quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Rio: insegurança pública e crime de Estado, por Bruno Lima Rocha

No Brasil, vive-se um paradoxo. Avançamos nas condições materiais de vida, mas no quesito dos direitos básicos, uma parcela importante da população ainda vive sob suspeita, sofrendo coações permanentes. A notícia dada no Bom Dia Rio, telejornal da emissora líder na manhã da 2ª feira, 28 de outubro, de que quatro policiais militares mulheres do estado do Rio de Janeiro foram coagidas a dar falso testemunho no caso do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza traduz essa perplexidade.

As militares vieram ao público para contradizer a ordem de seu comando direto quando da operação ilegal, e o fizeram em depoimento ao Ministério Público Estadual (MPPE). Infelizmente, o fato novo é a opinião pública denunciando o crime de Estado e não o delito em si.
Também para nossa desgraça, tal fato singular só virou bandeira na defesa de direitos humanos pela pressão popular decorrente dos protestos sociais, e não por uma ação sistemática dos vários órgãos fiscalizadores ou de corregedoria.
O aparelho de segurança é sempre um ponto delicado para qualquer governo. Toda instituição estatal tende ao “insulamento”, conceito clássico da ciência política quando descreve o acionar isolado, dotado de razões próprias das tecnocracias. Se quem está insulado é o corpo armado do Estado, esta tendência é reforçada. Como a segurança no Brasil é primeiro patrimonial e depois cidadã, quem tem poucos recursos detêm ainda menos direitos.
Tal é o caso do pedreiro Amarildo. Um trabalhador brasileiro que foi preso para averiguação, torturado em uma dependência oficial, conduzido dentro de viatura policial para vir a ser assassinado por agentes da lei. Até a cobertura midiática é tímida, desproporcional ao crime de lesa humanidade.
O Rio, como termômetro do país, vive um contraste à altura de sua injusta divisão de renda. A economia formal cresce; a especulação imobiliária tem lucros vertiginosos; o solo urbano é sobrevalorizado; mas o aparelho de Estado age como se estivéssemos no período colonial.
Reprime na avenida e mata na favela. Se levarmos em conta os episódios nefastos anteriores aos Jogos Panamericanos de 2007, a tendência para 2014 e 2016 é de mão dupla. Teremos o aumento da repressão política e sindical, sob coordenação federal, como ocorrera no Leilão do Campo de Libra.
Já nas áreas ocupadas ou sob disputa com o narcotráfico, o número de mortes suspeitas tende a crescer. Seria leviano prever outro tipo de cenário para os direitos fundamentais nos anos de grandes eventos esportivos.
 Bruno Lima Rocha é cientista político. (www.estrategiaeanalise.com.br blimarocha@gmail.com)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A última sessão de cinema, por Gaudêncio Torquato

“Por que queríamos chegar ao governo? Não para agir como os outros, mas para atuar de maneira diferente”. A pergunta foi feita, há poucos dias, por Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se da mais emblemática peroração do fundador do Partido dos Trabalhadores sobre os rumos que a entidade tomou em seus 33 anos de vida.

Mesmo guardando considerações mais largas sobre as curvas de companheiros, Lula dá um puxão de orelhas em uns que dão muito valor ao parlamento e em outros, interessados em cargos públicos. E lembra os tempos heróicos d’outrora, quando “parecia bonito carregar pedra”, diferentes dos dias atuais, em que a pessoa “vai fazer uma campanha e todo mundo cobra”.
A evocação saudosa do guia do PT, mesmo que não tenha sido essa sua intenção, sinaliza o fim de um sonho, o mesmo que acolhe a intenção da ex-senadora do Acre, Marina Silva, de inaugurar, ao lado do parceiro Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB, uma nova era na política.
Os visionários de ontem e os sonháticos de hoje imaginam plantar em todas as searas da República sementes imunes aos vírus da velha política – patrimonialismo, fisiologismo, mandonismo, grupismo, nepotismo -, capazes de gerar árvores frondosas e frutos saudáveis, todas irrigadas pelas limpas fontes da ética. Os campos pragmáticos dariam lugar às roças programáticas.
Diante da impossibilidade de substituir uma cultura política por outra da noite para o dia, principalmente quando não há movimentos capazes de redirecionar práticas, costumes e processos, torna-se evidente que a emblemática Marina se assemelha, em sua peregrinação, à imagem de “carregadora de pedra” do mesmo molde do empreendimento que o velho PT tentou construir, em 33 anos, e não conseguiu.
Por que uma “nova política” tem se tornado abstração em nossas plagas, não adentrando o território da práxis? Por ser complexa a tarefa de promover mudanças rápidas na fisionomia política, principalmente quando se vê nela a estampa dos valores do passado.
Os agentes políticos em atuação no Parlamento, a quem cabe dar o primeiro passo na direção das mudanças, não se motivam a avançar em qualquer vereda reformista, considerando que a equação custo-benefício não lhes rende.
Se os avanços não ocorrem por falta de suficiente motivação dos agentes partidários, o que a estática na política acarreta ao tecido institucional? Um agregado paralisante: acomodação, mesmice, burocracia, obsolescência, embrutecimento das estruturas e passividade dos gestores públicos.
A imagem se assemelha às árvores que chegam à velhice vegetal: o crescimento diminui, os processos de regeneração são lentos, as raízes não conseguem mais retirar água do solo e sais minerais em quantidade necessária; os vasos que conduzem nutrientes param de funcionar; as folhas caem, os galhos perdem o viço, o tronco ameaça tombar a qualquer momento. Não é o que ocorre com os partidos?
Em saudável Nação democrática, 20 anos no centro do poder amarram qualquer partido numa sequóia cheia de cupins. A deterioração se instala, um ambiente acomodatício se instala nas cercanias do poder, a criatividade emperra a máquina. No passado, cada ciclo tinha sua vitamina.
A era FHC exibia a charmosa bandeira social-democrata, a mesma que, em certo momento, enfeitou as cores dos governos europeus. Tinha, de um lado, a força dos capitais privados e, de outro, os braços do Estado do bem-estar, que exigia domínio sobre os serviços públicos.
O ciclo Lula, aproveitando a derrocada do choque liberal dos anos 90, revigorou o capitalismo de Estado, inaugurando o mais abrangente programa de distribuição de renda da comunidade mundial.
Hoje, esse modelo parece exaurido. Na era Dilma, a presença do Estado na economia se faz mais forte, causando certo desconforto junto aos investidores internacionais. O PT, por seu lado, passou a ser membro atuante no palco da velha política, disputando com apetite fatias de poder e usando métodos combatidos de cooptação política.
Na floresta dos tucanos, as árvores, com cascas cada vez mais despregadas, envergam de velhice. O PSDB não se renovou. A sigla vive de lembranças de quando os governadores Franco Montoro e Mário Covas brandiam seus escopos, envergando o estandarte da modernidade.
O tom lamuriento de Lula e o desespero tucano para unir suas alas e amenizar querelas internas constituem inequívoca sinalização de que, em 2014, assistiremos à última sessão de cinema, encenada pelos dois maiores competidores eleitorais.
PSDB e PT poderão, até, voltar a resplandecer no futuro, voltando a se espichar para cima e para baixo como uma árvore adolescente, mas esse renascimento implica profundo reencontro com ideários e valores. Não significa que outros deverão, a seguir, tomar seu lugar. Não há indicação disso.
O cenário é o de difusa disputa entre grandes e médios partidos, com foco em indivíduos e não das ideias, sob a égide de uma modelagem eleitoral muito permissiva quanto a uso de recursos financeiros e centrada na exuberância mercadológica.
Por ausência absoluta de vontade política para reformar costumes e ante o mesmo blábláblá que se ouvirá no próximo pleito, faz sentido a hipótese do esgarçamento maior do tecido institucional caso protestos e expectativas frustradas continuem a fazer barulho nos tensos meses do próximo verão.
Veremos dois grandes círculos concêntricos agitando as correntes: um, que se formará na onda da Copa do Mundo, a partir de junho; e outro, que tende a bater nas margens eleitorais e despejar suas águas (votos) nas urnas.
Os resultados de um evento impactarão o outro? Os perfis mais identificados com o novo (Marina veste esse figurino?) serão beneficiados? As velhas árvores voltarão a ser viçosas?
Sejam quais forem as respostas, não há como deixar de enxergar entulhos de velhos edifícios que desmoronam por falta de reboco. Paredes carcomidas, baús embolorados, ferramentas enferrujadas se espalham nos vãos e desvãos da Federação.
 Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter: @gaudtorquato

O mundo encantado da Doutora Dilma, por Elio Gaspari

No Brasil encantado em que vive o Planalto, as obras do trem-bala estariam adiantadas, e ele rodaria em 2016, para a Olimpíada. Felizmente, continua no papel. Depois do Enem deste fim de semana haveria outro (ou já houvera). Infelizmente, foi só promessa da doutora Dilma e do ministro Fernando Haddad.

Seu substituto, o comissário Mercadante disse que prefere gastar construindo creches. Por falar em creche, durante a campanha eleitoral, a doutora prometeu mais seis mil (quatro por dia). Em abril, ela disse o seguinte: “Queremos mais, muito mais. (...) Vamos chegar a 8.685 creches.”
A repórter Maria Lima fez a conta e mostrou que seria necessário entregar 31 novas unidades a cada dia até julho do ano que vem (13 por dia até o fim do governo). A doutora zangou-se: “Minha meta é seis mil creches. Quem foi que aumentou para oito mil?” Ela.
Sua conta era a seguinte: em abril, havia 612 creches prontas, 2.568 em obras e 2.117 contratadas. Somando, chegava-se a 5.397. Se obras em andamento e contratadas são obras concluídas, 2010 foi um grande ano. Terminaram-se as obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e as águas do rio São Francisco foram transpostas. Promessas.
Para ficar na conta da meta de campanha, admitindo-se que a doutora já entregou três mil creches, até o fim do seu mandato precisa entregar pelo menos oito por dia.
O mundo encantado do Planalto desencadeia uma compulsão mistificadora. Se o governo terminar só quatro mil creches, atire a primeira pedra quem acha esse programa um fracasso. Será um grande resultado que partiu de uma promessa exagerada.
Trocando o mundo real (a obra entregue) pelo virtual (a promessa, ou o contrato), o comissariado intoxica-se numa euforia que desemboca na irritação. A última bruxaria do encantamento partiu da doutora Magda Chambrard, diretora da Agência Nacional do Petróleo.
Ela anunciou que, nos próximos 30 anos, o Campo de Libra renderá R$ 1 trilhão. Em maio passado a mesma doutora disse que “gostaria de ter mais Eikes” no setor petrolífero. Uma semana depois, começou o inferno astral de Eike Batista e de quem acreditou nele.
O encantamento desenvolve nos governantes uma síndrome de sítio, como se o mundo estivesse contra eles. De onde Maria Lima tirou a referencia às oito mil creches? De uma fala da doutora.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

De que serve a bondade - Bertolt Brecht

De que serve a bondade - Bertolt Brecht

1
De que ser a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
De que ser a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
ou melhor: que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estados de coisas que liberte a todos 
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio!

Eugen Berthold Friedrich Brech, ou Bertolt Brecht (Augsburg, Alemanha, 10 de fevereiro de 1898 - Berlim, Alemanha, 14 de agosto de 1956) - Além de poeta, foi um dos mais influentes dramaturgos e encenadores do século XX. Seu trabalho contribuiu profundamente com o teatro moderno que é estudado e montado até hoje. Criou e dirigiu o grupo mundialmente conhecido Berliner Ensemble. As traduções dos poemas foram feitas por Paulo César de Souza

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Tenebrosas transações, por José Casado

Com discrição, na quinta-feira 10 de outubro o Banco Central comunicou ao governo da Colômbia o cancelamento do registro da corretora brasileira do grupo colombiano InterBolsa, responsável pela gestão de US$ 5 bilhões em investimentos de 40 mil clientes em nove países — sete mil no Brasil e três mil nos Estados Unidos.

O governo brasileiro agiu dez meses depois do colapso da matriz em Bogotá, na esteira de fraudes com ações e lavagem de dinheiro. O governo colombiano liquidou o grupo no início deste ano, interveio em 30 empresas e socorreu outras 28 com dinheiro público — “para evitar risco sistêmico”, justificou o presidente Juan Manuel Santos.
InterBolsa era a joia do conglomerado construído por três famílias (Jaramillo, Ortiz e Leyton) influentes na praça colombiana. Seus interesses se espraiavam pela agricultura, indústria, aviação e chegavam ao futebol (Millionarios F. C.).


Jaramillo, Ortiz e Leyton faziam parte da elite do mercado financeiro brasileiro desde 2010, quando adquiriram uma das maiores corretoras nacionais (Finabank). Montaram sede na Avenida Faria Lima, em São Paulo, receberam várias certificações da BM&F/Bovespa (Qualificação Operacional, Execution Broker, Agro Broker e Home Broker etc.) e fizeram acordos com o Banco do Brasil para negociar ações brasileiras no exterior.
O império ruiu em novembro de 2012 quando foi percebida a manipulação nos preços de ações da têxtil Fabricato, vendida por US$ 45 milhões a um grupo brasileiro. Elas subiram 350% no espaço de 18 meses.
A onda de choque foi amplificada com a descoberta de negócios em “pirâmide” — modalidade de golpe formulada por Carlo Ponzi na Nova York de 1919 e ali renovada oito décadas depois por Bernard Madoff (Ponzi morreu como indigente no Rio e Madoff cumpre 150 anos de prisão por detonar a crise bancária mundial de 2008).
O caso de Jaramillo, Ortiz e Leyton vai além, segundo investigações da Receita dos Estados Unidos (IRS, na sigla em inglês) e da Procuradoria da Colômbia. Eles construíram pontes no mercado de capitais do continente para a lavagem de dinheiro do Cartel de Sinaloa, facção dominante no narcotráfico mexicano.
As provas foram coletadas pelo agente do IRS Kurt Evan Hartwell e corroboradas pelo procurador colombiano Eduardo Montealegre, com a colaboração de Carlos Eduardo Leyton, sócio da InterBolsa.
O cartel controla a distribuição de drogas em 78 cidades americanas. É comandado por Joaquín “Chapo” Guzmán, de 56 anos. Desde a morte de Osama bin Laden, ele se destaca no topo da lista de procurados pelo FBI. EUA e México oferecem US$ 35 milhões por sua cabeça.
Ainda não se conhece a extensão das tenebrosas transações com o dinheiro de El Chapo em bolsas de valores do continente. É certo que ocorreram a despeito da celebrada vigilância dos bancos centrais, inclusive do Brasil.
Também é certo que essa leniência costuma ter um custo político alto para os governos — como já percebeu o presidente colombiano Juan Manuel dos Santos em sua campanha pela reeleição no ano que vem.

Pessoas e Governos, por Elton Simões


Em todo lugar que a vista ou a mente alcançam, não parece existir resposta clara e consensual do que é um bom governo. Alguns pendem para um lado, alguns favorecem o lado oposto e, parece, a maioria fica ali pelo centro mesmo. Mas definir o que é um bom governo parece ser matéria onde consenso é obra de ficção.
Apesar da dificuldade em se atingir um acordo sobre o que é um bom governo, parece ser relativamente fácil reconhecer um país bem governado. O reconhecimento começa pelas pequenas coisas. Limpeza, ordem, serviços. Passa também pelas coisas mais complexa, como justiça, distribuição de renda e segurança. Acesso à saúde, certamente, é um must.
Mas parece que existe uma relação próxima entre um país bem governado e o interesse de sua população na qualidade do governo. Países bem governados normalmente são aqueles em que a população se envolve na discussão, estabelecimento, implantação, e fiscalização das políticas públicas.
Uma condição fundamental para um país bem governado é que seus habitantes não somente estejam bem informados, mas demandem e tenham interesse no acesso a estas informações. E que ajam baseados nelas.
País bem governado é obra que nunca termina e que nunca termina. Que não permite descanso ou distração. Que demanda atenção, esforço, e dedicação. Onde a apatia não pode ser tolerada e, sempre que possível, deve ser combatida. Países bem governados são aqueles em que a população faz questão de fiscalizar e participar.
Sem a disposição, envolvimento, e fiscalização dos cidadãos, dificilmente existem bons governos. Existem apenas governos eleitos por mecanismos confusos. Governos que propõe soluções para problemas sobre os quais sabem pouco. E que impactam a vida de pessoas sobre as quais sabem nada.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca

Contra a sedução - Bertolt Brecht

Contra a sedução - Bertolt Brecht

Não se deixe seduzir!
Não há caminho de volta.
O dia se aproxima
E já se sente o frio da noite.
A manhã não virá nunca mais.
Não se deixe enganar!
A vida não é muita coisa.
É preciso bebê-la em grandes goles!
Vocês não terão bebido o bastante
Quando chegar a hora de deixá-la.
Não se deixem envolver!
Não terão tempo bastante!
Deixem apodrecer os cadáveres.
A vida leva-os sempre
E não se vive senão uma vez.
Não se deixem arrastar
Aos trabalhos e às galeras.
De que, então, vocês têm medo?
Como todos os animais, vocês morrerão
E depois da morte não há mais nada.

Eugen Berthold Friedrich Brech, ou Bertolt Brecht (Augsburg, Alemanha, 10 de fevereiro de 1898 - Berlim, Alemanha, 14 de agosto de 1956) - Além de poeta, foi um dos mais influentes dramaturgos e encenadores do século XX. Seu trabalho contribuiu profundamente com o teatro moderno que é estudado e montado até hoje. Criou e dirigiu o grupo mundialmente conhecido Berliner Ensemble. As traduções dos poemas foram feitas por Paulo César de Souza

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Em entrevista a jornal espanhol, Lula critica o PT--O Globo

Em entrevista ao jornal espanhol “El País”, publicada ontem, o ex-presidente Lula afirmou que com o crescimento do PT, ao longo desses 33 anos, e com sua chegada ao poder foram aparecendo “defeitos”, como a valorização demasiada do Parlamento e de cargos públicos, e o surgimento da corrupção. Apesar disso, Lula disse que dirigentes do partido foram previamente condenados, por meios de comunicação, no julgamento do mensalão, inclusive, segundo ele, “à prisão perpétua”.

— Eu queria dizer que as pessoas tendem a esquecer os tempos difíceis em que achavam bonito carregar pedra. A gente acreditava, era maravilhoso. Um grupo mais ideológico, as pessoas trabalhavam de graça, de manhã, à tarde e à noite. Agora você vai fazer uma campanha e todo mundo quer cobrar. Não quero voltar às origens, mas gostaria que não esquecêssemos para que fomos criados (o PT). Por que queríamos chegar ao governo? Não para fazer como os outros, mas para agir de maneira diferente. 
O repórter retomou o assunto, lembrando o que dizia anteriormente o ex-presidente sobre o processo de crescimento (do PT):
— Aparece a corrupção — completou Lula, sem explicar na entrevista sobre quais casos de corrupção se referia.

Ex-presidente critica cobertura do mensalão
Apesar do mea culpa em relação à atuação do PT, o ex-presidente criticou a imprensa pela cobertura do julgamento do mensalão:
— No caso dos companheiros do PT, já foram previamente condenados. Alguns meios de comunicação o fizeram, independente da sentença, inclusive à prisão perpétua. Alguns (petistas) nem podem sair na rua.
O ex-presidente afirmou ainda duvidar que exista no mundo uma nação com quantidade de fiscalização tão grande como o Brasil. E disse que 90% das denúncias são feitas pelo próprio governo:
— O que digo aos companheiros é que só há uma forma de não ser investigado neste país: não cometer erros.
Na entrevista, Lula também pregou a necessidade de renovação do partido:
— O Partido dos Trabalhadores completou 33 anos de vida. Quando se chega a isso, os que começamos com 35 anos, devemos dar espaço a uma nova geração.
Quanto às manifestações de junho, que tomaram conta das ruas do país e pegaram de surpresa a classe política, o ex-presidente disse que elas “são saudáveis”. E listou conquistas de seu governo para dizer que é natural, na sua opinião, que a população queira mais.
Lula ressaltou, no entanto, que é preciso valorizar a participação democrática e não permitir que os jovens reneguem a política:
— Temos que valorizar a participação democrática e não permitir que os jovens reneguem a política, porque quando isso ocorre o que vem é o fascismo.
Apesar de haver um forte “Volta Lula” em setores do PT, o ex-presidente disse, mais uma vez, que não será candidato nas eleições do ano que vem:
— Eu tenho minha candidata, que é Dilma, e vou trabalhar para ela.
Sobre a crise econômica que afeta a Europa, principalmente Espanha, Portugal e Grécia, Lula disse ao jornal espanhol que, na sua opinião, há um problema de falta de decisão política, e não econômica:
— As decisões não foram tomadas no momento adequado. No fundo, se permitiu os mesmos ajustes que se fazem nos países pobres. Espanha ou Grécia, com suas rendas per capita, poderiam assumir ajustes de mais longo prazo, não a um tão curto (prazo), asfixiando a economia, a base de sacrifícios enormes, sem levar em conta o que vai custar à população para se recuperar.

domingo, 20 de outubro de 2013

Professora Marina Silva, venha pra cá!, por Vitor Hugo Soares

Aconteceu na madrugada de terça-feira, 14 de outubro, Dia do Professor.
Jô Soares, mestre de cerimônia do programa de entrevista e espetáculo de mais larga tradição, audiência e prestígio da televisão brasileira, não poderia ter escolhido uma data melhor e mais apropriada para a conversa especial esta semana, pela Rede Globo, com a ex-senadora acreana Marina Silva.
Nome que não sai da boca do povo há duas semanas, mas ainda atravessado na garganta de muita gente de partidos e do poder.
“Professora Marina Silva, venha para cá”, disse o âncora, ao convocar à mestra postada com simplicidade e elegância no auditório, para sentar ao seu lado na poltrona famosa do palco principal.
Começava, então,a primeira – e a mais didática e reveladora entrevista, de Marina Silva, depois da reviravolta surpreendente e espetacular, representada pela coligação com o PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos,que se seguiu à tentativa de golpe cartorial, a partir da decisão do TSE de rejeitar (6 a 1) a criação do partido Rede Sustentabilidade. 
Marina Silva no Programa do Jô. Foto: TV Globo 
Decisão difícil de engolir, principalmente no País com 33 partidos políticos com registros legais, embora boa parte deles não passem de balcões de negócios e arranjos em períodos eleitorais, como este que está em curso.Ou de barganhas de “corar frade de pedra” no Congresso Nacional, nas assembléias estaduais, ou nas câmaras de vereadores em mais de 5 mil municípios Brasil afora.
E a professora - Jô fez questão de frisar, na abertura do segundo bloco, ao qualificar uma de suas entrevistadas mais presentes e de química quase perfeita com o “talk show” e seu público ao longo de anos, principalmente o mais jovem - não negou fogo.
Convidada para estrelar um espetáculo todo seu, Marina não só justificou o título. Ela o mereceu “com lauda”, como se dizia e fazia antes nos melhores colégios e universidades do País, para assinalar méritos de alunos e professores. No tempo, evidentemente, em que o mérito era o que mais honrava e importava em uma escola.
O que se viu e ouviu a partir daí, até o “boa noite”de despedida, em plena madrugada já da quarta-feira, foi algo cada vez mais raro em nossa TV e outros meios de comunicação, eletrônicos ou impressos. Uma conversa tocada o tempo inteiro, dos dois lados, com marcas evidentes de paixão e emoção - política, pessoal e profissional - mas sem perder o foco principal: Verdade, boa informação, conhecimento e ótimas tiradas de humor inteligente. Forma e conteúdo de primeira qualidade.
Além, diga-se a bem da verdade, da ausência de máscaras e subterfúgios tão habituais nas conversas em que uma das partes anda metida na política ou no governo em preliminares de disputa de campanha eleitoral .
Uma aula de política, jornalismo e humanidade em plena madrugada. Jô, no meio e no fim da entrevista que merece reprise, apertou a garganta e conseguiu controlar as lágrimas, mas sem esconder seus sentimentos do começo ao fim.
Fale quem quiser falar. Urrem os torcedores deste insuportável Fla x Flu que tenta reduzir praticamente tudo, nos discursos e debates da política brasileira destes dias de vazio e indigência intelectual, a um jogo de mesmices.
Um confronto entre petistas e tucanos, que atuam dentro de campo como protagonistas, enquanto os eleitores ficam na arquibancada como meros espectadores, na definição tão simples quanto feliz, entre outras, da entrevistada. Quem não foi para a cama sem ele, como pede a chamada da Rede Globo, certamente viu e ouviu um Programa do Jô para não esquecer.
Há muitas reproduções da entrevista rolando em vídeos pela Rede, a WEB evidentemente, para quem perdeu no original. Ainda assim, vale destacar antes do ponto final destas linhas, alguns instantes marcantes, a exemplo daquele em que Marina se compara com a Madre Teresa de Calcutá, ao falar sobre o seu dilema entre ficar enclausurada, remoendo mágoas, depois da estranha e para ela inesperada decisão do TSE de rejeitar o reconhecimento da Rede Sustentabilidade, ou tentar a virada ingressando em outro partido.
“Se nós nos recolhêssemos, seríamos cobrados. Se eu fosse para outro partido (no caso o PPS de Roberto Freire) todos iriam dizer que estava indo para um partido de aluguel”, disse ao explicar a noite sem dormir, reuniões e conversas “duras e delicadas”, até desaguar na opção pelo PSB, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
Ou quando Marina explica o significado da flecha de duas pontas do sugestivo colar feito por ela mesma, na atividade artesanal que desenvolve a conselho de amigos, para relaxar em intervalos da intensa atividade política e de vida. Ou ainda quando declara que seu objetivo de vida não é ser presidente da República. Se achar quem realize as suas propostas contidas no programa de governo da Rede, poderá seguir “na carreira de professora que tanto me realiza e me faz feliz”.
Palmas explodem no auditório da TV, com a participação do próprio apresentador. Que professora! Encontre um vídeo do Programa do Jô, e confira. 
Vitor Hugo Soares é jornalista. Edita o site blog Bahia em Pauta.--E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Jogo jogado, Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

O discurso de que um ou outro pode ser o titular da chapa presidencial será mantido por Eduardo Campos e Marina Silva até dezembro, mas a ordem dos fatores está definida: o governador será o candidato a presidente e a ex-senadora fica na vice.

Foi nesses termos que ela o procurou na véspera do anúncio da aliança e é assim que concorrerão. Não que estejam mentindo quando dizem que a definição virá em 2014. Estão dando tempo ao tempo, esperando a virada do ano para, em janeiro, explicitar em público o combinado em particular.
Até lá, investem na preparação do tão falado "conteúdo programático" - a ser divulgado aos poucos também a partir de janeiro - e farão uma dobradinha em diversos atos políticos com a seguinte simbologia: Marina entra com o sonho e Campos entra com o trabalho braçal de viabilizar material e politicamente a empreitada.
Antes de prosseguir, uma informação importante: esqueçam que um dia Eduardo Campos disse que não seria candidato se o ex-presidente Lula da Silva entrasse na disputa. A declaração perdeu a validade, por dois motivos: primeiro, o jogo é considerado por ele jogado e, segundo, não acredita nem por um segundo que Lula será candidato no lugar de Dilma Rousseff.   
                     
A sorte, portanto, está lançada. E se dependesse de Marina e dos companheiros de Rede favoráveis à aliança, a composição teria sido assumida desde o início. Ela não nutre ilusões quanto às resistências que enfrentaria junto ao "establishment". Como a disposição dela é ganhar - se fosse só para marcar posição teria ficado de fora ou ido para o PPS -, neste aspecto foi pragmática.
Sendo assim, por que adiar a oficialização da chapa, por que o suspense, por que deixar em aberto algo que já está fechado? Por razões táticas e estratégicas.
Na conversa que tiveram em Brasília, o governador ponderou e a ex-senadora concordou que não seria bom entregar o jogo aos adversários logo na partida. "Quanto mais dúvidas tiverem, mais difícil fica a reação", disse ele.
Além disso, Marina Silva precisaria de tempo para "trabalhar" seus correligionários contrários à aliança e convencer seu eleitorado sobre o acerto da decisão. A indefinição oficial permite ainda que os dois deem prioridade à discussão programática que, do contrário, ficaria em segundo plano em relação às candidaturas.
Pesou outro fator: se não assumir desde já a vice, a ex-senadora, como diz um aliado de Campos, permanece "viva no processo" e ajuda o governador a se tornar conhecido devido à geração de notícias decorrentes da aliança. Efeito que o PSB já espera ver nas próximas pesquisas por causa da exposição do governador nos meios de comunicação.
Por fim, a preservação do segredo - ainda que de polichinelo - mantém em alta o interesse dos políticos e da imprensa sobre o que vai acontecer. "Se dizemos logo o que e como vai acontecer, a novidade envelhece", disse a Marina a voz da experiência de Eduardo Campos, cujo quinto filho nasce em fevereiro batizado Miguel, como o bisavô Arraes.

Outubro, por Elton Simões

No Norte, perto da ponta do mundo, Outubro traz o Outono. As cores mudam. As árvores desfilam cores diferentes. Vestem-se, em diferentes tonalidades de amarelo ou vermelho, provavelmente causando inveja aos pinheiros que, teimosamente, permanecem verdes
Outubro inaugura aquela época do ano em que já se pode encarar o ponto randômico no tempo que escolhemos para marcar a passagem do ano. O ano novo fica visível como um ponto de luz no fim do túnel. Próximo o suficiente para ser visto, mas longe demais para determinar sua substancia.
Visto de outubro, a luz do ano novo não permite dizer se por ai vem o trem ou o fim do túnel. Apenas que a luz esta lá, chegando cada vez mais perto no ritmo da batida do relógio. A cada tic, e em todos os tac, o ano novo fica mais perto, mais nítido, mas igualmente incerto.
É nesta altura do ano em que começamos a nos convencer que o ano está definido. O que será, será. Ou já foi. Dá para olhar para trás e ver as oportunidades perdidas sem, no entanto, conseguir ressuscita-las ou reverte-las antes que acabe o ano gregoriano.


Dá para lembrar e esperança do começo do ano. As promessas de vida melhor. As previsões de PIB maior com inflação menor. A impressão de que a justiça, enfim, embora muito tardia, poderia, uma vez ao menos, não falhar.
Dá para lembrar-se do povo se encontrando na rua buscando, pacificamente, uma vida melhor, mais justa, mais cheia de esperanças e menos tomada por promessas frustradas. O gigante que (parecia) havia acordado voltou a descansar. Ou talvez a apatia esteja irremediavelmente tatuada em seu DNA.
De outubro, dá para ver que, para acalmar o gigante, bastou apenas que lhe fossem administradas algumas doses dos flácidos solilóquios que fazem dormitar bovinos. A esta altura, em sono profundo e em berço de qualidade duvidosa, o gigante apenas sente a dor de não ser e a vergonha de já ter sido. E nada mais.
Talvez esquecer alivie o desconforto causado pela diferença entre intenção e fato. Mas memoria tem suas crueldades. É às vezes até sádica. Com dificuldade, aprende a se lembrar. Mas jamais aprende a esquecer. Outubro é quando dá para sentir o quanto a esperança é bela. E o quanto é frágil.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Faça humor, não faça guerra!





Num momento em que vândalos usam a violência como pretexto de ação política, merece aplausos esta iniciativa dos bancários, que estão em greve. Eles encontraram, como mostra este flagrante, feito por volta de 13h de ontem, na Rio Branco, Centro do Rio, uma forma bem-humorada de lutar por salários melhores. Democracia é melhor.Share on google
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domingo, 6 de outubro de 2013