sábado, 30 de novembro de 2013

SÓ DIGO UMA COISA, TÔ CANSADA…por MARLI GONÇALVES

Verdade que em português a expressão não tem o charme e o elã da mesma coisa dita em francês – “Je suis Fatigué”- que sempre se escuta, especialmente nas ruas de Paris. Um enfado. Quando vivi lá um tempinho fiquei muito impressionada como pode ser aplicada a tantas coisas. Então, veja só, virou o Manifesto do Tô Cansada
Tô cansada. Física e emocionalmente falando. Mas sabe que me sinto assim justamente por estar cansada, muito cansada, mais ainda de suportar coisas, fatos, versões e etcs externos? E você vai concordar comigo, seja de direita, esquerda ou sei lá; seja branco, preto, amarelo, vermelho. Tédio e cansaço andam juntos.
Tô cansada da pobreza em que anda a política nacional, que consegue até fazer de gente inteligente uns verdadeiros imbecis na defesa do escancarado indefensável, e usando argumentos que ora, ora, ora, faça-me o favor! Tô cansada desse clima de beligerância, de torcida de futebol, de xingação que não leva a nada. Uns querendo que os caras morram; outros querendo que eles sejam incensados, santos, virem mártires. Apontando o dedinho: alguém aí já foi ou tem ideia do que é a vida numa prisão? Já não basta? Não querem também que eles durmam em cama de faquires, cheias de prego?

Tô cansada, e muito, por outro lado, de acharem que somos um tipo de idiotas que têm de aguentar ouvir dizer que os caras são coitadinhos. Que conseguem empregos de 20 mil em hotel porque “empregos regeneram detentos”, como o dono do tal hotel ousou declarar (aliás, já pensou essa informação correndo na Detenção, a fila que se formará?). Enfim, tô cansada dessa política rastaquera que junta trem com fiscal, junta Brasil com Suíça e Alemanha, uma briga para saber quem é ou foi mais corrupto, quando, desde quando, em quais governos. Fora as indiretas: pegaram carregamento de cocaína em helicóptero de deputado mineiro, e a tocha acende no couro do Aécio. Quer acusar, acusa logo formalmente. Achar que ele cheira, cheirou ou cheirará é apenas chato, e também não vai ajudar ninguém a permanecer no poder fazendo campanha suja. Lula bebeu, mas não sei se bebe ainda ou se beberá, tá? Mas é que fotos dele para lá de Bagdá circulam desde os imemoriais tempos do sindicato. E não o impediram de chegar duas vezes à Presidência da República.
Tô cansada de sentir medo. E de ouvir sobre o medo dos outros, que paralisa os mercados. De andar olhando para tudo quanto é lado, suspeitando de todos. Cansada de viver nessa tensão de cidade. Cansada de invariavelmente abrir o jornal, site, portal, ligar o rádio ou tevê e em poucos minutos saber de mais um sem número de mulheres mortas em violência doméstica, criancinhas sendo usadas como trapinhos, inclusive sexuais. Tô cansada do trânsito. Da perda de tempo. Da violência nas ruas, com gente se matando e brigando por causa de latarias, buzinas. Tô cansada de ouvir os números de recordes de trânsito e de ver as faixas pintadas que inventaram, e que me lembram a história de como hipnotizar uma galinha. Risca o chão e põe o bico dela na faixa.

Tô cansada das deselegâncias. Da falta de educação e de um mínimo de civilidade. Da falta de reconhecimento. Das sacanagens vindas de todos os lados tentando botar a mão no seu bolso para arrancar algum. Tô cansada da indústria de multas. Da leniência da Justiça. Dos juízes que não leem os processos que julgam, e que decidem – claro, quando querem, num tempo considerável que se deram – com uma canetada a vida de quem tenta se defender de abusos.

Tô cansada dessa absurda e silenciosa alta de preços que todos nós sentimos e que eles negam porque negam quando reclamamos de nossas sacolas vazias, do que cortamos do orçamento, com mãos de tesoura.

Tô cansada da falta de amizade, e da incompreensão das coisas mais básicas. Tô cansada de ver a miséria e a pobreza real, nas ruas, que desaparece nas propagandas oficiais com figurantes risonhos. Aliás, tô cansada das propagandas oficiais de um tudo que apenas disfarça campanhas ilegais, mais do que antecipadas, com uns cara de pau andando em campos verdes dizendo que vão melhorar coisas que já deviam ter melhorado faz muito tempo, já que estão no poder e me lembram o Cazuza – “meus inimigos estão no poder…”
Tô cansada de ver ainda existirem tantas tentativas de censura, e de algumas conseguirem sucesso. De ver triunfar nulidades. De ver o Brasil sempre pensando no futuro, que nunca chega.
“Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e que não se quer mais nada” (Clarice Lispector)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

All over earth......burglars & liars took public power

Ponto final


Veja um trecho deste livro “Eu sou Malala”, da jovem que foi baleada por extremistas talibãs, em 2012, por defender o direito à educação das mulheres no Paquistão: “Em meu país, os políticos não têm escrúpulos. Para começar, são ricos, e nós somos um país pobre. Mas, mesmo assim, eles não param de roubar.”

Deve ser terrível viver num país assim.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Cotação da moeda virtual Bitcoin passa de US$ 1 mil pela primeira vez na história.

Divisa chegou à marca de US$ 1.073 nesta quarta-feira   

NOVA YORK - O preço da moeda digital bitcoin subiu acima de US$ 1 mil nesta quarta-feira pela primeira vez, estendendo a alta deste mês depois de uma audiência do Senado dos Estados Unidos sobre moedas virtuais.
A bitcoin atingiu o patamar de US$ 1.073 na Mt. Gox, operadora sediada em Tóquio conhecida por negociar a moeda, ante uma cotação pouco inferior a US$ 900 na véspera.
No início do mês, a bitcoin, uma proeminente moeda digital que não é apoiada por nenhum governo ou banco central, era negociada por cerca de US$ 215.

Os defensores da bitcoin dizem que a audiência no Senado na semana passada deu mais legitimidade à moeda, que vem ganhando aceitação por parte do público em geral e de investidores, mas que ainda não é aceita como uma forma de pagamento nos sites de grandes varejistas, como a Amazon.

- Não é apenas a comunidade bitcoin que está dizendo que a bitcoin é usada para coisas boas, há um grande potencial, temos membros do Congresso e agências do governo que concordam com isso - disse Jinyoung Lee Englund, porta-voz da Fundação Bitcoin em Washington.
A bitcoin é valorizada por muitos usuários por seu anonimato. Mas funcionários do governo expressaram preocupações de que muitos serviços de moeda virtual não têm os controles adequados para evitar atividades ilegais, como lavagem de dinheiro.

A LUZ QUE SE APAGA E A ESCURIDÃO QUE SE APROXIMA, por CARLOS CHAGAS

Confirmam amigos chegados ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa: ele pedirá aposentadoria antes de ser sucedido, em abril do próximo ano, pelo ministro Ricardo Lewandowski, na direção maior do Poder Judiciário. Motivo: o desmonte do  mensalão,  que começará logo depois da mudança na presidência da mais alta corte nacional de Justiça.
Como?
 Através de manobra já engendrada pelo PT e  pelos advogados dos mensaleiros, com a aquiescência de Lewadowski, que permitirá a REVISÃO dos processos onde foram condenados 25 implicados num dos maiores escândalos da história da República. Estaria tudo coordenado, apenas aguardando a mudança da guarda.  Apesar de a revisão de processos constituir-se em exceção na vida dos tribunais, pois acontece apenas com o surgimento de fatos novos no histórico das condenações, já estariam em fase de elaboração os recursos de quase todos  os hoje  condenados, a cargo de advogados regiamente remunerados, junto com outros ideologicamente afinados com o poder reinante.  Nada aconteceria à margem de discussões e  entreveros jurídicos, mas a conspiração atinge a composição atual do Supremo Tribunal Federal. E a futura, também. O término do mandato de Joaquim Barbosa na presidência da Corte Suprema marcaria a abertura das comportas para a libertação dos criminosos  postos atrás das grades e daqueles  que se encaminham para lá.
Joaquim Barbosa não estaria disposto  a assistir tamanha reviravolta, muito menos a ser voto vencido diante dela. Assim,  prepara seu desembarque. Pelo que se ouve, não haverá hipótese de mudar a decisão já tomada, mesmo ignorando-se se aceitará ou não transmudar-se para a política e aceitar algum convite para candidatar-se às eleições de outubro.  Tem até abril para decidir, apesar das múltiplas sondagens recebidas  de diversos partidos para disputar a presidência da República.
A informação mostra como são efêmeros os caminhos da vida pública. Até  agora vencedor inconteste na luta contra a corrupção, reconhecido nacionalmente, Joaquim Barbosa pressente a curva no caminho, não propriamente dele, mas dos mesmos de sempre, aqueles que conseguem fazer prevalecer a impunidade sempre que não se trata de punir ladrões de galinha.   Afinal, alguns meses de  cadeia podem machucar, mas se logo depois forem revogados através de revisões patrocinadas pelas estruturas jurídicas postas a serviço das elites, terão passado como simples pesadelos desfeitos ao  amanhecer.  Não faltarão vozes para transformar bandidos em heróis.  A reação do ainda presidente do Supremo de  aposentar-se ficará como mais  um protesto da luz   que se apaga contra a escuridão que se aproxima.
O IMPERATIVO CATEGÓRICO
Enquanto esse horror não se configura, seria bom meditar sobre o sentimento ético. Pode-se ceder diante do império das circunstâncias, Mas existe entre nós, indivíduos e nações, o imperativo categórico de que falava Kant, o incondicional comando de nossa consciência para agir como se a máxima de nossa ação fosse tornar-se uma lei universal da natureza.  Há que evitar  o comportamento que, se adotado por todos, tornaria a vida social impossível. Embora possamos adotar a mentira, não  poderemos aceitá-la como alternativa. Uma decisão da Justiça não é boa porque trás bons resultados, nem mesmo porque é sábia,  mas porque é feita em obediência ao senso do dever e em consonância com o imperativo categórico. Ética não é a doutrina de nos fazer felizes, mas de tornar-nos dignos da felicidade. Qualquer ladrão poderá   triunfar se conseguir roubar o bastante?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O Supremo sob pressão, por Joaquim Falcão

Não é somente o nosso Supremo que está sob pressão. Vai estar sempre. Com o Mensalão nos últimos dois anos. Com os planos econômicos que não julga há mais de cinco anos.
O Supremo americano também está. Sob outro tipo de pressão.
Esta semana recusou, sem dizer porque, sem mesmo argumentar, uma ação ajuizada contra a Agência de Segurança Nacional (NSA) por ter violado o sigilo de todos os telefonemas que saem dos Estados Unidos e que entram no país.
A ação foi proposta pela Eletronic Privacy Information Center, um centro de pesquisa americano.
Alegava que a coleta de dados telefônicos e de internet não poderia ter sido autorizada por uma Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira, como foi. Corte que até pouco tempo atrás era secreta. Não haveria justificativa para essa autorização, que assim contraria a lei.
Estas violações ao sigilo são fatos. O governo já admitiu que a vigilância aconteceu. O que a opinião pública quer é a explicação legal destes fatos. O Supremo silenciou. 
 Depois das revelações incontestáveis e não justificadas de espionagem eletrônica o Supremo parece estar adotando a mesma tática do Presidente Obama.
Tem se recusado a tratar o assunto, e se possível busca vencer no silêncio. Dizem que o tempo é senhor da razão. No caso, o silêncio é senhor da força.
A pressão sobre o Supremo nestes tempos tecnológicos vai ser feita de uma combinação de ações judiciais trazidas por grupos de defesa de direitos humanos, com ampla repercussão na mídia.
Não se trata de um supremo espetáculo, como dizem alguns. No caso, a repercussão na mídia é uma reação ao silêncio. Não se faz democracias nem se convence sobre o certo e o errado através de silêncios. A democracia é dialógica e não monológica.
Desde as declarações de Edward Snowden, revelando a coleta de dados, e mesmo antes dela, cercam o Supremo americano ações como a proposta em fevereiro por jornalistas e associações, alegando serem vítimas de espionagem ilegal. As ações não devem parar por aí.
A novidade no entanto é que enquanto o Supremo não decide, aumenta um processo de desgaste, de evasão da legitimidade democrática das instituições do estado do direito. Tanto aqui quanto acolá. Aumenta uma pressão para mudar não a democracia, mas pelo menos de democracia.

A memória apagada de uma guerra suja, por Carlos Tautz

Um ano e meio após ter sido lançado, o livro Memórias de uma guerra suja, em que o ex-delegado do Dops do Espírito Santo, Cláudio Guerra, conta como assassinou dezenas de militantes da esquerda brasileira nas décadas de 70 e 80 (entre um total de 100 mortes), estranhamente desperta, por parte da imprensa, muito menos investigações do que mereceriam suas dramáticas e assertivas revelações feitas aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, co-autores da obra.
O livro foi publicado para que a memória fosse contada. Não para que fosse, como está sendo, apagada. 
O assassino confesso admite ter planejado e operado atentados contra o processo de redemocratização dos anos 80 no Espírito Santo, Rio de Janeiro (inclusive no caso Riocentro), São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia.
Soldado civil de espírito militar, Guerra obedeceu cegamente os coronéis dos DOI-Codi, em especial Freddie Perdigão, no Rio. Até em Angola, por ordem dos militares, ele teria feito um atentado a bomba. Após ter sido preso por crimes comuns na década de 80, garante que se arrependeu na cadeia, virou pastor evangélico e sentiu necessidade de contar o que fez. 
Cláudio Guerra, ex-delegado do Dops do Espírito Santo 
Ainda que em alguns momentos a fala, aparentemente arrependida, de Guerra pareça contrainformação, por si só a riqueza de detalhes, o conhecimento da dinâmica de funcionamento dos sistemas de repressão política financiados por empresas, a menção à participação da CIA e do Mossad no treinamento de torturadores e assassinos a soldo do Estado brasileiro (e de bancos, de empresas de transporte, empreiteiras...) e o fato de em nenhum ter-se recusado de citar nomes de gente envolvida com a caça aos esquerdistas torna a confissão do carrasco merecedora de muito mais atenção da imprensa - em várias vezes acusada de conivência com as perseguições políticas denunciadas.
Em entrevista ao Observatório da Imprensa, após o lançamento do livro, Guerra chega a reclamar da inocência das perguntas feitas a ele por procuradores do Ministério Público, mas elogia as investigações da Polícia Federal a respeito de suas denúncias.
Também disse que há muitos outros “Cláudios Guerras” dispostos a falar e que bastaria serem convencidos – e isso ele também disse, inclusive, em depoimento não divulgado, à Comissão Nacional da Verdade.
O relativo silêncio da imprensa corporativa sobre o livro é compreensível – embora não seja defensável. Tem a ver com o seu apoio à ditadura empresarial e militar de 64. Em um e em outro caso, o que não se pode deixar de fazer, hoje, é investigar e praticar o bom jornalismo, com a coragem que só a história mostrará ser indispensável ao Brasil. 
Carlos Tautz, jornalista, é coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Uma babá de ouro, por José Casado, O Globo

A morena de 29 anos, traços indígenas, olhos castanhos e cabelos clareados, encantou o senador. Levou-a para casa, para cuidar dos filhos.

Semanas atrás, descobriu-se que Gabriela Quintana Venialgo recebia um salário mensal equivalente a R$ 8.200: metade saía da folha de pagamentos do Legislativo; outra metade vinha do caixa de Itaipu Binacional, cujo controle é partilhado entre as empresas estatais de energia do Brasil (Eletrobras) e do Paraguai (Andes).
Gabriela agora é uma mulher famosa. Se tornou a “babá de ouro” do senador paraguaio Víctor Bogado, que também inscreveu uma voluptuosa ex-miss na folha salarial do Congresso. 
Víctor Bogado, senador paraguaio 
Parecia ser apenas outro escândalo num trecho da América do Sul onde a corrupção ergueu um país de dois andares. O primeiro é reconhecido pela cartografia internacional e identifica o Paraguai com 406 mil quilômetros quadrados de extensão — área equivalente ao Mato Grosso do Sul.
O segundo andar é de papel pintado, plasmado nas escrituras de propriedade guardadas pelo governo. Tem 122 mil quilômetros quadrados. Esses dois Paraguais somam um território de 528 mil quilômetros quadrados — quase o tamanho de Minas Gerais. Na diferença entre o real e o de papel, cabem juntos os estados do Rio, Espírito Santo, Sergipe e mais uma área igual a duas Brasílias.
O Paraguai tem peculiaridades. Na economia, por exemplo, o contrabando é responsável por boa fatia do Produto Interno Bruto: para cada dólar registrado como receita de exportações realizadas ao Brasil, existem outros três dólares obtidos na venda ilegal de mercadorias ao mercado brasileiro, segundo dados oficiais.
Parecia ser apenas mais uma drenagem política do caixa de Itaipu Binacional. A construção dessa usina hidrelétrica, com represa da altura de um edifício de 65 andares, produziu fortunas e núcleos de poder tanto no Brasil quanto no Paraguai.
Elas surgiram entre 1975 e 1982 na poeira de despesas públicas colossais, como a compra de um volume de concreto suficiente para se construir 210 estádios do porte do Maracanã e de quantidade de ferro bastante para montagem de 380 torres Eiffel. Por anos seguidos a rarefeita contabilidade de Itaipu registrou a compra de caminhão com 30 toneladas de cimento a cada quinze minutos, 24 horas por dia.
Há dez dias, no entanto, o Paraguai vive uma convulsão política por causa do senador Bogado e sua “babá de ouro”. O Ministério Público resolveu processá-lo, mas 22 dos 45 senadores impediram a retirada da imunidade parlamentar. Desde então, assiste-se a uma avalanche de protestos contra a corrupção.
Entidades empresariais aderiram. Lojas, restaurantes e empresas médicas publicam anúncios pedindo a renúncia dos 23 que confundem imunidade com impunidade. Em Santa Catarina, hotéis onde políticos paraguaios veraneiam já expõem cartazes: “Os 23 não são bem-vindos.”
O escrache avançou no fim de semana. Restaurantes em Assunção se recusaram a atender as senadoras Blanca Fonseca e Zulma Gómez. Óscar Daher foi expulso de uma pizzaria aos gritos de “fora ladrão”. Outros foram impedidos de entrar em shoppings. Nas igrejas houve homilias e sindicatos começaram a organizar uma greve geral.
Há uma novidade nas duas margens do Rio Paraná: os donos do poder já não podem delinquir com impunidade absoluta.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Andar em zigue-zague, por Alvaro Gribel e Valéria Maniero

Dois meses depois de defender o projeto que muda o cálculo da dívida dos estados e municípios, o governo voltou atrás e colocou a ideia no congelador. Sobre os aeroportos, foram anos criticando as privatizações, e, na sexta-feira, o leilão do Galeão e de Confins foi comemorado. Os juros caíram pela vontade de igualar as taxas do Brasil com as do resto do mundo. Voltaram a subir com o aumento da inflação.

Quem acompanha atentamente a condução da política econômica percebe o vai e vem das ideias do governo. Há vários exemplos. Durante muito tempo o real forte foi o culpado pelos fracos resultados da indústria. Seria só desvalorizar a moeda para que a produção reagisse. Em um passado não muito distante, a expressão da moda era “guerra cambial”. O real desvalorizou, mas a indústria continua patinando e a inflação subiu. O Banco Central, dia sim, outro também, vende dólares no mercado para segurar a cotação da moeda americana.
As regras para as concessões das ferrovias já mudaram várias vezes e depois de mais de um ano nenhum leilão foi realizado. A malha atual está estagnada. Nos portos, a confusão é tão grande que os executivos do setor têm dificuldade de entender e explicar as regras. Nos aeroportos, foi tanto tempo perdido que as concessões não vão promover grandes mudanças para a Copa do Mundo. Apenas cinco aeroportos foram a leilão até agora.
O Banco Central diz que a meta oficial de inflação é 4,5%. Mas a presidente Dilma Rousseff afirma em seu Twitter que é 6,5%. Passa a considerar como meta a margem de tolerância de dois pontos para cima. Como o IPCA ainda não viu o centro, 4,5%, na atual gestão do BC, fica a impressão de que a autoridade monetária está menos ambiciosa em relação ao controle dos preços.
Às vezes, contradições acontecem no mesmo dia, como se viu na quarta-feira. Houve recuo na ideia de mudar retroativamente o indexador da dívida dos estados. Mas, logo depois, o Congresso alterou, com o apoio da base governista, a LDO que desobriga a União de compensar o superávit primário de estados e municípios. Na primeira medida, sinalização de controle das contas públicas. Na segunda, afrouxamento.
Com o mundo ainda em crise e tendo, em 2013, o crescimento mais baixo dos últimos anos, tudo que o país não precisa é criar novos problemas e incertezas internamente. Isso tem aumentado muito o risco de um rebaixamento da nota de crédito do governo, o que tornaria o cenário mais difícil e complexo.
Olhar sobre a Argentina
Tudo que acontece com a Argentina tem enorme importância para o Brasil. Por isso, a mudança do ministro da economia no país poderia ter sido um bom sinal, mas não é o que parece. Segundo o economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb.com, o novo ministro, Axel Kicillof, deve manter a mesma política econômica dos últimos anos, marcada pela intervenção estatal. Há pouco espaço para melhorias no comércio bilateral.
— Ainda há grande incerteza porque se desconhecem as medidas que o novo ministro tomará em matéria de importações do Brasil. Nas condições atuais, de reservas em queda, não se pode esperar um relaxamento das restrições, mas dificilmente vão piorar — afirma.
O Brasil chegou a ter superávit de US$ 5,8 bilhões com a Argentina em 2011, quando a corrente de comércio atingiu o recorde de US$ 39,6 bilhões. Este ano, o saldo soma US$ 2,6 bilhões até outubro, com US$ 30 bi exportados e importados.
Moreno desagradava a todos
Segundo o economista Dante Sica, o ex-secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, vinha se desgastando com vários setores. Ele foi responsável pela intervenção no Indec, o IBGE argentino, que perdeu credibilidade, ordenou o congelamento de preços e determinou que as empresas precisavam ter autorização do governo para importar.
— Ele estava muito desgastado e sua saída era demandada por amplos setores. Acho que a notícia terá impacto positivo no exterior, sendo interpretada como o afastamento de um funcionário controvertido que esteve por trás do freio às importações por métodos heterodoxos, que expôs a Argentina a um cenário de conflito com seus principais sócios.
Juros mais altos. Na quarta-feira, o BC deve elevar a Selic, que pode ir a 10%. Será a sexta alta seguida.

Os podres dos puros, por Aldir Blanc, O Globo

Para os que procuram saber mesmo, sem dissimulações e desculpas, saiu o documentário “Gasland-2”. Está passando em canais por assinatura. Vou resumir a mamata: em uma só penada, o chefe branco Baby Bush, com o verdadeiro mandachuva, Dick Cheney, por trás, autorizou a pesquisa de gás por “fraturamento do solo”, um processo simples e limpo.

Um cano é enfiado até 2 mil e poucos metros de profundidade. Em seguida, injeta-se nele enormes quantidades de água pura. Fácil, né? A pressão da água acaba causando as fraturas, o que libera gás.
Um detalhe importante: no país do respeito à propriedade privada, o cara acorda, vai se espreguiçar na varanda dos fundos e dá de cara com máquinas fazendo o trabalho, sem permissão do proprietário. Se o malandro se aborrecer com esse desrespeito e quiser fumar, é só abrir a bica mais próxima que, ao invés de água, sai uma labareda. Isso aí. Fogo saindo das bicas.


O outrora límpido riacho solta borbulhas sulfúricas porque os lençóis freáticos já foram contaminados. Um cidadão inteligente mandou analisar a água, trazida por milhares de imensos caminhões-pipa que arrebentam as estradas, e — surpresa! — encontraram quase 600 (seiscentos) compostos químicos na dita-cuja, todos venenosos. Já vejo os trouxas que acreditam nas promessas de Bananobama, o Bush Negro, murmurando: “Deve ter melhorado com a chegada do herói afro-americano.”
Não. Piorou muito. O meio ambiente está sendo degradado, crianças adoecem, há casos de enjoos crônicos, vômitos, dores de cabeça constantes e tumores. Vi alguns cavalos e vacas que parecem alienígenas em filme do Ed Wood.
As reclamações não dão em nada. O Puder garante que o método é inócuo. Calcula-se que a praga esteja espalhada, com milhares e milhares de postos em cerca de 40 estados daquela (des)União.
Conta-se que um adolescente foi ao banheiro, com o tradicional gibi, deu a descarga ainda sentado no vaso e churrasqueou as pudendas. Ao passar, pelado e urrando, por dois ingleses, não ouviu o diálogo tipicamente britânico:
— Com mil diabos!
— Algum problema no terceiro olho, indeed...
Resolvi escrever sobre esse fraturamento porque o mau cheiro, lá e cá, é avassalador.
No momento em que escrevo, o delator Roberto Jefferson continua solto. Consta que o bravo tribuno Barbosinha disse: “Não tenho mais pressa.” Se isso for verdade, a Cega anda viciada e uns são mais condenados do que outros. Réus que pegaram regime semiaberto permanecem ilegalmente encarcerados.
O circo de mídia, imagens monótonas de ônibus e avião durante horas, com a repetição do mantra “...a prisão de José Dirceu e José Genoino...”, no dia da proclamação da ré-pública, pelo amor de meus netinhos e bisneto, essas armações falam por si sós.
Em que Papuda está preso Mamaluff? Não acredito na Justiça brasileira. Se políticos foram presos por violar suas funções, o mesmo se pode dizer dos juízes. Sugestão: coloquem um tubo de gás no meio do Supremo. 
Vai pintar fedor. Gasland-3. 
Aldir Blanc é compositor

Dirceu pressionou Lula a defender petistas presos, Vera Rosa e Wilson Tosta, Estadão

Preso em uma cela de seis metros quadrados, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu criticou Luiz Inácio Lula da Silva pela forma como ele administrou até agora a crise do mensalão. A insatisfação com o ex-presidente foi manifestada por Dirceu a pelo menos três amigos que o visitaram, nos últimos dias, no Complexo Penitenciário da Papuda.

                       
Irritado com o silêncio do Planalto, Dirceu perguntou: "E o Lula não vai falar nada?". Era a senha para a urgência de um pronunciamento, que deveria ser feito o quanto antes, no diagnóstico do ex-ministro, sob pena de grande abalo na imagem do PT, com potencial de interferir na campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição.
Três dias depois de receber o recado, Lula fez o mais veemente discurso desde que os petistas foram condenados. Sugeriu, na quinta-feira passada, que o rigor da lei só vale para o PT e dirigiu ataques ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.
Em meio a protestos contra as "arbitrariedades" na execução das sentenças, Lula e dirigentes petistas também decidiram promover um desagravo a Dirceu, ao ex-presidente do PT José Genoino e ao ex-tesoureiro Delúbio Soares na abertura do 5.º Congresso da sigla, de 12 a 14 de dezembro, em Brasília.
A contrariedade de Dirceu com Lula, porém, não vem de hoje. Interlocutores do ex-ministro contaram ao Estado que ele sempre reprovou a forma "conciliatória" como o então presidente conduziu o caso desde que o escândalo estourou, em junho de 2005.
Em conversas mantidas no cárcere, Dirceu tem dito que Lula errou ao não fazer o "enfrentamento" necessário para não deixar a denúncia de corrupção virar uma espada permanente sobre o PT e o governo.
Para Genoino, os réus do PT não têm escapatória, mesmo se conseguirem reduzir suas penas, pois perderam a batalha da comunicação. "Estamos marcados como gado", resumiu ele a um amigo.
Na avaliação de Dirceu, Lula deixou a CPI dos Correios prosperar, em 2005, quando ainda teria condições de barrá-la. Por esse raciocínio, ao não politizar a denúncia da compra de votos no Congresso, Lula abriu caminho para a "criminalização" do PT. O partido até hoje insiste que nunca corrompeu deputados em troca de apoio e só admite a prática do caixa dois.
Nomeação. Arquiteto da campanha que levou o PT ao Palácio do Planalto em 2003, Dirceu revelou que Lula chegou a consultá-lo sobre a nomeação de Luiz Fux para ministro do Supremo.
"Se você está dizendo que sim, quem sou eu para dizer que não?", afirmou Dirceu, segundo relato de amigos, antes de ser procurado por Fux, que pediu sua ajuda para conquistar o cargo. Fux acabou nomeado em 2011 por Dilma. Petistas juram que ele prometeu "matar no peito" a acusação, em sinal de que absolveria os réus. Quando saiu o voto pela condenação, o espanto no governo e no PT foi generalizado.
Num café da manhã com Dirceu, em novembro de 2010, Lula prometeu a ele que, quando estivesse fora do Planalto, desmontaria a "farsa do mensalão". A promessa não foi cumprida sob a alegação de que era preciso blindar o primeiro ano do governo Dilma. Depois vieram as disputas municipais de 2012 e agora o ano é pré-eleitoral.
Para o líder da bancada petista no Senado, Wellington Dias (PI), o PT não soube construir uma narrativa para reagir à ofensiva da oposição e da mídia. "Sob intenso cerco político, nós acabamos permitindo que as versões da compra de votos florescessem", avaliou Dias.
A estratégia do governo e do PT, agora, é usar o escudo da "legalidade" e o discurso de que há "dois pesos e duas medidas" na Justiça para impedir que o mensalão contamine a campanha de Dilma em 2014.

domingo, 24 de novembro de 2013

A miséria não deixa MUITAS alternativas....

Portuguesas 'vendem' estado civil a imigrantes por escassos euros 

Face às dificuldades que o País atravessa, não faltam formas ‘originais’ de contorná-las. Por mil a três mil euros, muitas portuguesas ‘vendem’ o seu estado civil e casam-se com imigrantes que querem entrar no espaço Schengen e que, por isso, precisam de legalização, avança hoje o Diário de Notícias (DN).
“Eles, os das redes, prometem mundos e fundos e caímos que nem umas patinhas se estamos mesmo a precisar. Estava na miséria autêntica”, desabafa ao DN uma das mulheres envolvida numa rede de casamentos por conveniência ou casamentos brancos, que acabou detida pelo Serviços de Estrangeiros e Fonteiras (SEF).

Para casar com um imigrante ilegal recebeu em troca “dois mil euros” e a garantia de que ninguém da sua “família precisava de saber, que não ia ter problemas com a polícia e que o futuro marido nunca a incomodaria”.

Isto “quando uma pessoa está no desespero” é a solução para a falta de trabalho e dívidas, confessa.

Os alvos preferenciais destas redes, conta o DN, são os bairros periféricos das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde encontram portugueses de baixa condições socioeconômica e vulneráveis, solteiras, viúvas, ou divorciadas. Qualquer uma serve desde que tenha um cartão de identidade europeu.

Depois, os ‘cabecilhas dessas redes’ tratam do resto e acompanham as mulheres aos organismos públicos se for necessária a sua presença para a obtenção dos documentos. Podem ter de viajar para qualquer sítio sem saberem para onde e quem as acompanha.

Mas, muitas vezes, a quantia prometida, que ronda os mil/três mil euros, nem sempre é paga na totalidade, visto que o pagamento é feito em parcelas.

As principais redes organizadas a operar em Portugal tratam de casos com imigrantes provenientes do Paquistão, Índia, Bangladesh, Marrocos, Nepal, mas há também nigerianos, brasileiros, sendo que estes últimos não actuam através de redes organizadas.

O STF começará a julgar a tunga da banca, por Elio Gaspari

Só pode ter sido coisa de São Judas Tadeu, o padroeiro dos desesperados. Exatamente uma semana antes do início do julgamento das vítimas dos planos Bresser (1987) e Verão (1989), marcado para quarta-feira, o banco JP Morgan fez um acordo com o governo americano aceitando pagar US$ 13 bilhões aos clientes que lesou vendendo-lhes papéis tóxicos antes da quebradeira de 2007.

No caso do Morgan, quem pôs dinheiro lá sabia que corria algum risco. No caso das vítimas dos planos brasileiros, os poupadores que depositaram suas economias nas cadernetas tinham remuneração garantida pelo governo (correção monetária mais juros mensais de 0,5%).
A tunga deu-se quando o governo mexeu na correção monetária, baixando seu índice. Naquele tempo a inflação rodava a 42% ao mês. Repetindo: ao mês. 
 No exemplo mais cristalino, quem tinha mil cruzados (a moeda da época) na poupança em janeiro de 1987 perdeu 204 cruzados na remuneração de quinze dias de fevereiro de 1987. Tomou uma tunga que hoje está em R$ 880.
Há mais de 20 anos, dezenas de milhares de poupadores querem de volta o que perderam. A disputa do JP Morgan com suas vítimas durou sete anos. A dos poupadores brasileiros já dura 27, pois a banca disputa cada palmo na Justiça.
Na absoluta maioria dos casos, ela perdeu em primeira e segunda instâncias. No Superior Tribunal de Justiça, perdeu todas. Com exceção de José Antonio Dias Toffoli e Luís Roberto Barroso, todos os ministros do STF já julgaram casos relacionados com esse avanço sobre o bolso alheio, e todos votaram contra a banca.
Com ótimos advogados, os bancos mostraram seu poder de persuasão. Durante o governo Lula, o Banco Central saiu de uma posição de neutralidade e hoje é aliado dos banqueiros no litígio.
O argumento mais recente é o de que o ressarcimento das vítimas criaria um risco sistêmico para os bancos, pois a conta iria a R$ 180 bilhões. A Procuradoria Geral da República e o Instituto de Defesa do Consumidor, campeão dessa batalha, garantem que isso é uma lorota.
Sempre é bom lembrar que, se os bancos brasileiros fizessem como o Morgan, fechando um acordo em apenas sete anos, teriam pago algo como R$ 10 bilhões.
De qualquer forma, a contabilidade bancária obriga as casas de crédito a provisionar recursos para cobrir despesas decorrentes de litígios judiciais.
Somando-se as provisões feitas pelos quatro grandes bancos privados e públicos, seus balanços informam que elas ficaram em R$ 11 bilhões. Se um cliente desses bancos provisionasse R$ 11 mil para se proteger de um risco de R$ 180 mil, o gerente que lhe desse crédito iria para a rua.
"Risco sistêmico" tornou-se uma expressão tóxica. Quando a banca americana estourou as finanças mundiais, surgiu uma frase para explicar a necessidade de socorro às grandes casas. Cada uma delas seria “too big to fail” (“muito grande para quebra”).
Como o comprimento das saias, os jogos de palavras mudam ao sabor dos tempos. Recentemente, Judiciário e os órgãos reguladores dos Estados Unidos começaram a apertar os parafusos da fiscalização, e um promotor jogou uma nova expressão na roda, dizendo que nenhuma instituição deve acreditar que é “too big to jail” (“muito grande para acabar na cadeia”).
Em 2007 o Morgan poderia ser “too big to fail”, mas em 2014 seus diretores perceberam que não eram mais “too big to jail”. Preferiram admitir que agiram mal e pagaram a maior indenização de todos os tempos à boa Viúva americana.
Fica na fila a agência de avaliação de riscos Standard & Poor’s, que dava boas notas para instituições quebradas. Ela tentou um acordo de US$ 100 milhões, mas o governo quer a confissão do erro e mais de US$ 1 bilhão.

Amarildo.....aqui


sábado, 23 de novembro de 2013

Presos do Mensalão, Buñuel, e a Memória, por Vitor Hugo Soares

Na abertura de "Meu Último Suspiro", seu livro de memórias, o cineasta espanhol Luis Buñuel recorda: sua mãe, nos dez últimos anos de vida, começou a perder a memória. Chegou ao ponto de não mais saber quem eram seus filhos ou quem era ela mesma.

Ele entrava em casa, beijava-a, passava um tempo a seu lado. Depois a mãe (cuja saúde física se mostrava intacta) se afastava. Retornava em seguida e recebia o filho com o mesmo sorriso, pedia para que ele se sentasse, como se o estivesse vendo pela primeira vez, já não sabendo nem mais seu nome.
Nas primeira páginas do livro referencial, o cineasta, ao falar da mãe, recorda também do seu tempo de garoto no colégio em Saragoza, quando era capaz de recitar de cor a lista completa dos reis visigóticos, as superfícies e populaçõesde todos os países europeus, "e muitas outras inutilidades".
Buñuel fala, também, do primeiro esquecimento do antigo garoto espanhol tido como um "Memorion", e dos esquecimentos seguintes. "Com esse esquecimento, e outros esquecimentos que não tardarão a apresentar-se, começamos a compreender e a admitir a importância da memória", diz o mago do surrealismo no cinema.
"É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos, para perceber que é esta que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se, não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada", conclui Buñuel. Magnificamente!
Os grandes artífices da escritura que me perdoem o tamanho da citação, mas a julgo absolutamente essencial neste momento estranho e desmemoriado que o Brasil atravessa. Em outros escritos, em outros momentos, ou em outras ações pessoais já me socorri dela.
Diante da verdade (bela e terrível ao mesmo tempo) contida na citação e nas páginas de "Meu Último Suspiro", devo seguir na trilha das lembranças.
"Enquanto é tempo", como recomendava Raimundo Reis, outro autor da minha predileção, já no título de um de seus livros. Exatamente seu livro de memórias.
Raimundo, ex-deputado pessedista de renome na história de seu partido (PSD) e do parlamento de seu Estado foi, acima de tudo, um notável cronista do cotidiano da Bahia e escritor de muitos livros publicados, nascido nas barrancas do São Francisco, o rio da minha aldeia.
Recordemos, então: Corriam os primeiros meses de 1969 quando aconteceu, na Bahia, a estranha história que, espero, sirva para contextualizar melhor este artigo de opinião. Pode, a princípio, parecer uma "coisa antiga", sem sentido ou significado maior para alguns.
Mas (quem sabe?), pode ser que guarde expressão e relevância factual e interpretativa, jornalisticamente falando, em relação aos tumultuados e explosivos dias que correm na política, na justiça e na vida social brasileira em geral.
Em especial, se a narrativa for comparada com histórias, atos, fatos e aspectos da feroz controvérsia que envolve os condenados, pelo Supremo Tribunal Federal, no processo criminal do Mensalão. E o barulho causado pelo recolhimento dos 11 primeiro deles (homens e mulheres) às dependências do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal.
José Dirceu, José Genoino (internado em um hospital do DF, para exames sobre o seu efetivo estado de saúde, autorizado pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa) e Delúbio Soares. Figuras referenciais da história do PT e, no caso dos dois primeiros, da própria história política e social brasileira recente.
Era começo daquele ano (1969), ainda sob as sombras e reflexos kafkianos de 1968, o incrível "ano que não terminou". Em meio, também, aos desdobramentos terríveis da aplicação das implacáveis medidas ditatoriais do AI-5, que atingiam com braço de ferro desde a atividade política à vida educacional nos colégios e nas universidades públicas.
Neste ambiente cavernoso, começava o ano letivo, quando a Faculdade de Direito da UFBA foi cercada e invadida por agentes da Polícia Federal (PF). À frente da operação, inédita na vida da Bahia, o chefe da instituição policial no estado à época.
Quase uma dezena de alunos da tradicional escola baiana de ensino jurídico, integrantes de uma relação de quase 50 estudantes com matrículas "cassadas" na UFBA, pelo AI-5, foram retirados algemados da sala de aula, sob as vistas de diretores, professores, alunos e funcionários da Faculdade. Entre eles, o autor deste artigo, que acabara de ser diplomado em Jornalismo e se preparava para cursar o último ano de Direito.
Na Bahia e no País, só um jornal registrou a invasão da Faculdade de Direito da UFBA e a prisão dos estudantes em sala de aula: O Estado de S. Paulo, graças à coragem do jornal paulista e de sua correspondente em Salvador, na época: jornalista Zilá Moreira
Depois de um dia de identificação, entre a sede da PF e o Quartel General do Exército, em Salvador, fomos todos dormir em uma cela no Quartel do 19º Batalhão de Cavalaria, no bairro do Cabula, que, com o correr dos dias de março, ficaria cheia de outros presos: estudantes, profissionais liberais, dirigentes sindicais, vereador da capital, prefeito de cidade grande do interior do estado.
"Gente de esquerda e gente de Andreazza", como fazia questão de frisar o vereador, um líder portuário do antigo PTB, quando queria estabelecer as diferenças políticas, ideológicas e pessoais dos prisioneiros na cela do 19 BC. Quando isso não se mostrava suficiente, ele chamava a "turma de esquerda" em um canto, e fazia o alerta mais direto e explícito:
- Olha, não esqueçam: o prefeito é gente boa, todos nós sabemos. Inteligente, culto, psiquiatra competente, intelectual de boas leituras, joga xadrez muito bem, é simpático e amigueiro. Mas é preciso não esquecer: "Nós estamos presos aqui por subversão, mas o prefeito está preso por corrupção", encerrava o vereador, referindo-se às ligações do político com "o ministro dos Transporte da ditadura", que então começava "a cair em desgraça no regime".
Mais não digo. Ou melhor, faço apenas outra citação. Esta da preferência dos franceses, da qual também gosto muito e repito sempre que preciso e a memória permite:"Que seja amaldiçoado, quem pensar mal destas coisas!" 
Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

O batmóvel e a democracia, por Sandro Vaia

Infeliz do povo que precisa de heróis.
A frase foi colocada pelo teatrólogo alemão Bertolt Brecht na boca de seu personagem Galileu na peça “Vida de Galileu”. Brecht era marxista militante e provavelmente não imaginava a riqueza de significados que a sua frase ganharia na história da semântica ideológica de metade do século passado e no começo deste.
A determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa para que se executassem as penas a que foram condenados os denunciados na Ação Penal 457 -- o mensalão -- mostrou como era sábia a frase de Brecht.
O gesto de braços erguidos e de punhos cerrados que dois dois principais condenados encenaram ao chegar às sedes da polícia federal onde resolveram se apresentar para obedecer à ordem de prisão teve um suave toque de patética melancolia.
É um pouco grotesco pintar com tintas de heroísmo um gesto tão banal quanto o de apresentar-se aos carcereiros para cumprir uma pena por corrupção decretada por maioria insofismável dos juízes da Suprema Corte de um país que vive há pelos menos um quarto de século em pleno processo democrático.
Apresentar-se como “presos políticos” foi uma opção teatral encampada pelos condenados e, pior ainda, endossada pelo partido a que pertencem, que há mais de dez anos comanda a maioria parlamentar de uma coalizão de governo e que está muito perto de conquistar o terceiro mandato consecutivo.
O paradoxo de ser preso político de um governo do qual eles mesmo fazem parte e do qual são -- ou foram -- líderes ou expoentes talvez seja um caso sem precedentes na história política moderna e nenhum deles demonstrou o menor constrangimento em participar dessa pantomima, sem dar-se conta do grotesco da situação.
Pois se é, relembrando o Galileu de Brecht, infeliz do povo que precisa de heróis, principalmente quando construídos sob premissas tão esfarrapadas e contraditórias, não é menos verdade que tão infeliz quanto precisar desse tipo de heróis, é a face oposta da mesma moeda.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, nomeado para uma vaga de juiz pelo ex-presidente Lula quando estava à procura de um negro para preencher simbolicamente uma vaga na Suprema Corte oscilou, como os mensaleiros condenados, entre os extremos de herói e vilão da Pátria. Foi chamado por alguns de capitão do mato e outros entregariam de bom grado a ele a espada do justiceiro.
Uma prova de que a democracia brasileira ainda é jovem e imberbe e que o país precisa tanto de heróis quanto de vilões porque ainda não aprendeu que não é com picos de adrenalina que se constrói um País mais justo, mais equânime e mais democrático.
A Nação só poderá orgulhar-se de estar madura para a democracia quando não precisar mais da sirene do batmóvel para anunciar que alguém está correndo atrás do Coringa. 
Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreito da Liberdade"(editora Barcarolla). E.mail: svaia@uol.com.br

Os vira-latas, por Maria Helena RR de Sousa

Nelson Rodrigues nos tatuou com essa marca. Agora mesmo houve quem sugerisse que demos uma de vira-lata ao permitir que o Henrique Pizzolato, cidadão italiano, levasse para fora do Brasil o pendrive do Henrique Pizzolato, cidadão brasileiro.
Você não faria o mesmo?
Sei o que levou o escritor a nos chamar de vira-latas, o que não sei é se ele concordava com a tese de que somos vira-latas por conta da miscigenação que nos formou. Nesse aspecto, estou com Edgar Roquette Pinto, o pai de nossa radiodifusão: somos vira-latas pela ignorância que nos encharca.
Dos Três Poderes que nos regem o único composto por pessoas qualificadas é o Supremo Tribunal Federal. Ali não dá para entrar pela janela, nem porque casou com a cunhada do amigo do governador que é tio de um sindicalista no ABC. O nome pode ter sido ventilado por esses ou outros ridículos motivos, mas para ser investido da toga, é preciso mais do que isso.
Quem são os donos do poder no Brasil há quase 12 anos? Dos juízes que formam o STF, quantos foram nomeados por Lula e Dilma? O julgamento foi transmitido pela TV e pudemos ver o desfile das maiores bancas de advogados do país no livre exercício da defesa de seus constituintes. 
É fácil compreender a dosimetria das penas? Para mim, não. Há sentenças que espantam, há detalhes difíceis de compreender, há juízes cuja personalidade incomoda, outros que acho francamente exibicionistas, assim como alguns aos quais faltou quem lhes torcesse o pepino em criança. E outros há cuja inteligência chega a ofuscar os demais.
E daí? Qualquer desses detalhes pode permitir sequer a hipótese que eu julgue esse julgamento injusto? Não, claro que não.
O fundamental, o fato que pode vir a mudar nosso trajeto, é ver pela primeira vez os poderosos serem punidos por erros graves que cometeram contra o Brasil.
Mas isso não pode e não vai impedir que eu continue a sonhar com um Brasil que erre menos. Agora que o trem saiu da estação onde estava desde 1500, se conseguíssemos engatar o vagão da Educação ao da Justiça, que Brasil nossos filhos teriam!
Educação que nos impedisse de ouvir um ministro da Saúde dizer que não se incomodava em ser tratado por médico que não passou pelo Revalida; que não permitisse que um condenado notoriamente enfermo fizesse uma viagem inútil de avião para ir parar justo numa cadeia sem nem um posto de saúde; e educação que nos deixasse roxos de vergonha diante do estado das penitenciárias brasileiras.
Instrução e Educação que impedissem nosso povo de acreditar na militância paga que infesta a mais extraordinária invenção do homem desde Gutenberg. A Internet é uma joia da qual devemos cuidar com extremo carinho e nunca usá-la com a linguagem tosca e os argumentos insanos que a maltratam.
Uma lei não poderá obrigar um homem a me amar, mas é importante que ela o proíba de me linchar, disse Martin Luther King. Não se lincha só com paus e pedras... 
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa escreve semanalmente. Ela também tem uma fanpage e um blog – Maria Helena RR de Sousa.