sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ipsis litteris, por Sírio Possenti

LÍNGUA & LINGUAGEM::Reproduzido do Ciência Hoje On-line, 23/8/2013
     
É corrente a crença de que os sentidos antigos das palavras são mais verdadeiros do que os atuais. É um caso específico do mito da língua perfeita, que teria existido em algum momento, em algum lugar. A crença explica o sucesso de livrinhos sobre a origem das palavras.

Ora, nunca se poderá descobrir o pretenso sentido original. Não se pode ir ao início dos tempos. Sempre há o limite dos documentos. A pesquisa deve se deter em um momento dado da história, que não é seu início. Além disso, em geral, descobre-se que então os sentidos já eram muitos...

Apesar de tudo, a crença permanece. Um de seus efeitos menos inteligentes é certa mania recente de ‘corrigir’ as interpretações correntes, atuais, populares. A tendência ataca indistintamente expressões idiomáticas, textos populares e provérbios, entre outros.

Um caso que se tornou notável foi a intervenção do mandachuva de uma emissora poderosa, que encrencou com a expressão ‘risco de vida’ e determinou que deveria ser substituída por ‘risco de morte’. A alegação foi que ninguém corre risco de vida (de viver), e sim de morte (de morrer). Segundo sua filosofia, contrária à de Riobaldo, viver não é perigoso!

A tese parece óbvia, mas não é. ‘Perigo de vida’ não quer dizer ‘perigo de viver’, mas ‘perigo para a vida’. Um argumento em favor da manutenção da forma ‘original’ é que há expressões equivalentes, ou quase, em italiano (pericolo di vita) e em francês (au péril de sa vie).

Há muitas expressões cujo sentido não é ‘literal’. Os provérbios e os idiomatismos são os casos mais óbvios. ‘A vaca foi pro brejo’ não se aplica nem a vacas nem a brejos, e vale para numerosos eventos: o time perde, o político é cassado, o carro pifa, o aluno é reprovado, o professor se engana etc. ‘Filho de peixe peixinho é’ pode não ter nada a ver com peixes. Talvez se possa dizer, com algum exagero, que o provérbio vale para todos os casos em que filhos têm habilidades semelhantes às dos pais, exceto se se tratar de peixes! É que ninguém enuncia o provérbio quando vê um peixinho nadando ou fazendo bocas, mas o profere a respeito de jogadores, músicos, atores, jornalistas, médicos etc.

‘Matar a cobra e mostrar o pau’ significa ‘fazer algo e dar provas de que fez’, ‘defender uma posição e explicitar o argumento’, ‘alegar alguma tese e provar que é verdadeira’ etc. Mas já se disse que o ‘verdadeiro’ provérbio deveria ser ‘matar a cobra e mostrar a cobra’ (esta, sim, seria uma prova de que a cobra foi morta!), enquanto que ‘matar a cobra e mostrar o pau’ seria comportamento de gente falsa.

Febre de correção
A febre da correção atingiu também quadras populares. O correto não seria ‘batatinha quando nasce / se esparrama pelo chão...’, mas ‘põe a rama pelo chão’, porque os ‘pés’ de batata produzem ramas que se espalham pelo chão. Mas, se devemos ser literais, como explicar que a quadra continua dizendo que ‘menininha quando dorme / põe a mão no coração’ se a menininha não rasga ou corta seu corpo para colocar de fato a mão no coração?

Provérbios também têm sofrido ataques. Por exemplo, já se disse que é errado dizer ‘quem não tem cão caça com gato’, porque o correto é ‘... caça como gato’. Mas o melhor exemplo dessa onda de estultícia é o caso seguinte. Corre por aí que o verdadeiro provérbio não é ‘quem tem boca vai a Roma (o argumento é que não se viaja com a boca, vejam só!), mas ‘quem tem boca vaia Roma’ (porque é com a boca se vaia!).

Ora, na versão antiga, que é correta, Roma representa qualquer lugar para o qual se queira ir (pode ser um boteco da moda cujo endereço se desconhece). E essa representação não é gratuita, convenhamos. Afinal, nenhum lugar pode representar melhor um lugar qualquer do que Roma. Além disso, ir a Roma oferece certa dificuldade (a cidade não fica aí na esquina). O provérbio quer dizer exatamente que certa dificuldade pode ser superada fazendo perguntas, pedindo informações etc. O que não significa que isso seja sempre verdade.

‘Boca’ é uma metonímia para ‘perguntar’, ‘saber falar’ etc. Afinal, é com a boca que se faz isso, tipicamente. Alguém até poderia alegar que o provérbio é anterior à escrita etc., mas certamente esse seria um exemplo de superinterpretação, que desprezaria exatamente as ‘figuras’ em favor de uma suposta literalidade.

Além disso, por que alguém vaiaria Roma? E, principalmente, por que haveria um provérbio francês que diz ‘Qui langue a, à Rome va’, um espanhol que reza que ‘Preguntando se va a Roma’ e um italiano cujo texto é ‘Chi língua ha, a Roma va’? A tradição de todos os outros é idiota?

Se os latinos antigos diziam ‘mendacia curta semper habent crura’, por que acharíamos que ‘a mentira tem pernas curtas’ é um provérbio que foi inventado recentemente porque havia um senhor de baixa estatura (que implica ter pernas curtas) conhecido por não ser amigo de verdade?

Falácia do sentido original
Por trás da proposta de corrigir ditados está uma crença errada sobre o funcionamento das línguas. Segundo ela, as palavras deveriam ter sempre sentido literal e referir-se ao mundo ‘real’. Se isso não ocorrer, que se mudem as expressões. Mas o fato é que as palavras não têm um sentido original que deve ser mantido e nem sempre as empregamos em referência direta a coisas.

Os sentidos das palavras e das expressões são os que elas vão adquirindo ao longo do tempo. Muitas vezes, não há meio de saber como os sentidos surgiram, e muito menos como surgiram algumas expressões ou provérbios com seus diversos sentidos ou com suas diversas aplicações a contextos análogos.

Mas o melhor argumento contra a suposta necessidade de uma interpretação única e que seria ‘literal’ é dar-se conta de que dizemos ‘Ele vai de Piracicaba a S. Paulo’, ‘A Bandeirantes vai de Piracicaba a S. Paulo’ e também ‘O mandato vai de 2011 a 2014’.

Logo vai aparecer alguém que sustentará que devemos corrigir as duas últimas expressões, alegando que uma rodovia não vai. Menos ainda um mandato. Santa ignorância!

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Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas

FORA DO EIXO, Fora de mim, por Léo Nogueira

Nos últimos dias, o coletivo Fora do Eixo (FdE) foi alvo de muitas críticas, parte das quais anunciadas como “denúncias”, mas que, na verdade, são apenas análises do modus operandi do grupo ou queixas (muitas vezes legítimas) de ex-integrantes. Mas não vou entrar muito no mérito do que foi dito sobre o FdE. Não sou desse coletivo e, por isso, não tenho condições de dizer o que procede ou não. Fazer isso seria algo imprudente (quiçá leviano). E tenho um grande respeito por mim e por quem (eventualmente) me lê.
Todavia, em função da importância do assunto, farei algumas considerações de quem já teve contato com integrantes do coletivo e também conhece um pouco da sua história. Acho curioso... Aliás, reformulando, acho natural que após ficar evidenciada a relação do FdE com a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), o primeiro passou a ser alvo de reportagens depreciativas da chamada “grande” imprensa. Ataca-se o Fora do Eixo para acertar a Mídia Ninja (e o Fora do Eixo também, é claro). Simples. Afinal, os ninjas estão propondo, digamos, um novo “modelo de negócio”. Se isso vai dar certo ou não, já é outra história. Mas falar em novos paradigmas é algo no qual a maior parte da mídia tradicional, obviamente, não tem o menor interesse.
Os grandes grupos de comunicação beneficiam-se do atual modelo: baseado em um oligopólio amplamente financiado pelos contribuintes por meio, sobretudo, de uma grande injeção de dinheiro estatal a ser usado em propagandas publicitárias (em sua maioria, inúteis) dos três níveis de governo. Outra maneira de garantir o lucro desses grupos é, por exemplo, adquirir (sem qualquer tipo de licitação) milhares de exemplares de revistas e jornais. Repito: sem qualquer tipo de licitação. Isso acontece muito no estado de São Paulo (ver aqui).
A imprensa não quer concorrência
Além disso, rádios e TVs são premiados por subsídios estatais a cada eleição. A tal da propaganda eleitoral gratuita não é de graça. Veículos da imprensa podem deduzir do imposto de renda a maior parte do que determinada empresa de comunicação, talvez, iria receber caso o período no qual é veiculado o horário eleitoral fosse vendido para a propaganda nossa de cada dia. Em suma: esses veículos de comunicação, que são concessões públicas, ganham pra transmitir algo que deveriam fazer de graça. Os exemplos de como você, cidadão comum, ajuda na “saúde” financeira alheia são muitos. Mas esse não é o foco (ver aqui).
Segundo a revista Forbes, os herdeiros das Organizações Globo formam a família mais rica do Brasil. Outro herdeiro midiático, do Grupo Abril, também está nessa lista. Procurei muito, mas não encontrei os nomes de Pablo Capilé ou Bruno Torturra. Ah, sim... Eles têm o poder da invisibilidade ninja. Aqui vale uma explicação. A suposta capacidade ninja de se tornar invisível não era por meio de um pó mágico ou, sei lá, de um gás atordoante lançado contra os seus adversários. Os ninjas, do Japão feudal, portavam-se como inofensivos cidadãos comuns (para que não fossem notados pelos seus rivais e pudessem atacá-los de maneira furtiva). Assim como os representantes da Mídia Ninja costumam fazer hoje em dia: incorporando-se, como pessoas comuns, às manifestações. Os veículos de comunicação tradicional, que não são bobos, já estão se utilizando dessa estratégia para poder participar, com mais tranquilidade, de atos políticos do gênero (ver aqui).
Alguns dirão que a Mídia Ninja não traz nada de novo: seja no modelo econômico proposto ou na maneira (implicada) de atuar. Mesmo se essa análise estiver correta, posso garantir: a imprensa não quer nenhuma concorrência (mesmo que ela se dê nos seus próprios termos).
Provar que é inocente
Mas o que mais me chamou a atenção nesse caso foi a indecência de muitos dos discursos contrários ao FdE. Isso mesmo. Indecência. Primeiro: uma coisa é uma crítica. Outra, bem diferente, é uma denúncia (que traz o caráter de algo ilícito). Muitos fizeram essa confusão. Alguns de forma proposital. E isso é de uma desonestidade intelectual padrão Veja. É a boa e velha manipulação. Eu não a aceito. E acho que ninguém deveria aceitá-la (seja a pessoa a favor, contra ou não dê a mínima para o Fora do Eixo). Sobre esse ponto específico, recomendo a leitura do excelente texto de Francisco Bosco (ver aqui).
Segundo: para se fazer uma crítica honesta é necessário dizer, ainda que de forma rápida, quais são os potenciais conflitos de interesse envolvidos. É necessário lembrar ao receptor da mensagem o lugar do qual falamos. É preciso, em resumo, contextualizar. Lino Bocchini, por exemplo, em sua reportagem da revistaCartaCapital, precisava ter dito aos seus leitores que teve (no passado) vínculos com o Fora do Eixo. E que ele, hoje, não parece ter relações lá muito amigáveis com os antigos parceiros. O jornalista teria dito, depois da publicação da reportagem, que todo mundo sabe disso. Bocchini deveria ter se recusado a escrever a matéria, como um juiz deve se dizer impedido de julgar uma causa na qual haja algum conflito de interesse. Mas ele não apenas não se recusou a participar da reportagem como omitiu ao leitor da CartaCapital (que não é obrigado a conhecer a sua vida pregressa) que teve vínculos com o Fora do Eixo e as ações desse grupo na área de comunicação (ver aqui).
Terceiro. Outro exemplo de indecência é de uma ex-integrante do Fora do Eixo que faz diversas acusações e diz: não sou eu que tenho que provar o que estou dizendo, mas eles que precisam provar que é mentira. O que é uma aberração moral e jurídica. Como se sabe, tradicionalmente o acusador tem o ônus da prova. Imagine o seguinte, caro leitor: alguém diz, publicamente, que você roubou algo (qualquer coisa). Diz que você é um ladrão da pior espécie, que deve ser preso etc. E, a partir daí, ao invés do acusador precisar provar (minimamente) o que diz, você é que precisa provar que é inocente de tais acusações. Percebem o absurdo? É impossível saber o número, mas, certamente, milhares estão presos em nossas cadeias simplesmente porque essa regra jurídica elementar foi ignorada. E aposto vinte centavos (que tenho sobrando no bolso) como essas pessoas são aquelas que estão na base da pirâmide social, e não na lista da Forbes.
Vírus ou o vetor da doença?
Todos nós, com exceção de alguns herdeiros ou de quem ainda não aderiu complemente ao cinismo, nos deparamos diariamente com algumas perguntas do tipo: como faço pra sobreviver com alguma dignidade sem, necessariamente, abandonar meus ideais? Como ganhar dinheiro sem romper completamente com os meus sonhos? O financiamento é sempre um problema. Muitos cobram transparência do FdE. Eu também. O que os integrantes do coletivo, aliás, admitem ser um problema e algo que deve ser aprimorado. Mas poucos gostam de admitir que a contradição a qual o Fora do Eixo está submetido é, muitas vezes, a mesma que a nossa (já que estamos todos inseridos, gostemos ou não disso, no sistema capitalista). Mas fazer isso exige uma autocrítica que é mesmo difícil. Exige franqueza e honestidade. Abandonar o ego e sair um pouquinho fora de si. Por exemplo: o jornalista Álvaro Pereira Júnior adora propor esse debate. O que eu acho muito bom. Mas ele nunca topa falar dos veículos de comunicação que pagam o seu salário (jornal Folha de S.Paulo e TV Globo). Veículos que, embora sorvam muito do nosso dinheiro, não se dignificam a nos prestar contas.
Álvaro Pereira Júnior não está disposto a um debate sério. Isso é evidente. Ou ele também citaria outros coletivos (além do FdE) e grupos econômicos realmente importantes quando fala em questões relativas ao dinheiro. Quem não está disposto a se indispor (um pouquinho que seja) com os grandes grupos econômicos de mídia (e de outras áreas), não está disposto, evidentemente, a arranhar o âmago da coisa. Mas eu não esperava nada diferente de Álvaro Pereira Júnior. Quem trabalha com a área cultural em nosso país e já participou (sendo premiado ou não) de algum edital sabe como a coisa é complicada. Os editais, tradicionalmente, não preveem um pro labore para o artista ou proponente do projeto. O pro labore é a remuneração da pessoa pelo seu trabalho. Ou seja: os editais públicos, geralmente, apenas levam em conta quanto o indivíduo irá gastar com material (e serviços variados) para efetivar um determinado projeto. O fato do proponente precisar comer, morar, tomar um banho de vez em quando, nada disso é levado em conta. A prestação de contas, portanto, estará sempre em descompasso com a realidade. O artista e/ou proponente da ação economiza em uma determinada área pra que o dinheiro possa render um pouco mais. Para que a pessoa possa, em suma, sobreviver.
A lógica da cultura financiada pelo poder público segue a mesma que aquela financiada pela poder privado: o importante é o resultado final do processo. O processo em si pouco importa. É necessário apresentar um produto, de preferência vendável, pra colocar em destaque nas futuras campanhas publicitárias. A iniciativa privada, aliás, gasta pouco dinheiro nessa área (sendo contemplada por isenções fiscais de vários tipos). Eu defendo que esse modelo deve ser alterado. Mas hoje, no entanto, ele tem permitido a sobrevivência de muitas ações importantes.
A condição precária dos músicos se agravou com o advento do FdE? Ou o Fora do Eixo simplesmente explicitou a fraqueza da área musical? O FdE é o vírus ou o mero vetor da doença? A condição dos jornalistas se tornará ainda pior com a ascensão da Mídia Ninja? Ela é realmente uma novidade para a área de comunicação? Quando representantes da mídia tradicional dizem rapidamente que não (e muitos disseram isso), deveríamos prestar mais atenção nesse fenômeno... O mundo brutal no qual esses e outros grupos estão inseridos não nasceu com eles. E não morrerá com a morte dos mesmos. Esse, pra mim, é um ponto fundamental.
Trabalho escravo
O FdE, a Mídia Ninja e outras organizações carregam a contradição de quem, de alguma maneira, tenta fazer algo diferente do que o atual modelo político/econômico preconiza. Ou, talvez, tente se utilizar do sistema para alterá-lo. Ou apenas se utilizar do sistema para alcançar os seus fins. O que, talvez, no entanto, só faça o sistema encontrar um novo caminho de expropriação e dominação alheia. Atuar dentro do sistema (e não estar totalmente apartado): essa é a fonte do poder e, talvez, da ruína dos grupos citados. Mas pra quem gastou tanta energia com o FdE e a Mídia Ninja nos últimos dias pela internet, sugiro que tente construir algo diferente do que esses grupos defendem ou oferecem na prática. Não que eu o faça. Mas também não julgo tão precoce e levianamente os mesmos (sobretudo diante de uma unanimidade tão grande da imprensa que no início de junho de 2013 e, obviamente, antes disso clamava para que a polícia destruísse uma nascente rebelião popular).
A Mídia Ninja e o Fora do Eixo, para quem não se lembra, seja por quais forem os motivos, estavam (desde o início) do lado dos manifestantes. Eu me lembro dos meus inimigos. Nunca irei esquecer, por exemplo, os editoriais dos jornais Folha e Estado que, em 13 de junho, pediam que a polícia erradicasse da face da Terra os baderneiros de então. Lembro dos meus inimigos, mas lembro ainda mais dos meus aliados. Até porque eles não são muitos...
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P.S.: Para quem afirma que o Fora do Eixo usa trabalho escravo, sugiro que faça a denúncia urgentemente. Dessa forma, os jovens que estão sendo escravizados no momento em que escrevo essas palavras poderão ser libertados o quanto antes. Clicando aqui, a pessoa pode denunciar o fato ao Ministério Público do Trabalho (que irá investigar o caso por meio da Coordenadoria de Erradicação do Trabalho Escravo). A denúncia pode ser feita pela própria internet.
A pessoa interessada em fazer a denúncia também pode ligar para a Procuradoria Regional do Trabalho do seu estado (ver aqui).
Se a pessoa, todavia, está falando bobagem, como parece ser a maioria dos casos, peço que cale a boca de lodo. Pois trabalho escravo é um tema muito sério para ser tratado de forma irresponsável. Quem escraviza pessoas em nosso país, deve estar muito feliz com o fato do foco, agora, estar em outro eixo.
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Léo Nogueira é escritor, jornalista e servidor público (concursado) da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Uma diplomacia estudantil, por Elio Gaspari, O Globo

A doutora Dilma tem dois chanceleres, um no Planalto e outro no Itamaraty. Apesar disso, restou ao Brasil uma diplomacia trapalhona, cenográfica e inepta. A desova do senador Roger Pinto no território brasileiro transformou uma conduta inamistosa do governo da Bolívia numa estudantada brasileira. Custou o lugar ao chanceler Antonio Patriota. Ele vai para Nova York, mas o comissário Luis Inácio Adams continua advogado-geral da União.

O doutor sustentou que, caso um médico cubano peça asilo territorial no Brasil, será devolvido a Cuba. Agradando ao aparelho dos irmãos Castro, ofendeu a História do país e o Direito.
No ano passado o Brasil meteu-se noutra estudantada, expulsou o Paraguai do Mercosul e agora corteja seu governo. É uma diplomacia de palavrório e negócios. Patriota foi um detalhe.
A ideia segundo a qual o encarregado de negócios do Brasil em La Paz contrabandeou o senador até a fronteira com o Brasil porque se apiedou de seu estado emocional é pueril. Se os embaixadores começassem a ser orientados pelos seus sentimentos, seria melhor fechar a Casa. 
Evo Morales, presidente da Bolívia 
A boa norma determina que um governo dê o salvo-conduto a um asilado em algumas semanas. No exagero, alguns meses. O presidente Evo Morales não quis fazer isso. Direito dele.
O ex-presidente peruano Haya de la Torre ralou cinco anos numa sala da embaixada da Colômbia em Lima. O cardeal Jozef Mindszenty, outros quinze na embaixada dos Estados Unidos (que não são signatários das convenções de asilo diplomático) na Hungria.
Se alguém pensou que combinou a fuga com Evo Morales, fez papel de bobo e transformou o algoz em vítima. Transferiu o vexame para o diplomata Eduardo Saboia, deixando-o numa posição de franco-atirador.
Coisa parecida, fez no mundo dos negócios, quando transferiu para o embaixador do Brasil em Cingapura uma transação meio girafa que favorecia os interesses do empresário Eike Batista.
A maneira como a diplomacia de Lula e da doutora lidou com o instituto do asilo revela desrespeito histórico com um mecanismo que protegeu centenas de brasileiros perseguidos por motivos políticos. Ele ampara gregos e troianos.
Em 1964, brasileiros asilaram-se na embaixada boliviana. Anos depois oficiais golpistas bolivianos asilaram-se na embaixada brasileira e o governo esquerdista do general Juan José Torres deu-lhes salvo-condutos em 37 dias.
Carlos Lacerda asilou-se por alguns dias na embaixada de Cuba e João Goulart pediu asilo territorial ao Uruguai. Em poucos meses, o governo do marechal Castello Branco concedeu salvo-condutos a todos os asilados que estavam em embaixadas estrangeiras.
Já o do general Médici, vergonhosamente, fechou as portas de sua representação em Santiago nos dias seguintes ao golpe do general Pinochet e dezenas de brasileiros foram obrigados a buscar a proteção de outras bandeiras.
Contudo, nem mesmo Médici deportou estrangeiros para países onde poderiam ser constrangidos. Isso ocorreu durante a gestão do comissário Tarso Genro no Ministério da Justiça, com dois boxeadores cubanos que, posteriormente, voltaram a fugir da Ilha.
O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo.
Elio Gaspari é jornalista. 

Mídia não explica, demoniza, por Alberto Dines

Alberto Dines, Observatório da Imprensa----leia mais

Há quase dois meses discute-se a implementação do programa “Mais Médicos” para atender as exigências dos manifestantes de junho. Vacilante, o governo foi apresentando uma sucessão de ideias incompletas que as corporações médica e acadêmica foram torpedeando implacavelmente. Com o decidido apoio da corporação jornalística.
O projeto sobrevivente e o mais consistente, apresentado pela própria presidente Dilma Rousseff em seguida às manifestações, previa a importação de médicos do exterior. Inclusive cubanos. Não era novidade: médicos desse país já prestaram serviço em diversos pontos do Brasil, com excelentes resultados.
À medida que a ideia se cristalizava, aumentava a histeria anticubana que se estendia a candidatos de outros países, especialmente Portugal e Espanha.
Acusações primárias se alternavam: ora dizia-se que os cubanos viriam como espiões ou agentes provocadores, ora que chegariam aqui na condição de escravos (ganhando salários irrisórios enquanto o governo de Havana ficaria com a parte do leão dos 10 mil reais mensais pagos pelo governo brasileiro). Alegou-se que cláusulas especiais foram impostas para evitar que os cubanos pedissem asilo político (por isso vinham sozinhos, sem a família). Nenhum editor deu-se ao trabalho de esclarecer, explicar vantagens e desvantagens.
Gestos e opções
Nos últimos dias, em desespero de causa, celebrados opinionistas acusaram os irmãos Castro de converter seus médicos em simples commodities, fonte de divisas para financiar um país falido. Argumento pueril, enganoso: commodities são bens em estado bruto, médicos são bens com alto valor agregado. A Índia estimula a saída dos seus cientistas e especialistas em informática de olho no retorno que trarão ao país; o mesmo acontece com Israel, que há décadas exporta agrônomos para os quatro cantos do mundo.
O exercício da medicina não pode ser examinado sem levar em conta o seu caráter humanitário. Levar médicos aos grotões do país – além de salvar vidas preciosas, contribuirá decisivamente para desmonetizar uma profissão que vem perdendo velozmente o seu caráter original, solidário e altruísta.
Nossa mídia embarcou de corpo e alma nessa cruzada egoísta, antissocial, fomentada primordialmente pela poderosa corporação médica, pelas empresas de ensino superior & adjacências. E isso no pós-junho, quando nas passeatas ainda reverberam referências pouco airosas à insensibilidade de jornais e jornalistas.
Acusa-se o PT de aparelhar o governo, porém a mesma obsessão ideológica domina os mais instintivos gestos e opções da grande e média imprensa brasileira.
Um jornalista que ouve o coração
Neste ambiente ríspido, desprovido de solidariedade, a coluna de Ricardo Noblat (segunda-feira, 26/8, O Globo, pág. 2) funciona como um alento e, talvez, como um divisor de águas.
O experiente repórter, editor e agora bem-sucedido blogueiro não se deixou enredar pelas armadilhas ideológicas, preferiu entregar-se aos valores morais, como se fazia antigamente quando os jornalistas naquelas redações barulhentas ouviam as batidas do coração e a pressão da consciência.
“Só vejo vantagens” – apesar do pragmatismo e objetividade do título, trata-se de uma calorosa convocação para que os jornalistas deixem as trincheiras partidárias que tanto prejudicam os seus dotes narrativos e se entreguem a devoções mais profundas, essenciais.
“Mais Médicos” é um programa da saúde pública. “Mais humanidade” pode ser um projeto de renovação jornalística. 

Graciliano Ramos: realidade e ficção! ;CARLOS VIEIRA

Relato testemunhal e ficção, narrativa do “Velho Graça” no inquietante romance: “Angústia”. Na terceira leitura dessa obra, sinto-me novamente envolvido, apaixonado, mergulhado e, às vezes identificado com a maneira como, o alagoano escritor desvela, publica e denuncia estados de alma, crises existenciais do ser humano, tanto no aspecto individual, micro, como observação dos fenômenos sociais. 
Com seu jeito “seco”, “enxuto” de não desperdiçar palavras e usá-las quando elas apreendem sua intuição, o texto vai se fazendo numa conjuntura individual e social do personagem Luis da Silva. Sinto como alguém revela sua genialidade para apreender e nomear estados profundos, alucinatórios, quase psicóticos da mente humana. No caso desse romance, o autor narra de uma maneira simples, dura, ansiosa, depressiva, a olhares fenomenológicos do amor, ciúme, perseguição, ódio, violência, culminando com o ato homicida. 
Graciliano descreve uma triangulação mítica, edípica, entre Luis da Silva, Marina e Julião Tavares. Penetra na experiência psíquica de uma pessoa perseguida em função de uma paixão; de um crime; da culpa e do castigo, tanto interno como externo, culminando com uma prisão de fato. Ao mesmo tempo, o ex-prefeito da cidade de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas, contribui para mim como psicanalista, uma fenomenal “vivencia do tempo”, do tempo psicótico, do tempo do inconsciente, um tempo onde passado, presente e futuro se mesclam numa conjunção onírica. Escreve o Graça:” Mas no tempo não havia horas...e o dia estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede.” 
O livro é uma ficção e também um texto de memórias. Graciliano pinta com palavras a importância da memória, da sua memória, da memória de fatos e memórias de ficção. Uma memória do passado e uma memória do futuro. A experiência narrada mostra um “arco-íris” preenchido por percepção reais, momentos alucinatórios, pesadelos, sonhos acordados, claro que elaborando consciente e inconsciente sua história pessoal, íntima, subjetiva, A genialidade do escritor repousa nessa condição peculiar de apreender fenômenos que a maioria dos “viventes” não se dão conta. Perceber, digerir, mastigar, sonhar, procurar a palavra e comunicar – a arte exige a passagem ao território social, caso contrário seria uma experiência masturbatória, egocêntrica e abortiva. 
No que tange à procura da palavra, em Graciliano a questão sempre foi de muita exigência, paciência e técnica. Cecilia Prada, escritora e jornalista, em seu rico livro: “Profissionais da Solidão”, Editora Senac, São Paulo, 2013 citando Antonio Candido, escreve: “escritor sem gorduras, magro convicto, de carnes, porte, personalidade e evidentemente estilo literário. 
Aliás, em todas as contracapas, editadas pela Record, lemos a maravilha metafórica da escrita de Graciliano. Vejam: “ Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a á água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano só uma gota.Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.” 
O método de escrever do cânone Graciliano é um belo exemplo que pode se estender a qualquer ofício: observação, observação, cuidado com a narrativa dos fatos e dos estados conscientes e inconscientes, enxugar as palavras e procurar aquela que revele de mais exata o pensamento. Recorda-me Platão: primeiro as sombras e depois o sol em sua própria morada. 
Lembra-nos Ricardo, filho do mestre, citado na página 234 do livro de Cecilia Prada:” – a sobriedade, a precisão da escolha vocabular, o sistemático ato de “cortar a gordura do texto”, a calma da rotina diária: de pijama, sentado à mesa que ficava em seu quarto, escrevia desde cedo até as onze horas, em letra miúda e regular... da crônica ao artigo sobre livros, da revisão de textos às traduções, ganhando a vida que considerava fundamental: a sua opinião” (Ramos 1992), pois nunca escreveu, ou subscreveu, aquilo que não acreditava.” 
O livro “Angústia” é uma prova da genialidade desse nordestino preocupado, tanto quanto João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, José Lins do Rego e Euclides da Cunha, com o que ele próprio escreve em seu livro:”Está aí uma história que narro com satisfação a Moisés. Ouve-me desatento. O que lhe interessa na minha terra é o sofrimento da multidão, a tragédia periódica das secas. Procuro recordar-me dos verões sertanejos, que duram anos. A lembrança chega misturada com episódios agarrados aqui e ali, em romances. Dificilmente poderia distinguir a realidade da ficção.” 
Enfim, “Angústia” é mais do que um drama psicológico de Luis da Silva, é um constante e atual grito de desespero do Nordestino, esmagado, esfoliado, subjugado pelo poder da aristocracia e da política brasileira que continua apática, insensível e perversa diante das classes menos privilegiadas. Ler Graciliano, nesse ano em que a Feira Internacional de Paratí o homenageou, é sentir na pele psíquica a realidade de nosso país e compreender de modo mais profundo o grito da Juventude atual: a angústia consequente às atrocidades dos “Juliões Tavares”.
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

ACONCHEGO PATRIÓTICO ou "Veras que um filhoteu não foge à luta".....

O clã Patriota está quase completo na ONU em Nova York: 
além do irmão Guilherme, seu número 2, e da cunhada conselheira Erika, o ex-chanceler Antônio Patriota terá a companhia da mulher, Tania Cooper, que já trabalha na ONU. Falta o filho, aspone no governo.

2---Brasil tem primeiro presidiário deputado do mundo

O publicitário Mário Galvão em seu Twitter resumiu bem a situação diante da absolvição do deputado Natan Donadon, de Rondônia, que foi condenado a 13 anos de prisão em regime fechado por peculato e formação de quadrilha: "O país tem oficialmente o primeiro presidiário deputado do mundo". Donadon já havia entrado para a história como sendo o primeiro deputado a ser preso por corrupção, no cumprimento do mandato, desde a Constituição de 88.
Em discursos na Câmara, transmitidos pela TV Câmara agora à noite, deputados que votaram a favor da cassação reprovaram a decisão, obtida por meio do voto secreto de 131 parlamentares. O presidente da Câmara, Henrique Alves, defendeu que assumisse o suplente de Donadon, já que o deputado está impossibilitado de comparecer à Câmara dos Deputados. Um golpe de mestre, mas a sujeira já havia ido para baixo do tapete.
O dilema que ficou evidente com a atitude do Legislativo brasileiro é muito simples: é melhor ser um deputado com o rabo preso ou um preso com rabo de deputado? O que o nobre leitor acha? Responda na caixa de comentários.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mensalão: poderia ser pior, por Marco Antonio Villa

O julgamento do mensalão é a mais perfeita tradução de como funciona a Justiça brasileira. O recebimento da denúncia pelo Supremo Tribunal Federal ocorreu em agosto de 2007. Antes, em julho de 2005, foi aberto o inquérito na Justiça Federal de Minas Gerais. Na instrução da ação penal 470 foram mais cinco anos. O julgamento já ocupou 57 sessões do STF. Somando o processo e a sentença, o total das páginas chega próximo a 60 mil. E até hoje não temos a conclusão do julgamento.

Os mais otimistas acreditam que tudo deve terminar até dezembro e o eventual cumprimento das penas ficaria para 2014. E isto graças à celeridade dada à ação penal pelo presidente Joaquim Barbosa e que também acumula a relatoria. Ou seja, poderia ser pior, caso não tivesse ocorrido esta feliz coincidência, além do desejo de Barbosa de terminar ainda este ano o processo.
A longevidade do julgamento, porém, permite observar como funciona mal a Justiça. Apesar da atenção nacional, da cobertura da imprensa e excelente infraestrutura — são milhares de funcionários, a maioria deles regiamente paga —, o ritmo é lentíssimo. 
 Tudo é motivo para deixar para a próxima sessão, que, como virou hábito, vai começar atrasada e com intervalos longuíssimos. Os ministros falam, falam e dizem pouco ou quase nada que se possa aproveitar. A linguagem embolada encobre o vazio. O latim de cura de aldeia é patético.
A discussão “teórica” proposta por Ricardo Lewandowski sobre o crime de corrupção e qual a legislação a ser aplicada teve a profundidade de um pires. Mas haja vaidade. Um exemplo é o ministro Roberto Barroso. Diria um antigo jogador de futebol: ele acabou de chegar e já quer sentar na janelinha do ônibus. Faz questão de falar sobre tudo. Adora o som da própria voz.
Se o julgamento permite constatar que o Judiciário está mais preocupado com o formalismo — não há nada mais antirrepublicano que o “capinha”, o funcionário que empurra a cadeira para o ministro sentar — do que com a aplicação das leis, é na indústria dos recursos que a perversidade chega ao cume. È evidente que o advogado tem de defender seu cliente. Mas há uma clara diferença entre a defesa e a mera procrastinação que visa, simplesmente, a adiar a conclusão do processo.
É inadmissível que um advogado, como ocorreu em uma das sessões da semana passada, solicite que o seu cliente seja julgado em primeira instância pois não teria foro privilegiado. Esta questão foi discutida três vezes e a Corte, em todas elas, tomou a mesma decisão: que o processo deveria ser julgado em bloco no STF.
O advogado não sabia? Claro que sabia. Por que agiu assim? Porque faz parte do jogo — triste jogo da Justiça brasileira. Quanto mais tempo levar para a efetivação do cumprimento da pena, melhor.
A sucessão de recursos desmoraliza a Justiça. Deixou de ser instrumento de defesa do cidadão contra possível injustiça do Estado. Virou um mecanismo para — como no caso do mensalão — estimular a impunidade. E, se através dos sucessivos recursos, o defensor conseguir que seu cliente não cumpra a pena, ele acaba — absurdo dos absurdos — sendo uma referência para seus pares, um símbolo de esperteza, como se Macunaíma tivesse se transformado em patrono dos advogados brasileiros.
É um terreno perigoso, mas não custa especular até onde vão o direito de defesa — legítimo e parte essencial da democracia — e a associação entre defensor e cliente. É ético um advogado elaborar conscientemente uma linha de defesa para encobrir um ato criminoso do seu cliente e lesivo ao interesse público? É ético receber honorários de um cliente sabidamente corrupto? É ético participar de um julgamento como advogado de um réu acusado de ter cometido diversos crimes que envolveram autoridades de um governo do qual o defensor participou?
A indústria dos recursos acabou ganhando legitimidade. As diversas corporações que fazem parte do mundo do Direito não desejam qualquer mudança de fundo na legislação. Esporadicamente fazem alguma declaração criticando a proliferação dos recursos simplesmente para “cumprir tabela”, pois sabem que, neste ponto, contam com a simpatia da opinião pública.
Da forma como vigoram no Brasil, os recursos e a impunidade caminham juntos. E cabe ao Congresso Nacional aprovar novos códigos que permitam uma tramitação mais rápida dos processos e o efetivo cumprimento das penas. Caso contrário, continuaremos com a Justiça de mentirinha que temos — e que desmoraliza a democracia.
O STF ao longo da sua história, infelizmente, não foi um exemplo de defesa do Estado Democrático de Direito. Basta recordar o silêncio frente à violência estatal na República Velha, no Estado Novo ou na ditadura militar. Daí a importância do julgamento do mensalão. Pode ser uma ruptura com o passado. Demonstrar que o tribunal não é suscetível às pressões políticas, especialmente aquelas advindas do Executivo. Que julga de acordo com os autos e não pela importância política dos réus. Quem repudia a impunidade e a chicana. Que não tem compromisso com os marginais do poder. Que, enfim, cumpre suas atribuições constitucionais.
Todas estas observações só foram possíveis graças à transmissão das sessões pela televisão. Foi uma sábia medida. Ver como funciona a Suprema Corte, acompanhar os debates, as altercações, polêmicas, pilhérias. A transmissão tem ajudado a explicar o funcionamento do STF, suas mazelas, seus momentos de encontro com a cidadania, suas qualidades e fraquezas. É um ensinamento do papel e da importância do Judiciário.
Marco Antonio Villa é historiador.

A Bolsa TKCSA, por Carlos Tautz

Dificilmente haverá no Brasil um outro projeto que reúna tantos passivos e suspeitas de violações de direitos humanos quanto a Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), da alemã Thyssen Krupp e da brasileira Vale. O caso é tão grave, que, em duas ações penais ajuizadas em 2010, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP do Rio pede a prisão de três executivos da Companhia.

Encravada no bairro carioca de Santa Cruz (um dos piores IDHs da cidade), a TKCSA também foi denunciada por contratar milícias locais para reprimir a pesca artesanal na Baía de Sepetiba e poluir o ar com Chuva de Prata, uma mistura de vários elementos químicos resultantes da ultrapassada tecnologia utilizada.Até a Secretaria do Estado do Ambiente, que tem clara conivência com a siderúrgica, afirma que o pó pode causar asma, câncer de pulmão, problemas cardiovasculares, defeitos congênitos e morte.
Apesar de tudo, desde 2007, quando começou a ser construída, a TKCSA já recebeu das três esferas de governo R$ 5 bilhões na forma de diversas isenções fiscais do prefeito Eduardo Paes e do governador Sergio Cabral, além de um financiamento de R$ 2,4 bilhões do banco federal BNDES. Os números são estimados. As contas da TKCSA não são de fácil acesso.
Igualmente eram sigilosos os dois contratos que a empresa mantém com o BNDES - só um deles foi noticiado pelo banco. O segundo era mantido em sigilo até que organizações da sociedade civil usaram em 2012 a Lei de Acesso à Informação e descobriram que o banco dera mais R$ 800 milhões à Companhia, além dos R$ 1,3 bi que admitia à época. 
 Se se limitar aos R$ 5 bi, as isenções e financiamentos corresponderão a 21% da Bolsa Família (R$ 24 bilhões) e ajudarão a explicar o cinturão de isolamento que a Thyssen e a Vale construíram em torno do projeto-bomba (nunca deu lucro, apesar da bilionária Bolsa TKCSA que recebe dos governos). A proteção política à TKCSA inclui três visitas de Lula presidente, numa demonstração de apoio à siderúrgica cuja instalação na Alemanha foi negada pelo governo de lá.
Todas essas informações voltaram à tona durante audiência da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio nesta terça (27). Ainda impactados pelo falecimento no domingo de Martha Trindade, uma de suas mais tradicionais representantes, pescadores de Sepetiba e moradores de Santa Cruz relataram os malefícios contínuos causados pela siderúrgica, numa tentativa de romper o cordão de isolamento em torno da TKCSA e alcançar seu objetivo final: fechar a siderúrgica e construir no local uma Universidade Eco-Tecnológica para recuperar a baía e desenvolver a região com base nas demandas da população.
 Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O novo Código vai mudar o Brasil

Fábio TradPaulo TeixeiraFredie Didier e Luiz H. Volpe

Em projeção otimista, no fim deste ano o Brasil já terá um novo Código de Processo Civil, que passará a valer 12 meses depois de sua publicação. E qual é a relevância disto para a sociedade?
Muitos não sabem que o Código de Processo Civil é a lei ordinária mais importante do país. É ele que regula as regras para a solução, pelo Judiciário, de questões de direito de família, sucessões, consumidor, administrativo, bancário, comercial, tributário e tantos outros ramos do Direito.
O Novo Código substituirá um texto que foi concebido em 1973 — há 40 anos — e que já foi alterado por 66 leis, mas que, apesar das reiteradas reformas setoriais, não é mais capaz de dar respostas à transformação da sociedade. 
 Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam que há no Brasil, atualmente, cerca de 90 milhões de processos em andamento. Muitas causas contribuem para a formação deste estoque impressionante. A legislação antiquada é uma delas.
Sem desprezar tudo de bom que existe na lei em vigor, o projeto introduz regras que podem trazer novo horizonte para a Justiça brasileira. Dentre tantas novidades destacam-se as seguintes:
* criação de mecanismos para efetiva solução consensual dos processos, com o auxílio de conciliadores e mediadores;
* introdução de regras que estabelecem o julgamento dos processos pelos juízes e efetivação das decisões judiciais pelos servidores da Justiça em ordem cronológica;
* previsão de utilização de tecnologia para simplificar e dar agilidade aos processos;
* detalhamento do dever de fundamentação das decisões judiciais;
* introdução de mecanismo para enfrentar a crescente multiplicação de processos iguais: o incidente de resolução de demandas repetitivas. Nele, se admitirá a fixação de tese a ser aplicada a processos que tratem da mesma questão jurídica, por exemplo, que envolvam tributos, FGTS, planos econômicos;
* garantia da isonomia aos jurisdicionados na aplicação da lei. O projeto quer, mediante o respeito aos precedentes, assegurar respostas judiciárias iguais independentemente de quem pede e contra quem se pede; da sorte ou azar na distribuição do feito;
* proibição da aplicação de empecilhos formais ao julgamento do mérito das causas e recursos;
* agilização da tramitação dos processos pelo conjunto de alterações do projeto, dentre elas, a redução de recursos.
Estas e muitas outras novidades do texto contribuirão para a melhor e mais rápida prestação dos serviços jurisdicionais. 
Fábio Trad (PMDB-MS) e Paulo Teixeira (PT-SP) são deputados federais; Fredie DidierLuiz Henrique Volpe são professores.

Band-aids, por Elton Simões

Como é frequentemente o caso, o inicio foi modesto, simplório, despretensioso. Quase irrelevante. Em 1921, Earle Dickson certamente não podia imaginar que sua invenção faria historia.

Earle apenas queria ajudar sua esposa, Josephine, a curar os pequenos, mas frequentes, cortes nos dedos que a afligiam. Notou que a gaze e o esparadrapo utilizados para proteger os ferimentos de sua esposa invariavelmente caiam. Decidiu inventar um curativo que protegeria os pequenos cortes e permaneceria firmemente colado aos dedos. A solução foi colocar um retalho de gaze no centro de uma fita adesiva. Nascia o Band-Aid.
Com o sucesso, Band-Aid virou substantivo e verbo. Passou a ter outros significados. No dicionário, band-aid também quer dizer solução temporária para um problema; ou aquilo que parece ser uma solução mais não tem qualquer efeito concreto.
Por definição, os band-aids da vida servem, e mesmo assim somente em alguns casos, para resolver, de forma temporária, pequenos problemas. A aplicação de band-aids não resolve questões relevantes, nem serve de remédio efetivo para qualquer coisa. Band-aids são soluções temporárias, precárias, ineficazes. Quebra-galhos, mesmo.
Apesar disso, são politicamente atraentes. Os golpes de caneta desfechados na aplicação dos band-aids dão a impressão de que as coisas estão resolvidas. Iludem, ou pelo menos, tentam iludir.
Band-aids vem em muitas formas, e com diferentes nomes. Às vezes se chamam bolsas. Outras vezes, subsídios. Invariavelmente beneficiam poucos à custa de muitos. Em todos os casos, vendem a ilusão de que, em algum lugar, existe um almoço de graça. 

Band-aids são cúmplices perfeitos em estratégias cujo único objetivo é empurrar, para um futuro indefinido, mas não necessariamente distante, os problemas com a barriga. Evitam o confronto as causas dos problemas.
Ao fim e ao cabo, aplicações sucessivas e indiscriminadas de soluções temporárias (e ineficazes) a problemas permanentes geram custos, sofrimento e prejuízos. Quando a conta é apresentada, o arrependimento vem.
A má noticia vem acompanhada da constatação de que, de fato, como dita o senso comum, não existe almoço de graça. Band-aids não resolvem. 
Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca

Pixinguinha toca e samba nos 400 anos de São Paulo

Deu no Ancelmo-----Dica do nosso Aluízio Maranhão, jornalista e sambista. Acabou de chegar ao Youtube uma joia rara da cinematografia nacional: um documentário de Thomaz Farkas (1924-2011) exibe Pixinguinha (1897-1973) tocando e sambando com a velha guarda (sambistas como Donga, Almirante e João da Baiana) no quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954. O detalhe é que o filme, rodado no Parque do Ibirapuera, ficou 50 anos na lata porque não tinha som. Em 2004, foi sonorizado pelo Instituto Moreira Salles e Cia. de Áudio e Imagem. História se faz assim.

Em fevereiro deste ano, fez 40 anos que Pinxinguinha partiu dessa para melhor. Morreu na Igreja de Nossa Senhora da Paz, quando foi ser padrinho num batizado.
O vídeo tem só 9 minutos. Vale a pena ver de novo. 
                            

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Hipócritas, por Luis Fernando Veríssimo

Vivemos sob o signo da hipocrisia. A volta da democracia no Egito, com a queda do Mubarak e a primeira eleição livre em muitos anos, foi saudada por todo o mundo como um desabrochar primaveril. Só uma coisa deu errado: ganhou a eleição quem não deveria.

A Irmandade Muçulmana no poder só deu razão a quem diz que islã e democracia são incompatíveis, ou aos que dizem que a democracia é linda, mas não pode ser suicida.
Veio o golpe dos militares, que nunca deixaram de ser a única força política consequente no Egito, e cujo objetivo declarado não é só substituir os muçulmanos no poder, mas acabar, literalmente, com eles.
Os líderes muçulmanos estão presos e seus seguidores sendo assassinados nas ruas, à vista do mundo inteiro, que faz sons protocolares de reprovação, mas não quer se meter.
Os Estados Unidos, que sustentavam a ditadura Mubarak e há anos sustentam, com dinheiro e material, o exército egípcio, enquanto pregam democracia para todos — sem exageros, claro —, não sabem até onde levar sua “realpolitik”, que é o nome pomposo da hipocrisia.
Mas se, num acesso de autocrítica, os americanos cortarem a ajuda para o massacre, não faltará ajuda das petromonarquias da região, como aquele outro exemplo de democracia relativa apoiada pelos Estados Unidos, a Arábia Saudita. Enfim, as primaveras, como a democracia, são lindas, mas também podem ser vésperas de verões infernais. 
Hosni Mubarak, ex-presidente do Egito e ex-oficial superior do Exercito 
Essa meleca — e a meleca maior que é toda a situação no Oriente Médio, incluindo a questão Israel/palestinos — é fruto de muitos anos de hipocrisia, começando com a hipocrisia das potências imperialistas, que pilharam meio mundo disfarçadas de evangelizadoras e civilizadoras, e, no caso do Oriente Médio, chegaram a impor fronteiras e inventar países.
A própria geografia da interminável crise em que vive a região é uma herança da passagem dos ingleses, que deixaram o lixo da sua farra para trás. Mas tanto os países artificiais quanto os históricos, como o Egito, tiveram culpa pela sua desgraça atual.
Nos anos 60 e 70 ensaiou-se a criação de uma nova ordem econômica mundial, independente da ordem sacramentada pelo neoimperialismo anglo-americano. Os dólares do petróleo financiariam essa tentativa de emancipação dos pobres. Mas não aproveitaram a abertura.
Os emires apoiavam a ideia da revolta em tese, mas continuaram aplicando seus lucros no sistema bancário dominante. E o neoimperialismo, enquanto exaltava a democracia liberal, se encarregava de impedir qualquer alternativa para o seu domínio.
No Egito, agora, os hipócritas se impõem criminosamente. Quem diria que toda a história recente do mundo caberia numa letra de bolero? 
Luis Fernando Veríssimo é escritor.

A escravidão foi restaurada em 2013, no Blog de Augusto Nunes

Se algum dos médicos cubanos tentar escapar de vez da ditadura castrista e asilar-se no Brasil, será atendido pelo governo ou deportado para a ilha-presídio?

Formulada no comentário de 1 minuto para o site de VEJA, a pergunta acaba de ser respondida pelo advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. “Nesse caso me parece que não teriam direito a essa pretensão”, declarou à Folha o doutor federal. “Provavelmente, seriam devolvidos”.
Depois de ressalvar que “a possibilidade de deserção é remota”, Adams tentou justificar a abjeção: “Todos os tratados, quando se trata de asilo, consideram situações que configurem ameaça por razões de ordem política, de crença religiosa ou outra razão. É nesses condições que você analisa as situações de refúgio. E, nesse caso, não me parece que configuraria essa situação”.
                        
Padilha, ministro da Saúde e Lula, ex-presidente do Brasil 
Para o bacharel do Planalto, portanto, nenhum cubano tem motivos para trocar a ilha natal pelo Brasil, a ditadura pela democracia, a opressão pela liberdade. “Esses médicos vêm como profissionais, eles vêm em cima de um compromisso, de um acordo, de um programa, de uma relação de trabalho”, derramou-se o chefe da AGU.
Adams não vê nada de mais numa “relação de trabalho” deformada por violências repulsivas. Os 4 mil importados pelo ministro Alexandre Padilha terão de viver longe da família e permanentemente vigiados por monitores incumbidos de impedi-los de relacionar-se com brasileiros.
O dinheiro dos salários (R$10 mil por cabeça) será repassado diretamente ao governo cubano, que engolirá mais de 90% da bolada.
A ópera do absurdo foi ampliada pela confissão de Adams: os médicos caribenhos pertencem aos irmãos Castro. Muitos são escravos voluntários, e se engajaram com entusiasmo na tarefa de expandir o paraíso comunista. A maioria cumpre ordens.
Os que tentarem fugir serão capturados e devolvidos aos donos. Se conseguirem enganar os capitães -do-mato brasileiros, os parentes retidos na ilha sofrerão os castigos de praxe.
Alexandre Padilha, quem diria, acabou transformado numa Princesa Isabel às avessas. Abolida em maio de 1888 por uma filha de Dom Pedro II, a escravidão foi restaurada em agosto de 2013 por um filhote de Lula.