sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Celso de Mello rebate ataques de advogados e defende atuação do STF

Ministro não economizou nos adjetivos para desqualificar críticas
O ministro Celso de Mello Foto: André Coelho / Agência O Globo
    O ministro Celso de Mello/ André Coelho / Agência O Globo
BRASÍLIA- Celso de Mello não utilizou seu voto apenas para rechaçar o entendimento de que não houve quadrilha ou que as penas impostas para este crime tenham sido aplicadas em dose desproporcional. O decano da Suprema Corte tomou a frente da defesa institucional do STF, diante de ataques de advogados e réus. Sem citar nomes, o mais antigo ministro não economizou adjetivos para desqualificar as críticas. O primeiro alvo foi Luiz Fernando Pacheco, defensor do ex-presidente do PT José Genoino. Na sessão de 20 de fevereiro, Pacheco disse que o julgamento foi injusto, representando "a maior farsa da História política brasileira".
- Absurda, esdrúxula e inaceitável a afirmação de que esta Corte agiu como tribunal de exceção. Importante informar que o Supremo Tribunal Federal decidiu o presente litígio penal com apoio em prova validamente produzida nos autos, respeitando sempre os direitos e garantias fundamentais que a Constituição da República assegura a qualquer acusado.
Afirmou ainda que a maior farsa da História política brasileira não foi o julgamento, mas a conduta dos julgados:
- A maior farsa da História política brasileira residiu nos comportamentos moralmente desprezíveis, cinicamente transgressores da ética republicana e desrespeitadores das leis criminais do país, perpetrados por delinquentes travestidos então na condição de altos dirigentes governamentais, políticos e partidários, cuja atuação ludibriou acintosamente o corpo eleitoral, fraudou os cidadãos dignos de nosso país, fingindo cuidar ardilosamente dos interesses políticos quando na verdade buscavam, por meios escusos, mediante condutas criminosamente articuladas, ultrajar a dignidade das instituições republicanas.
O ministro também disse que vitórias em eleições não autorizam o uso de meios criminosos:
- A conquista e preservação temporária do poder não autorizam quem quer que seja, mesmo quem detenha a direção do Estado, ainda que evocando expressiva manifestação eleitoral, a utilizar meios criminosos ou expedientes juridicamente marginais e repudiados pela legislação do país e pelo sentimento de decência que deve sempre permanecer no trato da coisa pública.
Na primeira etapa do julgamento, Mello deu um dos votos mais críticos. E hoje manteve a convicção sobre a quadrilha:
- Pena inteiramente compatível com a inquestionável gravidade com a pena de quadrilha, legítima, impregnada da fundamentação. Nesse caso registrou-se a existência de um vínculo associativo permanente com o propósito de viabilizar, no contexto delinquencial, a prática de uma série de crimes.

Samba do Arnesto, por Sandro Vaia

Arnesto morreu aos 99 jurando que nunca convidou Adoniran Barbosa para um samba. Mas, como ensinou John Ford, quando a lenda fica melhor que a realidade, publique-se a lenda. Ou, no caso, cante-se a lenda. A lenda diz que o Arnesto convidou para um samba na casa dele - no Brás - e quando os convidados chegaram ele não estava lá.
Não importa agora se é verdade ou não. O importante é que a canção virou um clássico da música popular brasileira e continuará sendo cantarolada até o fim dos tempos, o que devemos agradecer eternamente a Adoniran e ao Arnesto.
A política é um terreno fértil para o nascimento, florescimento e propagação das lendas, e geralmente o
exercício do poder faz com que seus manipuladores nao se importem muito em lançar mão delas para conseguir seus objetivos.
Governos populistas extraem grande parte de suas criações das lendas que eles mesmo criam.

         

Na semana passada, o ministro Gilberto Carvalho, a quem incumbe a missão de ser “interlocutor dos movimentos sociais”, seja o que isso for, conseguiu compor o seu samba do Arnesto.
Participantes do 6º Congresso dos Trabalhadores Rurais Sem Terra fizeram uma manifestação na Esplanada dos Ministérios onde entraram em choque com a Polícia Militar, tentaram invadir à força o prédio de um dos Três Poderes da República - o Judiciário - e deixaram 32 feridos entre os policiais e 2 entre seus próprios manifestantes.
Se fosse uma daquelas manifestações contra a Copa, eles poderiam ser enquadrados como terroristas, se já estivesse em vigor uma lei que se prepara para isso.
Mas como era fogo amigo, nao só foram recebidos com todas as gentilezas pela presidente Dilma, no dia seguinte, que em troca recebeu uma cesta de orgânicos, como foram financiados com dinheiro público: 200 mil reais da Caixa, 350 mil do BNDES (financiamento de produção?) e 448 mil do Incra.
No dia seguinte, Gilberto Carvalho cantou o seu samba do Arnesto e disse que o governo é “democrático”, sim, e financia “movimentos sociais” mesmo que se manifestem contra ele, o governo.
Como o MST considera o governo Dilma “bundão” (palavras de seu líder Stédile) e “o pior da história em termos de reforma agrária”, o mistério do dinheiro público doado a ele se desfaz em uma poça de cinismo.
Ou será que basta abrir um “movimento social” e protestar com violência diante das sedes do poder e depois entrar na fila onde o dr. Gilberto Carvalho distribui dinheiro público - como se fosse dele e não do contribuinte?
A mistificação, infelizmente sem o lirismo de Adoniran, chegou ao STF que compôs o seu samba do Arnesto e revogou como que por milagre a existência de uma quadrilha condenada por crimes de corrupção ativa, passiva, peculato e lavagem de dinheiro. Como a quadrilha desapareceu, devemos presumir que tudo foi obra de um zeloso e bem sucedido empreendedorismo individual.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreito da Liberdade". E.mail: svaia@uol.com.br

Millôr Fernandes, filosofo brasileiro e carioca


Frases, por Luis Fernando Veríssimo

O Nietzsche tem uma frase terrível que Harold Bloom usou como epígrafe do seu livro “Shakespeare — A invenção do humano”:“Aquilo para o qual encontramos palavras é algo que já morreu em nossos corações.”
Estranho pensamento (significando, se não me falha a interpretação, que só podemos falar ou escrever sobre o que não nos apaixona mais) para inaugurar um livro como o de Bloom, um tijolo de 745 páginas escritas com evidente paixão.
Talvez o que Nietzsche quisesse dizer era que só encontramos palavras racionais para tratar de fatos quando os fatos já não desafiam a razão ou aceleram o coração. Ou seja: para escrever sobre um furacão é melhor não estar no meio do furacão. Tudo é mais bem compreendido à distância. Com o passar do tempo, todos nós viramos filósofos.
Aos poucos estão sendo desvendadas as mentiras que a ditadura nos impingiu como verdades — e que, incrivelmente, continuam sendo verdades, ou no mínimo falsificações defensáveis, para a corporação militar — como as farsas montadas para explicar o desaparecimento de Rubens Paiva e a quase-tragédia do Riocentro.

                      
                                             Friedrich Nietzsche, filósofo
A distância vai tornando mais fácil examinar e falar sobre aquele Brasil de mentira, mas, com o silêncio persistente dos militares sobre a sua própria história e com torturados e torturadores ainda vivos, além de muitos feridos indiretamente pela repressão na época, não se pode esperar que esta volta ao passado seja desapaixonada.
Num texto magnifico publicado há dias, o Marcelo Rubens Paiva escrevia sobre o seu pai e sobre o que a família passou durante todos estes anos desde o seu desaparecimento, e certamente não falava sobre algo que já morreu no seu coração.
Nietzsche também definiu piada como o epitáfio para a morte de um sentimento. Interpretações a gosto. Acho que o que ele quis dizer se encaixa na atual discussão sobre os limites do humor. A respeito de um sentimento que não tem mais sentido pode-se fazer piadas à vontade, sem ofender ninguém. Quanto mais obsoleto e piegas o sentimento, melhor a piada.
O diabo é que um sentimento pode não valer mais nada para o humorista, mas ainda ser um sentimento vigente para outros, e aí se dá a confusão. Neste caso o epitáfio é prematuro, pois o sentimento ainda não morreu.
Outra frase de Nietzsche, esta mais conhecida e menos enigmática é: o que não nos mata nos torna mais fortes. O que serve de consolo para humoristas obrigados a enfrentar os que não entenderam a piada.
Luis Fernando Veríssimo é escritor.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Medo da Insegurança Nacional, por Dr CARLOS VIEIRA


O filho que não voltou no entardecer, morreu de uma bala perdida no meio de um tiroteio entre a polícia e os bandidos do narcotráfico;  os crimes de corrupção praticados pelos supostos donos do poder, pouco deles foram julgados;  a justiça nacional que alberga em seu prédio milhões de processos jamais julgados, prejudicando os inocentes e deixando livre os ladrões dos cofres individuais e públicos; a mãe que ainda chora a perda de sua filha, sequestrada na porta da faculdade, baleada, queimada e jogada na beira do rio; os jornalistas que morreram escrevendo, fotografando e filmando os fatos da violenta realidade brasileira; os políticos eleitos, reeleitos, que desde a morte de Tancredo Neves devem à população, a função política; os mesmos políticos que só se dedicam a aprovar leis que beneficiem seus parentes, amigos e provedores de campanhas eleitorais; o corporativismo das instituições judiciárias, julgando e aprovando artigos e decretos que engordam salários; o mesmo acontece com várias instituições nesse nosso Brasil; a descrença na punição dos bandidos, assaltantes, sequestradores, vândalos, políticos corruptos, servidores coniventes com a corrupção, policiais amigos e parceiros do tráfico; servidores que desviam verbas da saúde, da educação, das “bolsas” criadas pelo governo; uma jovem que perdeu seu filho na porta do hospital por falta de atendimento; os motoristas assaltados por quadrilhas nas rodovias; as mortes no trânsito, ainda que  diminuídas pelas campanhas atuais do Ministério das Cidades; o filho do ricaço que junto a seus coleguinhas, praticam homicídios nas vias públicas e são impunes até hoje; os salários estagnados, desatualizados, menos os salários do legislativo e do judiciário; o amontoado de prisioneiros que convivem em clima asilar, de desrespeito aos direitos humanos, matando-se uns aos outros; os privilegiados que têm funções administrativas, legislativas, sem perderem seus benefícios mesmos estando presos; a perseguição cruel aos homoafetivos; os bandos de extermínio paramilitar; a falta de política para dar uma vida mais respeitosa aos aposentados e idosos; os jovens que se reúnem para protestar e cobrar do governo e dos legisladores seus compromissos de campanha, e são feridos, espancados; feridos e espancados pela polícia e pelos grupos de vândalos, quem sabe financiados por facções partidárias e organizações dos crimes organizados; o Brasil das obras superfaturadas, dos estádios monumentais, para mostra a face cosmética do pseudo país do futebol; as obras apressadas, seguras(?),construídas em vésperas das eleições; a reforma política, a reforma tributária, a reforma penitenciária, a reforma da previdência social, sempre prometidas e nunca executadas.
O elenco de dívidas das instituições para com a comunidade e os eleitores é interminável, prezado leitor.
Há quem diga que política é tomar decisões que afetam a melhoria da população, mas os partidos e seus líderes, eleitos por todos nós, desde a nova Constituição, ainda estão entretidos e comprometidos com seus interesses pessoais, familiares, tribais e oligárquicos. Anos e anos de espera; governos e governos se passaram após a ditadura! Muita coisa mudou, é claro, vários programas foram implantados e começam dar frutos, mas a consciência e a qualidade dos políticos ainda estão restritas aos seus currais, engordando seu gado e rebanho.
Talvez o mal maior do “Brasil padrão FIFA” tem sido, e é a falta de grupos de liderança. Carecemos de homens públicos, juristas, intelectuais, políticos, religiosos, universitários, estudantes, que tenham o interessem em pensar a Nação, independentes de compromissos partidários fundamentalistas. Ronald Carvalho, poeta modernista, em seu poema “Brasil”, escreve: “ Nessa hora de sol puro eu ouço o Brasil./Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar.../ a conversa dos fazendeiros dos cafezais,/ a conversa dos mineiros nas galerias de ouro,/ a conversa dos operários nos fornos de aço,/ a conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias,/ a conversa dos coronéis nas varandas das roças... Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro/ nas palmas paradas/ pedras polidas/ claridades/ brilhos/ faíscas/ cintilações/ é o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços, onde dorme,/ com a boca escorrendo leite, moreno, confiante, O homem de amanhã!
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Jabuticaba, por Elton Simões

É certo que Jabuticaba faz bem para a saúde. Riquíssima em vitaminas do Complexo B, principalmente B2 e Niacina; e, em menor quantidade, de vitamina C, e de sais minerais como Ferro, Cálcio e Fósforo. É esta a conclusão de vários estudos científicos.
Mais controvérsias e menos certezas existem acerca da validade da Teoria da Jabuticaba. Segundo esta teoria, a jabuticaba simboliza tudo aquilo que só existe no Brasil. E, dado que somente existe no Brasil, a teoria fornece explicação para situação, que, alega-se, seria inédita no plano universal.
A Teoria da Jabuticaba consiste em propor, defender e sustentar, contra qualquer outra evidência lógica em sentido contrário, soluções, propostas, medidas práticas, ideias que só existem no Brasil e que somente ali funcionariam.
Os adeptos desta teoria seriam também dotados de poderes igualmente singulares. Dariam nó em pingo d’água, com ou sem luva, de acordo com a necessidade, conveniência, ou oportunidade. Desfritariam ovo. Tudo com muito jeito. Ou com muito jeitinho, como preferem alguns.

                

A teoria da jabuticaba justifica qualquer coisa. A se crer nela, lugar onde cresce jabuticaba funciona com regras próprias e únicas. Lá tudo é diferente. A vida é governada por leis não aplicáveis a outros lugares. Em suas palmeiras, sabiás gorjeiam melodias únicas, somente ali possíveis.
Lá o mundo se curva a soluções inovadoras, especialmente feitas para cada ocasião, e somente ali aplicáveis, para todos os problemas humanos, conhecidos ou não. A experiência de outros lugares jamais pode ser utilizada. Comparar de dados e informações seria, portanto, simples exercício de futilidade, desprovido de qualquer utilidade prática.
A teoria da jabuticaba impede o aprendizado com os erros e acertos de outros lugares. Condena seus adeptos a gastar tempo, energia e recurso desnecessariamente, resolvendo problemas partindo sempre da estaca zero.
Teoria da Jabuticaba é solução simples, rápida e, quase sempre, errada. Serve para qualquer coisa. Explica qualquer coisa. Inclusive o nada.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Carnaval é Carnaval.....


O Planalto caiu na arapuca do PMDB, por Elio Gaspari


A ideia era simples: um ministro cuidaria da base de apoio e outro lidaria com os movimentos sociais. Primeiro, ferveu Gilberto Carvalho, quando os protestos de rua saíram do nada, de fora do cadastro de convênios do palácio.
Depois, confundiu-se o que seria um desprestígio palaciano da ministra Ideli Salvatti com uma barafunda na qual as lideranças parlamentares não se entendem entre si nem com o Planalto.
O resultado está aí. Numa reforma ministerial de quinta categoria, sem ideia nem projeto, a doutora Dilma vê-se obrigada a cortejar o PMDB indo a jantares inúteis (se não arriscados) na casa do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP).


Enquanto isso, representantes de grandes empresas (Gerdau, Ambev, Andrade Gutierrez, OAS e até a Souza Cruz) foram a outro jantar, pluripartidário, na casa do presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN).
Ano eleitoral é assim mesmo. Empresário que gosta de jantar no Planalto vai à casa de deputado para botar medo num governo assustado. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, queixa-se dos empresários que ficam “fazendo beicinho” e propõe que se discuta “a relação”. Essa é a armadilha em que caiu a doutora.
A infantaria do PMDB e a intendência do empresariado entram nessas discussões seguindo o conselho de Ivana, a primeira mulher do folclórico milionário americano Donald Trump. Ela ensinou: “Não fique com raiva, fique com tudo”.
Elio Gaspari é jornalista.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Blocos animam as ruas com humor e bolinhas de sabão, O Globo

Um dos blocos mais tradicionais da cidade, o Simpatia é Quase Amor, coloriu de amarelo e rosa as ruas de Ipanema, na tarde deste sábado. No desfile, que marca seus 30 anos, dois trios elétricos e uma bateria de 60 ritmistas, 15 intrumentistas, puxados por uma comissão de frente de 23 mulheres garantiram a festa dos foliões.
Cerca de 80 mil pessoas fizeram o trajeto a partir da Teixeira de Melo seguirá pela Avenida Vieira Souto até a altura da rua Henrique Dumont com crianças, jovens e idosos.
Para Tomaz Miranda, 26, um dos diretores do Simpatia, a expectativa é que o desfile vá além da homenagem a nomes como Aldir Blanc, Dona Zica, a mulher do sambista Cartola e Albino Pinheiro, um dos criadores da banda de Ipanema.
— É um dos sambas mais animados desse Carnaval, além de falar de uma pessoa que marcou a história do bloco como Blanc — opina.


                 
             Ipanema, onde Simpatia é quase amor -  Foto: Márcio Alves/O Globo

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Dilma convida, mas papa não confirma presença na Copa, Wilson Tosta, Estadão

Em seu primeiro encontro com o papa Francisco no Vaticano após a Jornada Mundial da Juventude de 2013, a presidente Dilma Rousseff fez ao pontífice um convite oficial para assistir a um jogo da Copa do Mundo de 2014, que já anunciara publicamente - mas não obteve sucesso.
Apesar do tom descontraído da conversa, segundo sua descrição, Dilma não conseguiu obter do Santo Padre, argentino e torcedor apaixonado do time de futebol do San Lorenzo, mais do que a promessa de uma mensagem aos participantes do evento, provavelmente centrada em temas como a paz e o combate ao racismo.
Foi embora sem a confirmação da presença do convidado ilustre, mas apenas após fazer um pedido especial ao Vigário de Cristo: que fique neutro na disputa esportiva.
"Eu vim dizer para o Santo Papa (sic) que vamos uma Copa com um tema muito importante", declarou a presidente. "O tema é: uma Copa pela paz, uma Copa contra o racismo. E, primeiro, obviamente, convidá-lo e, sobretudo, pedir uma mensagem dele sobre esse posicionamento da Copa no Brasil, que é a Copa das Copas. A única coisa que pedi é que a neutralidade fosse mantida por parte do Santo Padre, e assim a mão de Deus não empurrasse a bola de ninguém", declarou, em tom de brincadeira, em alusão ao gol de mão de Diego Maradona na Copa de 1986, no jogo Argentina e Inglaterra.

         
                                                                     Foto: AP

No olho do furacão, por Ruy Fabiano

O maior adversário do governo Dilma não é a oposição – inerte, sem discurso ou proposta -, mas a própria base aliada, à esquerda, em que despontam, sobretudo, partidos oriundos do PT, como PSOL e PSTU, sem esquecer o próprio, a nave mãe.
As franjas radicais do partido – MST, ONGs indígenas, Black Blocs, CUT e que tais – agem, por meio de seus ativistas, de dentro do próprio governo, com destaque para a figura cada vez mais óbvia do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, o braço direito de Lula.
O objetivo é acelerar o movimento revolucionário, o que implica o desgaste da presidente e de seu governo, de modo que sua candidatura perca competitividade e justifique o retorno de Lula. Dilma seria uma espécie de Kerensky, primeiro-ministro russo, que governou após a queda da monarquia e não conseguiu evitar a Revolução de outubro de 1917.
Kerensky, como Dilma, era acusado pelos revolucionários, dos quais se julgava companheiro, de manter alianças espúrias à direita e acabou deposto por eles próprios. Teve que se exilar na Europa e, posteriormente, nos EUA.

               
                          Alexander Kerensky, primeiro-ministro russo

O que Lênin e Trotsky disseram a respeito de Kerensky é o mesmo que há dias Pedro Stédile disse de Dilma:
“A Dilma pessoalmente é uma coisa, mas outra coisa é o governo Dilma. É um governo de composição e lá dentro tem os banqueiros, os empresários, a classe média; tem até a Kátia Abreu no governo Dilma.”
E deu o mapa da mina, mostrando de onde vem a sabotagem:
“Mas tem também companheiros de esquerda e companheiros que defendem a reforma agrária, que temos que valorizar; não podemos botar tudo no mesmo balaio. Mas é um governo de composição de forças antagônicas – e num governo assim é difícil avançar.”
A palavra-chave é esta: “avançar”, que Gilberto Carvalho, no final de 2012, traduziu por “o bicho vai pegar”. Pegou – e continua pegando. Stédile faz sua parte. Incentiva a retomada da invasão de terras e avisa aos companheiros:
”Não pense que a burguesia vai se assustar com nosso congresso (aquele, em Brasília, que feriu 30 PMs, oito em estado grave); ninguém bota na imprensa. A burguesia vai se assustar com nós (sic) quando voltarmos a fazer ocupação com mil famílias, com 2 mil famílias. A burguesia vai se assustar quando nós ocuparmos a Monsanto, quando ocuparmos usinas. Aí, vão nos respeitar.”
O quadro que se delineia é o de sublevação geral. Nas ruas dos centros urbanos – em especial, no eixo Rio-São Paulo e agora já se fala em Brasília -, a ação predadora dos black blocs.
Na área rural, MST e milícias indígenas (fenômeno inédito desde Pedro Alvares Cabral) matam pequenos agricultores, considerados “intrusos” pelas demarcações truculentas da Funai.
O mais grave, no curto prazo, é o propósito de inviabilizar a Copa do Mundo – ou, ao menos, de criar um ambiente hostil à sua realização. Quem paga o pato da impopularidade pelo desgaste que tudo isso ocasiona é o governo Dilma – e, portanto, sua candidatura à reeleição. São esses grupos “aliados” que comandam, desde dentro do governo, esse processo.
Esta semana, Gilberto Carvalho, com a maior cara de pau, tentou ressuscitar o 2º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), rejeitado em 2009 pela opinião pública, por sua índole totalitária, provocando o compromisso da candidata Dilma de jamais acolhê-lo.
O 2º PNDH, entre outras aberrações, previa censura à imprensa e, em casos de invasão de terras, impunha a mediação com o invasor, arbitrada por uma comissão da sociedade civil, antes de a vítima ter o direito postular a reintegração de posse.
Pois Carvalho, na quinta-feira, veio à cena expor as conclusões de um estudo da Secretaria da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, segundo o qual “a cultura da judicialização de conflitos fundiários não é eficaz e deve ser superada”.
O invasor, segundo esse estudo, adquire direitos de coproprietário, passando a “negociar” a posse da terra em condições de igualdade com a vítima, antes que esta tenha o direito de recorrer ao Judiciário, que também aí é enxovalhado.
E não só: acusa o Judiciário – vejam só! – de estar “tomado por uma postura legalista”, como se outra pudesse ter, já que lhe cumpre exatamente zelar pela ordem jurídica e pela aplicação da Justiça. O contrário disso é a conivência com o crime.
Carvalho lamenta que o próprio governo de que faz parte “se posicione claramente contra tudo que é insurgência e reivindicação de direitos”. Que outra posição pode ter um governo, fruto da democracia e da Constituição?
Os conflitos fundiários no Brasil têm sido artificialmente alimentados por grupos ativistas radicais, estimulados por declarações levianas como estas. Quem paga o desgaste (na verdade, já está pagando)?
Acertou quem disse Dilma Rousseff.
O que resultará objetivamente se a presidente perder competitividade eleitoral? Acertou outra vez quem disse: a volta de Lula. A oposição, até aqui espectadora silente, certamente investirá contra Dilma; é, afinal, seu papel. E se somará ao discurso de alucinados como Stédile, que, em tempos normais, fala sozinho, mas em tempos conturbados encontra audiência – e seguidores.

Ruy Fabiano é jornalista.

Maquiavel, Kissinger, Gillard e Lula, por Maria Helena RR de Sousa

“A perda do poder é sentida física e emocionalmente, as sensações vêm em ondas, em momentos de grande angústia. Você acha que está bem, de repente alguém diz uma palavrinha, ou você encontra no fundo do armário uma lembrança, ou ouve uma piada ou música daqueles tempos, e isso traz uma dor forte como um soco, você a sente em suas entranhas, em seus nervos”. (Julia Gillard, primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra australiana [2010-2013], em artigo para o The Guardian a propósito da perda do poder).
“O poder é o maior de todos os afrodisíacos” (Henry Kissinger).
“Fortuna diz respeito às circunstâncias, ao tempo presente e às necessidades do mesmo, à sorte da pessoa. ‘Virtú’ é justamente a capacidade do político em controlar as ocasiões e acontecimentos, ou seja, a fortuna. (Maquiavel, ao falar sobre Fortuna, destino, e Virtù, o controle da Fortuna).
E Lula?
Lula está no palanque de dona Dilma. Suponho que passe pelo que Julia Gillard candidamente diz que passa; que concorde honestamente com Kissinger; que saiba distinguir entre ‘Virtù’ e Virtude, e que, na beira dos 70 anos, conclua que a Virtude está no meio e que ela é uma grande alavanca para a ‘Virtù’.
Se torço por ele? Não. Uma vez a Cascais e nunca mais. Votei nele em 2003 e não gostei do que vi, nem gosto do Brasil petista. Não gosto do que ele fez conosco, não gosto dos homens e mulheres de sua entourage, deploro as relações fraternas que estabeleceu entre o Brasil e o que há de pior neste mundão de Deus, volto a sentir aquele gosto amargo do Brasil, ame-o ou deixe-o.
Mas isso não me leva à cegueira. E o que vejo de gente dando um trato no retrato do velho não está no mapa. Preparam-se para botar o retrato do velho outra vez no mesmo lugar...
Talvez seja a proximidade do Carnaval. A marchinha é boa, foi um sucesso retumbante e lembra tempos de alegria, confetti e serpentina.

            
1963: Salgueiro entra na Avenida com ‘Xica da Silva’, de Arlindo Rodrigues

Não sei como explicar, vou tentar: o Carnaval era uma festa popular. Blocos e sambistas nas ruas dos bairros faziam da cidade um lugar feliz. As escolas de samba na Avenida Rio Branco eram ricas da maior riqueza, da riqueza da alegria que vem da alma e da herança recebida de nossos ancestrais. Havia barões e baianas de verdade. Nada era terceirizado. O barão sabia que durante três dias era um barão e que seu baronato, cheio de estrelas no chão para sua baronesa pisar, era seu feudo e se não era ‘minha casa, minha vida’, era lindo e era dele e não do governo...
Isso é nostalgia? Pode ser. É natural que seja. O progresso, essa amarga faca de dois gumes, tirou o que o Brasil tinha de melhor e não nos deu o que o mundo lá fora tem de melhor. Ficamos no pior dos mundos: entre os castristas e os bolivarianos.
Mas é quase Carnaval e, portanto, lá vamos nós:
Ô abre alas...

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Un canto a Galicia


La Revolution d`octobre......prochain!......Ou.......

....as escolhas possiveis, nao exaustivas, claro!


APS

O efeito vaquinha, por Nelson Motta, O Globo

Ao arrecadar em um mês mais de R$ 2 milhões para pagar as multas de Genoino, João Paulo, Delúbio e Zé Dirceu no mensalão, o PT está provando na prática a viabilidade de uma reforma eleitoral em que as campanhas sejam financiadas apenas com doações de pessoas físicas, com recibos e limites.Os partidos já têm o horário eleitoral e as verbas gordas dos fundos partidários, e empresas não votam nem deveriam participar de eleições.
Mas, na reforma eleitoral em discussão no Congresso, o PT exige o “financiamento público” das campanhas. Quer mais dinheiro nosso para ser distribuído entre eles, proporcionalmente às bancadas que estão no poder, para que nele se perpetuem. Ninguém engole essa.
Mas todos os partidos dizem que é inviável fazer uma campanha baseada em doações individuais: o brasileiro não tem o hábito nem acredita nos políticos. A vitoriosa vaquinha dos mensaleiros está provando o contrário.

                   

Se essa massa de dinheiro foi arrecadada em campanhas discretas pela internet, visando só aos amigos e simpatizantes, para uma causa no mínimo duvidosa (dar dinheiro ao rico consultor Zé Dirceu?), imaginem a dinheirama que poderia ser gerada por uma campanha nacional de massa para causas maiores e decisivas, como uma eleição à Presidência da República?
O mesmo vale para os outros grandes partidos. Os nanicos que se contentem com a boca livre de rádio e TV e o jabá dos fundos partidários. Afinal foi assim que Marina Silva fez 20 milhões de votos em 2010. O contribuinte já dá dinheiro demais para assegurar um mínimo de viabilidade às campanhas eleitorais.
Se quiserem mais dinheiro, que passem a sacolinha, que façam churrascos, bingos e pagodes. Com nota fiscal. Numa democracia, as campanhas devem ser bancadas pelos cidadãos que acreditam nos seus partidos e nos candidatos que os representam, ao Estado cabe regular, equalizar e controlar o poder econômico.
Doar pela internet é tão fácil como votar no “Big Brother”, difícil é os candidatos convencerem os eleitores a doar, mas isso é problema deles. O nosso é contribuir para os que achamos os melhores. Ou menos ruins.

Nelson Motta é jornalista.

As várias batalhas de Dilma, por Murillo de Aragão

No amanhecer de 2014, Dilma Rousseff parece aqueles lutadores de videogame: cercado de muitos adversários e tendo que combater todos ao mesmo tempo.
A lista de seus incômodos adversários é grande e de tipos variados. Existem adversários internos e externos ao seu governo. Existem adversários conjunturais, políticos e mediáticos. Vamos fazer um inventário.
Comecemos pelos adversários internos. Dilma luta contra quatro tipos de adversários: aqueles no PT que querem a volta de Lula; os dissidentes da base governista em geral e, em especial, no PMDB, que está rachado e deve marchar para a campanha assim; e, por fim, a própria incompetência do governo em entregar resultados e/ou fazer trapalhadas.
O PMDB é o que mais preocupa pelo fato de ter uma das melhores estruturas partidárias do país.
No âmbito externo, Dilma enfrenta os dois polos da oposição: PSDB e PSB; a má vontade de setores da grande imprensa; a má vontade dos empresários; e a desconfiança do mercado financeiro.
Para piorar, enfrenta uma conjuntura adversa com incertezas nos campos econômico e social. Em particular, no que se relaciona com o crescimento econômico, o câmbio, o emprego e a inflação, além das incertezas da Copa do Mundo.
Olhando o quadro estadual, as dificuldades de Dilma são muitas. No Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT) terá uma campanha difícil. Mesmo que a senadora Ana Amélia Lemos (PP) venha a apoiar Dilma (hipótese pouco provável), não deverá ser um apoio forte e apaixonado.
A partir do Paraná e até o Pará, passando por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Tocantins, o PSDB terá estruturas de campanha fortes. No Rio de Janeiro, onde Dilma foi muito forte, a situação já não é tão boa. Em Pernambuco também, onde Eduardo Campos pontifica.
Na Bahia e no Ceará, Dilma pode enfrentar dificuldades. Na Bahia, o candidato do governo Jaques Wagner (PT), Rui Costa (PT), terá pela frente o candidato da aliança DEM, PSDB e PMDB, que poderá ser o ex-governador Paulo Souto (DEM) ou então o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB).
No Ceará, por conta da resistência do PT a apoiar a candidatura do senador Eunício Oliveira (PMDB) a governador, pode ocorrer um entendimento entre PMDB e PSDB. Os tucanos poderiam apoiar Eunício em troca do apoio do PMDB à candidatura de Tasso Jereissati (PSDB) ao Senado.
Além dos problemas políticos dos palanques estaduais, Dilma terá que conviver com a ameaça de um racionamento energético. O governo, que antes havia descartado a possibilidade de apagão, agora já admite essa possibilidade, mesmo dizendo que ela é “baixíssima”. Sem falar nos problemas de infraestrutura (aeroportos, portos, estradas), que poderão se tornar mais visíveis em função da Copa.
Com tantos adversários e dificuldades, Dilma será exigida ao máximo para manter o seu favoritismo rumo à reeleição. Não será o passeio que muitos, inclusive de seu time, achavam. Dilma terá muitas frentes e adversários para combater. Considerando a qualidade inconsistente de seu grupo, a dificuldade de dialogar e o fato de que o PT anda dividido com relação à direção da campanha, não será tarefa fácil.
Em especial, porque uma campanha necessita de vetores de agregação e não de confronto. Parece que o PT está se orientando na direção oposta aos rumos tomados para a construção do “lulismo”. Parece, também, que Dilma percebe isso, mas não reage como deveria para se estabelecer como líder inconteste do atual momento político do país.
A mais recente pesquisa CNT/MDA mostra que a recuperação da popularidade da presidente está estagnada. Mas, de qualquer forma, a pesquisa mostra que ela ainda é favorita.

Murillo de Aragão é cientista político.

O alarme, por Luis Fernando Veríssimo

Quem viu o filme de Stanley Kubrick “2001 — Uma odisseia no espaço” se lembra do monólito, aquela pedra lisa encontrada por um astronauta na órbita de Júpiter, que se revela estar ali há milhões de anos como uma espécie de alarme.
Sua descoberta por terrenos significaria que essa raça predatória e assassina já tinha a capacidade técnica de invadir, e fatalmente envenenar, o Universo. O monólito era um aviso. Esta interpretação não fica clara no filme, mas o titulo do conto de Arthur C. Clarke no qual Kubrick e o próprio Clarke basearam seu roteiro é “O sentinela".

Haveria um momento na vida das pessoas ou das sociedades em que funcionaria um alarme parecido com o que alertou o Universo para a chegada dos temíveis humanos, no filme. Pode-se especular sobre qual seria esse momento para um judeu na Alemanha, nas primeiras manifestações do nazismo, por exemplo.
Seria a pregação racista do partido mesmo antes de assumir o poder? Seria o que já se sabia do pensamento de Hitler e outros teóricos do fascismo? Qual o exato instante em que este hipotético judeu se convenceu que era preciso fugir do holocausto que se aproximava?

             
                  Cena do filme "2001 — Uma odisseia no espaço"
Para muitos o aviso nunca veio, ou veio tarde. Muitos não acreditaram que o nazismo chegaria ao poder e depois aos seus excessos. E pagaram por não reconhecer o momento. Demorou algum tempo para que o resto do mundo se desse conta do que estava acontecendo na Alemanha nazista.
O fascismo foi visto como um bem-vindo antídoto para a ameaça comunista. Já havia perseguição a judeus e outras minorias no país e a companhia Ford continuava fazendo negócios com a Alemanha — e continuou a fazer negócios depois do começo da guerra. Henry Ford era um notório antissemita, mas os produtores de Hollywood que desencorajavam críticas ao regime de Hitler nos seus filmes para não perder o mercado alemão eram todos judeus. Nenhum reconheceu o momento.

Na falta de um sentinela para nos alertar que os bárbaros estão tomando conta, resta confiar no nosso instinto. Quando chegará o momento que nos convencerá que isto aqui não tem jeito mesmo, e a procurar uma saída? Será que o momento já veio e já foi, e nós não notamos? E sair pra onde? Pra dentro, para a alienação e a burrice induzida, ou para fora, com o euro caro desse jeito?

Luis Fernando Veríssimo é escritor.

Eliezer Batista é achado para responder à ação na Justiça

 Diferentemente de seu filho, Eike Batista,
o ex-ministro Eliezer Batista -- ex-conselheiro da OGX -- foi localizado pela Justiça para responder à ação de quatro acionistas minoritários contra o grupo de Eike.
O advogado Márcio Lobo, que patrocina a ação, diz que Eike já foi procurado por duas vezes em sua residência, mas até agora nada.
Se o oficial de Justiça quiser encontrá-lo, talvez uma boa oportunidade seja a final do Rio Open, no Jockey Club, na Gávea.
Eike não vai perder essa partida de tênis por nada neste mundo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Outubro e 2016 já chegaram, por Carlos Tautz

O cadáver do cinegrafista Santiago foi a peça de propaganda que as piores forças políticas cariocas usaram para antecipar a campanha a governador e presidente (de outubro) e, principalmente, de prefeito do Rio em 2016. Aliadas a uma imprensa comprometida com tenebrosas transações com dinheiro público, aproveitaram do assassinato para criar um clima de terror e tentar inviabilizar de candidaturas ligadas a setores populares - elas não admitem risco às relações privilegiadas que mantêm com o poder público.
Assim, como se fosse jornalismo, ilações viraram manchetes nas primeiras páginas dos últimos 15 dias, para desde agora queimar potenciais candidatos nas próximas eleições. De fato, outubro e 2016 já chegaram.
O objetivo é manter a blindagem que esta imprensa garante ao sempre sorridente prefeito do Rio, Eduardo Paes, que em troca mantém enorme fluxo de recursos públicos em direção a esses conglomerados de comunicação. Mesmo que seja necessário subtrair de áreas prioritárias (só da Saúde, segundo O Dia, foram R$ 456 milhões entre 2013 e 14).

                     
                         Eduardo Paes, prefeito do RJ. Foto: Arquivo

Ocorre que, devido à sucessão de atos inábeis de Paes, como o aumento nas passagens dos ônibus, a blindagem teve de ser suspensa. Também não se conseguiu esconder os abusos do orçamento em favor de empreiteiras e outros conglomerados econômicos, exemplificados nas megaintervenções no Porto, na Barra e nos questionáveis BRTs. Porém, logo o cordão sanitário-midiático teve de ser refeito, para tirar o foco do prefeito.
Sem provas, acusaram o deputado estadual Marcelo Freixo de ligação com os assassinos de Santiago, já prevendo que o parlamentar será o principal adversário que o grupo do prefeito enfrentará nas urnas em dois anos. Nessa estratégia, tão preocupados com pequenas doações à ceia de moradores de rua no Natal passado, os meios de comunicação deram ares de verdade aos boatos do advogado Jonas Thadeu, que diz defender voluntariamente os assassinos de Santiago, mas que tem histórico de serviços à milícia.
Freixo saiu das eleições de 2012 com 28% dos votos válidos (914 mil sufrágios) e uma extensa pauta para criticar Paes, seus financiadores e seu candidato à sucessão. Nos próximos anos, terá a oportunidade de desfazer a imagem de impoluto que a máquina da comunicação construiu para o prefeito. E ainda há pela frente a Copa e as Olímpiadas, ambas superfaturadas, momentos em que o que se fez com o orçamento municipal poderá vir à tona e embaralhar as eleições.
Por fim, uma lembrança necessária. Nos anos 1960, setores do movimento popular também optaram pela violência para resistir a um Estado que lhes massacrava. Hoje, entretanto, quem sobreviveu àquela viagem acredita que ela não passou de enorme erro.

Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas.

A exaltação de um factoide, Marcelo Freixo

Pela terceira vez em menos de uma semana, O GLOBO me cita em seus editoriais. As diferenças do texto publicado ontem em relação aos demais são o tom menos arrogante e o alvo. Após a péssima repercussão das tentativas de associar a morte do cinegrafista Santiago Andrade a mim, o jornal assume postura mais cuidadosa, até porque o objetivo é explicar a cobertura da tragédia aos seus leitores.
Estranho é O GLOBO não demonstrar tamanho ímpeto editorial quando o assunto é, por exemplo, a comprovada ligação entre o ex-governador em exercício Sérgio Cabral e o empreiteiro Fernando Cavendish. Quantos editoriais foram dedicados ao fato de a empresa de advocacia da primeira-dama, Adriana Ancelmo, ter contratos com concessionárias estaduais? Quantos textos foram escritos sobre as relações entre o governador e Eike Batista?
Vamos fazer uma rápida retrospectiva. No editorial do dia 12 de fevereiro, o jornal me trata como inimigo da democracia. Achei interessante o grupo tocar no assunto. Afinal, no próximo 1º de abril, o golpe militar completa 50 anos e a empresa deve ter histórias palpitantes para contar.
Dois dias depois, o jornal afirma que meu gabinete tem comprovada proximidade com os black blocs. Comprovada proximidade? Creio que o manual de redação do grupo é mais criterioso do que levam a crer seus editoriais. A comoção provocada pela morte do cinegrafista Santiago Andrade não pode ser usada como instrumento de difamação.
Depois de tanta ferocidade, O GLOBO tenta justificar a série de matérias produzidas, com grande destaque, sobre a minha suposta ligação com os responsáveis pelo assassinato de Santiago. Num tom professoral e oportunamente sóbrio, o editorial “O dever de um jornal”, publicado ontem, se arrisca em novos malabarismos.
Primeiro, O GLOBO tenta justificar a manchete do dia 10 de fevereiro, que alardeia minha relação com os acusados, lembrando que a conversa telefônica entre o advogado Jonas Tadeu Nunes e a ativista Elisa Quadros foi registrada na 17ª DP (São Cristóvão). Logo, a existência do documento baseado num “disse me disse” seria suficiente para que uma denúncia grave como esta fosse divulgada. Tudo bem, se o argumento parece tão óbvio ululante e irrefutável para o grupo, por que os jornais “Folha de S.Paulo” e “O Dia”, por exemplo, não se comportaram da mesma forma e nada escreveram sobre o episódio? Então, a postura é, sim, controversa.
O tal Termo de Declaração registrado na delegacia foi produzido de forma irresponsável por um advogado extremamente suspeito e divulgado com destaque, no mínimo, inconsequente. Vejam que estranho: a conversa que suscitou as acusações ocorreu entre Jonas Tadeu Nunes e Elisa Quadros, como o próprio advogado disse, mas o documento foi assinado pelo estagiário Marcelo Mattoso.
Além disso, o delegado Maurício Luciano não teve acesso ao conteúdo da conversa. Por que ele não passou o telefone ao delegado? Por que não pôs a ligação no viva-voz? Ou seja, o Termo de Declaração, grande “prova” do GLOBO, é frágil por ter sido produzido sem qualquer cuidado.
Até aquele momento, ainda não sabíamos que Jonas Tadeu Nunes já fora condenado por danos morais, enriquecimento sem justificativa, e danos morais e materiais em três processos distintos — não vi O GLOBO destacar isso durante a cobertura. Apesar disso, sua atitude, naquele dia 9 de fevereiro, é digna de estranheza.
Jonas Tadeu Nunes não agiu como advogado nem como defensor dos interesses de seu cliente ao pegar o Termo de Declaração, imediatamente após o seu registro, e entregar nas mãos de uma repórter da TV Globo.
Por que O GLOBO não se interessa tanto pela conduta tão controversa e suspeita do advogado, como o faz quando ele dirige acusações sem provas contra mim? Enquanto veículos e colunistas de outros jornais, como Jânio de Freitas, da “Folha de S.Paulo”, acham tudo muito estranho, Jonas Tadeu Nunes reina sob os holofotes globais e leiloa informações. Quando acusa, o advogado recebe mais destaque que o delegado, responsável pelo inquérito.
O autor do editorial mente ao escrever que eu afirmei não saber de nada ao ser procurado por Artur, da equipe de produção da emissora, naquele mesmo dia. Em momento algum neguei ter falado com Elisa Quadros ao telefone.
Ela me ligou exclusivamente para relatar que temia a possibilidade de Fábio Raposo ser torturado no presídio. Eu falei que isso não aconteceria e desliguei. Sou presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e dezenas de pessoas me procuram para fazer denúncias.
Também não criei obstáculos para dar entrevista. Pelo contrário, dar entrevistas é o que mais tenho feito nestes últimos dias. Só pedi que o tal documento me fosse encaminhado antes. Afinal, não posso falar sobre algo cujo conteúdo desconheço. O jornal cumpriu sua obrigação de me ouvir, mas foi leviano ao publicar uma manchete baseada em “provas” extremamente frágeis. No fim da chamada de capa, o fatal: “O parlamentar nega.”
O GLOBO insiste em dizer que foi imparcial e comedido ao tratar do assunto durante a semana. Não foi. Basta ler os editoriais publicados e citados aqui. Como não havia provas e mais informações para me associar a esta tragédia, os ataques saíram dos espaços de notícia para os de Opinião. Não me acho acima do bem e do mal, como insinuou o jornal, numa tentativa de desqualificar minha indignação. Mas não vou titubear em defender minha trajetória ante acusações estapafúrdias.
Agora, o jornal tenta se esconder sob o manto da “missão jornalística” para justificar o noticiário desmedido e leviano dirigido contra mim e o PSOL. O papel nobre que O GLOBO atribuiu a si mesmo ontem, numa linguagem tão prudente, é mais uma tentativa de subestimar a inteligência de seus leitores.
Se não houvesse tanta indignação social e manifestações de solidariedade a mim — inclusive de jornalistas da própria Rede Globo —, essa autocrítica mambembe sequer teria sido feita. Pedir desculpas é um gesto que exige grandeza.

Marcelo Freixo é deputado estadual (PSOL-RJ).

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Frei Betto: Educação e consciência crítica

O bloco socialista se desintegrou antes de completar um século. A União Soviética se esfacelou, e os países que a compunham adotaram o capitalismo como sistema econômico e sinônimo de democracia.

Tudo aquilo que o socialismo pretendia e que, em certa medida, alcançara — redução da desigualdade social, garantia do pleno emprego, Saúde e Educação gratuitos e de qualidade, controle da inflação, etc. — desapareceu para dar lugar a todas as características desumanas do neoliberalismo capitalista: a pessoa encarada não como cidadã, e sim como consumista; a exploração da força de trabalho e a apropriação privada da mais-valia; a especulação financeira; a degradação da condição humana através da prostituição, da criminalidade e do consumo de álcool e drogas.

É dever de todos que se consideram de esquerda se perguntar quais as causas do desaparecimento do socialismo na Europa. Foram várias, entre as quais destaco uma de caráter subjetivo, ideológico: o papel do educador na formação de seus alunos.
Nascemos todos autocentrados. “O amor é um produto cultural”, teria dito Lênin. Resulta do desdobramento de nosso ego, o que se obtém através de práticas que infundam valores altruístas, gestos solidários, ideais coletivos pelos quais a vida ganha sentido, e a morte deixa de ser encarada como fracasso ou derrota.

Este o papel do educador: não apenas transmitir conhecimentos, facilitar pedagogicamente o acesso ao patrimônio cultural da nação e da humanidade, mas também suscitar no educando o espírito crítico, a atitude ética, a busca do homem e da mulher novos em um mundo verdadeiramente humanizado.
Isso jamais será possível se não se propicia ao magistério um processo de formação permanente. Estamos todos sujeitos às influências nocivas que satisfazem o nosso ego e tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. Jamais haverá um sistema social no qual a ética se destaque como virtude inerente a todos que nele vivem e trabalham.
O mais importante é o trabalho pedagógico, tarefa na qual os professores desempenham papel preponderante por lidar com a formação da consciência das novas gerações. O papel número um do educador não é formar mão de obra especializada ou qualificada para o mercado de trabalho. É formar seres humanos felizes, dignos, dotados de consciência crítica, participantes ativos no desafio permanente de aprimorar a sociedade e o mundo em que vivemos.
Frei Betto é autor de ‘Alfabetto: Autobiografia Escolar’ (Ática)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

'Cria cuervos que te sacarán los ojos', por Sandro Vaia

Não é preciso ter visto o filme de Carlos Saura para entender o significado da célebre expressão espanhola.
O rojão na cabeça que matou o cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes durante um distúrbio no Rio é o olho arrancado por um corvo criado, alimentado, paparicado e incentivado por boa parte do pensamento político que imagina construir uma sociedade perfeita cheia de fadas Sininho e de rios de leite e mel, onde a justiça social estará disponível nas prateleiras dos supermercados a preços de liquidação.
Não importa se o morteiro foi disparado por 150 reais. Há assassinatos mais baratos do que esse disponíveis no mercado. Importa é o caldo da cultura que criou assassinos-vítimas que aparecem com cara de Dr. Jeckyll nos seus gestos de confissão e arrependimento e são fotografados em ação no auge de sua monstruosa transfiguração de Mr. Hyde.
Se, além do curling, houvesse na olimpíada russa de inverno que transcorre em Sochi a modalidade de pisar em ovos, a imprensa, as autoridades, os políticos e o governo brasileiro criariam um escrete imbatível.
Pede-se uma lei contra o terrorismo, mas terrorismo não é. E se terrorismo for, como não enquadrar os não muito amigáveis manifestantes do MST, que ocuparam a praça dos Três Poderes, tentaram invadir o prédio do Supremo e entraram em combate com policiais militares?
Mas não se pode criminalizar os movimentos sociais, reza a cartilha do poder. Por isso, prudentemente o ministro da Justiça guardou em sua gaveta um ante-projeto do secretário de segurança do Rio, Mauro Beltrame, prevendo punições para manifestações violentas.
Como se não bastasse, representantes do pacífico MST, cujo líder José Pedro Stédile chamou o governo Dilma de “bundáo” em questões de reforma agrária uma semana antes, foram recebidos e afagados pela própria presidente, depois de ferir 30 policiais nos choques do dia anterior.
Mas se o movimento for contra a Copa do Mundo, não será mais movimento social, mas pode ser enquadrado como terrorismo, conforme um projeto de lei que está atravancado em alguma gaveta do Congresso Nacional.
A confusão conceitual se instalou na seara do politicamente correto, e os concorrentes da maratona de pisar em ovos, não sabem mais pra que lado atirar: os pobres meninos desamparados da periferia que atiram rojões a esmo são vítimas da sociedade ou da exploração de políticos inescrupulosos que pagam pela sua violência?
O diabo é que todos dizem querer uma sociedade mais justa e em nome disso são capazes de pregar e acreditar que a justiça está em desmoralizar o Poder Judiciário porque condenou correligionários por corrupção ou em escrever que o “superávit primário é uma invenção diabólica do capitalismo para explorar os povos”.
Quem cria esses corvos? E os olhos de quem eles comerão?

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A histeria dos comissários, por Elio Gaspari

Os surtos histéricos diante da violência urbana dão em nada. Se dessem, ela já teria acabado há décadas. Já os surtos de histeria política, quando dão em alguma coisa, acabam mutilando as liberdades públicas.

O senador Jorge Viana defendeu a aprovação em regime de urgência de um projeto de seu colega petista Paulo Paim que classifica como terrorismo os atos de violência física praticados durante manifestações de rua. Depredações e mesmo desacato à autoridade policial são delitos previstos no Código Penal. Isso para não se mencionar o homicídio do cinegrafista Santiago Andrade. 
Paulo Paim, senador 
O projeto petista define assim o ato terrorista:
“Provocar ou difundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoas.”
A pena iria de 15 a 30 anos de prisão. Se a ação resultar em morte, sobe de 24 a até 30 anos. Fica por aí porque esse é o limite máximo da pena de reclusão nas leis brasileiras.
Deixando-se de lado o caráter vago do que seria “provocar ou difundir terror ou pânico generalizado” e a precisão da pena mínima (15 anos de reclusão), pode-se buscar um caso semelhante de histeria, com danos historicamente conhecidos.
Que tal assim?
Será crime “comprometer a segurança nacional, sabotando quaisquer instalações militares, navios, aviões, material utilizável pelas Forças Armadas, ou ainda meios de comunicação e vias de transporte, estaleiros, portos, e aeroportos, fábricas, depósitos e outras instalações:
Pena: reclusão de oito a 30 anos.”
Essa era a redação do artigo 11º da Lei de Segurança Nacional, baixada a 21 de outubro de 1969, no auge da ditadura, pouco depois do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.
A pena mínima para um sabotador de quartel, ou aeroporto (imputações específicas), era de oito anos. Para assalto a banco ou sequestro de avião, ela ia de dez a 24 anos. Nos dois casos, as penas eram inferiores às que prevê o surto petista. Caso o delito resultasse em morte, a pena seria de fuzilamento. Apesar de ter havido uma condenação, ninguém foi executado dentro das normas legais.
O comissariado quer expandir a definição de terrorismo precisamente numa época em que sexagenários que militaram em organizações da esquerda armada aborrecem-se quando alguns de seus atos são chamados de ações terroristas. O atentado do aeroporto de Guararapes, por exemplo, quando explodiu uma bomba no saguão, matando duas pessoas e ferindo 14. Ele ocorreu em 1966, dois anos antes da edição do Ato Institucional nº 5.
Oito meses antes do AI-5 um documento do Comando de Libertação Nacional, o Colina, dizia que “o terrorismo, como execução (nas cidades e nos campos) de esbirros da reação, deverá obedecer a um rígido critério político”. Assim, quatro meses antes da edição do AI-5 mataram um major alemão que pensavam ser o capitão boliviano que estivera na operação que resultou no assassinato de Che Guevara. Nessa organização militava, com o codinome de Wanda, a doutora Dilma Rousseff. Tinha seus 20 anos e nunca foi acusada de ter participado de ação armada.
Como diria Ancelmo Gois: “Calma, gente.” 
Elio Gaspari é jornalista.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Justiça veta cessão de terreno para Instituto Lula, FAUSTO MACEDO - Agência Estado

A Justiça vetou nesta segunda-feira, 10, a cessão de imóvel avaliado em R$ 20 milhões pela Prefeitura de São Paulo ao Instituto Lula. Em decisão liminar, o juiz Adriano Marcos Laroca, da 12.ª Vara da Fazenda Pública, acolheu ação civil proposta pelo Ministério Público e determinou "aos réus" que se abstenham de assinar o contrato de concessão administrativa de uso do terreno de 4,3 mil metros quadrados no Centro da Capital, sem licitação e pelo prazo de 99 anos, para instalação do Memorial da Democracia.

"Aqui, a primeira triste ironia: a instalação de um memorial da democracia com ofensa a diversos princípios democráticos", assinalou o juiz.

Ao conceder tutela antecipada ao pedido dos promotores Valter Foleto Santin e Nelson Luís Sampaio de Andrade, o juiz aponta para o risco de "dano irreparável". Segundo ele, "nem a Constituição da República, nem a Lei de Licitações admitem a concessão administrativa direta, onerosa ou gratuita, de imóvel público a entidade privada, com a finalidade de instalação de equipamento cultural".

A cessão do imóvel foi aprovada por lei municipal na gestão Gilberto Kassab (PSD), em 2011. Para o juiz, a iniciativa "viola a moralidade pública". Ele determinou à Prefeitura e ao Instituto que não iniciem ou continuem a execução do contrato, sobretudo quanto à ocupação efetiva da área pública concedida, sob pena de multa diária de R$ 500 mil.

Ordenou que o Município, com "seu poder de polícia", tome medidas para evitar a invasão do imóvel.

"Os fatos revelam que as raízes culturais e econômicas do Brasil arcaico ainda bloqueiam os frutos de redução das abissais desigualdades socioeconômicas em solo democrático reaberto em 1988", adverte o juiz. "A concessão, sem prévia licitação, e no momento político partidário em que desencadeada, revela o patrimonialismo ou neopatrimonialismo do Estado Brasileiro. Existe enorme risco de que o imóvel concedido ao instituto-réu, para a instalação do memorial da democracia seja utilizado preponderantemente para a promoção pessoal do ex-presidente Lula e de seu partido (PT)."

Segundo o magistrado, há "outra ironia". Diz a decisão que "a concessão está relacionada a um partido que sempre discursou em defesa dos princípios democráticos, embora seja pública e notória, para escapar de injustas generalizações, a presença de indivíduos com posturas democráticas e antidemocráticas em todos os partidos políticos e instituições".

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A última missão do capitão Ronaldo, por Elio Gaspari

Na madrugada de 20 de janeiro de 1971, o capitão Ronaldo tinha 30 anos e servia no DOI do Rio de Janeiro quando recebeu a missão de ir ao Alto da Boa Vista para simular que um preso fora sequestrado por militantes de esquerda, depois de um tiroteio.

Em depoimentos prestados à Comissão Estadual da Verdade do Rio, revelado agora pelo repórter Pedro Bassan, o capitão Raymundo Ronaldo Campos, hoje um coronel reformado, contou que o tiroteio e o sequestro foram uma farsa destinada a encobrir a morte de um preso. Era Rubens Paiva, havia sido deputado federal e tinha 41 anos. Morrera de pancada no DOI da Barão de Mesquita.
A farsa foi desmascarada já em 1978 pelos repórteres Fritz Utzeri e Heraldo Dias. Eles demonstraram que Paiva, um homem corpulento, não poderia ter saído do banco de trás de um Volkswagen, onde estava escoltado por dois sargentos e um capitão, atravessando um fogo cruzado até chegar ao carro dos sequestradores.

Rubens Paiva, deputado

Com seu testemunho, já que foi ele quem encenou, relatou e assinou a narrativa do “cineminha”, o coronel rompeu um silêncio de 43 anos. Ainda nos primeiros anos da ditadura, dois chefes militares denunciaram as torturas praticadas contra presos políticos: os generais Pery Bevilaqua e Olympio Mourão Filho. Ele mesmo, o que disparou a rebelião militar que depôs João Goulart.
Pery foi cassado em 1968 e Mourão morreu em 1972. Desde então os comandantes militares vivem aprisionados num pacto de silêncio. Jamais reconheceram a tortura e aferram-se às versões segundo as quais Rubens Paiva fugiu (e sumiu), Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho suicidaram-se e cerca de 40 guerrilheiros do Araguaia simplesmente desapareceram. Militares da velha “tigrada” diziam ao coronel que ele não devia falar, porque “o Exército não vai ajudar em nada.” Engano. É o coronel quem está ajudando o Exército.
A farsa do sequestro e o assassinato de Rubens Paiva são dois dos três vértices de um triângulo. Admita-se que foram esclarecidos dois. Um deles foi coisa de um capitão, a mando de um major. Outro poderia ter sido coisa de um tenente. Resta o terceiro: como o corpo de Paiva foi retirado do DOI? Majores do DOI não tinham autonomia para isso.
Num caso anterior, a farsa foi coordenada pelo Centro de Informações do Exército. Seu chefe respondia diretamente ao ministro. Estes episódios não eram coisa de majores, mas diretrizes de generais, que os elogiavam e condecoravam. Morreram todos, mas resta um sobrevivente: o Exército.
Estão vivos pelo menos mais dois majores e um capitão que estavam no DOI no dia da prisão de Rubens Paiva. É possível que eles possam contar se alguém mandou apagar as luzes do pavilhão durante a operação de retirada do cadáver.

Elio Gaspari é jornalista.

Charge do CHICO


Cartas de Buenos Aires: 110: Uma gravidez de 37 anos, Gabriela Antunes

Uma avó em busca de seus netos. A imagem parece saída de um conto, desses que se complicam até chegar ao final feliz. Na Argentina, 30 mil desaparecidos não tiveram esse final feliz, pois terminaram no fundo do rio da Prata ou mesmo enterrados em covas comuns.

Entre essas 30 mil pessoas que desapareceram estavam muitas mulheres grávidas.
No dia 30 de abril de 1977, mulheres cujos filhos foram “extraviados” pela ditadura começaram uma rotina que durou décadas: marchar lentamente e em círculos ao redor do monumento conhecido como “pirámide de mayo", um pequeno obelisco localizado em frente à Casa Rosada.
Ficaram conhecidas como “Madres de Mayo”.
Os lenços brancos na cabeça que viraram a marca registrada dessas mães órfãs. Ganharam a atenção mundial, reconhecimento nacional e o respeito das entidades ligadas à luta pelos direitos humanos.
Com o tempo, os crimes da ditadura foram vindo à tona e mais do que corpos foram aparecendo. Soube-se, então, dos nascimentos ocultos e das crianças entregues clandestinamente à adoção. 
Abuelas 
Muitas mães não podiam recuperar seus filhos, mas uma luz de esperança se acendia para os netos. É assim que doze “abuelas” se juntam e criam um subgrupo sob a chancela das Madres de Mayo.
Em plena ditadura, se reuniam em confeitarias da cidade, simulavam ser plácidas velhinhas em um chá da tarde. Muitas eram simples donas de casa confrontadas por circunstâncias extraordinárias. Foram se organizando, conseguindo espaço na imprensa e buscando ajuda internacional.
“Nascemos de uma convocação individual feita por uma ditadura feroz que adotou o sequestro de pessoas como método para cala-las, e arrebatou nossos filhos e os filhos dos nossos filhos”, escreveram as avós em um livro que conta suas historias.
Do desespero da dúvida nasceu também uma das mais interessantes parcerias da história da ciência moderna. A persistência das avós e a precisão da Associação Americana para o Avanço da Ciência em Washington e do Blood Center de Nova Iorque deram à luz ao “índice de abuelidad”, que permitia identificar a descendência dos netos com mais de 99% de eficácia.
Vale lembrar que o método antecedeu ao que hoje conhecemos como o revolucionário procedimento de identificação por DNA.
Quase 37 anos depois de sua criação, as “Abuelas” seguem sua luta. Nesta quinta-feira, anunciaram a identificação da neta número 110. Durante uma coletiva de imprensa, o tio da neta recuperada não se conteve:
- “Foi uma gravidez de 37 anos, mas só hoje deu à luz”.
Falecida há dois, Vilma Delinda Sesarego de Gutiérrez, avó da neta 110, não estava lá para presenciar este segundo parto.
 Gabriela G. Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e hoje é uma das editoras da versão em português do jornal Clarín.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A fritura de Helena Chagas, por Elio Gaspari

O comissariado fritou a ministra Helena Chagas. Pela primeira vez em quase um século, desde que o jornalista Lourival Fontes foi cuidar da imagem de Getúlio Vargas, o funcionário encarregado da comunicação do Palácio do Planalto caiu por causa de dinheiro, acusado de não atender aos objetivos políticos do governo.

A jornalista, com 32 anos de carreira, teve no seu ofício um desempenho muito superior à média do comissariado petista. Não a fritaram porque divulgou o que não devia, ou deixou de divulgar o que devia. Muito menos porque suas opiniões políticas divergiam do governo. Na raiz do mal-estar estavam apenas verbas, o dinheiro da Viúva. 
Helena Chagas, ministra. Foto: Ricardo Matsukawa / Terra 
Seja qual for o governo, sempre haverá alguém reclamando porque não recebe dele verbas publicitárias proporcionais à fidelidade com que o defende. O patrono dessa espécie deveria ser o jornalista Alexandre von Baumgarten. Amigo de generais da ditadura, queria reerguer uma revista falida e buscava no Planalto perdões de dívidas e verbas publicitárias. Acabou-se em 1982, com uma bala na cabeça, e deixou um dossiê acusando o Serviço Nacional de Informações pela sua morte.
Em 2012 a máquina de propaganda do palácio moveu R$ 1,9 bilhão. Esse é o dinheiro que Brasília promete repassar ao governo do Estado Rio para enfrentar desastres naturais. Noutra conta, R$ 1,2 bilhão é o total dos financiamentos brasileiros para obras e serviços em Cuba. Vale lembrar que esse tipo de munificência não foi inventado pelo PT, nem é exclusivo do governo federal. Ele apenas inflou-o, pois em 2000 o tucanato torrou R$ 1,2 bilhão.
Em 2012 o Planalto gastou mais em publicidade que a Ambev (R$ 1,6 bilhão), que vive de vender cervejas e refrigerantes. Com R$ 1,7 bilhão, a Caixa Econômica (cujas despesas não estão na caixa do Planalto) gastou mais que o Bradesco e o Itaú, somados.
A conta de R$ 1,9 bilhão expande-se para uma cifra difícil de ser calculada. Nela entram outras campanhas promocionais, como as de ministérios, empresas estatais e contratos com agências de relações-públicas que se superpõem às burocracias do Estado. Num cálculo grosseiro, esse aparelho federal pode custar até R$ 4 bilhões por ano.
Quando um governo desenvolve a mentalidade do sítio, julgando-se injustiçado pelos meios de comunicação, a arca torna-se um saco sem fundo, capturada por um círculo vicioso: se estão contra nós, precisamos ajudar quem nos defende e, se alguém nos defende, nada mais natural que ajudá-lo.
Num outro estágio, o hierarca federal, estadual ou municipal, seja qual for seu partido, confunde deliberadamente a divulgação de políticas públicas com a exaltação de suas próprias atividades (leia-se candidaturas). Como fica feio fazer isso com o aparelho do Estado, privatizam a ambição política e estatizam seu custo. Em 2013 o Ministério da Saúde gastou R$ 232 milhões e Alexandre Padilha disputará o governo de São Paulo.
Pedir que os governos parem de gastar dinheiro com publicidade num ano eleitoral é um exercício fútil. Precisamente porque este é um ano eleitoral, o balcão está aberto para candidatos capazes de se comprometer a reduzir drasticamente esse tipo de despesa. Basta contar ao público quanto seus antecessores torraram e dizer quanto e como pretendem gastar.
                                                                                                                     Elio Gaspari é jornalista.