quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os brasileiros ainda esperam uma resposta, por Gil Castelo Branco, O Globo

Há várias frases anedóticas que expressam a incompetência dos governos. O americano Milton Friedman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1976, afirmava: “Se o governo administrar o deserto do Saara, em cinco anos faltará areia.” Já o economista Delfim Netto prognosticou: “Se o governo comprar um circo, o anão começará a crescer.”

Nas recentes manifestações sociais as reivindicações foram difusas, mas tiveram como pano de fundo a péssima qualidade dos serviços públicos (saúde, educação, segurança e mobilidade urbana) frente à elevada carga tributária e à corrupção deslavada.
Decorridos quase dois meses do início das mobilizações, poucas foram as respostas efetivas. A presidente Dilma reuniu-se com uma dúzia de ONGs chapas-brancas e empurrou o pepino para o Legislativo, ao propor uma constituinte “inconstitucional” exclusiva sobre a reforma política e, posteriormente, ao sugerir temas óbvios para um plebiscito relâmpago e inviável. Além disso, propôs pactos que não se consumaram.
Nesse contexto, o Mais Médicos gerou mesmo foi mais confusão. Mas, se a intenção for mesmo consultar a sociedade, são várias as perguntas em relação às quais a enorme maioria dos brasileiros gostaria de responder “Sim” ou “Não”.
                      

Apostaria no “Sim” em várias situações como: redução para menos da metade dos 39 ministérios. Corte de 2/3 das 22.417 funções comissionadas de Direção e Assessoramento Superior (DAS). Férias de somente 30 dias para os membros do Legislativo e do Judiciário, como ocorre com qualquer trabalhador. Redução da quantidade de deputados federais, estaduais e vereadores. Votação imediata dos 130 projetos de lei relativos ao combate à corrupção, engavetados há anos no Congresso Nacional. Redução para 1/3 dos gastos com publicidade na União, estados e municípios. Julgamento imediato dos mensalões (PT, PSDB e DEM) e dos processos que envolvem parlamentares, a começar pelo do presidente do Senado. Proibição do uso de recursos públicos ou de isenções fiscais para bancar aquelas propagandas partidárias, repetidas, irritantemente, nos horários nobres. Fim dos suplentes de senadores sem votos. Maioridade penal aos 16 anos, para exterminar o “sou di menor”. Proibição para que parlamentares condenados pelo Supremo Tribunal Federal continuem legislando, a seu favor ou contra aqueles que os condenaram. Fim do voto secreto no Congresso. Ampliação da Ficha Limpa para todas as instâncias e Poderes. Fim do imposto sindical obrigatório que retira compulsoriamente do trabalhador o valor correspondente a um dia de trabalho por ano em prol de sindicatos (alguns fictícios), militantes e dirigentes com fortunas amealhadas sabe-se lá como. Esse plebiscito do bem daria um livro.
Por outro lado, creio que surgiria um “Não” sonoro às propostas que implicam em dar mais poder e dinheiro aos caciques políticos. Dessa forma, parecem mínimas as chances de os brasileiros concordarem em votar em uma “lista fechada” de candidatos definida pelos “proprietários” dos partidos, bem como de aprovarem o financiamento público exclusivo das caríssimas campanhas eleitorais, à custa dos impostos pagos. Neste ano, mesmo sem eleições, os partidos políticos irão receber do orçamento da União (via Fundo Partidário) R$ 294,2 milhões, além dos R$ 300 milhões das isenções fiscais concedidas aos veículos de comunicação pelas inserções políticas publicitárias.
Plebiscito à parte, prova da surdez dos parlamentares está no fato de terem saído de “recesso” sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, contrariando a própria Constituição. Justificam a “gazeta” argumentando que as Casas estão funcionando, apenas sem as votações.
A “mentirinha” faz lembrar o historiador Capistrano de Abreu, que imaginava como artigo principal da Constituição Federal o dispositivo: “Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.” Ao contrário, alguns dos nossos deputados e senadores devem lustrar os rostos com óleo de peroba. Tomara que não o façam com a verba indenizatória...
Enfim, como as autoridades — por incompetência ou conveniência — continuam fazendo vista grossa às reais demandas da sociedade, os protestos tendem a continuar. A queda abrupta da popularidade da presidente Dilma e da maioria dos governadores é reflexo natural da insatisfação coletiva.
O que os governantes e marqueteiros não percebem é que o anão do circo cresceu e que as manifestações não morrerão na praia ou no deserto de providências concretas que atendam, de fato, os anseios de milhões de brasileiros. 
Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Um homem sereno que não fala para sectários (Editorial O Globo)

Livros já foram escritos sobre a vida do Papa Francisco, embora pouco mais de quatro meses tenham decorrido desde a sua eleição para o trono de São Pedro. Mais alguns serão escritos, com certeza, para tentar interpretar o fenômeno de popularidade em que ele se tornou.

A passagem do Papa pelo Rio foi marcada, como se sabe, por graves problemas de organização. Talvez não haja cidade que possa enfrentar incólume a chegada repentina de mais de um milhão de visitantes. Padrões mais altos de eficiência, porém, terão de ser alcançados, se vamos enfrentar desafios como Copa e Olimpíadas. Mas, das muitas confusões, emergiu um evento que será lembrado com saudade — inclusive pelo Papa Francisco.
Suas conotações são quase infinitas, atingindo todos os assuntos que fazem a vida dos seres humanos. Havia, por exemplo, o dado religioso, o fato de que um Papa popular e carismático veio encontrar-se com a maior população de católicos da terra. As multidões que corriam em todas as direções para chegar mais perto do Papa certamente incluiriam pessoas simples, que, para além dos debates teológicos, veem em Francisco, como ensina a Igreja, o sucessor de Pedro.
Mas o fenômeno meio mágico a que o Brasil e o mundo assistiram vai além do terreno religioso. Ao vivo ou pela televisão, massas humanas se defrontaram com o espetáculo notável que é ver alguém chegar aos píncaros da popularidade, do sucesso, e continuar a ser o que, nessas eminências, acaba sendo muito raro: uma pessoa normal, sem qualquer pose.
O Papa Francisco teve uma palavra suave para todos. Confessou-se, ele mesmo, pecador, solidário com os erros dos outros (no voo de volta a Roma deu declaração não discriminatória sobre os gays). Pediu que rezassem por ele. Mas, em nenhum momento, mostrou-se complacente com o comodismo, numa realidade social que pede tantos ajustes.
Ajustes ele se propõe a fazer também dentro da Igreja, ficou claro na entrevista que concedeu ao “Fantástico”. Quase que denunciou uma Igreja “clerical” que transforma os meios nos fins. Criticou os bispos que incorram numa “psicologia de príncipe”. Aos jovens, deixou um grande mote: “Ide, sem medo, para servir.” Quer que eles estejam atentos às realidades do mundo, e que não se deixem instrumentalizar por este ou por aquele caminho demagógico.
Ele falou para todos, e não para mentalidades sectárias. Tudo bem pesado, talvez a sua mensagem mais forte seja a da necessidade do Encontro, para que possamos diminuir o tamanho dos nossos problemas. Num continente como o nosso, repleto de desigualdades, é muito fácil obter dividendos políticos cultivando inimizades, criando bodes expiatórios. Toxinas desta natureza estão bem visíveis em países como a Venezuela e a Argentina. Para esses é que pode fazer bem a palavra do Papa Francisco — lúcida, serena, humana.

A galeria da blasfêmia: pinturas escondidas na Fundação Sarney

Blog de Augusto Nunes

Para abrigar alguns badulaques e quinquilharias que lembram a passagem do patriarca pela Presidência da República, a Famiglia que há 50 anos suga, sangra e sufoca o Maranhão decidiu criar a Fundação José Sarney.
Para que a entidade se instalasse num endereço à altura do poderio do clã, o mais ilustre maranhense expropriou o Convento das Mercês. Foi assim que uma relíquia da arquitetura colonial virou sede do bando chefiado pelo pai-da-pátria a quem os comparsas se referem pela alcunha famosa: Madre Superiora.
A descoberta do acervo de maracutaias que reduziram um convento a cabaré secou a cachoeira de donativos suspeitíssimos e verbas federais irregulares que sustentavam a Fundação (e engordavam as contas bancárias dos novos proprietários, começando pelo senador do PMDB promovido por Lula a Homem Incomum).
Em vez de correr atrás do prejuízo, o pai da governadora ordenou que a conta fosse repassada aos moradores da capitania hereditária. E Roseana Sarney incorporou ao patrimônio público a instituição privada em apuros.
Não é pouca coisa. Mas não é tudo, avisou neste domingo a espantosa reportagem da Folha de S. Paulo sobre como andam as coisas no antigo convento.


Numa sala fechada à visitação pública, o jornalista Reynaldo Turollo Jr. encontrou cerca de 30 quadros que mostram integrantes da Famiglia Sarney, agregados e políticos aliados com trajes e adereços religiosos. Parece mentira? Veja a galeria publicada pela Folha. E leia as informações que acompanham cada pintura.
José Sarney, por exemplo, contempla a eternidade fantasiado de cônego. Sua mulher, Marli, capricha na pose de freira. Edison Lobão, alojado por Madre Superiora no Ministério de Minas e Energia, não sabe direito se é frade ou monge.
Roseana, Zequinha e Fernando também aparecem paramentados para a missa negra. Todos têm o olhar confiante de quem garantiu a aprovação no Dia do Juízo Final com a compra de indulgências plenárias no mercado paralelo.
O Brasil sabe há muito tempo o que essa turma faz para transformar o Maranhão num inferno sobre a terra. Acaba de saber que os pecadores sem remorso resolveram debochar do Reino dos Céus. Não temem a Justiça divina porque nunca temeram a Justiça dos homens 

A arte de Antonio Lucena


A culpa é de São Pedro, por Elton Simões

Talvez seja sempre possível culpar os outros. São Pedro é sempre um bom candidato. Nos começos de ano, ele sempre esta disponível para emprestar as costas largas para justificar a seca que traz a falta de energia elétrica; ou o excesso de chuva que, transborda os rios, desmorona montanhas, e inunda cidades.

Mesmo nos eventos que não vem em intervalos regulares, São Pedro é sempre chamado para suportar em seus ombros, no todo ou em parte, o peso da culpa pelos fracassos cá na terra.
Dizem, por exemplo, que é dele (logo dele!) a culpa pelo cancelamento da missa. Claro. Foi ele que mandou a chuva que criou o lamaçal. Precisa de muita fé (nas pessoas erradas) para culpar São Pedro. Mas acontece.
Na falta de São Pedro, o universo pode ser o bode expiratório. A imprevisibilidade é algo muito difícil de acomodar. Afinal de contas, as coisas talvez somente sejam mesmo previsíveis depois que acontecem.
Da também para culpar as pessoas que comparecem ao evento. Se não fossem tantas; ao mesmo tempo; e tão imprevisíveis, nada aconteceria de errado. Tudo correria como deveria. Sem os usuários, o metro provavelmente funcionaria.
Bodes expiatórios são sempre muitos e disponíveis. Requerem apenas a combinação de certa dose de cinismo, com um otimismo cego, infeccioso, mas felizmente não contagioso.
Basta, para tanto, que se ignore a falta de preparo, planejamento e/ou competência. Que se busque a completa transferência de responsabilidade. Que os fatos sejam olhados de perspectivas ao mesmo tempo tolerantes quanto aos erros; acrítica quanto às causas das falhas; e otimistas quanto aos resultados obtidos.
Somente desta maneira pode-se comemorar a ausência de tragédias. Ou festejar a capacidade e improvisação diante do caos iminente. Podem-se mudar os critérios de mensuração do sucesso. Pode-se, enfim, assumir a paternidade do que da certo e afastar, com toda a ênfase, tudo aquilo que deu errado.
Para isso, da sempre para culpar São Pedro pela chuva. Responsabilizar os usuários pelos problemas. E, claro, agradecer a Deus pela tolerância a desorganização e ausência de planejamento. 
Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Travessa da política, por Míriam Leitão

Ler a entrevista completa , click aqui

O plebiscito surgiu como proposta numa hora de tumulto do país e pareceu a alguns uma forma de a presidente fugir de problemas; a outros, uma forma de tirar força do Congresso. Para o ministro Joaquim Barbosa, independentemente do contexto em que apareceu, a ideia de haver mais plebiscitos e referendos no país é boa. “É uma forma de revigorar a democracia.”


O argumento de Barbosa na entrevista que me concedeu foi que assim que se falou em “plebiscito” o país foi atingido por uma “demofobia” (medo do povo). Esse medo de que o povo não entenda ou não saiba escolher não se justifica, segundo ele, porque, explicado bem, tudo pode ser entendido. E na consulta basta formular bem a pergunta:
— Ouvir o povo é sempre uma boa ideia, dar a palavra ao povo. Quantas democracias têm plebiscito e referendos frequentemente? Nos Estados Unidos, França, Itália. Na União Europeia, as adesões aos sucessivos pactos foram feitos através de referendos.
O presidente do Supremo já vem dizendo que o sistema eleitoral brasileiro tem que ser alterado, acabando-se com a fórmula atual do cálculo de sobras, que permite que um candidato com muito voto eleja políticos quase sem voto; pensa que o suplente tem que ser eliminado e propõe, no lugar, que haja eleição em caso de morte de senador, por exemplo:
— Os TREs estão preparados para fazer rapidamente uma nova eleição parcial.
Ele define como “abominável” o sistema de lista fechada, mas usa o mesmo adjetivo para o sistema atual, em que os partidos, sem qualquer transparência, aproveitam-se das sobras do quociente eleitoral:
— É uma burla da vontade do eleitor, que votou em alguém e vai eleger mais quatro ou cinco políticos escolhidos pela cúpula do partido.
Ele é um defensor do sistema distrital, convencido de que resolveriam esses problemas que ocorrem hoje na democracia brasileira:
— O sistema distrital é mais transparente, expressa mais a vontade do eleitor e cria a identificação direta do eleitor com o eleito.
Sobre os Tribunais Regionais Federais, cuja criação ele decidiu suspender, a explicação que deu é que isso é rotineiro. Atribui as críticas à falta de informação sobre como funcionam as instituições. Decidir nas férias dos ministros é uma prerrogativa do presidente, explicou. Depois, o assunto volta ao ministro para o qual foi distribuído. Mas, já entrando no mérito, ele diz que o Judiciário brasileiro tem garantias contra interferências políticas. O risco de aceitar que o Legislativo crie tribunais é que ele pode querer também suprimir.
— Permitir que políticos interfiram de alguma maneira criando ou suprimindo tribunais é abrir as portas para a fragilização do Judiciário. Isso, a sociedade não quer, e a Constituição não permite.
Lembrei que ele votou no presidente Lula e na presidente Dilma e foi escolhido por Lula, mas, mesmo assim, teve que fazer o voto que levou à condenação de lideranças fundamentais do PT. Quis saber se havia sido doloroso para ele. Ele respondeu com segurança:
— Nem um pouco, ali eu estava cumprindo meu dever, como sempre cumpri nestes 39 anos e meio de serviços ao Estado brasileiro. Como é o presidente que nomeia os ministros, ele não pode escolher um amigo, ou um cupincha, um subordinado. Ao contrário, tem que escolher alguém com postura de estadista. Alguém que vai encarar um processo como esse de maneira mais natural. Eu não tomo conhecimento, ignoro a qualidade e as condições das partes que estão sendo julgadas. Uma das tragédias do Brasil é a justiça criminal de classe.
Pedi que ele apontasse um dos problemas do Brasil, e ele disse que é o mesmo que outros países: falta de líderes e visão de longo prazo. O mundo inteiro está com falta de lideranças, na sua opinião. Acha que no Brasil o problema surge da ditadura, que criou um vácuo, e do sistema político eleitoral, que tem impedido o surgimento dessas lideranças. Pessoas que poderiam ir para a política, mas se perguntam: por que vou me meter nisso? Por que vou frequentar esse tipo de gente?
Por isso ele acha fundamental modernizar o sistema político. A longa entrevista na Livraria da Travessa, no Rio, foi interrompida por pessoas que estavam por perto. Uma vez, por um crítico; outras três vezes, por pessoas que disseram que votariam nele.

Trens e Metrô superfaturados em 30%

Ao analisar documentos da Siemens, empresa integrante do cartel que drenou recursos do Metrô e trens de São Paulo, o Cade e o MP concluíram que os cofres paulistas foram lesados em pelo menos R$ 425 milhões----Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Sérgio Pardellas


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De acordo com os documentos aos quais ISTOÉ teve acesso, o governo estadual sabia exatamente da precariedade da construção quando transferiu os arquivos para o local. O relatório de auditoria afirma que em 20 de abril de 2012 - portanto, três dias depois da assinatura do contrato entre a PA Arquivos e o governo de Geraldo Alckmin - o galpão permanecia em obras e “a empresa não estava preparada para receber as caixas do Metrô”. A comunicação interna do governo diz mais. Segundo o laudo técnico do GAD, “a empresa não possuía instalações adequadas para garantir a preservação do acervo documental”. Não havia sequer a climatização do ambiente, item fundamental para serviços deste tipo. 

O prédio foi incendiado poucos dias depois da migração do material para o espaço. “Não quero falar sobre esse crime”, disse um dos proprietários da empresa, na época do incêndio, Carlos Ulderico Botelho. “Briguei com o meu sócio, sai da sociedade e tomei muito prejuízo. Esse incêndio foi estranho. Por isso, prefiro ficar em silêncio”. Outra excentricidade do crime é que o fato só foi confirmado oficialmente pelo governo seis meses depois do ocorrido. Em 16 páginas do Diário do Diário Oficial, falou-se em “sumiço” da papelada. Logo depois da divulgação do sinistro, o deputado estadual do PT, Simão Pedro, hoje secretário de Serviços da Prefeitura de São Paulo, representou contra o Governo do Estado no Ministério Público Estadual. “Acredita-se que os bandidos tenham provocado o incêndio devido o lugar abrigar vários documentos”. Para o parlamentar, “esse fato sairia da hipótese de crime de roubo com o agravante de causar incêndio, para outro crime, de deliberada destruição de documentos públicos”, disse Simão, em dezembro passado. Procurados por ISTOÉ, dirigentes do Metrô de SP não quiseram se posicionar.

Papa dá um carão nos cardeais da América Latina, por Deborah Berlinck, O Globo

Pontífice condena também tentação do 'funcionalismo paralisante', que reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. Francisco diz que posição do missionário não deve ser de centro, mas de periferias 

No discurso para bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), no Centro de Estudos do Sumaré, o Papa Francisco criticou o que chamou de "ideologização" da mensagem evangélica. Isto é, interpretações do Evangelho que podem ir de um extremo ideológico a outro. Isso, que ele chamou de "Igreja tentada" (Igreja da tentação), foi visto por alguns como uma referência velada aos movimentos controversos da Igreja, como o Opus Dei, de extrema-direita, ou a Teologia da Libertação, de extrema-esquerda.
O Papa também falou que a posição do missionário não deve ser de centro, mas sim de periferias e que os bispos, portanto, deve ser pastores, "próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misecordiosos".
- Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como verdades diante do Senhor, quer a pobreza exterior, como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham "psicologia de príncipes". Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra.
Neste momento, o Papa Francisco deixou o discurso de lado e brincou que os pastores têm que lembrar que são casados com a Igreja e que não podem ser polígamos.
Francisco também fez menção ao diálogo com o mundo atual, pois as alegrias, tristezas e angústias dos homens do nosso tempo são as dos discípulos de Cristo:
- A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”. Se continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo.
O Pontífice disse que é necessário que, como pastores, os bispos se interroguem sobre o andamento das Igrejas a quem presidem. E enumerou perguntas a serem feitas. Entre elas:
- Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? - perguntou.
Ele também indagou:
- Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os conselhos paroquiais de pastoral e de assuntos econômicos são espaços reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que estamos muito atrasados nisso.
O Papa listou propostas ideológicas que "aparecem" na América Latina e no Caribe. A primeira da lista foi:
- O reducionismo socializante, que é a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista - disse o Papa.
Outra tentação, disse, é a "ideologização psicológica", que, segundo ele, é frequente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais e outros do gênero. Ou seja, uma interpretação "elitista, que, em última análise, reduz o encontro com Jesus Cristo e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento".
Tem ainda, continua o Papa, a "proposta gnóstica". Isto é:
- Grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante descarnada.

domingo, 28 de julho de 2013

Cabral precisa descobrir o Brasil, por Elio Gaspari

Sérgio Cabral foi reconduzido ao governo do Rio em 2010 com os votos de dois terços do eleitorado. Uma vitória para ninguém botar defeito. Em menos de três anos tornou-se um governador detestado.

Talvez seja exagero acreditar que é o pior entre seus pares, mas pode-se ter certeza de que foi o que impôs a maior quantidade de desaforos ao seu povo. Gosta de uma viagenzinha, mas tem no colega Cid Gomes um rival.
Usa o helicóptero da viúva para levar o cão Juquinha a Mangaratiba, mas queima menos combustível que os ministros da doutora Dilma na JetFAB (1.664 solicitações em seis meses). Comparado com o comissário Alexandre Padilha, é um sedentário.

Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro 
O ministro da Saúde voou 110 vezes, na maioria dos casos para São Paulo. Diz bobagens, já defendeu o aborto informando que a Rocinha era “uma fábrica de produzir marginal”, mas foi um dos governadores do estado que, com ajuda federal, mais investiram em programas de recuperação dessas comunidades.
É dado a breguices: “Este é o melhor Alain Ducasse”, disse, referindo-se ao restaurante onde concluíra um repasto, em Mônaco.
Desde que o “Monstro” saiu às ruas, Cabral desafiou-o. Disse que “essas manifestações estão tendo um caráter, um ar político que não é espontâneo da população”. (Na semana passada, elas tinham o apoio de 89% dessa população.)
Fabricada era a passeata que seu governo organizou para apoiá-lo na disputa pelos royalties do petróleo. Tinha cercadinho VIP e pulseirinhas para celebridades.
Cabral justificou seu uso privado de helicópteros públicos dizendo que “não sou o primeiro a fazer isso no Brasil”. Esqueceu-se de dizer que não reincidirá no folguedo.
Há duas semanas, um carro da sua polícia atirou numa área onde havia manifestantes. Quem foi? Pfff. O prefeito de Miguel Pereira homenageou-o num evento cuja convocação dizia o seguinte aos beneficiários do programa Renda Melhor: “O não comparecimento poderá resultar na perda do benefício. (...) Levem seus familiares.”
A prefeitura disse que foi um “equívoco”. Sua assessoria esclareceu que não sabia de nada.
No seu pior momento, Cabral informou que, “nesses atos de vandalismo, tem a presença de organizações internacionais. (...) Sabemos que há organizações internacionais estimulando o vandalismo e o quebra-quebra”.
Em seguida criou uma comissão para apurar os atos de violência. Havia um casal que se declarou a serviço da Abin. A polícia disse que apreendeu 20 molotovs com um preso? Cadê ele? Vinte coquetéis com uma só pessoa?
O único preso, com espalhafato, nada tinha a ver com a história. Salvou-se pedindo socorro à Mídia Ninja. Graças a ela e a um vídeo da TV Globo, sua inocência ficou estabelecida. Quem criou a patranha?
No meio disso tudo, a PM prendeu um pedreiro na Rocinha, e ele sumiu. A polícia diz que ele desapareceu depois de ter sido liberado. Cadê o vídeo da sua saída da UPP? A câmera enguiçara na véspera.
A conexão da polícia do Rio e das milícias com barbarizações deveria assustar Cabral. Já houve época em que o submundo das meganhas carioca e federal se meteu em coisa parecida.
Num caso, em setembro de 1980, a descrição da cena da explosão de uma banca de jornais na jurisdição da 28ª DP chegou ao conhecimento do seu titular e do Palácio do Planalto. Sentaram em cima. Sete meses depois, o governo explodiu no Riocentro.
Cabral pode não ter entendido o que está acontecendo no país, mas não se eximirá de ser cobrado pelo que acontece no seu governo.

O poder do Papa, por Luis Fernando Veríssimo

Os Papas já tiveram o poder de reis. A história da Europa é, em grande parte, a história desta divisão de poder, e da luta entre os dois absolutismos, o dos Papas e o dos monarcas. O Geoffrey Barraclough (historiador favorito do Paulo Francis quando este ainda era de esquerda e escrevia no “Pasquim”) tinha uma tese segundo a qual a rivalidade de Roma com os reis explicava a superioridade da Europa sobre as sociedades orientais, que já eram civilizadas quando a Europa ainda era terra de bárbaros, mas governadas por dinastias antigas, rígidas e incontestadas, e por isso paradas no tempo.
Na Europa, quem não quisesse se submeter a uma monarquia tinha a opção de se submeter à Igreja. A troca era de um império teocrático por outro, claro, mas criou-se o hábito de dissidência e de pensamento dialético, prólogo para o desenvolvimento científico que viria depois, apesar do obscurantismo da Igreja. E a opção determinou que a Europa não fosse um império monolítico, e sim uma coleção de pequenos Estados.
Acima de tudo, o pluralismo reforçou a independência e a importância das cidades comerciais — Milão, Palermo, Gênova, Veneza, Marselha, Barcelona, Antuérpia, Southampton, Lisboa, as cidades da liga hanseática (o primeiro ensaio de um mercado comum europeu) etc. —, cuja competição impulsionaria as descobertas e a expansão colonial. Tudo isto porque os Papas eram iguais aos reis, inclusive na pretensão de representarem a vontade de Deus na Terra, com exclusividade.
Dizem que certa vez Stalin reagiu à notícia de que o Vaticano o teria reprovado, por alguma razão, com a pergunta desdenhosa: “E quantas divisões tem o Papa?” Desde que perdeu seu poder que rivalizava com o dos reis, o Papa só tem a seu dispor a Guarda Suíça, e assim mesmo para fins decorativos. Mas o Vaticano é o grande exemplo de um Estado cuja potência não se mede com armas — pelo menos não com armas convencionais.
Atualmente, a julgar pela recepção que ele teve no Brasil, o arsenal do Vaticano se resume ao sorriso simpático de um homem. A Igreja não tem mais a relevância política e histórica que teve antigamente e sacrificou muito da sua autoridade moral com posições retrógradas e escândalos financeiros e sexuais. Mas a emoção das multidões que ele mobilizou serviria como uma resposta ao Stalin.

São todos mulheres de César

Quando José Maria Alkmim pronunciou, pela primeira vez, a consagrada frase — que dizem não ser dele — “Em política, o que importa é a versão, não o fato”, Ulysses Guimarães arrematou:

— Isso é a tradução pessedista (do PSD) do “Não basta à mulher de César ser honesta, deve parecer honesta”.

As ruas decretaram o fim da tolerância com as benesses do poder. Pouco importa se o usuário seja Aldo Rebelo, conhecido por hábitos modestos como o de andar a cavalo pelos centros históricos do litoral brasileiro.

O Papa não poderia vir numa hora melhor para referendar a intolerância popular contra as mordomias e, em alguns casos, até luxúrias.

Até o velho Bush, que maltratou o país no governo Sarney, virou agora referência boa, ao raspar a cabeça em solidariedade ao filho doente do seu segurança.

E qual o exemplo dos nossos ex-presidentes às ruas? Um, pelo circuito Elizabeth Arden (Paris, Roma e Londres), outro, pelo Terceiro Mundo, em jatinhos de empreiteiras.

sábado, 27 de julho de 2013

“Bota mais água no feijão”, por Maria Helena RR de Sousa

Francisco tem passado mensagens profundas com palavras simples, palavras do dia a dia e nisso reside sua força. Será que alguém imagina a possibilidade dos recados claros do Papa não entrarem em nossas mentes?

Na saudação em Varginha o jovem escolhido para cumprimentar o Papa disse verdades que incomodam, certamente incomodam muito. Ele contou ao Papa sobre a agitação incomum nas ruas e vielas de seu bairro, a azáfama das autoridades em armar um cenário que, talvez, iludisse o Papa...
Pois sim. Francisco, quando Bergoglio, tinha o hábito de visitar comunidades carentes na periferia de Buenos Aires e ir sem avisar. Ele sabe reconhecer o que foi feito ontem daquilo que faz parte da realidade do lugar que visita.
Pastor, que prega a justiça e a misericórdia, ele sabe distinguir o certo do errado: "Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma".
Já vejo analistas da fala do Papa a dizer que aí ele criticou as UPPs. Não compreendi assim: ele sabe que se não fosse a política de pacificação, ele não poderia ter entrado nessa favela que até pouco era conhecida como Faixa de Gaza.
O que ele fez foi entusiasmar os jovens a continuar a exigir o que lhes é devido, pois está convicto que se os jovens tiverem a estrutura que hoje lhes falta, os mercadores da morte não terão vez. Lembrou os pilares fundamentais de uma nação: Educação da mente e do espírito; Saúde, essencial; Segurança (mas “a violência só pode ser vencida a partir da mudança do coração humano”); e a base de tudo: a Família. 
Papa Francisco quando jovem 
Aos peregrinos, em Varginha ou na Catedral, em línguas diferentes, ele disse a mesma coisa, “hagan lío”. Façam barulho, movimentem-se, vão às ruas e peçam, peçam, peçam. “Os jovens possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram seu próprio beneficio". Pediu-lhes que não desanimassem e lhes garantiu que “a realidade pode mudar, o homem pode mudar”.
Às autoridades o Papa pediu o essencial numa só palavra: Solidariedade. “Trabalhem por um mundo mais justo. (...) Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que regula nossa sociedade. Mas sim a cultura da solidariedade".
Lembrou algo fundamental: o homem tem fome de dignidade!
Ao usar, no discurso em Varginha, as palavras que sempre ouvimos em nossas casas e até no nosso cancioneiro, “bota mais água no feijão”; ao sorrir o mesmo sorriso que tinha quando menino para as crianças entusiasmadas com sua presença; ao pedir que rezemos por ele, Francisco nos cativou para sempre.
Cativou os jovens e os idosos, as duas pontas do presente, segundo ele. Os que não podem ser descartados por ser o passado que forma o futuro.
Obrigada, Papa Francisco. 
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa --Tem uma fanpage e um blog – Maria Helena RR de Sousa.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

'Mais Médicos': intransigência ou mercenários?

Imagem extraída da internet

O grande foco dos debates atualmente na mídia e nas redes sociais tem sido, fora as reivindicações das ruas e a visita do Papa, a questão da saúde pública e o imbróglio causado pelo programa “Mais Médicos”, lançado pela presidente Dilma Rousseff, dias atrás. O governo federal defende a proposta com unhas e dentes e a dmite que o sistema de saúde pública está longe do desejável, principalmente nas periferias e no interior do país.
Segundo o governo, a falta de estrutura é um fator, mas a contratação de profissionais de saúde para suprir carências nas periferias e nas cidades interioranas não pode esperar. Ela é crucial para a melhoraria do sistema público. O fato é que muitos médicos brasileiros se recusam a trabalhar nessas localidades.
Já as entidades representantes dos médicos querem impedir de todas as formas a contratação de estrangeiros para atuarem nessas áreas. Questionam a possibilidade de profissionais formados no exterior trabalharem sem revalidar o diploma e a falta de fluência da língua portuguesa, entre outras coisas. A queda de braço mantém pacientes sem assistência e a categoria batendo na tecla da falta de estrutura, de equipamentos, de segurança, condições mínimas de trabalho e de salários dignos, como a verdadeira causa de tudo.
Num programa de TV esta semana, o tema foi debatido com representantes dos médicos contrários ao “Mais Médicos”. Eles repetiam exaustivamente que há médicos suficientes para atender a população brasileira. Os dados apresentados dão conta de que no Brasil há cerca de 1,8 médicos para cada 10 mil habitantes, segundo eles, número suficiente, já que no Japão e EUA a média é de 2,2 médicos para cada 10 mil.
“A falta de atendimento não ocorre por falta de médicos, mas sim, pela má gestão e distribuição dos profissionais existentes no país” afirmam. Se existem, onde estão? Se faltam médicos, porque isso ocorre somente ou exclusivamente na rede pública de todo o país.
A resposta pode estar numa reportagem exibida no mesmo programa. A gravação mostrou um hospital público em situação precária de um lado da rua e do outro lado da mesma rua diversas clínicas particulares explorando a falta de atendimento no vizinho. As consultas partiam dos R$ 100,00 e os exames mais simples dos R$ 17,00. Médicos não sei, mas mercenários do outro lado da rua...
Todos sabem que o sistema de “saúde publica” brasileiro está na UTI. Agora, negar que diversos profissionais preferem trabalhar nos grandes centros em seus consultórios, clínicas ou hospitais particulares é afrontar a inteligência alheia. Profissionais devem ser livres nas suas escolhas, mas tentar impedir que outros exerçam a profissão e salvem vidas em lugares inóspitos, com pouca ou quase nenhuma estrutura, é uma prática corporativa-radical inaceitável.
“Brasília está no centro do poder. Os hospitais públicos daqui não são padrão primeiro mundo e não estão caindo aos pedaços, mas o atendimento e desumano. Uma jovem quebrou a perna em meados de junho, mas só conseguiu fazer a cirurgia para correção um mês depois. Foram várias marcações e remarcações, mas a proeza de conseguir a tão esperada cirurgia só foi possível devido a muita pressão de familiares e denúncias feitas à mídia local.”
Os familiares não tinham com pagar pela cirurgia na rede particular, que cobrava em média R$ 15 mil pelo ato. Durante o calvário a direção do hospital público dizia num dia não ter cirurgião, no outro falta do anestesista. Haja paciência, pois, pacientes sem "Mais Médicos" e sem dinheiro no Brasil é que não faltam!
Hélio Chaves é jornalista

O Rio e as ruas, por Mara Bergamaschi

Desvendar uma cidade não é simples. Sobretudo para quem não nasceu nela. E ainda mais se a cidade em questão é consagrada por um punhado de estereótipos. Quando generalizações superlativas não batem com a realidade, o jeito é ler e pesquisar.
A volta ao passado ajuda a compreender este Rio contemporâneo que se insurge sem trégua, desde junho. As capitais sossegaram, mas o Rio não. Quem continua nas ruas são os estudantes. Que ainda recebem respaldo da população da cidade. Pelo simples fato de que enfrentam uma polícia truculenta e arbitrária, sob as ordens de um governo com a popularidade em queda livre.
O conforto sensorial que a natureza exuberante da cidade oferece é um bom ponto de partida para a reflexão sobre o Rio e as ruas – hoje conflagradas. Com uma paisagem dessas, quem não gostaria de estar ao ar livre, de sair de casa? Sim, o carioca gosta muito da rua – é a sua principal área de lazer.
A “vocação do prazer” (título do livro de Rosa Maria Barboza de Araújo, Rocco, 1993) atribuída ao Rio é uma construção social e ideológica recente, inaugurada com a República (1889). Que moderniza, embeleza e equipa a capital, abrindo o espaço público - antes insalubre, precário e perigoso. Surge uma classe média que se educa nas escolas públicas, frequenta teatros e confeitarias, diverte-se nas praças e praias, promove um carnaval elegante. 
Manifestações contra aumento das tarifas, Rio de Janeiro, 1956. Foto: Acervo Estadão 
E também protesta nas ruas – e neste caso estará ao lado das camadas populares - pela melhoria da qualidade dos incipientes serviços públicos, sobretudo transportes, água, saneamento. No início do século XX, foram as revoltas com esta motivação geral – e não as pautas sindicais ou trabalhistas - que tiveram participação ativa da família carioca. Semelhante aos dias de hoje.
Capital de 1763 a 1960, com mais de um milhão de habitantes já em 1920, o Rio de Janeiro nunca teve perfil social que favorecesse a ordem. Distrito Federal ou não, a cidade usou muito as forças de repressão como instrumento de controle social urbano – como vemos hoje com as UPPs. A história também mostra que, exatamente como agora, a polícia aqui sempre foi julgada como negligente ou abusiva.
Se a polícia pouco mudou, a cidadania evoluiu – e muito. Com uma população politizada e crítica, dona da mais alta escolaridade do país durante décadas – Brasília passou à frente -, o Rio é termômetro da democracia. Hoje abriga protestos tão violentos que as reivindicações caíram em segundo plano. Neste contexto, as alianças entre quem está nas ruas e quem está em casa podem caminhar para o impasse - já favorecido pelas ações de um governo que tem se mostrado inepto.
 Mara Bergamaschi é jornalista e escritora. Foi repórter de política do Estadão e da Folha em Brasília. Hoje trabalha no Rio, onde publicou pela 7Letras “Acabamento” (contos,2009) e “O Primeiro Dia da Segunda Morte” (romance,2012). É co-autora de “Brasília aos 50 anos, que cidade é essa?” (ensaios,Tema Editorial,2010)

Os problemas da adaptação ao verão, por Ana Carolina Peliz

O verão finalmente chegou a Paris, com temperaturas que ultrapassam os 30 graus. Isso poderia ser uma boa notícia se a França não fosse um país despreparado para o calor. Os franceses têm tão pouca intimidade com as altas temperaturas, que a maioria deles não sabe como agir quando o termômetro ultrapassa os 25 graus, fato que acontece raramente.

Enquanto em outros países do mundo, nesta época do ano bares e cafés vendem uma variedade de frappés, chás e bebidas frias, aqui o conceito “gelado” não existe. Apesar de usarem o aquecimento durante quase o ano inteiro, a maioria dos franceses abomina o ar condicionado e o responsabiliza por todos os males da humanidade. Alguns se permitem utilizar um ventilador, mas somente durante a noite.
Além disso existem vários comportamentos que fazem parte de um senso comum ancestral, que persistem atualmente. Por exemplo, muitas pessoas acham que as portas e janelas devem ficar fechadas para o calor não entrar.
Claro que fechar as persianas pode ajudar a baixar a temperatura de um cômodo amplo. Mas um apartamento de 50 metros quadrados, com janelas herméticas, recebendo sol o dia todo ou escritórios acarpetados com computadores ligados se transformam rapidamente em verdadeiras estufas. 
Foto: Bertrand Guay / AFP 
Outra lenda que persiste é que é necessário se cobrir para se proteger do calor. Para os tuaregues do deserto, que se cobrem com roupas de linho para se proteger do sol, isso funciona. A versão parisiense destes povos nômades do norte da África, se cobre com camisetas, calças, meias e jaquetas.
Almoçar sob o sol do meio dia, correr e fazer esportes às três da tarde durante o verão também são atividades que parecem normais para um francês médio. Por isso, cada ano, o Estado francês lança um plano “canicule” para alertar as pessoas sobre os perigos das ondas de calor e informar sobre atitudes que parecem tão simples, como ingerir líquidos e evitar o sol nas horas mais quentes do dia.
Eu estou convencida de que na canícula de 2003 – uma das maiores da história da Europa, que custou a vida de 15 mil pessoas, somente na França –, as mortes foram causadas por estes comportamentos de alto risco e pela dificuldade de adaptação às mudanças de temperatura. Parece estranho, mas na verdade a relação que grande parte dos franceses tem com o calor não é muito diferente da que temos com o frio.
 Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV.

Ibope: Caem avaliação do governo, aprovação e confiança em Dilma

Avaliação do governo Dilma, segundo pesquisa Ibope divulgada esta tarde:

• Popularidade da Presidente Dilma cai de maneira significativa entre junho e julho em razão das manifestações populares
- Percentual da população que avalia o governo como ótimo ou bom recua de 55% para 31%
- Aprovação da maneira de governar e confiança na presidente caem, ambas, a 45%
• Áreas que o governo tem melhor desempenho: Habitação; Combate à fome e a miséria; e Capacitação Profissional
• Áreas que o governo tem o pior desempenho: Saúde; Segurança pública; e Educação.
• Prioridades para o governo federal: Melhorar os serviços de saúde; Combater a violência e a criminalidade; Combater a corrupção; e Melhorar a qualidade da educação.
Avaliação de governos estaduais
• Governadores mais populares são os dos estados de Pernambuco, Paraná, Ceará e Minas Gerais.
• Governadores menos populares são os dos estados do Rio de Janeiro, Goiás e São Paulo.
• Governadores mais populares são reconhecidos pelas políticas e ações em Educação, Desenvolvimento e crescimento do estado, Geração de empregos, estradas e rodovias.
Manifestações populares
• Apenas 9% dos entrevistados participaram das manifestações e 6% tinham um residente do domicilio que participou.
• 89% dos entrevistados são a favor das manifestações
• As respostas dos governantes e do Congresso Nacional não foram vistas de maneira positiva pela população. Mais de 30% dos entrevistados reprovaram totalmente essas respostas.
• 34% dos entrevistados pretendem participar de novas manifestações.
• As principais reivindicações são: Maiores investimentos em saúde, Contra a corrupção e Mais segurança pública.
Qualidade dos serviços públicos
• De 13 tipos de serviços, nove foram considerados de baixa ou muito baixa qualidade pela maioria da população.
- O piores avaliados são: Segurança pública; Postos de saúde e hospitais;Transporte público; e Educação fundamental e ensino médio.
• De um modo geral, a população identifica a responsabilidade da cada nível de governo no suprimento dos serviços públicos, mas parcela significativa defende que todos são igualmente responsáveis ou devem ser igualmente cobrados.
Tributação, disponibilidade e uso de recursos públicos
• 53% da população respondem que a maior parte dos impostos vão para o governo federal
• 51% acreditam que o governo estadual precisa da ajuda do governo federal para prover serviços públicos adequados
- No Rio Grande do Sul, Ceará e Santa Catarina esse percentual é de: 73%, 67% e 58%, respectivamente.
- No Rio de Janeiro, 60% da população acreditam que o estado tem dinheiro suficiente.
• 62% da população acreditam que a prefeitura precisa da ajuda dos governos federal e estadual para prover serviços públicos adequados
• 85% da população reconhecem que o governo federal ajuda os governos estaduais e municipais, mas cerca de 70% acham que ajuda menos que deveria
• 74% da população acreditam que a presidente e seus ministros, bem como os governadores e seus secretários utilizam mal ou muito mal os recursos públicos
- No caso dos prefeitos e seus secretários esse percentual é de 70%.
• 87% da população concordam total ou parcialmente com a afirmação de que “o governo já arrecada muito e não precisa aumentar mais os impostos para melhorar os serviços públicos”
• 82% concordam total ou parcialmente que “a baixa qualidade dos serviços públicos deve-se mais à má-utilização dos recursos públicos do que à falta deles”
• 89% discordam total ou parcialmente que “para melhorar os serviços públicos é preciso aumentar os impostos”
• 91% acham que os impostos no Brasil são elevados ou muito elevados
• O imposto que mais afeta o orçamento familiar é o ICMS, opção escolhida por 32% dos entrevistados
• São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, são os estados com o maior percentual de residentes que consideram o ICMS do estado mais elevados que o dos demais estados do Brasil.