sucessor. Em 2006, foi a vez da Itália, e Lula se reelegeu.
Em 2010, perdemos para a Espanha e isso não impediu que Lula elegesse Dilma. Com a Copa aqui, pode ser que seja diferente. Mas é possível também que esses eleitores, alguns à direita, estejam cometendo o mesmo engano que parte da esquerda cometeu em 1970, quando recomendava torcer contra a nossa seleção.

               

Eram os tempos de Médici, de censura e tortura, quando a oposição era submetida a rigoroso controle, e qualquer crítica significava um ato impatriótico: “Ame-o ou deixe-o.”
O uso do futebol como propaganda da ditadura chegou ao ponto de levar o general-presidente a interferir na escolha dos craques, exigindo a escalação de Dadá Maravilha e provocando a demissão do técnico João Saldanha ou “João sem medo”, que teria reagido assim: “Eu não escalo o seu Ministério, e o senhor não vai escalar meu time.”
Portanto, havia razões de sobra para a má vontade e até hostilidade. Mesmo assim, não era tarefa fácil. Um preso político contava que ele e seus companheiros de cela torciam contra até começar o jogo. “Aí ninguém mais resistia. A cada lance que o radinho de pilha narrava, todos passavam a gritar Brasil!”
A desorganização de agora é um prato para os protestos, mas tem gente usando a Copa como pretexto para fazer política. Ronaldo Fenômeno é um deles, ao engrossar o coro dos contestadores. Membro do Comitê Organizador Local, ele acaba de se dizer “envergonhado” pelos atrasos nos trabalhos, cuja execução, porém, é também da responsabilidade de seu comitê.
Na verdade, ele está tirando o corpo fora e trocando de camisa porque vai apoiar a candidatura do amigo Aécio Neves à Presidência, “uma ótima opção para mudar o país”, como declarou.
É evidente que o governo de Dilma, pra variar, fez trapalhada, e os gastos foram excessivos num país em que a saúde e a educação estão em situação precária. Mas, depois de feitos, não é cancelando o evento que a conta deixaria de ser paga.
Como disse cinicamente Joana Havelange, também do Comitê Organizador, “o que tinha que ser roubado já foi”. Ficar contra é assim um gesto inútil, até porque vão ocorrer manifestações e falhas na segurança, como no teste de anteontem, mas quando a bola rolar é muito provável que todo mundo vá torcer a favor, não da Copa, mas da seleção.

Zuenir Ventura é jornalista

O espantado, por José Aníbal


O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se disse “espantado” na semana passada com as críticas do senador Aécio Neves à omissão do governo federal na segurança pública. Embora Cardozo não seja propriamente reconhecido por sua firmeza e competência, dizer-se espantado com as críticas ao seu desempenho já é cinismo. Receio que vou acabar de horrorizá-lo. Vamos aos dados.
Segundo informações do Mapa da Violência, adiantadas por O Globo ontem, a taxa de homicídios no Brasil é a maior desde 1980. Baseado em dados do Ministério da Saúde, o número de mortes violentas aumentou 7,9% em relação ao último estudo. Atingiu nada menos que 56.337 óbitos. A taxa de homicídios chegou a 29 por 100 mil. Espantoso.

Nos três primeiros anos de Dilma, foram liberados só 10,8% dos recursos previstos para o Fundo Penitenciário Nacional. Segundo o Siafi, de R$ 1,4 bilhão previsto, só R$ 156 milhões foram pagos até dezembro. O programa de Reestruturação e Modernização do Sistema Criminal e Penitenciário recebeu 3%. Para o Apoio à Construção de Estabelecimentos Penais Estaduais, 0,47%.

               

Realizada entre 02 e 03 de abril com 2.637 entrevistados, a pesquisa do Datafolha sobre segurança pública revelou que 20% dos brasileiros com 16 anos ou mais foram vítimas de algum crime nos últimos 12 meses – roubo, assalto, agressão, sequestro relâmpago e invasão da moradia. Os mais sacrificados são os jovens: 28% sofreram com algum desses crimes.
Segundo a pesquisa, quanto maior a cidade, mais vítimas da violência. Com até 50 mil habitantes, 14% foram vítimas. Até 200 mil, 20%. Entre aquelas com população acima de 500 mil, o índice subiu a 25%. Perguntados se tiveram parentes ou conhecidos assassinados nos últimos 12 meses, 21% responderam que sim – com índices acima da média na região Nordeste (31%) e entre jovens (30%).
No início do mandato de Lula, 18% da população apontavam a segurança como área que mais carecia de atenção do governo federal. Doze anos depois, o índice permanece idêntico – o que mostra a baixa resolutividade das administrações petistas. Não por coincidência, o Datafolha mostra que as vítimas são as mais descontentes com Dilma.
Enquanto o ministro Cardozo fica espantado, armas e drogas circulam sem restrição pelas ruas. 56 mil brasileiros perdem a vida inutilmente por ano. O sistema penal, cuja reforma deveria ser induzida pelo Ministério da Justiça, continua falido, anacrônico e amigo do bandido. O ministro é o próprio retrato da leniência. Em quatro anos, ele só mostrou que é bom em tirar o corpo fora e em repassar dossiês apócrifos.

José Aníbal é deputado federal (PSDB-SP).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Onde a Dor Não Tem Razão - Velha Guarda Portela

                

Aumenta a desigualdade, por José Casado, O Globo

‘País rico é país sem pobreza”, sugere a publicidade governamental. Natural, pois sofisma e redundância são elementos-chave na propaganda e na política.
Na vida real, há um paradoxo: os brasileiros pobres estão cada vez mais empobrecidos pelo mesmo Estado que anuncia protegê-los.
É efeito da armadilha em que o país entrou e na qual se mantém prisioneiro.
Uma medida dessa alienação está na velocidade de expansão da teia da burocracia tributária. Ela avançou ao ritmo de 780 novas normas por dia durante o último quarto de século, desde a promulgação da Constituição em 1988 — informa o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação.
Somadas, as 4,7 milhões de regras baixadas de 1988 até dezembro passado comporiam um livro de 112 milhões de páginas impressas (em papel A4 e com letra Arial 12). Enfileiradas, as páginas cobririam o país em linha reta do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul.
As consequências vão muito além de infernizar a vida das pessoas e empresas. A opção política por manter intocada essa estrutura fiscal e tributária produziu uma perversidade: aumentou a desigualdade social no Brasil nas últimas duas décadas, advertem pesquisadores como o economista José Roberto Afonso, do Ipea.
O sistema atual privilegia tributos indiretos e sobre o consumo. Com ele, até 1996, o Estado se apropriava de 28% da renda mensal das famílias pobres, com até dois salários mínimos (cerca de R$ 1.400). Em 2008 o Estado já tomava 54% do rendimento familiar dos mais pobres. No ritmo atual, prevê-se que no fim da década o peso dessa carga tributária esteja em 60%.
No longo prazo, praticamente anula a expansão dos gastos governamentais com programas sociais destinados às famílias mais pobres, como aconteceu nas últimas duas décadas.
Em meados dos anos 90 o gasto social com recursos do orçamento federal equivalia a 0,5% do Produto Interno Bruto. No ano passado esse tipo de despesa representou 2,2% do PIB — segundo cálculos do economista Mansueto de Almeida, que se ateve ao dispêndio com iniciativas de promoção de renda mínima, excluindo Previdência Social, Educação e Saúde.
O Estado empobrece os pobres e mantém opção preferencial pelo aumento da desigualdade. “O Brasil não parece tão desigual quando se olha apenas para o impacto da tributação direta sobre a renda”, diz Afonso. “O problema é o peso da tributação indireta (do tipo PIS/Cofins), que recai principalmente sobre o consumo.”
O impacto é grande nas famílias pobres, cuja maior parte do rendimento é destinada ao consumo. De forma indireta, e compulsória, essas famílias acabam entregando ao Estado mais de 54% de sua renda mensal de dois salários mínimos (R$ 756 do ganho mensal de R$ 1.400). Para as mais ricas, com renda familiar mensal superior a 30 salários, o impacto é proporcionalmente muito menor — corresponde a 29% (R$ 6.200 do rendimento de R$ 21.700).
O agravamento da desigualdade social brasileira é real, mas ainda é tema à margem da agenda dos candidatos à Presidência da República. Eles se limitam a repetir velhos e vagos slogans. Se planejam “combater a pobreza”, é melhor se apressarem. Porque, como dizia o humorista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) diante da alta do custo de vida, “a continuar essa carestia, pobre tende a desaparecer”.

Luiz Moura (PT-SP) era pobre e e hoje seu patrimônio é de R$ 5,1 milhões

A polícia descobriu a reunião do deputado Luiz Moura (PT) com 13 bandidos do PCC
 (Foto: reprodução)


Imerso no tema da reunião da qual participou com suspeitos de integrar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o deputado estadual Luiz Moura (PT), em cinco anos, saiu de uma situação de pobreza para ser dono de um patrimônio de R$ 5,1 milhões. Nesta terça-feira, 27, em reunião da bancada do PT na Assembleia, Moura se defendeu perante os colegas deputados e prometeu fazer hoje um discurso na tribuna no qual se explicará sobre as denúncias que o envolvem.

Na conversa, o deputado deu o tom do que deve ser seu pronunciamento. Moura afirmou que, por ser ligado ao setor de transportes, costumeiramente participa de reuniões em garagens de vans e ônibus, mas negou qualquer envolvimento com o PCC e disse que não tem como pedir um relatório de antecedentes criminais das pessoas com quem se reúne. Ele declarou que não saberia identificar qualquer integrante da facção criminosa.

Sobre a reunião da qual participou com suspeitos de integrar o PCC, Moura afirmou que nem sequer foi averiguado e não foi conduzido à delegacia. O parlamentar disse que o próprio secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, já afirmou que não há qualquer investigação sobre ele.
Sobre as condenações judiciais que sofreu no Paraná e em Santa Catarina por roubo, ele sustentou que não pode ser punido por crimes pelos quais já foi reabilitado – embora tenha sido condenado a 12 anos de cadeia, e só tenha cumprido um ano e meio, e depois fugido, a Justiça lhe concedeu a reabilitação criminal.

Patrimônio.
Em janeiro de 2005, para solicitar sua reabilitação criminal à Justiça catarinense – que o condenara por roubo -, além de afirmar que praticara os crimes porque usava entorpecentes, mas se regenerara, Moura assinou um atestado de pobreza no qual sustentava não ter “condições financeiras de ressarcir a vítima”, no caso, um supermercado do qual subtraiu R$ 2,4 mil.

Além disso, apresentou uma declaração de Imposto de Renda de 2004 (referente ao ano de 2003) na qual afirmava que, em todo o ano anterior, tivera rendimentos que somaram R$ 15,8 mil. Cerca R$ 1,3 mil mensais. Em 2010, contudo, quando se apresentou pela primeira vez como candidato, Luiz Moura, em sua declaração de bens, apresentou um patrimônio de R$ 5,1 milhões, dos quais R$ 4 milhões em cotas de uma empresa de ônibus – a Happy Play Tour -, cinco postos de gasolina, quatro casas e um ônibus.

Em 2012, quando chegou a se candidatar a prefeito de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, seu patrimônio havia diminuído em 80%, mas ele ainda era um milionário, com R$ 1,1 milhão. Ontem, a reportagem tentou novamente contatar o deputado, mas ninguém atendeu o telefone em seu gabinete. (Fernando Gallo, AE)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Eterno Aprendiz - Gonzaguinha

               

As greves vermelhas, por Ruth de Aquino, ÉPOCA

O governo Dilma não é o primeiro nem será o último “governo dos trabalhadores” a ser desafiado com violência e ódio pelos próprios trabalhadores. Nada como uma semana depois da outra para rever, na real, o ânimo de uma população que não é a “crescente classe média”. Tampouco é o black bloc universitário que curte grifes ou o rebelde sem causa. Nem o aposentado, que sofre em casa mesmo.

Os grevistas e manifestantes que ameaçam parar o país e levar o inferno a todos nós – incluindo Dilma, Lula, Gilberto Carvalho e companhia – são, quem diria, os “companheiros”. Sim, porque o Brasil foi assumido há 12 anos não por um metalúrgico, mas por um líder sindicalista combativo, de imenso carisma.
Os companheiros deveriam estar nas ruas em alegres passeatas com a bandeira do Brasil, em pré-torcida pela Seleção. Mas não. As bandeiras são vermelhas, mas a estrela desbotou. Diante da selvageria das recentes paralisações e passeatas, fica claro que a turba ali não está a fim de “ordem e progresso”. Quer aumentos salariais acima da inflação, que reponham as perdas. “Se não parar no ano da Copa, quando vamos conseguir aumento?”, gritou para as câmeras um motorista de ônibus.

Carvalho chamou os grevistas de sabotadores. Haddad chamou a turma de “guerrilha”. O que fazer com os motoristas e cobradores de ônibus que instalaram o caos em São Paulo e deixaram milhões ao relento e à deriva? Como lidar com esses guerrilheiros urbanos? Multa? Prisão? O que acontecerá com os companheiros que rejeitaram a negociação do sindicato, furaram pneus dos ônibus, tiraram as chaves, bloquearam as avenidas, retiraram passageiros de todas as idades de dentro de ônibus, como se fossem sequestradores comuns? Colocaram a cidade de São Paulo de joelhos.
E Lula? Como ele disse achar “uma babaquice” a preocupação de ter metrô até a porta dos estádios, porque brasileiro “vai a pé, descalço, de bicicleta, de jumento, de qualquer coisa”, o que deve ter pensado quando milhares de mulheres e homens sofridos precisaram caminhar para o trabalho e de volta para casa? Lula chegou a dizer a blogueiros que a Copa será o momento de o país “mostrar sua cara”. “Esconder pobre está fora de cogitação”, afirmou. Aguardo a reação oficial à onda de greves de trabalhadores ingratos que antes aplaudiam Dilma.
O coordenador dos sem-teto, Guilherme Boulos, afirma: “Queremos trazer a Copa para os trabalhadores. Empresários e a Fifa tiveram seu pedaço do bolo. O trabalhador agora quer sua fatia”. E ameaça um “junho vermelho” se tentarem remover as famílias que invadiram o terreno da construtora Viver, na Zona Leste de São Paulo: “Se a opção da construtora e dos governos for tratar a questão como um caso de polícia e buscar garantir posse, haverá resistência. Se querem produzir uma Copa com sangue, essa é a oportunidade que eles têm”. “Eles” quem?
Será que Boulos se refere aos companheiros Lula e Dilma, que prometeram tudo pelo social e resgataram tantos milhões de brasileiros da extrema pobreza? É prudente o PT parar de culpar a “imprensa conservadora”, o “mau humor” e a “nuvem negra”. É melhor começar a ouvir os movimentos sociais. Que divórcio litigioso é esse entre o PT e trabalhadores? Nem os programas de televisão nem os marqueteiros conseguem provar a essas categorias todas – médicos, professores, motoristas – que o PT está do lado do povo?
Ninguém de bom-senso pode ser a favor das cenas vistas em São Paulo nos últimos dias. Sou a favor do direito de greve – um direito garantido pela Constituição e pela democracia. Não é crime uma categoria tirar proveito de um momento estratégico para fazer reivindicações trabalhistas justas.
Por que controladores aéreos franceses param no verão europeu? O mesmo se pode dizer dos trens e metrôs em Londres. Por que se interrompe a coleta de lixo quando o calor é maior na Europa? O objetivo de uma categoria insatisfeita é provocar o maior estrago possível para aumentar o poder de barganha. Mas, até para convocar um movimento trabalhista legítimo, é preciso um mínimo de civilidade para angariar apoio. O que vimos foi ignorância, crueldade e bandidagem.
O pano de fundo das greves vermelhas pré-Copa chega a ser irônico, num país governado pelo PT há 12 anos. As bandeiras são: “Moradia digna. Educação digna. Saúde digna. Transporte digno”. Ouvi isso da boca de uma manifestante dos sem-teto em São Paulo.
Qualquer estrangeiro que chegue desavisado ao Brasil e depare com multidões de manifestantes exigindo esses quatro direitos básicos de cidadania, todos associados à palavra “dignidade”, pode perguntar. “O que aconteceu? É a direita que governa agora o país?” Não, é Dilma, com Lula.
Dá medo? Ou esperança?

Beco sem saída, por Paulo Guedes, O Globo

Comentario meu--tudo é feito/construido a imagem e medida dos homens. Ha épocas, mais ou menos duradouras, em que os sentimentos menores suplantam os maiores, entremeadas de umbigos mais ou menos proeminentes--estamos em uma cuja a definicao popular poderia ser--farinha pouca meu pirao primeiro--ou mais antiga e cinica--quem parte e reparte, se nao fica com a melhor parte, ou é burro ou nao tem arte--Ugh!

.................................................................xxxxxxxxxxxxxxxxx..............................................................Há várias maneiras de evitar os males e riscos atribuídos ao capitalismo, mas o “socialismo do século XXI” é um mergulho no abismo

O mito do capitalismo cruel foi sempre muito popular. Afinal, sendo o capital tão velho quanto o diabo, são-lhe atribuídos todos os males do mundo. Floresceu entre os negociantes assírios, nos mercados da Babilônia, com navegantes fenícios, comerciantes atenienses, latifundiários e feirantes medievais, industriais e financistas anglo-saxões e agora até mesmo entre ex-comunistas sino-soviéticos.
A antipatia é tamanha que a profecia de aprofundamento das desigualdades até seu inevitável colapso acabou tornando Karl Marx, um economista pós-ricardiano menor do século XIX, o mais influente ideólogo do século XX.
O fervor religioso de seus crentes resiste aos fatos. Pouco importa que um apocalipse do regime socialista tenha mergulhado na miséria 3,5 bilhões de eurasianos, que buscam agora, em desespero, sua inclusão nos mercados globais, derrubando salários e aumentando os lucros em todo o mundo. A culpa é sempre do capitalismo.
Pouco importa que os governos impeçam a colossal destruição de riqueza financeira através das operações de salvamento de bancos, em vez de garantir apenas os pequenos depositantes. “Salvar bancos não era salvar o mundo”, descobre agora o Prêmio Nobel Paul Krugman.
A culpa pela concentração de riqueza é do capitalismo, que permitiu a acumulação desigual nos tempos em que houve abusos e excessos, ou dos governos, que impediram grandes perdas patrimoniais nas crises decorrentes?
Por que não aliviaram hipotecas de classes de baixa renda e dívidas de estudantes, em vez de garantir grandes fortunas estacionadas em um sistema financeiro quebrado? Isso pode ser coisa do diabo, de financistas e do governo, mas não é coisa do capitalismo, que também destrói privilégios e riquezas todo tempo e em toda parte.
Um economista pós-walrasiano menor contemporâneo acaba de “demonstrar” mais uma vez a perversidade do capitalismo cruel. Poderíamos evitar males como a concentração excessiva de renda e riqueza? Poderíamos reduzir os riscos de uma desestabilização política das democracias liberais? É claro que sim, e de várias maneiras.
O único caminho inexorável para o abismo, o verdadeiro beco sem saída lamentavelmente escolhido pelos nossos vizinhos kirchneristas e bolivarianos, é o “socialismo do século XXI”.

Vira-latas, por Elton Simões


Fracasso total talvez inexista. Provavelmente seja conceito que habita somente o mundo das ideias sem jamais tocar a realidade. Fracassos não são absolutos. Vêm em graus e intensidades variadas. Por isto, são tão difíceis de medir.
Mas a dificuldade na mensuração não deveria, em tese, servir como argumento para a negação de sua existência. Fracassos acontecem quando os objetivos não são atendidos. A distância entre a intenção e fato denuncia o tamanho e intensidade do fracasso.
Todo projeto fracassado começa com objetivos ambiciosos, amparados por planejamento deficiente, e executado sem a competência e empenho necessários. É função do casamento da incompetência com desonestidade intelectual.
A primeira característica da chegada do fracasso é a negação de sua existência. É quando impera a falsidade. É vitória efêmera do fingimento sobre a realidade. É a aposta na cegueira e falta de memória coletiva.
Infelizmente, o tempo passa. E sua passagem traz consigo a percepção mais clara dos fatos. Tornando impossível a negação da realidade. Nesta hora, responsáveis pelo fracasso tendem a minimizar os problemas. Pregam o conformismo. Uma espécie de pacto com a mediocridade.
Mediocridade é coisa difícil de aceitar. A insatisfação causada pela distância entre o prometido e o entregue não diminui com a mediocrização tardia dos objetivos. Sentindo o cheiro da chegada do fracasso, e embalada pela sensação de engodo, a indignação aflora.
Nesta hora, somem os responsáveis. Silenciam as autoridades. E, com a mesma facilidade, abundam os culpados. Afinal, culpados são fáceis de criar. Basta o uso adequado, mas indiscriminado, do dedo indicador.
Autoridades e demais responsáveis pelo fracasso estão sempre ávidos e dispostos a distender seus indicadores em qualquer direção que lhes garanta o distanciamento do fracasso. E, na busca por culpados, sobra culpa para todo lado. Até para 'complexo de vira-lata'.
Injustiça com os vira-latas. Fossem eles os responsáveis, talvez os resultados fossem diferentes.
Possivelmente motivados pela sua baixa autoestima, os vira-latas teriam trabalhado mais, planejado melhor, e entregado (pelo menos) o suficiente.
Talvez ai esteja uma boa explicação. Faltaram vira-latas!

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

Subcomandante Marcos ‘deixa de existir’, O Globo


Ao longo do texto, refere-se a si mesmo como um “personagem” um “holograma”, que agora “havia sido destruído pelos zapatistas”. O anúncio ocorre 20 anos após a rebelião armada do EZLN contra o governo mexicano, em 1º de janeiro de 1994, no estado de Chiapas, um dos mais pobres do México, onde 75% da população, a maioria indígena, descendente dos maias, vive na miséria.
     
Ícone das esquerdas. O sub Marcos veste sua indumentária tradicional
Foto: AFP/1-5-2006

“Quero pedir, aos companheiros, às companheiras, paciência, tolerância e compreensão para o que vou dizer: estas serão minhas últimas palavras em público antes de deixar de existir.”
Com estas palavras o subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), inicia a carta em que afirma não ser mais o porta-voz do movimento, publicada sábado, no site oficial do grupo.
Sempre vestindo boné, balaclava e fumando cachimbo, Marcos foi um dos mais icônicos líderes revolucionários da América Latina, símbolo da luta dos povos indígenas de Chiapas contra a pobreza e a injustiça social. “O que se iniciou em 1994 é um dos muitos momentos da guerra dos de baixo contra os de cima, que nos deu o privilégio de chegar a ouvidos e corações atentos e generosos em geografias próximas e longínquas.” Marcos foi identificado pelo governo mexicano como Rafael Guillén, um acadêmico da cidade de Tampico.
Graças à enorme eloquência junto aos meios de comunicação — foi um dos primeiros a usar a internet como meio de divulgação —, o subcomandante Marcos tornou-se uma das vozes mais escutadas internacionalmente dos movimentos de luta contra o capitalismo.
Na carta de despedida, finaliza: “Por minha voz já não falará a voz do EZLN. Abraços, saúde e até nunca... ou até sempre, quem entendeu saberá que isso já não importa, que nunca importou.” E reassina a carta como “subcomandante Insurgente Galeano”, em homenagem a um guerrilheiro zapatista morto recentemente, em confronto supostamente contra tropas mexicanas, e deixando no ar se continuará se manifestando, mas agora como outro personagem.

Brasil ta cansado de levar espôrros...(abaixo)

Brazil Is Tired of Being Scolded


SÃO PAULO, Brazil — By now, Brazil should probably have been grounded for life, without video games or dessert.
Last month, a vice president of the International Olympic Committee, John Coates, said that Rio de Janeiro’s preparations for the 2016 Summer Olympics were the worst he had ever seen.
Before that, Sepp Blatter, the president of FIFA — the Federation of International Football Associations — claimed that Brazil was further behind in its preparations for this summer’s World Cup than any previous host nation, even though it had had seven full years to prepare. Then, in March, FIFA’s secretary general, Jérôme Valcke, declared we could risk being “the worst organizers” of the “worst event.” He had previously said that Brazil needed “a kick up the backside.”

Well, that was harsh. Brazilians, long treated as obedient children on the world stage, have always submitted to the superior wisdom of foreign authorities. Fifty years ago, after President João Goulart was deposed by a right-wing military coup, the American presence in our political scene was so conspicuous that a humorist announced a mock-campaign for the United States ambassador: “Enough of middlemen — Lincoln Gordon for president!”
Later, in the ’80s and ’90s, we quietly complied with the austerity and debt restructuring programs imposed by the International Monetary Fund — even if they meant the undermining of our national sovereignty and the suffering of the poor. We didn’t even complain when Rihanna came here for a concert and supposedly asked for everything yellow to be removed from her dressing room.
We’re famous for being an easygoing nation that happily gives away some of its oil field exploration rights to foreign companies. We’re friendly, acquiescent and cheerful. We like to please.
But there’s a growing feeling that FIFA and the Olympic committee are taking the demanding parent act a bit too far.
We try to behave ourselves for Mommy FIFA, especially in front of visitors. When she wanted beer served inside the stadiums, we amended our laws to allow it. When she asked for tax exemptions for herself and for her service providers, we consented. When she required that we ask her permission to host traditional street festivities like São João’s during the event, we complied.
So far we’ve spent around $12 billion to please her, of which more than 85 percent comes from public funds, including tax exemptions. We’ve evicted citizens from their homes to build stadiums and related infrastructure, and created strict security zones around the venues. We’ve diligently repressed those who protested against the mega-event, firing tear gas on unarmed people and attempting to charge them as terrorists. We’ve tried to convince ourselves that this is going to be a huge economic opportunity, despite lots of evidence to the contrary. And yet FIFA is never satisfied.
It’s no use complaining to the International Olympic Committee, since it’s playing the role of Daddy in this family drama. He also disapproves of everything we do: He complained about construction delays, criticized the pollution in Rio’s waterways and said we were even worse than Greece, before the 2004 Summer Olympics. “Your older sister had better grades,” we heard him say.

It’s as if they were both expecting a classical pianist and all they got was a punk rocker who knows only three-chord songs. Well, if they wanted punctuality, maybe they should have chosen the Germans or the Swiss to host their events. We Brazilians are slightly different.
Last month, Mário Gobbi, the president of the Corinthians soccer team (which owns Itaquera Stadium, one of the World Cup venues), claimed that delays were part of the Brazilian way of life. “I don’t know of any renovation or construction project that went on schedule,” he said in an interview.
I’ll give one example: The subway system in Salvador, a city in Bahia state, on our northeast coast, has been under construction since 1997. The government has spent more than $450 million for four miles of tracks, which will be ready to operate on June 11, one day before the World Cup opening. (Two years ago, the Federal Court of Auditors found evidence that $180 million of the project’s money had been lost to overbilling and embezzlement, but the matter is still under investigation. Bahia’s Court of Justice has also indicted a number of businessmen for illicit association, formation of cartels and bid rigging.)
Another: 22 years ago I worked on a petition to clean up the Tietê River, in São Paulo. Today, $1.6 billion and more than one million signatures later, it still stinks.
In Brazil it takes 13 bureaucratic procedures — required signatures and forms and the like — and 107.5 working days to open a business, according to a recent report from the World Bank. Construction permits take 400 days to get issued, and you need to wait 58 days more just to get electricity flowing.
It once took a man in Bahia four years to schedule a common diagnostic test called a uroflowmetry at a public hospital.
So FIFA and the I.O.C. can scold all they like: We still won’t be finished until the last minute. And when it is finally done, there will be budget overruns and even a few workplace accidents. As Mr. Gobbi warned, nonsensically, when celebrating the end of construction on the Itaquera Stadium: “Among the dead and wounded, everybody survived.”
We’ll do it our way. There’s no use giving us a time out. There’s no use calling Uncle Sam, either; he wants nothing more to do with this crazy family.
Vanessa Barbara, a novelist and columnist for the Brazilian newspaper Folha de São Paulo, edits the literary website A Hortaliça.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Recreio---Paulinho da Viola - Meu Mundo é hoje (Eu sou assim)

                

Humor de Amarildo--Aprendendo a nadar ...com Havelange!!!???



Ex-agente do DOI revela como torturou presos da ditadura de 64, por Chico Otavio, O Globo

Riscala Corbaje, ex-agente do DOI, revela ao MP como torturou mais de 500 presos

            
Coronel reformado da PM trabalhou por dois anos no DOI-I da Barão de Mesquita, na Tijuca
Foto: Leo Martins Coronel reformado da PM trabalhou por dois anos no DOI-I da Barão de Mesquita, na Tijuca Leo Martins
RIO - De 1970 a 1972, durante o auge da repressão política no país, as sessões de interrogatório no Destacamento de Operações de Informações do 1º Exército (DOI-I), na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, chegaram a mobilizar 20 torturadores para cada preso. A brutalidade servia para arrancar informação em menos de 48 horas, a tempo de fazer novas prisões. Era “um massacre”, como definiu o coronel reformado da Polícia Militar Riscala Corbaje, ex-chefe de equipe de interrogadores do DOI, ao falar pela primeira vez sobre sua participação direta nas torturas. Em três horas de depoimento ao grupo Justiça de Transição do Ministério Público Federal, Riscala contou que, ao chegar, o preso era levado à “sala do ponto”, um lugar tão terrível que “até o diabo, se entrasse ali, saía em pânico”.

Pelas mãos de Riscala, que usava nos porões da ditadura o codinome “Nagib”, passaram cerca de 500 presos nos quase dois anos que esteve no DOI. Embora admita o envolvimento em sessões de eletrochoque e a prática de outras violências físicas contra presos, ele disse que o aparelho mais eficaz para fazer o interrogado abrir a boca era o pau de arara, que consiste em atravessar uma barra de ferro entre os punhos amarrados e a dobra do joelho do torturado, e colocá-la entre duas mesas, deixando o corpo da vítima pendurado. Riscala explicou que a dor era indescritível, pois todo o peso do corpo do torturado ficava “em cima dos dois nervos que passam por debaixo da perna”.
- Não tem necessidade de fazer nenhum outro sofrimento, choque, nem nada. Os outros davam tapa, davam soco. Cada um trabalhava de um jeito lá. Tu já viu estudante? Você pega um estudante, você bota ele com o peso do corpo numa barra de ferro e deixa ele 15 minutos pendurado no pau de arara. Não precisa dar choque. O cara urra de dor. Sabe por quê? Atinge os nervos da perna. O cara quer descer de qualquer maneira.

Torturador quer paz---leia mais aqui
Cabia a Riscala, nas sessões que comandava, decidir quem descia do pau de arara e quem continuava pendurado. Desde que figurou pela primeira vez em listas de torturadores, o coronel nunca se deixou ser visto. Conseguiu ficar nas sombras até mesmo em 1985, já na democracia, quando foi descoberto e denunciado por ex-presos políticos no cargo de assessor de Segurança do Banerj, no governo Brizola. Hoje, completamente cego e doente, ele disse que revolveu contar o que sabe para se livrar do problema:
- Só quero de vocês (membros do Ministério Público), pelo amor de Deus, que me deixem em paz. Eu sou cardíaco, cheio de problemas, tenho um neto que é excepcional, cada vez que eu venho para cá, fica a família toda nervosa. Eu falei para a mulher: não vou deixar de depor, estou cansando o meu advogado. Não tenho nada a esconder.

Iranianas exigem que atriz ........(leia mais abaixo) por Ángeles Espinosa (Él Pais)

Iranianas exigem que atriz que deu beijo proibido em Cannes seja flagelada

                           
                         A atriz iraniana e membro do júri de Cannes Leila Hatami. / BERTRAND LANGLOIS (AFP)


Um grupo de universitárias iranianas pediu que a atriz Leila Hatami seja flagelada em público por ter beijado o presidente do festival de Cannes, Gilles Jacob. O beijo casto, na bochecha, com o qual os dois se saudaram na última segunda-feira no tapete vermelho foi duramente criticado pelos retrógrados da República Islâmica. Agora, esta novo caso vem confirmar que os setores mais conservadores se lançaram em uma guerra para tentar desprestigiar internacionalmente o Governo do moderado Hasan Rohaní.
Segundo o site Tasnim, várias integrantes do setor estudantil do Hezbollah, um grupo ultra vinculado com a Guarda Revolucionária (Pasdarán), apresentaram na quinta-feira uma demanda para que Hatami seja julgada. A protagonista de Una Separación, o único filme iraniano que ganhou um Oscar, está em Cannes como parte do júri da Palma de Ouro, presidido pela diretora de cinema Jane Campion.
“As signatárias, um grupo de estudantes muçulmanas, pedimos à seção cultural e de meios de comunicação da promotoria que processe Leila Hatami por seu pecaminoso ato [beijar um homem em público] o que segundo o artigo 638 [do Código] de Justiça Islâmica Penal acarreta pena de prisão”, assinala o texto.
Pouco importa que Jacob tenha 83 anos e declare que foi ele quem beijou Hatami, de 41, por ela ser uma representante do cinema iraniano. As puritanas ressaltam que a atriz “feriu os sentimentos do Irã enquanto nação orgulhosa e terra de mártires”, motivo pelo qual também solicitam que “seja açoitada, tal como estipula a lei”. O pedido acrescenta que o comportamento de Hatami, e seu aparecimento “com roupa ilícita” em público, “fomenta a corrupção”. Por tudo isso pedem entre um e dez anos de prisão.
                                         
                                   A atriz iraniana Leila Hatami e o beijo no presidente de Cannes.
Embora não houvesse indicação oficial de que o caso tenha sido colocado em trâmite, sua mera proposta alenta a imagem do Irã como uma teocracia retrógrada e machista cada vez mais desligada da realidade. No entanto, em um país onde as iniciativas cidadãs espontâneas são cada vez mais raras, o gesto das universitárias reforça a percepção de que os grupos ultraconservadores que perderam a eleição presidencial do ano passado para o moderado Rohaní, decidiram mudar a batalha política para o terreno social e cultural.
Os ataques contra Hatami são um elemento a mais da ofensiva diante da possibilidade de que o presidente consiga desmobilizar o conflito nuclear que mantém o Irã marginalizado perante a comunidade internacional. Nesta mesma semana, seis jovens passaram três noites na prisão por terem colocado no YouTube um vídeo em que dançavam ao ritmo do tema Happy, de Pharrell Williams. Há duas semanas, uma manifestação não autorizada de centenas de mulheres que se cobrem com o chador (um tecido negro que as esconde da cabeça aos pés) percorreu o centro de Teerã diante o olhar impassível da polícia pedindo mão de ferro contra aquelas que não ocultam o cabelo e as formas do corpo como manda a lei.
Enquanto isso, outras iranianas, fartas de que a lei as trate como cidadãs de segunda e inclusive estipule como devem de se vestir, estão se mobilizando na Internet para reclamar a liberdade de poder mostrar seu cabelo. Com 78 milhões de habitantes, Irã é um país muito plural. O crescente atrevimento da juventude e o eco que as redes sociais dão a suas iniciativas (ignoradas pelos meios convencionais controlados pelo estado) estão colocando contra a parede os guardiões das essências que temem que a abertura, por menor que seja, acabe com seu poder sobre o quarto produtor de petróleo do mundo.
Comentario meu---neste vasto mundo, multiplo e complexo, ha verdades e verdades....cada um cultiva a sua, e os idiotas creem detê-la!