quarta-feira, 30 de abril de 2014

O deslizamento de Dilma, por Elio Gaspari

A campanha pela reeleição da doutora Dilma está numa enrascada. Carrega uma cruz do passado (as malfeitorias petistas, do mensalão às traficâncias da Petrobras) e puseram-lhe nas costas outra, do futuro (o “Volta Lula”). Está presa à necessidade de justificar o que não fez e a uma ideia segundo a qual talvez não seja a melhor escolha, nem mesmo para os petistas e seus aliados.
Lula diz que não é candidato, mas comporta-se como tal e faz isso da pior maneira possível, como corretivo aos erros cometidos por seu poste. Na essência do “Volta Lula” há um implícito “Sai Dilma”. À primeira vista, esse movimento oferece um Salvador da Pátria, mas está embutido na proposta também um Salvador do PT.
O desgaste de Dilma decorre da exposição de um desgaste do aparelhamento imposto ao Estado. Em menos de um mês abalaram-se duas candidaturas nas quais a nação petista fazia enorme fé. Um só doleiro, veterano de duas delações premiadas, arrastou a campanha de Alexandre Padilha em São Paulo e a de Gleisi Hoffmann no Paraná. Sabendo-se que o partido está sem pai nem mãe no Rio de Janeiro, à malversação de recursos públicos somou-se outra, de votos.
O comissariado afastou-se do deputado André Vargas, mas essa conversão repentina pode ter sido escassa e tardia. Afinal, o PT ainda não conseguiu se desvencilhar do mensalão, hoje transformado na bancada da Papuda. Ninguém pode prever no final de abril o resultado de uma eleição que ocorrerá em outubro, mas alguns indicadores de hoje são claros:
1) A candidatura de Dilma Rousseff está sendo corroída e mesmo uma pessoa que não gosta do seu governo deve admitir que boa parte desse desgaste vem mais da repulsa ao aparelhamento do que a ela.
2) Se a proposição anterior é verdadeira, o “Volta Lula” pode ser tanto um remédio como um veneno.
3) Aécio Neves e Eduardo Campos ficaram na confortável situação de jogar parados. Pouco dizem a respeito do que pretendem fazer, beneficiados pela exposição dos malfeitos do governo. Oh, que saudades da faxina prometida por Dilma.

Não se sabe quem será o Lula que se quer de volta. Sendo uma “metamorfose ambulante”, talvez nem ele saiba. Prova disso está na entrevista que deu em Portugal. Nela disse a coisa, seu oposto e concluiu com uma dúvida.
A coisa, referindo-se à bancada da Papuda: “Não se trata de gente da minha confiança.” Deixe-se pra lá que José Dirceu, “capitão” da sua equipe, não lhe tivesse a confiança.
O seu contrário: o julgamento do Supremo Tribunal Federal foi “80% político e 20% jurídico”.
A dúvida: “Essa história vai ser recontada.”
Ganha uma viagem a Cuba quem souber qual das três afirmações deve ser levada a sério.
Enquanto esteve na oposição, a nação petista cultivou uma sociologia de botequim. Supunha que o tucanato espalhara conexões e interesses capazes de garantir-lhe o controle do Estado. Se os adversários podiam fazer isso, os companheiros também podiam. Daí surgiram Marcos Valério, Alberto Youssef, as empresas “campeãs nacionais”, empreiteiras amigas e a turma das petrotraficâncias.
Lula foi eleito em 2002 porque a invulnerabilidade sociológica do tucanato era uma fantasia. Mesmo que ele saia do banco de reservas e vá para a quadra, as urnas poderão mostrar que a dele também é.

Legion Etrangere--CAMERONE 2014

                      

Ehey, les monegasques bidon, nous sommes les etrangers qui vous sauvent la peau!
        Du boudin, pour les Alsaciens, les Suisses et les Lorrains............


             

terça-feira, 29 de abril de 2014

Herança pesada, por Míriam Leitão e Alvaro Gribel

O ano de 2015 será difícil qualquer que seja o governo. O pior erro do próximo governante será adiar os ajustes que terão que ser feitos. Há uma pilha de contas espetadas para o ano que vem. Na energia, o consumidor começará a pagar pelas extravagâncias dos dois últimos anos; as contas públicas terão que ser reequilibradas; a inflação reprimida terá que ser corrigida.
                              
Comentario meu-(obrigado C.Caruso)..da fogueira das vaidades, que podiamos esperar? 
 
As assessorias de todos os candidatos sabem disso, mas a da presidente Dilma continuará negando a necessidade das correções porque será o mesmo que concordar com as críticas da oposição. Tentará esconder e dourar a pílula.
Todos sabem que algo terá que ser feito para corrigir a herança dos últimos anos, mas a equipe do atual governo ainda está convencida dos méritos de alguns dos seus despropósitos. O perigo será adiar o enfrentamento dos problemas porque eles ficarão mais pesados.
A energia virou uma barafunda. Há passivos para todos os lados pelas confusas regras do modelo. O empréstimo assinado na sexta-feira, de R$ 11,2 bilhões, será pago até outubro de 2017, com o custo de CDI e mais 1,9% ao ano. O que significa que a conta de luz será de amargar por pelo menos esse período: os consumidores pagarão a cobertura dos custos normais do sistema, partes desse empréstimo maluco, outros aumentos provocados pelo populismo tarifário de 2013 e os desequilíbrios provocados pela má gestão do setor. Estava previsto para ser iniciado em 2014 o funcionamento de bandeiras tarifárias, que elevariam a conta quando houvesse maior uso de energia das térmicas. Mas o governo vetou a sua entrada por ser ano eleitoral. Isso elevou mais a conta para o futuro.
O combustível vai ser reajustado para ter alguma paridade com os preços internacionais. A presidente da Petrobras, Graça Foster, tem dito que é fundamental buscar essa convergência. A falta dela está produzindo um prejuízo que tem cálculos diversos conforme a taxa de câmbio, ou a forma de projeção, mas ninguém duvida que é um dos problemas da Petrobras, com reflexos nas contas externas.
A inflação entrará no ano que vem no limite máximo permitido pela política de metas de inflação e ainda com essa pressão de preços administrados, que terá que ser repassada. Isso fará subir os índices.
Quem estiver assumindo o governo gastará o seu período de lua de mel para fazer esse primeiro ajuste na casa, que pressionará a inflação, vai chacoalhar o setor elétrico e restaurar o realismo nos números das contas públicas. Se o eleito for a atual governante, ela terá que ter um boa explicação para ter adiado o enfrentamento dos problemas para depois das eleições. Em 1999, o governo FHC pagou um preço amargo por ter deixado para depois das urnas a desvalorização cambial. Sua popularidade despencou e, mesmo após subir, jamais voltou aos níveis em que estava ao ser reeleito em primeiro turno.
Há ainda uma necessidade de revisão do estilo de gestão pública em inúmeras áreas. A estarrecedora notícia dada esta semana pelo colunista José Casado se transformou em reportagens feitas pela televisão e jornal exibindo flagrantes do impensável: o racionamento de vacinas nos postos de saúde. Para quem não leu, vale a pena recuperar a coluna publicada na terça-feira. Até a vacina tríplice está sendo distribuída de forma racionada. Problemas que o Brasil pensava que tinham superado voltam a assombrar.
Há ajustes inevitáveis em alguns gastos. O déficit da previdência foi subestimado este ano, mas tem aumentado. Um dos problemas é o da pensão por morte. Em outros países, a viúva ou viúvo recebe a pensão parcial. É proporcional à idade que tem e ao fato de ter ou não filho. Aqui, é integral, mesmo que seja um casamento de uma pessoa idosa com outra superjovem, sem filhos, e com capacidade de se sustentar. Outro dos mistérios é a conta de seguro-desemprego, com crescimento explosivo em época de baixa taxa de desocupação.
Vale torcer por algumas boas notícias, como a retomada da economia mundial, uma boa temporada de chuvas que recupere o nível dos reservatórios e uma aceleração do PIB que aumente a arrecadação.
Um novo período de governo é sempre animador, e a pessoa que assume, ou reassume, chega com o poder entregue pelas urnas. Mas não terá tempo de comemorar. Terá que fazer ajustes para garantir a prosperidade nos anos seguintes.

‘El Tonto’ y sus tonterias doctorales tardias

 A tontura que levou Lula ao hospital Sírio e Libanês, no fim de semana, ganhou diagnóstico no Twitter: “Labirintite 8 anos, rótulo vermelho”.
E, quem ja foi inconteste ZORRO torna-se, a cada dia, mais Sgto (top top)Garcia.....falastrao e inconsequente.


Macunaíma vive
Ao renegar os amigos mensaleiros, Lula dá razão aos que o comparam a Macunaíma, o “herói sem caráter” da obra de Mário de Andrade.

domingo, 27 de abril de 2014

Cartas de Buenos Aires: De Sampa a Baires, por Gabriela Antunes

Finalmente chegou uma das melhores épocas para se estar em Buenos Aires. O calor cedeu e o frio ainda não chegou. O outono portenho traz temperaturas amenas e a 40ª Feira do Livro de Buenos Aires. É a oportunidade perfeita para andar nas calçadas cobertas de folhas alaranjadas, longe do calor insuportável de dezembro e livre do cortante frio de julho e agosto.
A Feira do Livro de Buenos Aires é a maior da língua hispânica no mundo e envolve o conclave pensante literário da América Latina, transformando a cidade, todos os anos, em uma festa das letras.
A Feira trouxe de volta aos holofotes personalidades como Quino, o criador da Mafalda, que tem um perfil baixo de aparições públicas, mas que, este ano, quando sua genial e geniosa criação completa 50 anos, voltou a agraciar seus fãs com sua etérea presença. “O mundo repete os mesmos erros sempre”, explicou Quino sobre a atemporalidade de suas tirinhas.
O mundo não muda mas as fronteiras se esvaem.
Neste ano, a grande homenageada da Feira é a cidade de São Paulo.

                                      
                                        Sampa versus Baires na arte de Vivian Mota

Adoniran Barbosa versus Gardel, Masp versus Malba, Praça da Sé versus Plaza de Mayo, churrasco versus parrillada, cavaquinho versus bandoneón, Hebe Camargo versus Evita Perón, Dilma versus Cristina, chope versus vinho, 25 de março versus Florida, Museu do Ipiranga versus Casa Rosada, Bixiga versus Caminito, brigadeiro versus alfajor, pastel versus empanada. A brincadeira Buenos Aires versus São Paulo, da designer gráfica Vivian Mota, ilustra bem as semelhanças e diferenças das duas metrópoles.
E metrópole e metrópole se encontram em um diálogo de minorias marginalizadas. Mais de 100 autores de São Paulo, a maioria representando a literatura das periferias, conversam com os representantes da literatura marginalizada portenha.
Cadâo Volpato, Fernando Bonassi, Rafael Coutinho, Heloísa Prieto, Reinaldo Moraes, Juliana Frank, Ricardo Lisias, Arnaldo Antunes, Marcos Siscar, Carla Caffé, Ivana Arruda, Marçal Aquino, Maria Cecilia Gomes dos Reis, Lucrecia Zappi, Paula Fábrio, Fabricio Corsaletti, Alberto Martins, Shirley Sousa, Índigo, Regina Machado, Ilan Brenman, Gilles Eduard, Lourenço Mutarelli, Andrea Del Fuego, Emílio Fraia, Ignacio de Loyola Brandão, Ricardo Azevedo, entre outros escritores, passarão pelos salões do pavilhão de exposições da Rural, no bairro portenho Palermo.
Serão saraus, encontro de coletivos culturais e shows, como o da cantora Tulipa Ruiz e Racionais Mc, em um acontecimento que promete juntar as periferias de duas das maiores cidades da América do Sul: os Mano Po, as Minas Pá e os Hermanos Che.

Gabriela G. Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e hoje é uma das editoras da versão em português do jornal Clarín.

Crescer sem investir?, por Roberto Teixeira da Costa

Não foi sem surpresa que li num estudo preparado pela Economática que desde o início do Plano Real o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) rendeu 3.181%, quase 2000% a mais que o Ibovespa.Com 20 anos, a rentabilidade da renda fixa superou por ampla margem a do Ibovespa. Discutiu-se a eficácia dos índices de mercado como instrumento que calcule a rentabilidade das ações; ainda assim, aquele diferencial é mesmo chocante.
Esses 20 anos cobriram diferentes fases da economia, boas e ruins, que tiveram obviamente impacto sobre a rentabilidade das empresas negociadas em bolsa e, consequentemente, sobre o desempenho dos índices de mercado.
Em 2013 a BMF&Bovespa, sensível à expressiva volatilidade da cotação de empresas que tinham grande impacto no índice, alterou as ponderações de certas empresas no Ibovespa. De qualquer forma, não creio que essa realidade da supremacia dos retornos da renda fixa sobre a renda variável viesse a ser substancialmente alterada.
Acreditava-se que com a estabilidade da moeda, após o plano, dias melhores viriam para o investimento em ações, pois sabidamente a inflação (desgaste da moeda) e investimento de longo prazo têm convivência problemática, pois o fator previsibilidade é característica básica para o funcionamento eficiente do mercado de capitais.
Tanto para os aplicadores dos títulos de dívida de longo prazo como para as ações, ter elementos de convicção para projetar o futuro é fundamental para aqueles dispostos a abrir mão da comodidade de aplicar no curto prazo para assumir riscos de um futuro que, por definição, será sempre de múltiplas incógnitas.

                                       Arrelia, o Obediente rôlha.......fluctuat nec mergitur!

Em diferentes períodos que antecederam o Plano Real, várias iniciativas que buscavam debelar uma inflação que criava incríveis distorções na gestão da economia, e no cotidiano da sociedade, não surtiram efeito. O plano acabou tornando-se um instrumento de confiança para que assalariados e investidores pudessem olhar o futuro como um horizonte de uma confiabilidade perdida.
Infelizmente, em períodos recentes, ainda assim uma inflação renitente na casa dos 6% ao ano, definitivamente não cria cenário propício para os investimentos de longo prazo, relembrando-nos de efeitos perturbadores da correção monetária, que foi um paliativo que se tornou um fator desestabilizador para o desenvolvimento. Para combater a inflação, o Copom aumentou os juros, e, na medida em que o fez, desestimulou o investimento em renda variável. Já vimos esse filme antes!
A pergunta que fica no ar, e a que todos os preocupados com o desenvolvimento do país fazem, é como imaginar que possamos crescer investindo a médio-longo prazo, para cobrir os incríveis gaps, por exemplo, na infraestrutura sem investimentos de longo prazo?
Será viável fazê-lo sem que haja aumento substancial de poupança e que uma parte relevante seja aplicada em ações?
O fato é que hoje, mesmo imaginando que as ações estejam depreciadas, com os juros reais no nível atual se cria um cenário pouco estimulante para o investimento em ações.

Roberto Teixeira da Costa é empresário.

sábado, 26 de abril de 2014

Grande Chico!

                             

sexta-feira, 25 de abril de 2014

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Uma elite perdida, por Ruth de Aquino, ÉPOCA


Como reagem os pais quando o filho adolescente conclui o ensino médio e exige uma festa de arromba que custa R$ 3.567 por cabeça? A megafesta dura sete horas, começa às 23 horas e, além de bebida alcoólica a rodo e uma UTI móvel, conta com shows que podem variar de Valesca Popozuda e Mr. Catra a outros tão edificantes quanto.
Será assim a confraternização de 246 alunos que se formarão no ensino médio do tradicional Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro. O que fazem os pais? Eles pagam e aprovam.
A elite brasileira perdeu o rumo? Serão esses pais os mesmos que se escandalizam com o Congresso, os políticos, os mensaleiros e a Petrobras? Essas “festas de gala” são promovidas pela empresa Forma Ideal Obah, que domina no Rio o mercado de formaturas do ensino médio.
Ela se gaba de “reinventar” a colação não só do Santo Inácio, mas de colégios como Santo Agostinho, São Bento, São Vicente de Paulo, Cruzeiro, Pedro II, Corcovado, Ceat, Escola Parque, Escola Naval e PH. Uma conta básica sugere que a empresa receberá dos alunos do Santo Inácio quase R$ 900 mil para organizar “a concretização de um sonho”, como dizem no site.
O contrato tem 20 páginas. Não assinar significa manter o filho à parte da Festa (com maiúscula) e de churrascos, promovidos pela Forma Ideal Obah como ensaios para a apoteose de dezembro. Os alunos ajudam a cobrir os custos, vendendo, em nome da empresa, 1.500 convites extras a R$ 300 cada. Organiza-se um mutirão para ajudar a Forma Ideal Obah a arrecadar mais R$ 450 mil. Sensacional.


Quem conclui o ensino médio em nosso país, portanto, já faz parte de uma elite. É sobretudo nessa fase que se formam cidadãos conscientes. Ou não. Pergunto aos pais dos alunos do Santo Inácio: o que poderia ser feito com R$ 3.567? Eles aprovam por quê? Não sabem dizer “não” ou acham lindo?

                          Livre pensar............O mundo ta rôto......e faltam reparos....

Tentei falar com a direção do colégio, não fui atendida. A assessoria de comunicação afirma que a participação dos pais na comissão de formatura foi um pedido do Colégio Santo Inácio às famílias dos formandos, devido à polêmica causada por algumas atrações dos shows de 2012, consideradas “inadequadas e irreverentes demais para adolescentes”. O Santo Inácio diz não ter vínculo nenhum com a empresa ou a festa.
Além dos funkeiros brasileiros, já vieram ao Rio para formaturas DJs como o português Pete Tha Zouk (CSI), o espanhol Sak Noel e o americano Sex Panther. Uma das maiores vantagens, dizem os adolescentes, é “bebida liberada... porque não existe formatura sem bebida”. Esse detalhe já rendeu casos de coma alcoólico, segundo relatos de pais.
Tive acesso ao contrato assinado pelos pais dos formandos do Santo Inácio, a maioria menores de idade. A festa providencia dois médicos, três enfermeiros e cinco técnicos de enfermagem, UTI móvel completa “para remoções de quadro grave” e equipe de primeiros socorros visando “a preservação da vida”.

No item “bebidas” do contrato: Open Bar, com cerveja Antarctica Original, Bud­weiser ou Heineken, Bacardi Big Apple, Tequila, Jaggermeister e Santa Dose, espumante Ponto Nero, Vodka Ciroc, drinques, caipivodcas de frutas diversas e energético Red Bull. A Forma Ideal Obah promete “reposição de todas as bebidas até o fim da festa”. O bufê café da manhã é servido a partir das 5 horas da manhã. A decoração custa R$ 150 mil. Os familiares pagam convites extras e só podem ficar nos camarotes no 2º e 3º andares.
As imagens só podem ser feitas por fotógrafos oficiais da empresa I Hate Flash. Cada foto custará R$ 22 aos formandos. Os vídeos serão editados pela After Movie. Há ainda uma área VIP, com “os seguintes itens adicionais”: Vodka Belvedere, cerveja Stella Artois, bufê japonês. Me senti bêbada só de ler o contrato até o fim.

Senhores pais – que um dia comemoraram o fim de seu ensino médio com uma cerimônia emocionante e inocente, um sundae com calda de chocolate, um beijo de parabéns de pai e mãe e talvez uma viagem para os mais abastados – , todo esse sonho vendido pela Forma Ideal Obah é uma roubada.
Retrato de um país desigual, sem valores e sem educação. Delírio de uma elite perdida.

"Grândola, Vila Morena" - Salgueiro Maia & Revolução dos Cravos, 25 de Ab...

               
                    
O Capitao (acima) Salgueiro Maia, o mais emblematico operacional,  do 25 de Abril 1974) morreu jovem e desiludido, com a Revolucao que protagonizou, em primeira linha. (veja aqui e nao so)
Acusando os politicos pela falta de vergonha na cara e despudor com a res publica. Requiescat in Pace Camarada (d`Armas)

No mais ( do Ancelmo)
No filme de João Jardim, “Getúlio”, com Tony Ramos no papel principal, tem uma frase do presidente para o filho Lutero poucos dias antes de dar fim à própria vida:

Meu filho, em todo o meu tempo de poder, jamais alguém veio me pedir algo para o país. Todos só pedem coisas dos seus interesses particulares.

De lá pra cá... você sabe e a torcida do Flamengo também........

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Uma cobertura de luxo para o cardeal Bertone

O ex-secretário de Estado do Vaticano ocupará um apartamento de 700 metros quadrados ao lado do quarto de 70 metros do papa Francisco

                    Bertone viverá com as três freiras que o auxiliam desde 2006. / Stefano R
Na guerra de poderes que sacudiu o Vaticano nos meses anteriores à renúncia de Joseph Ratzinger, retransmitida graças ao vazamento de sua correspondência privada, os papéis ficaram —até onde é sabido— muito bem divididos. O L’Osservatore Romano atribuiu a Bento XVI o título de “o pastor cercado por lobos”, um Papa tímido cujo único grande golpe dado na mesa foi o de sua renúncia. Houve um ladrão com cara de bode expiatório –Paolo Gabriele, o fiel mordomo– e um banqueiro honesto que, diante da dificuldade de um papel em geral tão contraditório, foi tomado como louco e demitido —Ettore Gotti Tedeschi. Também havia um bom elenco de coadjuvantes de luxo –elegantes padres que iam e vinham com maletas misteriosas e mandavam cartas advertindo de um suposto atentado contra o Papa— e, sobretudo, o papel principal de mau, costurado pelo então secretário de Estado, o todo-poderoso cardeal Tarcisio Bertone.
A providencial chegada de Jorge Mario Bergoglio ao Vaticano acalmou de imediato as águas. O assunto das guerras vaticanas foi relegado ao esquecimento como um pesadelo e os protagonistas desapareceram do cenário com tanta discrição que nunca pareciam ter existido. Sem perder o sorriso —ao menos em público—, Francisco aposentou de suas funções Bertone, que desde então permanecia à margem dos holofotes. Até agora. A imprensa italiana informa que o cardeal está construindo uma cobertura de quase 700 metros quadrados no palácio de São Carlos, um edifício do Vaticano situado justo ao lado da residência de Santa Marta, onde o papa Francisco ocupa um quarto duplo que não supera os 70 metros quadrados. Asseguram que, além disso, Bergoglio —“que desejaria uma Igreja pobre e para os pobres”— está vermelho de “raiva” pela “megacobertura” do super cardeal. Até o momento, a Santa Sé não deu a sua versão, porque talvez na Itália tenha se comemorado ontem a Segunda-Feira Santa ou “pasquetta” e há poucas coisas mais sagradas que esse dia de tradicional descanso em família.
A cobertura de Bertone, que pelo que parece já está quase terminada, seria o resultado da união de dois apartamentos espaçosos, um deles ocupado durante mais de duas décadas por Camilo Cibin, chefe da polícia vaticana com João Paulo II, e o outro pelo arcebispo Bruno Bertagna, um alto mandatário da Cúria que faleceu em outubro passado. Bem é verdade que Bertone não se mudará sozinho, senão em companhia das três freiras que o auxiliam desde que, em 2006, Bento XVI o nomeou secretário de Estado. Em qualquer caso, e até que Francisco não tenha começado a lançar –pregando com o exemplo— suas repetidas mensagens de austeridade e simplicidade, na Santa Sé se via com absoluta normalidade que os cardeais dispusessem de grandes apartamentos, dentro ou fora dos muros da cidade do Vaticano, e uma vida de luxo que inclui carros oficiais, secretários e religiosas para as tarefas domésticas. Mas agora, ao menos no papel, o roteiro mudou. De fato, na Quinta-Feira Santa, Jorge Mario Bergoglio dirigiu-se aos sacerdotes na basílica de São Pedro para advertir que não devem ser “suntuosos nem presunçosos”. Talvez Bertone não o tenha ouvido com o barulho das obras.

A outra saída do homem da África, El País


Comentario meu--as nossas 0cidentais "leituras" da Vida, do Mundo e da Sociedade, ancoradas nas teorias construidas a sombra do novissimo calendario gregoriano ou até do judio,pouco mais "velho"  me parecem, no minimo, estreitas......
Somos fruto de milhoes de anos de aperfeicoamento e a maquina mais perfeita na face da terra, mas mal nos conhecemos, na nossa vasta diversidade. Que AVENTURA maravilhosa, a do homem!
Hoje, de aviao, na velocidade cada dia maior, "fabricamos", frustracoes, sin dromes, miasmas e complexos varios. Produzindo imagens nem sempre condizentes com a realidade pessoal.... Sobra-nos TEMPO e faltam-nos problemas. Inventamos....
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Uma análise da diversidade genética e das medidas cranianas de 10 populações africanas e asiáticas indica que os humanos se dispersaram para fora da África em duas etapas, e que a primeira delas foi muito antes do que se pensava.
A segunda migração, que dispersou os humanos pelo norte da Eurásia há 50.000 anos, deve corresponder àquilo que se conhecia até agora como a única saída da África. Mas, segundo o estudo da Universidade de Tübingen, ela foi precedida por uma migração muito anterior, que começou há 130.000 anos e da qual descendem os atuais aborígenes australianos e os habitantes de Papua-Nova Guiné e das ilhas da Melanésia.

                     
                                                Mulheres de um grupo de dança aborígene na Austrália. Foto: Corbis

A ideia simples de que a humanidade que vive fora da África procede de uma pequena população que saiu desse continente há 50.000 anos está sofrendo notáveis revisões. Primeiro como consequência de achados arqueológicos que revelaram a presença de humanos na Arábia e no Oriente Médio antes dessa data.
E, segundo, pelas comparações dos genomas das populações atuais de todo o mundo, que mostram um quadro bem mais complicado do que se pensava. E não só pelos cruzamentos dos humanos modernos com os neandertais e denisovanos.

Os cientistas analisaram a diversidade genética de 10 populações
O consenso atual é de que nossa espécie, o Homo sapiens, originou-se na África entre 100.000 e 200.000 anos atrás – segundo dados paleontológicos e genéticos –, mas sua dispersão posterior pela África e o resto do mundo é objeto de controvérsia. “Nossos resultados amparam uma dispersão inicial para o leste através do sul do continente asiático, que começou até 130.000 anos atrás, e outra posterior, para o norte da Eurásia, há 50.000 anos”, diz a coordenadora do estudo, Katerina Harvati, do Centro Senckenberg de Evolução Humana da Universidade de Tübingen, na Alemanha. O grupo apresenta o estudo na PNAS junto com colegas da Universidade de Ferrara (Itália) e do Museu Nacional de História Natural de Paris.
Harvati e seus colegas estudaram múltiplos indivíduos (entre 10 e 215) de 10 populações essenciais para identificar possíveis modelos de dispersão dos humanos modernos: habitantes nativos da Austrália (aborígenes), Ásia Central, África Oriental, Japão, Melanésia, os negritos do norte das Filipinas (grupo aeta ou agta), Nova Guiné, norte e sul da Índia e África do Sul.
 
                                                                   Fonte: PNAS. / HEBER LONGÁS / EL PAÍS
A hipótese dessa dupla migração havia sido proposta há anos, mas de forma muito diferente. Segundo a ideia antiga, a primeira dispersão teria ocorrido muito pouco antes da segunda e teria deixado sua marca genética nos atuais habitantes da Austrália, Melanésia, Papua-Nova Guiné, os falantes de línguas dravídicas do sul da Ásia e os aeta/agta (negritos) das Filipinas.
Os novos resultados falam de uma primeira migração antiquíssima, e que só deixou rastros genéticos e morfológicos nos aborígenes australianos e melanésios.
Os negritos, habitantes do Sudeste Asiático com baixa estatura, pele escura e cabelo encaracolado, pertencem, como os demais habitantes nativos do sul da Ásia, à segunda migração, ou se misturaram tanto com ela que perderam seus marcadores genéticos ancestrais.
Conclusão: “Houve uma dispersão para o leste e outra para o norte da Eurásia”
“Nossos resultados”, escrevem Harvati e seus colegas, “são consistentes de forma general com o ponto de vista de que os atuais aborígenes australianos descendem de uma linhagem que permaneceu relativamente isolada desde o pleistoceno médio”, ou seja, há 130.000 anos. Isso não quer dizer que a colonização original da Austrália tenha ocorrido nessa época remota – tudo aponta para 50.000 ou 60.000 anos atrás –, mas sim que essa linhagem saiu da África muito antes. A interpretação direta destes dados é que eles levaram 80.000 anos para chegarem ao continente australiano.
Os novos resultados podem explicar alguns paradoxos que pareciam desconcertantes com o esquema prévio. Por exemplo, se só houve uma migração para fora da África, como se explicam as evidências arqueológicas de ocupação da península arábica por humanos modernos datadas de 125.000 anos atrás? É verdade que esses indícios não incluem por enquanto nenhum fóssil humano, mas sim artefatos de pedra muito parecidos com outros achados na Etiópia, que foram classificados como modernos e datam de 150.000 anos atrás. Uma migração original de humanos modernos para fora da África, por outro lado, se encaixa excepcionalmente bem com esses dados deslocados. De modo similar, se encaixa bem com as últimas interpretações sobre o clima primitivo no continente, que nos falam de secas devastadoras que começaram a assolar o leste da África há exatamente 135.000 anos, de novo numa correspondência temporal quase perfeita com os novos dados de Harvati e seus colaboradores.
E, como é obvio, a existência de uma migração há 130.000 anos torna desnecessário encontrar uma explicação para outro paradoxo: os longuíssimos milênios que supostamente teriam transcorrido entre a origem da espécie humana moderna e a sua saída da África. Por tudo o que sabemos agora, é perfeitamente possível que nossos ancestrais tenham emigrado do continente-mãe um dia depois da serem criados pelos sempre assombrosos e frequentemente enigmáticos mecanismos da evolução, os verdadeiros fazedores de tudo o que existe na biologia do planeta Terra.
Leia mais, clicando acima.

A charge de Amarildo

               


O grupo dos quatro, por Antônio Gois*


Os amigos Bruno, Augusto, Jefferson e Stheffen estudaram no mesmo colégio estadual em Minas Gerais, e hoje frequentam o curso de engenharia mecânica da Universidade Federal de Uberlândia. Quando estavam no ensino médio, eles se destacaram na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP), mas nunca esqueceram as dificuldades que tinham que superar para se preparar para o exame numa escola pública.
Já na universidade, em 2011, surgiu uma ideia: por que não voltar ao Colégio Estadual Messias Pedreiro para ajudar na preparação dos alunos para a OBMEP? Prontamente aceita, a sugestão foi colocada em prática naquele mesmo ano e, desde então, quando as olimpíadas se aproximam, eles voltam à escola para ajudar professores e estudantes. Ganharam até um apelido: o grupo dos quatro.

Bruno Miranda, de 20 anos, é filho de um pedreiro e de uma diarista. Por sua trajetória, o fato de ter chegado à universidade já justificaria todo o (baixo) investimento que o poder público fez em sua educação. Mas ele e seus amigos achavam que isso não era suficiente. “Quando você estuda em escola pública, fica muito dependente dos professores. Na Messias Pedreiro, eles são ótimos, mas nem sempre têm tempo suficiente para preparar os alunos como gostariam. Quando é possível, acho importante retribuir de alguma maneira, pois quem estuda na escola pública é porque não tem dinheiro para pagar um colégio particular”, afirma Bruno.
O exemplo dos quatro amigos de Uberlândia leva a uma reflexão do quão pouco retribuímos no Brasil para a escola pública. No caso da educação básica, o ensino gratuito é direito garantido pela Constituição. Gestos como esse de Bruno e seus colegas são extraordinários, mas o melhor retorno que a sociedade pode ter do investimento neste nível é ver mais e mais alunos como eles aprendendo e avançando na educação.
No ensino superior, no entanto, poderíamos esperar mais gestos de generosidade. A maioria das universidades públicas no Brasil, por exemplo, sequer sabe ao certo se, ou quanto, ex-alunos doaram para as instituições onde, gratuitamente, se formaram. Nos Estados Unidos, são comuns tanto contribuições mais modestas até casos de doações milionárias. Harvard, por exemplo, acaba de receber a maior de sua história: 150 milhões de dólares, do bilionário Kenneth Griffin. No Brasil, infelizmente, temos menos bilionários, e eles não parecem tão generosos quanto os colegas americanos.
Se não prospera muito por aqui a ideia de que devemos contribuir voluntariamente para instituições universitárias onde nos formamos, ao menos deveríamos voltar a debater a cobrança de mensalidades dos que podem pagar. No ensino fundamental, 86% dos estudantes são da rede pública, e a renda média per capita deles, segundo o IBGE, é de R$ 386. No ensino superior público (onde estudam 24% dos universitários), a renda média per capita sobe para R$ 1.189. No entanto, o poder público investe por aluno do ensino fundamental R$ 367 mensais. No ensino superior, esse gasto é de R$ 1.724.
Cobrar dos que podem pagar não significa que nossas universidades públicas se tornarão financeiramente independentes do governo. Longe disso. Mesmo Harvard, que é privada, recebe financiamento significativo do estado americano, principalmente para investimento em pesquisas. O problema no Brasil é que uma mesma parcela das classes média e alta que ataca o Bolsa Família por achar que é simples esmola do Estado para os pobres não se indigna tanto com o fato de seus filhos terem o ensino superior bancado integralmente pelo estado. Se ao menos houvesse no país uma cultura de retribuição a esse investimento público, o discurso seria menos contraditório. Mas nem isso acontece.

*Antonio Gois é editor-adjunto de polícia e colunista de Educação do GLOBO

EU QUERO UMA PRA VIVER , Marli Gonçalves

Avenida Paulista. Era feriado e São Paulo entregue a uma tarde modorrenta, tipo sabe como? Tipo – esse tipo aqui é tipo assim imitando a linguagem desses meninos que estão sentindo a ave piar, mas não sabem onde – tudo corria bem normal, até na ciclovia improvisada destes dias. De repente eles apareceram à minha frente – um bloquinho de umas 400 pessoas meio que organizadas e divididas em quatro ou cinco colunas, alas, duas à frente do carro de som, outras seguindo atrás, onde ao fim traziam uma imensa bandeira, daquelas que precisa de um monte de gente pra carregar. Me lembraram o Brasil.

Parei para ver a banda passar já que estava à toa na vida. Todos muito jovens, muito cabeludos, as meninas e os meninos; de todos os jeitos, lembro de muito xadrez, muita tatuagem, muito jeans, muito vermelho, algum amarfanhado, inclusive nas bandeiras. Alguns cobriam o rosto, mas mais por charme do amarrado de um lenço de marca: “Levante Popular”. Havia bandeiras de todas as cores, verde e amarelas, lilázes, faixas pintadas. Coloriram rapidamente o asfalto, fechando a avenida. Me lembraram os Doces Bárbaros.

Todos me pareceram do bem. Podiam até estar equivocados, mas eram do bem. Pediam liberdade, mas usavam camisetas do Che, carregavam fotos do Chávez e do Maduro da Venezuela. Falavam em Constituinte, em socialismo, em libertar a América do Sul, e me fizeram lembrar de Belchior. Entendi que para eles importava o mover, o Levante, levante popular, o nome do grupo, como me pareceu, sob o comando de um líder ao megafone. Importava o pedir, e eles usavam novas rimas. Paravam, dançavam, pulavam. Me lembraram as marchas evangélicas.
Inclusive, chamou minha atenção o número de bandeiras do Movimento dos Sem Terra e sem Teto, sem alguma coisa. Haverá uma lojinha onde se compram adereços de protesto? Porque os que as carregavam não o eram, não me pareceram nem sem teto, nem sem terra. Me lembraram da amargura de Gonzaguinha.

Sei que pediam de um tudo, porque os vi passar, cada qual também com sua palavra de ordem particular. Sob o som da bateria, me lembraram de uma escola, de samba, mas também da Educação, um dos seus temas.

Me emocionaram e, de verdade, umas teimosas correram pelo rosto. Também quero. Queria achar, mais do que uma turma para fechar a Avenida Paulista, uma ideologia para chamar de minha, porque as que eu tinha minguaram. Senti essa falta. Fui pra política, estive na fundação do PT, deu no que deu, pensei na guerrilha, deu no que deu, larguei, voltei-me para o rock, para o feminismo, para a libertação sexual. Deu no que deu. Depois, para a ecologia. Deu no que deu. Hoje milito num campo perigosamente minado, de jornalismo, mas minado porque preciso andar em ziguezague – ora rezo com a esquerda, outras, me alinho ao centro; e os opositores, pobres de espírito, acusam como direita.

Nada está completo para uma devoção, para uma entrega, para uma torcida. Nem de lá nem de cá. É solitário e desolador ver o nível de desentendimento das coisas, mesmo as mínimas, aquelas que deveriam juntar todos nós.
Quero uma ideologia particular, e acabarei qualquer hora criando uma, se já não estou há muito tempo tentando. Porque ideologia só cresce na argumentação, que arregimenta e fortalece até virar mais comum e aceita. Escrevo e te conto o que penso – quem sabe você também está por perto esperando uma passeata.

Mas ela, a ideologia, precisa, antes, nascer. Para que a gente possa por ela se apaixonar e criá-la para que fique forte. Já comprei binóculo, procuro lunetas e até agora ainda não as vi no horizonte. Com lupa, nas letras que leio, também não.
E eu quero uma para viver. Adoraria poder cantar e dançar por ela.
São Paulo, 2014
Marli Gonçalves é jornalista – Entrando no inferno astral, pensando em trocar de pele, tipo a de cobra pela do jacaré. Porque a gente vai precisar de ter a casca dura.
Filmei alguns minutos. Procura no YouTube. Meu canal chama jornalista.marligo.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Agora, por Elton Simões

Foram fortemente exagerados os rumores a respeito da iminente chegada do país do futuro ao primeiro mundo. Aqui e ali ainda sobrevivem alguns pálidos, erráticos e por vezes furiosos resmungos que denunciam os vestígios da existência e morte destes rumores infundados.
O país do futuro, com os pés fincados e firmemente atados ao presente, e os olhos irremediavelmente voltados ao passado, permanece impávido colosso de sonhos abandonados. A colisão inevitável entre os delírios de grandeza e a realidade bruta evidenciou a distancia entre intenção e fato.


Gerou em barulho e fúria. Produziu bastante calor e nenhuma luz. Logo acalmou. Virou incredulidade, descrença, desilusão. E, finalmente, adormeceu na forma de magoa sufocada pelo silêncio. Ausente aos olhos, mas concreta e palpável no coração. O gigante permanece deitado, talvez eternamente, em berço esplendido, onde dorme sono profundo e inabalável.
Agora, a inflação não cede. O país não cresce. O transito não anda. O trem não tem. A energia não vem. A água não chega. A festa acabou. A luz apagou. O povo sumiu. A noite esfriou. Não veio a utopia. Tudo acabou. Tudo fugiu. Tudo mofou. Já não dá para esconder. Já não dá para sorrir. Fugir já não pode.
E com o olhar cada dia mais longe, todos ficam a aguardar, a chegada em data incerta e desconhecida, do futuro glorioso. Enquanto o amanha não chega, resta o hoje.
O agora. E é neste agora que chega a conta dos desatinos passados.
Triste. Como toda ilusão que acaba.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

Crimes de opinião, por Paulo Guedes

A Páscoa celebra a ressurreição do Crucificado. “O mestre da Boa Nova morreu como viveu e como ensinara. Sua prática foi o que ele deixou à humanidade. Sua conduta perante os acusadores, perante os juízes, perante os carrascos e perante toda espécie de calúnia e ultraje. Também seu comportamento na cruz. O reino de Deus não é algo que se espere; não tem um ontem nem um amanhã; não virá dentro de mil anos; é uma experiência do coração e está em toda parte”, reconhece mesmo um autodeclarado anticristo.
Pois bem, o cristianismo foi muito além da moral de escravos, ressentidos e decadentes denunciada por Nietzsche. Transfigurou-se em manto sagrado, acolhendo um atávico e universal sentimento de solidariedade. Lançou também as sementes de um futuro de igualdade entre os homens. Fincou as raízes da civilização ocidental, frondosa árvore milenar que lança aos céus o humanismo e as ciências, a democracia e os direitos humanos, a liberdade religiosa e a educação laica, entre muitos outros galhos da modernidade.

                                    
                                                           Giordano Bruno

Distância oceânica entre as lições de Cristo e a prática da Igreja. “Às 5 horas e 30 minutos da manhã de sua execução, em 19 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi levado acorrentado, vestindo uma túnica branca até o tornozelo. Dia de festa em Roma, o caminho apinhado de curiosos. Conforme avançava a procissão, Bruno reagia à multidão zombeteira com citações de seus livros e ditos dos antigos. Um longo espeto de metal foi então enfiado na bochecha esquerda, prendendo sua língua, saindo pela bochecha direita.
Outro espeto foi enfiado verticalmente, furando seus lábios. Juntos, os espetos formavam uma cruz. Hereges eram queimados com madeira seca e pouca fumaça, para não sufocarem. As chamas queimando-os e cauterizando as feridas, até envolvê-los, causando a morte pelo choque. Na última tentativa de salvar sua alma, um padre inclinou-se sobre o fogo com um crucifixo, mas Bruno virou a cabeça”, registra Michael White, em “O papa e o herege” (2002).
Por também imaginar outras possibilidades — um Brasil livre e republicano, como a América do Norte —, no dia 21 de abril de 1792 foi enforcado, decapitado e esquartejado Tiradentes. “Se cultivasse um pomar, eu não seria repreendido. Mas, por cultivar a mente e o intelecto, sou devorado”, reconhecia Bruno ante a Inquisição.

domingo, 20 de abril de 2014

Anatomia de uma maracutaia, por Elio Gaspari

A doutora Dilma Rousseff ganhou um presente. A Câmara e o Senado puseram a bola na marca do pênalti, para que ela vete o dispositivo da Medida Provisória 627, que alivia as multas devidas pelos planos de saúde que negam aos clientes o atendimento contratado.
Enfiaram num texto que tratava de outros assuntos uma nova sistemática para a cobranças dessas penalidades. É o PróDelinquente. Se uma operadora nega ao freguês um procedimento médico, ele se queixa à Agência Nacional de Saúde e tem seu direito reconhecido, a empresa deve pagar uma multa de R$ 2 mil.
Se essa mesma empresa nega dez procedimentos, pagará R$ 20 mil. Com a mudança, se o plano de saúde negar de dois a 50 procedimentos, pagará duas multas (R$ 4 mil, em vez de até R$ 100 mil). Daí em diante, haverá uma escala.

                                           

Quanto pior o serviço da operadora, menor será a multa. A empresa que estivesse espetada com mais de mil multas pagaria apenas o equivalente a 20. Incentivando a infração, se um plano nega dois procedimentos, paga R$ 4 mil. Se nega mil procedimentos, paga R$ 40 por cada infração.
O PróDelinquente foi um dos 523 contrabandos enfiados na MP 627. Como emenda parlamentar não é o vírus da gripe, que vem no ar, alguém a pôs no texto. O relator da Medida Provisória foi o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Ele chegou a defender o dispositivo durante a votação pela Câmara. Dias depois, recuou, explicando-se: a mágica foi discutida com os ministérios da Saúde e da Fazenda, bem como com a Casa Civil da Presidência.
Como esses prédios não falam, faltou dizer com quem discutiu o assunto. Além de Cunha, o relator da MP, não há registro de outro parlamentar patrocinando a iniciativa.
A mágica foi aprovada na Câmara com o beneplácito das lideranças do governo e da oposição. Remetida ao Senado, aconteceu a mesma coisa. Tantos são os interesses embutidos na MP que os senadores preferiram apressar a tramitação, esperando que a doutora Dilma vete o PróDelinquente.
Criou-se um novo absurdo. Os senadores abdicaram da prerrogativa republicana do consentimento. Se o Senado aprova um projeto esperando que o Executivo vete a maluquice, fica a pergunta: para que serve o Senado, cujos doutores têm assistência médica gratuita?
Quando a doutora Dilma vetar o PróDelinquente (se vetar), ficará no heroico papel de defensora da Viúva, dos pobres e dos oprimidos, mesmo sabendo-se que seu governo e sua base aliada permitiram que o contrabando fosse colocado na Medida Provisória e aprovado no Congresso.
Elio Gaspari é jornalista

A REFORMA INEVITÁVEL DO PETISMO, por Carlos Chagas


Como mote para a Semana Santa, vale tirar lições   na história das religiões para aplicá-las à nossa realidade   política. Porque as religiões, quaisquer que sejam, atingem seus momentos culminantes e mais sublimes quando necessitam competir para sobreviver.  Da mesma forma, tendem à intolerância quando e onde são indiscutidas e soberanas.
O Cristianismo nasceu, conquistou adeptos e afirmou-se através do martírio de seus fiéis,  mais tarde ao enfrentar o Islã e em seguida ao ver-se      atropelado pela Reforma. Três momentos, entre dezenas de outros,  em que a Igreja lutou,   penitenciou-se, revigorou-se   e manteve sua influência. No reverso da medalha, quando absoluta, sem adversários,  mergulhou nas profundezas da Inquisição, nas fogueiras, na venda de indulgências e na intolerância teológica, esta por sinal  vigente até pouco tempo.
Raciocinando do maior para o menor, se quiserem do geral para o particular, o que vem  acontecendo  com o PT? O partido nasceu da indignação do proletariado e de parte  da intelectualidade,  como reação a um modelo social, econômica e politicamente estagnado. Conquistou amplas camadas da população, resistiu ao conservadorismo e sustentou reformas fundamentais. Cresceu,  através de sucessivas eleições, até chegar ao governo.
A partir daí, os companheiros imaginaram-se   definitivos, logo passando a impor o pensamento único, donos de todas as  verdades.  Junto com a soberba, adotaram vícios muito parecidos com a fogueira,  o nepotismo e os excessos do abuso do poder.  Guardadas as proporções, copiaram   praticas dos  Papas da Renascença. A seu modo, encontram-se vendendo indulgências,  nomeações, contratos e facilidades, empenhados em usufruir das benesses do controle nacional.
Devem precaver-se os petistas. Quanto menos sentem não haver  competição, mais intolerantes se tornam. Julgam que depois dos oito anos do Lula estão vivendo  os oito  de Dilma, depois dos quais virão mais oito do Lula. Imaginam  seu reinado permanente. Tivessem um pouco mais de cuidado com as lições da História e perceberiam estar avançando sobre eles  a sombra de um Lutero caboclo, disposto a reformar sua liturgia absoluta. Dividir-se-á a Cristandade, ou melhor, o petismo, diante de uma Reforma inevitável?

Momentos inesqueciveis...

Frei Betto: Páscoa, tempo de esperança

Rio - A Páscoa é a principal festa das Igrejas cristãs: celebra a ressurreição de Jesus. A nossa fé seria vã se Jesus não tivesse ressuscitado após ser condenado à morte na cruz, como prisioneiro político por dois poderes: o judaico e o romano. Em sua origem, é a grande festa judaica que comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, em 1250 a.C., sob o reinado do faraó Ramsés II. Curioso é que, ao contrário das religiões persas e mesopotâmicas, babilônicas e gregas, o Judaísmo e o Cristianismo não celebram mitos, e, sim, fatos históricos.
Os evangelhos registram a presença de Jesus em Jerusalém por ocasião das festas pascais. Foi numa delas, a do ano 30, que ele, preso por blasfêmia e subversão, recebeu a pena capital e morreu crucificado. Tinha 36 ou 37 anos de idade, pois hoje sabemos que o monge Dionísio, o Pequeno, se equivocou, no século 6, ao calcular o início de nossa era. Dionísio não conhecia o zero e está comprovado que, ao morrer Herodes no ano 4 antes de nossa era, Jesus já havia nascido.

A visão do tempo como processo histórico marca profundamente a nossa cultura. A Bíblia herdou-a dos persas e, assim, quebrou a circularidade grega. Três grandes pilares de nossos atuais paradigmas o demonstram: Jesus, Marx e Freud. Todos três judeus. Para Jesus, a nossa felicidade (salvação) decide-se por nossa capacidade de amar no terreno da história. O Reino de Deus não é algo “lá em cima”, mas sim lá na frente, no futuro onde a história atinge a sua plenitude, num mundo livre de opressões, e também o seu limite, pela irrupção da presença divina entre nós.

A Páscoa cristã sinaliza que, malgrado tanta miséria e desesperança, em Cristo temos a certeza da vitória da justiça sobre a injustiça e da vida sobre a morte. Aceitar que “a história acabou” é cair no engodo da eternização do presente: a malhação que nos promete eterna juventude; o apego aos bens como se fôssemos imortais; a acumulação como se levássemos terras e tesouros para o além-túmulo; as drogas como sucedâneo diabólico de uma geração que não aprendeu a sonhar com Jesus, Gandhi, Luther King e Che Guevara.

É isto que a Igreja celebra hoje: Cristo vive, e sua vitória sobre os poderes deste mundo é a garantia de que os sonhos brotados do coração e da fé são semente de “um novo céu e uma nova Terra”, como prenuncia o Apocalipse. E, como diz a canção, um sonho que muitos sonham se faz realidade.

Autor de Um homem chamado Jesus’ (Rocco)

sábado, 19 de abril de 2014

EUA mantém ordem de prisão contra Maluf, por Fausto Macedo

Deputado e ex-prefeito perde recurso na Suprema Corte de Nova York--USA
Paulo Maluf (PP/SP) sofreu novo revés, desta vez na Suprema Corte de Nova York (EUA), que rejeitou outro pedido do deputado brasileiro de anulação do processo pelo qual foi decretada a prisão dele e de um de seus filhos, o empresário Flávio Maluf.
Na ação, a promotoria americana acusou Maluf e Flávio de manterem em uma conta bancária US$ 11 milhões supostamente desviados dos cofres públicos municipais de São Paulo.
Maluf foi prefeito da Capital paulista entre 1993 e 1996. O dinheiro depositado nos EUA, segundo a acusação, seria apenas uma parte de montante relativo a fraudes em obras viárias de grande porte por ele contratadas em sua gestão, como a construção da Avenida Água Espraiada, na zona Sul da cidade.
 
                                                   Foto: Wilson Pedrosa/Estadão
Maluf nega a prática de malfeitos. Por sua assessoria, sempre que questionado sobre as acusações do Ministério Público, reitera que “não tem e nunca teve dinheiro no exterior”.
A ação da Promotoria de Nova York provocou uma grave consequência para Maluf – seu nome foi inserido na difusão vermelha da Interpol, organismo que aloja as polícias de quase 200 países.
A difusão vermelha é o índex dos mais procurados. Maluf até pode sair do Brasil, mas corre o risco de ser capturado em um aeroporto qualquer.

Comentario meu---ha anos e anos este sacripanta, usando parte do dinheiro roubado a Nacao,  consegue escapar das grades.....mas, a FAMilia e alguns eleitores (certamente beneficiados em alguma coisa ou simplesmente confortados na propria ignorancia...) continuam acreditando em suas mentiras...talvez pela beleza das gravatas.... o brasileiro é, antes de tudo, um Artista!

Bonjour, Madame Pluvier, por Sandro Vaia

A lenda da Sra. Pluvier, uma militante devotada inventada pela imaginação criadora do ator e cantor franco-italiano Yves Montand, ainda que criada na França em 1956 — há 58 anos, portanto — está mais atual do que nunca.
Provavelmente ela foi a inspiradora não confessada da velhinha de Taubaté, a boa senhora crédula que Luis Fernando Veríssimo criou durante as patranhas da ditadura militar. Não questionava nada, acreditava em tudo.
Montand, como se sabe, era militante comunista, e a história da senhora Pluvier foi narrada pelo espanhol Jorge Semprún, intelectual e roteirista de cinema, que chegou a ser ministro da Cultura no governo do socialista Felipe González, no livro “A Vida Continua”, onde ele faz um relato dos últimos anos de vida de Montand e de sua última turnê artística pelo mundo, que incluiu uma apresentação no Maracanãzinho,em 1982. (Sobre o livro leia o texto de Sérgio Vaz)
Segundo a narrativa de Semprún, a senhora Pluvier nasceu quando “começaram os desvios que afastaram (Montand) do ambiente glacial do comunismo”. ( Ele se refere às revelações dos crimes de Stálin, a repressão às revoltas na Hungria, na Polônia, na Alemanha Oriental, na Tchecoslováquia, etc.).
A Sra.Pluvier era uma militante devotada, e na imaginação de Montand era “uma mulher simples, fiel e generosa; corajosa e devotada”, e aparecia como secretária de uma célula rural do PCF em Hérault, (Languedoc) departamento no interior da França.

                                               

“O morceau de bravoure” — relata Semprún no livro — “era, na maioria das vezes, o relato que ela fazia pela boca de Montand, de sua última viagem à Rússia, ao país radioso do socialismo. A Sra.Pluvier tinha respostas para tudo”(...) Alguém se queixava de que não havia áreas suficientes nas áreas rurais da Rússia? Mas vejamos o que dizia a Sra. Pluvier, isso é deliberado. É para preservar a beleza natural da natureza, para obrigar os colcozianos ao exercício salutar da caminhada a pé, para evitar a poluição de gases que o poder socialista fabrica poucos carros e constrói poucas estradas”.
Alguém ironizava o fato de não haver imprensa de opinião na URSS? “Mas que exigência tola!”, respondia a Sra. Pluvier. “Se existem, na França, jornais de todas as opiniões é porque a mentira lá é livre. Se não existisse nosso querido e valoroso L' Humanité (jornal oficial do PCF), difundido pelos não menos queridos e valorosos companheiros, as massas trabalhadoras poderiam conhecer, ainda que parcialmente, a verdade? No dia em que o socialismo triunfar na França haverá apenas uma verdade: a verdade una e indivisível. Haverá, então, apenas um só jornal, L’Humanité. E depois, o jornal dos nossos camaradas soviéticos não se chama precisamente Pravda? A verdade, portanto, é bico calado!”
E por aí vai a fiel e dedicada Sra. Pluvier. Não se espante se você a encontrar por aí, viva, falando, militando e escrevendo em português, professando a verdade única
Sandro Vaia é jornalista
Comentario meu--Sandro, desculpa mas, a Verdade Unica contribui para o descanso da mente e a tranquilidade do rebanho. 
Questionar exige uma disposicao e forma, fisicas e mental , que sao um desassossego permanente. Nao é pra qualquer um....muito menos pra todos. Olha a Grécia.....e as Igrejas.....e os Partidos...e as Empresas......
Alcancam algum tipo de Poder e param, simplesmente de PENSAR.
Dizia o falecido Millor (em bom lugar esteja!) --Livre Pensar..é so Pensar--mas da um trabalho do cacete, digo eu.

A charge de Chico Caruso

Desconstruindo o novo Brasil, por Nelson Motta

Parece simbólico e vai além do metafórico, é quase poético. São elas que constroem o país, as cidades, fábricas, estradas, usinas e aeroportos, mas também o corroem por dentro, como as maiores doadoras de campanhas eleitorais e maiores beneficiárias das obras públicas.
Mesmo envolvidas com frequência em escândalos de corrupção, são como forças armadas de concreto: grandes empreiteiras ou seus donos e executivos nunca foram condenados em processos relevantes, embora até políticos importantes e banqueiros estejam presos.
Sem contar o caixa dois, só as doações legais das empreiteiras já bastariam para financiar com sobras as campanhas de todos os partidos, embora não devessem ser chamadas de doações, mas de investimentos, porque a conta é cobrada depois, com superfaturamentos e aditivos. No fim, elas acabam agindo como intermediárias, repassando aos partidos e candidatos parte de seus ganhos não contabilizados às custas dos contribuintes. Uma forma bem brasileira de financiamento público das campanhas… rsrs.

                                
 Nas concorrências, os preços na prática são simbólicos: o que vale são os aditivos. Ganha-se uma licitação com um preço menor que o dos concorrentes, as vezes com informações privilegiadas ou preços combinados, mas ao longo do contrato vão sendo feitos incontáveis aditivos que tornam a obra muito mais cara e fazem da concorrência uma farsa que todos aceitam como legitima. É um jogo, mas quem perde sempre é o contribuinte.
Se forem mesmo proibidas as doações de empresas, as maiores prejudicadas serão as empreiteiras, que economizarão nas doações, mas perderão influencia sobre seus representantes no poder, e vão ter que gastar mais em subornos, mordidas e comissões no varejo para manter a bola rolando. No fim das contas, vai sair mais caro.
Claro, há empreiteiros vitoriosos e honestos, muitos até gostariam de ser, mas não sobreviveriam à concorrência desleal institucionalizada. O irônico é que os que constroem tantas obras úteis e grandiosas são os que mais geram entulho ético e político para o país. Mas, ao contrário dos políticos, eles roubam, mas, ao menos, fazem.

Nelson Motta é jornalista.

Pois sim!, por Maria Helena RR de Sousa

Ao que parece, ao ler as declarações de dona Dilma sobre o escandaloso processo de compra da Pasadena Refinery e os depoimentos de Graça Foster e Nestor Cerverò ao Senado Federal sobre o assunto, o objetivo dos ambiciosos inimigos do Brasil é nos rebaixar. De cidadãos donos do país onde nasceram, vivem, procriam e trabalham, querem nos transformar em reles pessoas com duas únicas funções: pagar impostos e votar quando convocados.
Não há uma notícia, matéria, nota ou declaração sobre a Pasadena Refinery que não ofenda nossa inteligência. A ignorância, é verdade, campeia no Brasil, mas que não se iludam: a inteligência não morreu.
Podem regulamentar a Imprensa, carimbar a Internet, pintar e bordar com as notícias, mas se esquecem de uma coisa que os americanos apelidaram de grapevine, e que funciona muito bem. Grapevine é parreira. Quem já viu uma parreira sabe como essa magnífica planta se alimenta e assim correm as notícias, de boca em boca, de cada um de nós para o outro e no fim todos ficam sabendo do que se passa.
A Petrobras é um gigante. Quantos são seus funcionários? Multiplique por cônjuges, pais, filhos, vizinhos, irmãos, compadres e por aí afora e verá que uma notícia, nessa grapevine, vai correr o Brasil todo, de norte a sul.
                             

Notícias que assustaram: a declaração de dona Graça Foster que desconhecia o “comitê de proprietários” formado por representantes da Petrobrás e da belga Astra Oil, desmentida logo nas primeiras páginas do acordo de acionistas da Pasadena Refinery. Pior: esse comitê fantasma não apenas existia como tinha ascendência sobre o Conselho de Administração da Petrobras. Quem enfiou esse cavalo de Troia no acordo?
Dona Dilma acusou de falho o sumário redigido especificamente para orientação e esclarecimento dos membros do conselho que autorizaram a compra da Pasadena Refinery. Graça Foster, em seu depoimento ao Senado Federal, confirmou as palavras da presidente.
Mas vem o responsável principal pelo tal sumário, Nestor Cerveró, o funcionário que de Diretor da Petrobras passou a diretor da BR Distribuidora sem se sentir rebaixado e diz que as cláusulas estavam na íntegra do contrato. Não disse, mas subentende-se: era só ler o contrato inteiro. Longo, massudo, chato? Talvez. Mas o passo a ser dado com o dinheiro que pertence ao contribuinte brasileiro não mereceria esse sacrifício?
Mas vem mais, vem muito mais por aí: Rosane França, viúva do engenheiro da Petrobras Gesio Rangel de Andrade afirma que seu marido foi “colocado na geladeira” na Petrobras por se opor ao superfaturamento da obra do gasoduto Urucu-Manaus, na Amazônia. Gesio morreu há dois anos vítima de ataque cardíaco. E isso não é tudo. Rosane França tem mais a dizer...

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

PACO DE LUCIA, em CONCIERTO DE ARANJUEZ.

             Requiescat in pace, Paco (usual nickname of castillans Juans ) de Lucia (mother`s name)

Pascoa Feliz!

          
                          Pessoas fotografam cerejeiras no centro de Estocolmo--Suécia.
                                        Foto: Jonathan Nackstrand / AFP

O mundo não está ligando para o Brasil', O Globo

Jornalista Theo Sommer, Conselheiro da Fundação Zeit, veio ao Brasil para participar do Fórum Latino-Americano de Governança Global. Objetivo do encontro é ajudar na formação de líderes

< Conte algo que não sei.
Você provavelmente já leu que os partidos de extrema-direita estão ganhando votos e vão aumentar sua participação nas eleições europeias de 22 de maio. Mas o que você provavelmente não sabe é que eles não vão conseguir formar coalizões. Eles têm algumas agendas em comum, todos compartilham algum ceticismo quanto ao euro, mas eles não terão peso suficiente para influenciar os rumos políticos do continente.

Mas por que não? O senhor não acredita que, no caso de a crise econômica se estender, esses partidos podem ganhar mais apoio popular?
A eleição vai nos mostrar se a crise já passou. Acho que ela já está se dissipando, e em três anos estará enfim acabada. Por isso, não acredito que esses partidos de extrema-direita terão votos suficientes. Os partidos mais clássicos, os conservadores e os sociais-democratas, sempre terão uma maioria. Novas coalizões podem até surgir, mas não consigo enxergar um movimento de mudança na essência da política europeia.

Houve abalo da democracia representativa, depois que a força da pressão popular derrubou uma série de governos nos últimos anos?
Eu acredito que a democracia vai sobreviver, e, sendo mais específico, acredito que a democracia representativa vai sobreviver. Se você elege um governo, e esse governo não é bem-sucedido, você pode tirá-lo dali. Mas se você fizer referendos populares para decidir alguma coisa sobre os rumos do país e depois perceber que essa decisão não funcionou, o que fazer? Você não pode simplesmente descartar a maioria da população que votou. Mas as ruas não serão ignoradas. Tirando alguns incidentes periféricos, como na Hungria, não acredito que haja na Europa um movimento para se abolir a democracia.

O senhor veio ao Brasil para participar do Fórum Latino-Americano de Governança Global. O debate serve para ajudar a formar líderes. Para o senhor, qual seria o perfil ideal de um líder contemporâneo?
O líder perfeito é aquele que conhece bem seu próprio país. Não somente conhece, mas que tenha uma visão do mundo sobre o país. Também é preciso ter curiosidade, deve estar interessado em ouvir os problemas de outras pessoas, e ajudar a resolver esses problemas. E deve estar disposto a trocar experiências.

Considerando a falta de otimismo quanto à economia brasileira, a desconfiança mundial sobre a Rússia, por causa da crise com a Ucrânia, e os questionamentos ambientais e de direitos humanos na China, os Brics ainda exercem uma força política no mundo?
Todos os poderes emergentes, não apenas os cinco países dos Brics, passaram do boom para a estagnação ou até mesmo para declínio econômico. São problemas que também existem nas economias mais avançadas, e que podem ser encarados como transitórios. Por outro lado, eu sinto que há mais discordância entre os Brics do que agendas em comum. Seus países sabem o que não querem: eles não aceitam mais o domínio econômico das potências ocidentais. Mas eles não sabem exatamente o que querem. Quanto ao Brasil, não consigo enxergar muita ambição na política externa. 

Há alguma expectativa mundial quanto à eleição presidencial no Brasil?
Eu tenho que te desapontar e dizer que o mundo não está ligando muito para o Brasil. Os países têm seus próprios problemas. Obama tem suas questões com o Congresso, na Europa há a crise do euro e o confronto da Rússia com a Ucrânia. Todos nós estamos olhando para nossos umbigos.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Novas instituições para o desenvolvimento, por Flávio Dino

​ Por que algumas nações são ricas e outras pobres? No bestseller de economia – Por que as nações fracassam –, Daron Acemoglu e James Robinson constroem uma teoria relevante para responder à questão e demonstram, após 15 anos de pesquisa, que são as instituições políticas e econômicas que estão por trás do êxito ou do insucesso dos povos.
Na base desse raciocínio, o desenvolvimento só será virtuoso se tais instituições deixarem de ser parasitárias, e puderem resistir às tentativas das elites de reforçar seu próprio poder, em proveito apenas de uma pequena minoria. Acemoglu e Robinson poderiam ter usado o Maranhão como exemplo para suas teses.
O Estado possui enormes disparidades, fruto da má distribuição de riquezas, do acesso desigual aos serviços públicos e aos bens de uso comum, como os recursos naturais. E vive o desafio de ser potencialmente rico e ter os piores indicadores sociais do Brasil.
Não é preciso perder tempo com explicações absurdas que atribuem à cultura ou mesmo à geografia as razões de tal atraso social. O Maranhão é pobre porque seus cidadãos são ainda hoje privados de instituições políticas capazes de gerar incentivos básicos para garantir o desenvolvimento.

                                

Enquanto o Brasil consolidou o seu sistema democrático de governo, capaz de garantir a alternância de poder e resultados econômicos positivos, no Maranhão o poder político continua concentrado nas mãos de uma elite que não tem interesse em assegurar direitos básicos da população e não investe na prestação de serviços públicos capazes de fomentar o progresso do Estado: 39,5% da população vive com menos de R$ 140,00 por mês, o pior resultado do país nesse indicador.
Serviços básicos, como o acesso regular à água tratada, não estão acessíveis para mais de 3 milhões de maranhenses e apenas 7,6% dos domicílios do Estado têm ligação com a rede geral de esgoto.
Uma das consequências diretas da falta de saneamento é a alta mortalidade infantil, quase o dobro da média nacional. E, infelizmente, poderíamos continuar indefinidamente a elencar números escandalosos, reveladores de dores e sofrimentos irreparáveis.
É possível reverter essa realidade. Temos muitas vantagens comparativas: a abundância e diversidade dos recursos naturais, com destaque para a água; a localização estratégica; energia abundante etc. O aumento do comércio mundial pode ser fator real para o desenvolvimento do Estado. Com uma localização privilegiada, o Maranhão está mais próximo dos mercados norte-americano e europeu e, pelo acesso através do canal do Panamá, das importantes economias asiáticas.
Precisamos implantar um novo modelo de desenvolvimento, que olhe inclusive para a formação de um mercado de consumo de massas – por intermédio de atividades como a agricultura, a pecuária, a pesca e a aqüicultura. A estruturação desse mercado interno irá gerar oportunidades mais sólidas de negócios na indústria, no comércio e nos serviços.
Além disso, é preciso criar uma espécie de “rede de inteligência do bem”, rompendo barreiras que hoje limitam o desenvolvimento dos setores mais dinâmicos da economia, que dependem fortemente da inovação, da tecnologia e da capacidade criativa.
Entre outros setores, o turismo deve ser dirigido de forma estratégica e rentável, pois se trata de uma cadeia complexa e de uso intensivo de recursos humanos, isto é, tem aptidão de gerar muitos empregos. O patrimônio cultural do Estado é diferenciado, abrangendo edifícios, artes, comidas, usos e costumes.
O Maranhão tem todas as condições de ter uma economia competitiva, mas requer um governo capaz de conciliar o crescimento com a inclusão econômica e social dos setores mais pobres da população.
O primeiro passo, como sublinhado na obra Por que as nações fracassam, é a transformação das instituições políticas, garantindo o fim do longo domínio de uma elite parasitária cujos únicos interesses são: extrair renda de forma não produtiva e a sustentação do seu próprio poder político.
Há uma janela de oportunidades para mudar esse estado de coisas, atraindo o setor empresarial e as organizações da sociedade civil para participar do esforço de erradicação da pobreza no Maranhão. É hora de conquistarmos instituições do século 21.

Flávio Dino, advogado e professor de Direito Ambiental na Universidade Federal do Maranhão. Foi juiz federal, deputado federal e presidente da EMBRATUR.

Lord - Mário de Sá-Carneiro

Lord - Mário de Sá-Carneiro

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso - em dúvida iludida...
(- Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência)!
Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, a palácios e colunas -
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...
- Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande patrimônio algures haver perdido;
(- Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que restou do encanto...)

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de maio de 1890 - Paris, 26 de abril de 1916) - Foi um poeta português. Foi um dos principais poetas pertencentes ao modernismo português, a chamada Geração D'Orhpeu. Começou a escrever muito cedo quando já mostrava um gênio impressionante. Foi para Coimbra estudar aos quinze anos e lá conheceu a figura mais importante na sua curta carreira literária, Fernando Pessoa. Com ele manteve intensa correspondência, enviando poemas e tratando de questões pessoais, muitas vezes, de uma forte angústia que o tomava, que, mais tarde, o levou a suicidar-se em um hotel em Paris.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O PT paga pela sua ‘compreensão’, Elio Gaspari, O Globo

André Vargas deveria ter sido isolado pelo PT no ano passado, quando atacou o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, que defendera a renúncia do deputado José Genoino depois de sua condenação no processo do mensalão. Na ocasião, disse o seguinte:
“Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. Para quem teve a compreensão do conjunto do partido em um momento difícil, ele está sendo pouco compreensivo. Ele já passou por muitos problemas, né?”
Olívio Dutra nunca fora condenado em qualquer instância judicial. Genoino acabava de receber do Supremo Tribunal Federal uma sentença de seis anos e onze meses de prisão. Olívio passou pelo governo e continuou morando no pequeno apartamento que comprou como funcionário do Banrisul.
Em apenas dez anos, entre sua eleição para vereador em Londrina e sua última eleição para a Câmara, André Vargas decuplicou seu patrimônio. Teve um doleiro amigo, redirecionou R$ 836 mil de doações legais para companheiros e chegou à primeira vice-presidência da Câmara dos Deputados. Certamente foi um militante compreensivo. Felizmente, faltou-lhe a compreensão do comissariado.

                                                                 Duas faces possiveis

A reeleição da doutora Dilma, bem como a sua possível substituição por Lula, está ameaçada pelo exercício do que André Vargas chamou de “compreensão”. Esse sentimento, amplo, geral e irrestrito, prevaleceu no PT em 2005 quando ele optou pela blindagem dos mensaleiros.
Os partidos têm horror a cortar a própria carne. O PSDB manteve Eduardo Azeredo na sua presidência depois da exposição do mensalão mineiro. Fingiu-se de surdo por quase dez anos diante das sucessivas provas de que funcionara em São Paulo um cartel de fornecedores de equipamentos pesados, liderado pela Alstom.
O comissariado marcha para uma campanha eleitoral onde enfrentará um desejo de mudança. Sua dificuldade estará em mostrar que se pode mudar com mais do mesmo. Se algo mudará com outros candidatos é um problema que caberá a cada eleitor julgar, mas, pela lógica, do mesmo, mudança não sai. Isso fica claro quando a doutora Dilma diz que há uma “campanha negativa” contra a Petrobras.
Falso, o que há, desde 2003, é um aparelhamento partidário, com bonificações pessoais, dentro da empresa. Aqui e ali foram tomadas medidas moralizadoras, sempre em silêncio, até que o doutor Paulo Roberto Costa, tentando esconder sua contabilidade, foi parar na cadeia.
Todos os governantes que fizeram campanhas políticas com a bandeira da moralidade, inclusive Lula, enganaram seus eleitores. A ferocidade com que o tucanato se opõe à manobra diversionista do PT para expandir o foco da CPI das petrorroubalheiras, é um indicador dessa “compreensão” generalizada.
Os tucanos de boa memória haverão de se lembrar do que foi a administração do doutor Joel Rennó na Petrobras (1992-1999). Em benefício de Fernando Henrique Cardoso, registre-se que ele herdou-o de Itamar Franco e manteve-o no cargo atendendo ao falecido PFL.
O rápido isolamento de André Vargas é boa notícia. Ainda assim, é pouco detergente para muito pano. O que a campanha precisa é da luz do sol, inclusive em cima das propostas dos candidatos.

Elio Gaspari é jornalista.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobral, um filme imperdível, por Maria Helena RR de Sousa

Creio que deve haver poucos cariocas da minha idade que não tenham a lembrança do Dr. Sobral caminhando a passos curtos e apressados pelas calçadas próximas da Rua Debret, 23, onde ficava seu escritório.
Um gigante pequenino, uma fortaleza com aparência frágil, uma voz fraquinha que calava multidões, um homem que sabia muito bem o que valia mas não tinha a menor noção do que fosse soberba.
Vou chover no molhado ao dizer que chorei ao assistir na Globo News o documentário Sobral, O Homem Que Não Tinha Preço, pois com certeza choramos eu e a torcida do Flamengo, além da torcida do América, naturalmente.
Duas coisas sobressaem nesse esplêndido documentário. A figura do Dr. Sobral e como o Brasil, com pequenos intervalos, desde 1937, tem sido muito feio.

        
 Do Estado Novo de Vargas à tentativa de golpe de 61 à hedionda Ditadura Militar de 64, Dr. Sobral nunca perdeu a Fé na vitória do Bem, nem o entusiasmo em lutar por aquilo em que acreditava. Enfrentava qualquer um, dedo em riste, para dizer o que achava pertinente dizer naquele momento, fosse para defender um preso, um condenado, fosse para convencer os incrédulos de qual devia ser o caminho do Homem Reto.
A prisão dele em Goiânia após sua resposta ao major que fora prendê-lo: Preso coisa nenhuma!, deve ter sido um susto para aqueles milicos que tiveram que usar força física para levar preso aquele senhor miúdo, já com mais de 70 anos...
Aprenderam ali que aquele homem não se dobrava a nada a não ser à Justiça e às Liberdades.
A mensagem que deixa aos jovens é para que usem argumentos e palavras para defender o Direito e nunca a violência e a força física, pois se ele, em jovem, conheceu um mundo assim, não pode haver nada que impeça o Brasil de ser um reino do respeito às Leis.
Tem uma passagem na qual ele diz que o mal do Brasil foi a proclamação da República ter sido feita por militares: eles passaram a se achar donos do país! Sozinha, aqui em minha salinha, bati palmas ao ouvir esse trecho.
Conheci um advogado que estagiou no escritório do Dr. Sobral, por isso senti falta de um depoimento que falasse do chefe que ele foi: bom, generoso, exigente, bem humorado, grato e sempre preocupado com o bem estar e a saúde de quem se dedicava a ajudá-lo em sua cansativa atividade.
Concordo que ele não deve ser visto como um D. Quixote. Não, ele não era uma figura de ficção lutando contra moinhos de vento. Era um homem de carne e osso que lutava contra monstros de verdade e poderosos.
Uma das pessoas que lhe devem a vida é o artista gráfico Rogério Duarte, um devoto Hare Krishna. Seu sonho é que haja algum herdeiro, um descendente espiritual do Dr. Sobral que venha restaurar nossa ética. Estamos carentes; eu vou tentar renovar em mim a Fé do Dr. Sobral na vitória do Bem, e me juntar ao Rogério na mesma prece.
Se Deus pudesse nos abençoar outra vez...

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora e tradutora

Alma, por Elton Simões

Alma é palavra derivada do latim "anima" que significa animar, dar movimento ao que é vivo. É aquilo que dá vida a um ser. Viver é ter alma.
Instituições são a alma de um povo, de um país, ou de uma Nação. Estão refletidas todas as vezes em que crenças degeneram em ações. São, por natureza, intangíveis. São conjuntos de ideias e crenças, em alguns casos representadas por coisas e pessoas, mas normalmente incorporadas no cotidiano de ações automáticas, instintivas, impensadas.
Instituições são organizações ou mecanismos sociais que controlam o funcionamento da sociedade e, por conseguinte, dos indivíduos. Trazem em si as regras e normas que regulam as interações entre os indivíduos.
Por isto, as características ou qualidades das instituições determinam em boa medida o grau de sucesso (ou fracasso) de um povo ou civilização. Instituições fortes e saudáveis geram prosperidade. Por outro lado, instituições destrutivas ou negativas geram atraso. Tudo, ou quase tudo, parece fluir destes conjuntos de crenças.
Onde o trabalho é valorizado, a ética do trabalho é instituição. Onde se acredita nos valores democráticos, a democracia é mais sólida. Onde se acredita em justiça social, a sociedade é menos desigual. Onde se acredita no mérito, adota-se meritocracia.

                      Ex---Renan Calheiros e Fernando Collor--Presidente e Senadores

Onde se aceita a mentira, se institucionaliza o engodo. Onde se justifica a corrupção, aumenta a injustiça. Onde se despreza a educação, a ignorância prospera. Onde o mérito é ignorado, abraça-se a mediocridade.
Escolher, adotar e fortalecer as instituições corretas oferece o mapa do caminho da prosperidade. Promove o contrato social entre os indivíduos propiciando a eles as regras de interação que contribuem para sua prosperidade.
Construir instituições saudáveis traz prosperidade. Construir instituições fundadas em valores equivocados traz ruína.
Com valores errados, as instituições são histórias menores contadas por tolos, eventualmente cheias de energia e barulho, mas que, ao fim e ao cabo, nada significam.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

Poetas interpretam e expoem a condicao humana......

Crise lamentável - Mário de Sá-Carneiro

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou, mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe...
Viver em casa como toda a gente -
Não ter juízo nos meus livros, mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente...
Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas.
À minha torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra - e não fazer mais cenas!
Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem em emperrando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai,
Não andar por Paris, como ando, às moscas...
Levantar-me e sair. Não precisar
De hora e meia de vir p'rà rua.
Pôr termo a isto de viver na lua -
Perder a "frousse" das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar cousas
Por casa do amigos que frequento -
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que, em fantasia, apenas, argumento...
Que tudo em mim é fantasia alada,
- Um crime ou bem que nunca se comete -
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de maio de 1890 - Paris, 26 de abril de 1916) - Foi um poeta português. Foi um dos principais poetas pertencentes ao modernismo português, a chamada Geração D'Orhpeu. Começou a escrever muito cedo quando já mostrava um gênio impressionante. Foi para Coimbra estudar aos quinze anos e lá conheceu a figura mais importante na sua curta carreira literária, Fernando Pessoa. Com ele manteve intensa correspondência, enviando poemas e tratando de questões pessoais, muitas vezes, de uma forte angústia que o tomava, que, mais tarde, o levou a suicidar-se em um hotel em Paris