quinta-feira, 26 de setembro de 2013

(des)Classificados "Aluga-se"

A regra do jogo
Os mensaleiros não são os únicos réus que lutam para postergar o cumprimento de suas penas e mesmo condenados não irem para a cadeia. A cúpula do Banco Nacional, que em 1994 sofreu intervenção do Banco Central, teve êxito até agora. O processo começou em 1997 e em 2002 foram condenados. Três deles pegaram mais de 10 anos de cadeia e continuam livres, leves e soltos. 

Naufrágios, por CARLOS VIEIRA

Quantas crianças morrem sem atendimento, 
Quantas pessoas ficam sem o que comer, 
Quantos pacientes não suportam a dor de não serem atendidos e falecem nas portas dos hospitais.
Quantas criaturinhas ainda não sabem ler, pois a verba não chegou, foi distribuída entre os donos do poder. 
Quantos milhões e bilhões foram desviados da causa pública. 
Quantos domingos sem poder ir ao parque, 
Quantos gemem e morrem de frio pela falta de agasalho. 
Quantos se afogam no crack, por revolta, ódio, Inveja e desespero. 
Quantos carros oficiais, verbas de paletós, passagens aéreas no lugar dos recursos para alimentação, educação e saúde. 
Quantos nos presídios não terão os benefícios dos futuros “presos oficiais”. 
Quantas lágrimas escorregam pelo rosto, de fome e miséria 
Quantos são mortos para que outros se beneficiem com as benesses do poder. 
Quantos, meu Deus, estão presos sem que se ouça os pedidos de recursos infringentes. 
Quantos jovens, nesse momento, perderam a Justiça como referencia. 
Quantos e quantas pessoas não conseguiram dormir na quarta-feira passada com o anúncio do “julgamento do julgamento”. 
Quantos esforços para resgatar a fé, o sentido de justiça, o direito à sobrevivência e o respeito à civilidade. 
O povo calou, os jovens desistiram de ir às ruas, os fascistas venceram, amedrontaram aos que querem gritar, pedir e exigir um lugar ao sol. 
Quantos serão candidatos, talvez eleitos e reeleitos; quantos serão indicados aos tribunais; 
Quantas caixas de pandora ainda serão abertas e julgadas(?) 
O “julgamento do século” anunciou o Apocalipse!
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Adeus, PDT!, por VIVALDO BARBOSA

O PDT é dirigido pela dupla Lupi e Manoel Dias, que, com a morte de Brizola, colocaram o livro de atas debaixo do braço e montaram uma estrutura de domínio do partido com a permissividade dada às direções partidárias pela legislação. Têm o assentimento das bancadas na Câmara e no Senado, pois distribuem o mando nos estados com os deputados e senadores.

Em troca do apoio ao governo federal, nas votações na Câmara e no Senado e no tempo de televisão nas campanhas eleitorais, a dupla recebeu o Ministério do Trabalho, que é ocupado, ora por um, ora por outro. Nos estados e nas prefeituras, independentemente da coloração política do governador ou do prefeito, reproduzem a mesma aliança: o PDT e o ministro indicam os secretários do Trabalho. As verbas saem do Ministério, vão para as secretarias administradas por secretários indicados por eles e são direcionadas para ONGs ocupadas por gente a eles ligadas, que recebem e repartem as verbas. O mesmo grupo de deputados, secretários, seus assessores, os dirigentes amigos das ONGs, ocupam o Diretório Nacional do PDT, fonte originária de todo esse esquema de poder para aproveitamento de verbas públicas. Dos mais de trezentos integrantes que compõem o Diretório Nacional, entre 10 e 20% são de militantes trabalhistas e nacionalistas autênticos e originais.
Além do esquema das verbas do Ministério do Trabalho, há o Fundo Partidário, que deveria financiar atividades político-partidárias, hoje de valores elevados, a despertar a mesma cobiça. Mas o PDT não tem vida orgânica, é administrado por meio de comissões provisórias nos estados, que por sua vez as repetem nos municípios. Não promove estudos, nem debates, nada publica. Ainda há a cessão de legenda e tempo de televisão nas eleições, outro espaço de negociação.
O PDT é um ambiente de procura de vantagens, não mais participa das lutas do povo brasileiro, está muito distante de ser um partido trabalhista e nacionalista como caminho brasileiro para o socialismo, como era o desejo e a esperança de Brizola.
Nós, de longa data de militância partidária, fundadores do partido alguns, outros que foram colaboradores de muito tempo e muito perto de Brizola, organizamos o Movimento de Resistência Leonel Brizola para lutar pela volta do partido às suas origens e não permitir que fosse desviado de seus trilhos. Temos lutado durante os últimos anos, feito reuniões, manifestações, contatos com bancadas e outra instâncias, lançamos diversos documentos, até realizamos convenções nas ruas, fomos à Justiça. Nada adiantou.
O PDT não tem mais jeito. Não nos resta mais esperança de ver o partido voltar ao seu leito histórico de honradez e firmeza de princípios. Permaneceremos fiéis às lições de Brizola.
É com lágrimas de sangue e com dor de carne exposta que saio do PDT e tiro uma camisa que é como se retirasse a própria pele.
Vivaldo Barbosa foi deputado federal, líder do PDT e secretário de Justiça do governo Leonel Brizola.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ruth Escobar, a irrequieta --obrigado Ancelmo---

Desde 2000, Ruth Escobar, a grande produtora teatral que agitou a cena brasileira por 30 anos, inclusive durante a ditadura militar, vive com mal de Alzheimer, em São Paulo. A doença já devorou sua memória e esvaziou seu cérebro. Mesmo antes da doença, Ruth, de 78 anos, andava meio sumida. “Há uma falta de interesse em valorizar o papel que ela teve na cultura”, lamenta o historiador Éder Sumariva, que prepara a tese “O embate além do sangue e da carne de Ruth Escobar: censura e ditadura militar”. Portuguesa de nascimento, mas brasileira de coração, ela ousou. Em “Torre de Babel”, colocou em cena um burro chamado Ernesto, nome do general Geisel, que presidia o país com mãos de ferro. Apesar dessas afrontas, nunca foi presa. Márcia Vieira, da turma da coluna, trocou dois dedos de prosa com Éder:

Por que você diz que Ruth foi fundamental para enfrentar a ditadura?

Ela montava espetáculos politizados. Lutava pela liberdade de expressão. Era combativa, provocava embates com militares e censores. Ruth colaborou para a renovação da cena teatral. E conseguiu, naqueles tempos, produzir espetáculos com 40 atores.

Como ela conseguia dinheiro para isso?

É curioso. Ruth travava embates homéricos com os censores e buscava no poder público os recursos financeiros para as peças. E conseguia! Tinha verba do Serviço Nacional de Teatro, da Funarte. Ia atrás de dinheiro com políticos (ela foi deputada duas vezes nos anos 1980). Não tinha pudor em pedir. Ela fazia muitas peripécias.

Que tipo de coisas?

Quando quatro atores de “A Revista do Henfil” foram presos em Santos pelo Dops, ela invadiu a delegacia com o Eduardo Suplicy. E soltaram todos. Outra vez, no Dops de São Paulo, fez tanta algazarra que um policial gritou: “Liberem este ator antes que ela coloque fogo aqui.”

Por que ela é pouco valorizada?

Ruth criou inimizades, tanto na classe artística quanto na política. Pelo próprio jeito dela. Todo mundo duvidou que ela construiria um teatro, e ela conseguiu. Isso despertava inveja. Nada era impossível para ela. Por isso é tão duro vê-la tomada pela doença. É cruel uma pessoa como Ruth acabar assim.

MUDANÇAS APARECEM COM SUBSTITUÍDOS E RECICLADOS, por MARLI GONÇALVES

Vivemos vendo ser feito, toda hora. Também fazemos. E até nós próprios acabamos sendo substituídos, ou substituindo – coisas, atos e hábitos, pessoas. A cada vez a velocidade é mais alucinante. O que nos leva quase a ser descartáveis, recicláveis. Tem um lado bom.
Uma coisa trocada por outra. Uma pessoa trocada por outra. Nada mais é indispensável? “Ninguém é insubstituível” é uma das máximas mais cruéis que conheço. Tanto que tem até livro de autoajuda para quem se sentir largado não sofrer tanto, e pelo que vi vendeu igual água. Nele se encontram pérolas como “Se os seus projetos não saturarem a sua emoção, você não terá perseverança para executá-los”. Enfim, como cada um entende mesmo o que quer do que lê…
Na doidivana loucura do cotidiano esse assunto entrou na minha pauta, acreditem, quando passaram por mim dois PMs motorizados. Imediatamente lembrei-me da cavalaria e do garbo com que seus cavaleiros desfilavam, mesmo quando estavam correndo atrás da gente em passeatas contra a ditadura. Havia certa nobreza que adorávamos ver desfeita jogando bolas de gude para que escorregassem e se esborrachassem. Parávamos um pouco de correr deles só para dar uma boa risada de deboche; depois, sebo nas canelas!
Hoje há poucos montados. Montam em motos. E isso não só a polícia, como a população deste país e seus rincões. Cavalos trocados por bicicletas, depois por motos, carros, até chegar ao suprassumo dos enormes utilitários que inundam as ruas como símbolo de prosperidade. Os jegues, coitados, vêm sendo largados à sorte, nas estradas, famintos, um dos novos dramas particularmente lá no Nordeste. Outro dia, inclusive, vi um documentário que mostrava famílias inteiras amontoadas em cima de uma moto, até cinco pessoas e pessoinhas, sem qualquer proteção, causando congestionamento, mas de números de acidentados nos hospitais. Problemas que não há Mais Médicos que resolvam.
A vida é uma sucessão de substituições. Esposas são trocadas por amantes que, esposas, acabam substituídas (ou substituindo). Tem muita gente trocando cachorro por gato, que dá menos trabalho. Por aí vai longe: conversas olho no olho são trocadas por celulares e outras traquitanas, algumas até com visor. Lembram quando pensávamos como seria quando pudéssemos ver a cara da pessoa do outro lado da linha? Parecia distante. Pois não é, foi?
Lembrei de quantas coisinhas mais do dia a dia foram substituídas sem que ninguém chorasse muito por elas: fusíveis, videocassete, LPs, CDs, fita cassete. Mudamos tudo, trocamos as coisas, às vezes até pensando em ajudar o planeta. O porco deve estar atento com seu focinho já que até as tomadas foram substituídas. Daqui a pouco vai ser tudo movido por digital, íris, força do pensamento. Toque por tique. Alhos por bugalhos.
Os vidros já foram substituídos por plásticos. Os sabores e ingredientes reais por corantes e aromatizantes. Lá se foram velhos hábitos, até como o de ler jornais e revistas no banheiro, trocados por joguinhos infernalmente viciantes, ou momento para participação nas redes sociais – coisas permitidas pelo desenvolvimento do Wi-Fi que também acabou por libertar muitos das cadeiras e dos computadores fixos. Aliás, no banheiro houve muitas substituições: papel higiênico por mangueirinhas, sabonete em barra por espumas espumantes de limpeza, buchas por cremes esfoliantes.
É. Nada tem mesmo tem muita garantia de ser insubstituível. Nem ratinho de laboratório. Nem ator, atriz, tantos dublês prontos por aí. Técnicos são substituídos igual como se troca de cor de camisa – no futebol é uma loucura. Por aqui até médicos brasileiros vêm sendo substituídos, além de veteranos virando novatos, palavra em voga nos últimos tempos.
Por falar nisso, as palavras também foram substituídas. Nada mais é vendido; é comercializado. Fora o terrível “inicializando” dos sistemas de informática. Mas, se até – eu pelo menos não vejo faz tempo – muitos aposentaram as velhas palavras cruzadas!
Só que tem coisas que é bom ficar bem atento, e que estão galopantemente sendo substituídas.
Como os argumentos, trocados por ataques. Ou o caráter agora trocado pela competitividade desmedida para tentar ser o melhor entre os melhores aqui da terra, para debaixo da qual todos nós vamos (ou virando pozinhos, cremados, como quero ser). Momento quando seremos realmente substituídos. Mas talvez, dependendo do que fizermos, substituídos, sim, mas jamais esquecidos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Veja o que o povo fala sobre a decisão do STF no Mensalão (Coluna do Ancelmo)

Diante da simples pergunta o que o você achou da decisão do STF, que acolheu os embargos infringentes, nossa página no Facebook e nosso blog receberam em menos de uma hora mais de 140 respostas dos nossos queridos leitores. Conheça algumas delas, enviadas por gente que dá o nome completo; muitas têm até foto no Facebook. Esse é o Brasil que mostra a sua cara.

"Cheiro de pizza no ar..." (Aurora Guimarães)
Justo. Duplo grau de jurisdição é uma garantia prevista na Corte Interamericana de Direitos Humanos. (Deivison Alves)
"Chegará o dia em que o homem sentirá vergonha de ser honesto" disse Rui Barbosa e hoje este dia chegou para mim! No Brasil, o crime compensa muito! (Nina Estevez)
Impossível dizer alguma coisa sem xingamento. (Marinez Grossi)
A cara do judiciário. Os processos civis e penais foram feitos para nunca terminar, e não terminam. Estamos há quantos anos no Supremo???? Imagine se o processo começasse no Primeiro Grau? A impunidade sempre imperará. O processo é feito para terminar com a morte das partes por causa do decorrer dos anos. (Eduardo Holst)
Tenho um pouco de conhecimento sobre o assunto e, no voto em questão, foi dada uma aula de DIREITOS Humanos. Porém com muita raiva nos olhos pude ver que a Pizza já foi servida!! (Patrícia Polydoro)
O garantismo no Brasil se tornou sinônimo de impunidade. O STF desmoraliza e fragiliza o que resta da democracia brasileira. A lição que fica é clara, poderoso no Brasil jamais paga a conta. (Judson Maciel)
Vergonha, indignação e sinceramente sem esperanças de um futuro digno... (Maria Luiza)
Triste. Politicamente, venceram as extremas esquerda e direita. Só perdeu... o povo.(Gilberto Borba)
Isso é Brasil, não precisa dizer mais nada...(Alexandre Crespo)
Pode-se recorrer na ONU? VERGONHA! (Herbert Teixeira)
Ancelmo Gois, como você diz: uma cambada de.....deixa pra lá... (Jader Queiroz)
Depois que revi no tempo que o mesmo ministro ABSOLVEU o Collor no julgamento do STF....percebi que nada mudou! (Agar Stellita Vieira)
A única forma dos mensaleiros serem presos e a Fifa exigir suas prisões para que tenha a Copa de 2014 (Carlos Eduardo)
Purismo jurídico característico de uma corte mergulhada no ranço de um sistema corroído e arcaico. A que se considerar também o universo político, fonte das indicações para quem ocupa as cadeiras daquele plenário. Conclui-se então que aquela corte não tem independência para julgar casos que envolvam personagens do governo que os indica. Como os outros dois poderes dessa republiqueta sul-americana, também esse é corrompido! (Paulo Xango Barbosa)
Congresso que apoia bandido que chega algemado e sai algemado pela PF, Supremo Tribunal Federal que beneficia um bando de corruptos... Onde encontrar a Dona Justiça nesse país? Onde!? (Rosimar Fonseca)
Acho que ele deu um show de como respeitar a Constituição. (Fernandes Torres)
Show é o de vergonha que todos nós brasileiros estamos sentindo!!!! (Regina França)
Como todos os brasileiros viram técnicos de futebol na Copa, hoje todos sabem tudo sobre advocacia e Constituição! (Isabel Schumann)
Escárnio com a população digna! (Sérgio Castela)
Não entendo como nossa Constituição é usada de uma maneira para uma minoria, é para a maioria dos brasileiros ignorada. O pior é que estas pessoas ainda vão se aposentar com dinheiro público, e usufruir do que roubaram em liberdade. Estou muito envergonhada de ser brasileira pois ainda confiava no Judiciário. (Eloísa Helena Brito)
Vergonha ter uma Justiça desse quilate em nosso país. Vergonhoso!!!! Nojento tudo isso!!!! (Carmencita Silva)
Então quer dizer que: se um grande traficante de drogas, homicida, sonegador de impostos que for condenado até na última instância da justiça brasileira pode pedir revisão de pena??? BRASIL: PREPARE-SE PARA O PCC TOMAR CONTA DO PAÍS NOS PRÓXIMOS ANOS. (Luiz Lima)
Os políticos não tem idéia da caixa de pandora que abriram. A noite chegou. (Carlos Pinto Silva)

O principal ponto não foi o voto do Min Celso de Melo. Foi a protelação do julgamento, para dar tempo ao Governo de "renovar" o STF, com novos membros. Agora, mudaram em parte os julgadores. Seguramente, muitos dos réus terão sua pena reduzida, e irão mudar a forma de cumprimento da pena, com o novo voto a ser proferido pelos novos membros do STF - que já manifestaram esta tendência. Isto é Brasil. O PT conseguiu o que queria. (Moreira Lima)
O Brasil sai menor e o STF sumiu do mapa. Os brasileiros não podem e não devem contar com a Justiça do Brasil. Este julgamento irá para o nunca. Um dia triste para o Brasil. No entanto, já era esperado (Paulo Roberto de Oliveira)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Cronos still riding.....


terça-feira, 17 de setembro de 2013

A ingratidão da Globo, por Mino CARTA

Ingratidão da Globo me espanta, ela vomita no prato em que comeu, com o perdão pelo uso do verbo, de eficácia indiscutível, no entanto. Aludo ao editorial com que o mais autorizado porta-voz das Organizações, O Globo, brindou seus leitores dia 1º de setembro. Diz-se ali que apoiar o golpe de 64 foi erro nascido de um equívoco. Veio a ditadura, como sabemos, provocada pelos gendarmes chamados pelos donos do poder civil, entre os quais figurava, com todos os méritos, Roberto Marinho, e os anos de chumbo de alguns foram de ouro para a Globo.
A empresa do doutor Roberto cresceu extraordinariamente graças aos favores proporcionados pelos ditadores, gozou de regalias incontáveis, floresceu até os limites do monopólio. O apoio de 64 prosseguiu impavidamente por 21 anos, enquanto o Terror de Estado imperava. Grassavam tortura e censura, repetiam-se os expurgos dentro do Congresso mantido como estertor democrático de pura fancaria. Só o MDB do doutor Ulysses Guimarães redimiu o pecado original ao reunir debaixo da sua bandeira todos os opositores do regime. Para desgosto da Globo.
Sim, O Globo apoiou o golpe, juntamente com os demais jornalões como o editorial não deixa de acentuar, e também apoiou os desmandos do regime, a começar pelo golpe dentro do golpe que resultou no Ato Institucional nº 5. E prisões e perseguições, e até as ditaduras argentina, chilena e uruguaia.
Em contrapartida, combateu Brizola governador, e de modo geral, os demais governos de estado conquistados pela oposição em conjunturas diversas, bem como o movimento sindical surgido sob o impulso de um certo Luiz Inácio, presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, responsável pelas greves de 78, 79 e 80, finalmente preso e enquadrado na famigerada Lei de Segurança Nacional.
Derradeiro lance global, a condenação inapelável do movimento das Diretas Já, quando a Globo foi alvo da ira popular e um veículo da empresa foi incendiado na Avenida Paulista no dia 25 de janeiro de 84, ao término de uma manifestação que reuniu na Praça da Sé 500 mil pessoas. Rejubilou-se, contudo, o doutor Roberto, com a rejeição da emenda das Diretas, obra magistral da Arena de José Sarney, e com a formação da Aliança Nacional, nome de fantasia da enésima, inesgotável conciliação das elites.
Realidade pastosa
Não se diga que a Globo deixou de ser coerente com seus ideais. Decisiva na eleição de Fernando Collor em 89, com a manipulação do debate de encerramento com Lula, comandada pelo doutor Roberto em pessoa. Nosso colega, como sustentavam seus assalariados, não hesitou em promover a festa carnavalesca contra o presidente corrupto, desmascarado somente pela IstoÉ ao descobrir a testemunha inesperada e fatal, o motorista Eriberto. Antes disso, o governo Sarney contara com o apoio irrestrito da Globo, sempre beneficiada por Antonio Carlos Magalhães, ministro da Comunicações, na mesma medida em que o fora por outro amigo insubstituível, Armando Falcão, ministro da Justiça do ditador Ernesto Geisel.
O governo Fernando Henrique quebrou o País três vezes, mas nunca lhe faltou o aplauso global oito anos a fio, tanto mais na hora do singular episódio intitulado “Privataria Tucana” e da compra dos votos para garantir a reeleição do príncipe dos sociólogos, sem falar do “mensalão” também tucano. Houve até o momento em que, tomado de entusiasmo, o doutor Roberto acreditou cegamente na sua colunista Miriam Leitão, segundo quem, eleito pela segunda vez, FHC garantiria a estabilidade da moeda até o último alento. Doze dias depois de reempossado, o príncipe desvalorizou o real e cobriu a Globo de dívidas. Havia, contudo, um BNDES à disposição para tapar o buraco.
FHC deixou saudades, a justificar o apoio compacto aos candidatos tucanos nas eleições de 2002, 2006 e 2010. E a adesão à maciça campanha midiática que, como em 1964, coloca jornalões e quejandos de um lado só, então a favor do golpe, nos últimos dez anos contra um governo tido como de esquerda, atualmente a carregar a herança de Lula. Vale observar, aliás, que mesmo no instante do pretenso arrependimento, O Globo de domingo passado desfralda os mesmos argumentos de 50 anos atrás. Donde a evocação da “divisão ideológica do mundo” à sombra álgida da Guerra Fria, aprofundada no Brasil “pela radicalização de João Goulart”. Enfim, renova-se o aviso fatídico: a marcha da subversão estava às portas. Eu a espero em vão até hoje.
Sim, o doutor Roberto acreditou ter agido acertadamente até sua morte e sempre chamou o golpe de revolução. Explicaria em um dos seus retumbantes editoriais da primeira página, no 20º aniversário daquele que seus pupilos agora definem como “equívoco”, que “sem povo não haveria revolução”. E quem seria o povo daquela quadra criminosa? As marchas dos titulares da casa-grande e dos seus aspirantes, secundados pelos fâmulos momentaneamente retirados da senzala.
Sim, é verdade que muitos jornalistas de esquerda tiveram abrigo na redação de O Globo, e alguns deles foram e são amigos meus, mas não me consta que o doutor Roberto se tenha posicionado “com firmeza contra a perseguição” de profissionais de quaisquer outras redações. Vezos nativos. O Estadão chegou a hospedar colunistas portugueses, inimigos do regime salazarista. Tinham eles a virtude de escrever em castiço os editoriais ditados pelo doutor Julinho. Este gênero de situações reflete a pastosidade emoliente da realidade do País, onde o dono da casa-grande pode permitir-se tudo o que bem entender.
Confissão peculiar
De todo modo, não é somente deste ponto de vista que a Globo foi deletéria. Ensaios foram escritos no exterior para provar como a influência global foi daninha, inclusive com telenovelas vulgarizadoras de uma visão burguesota, movida a consumismo e cultura da aparência, visceralmente apolítica, anódina e inodora. Como tevê, e como jornal, a Globo já foi bem melhor. Ocorrem-me programas de excelente qualidade, conduzidos por humoristas como Chico Anysio e Jô Soares, capazes às vezes de ousar o desafio sutil à ditadura. Mas a queda foi brutal, como se deu em relação ao jornal à época da direção de Evandro Carlos de Andrade. Lamentáveis as opiniões, em compensação, boa, frequentemente, a informação.
O texto do editorial carece, é óbvio, da grandeza que a situação recomendaria, pelo contrário é de mediocridade e superficialidade doridas, não somente na lida difícil com o vernáculo, mas também pela demonstração, linha a linha, palavra a palavra, e, mais ainda, no desenrolar do raciocínio central, da sua insinceridade orgânica. Surge, de resto, da covardia diante das manifestações anti-Globo e, como de hábito, aferra-se à hipocrisia típica dos senhores da casa-grande, velhacos até a medula.
Esta é a gente que gosta de brigar na proporção de cem contra um, se possível mil, sem mudar o número de quantos ousam confrontá-los. Incrível, embora natural, inescapável, nesta pasta víscida e maligna que compõe a verdade factual do país da casa-grande e da senzala, a falta de um debate em torno da peculiar confissão global, como acentua Claudio Bernabucci na sua coluna desta edição. Que dizem os jornalões acusados de conivência pelo O Globo? Que dizem as lideranças partidárias? E o Congresso? Nem se fale das figuras governistas e parlamentares que até agora enxergam na Globo um sustentáculo indispensável.
Silêncio geral, entre atônito e perplexo.***
Mino Carta é fundador e diretor de Redação da Revista semanal Carta Capital

Luzes e sombras, por Míriam Leitão

As luzes de setembro, a chegada da primavera, a temperatura amena, tudo torna o mês encantador. Mas a história tem deixado cicatrizes no mês: os 40 anos do golpe do Chile, os 12 anos do atentado às Torres Gêmeas, os cinco anos da crise econômica. Os sinistros de setembro permanecem com suas sombras, exigindo de nós reflexão e superação.

Certas dores precisam ser analisadas, para serem um dia, eventualmente, superadas. Não são simples efemérides. Elas ficaram, de certa maneira. A devastação do 11 de setembro do Chile não foi esquecida. Foram dois mil e quinhentos mortos, e a sombra permanece. Na eleição, concorre mais uma vez a filha do general morto pelo regime. Michelle Bachelet deve governar de novo o país. Mas também concorre, por ironia, Evelyn Matthei, filha de um dos suspeitos pela morte do pai de Bachelet. Companheiros de farda, Bachelet foi preso na Academia de Guerra dirigida por Matthei. Contudo, o Chile avança na economia e na democracia.
O 11 de setembro de 2001 em Nova York encerrou o período iniciado na queda do muro de Berlim e no qual se vislumbrou a chance de um mundo sem as profundas divisões da guerra fria. Na política americana, a direita fundamentalista se fortaleceu e a lei de segurança interna perturbou turistas e atormentou todos os americanos que desafiassem o comportamento padrão. Duas guerras foram deflagradas, alguns direitos individuais foram suspensos, como o de não ser mantido preso sem julgamento. Quem achou que tudo ocorria porque o governo Bush era uma aberração vê agora, no segundo governo do democrata Barack Obama, que a lógica da segurança nacional sequestra qualquer presidente. A burocracia da segurança interna dos Estados Unidos se dá o direito de invasão da privacidade de pessoas, governantes e empresas de outros países. O efeito do 11 de setembro permanece e acaba de criar, entre Brasil e Estados Unidos, um enorme desconforto diplomático.
O quinto aniversário da crise econômica ocupou as páginas deste jornal nos últimos dias com seus amplos desdobramentos. As finanças dos países continuam arruinadas, as economias permanecem abaladas e a pior herança não foi enfrentada. O desemprego é alto em quase todos os países da Europa e atingiu níveis intoleráveis entre a juventude. A Europa já fala de uma geração perdida que não consegue entrar na hora certa no mercado de trabalho e que vive o desalento de constatar que o presente é pior que o passado, e o futuro não traz esperança.
Nenhum banqueiro, administrador de fundos, inventor de ativos tóxicos respondeu por seus atos de gestão temerária do dinheiro da população. Nenhuma agência de risco foi constrangida a explicar suas notas máximas para ativos podres, muitos deles criados sob orientação das próprias agências num flagrante conflito de interesses. Elas permanecem no mercado, com sua lista de clientes e sua influência sobre a alocação de recursos. Para não dizer que não houve punidos, houve um único caso: o da quebra do Lehman Brothers, que fez com que seus acionistas perdessem patrimônio. Todos os bancos que quebraram antes e depois foram salvos com dinheiro do contribuinte, elevando as dívidas públicas a níveis extravagantes. Até os Estados Unidos já viveram — e voltarão a viver em breve — o drama de visitar a véspera do calote a cada vez que precisa elevar o teto do endividamento público. Já os bancos voltaram a ficar tão lucrativos quanto antes. Aqui no Brasil, no Proer dos anos 1990, os banqueiros perderam seus bancos, os ativos dos poupadores foram preservados, e os donos e administradores foram responsabilizados na Justiça.
Nada liga os fatos acima. Por fatalidade, ocorreram em setembro. Por coincidência, são eventos, políticos ou econômicos, que se prolongam no tempo. A viúva de Victor Jara, o músico chileno barbaramente morto na tortura, ainda aguarda que os criminosos sejam punidos. A governança americana continua soterrada pelas cinzas das Torres Gêmeas e a NSA, a agência de segurança nacional, iguala na espionagem burra e abusiva países com histórias tão diferentes quanto Brasil e Irã. A economia mundial ainda vive os efeitos da crise detonada pela quebra do Lehman Brothers. As dores, políticas ou econômicas, de setembro são duráveis. Ainda não permitem dizer que o passado passou.

"Boca maldita"...ataca de novo!

Um acordo e tanto

Nos bastidores do Senado e da política de Alagoas não se fala de outra coisa. A história é a seguinte: o deputado Renan Filho (PMDB) será candidato a governador e o senador Collor de Mello (PTB) vai disputar a reeleição. Por isso, para tirar o governador Teotônio Vilela (PSDB) da parada, Collor e Renan estão tentando emplacar o nome do tucano para a próxima vaga no TCU.

Comentario meu---politica às avessas--me sirvo e depois lhe sirvo. Tudo dentro da sucia instalada. O POVO......ora, o Povo pode esperar......

Amanhã vai ser outro dia......(Chico B)


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

JULGAMENTO DO MENSALÃO

Pausa para Minerva, a sábia--Por Alberto Dines em 14/09/2013 na edição 763
     
Os projetistas que desenharam nosso arquétipo não deixaram espaço para o componente reflexivo. Impacientes e/ou ansiosos, montaram um estereótipo à sua imagem: um sujeito impulsivo, infenso à meditação, incapaz de ensimesmar. Os fados, deuses ou o destino – aparentemente  mais tranquilos  e esmerados – tentam refinar o paradigma psicológico ao qual nos confinaram impondo exercícios periódicos capazes de frear nossa sofreguidão e excitação.

Como agora, com este inesperado empate na corte suprema no caso do mensalão. O voto de Minerva a ser proferido na próxima semana pelo decano dos meritíssimos, ministro Celso de Mello, não pode ser classificado com a ótica do apocalipse e da ruptura.

Ao trazer para o noticiário e para a inóspita Praça dos Três Poderes, em Brasília, o nome e figura da romana Minerva (equivalente da grega Atena), nossa mídia deveria lembrar os seus atributos básicos – é a deusa da sabedoria, da excelência, das artes e da estratégia. Usá-la como sinônimo do voto de desempate é um preito à consciência, bom-senso, discernimento e prudência em escolhas transcendentais.

Capital da insensatez

No caso da AP 470, este voto de Minerva parece feito sob medida: as qualidades do magistrado paulista  não  advêm apenas da senioridade e experiência, mas da sua absoluta transparência. A clareza com que expõe suas opiniões não é fruto apenas da eloquência  ou retórica, mas da nitidez dos seus compromissos morais. Sua condenação dos malfeitos cometidos pelos mensaleiros foi arrasadora, uma das mais duras registradas no plenário do STF nos últimos treze meses: além dos privilégios e favorecimentos, os acusados atentaram contra a democracia, agrediram a paz pública, subverteram os valores republicanos.

E se agora Celso de Mello parece inclinado a aceitar o recurso dos embargos infringentes não está retocando as  opiniões anteriores, apenas reforça a futura sentença impedindo que os réus venham a se proclamar como vítimas de um processo indevido, apressado e manipulado.

O recém-chegado Luís Roberto Barroso também tentou exibir-se como prisioneiro de sua consciência, mas ao declarar que não se importa com a repercussão das suas escolhas, desvendou um arrogante desprezo pela “multidão”, esquecido que ela é o conjunto de cidadãos e contribuintes. Sem o querer adotou o espírito de Fla-Flu e da polarização que pretendia evitar.

A tremenda expectativa criada em torno do julgamento de um número tão grande de ex-poderosos não pode ser pretexto para uma decisão incompleta. Aceitar agora embargos infringentes, apesar da carga negativa do verbo infringir (violar, transgredir, desrespeitar), pode ser a oportunidade para discutir e acabar com a “cultura dos recursos” que, segundo o jurista Joaquim Falcão, banaliza o mal e torna injusto o aparato da justiça.

O empate no Supremo Tribunal Federal – oferenda  do acaso – vai  nos acostumar a refrear falsas premências, preconceitos, impulsos, frenesi. E o poder de desempate conferido a Celso de Mello é dádiva maior: pode servir como estímulo para construções doutrinárias mais elaboradas e sérias.

Qualquer que seja o desfecho do julgamento, esta pausa e a rara aparição de Minerva na capital da insensatez é de bom-agouro.

domingo, 15 de setembro de 2013

STF: críticas e ironias entre ministros, por André de Souza e Carolina Brígido

BRASÍLIA - Não chegou a ser um bate-boca como os protagonizados pelos ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, mas o julgamento dos recursos do mensalão ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) teve nova rusga. De um lado, o ministro Marco Aurélio, há 23 anos na Corte e contrário à validade de um tipo de recurso que pode provocar o reexame do processo. Ele criticou Luís Roberto Barroso a quem chamou de novato. Lembrou inclusive os elogios feitos pelo colega ao ex-presidente do PT José Genoino, condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha. Barroso — que integra o STF desde junho deste ano e não participou do julgamento no ano passado — reagiu às críticas de Marco Aurélio. Ele disse que não vota pensando nas manchetes dos jornais do dia seguinte.

— Neste caso e em outros, como em tudo que faço na minha vida, faço o que acho certo, independentemente da repercussão. Portanto eu não sou um juiz que me considero pautado pela repercussão que vai ter o que eu vou decidir. E muito menos pelo que vai dizer o jornal no dia seguinte. E muito menos estou almejando ser manchete favorável. Eu sou um juiz constitucional, sou pautado pelo que considero certo e correto embora não me ache dono da verdade. O que vai sair no jornal no dia seguinte não faz diferença — disse Barroso.
— Pra mim faz, dependendo do que sai — reagiu Marco Aurélio, acrescentando: — Como servidor dos meus semelhantes, devo contas ao contribuinte.
Em outro momento, Marco Aurélio ironizou o colega, chamando-o de "novato", e o criticou por sua atuação, que contribuiria para a "autofagia" da instituição.
— Veja que o novato parte para a crítica com o próprio colegiado, como partiu em votos anteriores no que chegou a apontar que se estivesse a julgar não decidiria da forma mediante a qual decidimos. Estimado amigo Luís Roberto Barroso, precisamos nos completar — disse Marco Aurélio, acrescentando: — Vossa Excelência elogiou um dos acusados (Genoino).
Publicado no Globo de hoje. André de Souza e Carolina Brígido são repórteres do Globo em Brasília.

País de desiguais, por Míriam Leitão

Os tempos da Justiça são tão dilatados que em abril eu escrevi, neste espaço (leiamaqui), que o país estaria, no julgamento da aceitação dos embargos infringentes, diante do risco de um fim melancólico do processo do mensalão. E esse é o momento em que estamos agora, cinco meses depois. Os réus já estavam condenados, mas o perigo vinha das infinitas possibilidades de protelação.

O caso do mensalão é exemplar não por punir dirigentes icônicos do PT ou por revelar um esquema financeiro que sequestrou o interesse público e o colocou a serviço de um grupo político. O que o tornou emblemático foi o processo. O Ministério Público passou por duas direções mantendo com firmeza o propósito de denunciar e defender a condenação dos réus. O devido processo legal deu a todos o amplo direito de defesa, mas eles foram condenados por um tribunal em que a maioria dos ministros foi escolhida por presidentes do grupo atingido.
Pela primeira vez o Brasil quebrava a tradição de ser um país de fidalgos, no qual a lei pesa sobre os sem nome e é carinhosa ou displicente com os poderosos. A importância da Ação Penal 470 vai além dela. O país tem avançado. Construiu alianças, que uniram até contrários na cena política, para voltar à democracia, estabilizar a economia e iniciar o processo de inclusão social. Mas permanece sendo um país no qual a mão da Justiça treme na hora de punir os crimes de quem tem poder.
O descaminho no qual o Supremo Tribunal Federal está parece banal para o senso comum. Um artigo de um regime interno obsoleto não pode se sobrepor a uma lei. É uma inversão da hierarquia do Direito. A Lei 8.038 não previu os embargos infringentes, mas eles penduram-se como um galho arcaico no regimento.
Os réus já estão condenados a penas de prisão em regime fechado ou aberto, mas o tempo e a forma de lidar com todas as intermináveis firulas legais ou regimentais determinarão se o país quebrou ou não o princípio de que é uma república orwelliana em que alguns são mais iguais que os outros.
Garantir todos os direitos dos condenados e protegê-los com o devido processo legal é o correto; cair nas armadilhas da protelação infinita é aprisionar a Justiça. Os réus têm direitos, mas a sociedade também os tem. O da sociedade é o que os juristas chamam de “efetividade da tutela penal”: a certeza de que os que cometem crimes serão punidos.
Houve de lado a lado vários bons argumentos apresentados e houve sofismas. Na linha dos sofismas está a ideia de que os que votam contra esse artifício da defesa estão jogando para a plateia. Na linha do simples e inegável está a tese de que é desigual um sistema que estabelece tratamento diferente para dois condenados julgados por tribunais superiores. Quem é julgado pelo STJ não tem direito a esse recurso; quem responde ao STF terá esse direito, no caso de ele ser aceito.
Agora, só resta um ministro a votar. Ele não deve julgar usando o sentimento resumido na frase “todos estamos fartos desse processo”. Deverá decidir pelo que ele considerar justo. É uma questão processual a que está sendo debatida, mas ela é o ponto em que o país confirma se quebra o privilégio da fidalguia ou se o mantém. Seja qual for o argumento, julgar novamente a coisa julgada será a forma de reduzir penas ou extingui-las. A Justiça sabe que o tempo trabalha a favor da impunidade e por isso existe o princípio da prescrição. O que se decide é se a Ação 470 será um marco para novo avanço institucional ou se será a confirmação do defeito que nos fez até hoje ser um país de desiguais perante a lei.

sábado, 14 de setembro de 2013

Jaguar: Turismo numa rua de Paris

Esta foi a primeira vez que gostei de Paris. Na verdade não fomos a Paris, ficamos na Rua Dauphine 33 (número que me persegue)----O DIA

Rio - Célia foi trabalhar na França e me convenceu a ir junto. “Três dias num seminário em Rennes e uma esticada em Paris; em nove dias voltamos para o Leblon.” Em Rennes, cidadezinha menor que Copacabana, enquanto ela trabalhava na universidade eu me fechava no hotel, botando o sono em dia, lendo o livro do Edney Silvestre ou folheando a revista mensal do Siné — que mesmo depois de velho continua pegando pesado (nem o Papa escapa) — e o ‘Le Canard Enchaîné’, semanal, com seu humor meia-bomba: o Angeli, Laerte e Reinaldo são melhores que todos os atuais cartunistas franceses juntos. E vendo a programação da inacreditavelmente jeca televisão francesa.
Jaguar
Foto:  Reprodução
À noite saíamos para jantar no Presse Purèe (?) e no Leon, le Cochon (ponto para os franceses: não conseguimos comer mal nem uma só vez). Em Paris ficamos no hotel D’Aubusson, em Saint Germain. Uma coisa me cativou de cara: na maçaneta da porta do apartamento, em vez da tradicional placa ‘Não perturbe’ estava escrito ‘I want to be alone’, frase imortal de Greta Garbo. E no térreo tem o Café Laurent, onde beberam Sartre, Juliette Gréco e outros famosos. Ouve-se jazz da melhor qualidade, e o performático barman Flavian é um show à parte. No filme de Woody Allen feito em Paris tem uma cena filmada lá. O cantor, cujo nome não anotei, depois de arrasar em ‘I love Paris’, de Cole Porter, emendou ‘Na Batucada do Samba’, de Ary Barroso. “Tomei um litro e meio de cachaça”, em carioquês perfeito. O cara não tinha a menor ideia do significado da letra.
Esta foi a primeira vez que gostei de Paris. Na verdade não fomos a Paris, ficamos na Rua Dauphine 33 (o número que me persegue). A rua é do tamanho da Cupertino Durão. Mas tinha de tudo; restaurantes de todas as nacionalidades, muitas padarias, delicatessens, um pub irlandês e, claro, vários bistrôs, galerias de arte (são, pasmem, 65 só em Saint Germain), livrarias, sebos (descolei por 4 euros um livro com desenhos, poemas e fotos de Jean Cocteau), lojas de queijo e vinhos, suvenires cafonas (comprei um microboneco do Toulouse Lautrec), roupas e bolsas usadas das grifes — Chanel, Prada — dois cinemas, um com filme pornô e striptease ao vivo, e outro, que exibia ‘Is a Mad World’ (‘Deu a louca no mundo), de Kubrick, traduzido para ‘Le Monde est fou, fou, fou’, farmácias, banca de jornal, carrocinhas vendendo baguetes de queijo com presunto, banca de jornal, travesti japonês e o escambau. Só peguei táxi para ir e voltar para o Aeroporto Charles De Gaulle. E no aeroporto, veja na foto, só andei de cadeira de rodas, très chic.

Meu filho você não merece NADA

ELIANE BRUM--Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê(Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(Globo).---E-mail: elianebrum@uol.com.br --Twitter: @brumelianebrum
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Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras, na Revista EPOCA.) 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Livro da Vida e o lacerdinha, por NILTON BONDER

Do ano novo ao Dia do Perdão os judeus rezam para serem inscritos no Livro da Vida. Este ano, enquanto entoava a oração mais grave sobre quem viverá neste novo ano e quem, na natureza da finitude, perecerá neste ano, saltou sobre meu livro de rezas um lacerdinha. Ele saíra de um painel de plantas à minha frente e começou, no modo que lhes é singular, a deslocar-se lentamente sobre as palavras hebraicas que diziam: "Quem viverá e quem morrerá?; quem pelo fogo, quem pela água?; quem pela doença, quem pelo acidente?"

Para quem não sabe, o lacerdinha era um inseto muito comum no Rio e que por questões de adaptação a esta cidade tão difícil deve estar em extinção. Não via um deles há muitos anos. Em homenagem ao ícone dos políticos da época, ganharam esse nome por sua capacidade de atazanar a vida dos pobres mortais, apesar de a analogia hoje não ser de todo apropriada, já que, infelizmente, os políticos são uma espécie em franca expansão e mutação. Confesso que para mim os lacerdinhas eram uma questão pessoal: para além do asco, à semelhança de políticos, atacavam em bando e tinham predileção pela cor branca tal qual a obsessão de contraventores por esta coloração. Quantas vezes na infância sofri por conta da atração que tinham pela esclerótica (a parte branca que circunda a pupila) onde deixavam uma coceira-ardência inesquecível. Com todo esse passado entre nós, lá estava ele passeando pelo meu livro e bastaria um único e leve movimento enquanto se aventurava pela dobradura da encadernação para imprensá-lo para sempre junto à bela liturgia sobre a vulnerabilidade da vida.

Comecei a refletir sobre a frugalidade de tal decisão e seus paralelos com minha própria inserção no universo. Todos nós queremos viver mais um e muitos anos em longevidade. Li há pouco um estudo sobre pessoas que vivem para além dos 100 anos. Uns diziam que seu segredo era fumar e beber enquanto outros diziam que era fazer esportes e levar uma vida saudável; uns que era viver sem muita preocupação e outros que era viver uma vida regrada; uns que era uma vida sexual exuberante e outros que era viver uma vida celibatária (mulher de 105 anos!). Enfim parece não haver um segredo único para evitar que o livro se feche e nos esmague definitivamente.

Há no Talmude, no entanto, uma bizarra opinião sobre o que seria esse segredo: diz Rabi Iehuda que a vida se prolonga quando prolongamos as preces, a mesa e o tempo no banheiro. Se por um lado peculiar, talvez haja aqui uma relevante lição sobre vida e morte. Acho que Rabi Iehuda está tentando dizer que a vida se prolonga verdadeiramente não no controle dos anos, mas naquilo que se pode prolongar na rotina. Independentemente dos anos vividos, quem viverá este ano num ritmo que prolonga sua vida? Ou diremos no fim deste ano que tudo está passando rápido demais ao dar-nos conta que mais um ciclo se passou?

Talvez as preces sejam nossa relação com o Criador e com a vida. Prolongar mais esta dimensão traria longevidade não dos anos, mas do dia. Prolongar a mesa seria estar-se mais ligado à família, amigos e comunidade. Quanto mais vivemos apenas para nós, mais rápido passa o tempo, e quanto mais nos envolvemos com o outro, mais prolongadas são as experiências de vida. E prolongar o tempo no banheiro seria ter mais tempo para si. É muito estranho, mas muitas vezes o banheiro é o único lugar onde podemos estar a sós. Muitas mães, muitos trabalhadores, empresários ou mesmo qualquer um, sabe que este é o único lugar onde o telefone e as urgências do outro ficam anuladas.

Prolongar o tempo com Deus (meditar e alegrar-se); prolongar tempo com comunidade (viver para além de si); e prolongar o tempo de retiro e de tempo para si, isso sim prolonga a vida.

Porque, do lado de fora, a vulnerabilidade da vida é muito grande. Num único momento, num único impulso e qualquer lacerdinha tem seu édito escrito. Encontrar favor e mercê é sempre uma possibilidade, mas não devemos contar com isso. O que, sim, podemos fazer é uma boa gestão, que prolonga enquanto durar.

Publicado no Globo de hoje. Nilton Bonder é rabino.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Separação, por CARLOS VIEIRA

“De repente do riso fez-se o pranto/ Silencioso e branco como a bruma/ E das bocas unidas fez-se a espuma/ E das mãos espalmadas fez-se o espanto./ De repente da calma fez-se o vento/ Que dos olhos desfez a última chama/ E da paixão fez-se o pressentimento/ E do momento imóvel fez-se o drama./ De repente, não mais que de repente/ Fez-se de triste o que se fez amante/ E de sozinho o que se fez contente./ Fez-se do amigo próximo o distante/ Fez-se da vida uma aventura errante/ De repente, não mais que de repente. (Soneto da Separação, de Vinicius de Moraes, in Livro de Sonetos, Cia. Das Letras,2005).

A nossa humanidade, o humano, foi consequência de um ato de transgressão: a coragem de Eva e Adão, romperem (uma forma de separação) com sua condição paradisíaca e submissa a Deus. Bem-vinda a serpente, dizem alguns, pois caso contrário seriamos até hoje, “anjos celestiais” e não “anjos caídos”. Não me refiro à transgressão como uma palavra mundana, moralista, mas realço seu caráter de mudança, mudança de uma ordem anterior para um estado novo. Claro que isso requer coragem e competência. “Nascer é que é perigoso”, escreveu Guimarães Rosa!

Separa-se para nascer, para dissolver uma fusão corporal que, caso avance além dos nove meses, os dois anunciam a morte. Separa-se para sobreviver, para sair de um estado ao outro, mas isso traz um desequilíbrio, tontura e nova organização. Esse “pulo, primeiro salto” Winnicott, analista inglês, sugere ser os pródromos da labirintite. O nascimento é uma cesura que joga o ser humano para fora do útero, agora pensado não como espaço paradisíaco, mas como um espaço de prazer e desprazer tanto quanto a vida aqui fora. Separa-se quando se aprende a andar, falar, ser curioso, descobrir o mundo e sua beleza. Com o nascimento vive-se a primeira experiência estética! Separa-se para desfazer a união mais forte da vida – a fusão com a mãe, com o “seio “. Separa-se para aprender a ficar sozinho, a usar momentos de elegância e arrogância quando se “está no trono”. Já observaram como uma mãe fica inquieta se a criança demora muito para fazer cocô, e não abre a porta? Não sabe ela, que na expressão do “espera aí, já vou”, o infante está exercitando sua autonomia, sua liberdade sua solidão e seu poder – por isso que o vaso sanitário tem o significado de “trono”. Separa-se para estar no quarto brincando de boneca, dando aulas e palestras, e conversando com amiguinhos invisíveis: a menina não admite que ninguém abra a porta. A mãe insiste sem se dar conta de que a “solidão e a privacidade” são condições de exercitar a liberdade e criatividade. Separa-se de casa para estudar fora; separa-se, ou melhor, rompe-se com a família numa arrogância adolescente para se reassegurar que a liberdade é absoluta. Liberdade absoluta é pura fantasia! Aliás, todo o absoluto é uma fantasia, e se levada a sério, transforma-se numa insanidade. Separa-se dos amigos, da infância, da cidade natal, da “suposta segurança do porto seguro”, mas separa-se. Há pais e filhos que sucumbem a esse ato sublime e criativo da separação, pois vivem relações fusionais, onde se perdem uns nos outros, e a neurose, a dependência química e a psicose começam habitar suas vidas.
Na pós-modernidade vem acontecendo uma volta à tribo, todos em torno dos pais, atitude racionalizada pelos “perigos da vida “. Namora-se, separa-se, namora-se mais uma vez, muito tempo, e logo se separam, vivem talvez, conscientemente uma profunda dor que o “poetinha” poetou nos versos acima: “De repente da calma fez-se o vento... Fez-se de triste o que se fez amante.” Separa-se do amado ou amada. Às vezes não se separa, rompe-se, uma forma de separação; ou separa-se já com “alguém a tiracolo”, pois há uma covardia de viver a “dor da separação”, o espaço necessário do luto, para poder fazer outra escolha. Caso contrário não se separa, repete-se e não se transforma nem se cresce psiquicamente. Separa-se pelo homicídio da pessoa traída e também pelo suicídio, como se “vida própria” nunca houvesse tido. Separa-se como um negócio, para vorazmente enriquecer da riqueza do outro. Separa-se porque o amor morreu, a relação empobreceu, as diferenças não puderam mais serem toleradas, a convivência se transformou em práticas de violência mutua, a destrutividade preponderou sobre o amor, a ternura, o respeito e a parceria. Separa-se porque se transformou a vida a dois numa “claustrofobia”, e como diante de uma angustia insuportável, a mente ou luta ou foge. O trágico é, quando se separa como uma reação, fica-se sozinho, mas numa solidão desamparada, culposa e sem condições de ter vida própria – ato continuo, o medo agora é de ficar só, e instala-se o contraponto, a “agorafobia”. Resultado: procura-se imediatamente alguém para suprir a angústia e não como escolha amorosa. Separa-se quando o amado morre. Aí a coisa aperta: a perda por morte anunciada ou repentina é uma experiência das mais dolorosas! Há quem viva a perda difícil, faça o luto e após algum tempo retome sua vida. Há quem tenha ódio da perda, ou até “matou o outro inconscientemente”, e aí o bicho pega: não há possibilidade de luto e a perda transforma-se em depressão, melancolia. Quando não existe luto e sim ódio à perda, perde-se também a possibilidade triste mas gostosa – viver a saudade. A saudade é um sentimento deslumbrante, pois a saudade é a presença na ausência, é ter o outro perdido lá fora, dentro de si. Ou enriquecemos nosso mundo interior com pessoas queridas, ou vivemos um permanente pesadelo por ter, dentro de nós, um cemitério de mortos. Separa-se enfim para morrer, a morte é novamente uma separação do humano, da vida humana. A morte é a inexorável perda da vida, pois a morte faz parte dela (vida). Parafraseando José Luis Borges, a morte pode ser o espaço em que se possa permanecer lendo os livros que ainda estavam para serem lidos na biblioteca! Separação enfim, é vida e morte. A separação é o primeiro “naufrágio” que requer aprender na “calma do desespero” e poder nadar até a praia para sobreviver e viver.
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.