sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Dilma, a penitente, por Demétrio Magnoli, O Globo

Segundo André Singer, Dilma Rousseff peregrinou até o Fórum Eonômico Mundial de Davos penitenciando-se pela efêmera “aventura desenvolvimentista” do Brasil e depositando, “no altar das finanças”, as “oferendas de praxe” a fim de “obter a absolvição dos endinheirados” (“Folha de S.Paulo”, 25 de janeiro).

Singer foi porta-voz de Lula no primeiro mandato e depois, por algum motivo, deslocou-se para a esquerda, identificou a natureza conservadora do lulismo e tornou-se um arauto das imprudências econômicas que empurraram a Argentina à beira do precipício. Seu artigo, um lamento do suposto giro à direita do governo, pouco esclarece sobre a conjuntura. Mas, inadvertidamente, lança luz sobre a oscilação pendular da política econômica lulista.
Dilma Rousseff. Foto: Keystone 
No passado, a esquerda petista pregava a ruptura com o capitalismo. Hoje, excetuando-se dois ou três grupos insignificantes, e fora dos dias de festa e louca bebedeira, ninguém mais fala nisso. A ordem, nessas alas, é pregar uma volátil combinação de políticas insustentáveis: mais inflação, depreciação cambial, fortes aumentos de gastos públicos, subsídios à indústria, protecionismo comercial.
Cristina Kirchner seguiu a receita “desenvolvimentista” quase inteira, até emparedar a Argentina entre as muralhas do descontrole inflacionário, do desinvestimento e da fuga de capitais. Dilma, que não é Cristina, manobra a nau do Brasil antes da chegada da tempestade.
A primeira oscilação assinalou o encerramento da ortodoxia palocciana. O “desenvolvimentismo” (quantas aspas serão necessárias aqui?) petista emergiu após o escândalo do mensalão e ganhou impulso na hora da eclosão da crise financeira internacional.
Lula não operou a brusca mudança de rota por uma motivação ideológica, algo que lhe é estranho, mas por um certeiro cálculo de poder: a fórmula de expansão do crédito subsidiado e dos gastos públicos (sem a parte da depreciação cambial) reativaria o crescimento e o consumo, assegurando o triunfo eleitoral de Dilma. Contudo, caracteristicamente, a esquerda petista interpretou o novo rumo como uma vitória sua: a consagração de um dogma ideológico. Agora, no momento da segunda oscilação, seus intelectuais fabricam teses políticas convenientes, destinadas a ocultar o fracasso do dogma.
A teoria de fundo, velha de uma década, classifica os governos lulistas como “governos em disputa”, ou seja, como campos de confrontação entre a “elite” e os “trabalhadores”. A ideia, de vaga sonoridade marxista, tem mil e uma utilidades. Nos intercâmbios políticos cotidianos, serve para aureolar pretendentes petistas a cargos públicos também almejados por outros partidos do extenso arco governista.
Nos episódios de repressão a protestos de “movimentos sociais”, funciona como álibi para expressar solidariedade aos “companheiros” sem romper com o governo ou renunciar a preciosos cargos na máquina estatal. Na hora da oscilação do pêndulo da política econômica, converte-se numa senha para a delinquência intelectual. Ficamos sabendo, então, que Dilma, a penitente, escalou a montanha de Davos por nutrir um temor reverencial aos “endinheirados” — não porque o “desenvolvimentismo” fracassou.
Lula é, antes de tudo, um pragmático: futuro, para ele, nunca representa mais que a próxima eleição. O presidente de facto intuiu o perigo na queda das taxas de crescimento do PIB, no repique inflacionário, na carantonha das agências de classificação de risco, nas manifestações de junho, na retomada americana, no destino da Argentina. Partiu dele a ordem de reorientar a política econômica e, não por acaso, também o nada discreto lançamento da “candidatura” de Henrique Meirelles ao Ministério da Fazenda.
Dilma não é Cristina porque, aqui, existe Lula. A alma da presidente de direito inclina-se na direção do “desenvolvimentismo” — mas ela sabe quem manda. Ao preservar Guido Mantega, enquanto escala a montanha de Davos, Dilma abraça-se simbolicamente às suas convicções ideológicas, que já sacrificou materialmente.
Os malvados “endinheirados” não reclamaram antes, e não reclamarão agora. O “desenvolvimentismo” dessa esquerda petista pós-socialista provocou uma explosão do consumo que girou a roda dos negócios, do varejo à construção civil, e expandiu como nunca os subsídios públicos para o alto empresariado, como atesta o caso extremo de Eike Batista.
A volta do cipó de aroeira, tão bem evidenciada pela restauração das taxas de juros de dois dígitos, transfere recursos de um bloco de “endinheirados” para outro e freia o trem desgovernado do consumo popular. Não é muito alvissareiro realizar a manobra na antevéspera das eleições, mas a alternativa seria pior: pense na Argentina.
Dilma disse em Davos que ama o mercado, o investimento privado e a estabilidade econômica. As “oferendas de praxe” equivalem, até certo ponto, a uma abjuração de crenças pessoais, mas não a uma ruptura com a natureza do lulismo. Nas atuais circunstâncias internacionais, a mudança de rumo oferece as melhores chances de triunfo num embate eleitoral pontilhado de incertezas.
Os “desenvolvimentistas” deveriam louvar o aguçado instinto político de Lula: sem a prudente reorientação ortodoxa em curso, o receituário econômico desastroso que eles pregam experimentaria o teste completo da história.
Utópicos? “Sonháticos”? Nem sempre: os “desenvolvimentistas” sabem, ao menos um pouco, onde o calo aperta no ano das eleições. Na conclusão de seu artigo, Singer faz um alerta: “Em fevereiro, o mercado vai exigir um superávit primário robusto e um contingenciamento idem para garanti-lo.”
O recado é claro como o sol do meio-dia. Ele está dizendo que Mantega precisa voltar atrás nos sugeridos compromissos de contenção fiscal porque, afinal, as urnas estão aí, na esquina. Não é “luta de classes”, mas apenas o natural desejo político de conservar o poder. Em nome do “povo”, bem entendido. 
Demétrio Magnoli é sociólogo.

Dólar turismo atinge maior valor em 8 anos, Bruno Villas Bôas, O Globo

O câmbio turismo, cotação usada por viajantes para adquirir dólares em papel-moeda e carregar seus cartões pré-pagos, fechou nesta quinta-feira negociado a R$ 2,58 nas agências de câmbio e bancos no Rio, alta de 0,78%, segundo levantamento do sistema CMA.

É o maior valor em mais de oito anos, desde 26 de agosto de 2005 (R$ 2,58), época em que a moeda estava pressionado por indicadores negativos nos EUA e denúncias do mensalão no Brasil.
O dólar turismo avançou nesta quinta apesar da queda da cotação do câmbio comercial, usado para operações financeiras e sua principal referência. O dólar comercial recuou 0,9%, a R$ 2,415, num dia de valorização de moedas de mercados emergente

O pote transborda, por Mara Bergamaschi

“Ei Fifa, paga a minha tarifa”. As palavras de ordem, ouvidas esta semana no Rio de Janeiro, sinalizam didaticamente a retomada, em uníssono, de dois poderosos protestos: um contra a Copa; outro contra o precário sistema de transporte público – visto como contraponto aos investimentos bilionários (do BNDES ou não) no Mundial.
Mas a principal novidade nem é a voz unida. Segundo a reportagem de O Estado de S. Paulo, ao mesmo tempo em que gritavam, 450 manifestantes e passageiros pulavam as catracas da Central do Brasil. E faziam isso sem confusão, em fila, organizada por Black Blocs! O fato ocorreu na última terça-feira, na hora da volta para casa em metrôs lotados e trens sucateados.
Liderados pelo Movimento Passe Livre, os manifestantes colocaram em prática uma espécie de desobediência civil ordeira. Estratégia que significa, ao contrário dos condenáveis atos violentos, controle e determinação na luta pacífica, ainda que ilegal. Não sabemos se a ação irá prosperar – mas é fato que já está sendo testada em 2014.
A desobediência civil é usada na democracia para forçar governos a reverter situações de injustiça cabal, capazes de desestabilizar as bases do pacto social. 
Foto: Pablo Vergara 
No caso, a obrigação de se pagar por um serviço público – o essencial ir e vir do trabalho ou da escola - de péssima qualidade, que impõe sofrimento aos usuários. Conceitualmente, seria legítimo gerar prejuízos a tal sistema.
Esse tipo de movimento costuma ter início - e muitas vezes fim – com minorias. Mas cresce e obtém vitórias em conjunturas especiais, quando é visível para maioria o reiterado desrespeito a direitos considerados inquestionáveis.
Na mesma terça-feira em que passageiros dos trens urbanos terminaram o dia trocando a fila dos guichês pela fila do calote na catraca, o Rio acordou com um desastre rodoviário, fruto da incúria pública e privada, que ceifou a vida de cinco pessoas, feriu outras quatro, destruiu patrimônio e convulsionou o trânsito por nove horas. Tudo isso numa via municipal em que se paga pedágio.
Poucos dias antes, já havia ocorrido outro acidente, desta vez ferroviário, e felizmente sem vítimas: o descarrilamento de vagões velhíssimos da Super Via, fato que também transtornou a cidade. Após esse grande caos, soubemos pelo jornal O Globo que a agência reguladora do Estado chamou as concessionárias de transporte para uma reunião. A primeira em 15 anos de privatização.
Inacreditável? Tem mais: o prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou o aumento das passagens de ônibus de R$ 2,75 para R$ 3,00, a partir de 8 de fevereiro.

Mara Bergamaschi é jornalista e escritora. Foi repórter de política do Estadão e da Folha em Brasília. Hoje trabalha no Rio, onde publicou pela 7Letras “Acabamento” (contos,2009) e “O Primeiro Dia da Segunda Morte” (romance,2012). É co-autora de “Brasília aos 50 anos, que cidade é essa?” (ensaios,Tema Editorial,2010) urban

A charge de Chico Caruso


 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Imagina nas Olimpíadas, por Ruth de Aquino

Ruth de Aquino, ÉPOCA
"Eles tratam a gente igual a gado.” Vanessa Rocha, cozinheira, foi uma das 600 mil vítimas do inferno do transporte no Rio de Janeiro. Um trem descarrilou, bateu num poste de energia e interrompeu todo o sistema sobre trilhos. Durante 11 horas! Sem plano alternativo, sem orientação, a multidão que sai de casa com o dinheiro contado para a passagem de ida e volta se sentiu desrespeitada. O caos se instalou sob uma sensação térmica e emocional de 50 graus.
Vanessa saiu da Zona Oeste do Rio às 4 horas, para chegar ao emprego às 5h30. Às 8 horas, ainda caminhava nos trilhos. Suada. Esgotada. Revoltada. Sem dinheiro para pagar uma passagem de ônibus. Sem informação da SuperVia, empresa que administra os trens do Rio e que ganhou a concessão até 2048. A Odebrecht é dona de 60% da concessionária. De super, a empresa não tem nada. Talvez apenas SuperIncompetente.
Vanessa não chegou a ver a cena que revoltou ainda mais os cariocas: o secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, esbanjando sorrisos com o presidente da SuperVia, Carlos José Cunha, nos trilhos vazios. Riam de quê?

Carlos José Cunha, presidente da SuperVia, Arthur Vieira Bastos e o secretário Júlio Lopes. 
Foto: Bruno Gonzalez / ExtraCarlos José Cunha não mexe um músculo facial quando fala sobre descarrilamentos e problemas técnicos. Chegarão novos trens, estamos gastando não sei quantos bilhões, são investimentos “de longa maturação”. A multa, quando é aplicada, nem faz cócegas. O secretário Júlio Lopes sai pela tangente: “Décadas de abandono”. O Rio foi abandonado? Foi. Mas não dá para tratar a multidão como gado.
Muitos trens em decomposição. Sem ar-condicionado. Atrasos constantes. Péssimo sistema de som. Num acidente grave, passageiros ficam parados 40 minutos dentro do trem no calor. Gente passa mal. Jovens incitam ao quebra-quebra. Multidão é obrigada a descer. Alto-fa­lante só diz: “A SuperVia agradece pela preferência”.
Acidentes urbanos acontecem no mundo todo. O problema, tanto no Rio quanto em outras cidades brasileiras, é a falta de um plano imediato de contingência e a falta de informação. Não só nas grandes linhas. Lembra o trenzinho vermelho para o Corcovado? Parou na virada do ano. Durante duas horas, turistas brasileiros e estrangeiros ficaram na mata no escuro. Sem a menor ideia de quando o pesadelo acabaria. Era o reality “Brazil”. Passaram para outro trenzinho usando a luz dos smartphones, porque nem lanterna havia. E o Cristo foi privatizado. Imagina nas Olimpíadas.
Quando há acidentes de carro nas avenidas do Rio – isto é, a cada minuto –, não há, como nas cidades civilizadas, painéis eletrônicos avisando para voltar ou pegar rotas alternativas. Só quem tem acesso ao Google dentro do carro consegue saber o que está bloqueando o trânsito. Para que serve a tecnologia do centro futurista da prefeitura? Imagina nas Olimpíadas.
A espuma espessa e a coloração marrom de nossos mares não fazem mal algum, diz o governo. São apenas algas, um fenômeno típico e sazonal do Rio de Janeiro! Saiu publicada a carinha das algas microscópicas que produzem a espuma nojenta quando o mar bate nas pedras. Biólogos desmentem a versão oficial. Segundo eles, a alga só vira espuma em blocos quando misturada à poluição humana. Na semana passada, vimos uma imagem assustadora: uma cachoeira de esgoto caindo do Morro do Vidigal direto no mar de São Conrado. Autoridades se apressaram a fechar o “cano rompido” e a prometer que o esgoto in naturaseria lançado “lá fora”. E de fora não vem para dentro?
Fico pensando nas modalidades esportivas nas águas – mar, lagos, lagoas, baía. Alguém viu as ilhas de cocô nas lagoas da Barra e do Recreio, em fotos aéreas? Para onde foram todos os bilhões e bilhões que iriam despoluir as lagoas e a Baía de Guanabara? Imagina nas Olimpíadas.
Alguém viu o teleférico parado no Morro da Providência? Ficou pronto em maio do ano passado.  Custou R$ 75 milhões. Foi concebido para ligar a Cidade do Samba, a Central do Brasil e a Providência. Mas até hoje não saiu do lugar. As gôndolas estão lá há oito meses, como um monumento à incompetência. “É o museu do teleférico, só para a gente ver”, disse Luciana Ribeiro, moradora da Providência, que sobe o morro a pé. O prefeito Eduardo Paes pessoalmente testou o bondinho em dezembro de 2012. A prefeitura esclareceu que está “finalizando o modelo de operação para atender à comunidade”. Imagina nas Olimpíadas.

O alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, chegou ao Rio no dia da pane na SuperVia. “O que está acontecendo no Rio?”, perguntou. Bach confia que, “se cada dia for utilizado adequadamente, tudo estará pronto” antes dos Jogos.

Nem é preciso imaginar o que vai acontecer na Copa. A gente já sabe. A criatividade anda solta. Aeroporto do Cea­rá poderá ter terminal de lona. O país do circo arrasa! Esqueça 2014, porque os prazos foram para o beleléu. Pense em 2016. Imagina nas Olimpíadas. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Brasil tem maior número de fusões e aquisições em 11 anos, Gabriela Vieira, Estadão

O mercado de fusões e aquisições (M&A) encerrou 2013 com um total de 811 transações, uma alta de 5,2% na comparação com as 771 operações observadas em 2012, aponta relatório da consultoria PwC. O número de fusões e aquisições é o maior registrado desde 2002.
Do total de operações anunciadas em 2013, apenas 35,9% (291) tiveram o valor divulgado, movimentando US$ 88,1 bilhões. As transações de até US$ 100 milhões concentraram 68,4% dos negócios com valores anunciados.
Apenas treze operações atingiram um valor de compra acima de US$ 1 bilhão e somaram, juntas, US$ 55,2 bilhões.
De acordo com o levantamento, em 2013 os fundos de private equity tiveram uma participação recorde no mercado nacional de M&A. Os fundos estiveram presentes em 380 operações, o que representa 47% do total. A PwC também destacou o apetite dos investidores estrangeiros, especialmente nos segmentos de consumo e logística e distribuição. Eles participaram de 44% das transações de 2013 contra 41% em 2012. Segundo a consultoria, a tendência observada nos últimos anos é justamente de uma diminuição da participação dos investidores brasileiros.

O setor de serviços auxiliares foi o que concentrou o maior número de fusões e aquisições, com 121 operações. Em seguida, TI e Varejo somaram 105 e 85 transações, respectivamente. No relatório, a consultoria avaliou que "a atividade de fusões e aquisições no País continua sendo multissetorial e consolidadora". As aquisições de participações majoritárias representaram 54,6% do total de operações em 2013.

Ponta do iceberg na Defesa, por Carlos Tautz

Só depois da repercussão negativa na imprensa (inclusive aqui no blog), o Ministro da Defesa Celso Amorim suspendeu a aplicação do manual de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que ele mesmo assinara e fizera publicar no Diário Oficial da União em 20 de dezembro de 2013.
O manual receitava, quando do emprego das forças armadas contra civis brasileiros, censura à imprensa, repressão a tudo e todos que os militares entendessem como ameaça à ordem e, para lembrar que a Doutrina de Segurança Nacional de Golbery continua viva, terminava com uma ameaça de significado explícito: “fizemos ontem, faremos sempre”. Tudo isso a menos de três meses de se completarem 50 anos do golpe empresarial-militar de 64.
Como até as tragédias possuem algo de bom, também esse episódio tem um lado novidadeiro: um ministro de Estado percebe a besteira que cometeu e promete voltar atrás, divulgando um novo manual ainda nesta semana. Mas, o lado positivo desse imbróglio termina aí. Ele revela como resiste nas forças armadas a ideologia do “inimigo interno”, o que justificaria, na visão dos generais, a supressão violenta de todas as liberdades do próprio povo brasileiro.

                
                        Celso Amorim, Ministro da Defesa. Foto: Wilson Dias / ABr

Permanecem, porém, outras dúvidas. Amorim discorda mesmo dessa visão repressiva ou decidiu rever o manual apenas porque foi exposto à opinião pública? Se concorda, ele expressa a opinião de sua chefe, a presidenta Dilma? Foi apenas coincidência o manual entrar em vigor no ano do meio século do golpe, da Copa superfaturada pelo conluio governo-Fifa e das eleições presidenciais? E, por fim: até quando as forças armadas serão um estado dentro do Estado, com objetivos, raio de atuação e meios de operação independentes de qualquer controle democrático?
Aliás, urge que esse controle se estenda aos negócios em que se envolvem Aeronáutica, Exército e Marinha. Se hoje eles carecem de transparência, um mal aprofundado durante a ditadura que privilegiou corporações nacionais e multinacionais, a perspectiva no curto prazo é que se radicalize a falta de informações sobre quanto, como, porquê, quando e com quem gastam as forças armadas.
À medida que cresce a economia brasileira, também aumentam as escalas e a obscuridade em torno dos gastos militares, como o comprovam, por exemplo, os bilhões da compra dos 36 caças Gripen (com opção para mais 100) e a contratação, sem licitação, da Odebrecht para construir o casco do submarino atômico em Itaguaí (RJ).
Episódios como o do manual são pontas de um imenso iceberg. Só acabam suscitando várias outras questões, como a da falta de transparência, justamente porque tudo que diz respeito a forças armadas no Brasil permanece, em pleno século 21, isolado do avanço da democracia, independentemente do partido que governa o País.
Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas.

Dilma diz que pagou jantar do próprio bolso e pode ir aonde quiser, Catarina Alencastro, O Globo


Pela primeira vez depois de surgir a polêmica sobre a escala da comitiva presidencial em Lisboa, Portugal, fora da agenda oficial, a presidente Dilma Rousseff se pronunciou sobre o caso, nesta terça-feira, em Cuba. A presidente destacou que era preciso fazer uma parada e que por causa de nevasca nos Estados Unidos, foi escolhida Lisboa.
Sobre o jantar no restaurante Eleven, um dos mais caros da capital portuguesa, Dilma reforçou que pagou do seu bolso e que por isso podia ir aonde quisesse. A presidente participa hoje da abertura da 2ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).
Segundo a presidente, o cartão corporativo não foi usado para pagar o jantar. Dilma disse ainda que “dá o exemplo” e não usa cartões bancados pelo governo.


         
                   Dilma e o chef Joachim Koerper, que postou foto no facebook

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— No que se refere a restaurante, eu quero avisar pra vocês o seguinte: é exigência para todos os ministros, e eu só faço exigência que eu também exijo de mim, que quem jantar ou almoçar comigo pague a sua conta. Já houve casos chatos. No dia do meu aniversário porque a conta foi um pouquinho alta e tinha gente, que eu não vou dizer quem, que tava acostumado que seria um pagamento do governo. No meu aniversário eu paguei a minha parte porque é assim que eu lido com isso — disse.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O que o PT fala do PT, por Ricardo Noblat

É a primeira vez que um dirigente do PT, ocupando cargo no governo, compartilha com o distinto público suas críticas ao partido e também ao governo.
A arrogância tem sido a marca forte do PT desde que chegou com Lula ao poder federal em 2002.
O escândalo do mensalão abalou, sim, a blindagem do partido. A proximidade de eleições gerais e as incertezas da economia aconselham que ele banque o humilde.
Na última sexta-feira, em Porto Alegre, durante palestra no Fórum Social Temático, o secretário-geral da presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, disse que o modelo responsável por levar o PT ao poder exibe sinais preocupantes de desgaste.

                            
                                      Gilberto Carvalho, secretário-geral da presidência da República.-  Foto: Richard Casas

É necessário, segundo ele, debater as características de um novo projeto de governo capaz de ir além de temas “como inclusão social e distribuição de renda”.
Nada muito diferente do que pensam nomes de peso do PSDB, o partido que governou o país nos oito anos que antecederam à ascensão do PT.
No primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, desembrulhou-se o Plano Real, a inflação de mais de 80% ao mês do governo Sarney acabou manietada e a renda distribuída como em ralas ocasiões.
A inclusão social começou verdadeiramente ali. Ou ali deu um salto.
“Neste momento, nos damos conta que as conquistas importantes que tivemos estão dadas. Foram importantes, mas absolutamente insuficientes. Tivemos um processo de inclusão social inegável e devemos nos orgulhar disso. Mas temos que reconhecer que foi absolutamente insuficiente”, desabafou Gilberto para uma plateia de esquerda, a maior parte dela do PT, que não gostou nem um pouco do que ouviu.
“A corrida veloz para o consumo não foi acompanhada de um grande debate em torno de outros valores”, observou a propósito das manifestações de rua de junho último. “Satisfeita a demanda, a exigência passou a ser por serviços de qualidade”.
O governo foi pego de surpresa. Seu sentimento, “de certa dor e incompreensão. (...) Fizemos tanto por essa gente e ela agora se levanta contra nós”? A oposição concorda.
Gilberto é devoto de Lula desde que se aproximou dele nos anos 80. Lula, então, era um líder sindical. Fundaria o PT em seguida.
Em 2002, Gilberto foi seu chefe de gabinete na campanha para presidente. Uma vez no governo na condição de assessor direto e conselheiro, suportou seus palavrões e maus modos. Continua suportando. Viu Lula deixar companheiros pelo meio do caminho. Sobreviveu.
O que faz ou diz nunca está em desacordo com o que Lula pensa e não diz. Porque não é conveniente que diga.
Como outros dirigentes do PT, torce em silêncio pela volta de Lula, este ano ou em 2018. E para que tal ocorra, serve à Dilma sem traí-la.
Ela subiria nas tamancas se fosse diferente. Dilma tem fama de dizer palavrões e de destratar com frequência quem trabalha com ela. Merecida fama.
Ao criticar o PT e o governo, Gilberto antecipa parte do discurso da oposição na campanha deste ano com a esperança de esvaziá-lo.
Discursos parecidos favorece um governo bem avaliado por mais de 40% da população.
Se a oposição pouco ou nada tiver para oferecer de olho no futuro, a eleição será liquidada no primeiro turno. Que vá para o segundo turno como as eleições de 2002, 2006 e 2010. O governo vencerá.
Mais de 60% dos brasileiros querem mudanças, apontou o Datafolha.
Fica a pergunta que vale milhões de dólares: Mudanças com Dilma e o PT ou sem eles? Com Lula ou sem ele?
Comentario meu---Ora falar, falar eu tambem falo, ha anos. Mas nao me comprometi come esse ex-padre e conivente, sabujo que `joga verde pra colher maduro`como sempre desde a fundacao,que sempre buscou atraves do Partido o que nunca conseguiria por MERITO proprio.
Como varios outros, hoje enredados ou nao--dentre os quais ìnocentes`.......mas nem tanto.

Cartas de Londres: A privacidade em tempos modernos, Beatriz Portugal


A Inglaterra se prepara para enfrentar mais uma mudança no que pode ser chamado de configuração de privacidade do cidadão. Parece algo mais relacionado com as redes sociais, mas o alvo das críticas dessa vez é o serviço nacional de saúde (NHS) depois que o governo anunciou que irá disponibilizar para venda dados de pacientes do NHS.
As informações, colhidas de clínicos gerais e registros hospitalares, incluirão condições de saúde física e mental e informações como data de nascimento, etnia, sexo, código postal e o número de registro do paciente junto ao NHS.
Tudo isso estará a venda a partir de março quando, pela primeira vez desde a criação do NHS, todos os dados médicos da população serão digitalizados e armazenados em um lugar só.
Quem é a favor diz que o compartilhamento facilitará avanços médicos ao permitir que pesquisadores investiguem efeitos colaterais de drogas e rastreiem o desempenho de hospitais, além de ajudar no monitoramento e combate de epidemias.

             

Já outros dizem que a decisão do governo é uma “ameaça sem precedentes” ao princípio do sigilo médico e que o público não terá como saber quem tem acesso aos seus prontuários médicos ou como seus dados serão usados já que atualmente não há quaisquer restrições quanto ao que empresas poderão fazer com as informações compradas, inclusive revender.
O maior problema é que além de universidades, empresas farmacêuticas e de seguros também terão acesso ao novo banco de dados. E o fato é que apesar dos dados vendidos não conterem identificadores óbvios como nome e endereço, há identificadores suficientes para que as informações não sejam completamente anônimas.
Quem quiser se dar ao trabalho de cruzar dados de diferentes fontes, como o registro eleitoral, não terá muita dificuldade em identificar pacientes. Talvez até surjam empreendedores que oferecerão o serviço de combinar nomes e registros médicos.
Outro problema é que médicos não terão que avisar seus pacientes sobre a mudança e quem não quiser que seus dados sejam disponibilizados para venda precisará optar por isso através de seu clínico geral.
Não há nada de errado com a existência de um banco de dados que ajude no progresso científico, mas o sistema deveria contar com uma opção clara onde é necessário que cada um dê o seu consentimento ao invés de assumir que todos os cidadãos são a princípio cobaias para pesquisa.
Com o comportamento atual do governo não é difícil imaginar um cenário futuro onde não se poderá nem optar pela privacidade médica e onde empresas checarão o status de saúde de empregados em potencial.
Se não se pode confiar que o que se diz ao médico será mantido em sigilo, será que pacientes não começarão a reter informação ou até mesmo não consultar médicos, colocando não só a sua própria saúde, mas a saúde pública em risco?

Beatriz Portugal é jornalista. Depois de viver em Brasília, São Paulo e Washington, fez um mestrado em literatura na Universidade de Londres e resolveu ficar.

São Paulo, por Elton Simões

Quando me entendi por gente, garoa não havia mais. Os adultos falavam de um tempo em que, na cidade espremida entre três rios, caia uma fina garoa. Explicavam que, até alguns anos antes, a população ainda se banhava nos rios.
Já conheci a cidade, sem garoa e sem o verde. A fumaça já subia apagando as estrelas. O clima já enganava. O ar, por vezes já era pesado. A poesia já era concreta.
Os mais velhos falavam da chegada dos italianos, dos japoneses, do crescimento, da população. Descreviam o mosaico de pessoas e culturas que de alguma forma se amalgamavam em um todo mais ou menos harmônico.
A vida seguia. Chegava gente de todo lado. De caminhão, chegava gente despossuída a procura de um lar. Pobre. Tão pobre que seus poucos pertences vinham embrulhados em uma trouxa de pano de um branco, pelo menos em minha memoria talvez distorcida, imaculado.
Na escola, os colegas também acabavam de chegar de alguma outra cidade ou país. Ou eram filhos de pais que, vindos de outros lugares, ali haviam se estabelecido. Vinham do interior, do nordeste, do Oriente Médio, da Europa, do Japão, do Chile, do Uruguai, da Argentina, enfim, de toda parte.

                   

A todos, a cidade acolhia. Sem distinção, ou preconceito. Apenas a aceitação que permitia a cada um rondar a cidade a procurar uma vida melhor para si e para os seus. No cinza dos prédios nascia uma das maiores cidades do mundo. Feia, sem duvida. Mas atraente.
Amor por São Paulo parece ser coisa inexistente. Raramente proclamado. Frequentemente negado. Nunca declarado. Considerado por alguma coisa impossível. Quase uma heresia, ou pecado. É amor não confessado em voz alta, ou a luz do dia.
A injusta sentença dura é sempre desmentida pela decisão dos milhões de pessoas que chamam a cidade de lar. Que ali criam raízes e, não importa onde estejam, levam um pouco da cidade no coração.
Com generosidade, a cidade a todos perdoa e compreende. Absorve, sem rancor, as criticas e queixas. E reserva um lugar especial no coração para os milhões de pessoas que lá chegaram, nasceram, ou escolheram ser paulistanos.
São Paulo desmente o dicionário. O titulo de paulistano não requer exibição de certidão de nascimento. Paulistano é aquele que aceita e ama a cidade. Ainda que este amor seja secreto, enrustido, negado, ou envergonhado.
Ser paulistano é um sentimento que todos, sejam eles corintianos, flamenguistas, são-paulinos, palmeirenses, santistas, libaneses, italianos, cariocas, mineiros, e até baianos podem curtir.
Numa boa.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

NSA usa aplicativos em smartphones para obter dados de usuários, Estadão

Documentos secretos fornecidos pelo ex-agente de inteligência americano Edward Snowden indicam que a Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, na sigla em inglês) tem fortes aliados nos aplicativos Angry Birds (foto abaixo) e outros programas instalados em smartphones por todo o mundo.


                    
Softwares de mapas, jogos e redes sociais - comuns em cerca de 1 bilhão de aparelhos de telefone com acesso à internet - alimentam com informações como localização, idade, sexo e outros dados pessoais as inteligências americana e britânica, por meio da Sede de Comunicações do Governo (GCHQ, na sigla em inglês), de acordo com Snowden. Os documentos foram publicados na segunda-feira, 27, pelo jornal americano The New York Times, pelo diário britânico The Guardian e pela agência de notícias ProPublica.
O tamanho e a abrangência do programa de espionagem por meio de aplicativos de smartphones não foi estabelecido pelas novas informações divulgadas por Snowden, mas os documentos revelados indicam que as inteligências americana e britânica acessam facilmente dados dos usuários dos aplicativos da franquia Angry Birds e do serviço de navegação Google Maps.
As agências de espionagem americana e britânica têm trabalhado conjuntamente nos métodos para coletar e armazenar dados de aplicativos desde 2007, assim como dos metadados telefônicos registrados nos aparelhos com acesso à internet.
A partir daquele ano, NSA e a GCHC começaram a trocar receitas para, além de obter localizações e trajetos de quem espionavam, vasculhar seus catálogos de telefones, listas de amigos, registros de chamadas e dados geográficos atribuídos a fotos - principalmente nos softwares móveis de redes sociais e microblogs como Facebook, Flickr, LinkedIn e Twitter. "A NSA não traça o perfil de americanos comuns enquanto opera sua missão de inteligência externa", respondeu a agência americana ao ser questionada sobre o programa, afirmando que esse monitoramento no exterior é "legal" e protege a privacidade de cidadãos americanos, assim como de "estrangeiros inocentes".
A espionagem britânica recusou-se a comentar qualquer detalhe do programa, mas afirmou que suas atividades estão de acordo com a legislação de seu país. A Rovio, empresa finlandesa criadora dos Angry Birds - que foi criticada em 2012 após denúncias de que os aplicativos forneciam dados dos usuários para agências de publicidade -, declarou que não coleta dados de ninguém com menos de 13 anos. / AP e NYT

Governo Kirchner trava dólar e culpa bancos, Janaína Figueiredo, O Globo

Em meio a fortes reajustes de preços no mercado interno - de até 30% nos últimos dias - e um clima de paralisia na indústria nacional, efeitos imediatos da maxidesvalorização sofrida pelo peso argentino na semana passada, a Casa Rosada anunciou nesta segunda-feira que os argentinos registrados na Afip (a Receita Federal local) poderão comprar até US$ 2 mil mensais para poupança, se estiverem com os impostos em dia e ganharem pelo menos 7.200 pesos por mês, o equivalente a dois salários mínimos locais. O governo culpou os bancos pela situação do país.
No primeiro dia de flexibilização do câmbio (a aquisição de dólares para poupar foi proibida em meados de 2012), o número de operações foi mínimo, já que o sistema da Afip ainda não está funcionando normalmente. O dólar oficial se manteve estável em 8,010 pesos e o paralelo chegou a 12,25 pesos nas poucas “cavernas” (casas de câmbio) do centro portenho que trabalharam.
              Incerteza. Muitas lojas em Buenos Aires decidiram suspender as vendas, enquanto esperam definição de preços com fornecedores Foto: Victor R. Caivano / VICTOR CAIVANO/AP
Incerteza. Muitas lojas em Buenos Aires decidiram suspender as vendas, enquanto esperam definição de preços com fornecedores 
  Victor R. Caivano / VICTOR CAIVANO/AP
‘Duríssimos no controle de preços’
Enquanto espera a estabilização do mercado cambial, depois da disparada do dólar oficial de 6,84 pesos para 8,015 pesos na semana passada, a maior desvalorização desde março de 2002, o governo Kirchner redobrou sua ofensiva para conter a escalada de preços no país.
- O comerciante que justificar um aumento por uma desvalorização de 16% estará mentindo e roubando, porque o conteúdo de importados de nossa economia é de 30% - declarou o ministro da Economia, Axel Kicillof.
Segundo ele, “o efeito da desvalorização sobre preços e salários não é linear”.
- Seremos duríssimos nas políticas de controle de preços. Vamos exigir que ninguém minta e roube as pessoas, porque a maioria dos preços na Argentina não depende da cotação do dólar - enfatizou.
O governo informou, ainda, que as compras de dólares serão taxadas em 20%, a menos que o comprador destine o dinheiro a um depósito a prazo fixo, de um ano. As aquisições de moeda americana deverão ser autorizadas pela Afip e só poderão ser pagas através de uma transferência bancária. Economistas locais, contudo, estimaram que apenas 25% dos assalariados argentinos estão habilitados a solicitar dólares à Receita.

Cristina acusa bancos de especulação
Depois de manter silêncio durante a corrida ao dólar da semana passada, nesta segunda a presidente Cristina Kirchner acusou os bancos de realizarem “manobras especulativas nos mercados”. Por meio de sua conta no Twitter, a chefe de Estado, que está em Cuba para participar da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac), assegurou que “somente através dos bancos podem ser realizadas todas as manobras especulativas nos mercados”.
No mesmo dia em que o governo anunciou os detalhes para a implementação de medidas de flexibilização do câmbio, a presidente afirmou que “parece que alguns querem nos fazer comer sopa de novo, mas além disso com garfo. Quem? Os mesmos de sempre”. Cristina, que domingo passado disse ter conversado sobre o assunto com o ex-presidente cubano Fidel Castro, completou a frase acusando diretamente os bancos: “Os que ficaram com tuas economias em 2001 e nós tivemos de pagar, com o Boden (bônus da dívida pública argentina) 2012.”.
O sucesso das medidas lançadas na sexta-feira passada ainda não está claro. Na visão da economista Marina Dal Poggetto, diretora da empresa de consultoria Bein e Associados, “a corrida ao dólar deveria ser contida se o sistema funcionasse corretamente, mas a disparada da inflação dependerá de uma queda de braço entre empresários e o governo”.
- Neste momento muitos industriais e comerciantes preferem estocar do que vender. Os que vendem, aumentam preços. A normalização da economia dependerá da política e das expectativas - disse Marina.
Para ela, a Argentina está vivendo uma clássica combinação de “desvalorização e aumento de juros”. Nesta segunda, o Banco Central da República Argentina (BCRA) elevou as taxas de juros do país, em média, de 20% para 25%, no caso dos depósitos a prazo fixo em pesos. No esforço de segurar a cotação da moeda americana, a autoridade monetária também injetou no mercado cerca de US$ 100 milhões.
- O mercado ainda está à espera dos resultados. O que está claro é que a atividade econômica sofrerá uma queda, principalmente a produção de automóveis, eletrodomésticos e outros bens que dependem de insumos importados - explicou a economista.
A ausência de um índice confiável de inflação, segundo o professor do Instituto de Economia da UFRJ Luiz Carlos Prado, é um dos principais problemas da economia argentina. Ele lembra que isso ocorreu depois da intervenção de Néstor Kirchner no Indec (o IBGE argentino) e que mesmo os índices não-oficiais não refletem exatamente a situação dos preços.
- Isso cria uma insegurança muito grande e dificulta o controle da inflação. Como o médico vai tratar a doença se os instrumentos de diagnóstico são afetados? - pergunta Prado, citando, ainda, a tentativa frustrada do governo de contar os preços de serviços administrados como outro erro da política econômica. - A quantidade de erros da política econômica argentina é tão grande que é difícil resumir.

População está pessimista
O deputado Sergio Massa, ex-chefe de gabinete de Cristina, assegurou que “os mais prejudicados pelas novas medidas serão a classe média, os aposentados e trabalhadores”. O governo está ciente dos riscos e ameaçou nesta segunda abrir a importação de produtos que sofram expressivos reajustes no mercado interno.
- O setor que não acompanhar (as medidas do governo) enfrentará a urgente abertura de importações - avisou o chefe de gabinete, Jorge Capitanich.
O plano de Kicillof, porém, não despertou confiança entre a maioria dos argentinos, de acordo com pesquisa divulgada nesta segunda pelo site Infobae: 72% dos entrevistados acreditam que a gestão do ministro continuará igual ou piorará nos próximos meses. Para 47,4%, as políticas aplicadas pelo jovem ministro (de apenas 42 anos) são ruins. Somente 23,5% dos entrevistados as consideraram boas. A mesma sondagem mostrou, ainda, que 49,5% dos argentinos acham que a situação do país vai se deteriorar este ano e 77% consideram que a atual situação econômica é negativa. (Com Lucianne Carneiro e agências internacionais)

80% dos brasileiros não controlam suas finanças, Márcia de Chiara, Estadão


Apesar do recuo da inadimplência para níveis históricos, o brasileiro ainda tem pouco conhecimento sobre as suas finanças, independentemente do estrato social.
Oito em cada dez entrevistados não sabem como controlar as despesas, revela uma pesquisa nacional feita em dezembro com cerca de 650 pessoas pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).


               
A enquete mostra que apenas 18% dos entrevistados têm bom conhecimento sobre as finanças pessoais. A economista do SPC Brasil, Luiza Rodrigues, destaca que esse resultado praticamente se repete para todos os estratos sociais. Em 84% dos domicílios com renda mensal de até R$ 1.330, o chefe da família tem parcial ou nenhum conhecimento sobre as finanças da casa. Essa fatia cai para 86% no caso das famílias com rendimentos entre R$ 1.331 e R$ 3.140 e recua para 76% para aquelas com receita acima de R$ 3.141. Mas ainda é um porcentual alto.
"O consumidor adulto se mostra muito pouco preparado em relação às finanças pessoais", afirma Luiza. A economista ressalta que há uma relação direta entre saldo negativo na conta corrente e o baixo conhecimento financeiro. Quase 70% daqueles que têm baixo ou nenhum conhecimento sobre as finanças pessoais terminam o mês no vermelho ou no zero a zero na sua conta corrente. Esse resultado recua para 29% para aqueles que acompanham as suas receitas e despesas.
Descontrole. Um dado que chamou a atenção é que mais de um terço dos entrevistados (36%) sabiam um pouco ou nada sabiam sobre as contas regulares que deveriam pagar este mês, com resultados muito parecidos para as três faixas de renda analisadas. No caso das despesas extras de início de ano, mais da metade (57%) não sabia exatamente quanto deveria gastar a mais. Há também falta de conhecimento do lado das receitas, com 40% dos entrevistados declarando não ter informações exatas sobre a renda.
A principal dificuldade apontada pelos consumidores de todas as classes sociais para controlar as finanças pessoais foi a disciplina para registrar gastos e receitas com regularidade, com 39%. Mas fazer contas é tido como um problema para 6% dos entrevistados. Esse resultado dobra (12%) no caso do estrato com menor renda.
Fôlego. Além da falta de controle das despesas e receitas, outras informações relevantes reveladas pela pesquisa são o ímpeto do consumidor para ir às compras e a falta de fôlego financeiro: 38% dos entrevistados informaram que às vezes, ou nunca, avaliam a sua situação financeira antes de adquirir um bem.
A falta de reservas financeiras é nítida quando se avalia que mais da metade (55%) dos entrevistados não conseguiria se manter por mais de três meses em situação de dificuldade. "Como o tempo de recolocação no mercado de trabalho é de sete meses, esse resultado é preocupante, se houver um tropeço no emprego", diz a economista.
A escassez de controle dos brasileiros sobre as suas finanças ocorre num momento em que os índices de inadimplências registram baixas históricas. Na avaliação de Luiza, esse cenário não é contraditório com a falta de rigor nas finanças pessoais porque o principal fator, na sua opinião, que levou ao recuo do calote foi a cautela do sistema financeiro na aprovação de novos créditos.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

'Lisboa e Tejo e tudo', por Maria Helena RR de Sousa

Como é possível que uma senhora que já não é mais criança, ocupante do mais alto cargo de uma Nação cheia de problemas, se comporte como uma Maria-Chuteira que não sabe mais nem em quê gastar de tanto que seu marido ganha?
À menina que sai da periferia de qualquer de nossas cidades e vai parar em Barcelona ou Madrid e fica extasiada com as purpurinas de sua nova vida, dá-se um desconto: é natural que queira pavonear-se para os da sua turma.
Mas dona Dilma ir se exibir em Lisboa e nos fazer passar pelo vexame de mostrar que no fundo ainda somos os mesmos tupinambás boquiabertos com os espelhos e as miçangas?
Será que ela porventura acha que os grandes empresários do mundo não vão pôr num prato da balança a estadista e seu discurso em Davos e no outro a deslumbrada sem limites?
Será que ela por um átimo de segundo achou que esse piquenique às margens do Tejo ia passar despercebido e que não ia ser comparado com o rastilho de pólvora que começa a unir nossas cidades?
                                                                                                   Carlos Botelho (óleo)
Eu mesma respondo. Acho que ela está convencida que nós, os trouxas absolutos, não faremos nada e que ela, retroalimentada pelo PT e seu dono, pode mesmo tudo e que nada de mau lhe acontecerá, a não ser a reeleição e aí...
Bem, aí entra a Carta do Leitor de O Globo, que copio:
Estou cansado de ver oportunistas manipularem pessoas, usando a religião e a política para ganhar dinheiro fácil e poder. De ver tantas mortes e acidentes em estradas esburacadas, perigosas e mal conservadas. De ver políticos jogando pretos contra brancos, empregados contra patrões, pobres contra ricos, incentivando o preconceito e botando lenha na fogueira da luta de classes. De ver ministérios inúteis, criados para acomodar companheiros, no esquema do toma lá dá cá. Estou cansado da carga tributária de 37,5% do PIB, uma das mais altas do mundo, com quase nenhum retorno. De ter medo de sair à rua, apavorado com bala perdida, assalto e arrastões. Do trânsito e do transporte público sempre infernais. De ver políticos e governantes zombarem da nossa inteligência. Da educação cada vez mais desvalorizada. Estou cansado de muitas coisas, mas, principalmente, de ver a mediocridade tomando conta do país. Rubem Paes, Niterói, RJ”.
                                               
É carta que seria assinada por mim e por muita e muita gente. Perfeita. E com o timbre da Verdade.
Eu só acrescentaria uma linha depois de olhar detidamente a foto-testemunha do ‘rolézinho’ às margens do Tejo: precisavam sair carregando a mercadoria?
*O título, já se sabe, é do poema Lisbon Revisited (1926), Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora e tradutora

domingo, 26 de janeiro de 2014

Mercadante ou José Dirceu 2.0, por Elio Gaspari

A escolha do senador Aloizio Mercadante para a chefia da Casa Civil é um luminoso indicador do que é o governo da doutora Dilma e, sobretudo, do que virá a ser.Desde que o PT entrou no Planalto, esse cargo foi ocupado por dois comissários (José Dirceu e Antonio Palocci), dois quadros de perfil técnico (ela e Erenice Guerra), mais Gleisi Hoffmann, que teve um desempenho híbrido.
Dos cinco, um está na Papuda e dois deixaram as funções no tapete manchado dos escândalos.
Mercadante será o terceiro comissário. Não tem as mesmas bases que Dirceu teve na burocracia partidária, nem as conexões de Palocci na plutocracia, apesar de buscá-las em cordiais jantares paulistas.
Como Dirceu e Palocci, foi um dos fundadores do partido. Como os dois, teve sua carreira tisnada por uma operação que Lula classificou, sem se referir a ele, como obra de “aloprados”.

                    
                                    Aloizio Mercadante. Foto: Agência Brasil
Na reta final de sua campanha pelo governo de São Paulo, em 2006, dois militantes petistas foram presos mercadejando dossiês. Um deles carregava R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo. O Supremo Tribunal Federal absolveu Mercadante de qualquer relação com o caso.
Nomeado para os ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação pela doutora Dilma, mostrou uma opção preferencial por projetos fantásticos, felizmente adormecidos.
Por exemplo: um laboratório de pesquisas oceânicas em alto mar, ou a reciclagem de um plano delirante de Fernando Haddad, que pretendia comprar 600 mil tablets para alunos de escolas públicas, que Mercadante redirecionou para professores.
(Em 2004, a Casa Civil de José Dirceu operava 36 grupos de trabalho e ele coordenava 16, inclusive um para tratar de hip hop.)
Como estrategista político, Mercadante fez parte do conclave de comissários que conceberam uma resposta do governo às manifestações de julho do ano passado. Propunha uma Constituinte exclusiva e um plebiscito para desenhar uma reforma política.
Esse caos se desarticulou em três dias. Havia ainda uma proposta de cinco pactos. Um deles previa a abertura de mais vagas nos cursos de Medicina. Mercadante deixa o Ministério da Educação enquanto a doutora vai a Cuba negociar a vinda de mais dois mil médicos e o Rio arrisca perder a maior faculdade (decadente) do país, com 2,4 mil alunos.
A grande virada do governo de Lula se deu quando ele trocou José Dirceu por Dilma Rousseff, pondo ordem na administração e mantendo-a parcialmente ao largo do troca-troca.
Agora, deu-se o contrário, abrindo-se mais espaço para o projeto partidário. Foram muitos os enganos de José Dirceu. Talvez o maior deles tenha sido a ideia de que a Casa Civil poderia ser sua plataforma para chegar à Presidência da República.
Elio Gaspari é jornalista.

Empresas ignoram acordos e decisões judiciais--O GLOBO

Em um ano, Ministério Público recebeu de consumidores mais de 400 denúncias de descumprimentos
               
Consumidores podem fazer denúncias sobre descumprimentos pelo site do TJRJ
Foto: SXC.hu
                       Consumidores podem fazer denúncias sobre descumprimentos pelo site do TJRJ SXC.hu
Em pouco mais de um ano de existência, o portal Consumidor Vencedor recebeu 432 denúncias sobre descumprimentos pelas empresas de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) e decisões judiciais que defendem direitos coletivos de consumidores. Relatos que levaram o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) — que criou o site para divulgar vitórias obtidas na Justiça e os acordos firmados por meio de TACs — a multar uma das empresas, por exemplo, em mais de R$ 500 mil. Para mostrar quais companhias mais desrespeitam os acordos, o MP realizou um levantamento exclusivo para O GLOBO sobre os relatos mais recorrentes encaminhados pelos consumidores.
No topo da lista está a loja virtual Compra Fácil, com 120 denúncias, a maioria dos relatos sobre desrespeito a uma determinação da Justiça. Ela é seguida pela Apetrexo.com (13 denúncias), Metrô Rio (12), Terra Networks (9) e Royal Holidays Negócios Turísticos e Ricardo Eletro (ambas com oito). Segundo o MP, as denúncias sobre descumprimentos são fundamentais para que o órgão possa agir pedindo explicações à empresa e aplicação de multa, se confirmado o desrespeito.

MP investiga denúncias
— Este volume de denúncias mostra que estamos atingindo nosso objetivo, que é conscientizar o consumidor sobre a importância de estar bem informado e atuar junto aos órgãos de defesa, pois não há agente melhor capacitado para fazer denúncias do que ele — avalia Christiane Cavassa, coordenadora do Centro de Apoio das Promotorias de Defesa do Consumidor do MPRJ.
A denúncia deve ser feita no portal, a partir do preenchimento de um formulário que pode ser acessado junto à decisão em questão. A partir do relato, o MP checa se a denúncia procede. Em caso positivo, notifica a empresa, pede explicações e até aplicação de multa à Justiça.
— Quanto mais documentos, fotos e vídeos o consumidor anexar à denúncia, mais rápida será a ação do MP, tendo em vista que eles já podem ser suficientes para comprovar o descumprimento, e não precisaremos realizar diligências — ressalta Christiane.
As denúncias contra a Compra Fácil dizem respeito ao descumprimento de uma determinação da Justiça que obriga a loja a cumprir o prazo de entrega dos produtos comprados no site. Os relatos resultaram na aplicação de multa de R$ 562 mil à empresa, a pedido do MP.
Por meio do portal também é possível denunciar problemas no serviço de transporte da SuperVia, como o ocorrido na manhã da última quarta-feira — quando um descarrilamento provocou a interrupção do serviço por cerca de 13 horas. Uma decisão judicial, de 2009, obriga a empresa a resolver todos os problemas técnicos decorrentes de panes e demais defeitos e adotar medidas de segurança adequadas, com equipes de resgate treinadas, quando as panes forem inevitáveis, sob pena de multa de R$ 300 mil. O MP encaminhará um dossiê à Justiça e o consumidor pode contribuir com denúncias.
— Todos que tiveram problemas com os trens na quarta-feira devem entrar em contato com o MP pelo portal ou pelo 127 da Ouvidoria — pede Christiane.

Brasileiro reclama pouco
Ao fazer uma denúncia no site do MP, o consumidor tem a opção de encaminhar a demanda também ao Procon Carioca, para que o caso seja tratado individualmente. Em pouco mais de um ano, o órgão já recebeu 112 reclamações via Consumidor Vencedor. De acordo com o subsecretário municipal de Defesa do Consumidor, Fábio Ferreira, 85% dos casos foram resolvidos:
— A denúncia tem uma grande serventia. Ao reclamar, além de ver o seu problema ser resolvido, como ocorre na maioria dos casos, isso resulta no cumprimento de uma conduta coletiva .
Desde outubro do ano passado, o portal também informa vitórias obtidas pelo Ministério Público de Minas Gerais. E em breve, a parceria será estendida a outros quatro estados (Espírito Santo, Maranhão, Tocantins e Goiás), além do Distrito Federal.
Na avaliação do presidente do Instituto Ibero-Brasileiro de Relacionamento com o Cliente (IBRC), Alexandre Diogo, a participação do consumidor na fiscalização deveria ser maior.
— Estamos acostumados a deixar para lá, por desconhecimento ou comodismo de achar que não vai melhorar. Também porque somos um país de classe C emergente, que ainda está deslumbrada com a possibilidade de consumir — avalia.
Segundo pesquisada realizada pelo IBRC, com consumidores de sete capitais, menos de um quinto (18%) dos pesquisados que responderam terem sido mal atendidos disse ter oficializado reclamação a respeito. E apenas um quarto deles (25%) declarou que não compraria mais naquele estabelecimento.
— Um banco de dados, como o criado pelo MP, deve ser usado pelas pessoas também para se informar sobre a reputação das empresas — afirma Diogo.

Empresas contestam
A Comprafacil preferiu não se pronunciar sobre as denúncias. O Metrô Rio afirmou cumprir o TAC e prestar esclarecimentos sempre que é notificado pelo MP. O Terra negou que tenha descumprido o acordo. A Royal Holiday informou ter contestado na Justiça a alegação sobre descumprimento de sentença e aguarda pronunciamento judicial. A Ricardo Eletro disse desconhecer a alegação de descumprimento de liminar, e que vem tomando as providências para atender às exigências feitas pelo MP. A Apetrexo.com não teve representante nem seu site foi localizado. A SuperVia informou que aguarda ser intimada para tomar as medidas necessárias
Comentario meu--antes a Lei era temida. Hoje até `transito em julgado`, que pode levar ANOS e ANOS, o abuso de e  o dinheiro sempre tem razao e ganham! Em primeiro lugar TEMPO. E a consequente deducao do I.Renda (provisoes SEMPRE deduzidas, beleza!).

Noruega reage à imigração com apoio à extrema-direita, Steven Erlanger, O Globo

Comentario meu---Farinha pouca...meu pirao primeiro! Leia abaixo.

O casal Lise e Kjetil Ulvestrand foi morar em Mortensrud, ao Sul de Oslo, por causa do aluguel mais barato, do espaço e da floresta. Ela trabalha com imigrantes no serviço social norueguês. Mas, com o aumento do número de imigrantes na cidade, incluindo muçulmanos, começou a se preocupar com a educação dos filhos.
— Os noruegueses nativos começaram a se mudar, então meus filhos estavam perdendo amigos. Descobrimos que, quando as crianças daqui completavam 5, 6 anos, todos se mudavam — contou.
Então a família voltou para Oslo, onde Lise cresceu:
— Me senti um pouco culpada. Não eram só os noruegueses, todos com recursos estavam indo embora.
As preocupações dos Ulvestrand são compartilhadas tanto por noruegueses mais à esquerda, como eles, como por muitos à direita. Em setembro, o Partido Conservador foi eleito após oito anos de governos trabalhistas.
Num país orgulhoso de sua sensibilidade social, o debate sobre imigração e seu impacto na identidade nacional e no sistema de bem-estar social tem crescido — e focado no Partido do Progresso, legenda anti-imigração que faz parte da coalizão de governo.


                                    
                              Um dos muitos imigrantes na Noruega - Foto: Janaína Lage
Perguntado sobre valores nacionais, uma das lideranças do partido, Ketil Solvik-Olsen, preferiu falar do desconforto de gente como os Ulvestrand.
— Algumas pessoas sentem que acordam de manhã e a velha vizinhança não existe mais. Estranhos chegam e você não entende o que eles falam.
Apesar de o Partido do Progresso adotar hoje uma retórica mais moderada, especialistas avaliam que a legenda continua ligada a outras menores e mais extremistas principalmente frente a muçulmanos.
Para a premier norueguesa, Erna Solberg, o debate público tem menos a ver com a crença ou a cor da pele, e mais com a falta de instrução e treinamento. O novo governo quer garantir, segundo ela, que “se ganhe sempre mais dinheiro trabalhando que não trabalhando”.
O sentimento de que o país dá dinheiro demais para desempregados e estrangeiros foi fator decisivo para a vitória conservadora nas urnas. Tore Bjorgo, que pesquisa a extrema-direita local, afirma que o Partido do Progresso é difícil de definir.
— É um partido democrático, com membros que são racistas e xenófobos e outros que não são — disse. — Mas tem elementos que remexem na lama sob a superfície da política, e o partido quer manter esses votos.
Para o antropólogo Thomas Hylland Eriksen, o impacto do massacre cometido em 2011 por Anders Breivik — ex-filiado ao Partido do Progresso — sobre a política norueguesa não se sustentou. — Logo depois do ataque, alguns esperaram que isso serviria como uma lembrança de que precisamos aceitar que vivemos em uma sociedade multicultural. No entanto, as dimensões políticas do atentado foram evitadas de forma consistente — lamentou.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Erosão dos emergentes baixa ânimos em Davos

Com o reforço das preocupações sobre a retirada de estímulos nos EUA, as ações dos emergentes tiveram o pior início de ano desde 2009

DAVOS - Em um almoço na quinta-feira, David Rubenstein, co-fundador do Carlyle Group, revelou a participantes do Fórum de Davos a sua maior preocupação: ninguém parecia estar preocupado com nada. Menos de 24 horas depois, a desvalorização do peso argentino acelerou a maior venda de ativos de países emergentes em cinco anos, enervando os presentes no evento.
— Não quero nem olhar — disse Daniel Loeb, bilionário que fundou o fundo de hedge Third Point.
Após encontros dominados pelo tema das crises — do Lehman Brothers à Grécia —, esta edição do fórum tinha começado a refletir o otimismo com as economias e a recuperação dos mercados de ações. O entusiasmo evaporou com o tumulto nos emergentes exacerbando os receios de que o crescimento global estancou.                                  
                                               A charge de Chico Caruso
                           
Com os sinais de desaceleração na China reforçando as preocupações sobre a retirada de estímulos nos EUA, as ações dos emergentes tiveram o pior início de ano desde 2009. O índice MSCI Emerging Markets caiu 1,5% na sexta-feira, acumulando perda de 5,3% no ano. A Argentina permitiu a desvalorização do peso para um patamar sem precedentes. A Turquia vendeu dólares para sustentar a lira, e o rand sul-africano caiu ao menor nível em cinco anos.
O presidente executivo do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, disse à Bloomberg TV que iria “esperar um pouco antes de dizer que há uma completa inversão” nos mercados, observando que eles estão passando por um ajuste após ter avançado tanto.
A retirada de estímulos pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), que até agora curava todos os males induzindo investidores a caçar retornos nos emergentes, obriga a uma reavaliação dos mercados. Com o corte nas compras mensais de US$ 85 bilhões em títulos, os gestores estão ajustando o foco nos fundamentos, punindo os que têm políticas fracas ou desequilíbrios, como grandes déficits. A mudança foi evidenciada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que divulgou novas projeções, mostrando que neste ano os emergentes superarão o avanço dos ricos com a menor margem de diferença desde 2001.
— Os investidores têm sido complacentes demais com os emergentes - disse Davide Serra, fundador da londrina Algebris Investments, em Davos.
- Em 12 a 18 meses, com as taxas em alta nos EUA, veremos quais emergentes estiveram nadando sem roupa.
Os investidores estão olhando principalmente para os chamados “cinco frágeis”: Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia. A China está lutando para conter o endividamento “nas sombras”, enquanto o Brasil tenta domar a inflação, alimentada pela desvalorização de sua moeda e gastos públicos altos. Uma investigação de corrupção embaraça o gabinete do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e protestos com vítimas fatais na Ucrânia e na Tailândia estão erodindo a confiança e sua estabilidade.
- Estamos numa era de volatilidade, e qualquer um que não veja isso está sendo complacente demais - disse Tim Adams, presidente do Instituto de Finanças Internacionais, com representantes em mais de 400 firmas financeiras, e ex-subsecretário para assuntos internacionais do Tesouro americano.
- A reavaliação dos riscos continuará.
Jesse Westbrook, Simon Kennedy e Elisa Martinuzzi (Bloomberg News)

Lula em cena, por Ruy Fabiano

Um dos temas da semana foi a reaparição de Lula no centro do poder – do qual, diga-se, jamais se afastou. Mas o simples fato de se ter exibido sem qualquer discrição, participando de reunião no Palácio da Alvorada com a presidente Dilma e alguns ministros, mostra que fazia questão de ser visto, no papel que exerce desde que transmitiu a faixa presidencial: o de tutor da presidente.
Não foi uma reunião qualquer. Durou cinco horas e, ao final, anunciou-se a troca de guarda na Casa Civil: saiu a senadora Gleisi Hoffmann, entrou o senador Aloizio Mercadante.
A saída de Gleisi estava prevista, já que deve se candidatar ao governo do Paraná. Mas a nomeação de Mercadante, que jamais se incluiu entre os favoritos de Dilma, é sinal de que Lula quer dar cunho mais político que administrativo à Casa Civil e quer se fazer mais presente na antessala da presidente.
Mercadante, assim como Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, é de seu staff pessoal. Com eles, Lula está agora no Palácio. A presença no encontro de Franklin Martins, que dá expediente no Instituto Lula, é outro sinal de que o presidente prepara-se para assumir papel mais ativo no governo, nesse período. É o PT no efetivo comando.

                   
                                Aloizio Mercadante, ministro e Lula, ex-presidente. 

As relações do partido com Dilma sempre foram meio esquizofrênicas. Dilma não é petista histórica. Sua carreira na administração pública começa no Rio Grande do Sul, pelas mãos de Leonel Brizola, que a filiou ao PDT. Seu ingresso no PT deu-se posteriormente, pelas mãos de Lula.
É uma história conhecida, no relato de Lula, que disse ter se impressionado quando a conheceu, admirando seu jeito afirmativo. Trouxe-a para seu governo, deu-lhe o importante cargo de ministra de Minas e Energia e, depois, na crise do Mensalão, que fulminou a carreira de José Dirceu, colocou-a na chefia da Casa Civil.

De lá, à revelia do partido, tornou-a candidata à sua sucessão. Dilma chegou ao Planalto pela vontade pessoal de Lula – e contra a do PT. No auge de sua popularidade, Lula dizia, nos palanques e no horário eleitoral, que, na cédula eleitoral, “onde se lê Dilma, leia-se Lula”. Deu certo, mas o PT não gostou.
Sentiu-se atropelado – e com razão. Em política, afinal, há fila – e Lula fez com que Dilma a furasse, caroneando alguns petistas históricos. Desde então, as relações entre a presidente e o partido jamais foram amenas. Idem com os aliados fisiológicos da base. Dilma teve que demitir, por denúncias de corrupção, nada menos que sete ministros nos seis meses iniciais de seu governo.
Ensaiou uma faxina, interrompida por Lula e pelo PT, em nome, claro, da governabilidade. Sempre que a barra pesa, Lula entra em cena. Agora, com a campanha eleitoral à vista, ele assume mais uma vez o papel de salvador da Pátria.

A economia vai mal, a insatisfação difusa que alimentou as manifestações de junho passado continua presente, o cenário internacional é nebuloso – enfim, Lula é necessário.
No PT, jamais extinguiu-se a esperança de que ele possa mesmo voltar a ser o candidato do PT. Ele próprio disse mais de uma vez que, quando chegassem as eleições, se Dilma não mostrasse competitividade, ele iria “pro sacrifício”.
Dilma, até aqui, tem liderado com folga as pesquisas. Mas isso pouco significa, na medida em que a população ainda não se deteve para pensar no assunto. Pesquisas precoces nada significam. Se significassem, José Serra teria sido eleito, pois liderou-as até uns quatro meses antes das eleições passadas.
Lula, portanto, continua peça-chave na política brasileira, goste-se ou não disso.
Ruy Fabiano é jornalista.

A Ciranda dos Incomuns, por Maria Helena RR de Sousa

Confesso que sou uma das que caíram no conto do incomum. Não que eu tenha por um segundo sequer aceitado a tese defendida por Lula de que a Sarney, por ser um brasileiro incomum, tudo seria permitido.
Não é por aí. O que acontece é que desde que um ouriço caiu de cima de um poste sobre a cabeça de uma senhora que passeava com seu cãozinho numa calçada da Gávea, bairro carioca urbanizado há muito mais de um século, fiquei encucada com o fato: um ouriço num poste na Gávea?
Logo em seguida, leio que um gavião causava tumulto voando nas ruas da Barra e que foi difícil capturar o predador. Como fã de histórias de mistério e suspense, comecei a achar que isso era um plano escalafobético contra o Rio.
Sensação que piorou quando na mesma tarde ouço sirenes de Bombeiros em frente ao meu prédio e quis saber onde era o incêndio. Que, graças a Deus, não era.
O que aconteceu foi que um macaco, atenção, não era um mico, era um macaco, se instalara numa árvore da Rua Conde de Bonfim, a principal rua do meu bairro. Seu comportamento deixava muito a desejar, o que fez com que alguns moradores da vizinhança chamassem os Bombeiros. Não acompanhei a retirada do visitante mas soube depois que ele deu muito trabalho.
Então me ocorreu que o Sarney não é incomum. Incomuns são os que aceitam numa cidade como o Rio ouriços, gaviões e macacos em suas ruas e em Brasília sempre os mesmos políticos no Poder Legislativo, como se isso fosse muito natural. Não é.

                

Incomum é ter um deputado condenado pelo STF com o mandato ainda em vigência e ver o vice-presidente da Casa defendendo que ele continue deputado, saindo para deputar de dia e voltando ao presídio à noite!
Incomum é saber que o convidado para Ministro da Saúde é investigado por improbidade administrativa pelo Ministério Público Estadual e ler que o Ministro que sai não comenta a investigação mas elogia o convidado, dizendo ‘Ele é de casa!’. Nunca o ministro Padilha fez comentário tão preciso.
Incomum é saber que um governador do Rio Grande do Sul foi condenado, em primeira instância, por improbidade administrativa.
Incomum é ver um ex-ministro da Defesa, um jurista, colaborar com a arrecadação de fundos para o pagamento da multa de um condenado pelo mesmo Supremo Tribunal Federal do qual ele foi presidente.
Incomum é o amapaense que escolheu para seu senador um senhor que mora em Brasília e passa férias na Praia do Calhau em São Luiz do Maranhão, uma localidade a meros 805 km em linha reta de sua heroica capital, Macapá.
Incomum o Sarney? Não. José Sarney, envergando um jaquetão e pintando os cabelos, conquistou o Maranhão como capitania hereditária onde sua família manda e sobretudo desmanda, e o Amapá como sede senatorial.
Sarney é o típico político brasileiro, comum até o ultimo fio dos bigodes. Incomuns somos nós, os eleitores.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora e tradutora.

MPF aciona ex-presidente do BNB e mais 10 por rombo de R$ 1,2 bilhão

Desfalque foi provocado após autorização de empréstimos realizados e não cobrados

 O Ministério Público Federal no Ceará (MPF/CE) denunciou o ex-presidente do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Roberto Smith, atual secretário de Desenvolvimento do governo estadual, e mais dez dirigentes da instituição financeira pela prática de gestão fraudulenta.
Segundo a denúncia do procurador da República Edmac Trigueiro, os ex-gestores praticaram irregularidades na administração dos recursos do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste (FNE), provocando um desfalque superior a R$ 1,2 bilhão.
O rombo aconteceu do começo dos anos 80 até 2008. Smith presidiu o banco entre 2003 e 2008.
No período foram autorizados pelo menos 52 mil empréstimos, dentre eles repasses milionários a empresários. Uma vez consumados, os empréstimos não eram cobrados.
Entre os denunciados estão João Alves de Melo, atual secretário da Controladoria do governo do Ceará;  Paulo Sérgio Rebouças Ferraro, ligado ao governador Jaques Wagner (PT), da Bahia; e Luiz Carlos Everton de Farias, ligado ao senador Wellington Dias (PT-PI).
Relatório de auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou a existência de clientes com dezenas e até centenas de operações baixadas em prejuízo, sem que tenha sido feita ação de cobrança judicial por parte do BNB, em detrimento das normas do banco.


De 55.051 operações auditadas, somente 2.385 possuíam Autorização de Cobrança Judicial (ACJ).
Na ação penal ajuizada, o MPF pede ao TCU um laudo pericial que especifique o montante que estaria perdido dos cofres públicos devido à prescrição de possibilidade do banco exigir judicialmente o crédito.
"Em alguns casos, o dinheiro pode não ser mais recuperado. A dívida não some, mas o banco não pode mais cobrar judicialmente o valor devido", explica o procurar Edmac Trigueiro.
O MPF, segundo sua assessoria de imprensa, ainda investiga se há relação entre os inadimplentes beneficiários dos empréstimos com os gestores do BNB réus na ação.
Valor total envolvido: R$ 1.274.095.377,97
Os demais denunciados: Luiz Henrique Mascarenhas Correia Silva; Oswaldo Serrano de Oliveira; Pedro Rafael Lapa; João Francisco de Freitas Peixoto; Jefferson Cavalcante Albuquerque; José Andrade Costa; e Dimas Tadeu Fernandes Madeira.