domingo, 30 de junho de 2013

Cartas de Buenos Aires: “El encargado”, por Gabriela Antunes

Ele sabe a que horas você chegou, quando saiu, acompanhado de quem, se fez ruído e que ruídos fez. Sabe das infidelidades, quem são seus amigos, onde você compra, seu lixo, suas contas. Se você tem problemas em casa, acredite, ele sabe. Se você bebeu demais, discutiu com a mulher, comprou um cachorro, recebeu visitas ou viajou, ele vê.
O “encargado”, uma figura que não tem paralelos no Brasil, é uma profissão híbrida que abunda em Buenos Aires. Acumulando as funções de um porteiro com o poder de um síndico, os “encargados” costumam ganhar bem, têm sindicato forte e possuem poder de decisão sobre as diretrizes do condomínio.
Pela manhã, bem cedinho, você os vê lavando as calçadas da capital, jogando uma cantada para a moça que passa, tirando o lixo, ou varrendo as folhas caídas do outono. Verdadeiros xerifes do quarteirão, conselheiros da tribo urbana, decidem, em um conclave de porteiros, os rumos de seu quinhão de mundo. Poderosos.
São eles os inquestionáveis reis de elegantes edifícios na Recoleta e Palermo Chico, estendendo seu reinado pelos clássicos edifícios da refinada Av. Libertador e mais além.
O sindicato Suterh (dos trabalhadores de edifícios) tem rádio e canal de TV. Possui centro cultural de prestígio, clubes, agência de viagens, plano de saúde, academias, escolas e centros de formação, consolidando-se como um dos grêmios mais fortes do país.
A sede, por exemplo, é um moderno edifício de sete andares em uma zona central da capital. Entre os benefícios dos associados está até funeral, com direito a velório, cortejo e quatro coroas de flores. 
Até agora o “encargado” Jorge Mangeri é o único suspeito pelo assassinado de Rawson. (Télam)

Nas torres do bairro de Palermo, conta-se, há salários superando 20 mil pesos (algo como 8 mil reais). Reza a lenda urbana que o chefe dos “encargados” de um dos edifícios mais intrigantes e famosos da capital, o Kavanagh, leva o título de mordomo.
A culpa é do mordomo? Pelo menos é o que especulam os jornais e parecem respaldar as evidências forenses. Com nuances mórbidas, a figura do “encargado” virou noticia nas últimas semanas na Argentina, depois que o corpo de uma jovem de 16 anos, de Palermo, apareceu em um lixão.
Até agora, segundo a imprensa local, todas as pistas levam a um único suspeito: Jorge Mangeri, porteiro do Edifício Ravignani 2360, onde morava a adolescente.
Há reboliço na classe média alta. Quando Angeles Rawson apareceu morta, ninguém imaginava que o assassino estaria dentro de seu próprio edifício. Menos ainda que a faceta lúgubre de um personagem tão comum em Buenos Aires viesse à tona. O caso Rawson está mexendo com os brios, imaginação e paranoias de muitos portenhos. 
Gabriela Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e mantém o blog Conexão Buenos Aires

Meu coração não precisa de partido, por Cacá Diegues, O Globo

O movimento sem nome ainda não acabou, mas, aconteça o que acontecer, já é um movimento vitorioso. Desde o dia 6 de junho, as manifestações se sucedem pelo país afora, com mais ou menos gente. Elas já alcançaram certamente seu apogeu, mas nem por isso esgotaram seus temas.

Com os jovens do movimento, como escreveu Arthur Dapieve, “a libido voltou à política”. Exatamente o oposto do que os políticos fizeram com as duas. Para os de direita, aquilo que chamamos genericamente de povo é sempre ignorante e incapaz, serve apenas para elegê-los.
Para os de esquerda, o povo é apenas um número em suas análises de classe, uma multidão. Para uns e outros, ele só existe quando eleitor.
No Ocidente, o pensamento político tem sido uma caricatura do fundamentalismo iluminista, a ideia de que é possível entender nosso comportamento privado ou público apenas pelos instrumentos que a razão nos dá.
                 
Foto: Michel Filho / Agência O Globo

Consagramos ser possível reduzir a complexidade humana a mecanismos que geram um futuro inevitável e aí, enquanto esperamos pelo inevitável, o inesperado nos surpreende.
Precisamos fazer política pensando nas pessoas, e não apenas em cidadãos sem rostos. A felicidade de cada um deve ser o fim supremo de todos os gestos públicos, não importa sob que regime — embora só a democracia nos possa dar plenas condições para essa prática.
Se criticamos o transporte urbano, não é em busca de votos para um partido, mas porque desejamos que as pessoas, dentro de sua capacidade econômica, viajem bem, com conforto e paz de espírito.
As moças e rapazes que estão indo às ruas com tanto humor podem ser comparados a heróis de outras revoluções históricas. A revolução americana, que consagrou textualmente o direito à busca da felicidade, começou com uma esperteza lúdica de colonos da Nova Inglaterra, que se disfarçaram de indígenas para jogar o chá inglês ao mar, em protesto contra os impostos praticados pelo Império Britânico.
A alegria indignada é a arma mais moderna das revoluções. Em 1964, 68, 84 ou 92, a voz da rua reivindicava a troca da política então vigente por outra. Hoje ela se manifesta contra a política.
Nossos oradores, em passeatas ou tribunas, eram admirados, conhecíamos as ideias de cada um deles, seguíamos seus eventuais partidos. Hoje as manifestações não têm líderes, ninguém faz discurso, cada um se expressa através do cartaz de cartolina que imaginar. Um deles, que vi na Rio Branco, dizia: “Meu coração não precisa de partido”.
A democracia representativa está em crise no mundo todo e não podia ser diferente no Brasil. Mas, como a democracia direta é a mãe do autoritarismo populista, precisamos encontrar um novo modelo de democracia participativa.
Essas manifestações podem estar indicando um rumo nessa direção, mesmo que erradamente confundidas com a violência. Ninguém aprova a violência praticada nelas, repeti-lo é quase uma platitude. Mas é preciso se dar conta da infiltração que o movimento vem sofrendo de quem não tem nada a ver com ele.
Além de criminosos vulgares, há também os que desejam manipular as manifestações, direcioná-las para fins que não são os seus. Tenho visto muitos vídeos na rede que nos mostram a ação e os equipamentos usados por infiltrados integralistas, neonazistas e skinheads, com suas suásticas, socos ingleses e manifestos guerreiros.
Esses vídeos também nos revelam o arcaísmo cívico que é a existência de uma Polícia Militar no Brasil. Como diz Tulio Vianna, no blog da revista “Fórum”, ela é um contingente de soldados treinados para a guerra e abandonados na “frente de batalha”, a tratar como inimigos os cidadãos que devem proteger.
Nossa Polícia Militar foi criada por D. João VI para proteger o rei do populacho da colônia. Se não acabarmos com ela, levaremos, quem sabe, mais um século para mudar sua ideologia.
Gosto muito de saber que a presidente e os políticos se manifestam sobre e até concordam com algumas das causas do movimento sem nome. O que é muito diferente, por exemplo, de Kadafi e Assad, que responderam aos protestos em seus países provocando uma guerra civil.Ou de um Erdogan arrogante que não aceita preservar uma praça para atender seu povo.
Embora não creia que os políticos tradicionais sejam capazes de entender direito o que se passa ou que estejam mesmo dispostos a abandonar seus maus hábitos, torço para que o diálogo continue e dê certo.
Como torço pela selecão brasileira, nessa e em todas as Copas, em nome da alegria e do amor ao futebol, que não pode ser sufocado por razões mesquinhas e malfeitos dos outros.
Construir um estádio como o Mané Garrincha, numa cidade em que a última final de campeonato teve menos de 2 mil espectadores, é uma insensatez e um desperdício que nos faz desconfiar de quem o praticou.
Além de desrespeito ao brasileiro exemplar que deu o nome ao estádio. Mas torcer por um time é um gesto de pertencimento e confraternização, uma coisa da qual o país precisa muito. Domingo vou vestir minha camisa canarinho com o número 10 às costas e pongar no bonde que leva a rapaziada pro Maracanã.

Papa pede a clérigos que evitem ‘lógica do poder humano’

Declaração demonstra esforços para erradicar a corrupção no Vaticano-----O Globo

O Papa Francisco pediu aos clérigos, neste sábado (29), que evitem "a lógica do poder humano", numa tentativa de erradicar a corrupção e outros problemas nas estruturas de poder do Vaticano. Em homilia na Basílica de São Pedro, ele também alertou a cúria sobre o "perigo de pensar de forma mundana".

                   
 A advertência foi realizada um dia após o último constrangimento passado pela hierarquia da Santa Sé, quando as autoridades italianas detiveram um contador do Vaticano, em uma investigação sobre o suposto contrabando de 20 milhões de euros em dinheiro da Suíça para a Itália.
O monsenhor italiano Nunzio Scarano foi suspenso no mês passado de seu cargo e também está sendo investigado pelo Ministério Público por mais um caso de lavagem de dinheiro no sul da Itália.
Paralelamente, o cardeal italiano Velasio de Paolis, disse a um jornal romano que o Vaticano "deve limpar a casa", e acrescentou que Francisco tem o direito de continuar sua campanha contra a corrupção na hierarquia da igreja.
O papa Francisco fez reformas que buscam enfatizar suas prioridades, incluindo uma maior atenção aos pobres do mundo e se concentrar em cultivar a riqueza espiritual, e não o equipamento. Ele falou com os líderes da Igreja, incluindo o Vaticano e os cardeais reunidos na Basílica de São Pedro, durante a cerimônia anual para acolher os novos arcebispos.
No início desta semana, o Papa criou uma comissão para supervisionar as atividades do banco do Vaticano, que tem tido por muito tempo uma reputação como um centro financeiro não regulado em posição de ser explorado como um paraíso fiscal e até lavagem de dinheiro. A prisão do monsenhor Nunzio Scarano, conhecido como Monsenhor 500, destacou a urgência de garantir que as finanças do aparelho financeiro do Vaticano estão dentro do legal .

Em Espanha, Itália e Grécia, movimentos de rejeição a políticos tradicionais enfrentam desafios

Comentário meu---não passam hoje de meros profissionais incompetentes...e o futuro pertence às ruas!
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Falta de lideranças claras, pautas demasiado abrangentes e revindicações difusas estão entre os entraves --leia mais aqui.
Primeiro foram os espanhóis, que saíram às ruas aos borbotões dois anos atrás atiçados pela crise econômica que devasta seu país. Depois, os gregos insurgiram-se contra o que viam como desmandos da classe dirigente, que impunha sacrifícios intoleráveis para a maior parte da população num severo plano de austeridade anticrise. Por fim, os italianos seguiram os mesmos passos, aderindo em massa ao repúdio aos políticos tradicionais por não conseguirem superar o estado de paralisia do país, igualmente assolado pela maior crise econômica das últimas décadas.
                                                                                       Dona Politica em seu canapé
A indignação popular na Europa mediterrânea foi alimentada pela mesma percepção de que há um fosso intransponível entre os políticos e a população, que não mais se sente por eles representada. Algo semelhante ao que as ruas do Brasil passaram a demonstrar com clareza nas últimas semanas, num processo que vai desde o rechaço puro e simples ao sistema político vigente — como na Espanha e na Itália — à rejeição pontual aos partidos dominantes, como na Grécia. Falta de lideranças claras, pautas demasiado abrangentes, revindicações difusas, tudo repete-se por aqui no cenário de uma peça política já encenada em outros palcos. Mas com roteiros diferentes.
Na Espanha, surgiu o movimento 15-M, sigla de fácil apelo popular que acabou batizando os Indignados, e agora enfrenta a decisão de aderir ao jogo político já estabelecido ou continuar fiel ao espírito de independência total que o originou. Na Itália, o novato Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que na roupagem de partido conquistou o maior número de cadeiras na Câmara dos Deputados, enfrenta dilema semelhante. Na Grécia, o novato partido esquerdista Syriza ganhou as eleições, mas não formou coalizão de governo. Três países, três enredos, mas com desfechos ainda a serem escritos.

sábado, 29 de junho de 2013

Prelado e mais 2 homens são presos em investigação sobre Banco do Vaticano

Monsenhor Scarano trabalhava como contador da Santa Sé e era conhecido como Monsenhor 500 pelas notas altas na carteira

                                                   Nunzio Scarano em Salerno, na Itália/ AP
ROMA - Um monsenhor suspeito de tentar ajudar amigos ricos a levar milhões de euros para a Itália ilegalmente foi preso nesta sexta-feira, como parte de uma investigação no Banco do Vaticano. O monsenhor Nunzio Scarano, conhecido como Monsenhor 500 pelas notas altas na carteira, trabalhava como contador da administração financeira do Vaticano e já estava envolvido em outra investigação realizada por juízes do Sul da Itália. A detenção acontece dois dias depois de o Papa Francisco ter nomeado uma comissão especial de inquérito para investigar as atividades da instituição, que é formalmente conhecida como o Instituto para Obras de Religião (IOR), e tem sido atingida por vários escândalos nas últimas décadas.
Scarano, de 61 anos, foi preso em uma paróquia da periferia de Roma e levado para uma delegacia da capital italiana, informou o advogado Silverio Sica. Também foram detidos na investigação Giovanni Zitto, um membro do serviço secreto da Itália, e Giovanni Carenzio, um corretor financeiro.
Scarano é acusado de envolvimento na tentativa de contrabandear € 20 milhões de euros (US$ 26 milhões) da Suíça para a Itália em um avião particular, em conluio com o agente do serviço secreto e o intermediário financeiro. O religioso teria dado € 400 mil ao agente secreto para lhe ajudar a levar o dinheiro ao país. O advogado, no entanto, afirma que a soma nunca deixou a Suíça. Não ficou claro qual o papel que o banco tinha no esquema.
A investigação começou depois de que Scarano denunciou um roubo em sua casa, no ano passado, no qual os ladrões levaram pinturas e objetos de prata. O alto valor dos artigos despertou a curiosidade da Justiça sobre o patrimônio de Scarano, cujo título de monsenhor foi concedido em reconhecimento por sua antiguidade na Santa Sé. Agora, ele pode ser tornar mais um embaraço nos escândalos financeiros que envolvem o Vaticano, um dos maiores desafios para o Papa Francisco.
O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse em comunicado que autoridades da Santa Sé estavam prontas para cooperar com a investigação, mas que até então não haviam recebido nenhum pedido oficial.
Segundo Sica, amigos ricos teriam doado dinheiro a Scarano para que ele pudesse construir uma casa para doentes terminais. Segundo o advogado, seu cliente queria usar esse dinheiro para pagar sua hipoteca para que ele pudesse vender um imóvel em Salerno e usar os recursos para construir o espaço.
Scarano foi afastado recentemente devido a uma outra investigação, liderada pela promotoria de Salerno. Ele é acusado de lavagem de dinheiro, numa forma de ocultar € 560 mil, atribuindo a soma a doações. Para isso teriam sido usadas contas do Banco do Vaticano.

Monsenhor 500
De acordo com o jornal “La Repubblica”, Scarano era conhecido como monsenhor 500, devido à grande disponibilidade de notas de € 500 em sua carteira. Muitas vezes, ele propunha a amigos trocarem blocos de dez, vinte notas de € 500 por cheques de € 5 mil, € 10 mil, que eram depositados no IOR, conta o jornal.
Há tempos vivia em Roma, na Domus Internationalis Paulus VI, entre o Rio Tibre e a Piazza Navona. Antes de fazer seus votos, 26 anos atrás, trabalhava em um banco. Mas atualmente estava no setor imobiliário do Vaticano, com a contabilidade da Apsa (Administração do Patrimônio da Sé Apostólica), não menos importante que o Banco do Vaticano, que administra milhares de imóveis valorizados na capital italiana e lida com milhões de euros em dinheiro vivo.

O desafio da REALIDADE assusta......desconversemos!!.

Planalto arruma 'representantes' dos protestos para tentar manipular revolta

Orlando Brito
Foto
TEATRINHO NO PLANALTO
O primeiro imtem da agenda da presidenta Dilma Rousseff, nesta sexta-feira, foi um encontro com um grupo de supostos "representantes" das manifestações que ocorrem em todo o País. O grupo é formado por jovens militantes do PT e do PCdoB, partidos que integram a base de apoio ao governo federal, ligados a entidades que têm tentado inutilmente assumir a liderança dos protestos. Exibindo a perplexidade que se vê nos rostos do governo, os ativistas representaram entidades como CUT e MST, que são controlados pelo PT, e UNE (União Nacional dos Estudantes), aparelhada pelo PCdoB, que não apenas não estiveram na origem do movimento, como têm sido até expulsos de manifestações das quais tentam tirar proveito político. A UNE, por exemplo, só deu as caras nas ruas nesta quinta-feira (27), quando reuniu em Brasília cerca de quinhentos pessoas, a maioria adolescentes arregimentados pela Ubes (de estudantes secundaristas igualmente aparelhada pelo PCdoB), após doze anos de omissão, mediante generosas contribuições do governo Lula, com dinheiro público, aos cofres da entidade.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O dia em que os franceses sentiram inveja dos brasileiros, por Ana Carolina Peliz

Eu sempre admirei – e por que não dizer que invejei? – os franceses por sua incansável capacidade de se manifestar. Já falei sobre isso em várias cartas, para mim nada é mais francês do que pão, queijo, vinho e manifestação.
Por isso, nestes últimos dias, não consigo esconder minha enorme fierté (orgulho, em francês), com o que tenho ouvido deste povo, especialista em revoluções.
Desconhecidos em cafés, amigos, colegas e próximos me dizem: “lindo exemplo”, “estamos com vocês”, “continuem e o mundo inteiro acompanhará” e, finalmente, a frase que quase me faz explodir, “seria bom se a mesma coisa acontecesse na França”.
As manifestações no Brasil pegaram os franceses desprevenidos. Há algum tempo nosso país é visto por eles como um eldorado, um lugar onde todas as promessas são possíveis. Mas o “povo com um enorme coração”, como eles costumam se referir a nós, também é considerado passivo.
Talvez ainda seja cedo para dizer, mas nestas últimas semanas, acho que houve uma mudança. O jornal Libération chegou a falar de “Revolução?”, com letras garrafais, na primeira página. Claro que foi com um pontinho de interrogação para não se comprometer demais.
Sobre os protestos, os franceses dizem que são “polifônicos”, “irreverentes”, “contra o circo da Copa do Mundo”, “da juventude”. Vi alguém comentar até que as manifestações “conseguiram unir um Brasil antes polarizado”, fazendo referência ao fato de que pessoas que não utilizam o transporte público se manifestaram contra o aumento das passagens. Surpreendente? Eu não acho. Para eles, que chamam as manifestações pelo apelido carinhoso de manif, uma manif só pode ser positiva. 
Foto: Fe Hinnig 
Claro que não é segredo para ninguém que a França atravessa uma fase difícil: marasmo econômico, desemprego, recessão, além de escândalos recentes que mostram que a corrupção também é uma realidade por aqui. Para completar tudo isso, o país enfrenta um dos mais frios verões dos últimos tempos, com temperaturas abaixo de 18 graus. Em resumo, os franceses andam desanimados e descrentes.
Por isso, ver os jovens na rua no Brasil, com cartazes criativos, exigindo mudanças, mexe com a chama que não se apaga nunca no coração dos franceses. Eu acho que estes velhos revolucionários, que continuam brigando contra tudo e todos, sentem, bem lá no fundo, uma mistura de inveja e melancolia. Eles gostariam de ter um país que ainda pudesse ser revolucionado. 
Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV

O Brasil vai descobrindo neste inverno........

 ...........que multidões indignadas fazem milagres----leia mais aqui

O enterro sem choro nem vela da PEC 37, decretado pela Câmara nesta terça-feira por 430 votos contra 9, confirmou que multidão indignada faz milagre. Faz até deputado brasileiro criar juízo.
  Quando junho começou, os vigaristas que infestam e controlam a Casa dos Horrores estavam prontos para aprovar a proposta de emenda constitucional que proibiria o Ministério Público de promover investigações criminais. Antes que o mês chegasse ao fim, a patifaria foi sepultada em cova rasa.
Surpreendidos pelos atos de protesto que incluíram a rejeição da PEC 37 entre as bandeiras da revolta das ruas, os arquitetos da trama primeiro tentaram empurrar a votação para agosto. Até lá, imaginaram, os manifestantes teriam desistido de combater a corrupção impune. Erraram feio. O truque serviu apenas para aproximar a temperatura do ponto de combustão. Só então os conspiradores acharam sensato curvar-se  à vontade de incontáveis brasileiros exaustos de truques e tapeações.
A PEC 37 pretendia punir o Ministério Público não por seus defeitos, mas por suas virtudes. Foi concebida não para inibir eventuais excessos cometidos por promotores e procuradores, mas para impedi-los de obstruir caminhos que levam para longe da cadeia a bandidagem cinco estrelas. Precedida pela revogação do aumento das tarifas do transporte público, a capitulação  da turma que reduziu o Congresso a um clube dos cafajestes ensina que reivindicações nascidas na internet só vingam se ratificadas pela voz das ruas.
O abaixo-assinado virtual que protestava contra a volta de Renan Calheiros à presidência do Senado foi subscrito por mais de 1,5 milhão de eleitores. Deu em nada. Menos de 50 mil na porta do Congresso bastaram para enterrar a PEC da Impunidade (além de fazer um bando de indolentes trabalhar como nunca e, num caso exemplar de suicídio induzido, aprovar a toque de caixa um projeto que conferiu à corrupção status de crime hediondo. Se a coisa tivesse efeito retroativo, o Senado e a Câmara ficariam desertos). Quantos manifestantes serão necessários para obrigar Renan a renunciar ao cargo? Logo saberemos.
Também saberemos em breve se a ofensiva até aqui bem sucedida conseguirá livrar-se dos baderneiros, manter o vigor, encontrar alguma forma de organização e não perder o rumo. Caso se dê a favorável conjunção dos astros, a instauração de uma CPI da Copa se tornará questão de tempo, o Maracanã escapará das mãos dos eikes batistas, o STF tratará de acelerar o julgamento do mensalão e os ministros recém-chegados não ousarão socorrer quadrilheiros condenados à prisão. Fora o resto.
O que já ocorreu é suficiente para que o inverno de 2013 seja lembrado como a estação das descobertas essenciais. Primeiro, os brasileiros descobriram que pagam todas as contas e são tungados há anos. Depois descobriram que o Brasil Maravilha só existe num palanque ambulante e na cabeça habitada por um neurônio solitário. Descobriram em seguida que Lula, Dilma e o PT são campeões de popularidade apenas entre donos de institutos de pesquisa, e que o exército de milicianos decididos a morrer pelo PT só é capaz de matar de rir.
Por falta de partidos que os representassem, descobriram também que poderiam ser seus próprios porta-vozes. Vão descobrindo agora que, num regime democrático, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário não têm o direito de ignorar, subestimar ou sufocar um poder muito maior: o poder que emana do povo.

CNJ aposenta desembargadores suspeitos de desvio em precatórios

Plenário do CNJ entendeu que eles atuaram em desvios de R$ 18 milhões.Mariana Oliveiira Do G1, em Brasília
by Millôr Fernandes
O Conselho Nacional de Justiça decidiu nesta quinta-feira (27), por unanimidade, aposentar compulsoriamente dois desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJ-RN) suspeitos de desviar R$ 18 millhões em precatórios.
Precatórios são títulos emitidos pelo poder público para pagar dívidas reconhecidas pela Justiça. O Judiciário é quem faz os pagamentos independentemente de que órgão público é o devedor.
O plenário do CNJ entendeu que os ex-presidentes do TJ Osvaldo Soares da Cruz e Rafael Godeiro Sobrinho tiveram participação em esquema que desviou verba pública.
A defesa dos dois agumentava que as assinaturas nos documentos que liberavam pagamento de precatórios irregularmente não eram deles e que, em alguns casos, assinaram sem conhecimento do que se tratava.
O CNJ entendeu, no entanto, que mesmo que eles não tenham atuado diretamente no esquema, descumpriram a lei porque negligenciaram o acompanhamento dos precatórios.
A aposentadoria compulsória é a pena máxima que o CNJ pode aplicar na esfera administrativa. O magistrado deixa o cargo, mas continua recebendo o salário. Ambos são alvos de inquérito criminal no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O processo pode resultar em demissão e, dessa forma, eles perderiam o direito aos vencimentos.
Relembre o caso---Precatórios são títulos para pagar dívidas do poder público.
O esquema foi descoberto quando o Ministério Público e a Polícia Federal deflagraram, na Divisão de Precatórios do tribunal potiguar, a Operação Judas.
De acordo com a investigação havia multiplicação de pagamentos de precatórios; fabricação de processos administrativos e a criação de contas fraudulentas para crédito e saque de valores referentes a precatórios; e o recebimento de valores por pessoas estranhas aos processos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Romário chama Valcke de 'corrupto' e

............ afirma que a FIFA paga seu aluguel no Leblon

Foto
DEP. ROMÁRIO
O deputado Romário usou seuFacebook ontem (25) para acusar a FIFA de usar o lucro com a Copa do Mundo para pagar ao “cara-de-pau, chantagista e corrupto do Jerôme Valcke” o aluguel de uma cobertura no Leblon, Rio de Janeiro. Segundo ele, o imóvel custará R$ 150 mil mensais e servirá de moradia para Valcke e sua família durante a Copa. “Detalhe, o contrato contempla desde a Copa das Confederações até o final da Copa do Mundo, em 2014”, garantiu Romário. “Um cara que disse há alguns meses que o mais importante em uma Copa eram os estádios e que o resto era secundário, não tem credibilidade”, afirmou.

Alias......---Hino Nacional

Os torcedores que cantam à capela todo o hino nacional nos estádios desafiam a Fifa, que impôs menos de dois minutos, contrariando a lei 5.700/71 que determina a letra completa em caso de execução vocal.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Para a rua ver (Editorial--O Estado de S.Paulo )

A rua não só tem o direito de apontar o dedo para os governantes, como é bom que o faça: mil vezes melhor uma sociedade estridente do que uma sociedade apática - se essas forem as únicas alternativas. Mas a rua não tem a obrigação de oferecer aos poderes do Estado, mastigadas, as soluções para as mazelas que justificadamente denuncia.

Quando essas se empilham e perduram, apesar das promessas que se ouvem a cada ciclo eleitoral e das reiteradas juras das autoridades de que se esfalfam para cumpri-las, é da ordem natural das coisas que a rua, esgotada a sua paciência e tendo redescoberto o seu poder de pressão, queira para já as mudanças que façam do Brasil, em síntese, um país sem corrupção e com serviços públicos equiparáveis em qualidade ao volume de impostos que se pagam por eles.
Afinal, se duas semanas de manifestações levaram à anulação do aumento dos preços das passagens em dezenas de cidades e obrigaram a presidente Dilma Rousseff a legitimar a rua como interlocutora do governo - "eu estou ouvindo vocês", assegurou -, muitos hão de se sentir estimulados a adotar a palavra de ordem do Maio de 1968, na França: "Sejam realistas, exijam o impossível".
Só que o Estado não pode ser voluntarista - e quando assim se comporta proporciona um espetáculo de oportunismo, se não de hipocrisia, que não engana a ninguém.
Em seguida ao pronunciamento de Dilma, na sexta-feira, Executivo e Congresso deram início a uma sôfrega carreira para se mostrar, cada qual, mais pronto do que o outro para mostrar o serviço cobrado pelas multidões. Corrupção?
Não seja por isso, retruca o Planalto, e de bate-pronto decide mobilizar o Legislativo para acelerar a tramitação de três projetos presumivelmente saneadores: o que estabelece punição de até 20% sobre o faturamento bruto de empresas corruptoras ou fraudadoras de licitações; o que prevê cadeia para funcionários que não consigam justificar a engorda de seu patrimônio; e o que regulamenta a atividade de lobby com a administração federal.
Além disso, o governo vai tirar da gaveta dois projetos: o que estende para os ocupantes de cargos de confiança as regras aplicadas aos políticos pela Lei da Ficha Limpa e o que triplica para 12 meses o período de quarentena de ex-altos funcionários e restringe os seus negócios futuros.
Não consta, porém, que a presidente pretenda reaver do PR e do PDT os cargos que lhes devolveu no Ministério depois da decantada faxina de 2011, para tê-los consigo na mega-aliança reeleitoral de 2014 - que não exclui nem o PTB de Roberto Jefferson, delator do mensalão e condenado a 7 anos no respectivo processo.
De toda maneira, além das culpas que cabem aos governos pelos descalabros malhados na rua, mais graves são os problemas estruturais do Estado, o qual não deixa de refletir as insuficiências da organização social brasileira.
Pior é a febre reformista que parece se alastrar no Parlamento, onde houve até quem, fazendo um desafinado coro com a rua, sugerisse a autodissolução dos partidos - como se os seus sucessores formassem uma federação de querubins.
Compreende-se que uma parcela da brava gente das passeatas imite os argentinos que entraram em 2002, quando o país naufragava, gritando "que se vayan todos". Mas a execração da política tem tudo para se degradar, onde quer que seja, em populismo autoritário. (Na Argentina, a era Kirchner começou em 2003 e, no que depender da presidenta, continuará pelo menos até 2015.)
A rua também pode achar que a reforma política é a panaceia para a corrupção, e o desdém dos eleitos pelos eleitores. Não é. Pode tornar o sistema mais representativo ou mais produtivo e, no melhor dos mundos, mais atento à vontade geral, e não apenas aos seus patrocinadores, clientelas e grupos de pressão.
No Congresso, os messiânicos da reforma parecem ignorar que, em última análise, não é mudando as regras do ofício que os políticos se tornarão automaticamente avessos à corrupção, abandonando práticas entranhadas. Os parlamentares redentores não se contentam com pouco: querem uma Constituinte exclusiva para fazer, além da reforma política, a tributária, a administrativa e a da Previdência - tudo em um ano.

terça-feira, 25 de junho de 2013

R$ 0,20, por Elton Simões

R$ 0,20 não compra um café. Não mata a sede. Não mata a fome. Não compra nada. R$ 0,20 não serve para muita coisa. Na maioria dos casos, R$0,20 é aquele troco inconveniente que fica no fundo de bolsos e bolsas, esperando para ser descoberto pelo detector de metal do aeroporto.

Não da para fazer coisa alguma com R$ 0,20. Realmente não dá. Mas aparentemente R$ 0,20 pode fazer muita coisa. Pode ser a fagulha que começa o fogo, que vira incêndio. Depois que o incêndio começa a fagulha já não tem importância. Não se combate incêndio procurando a fagulha. Esta se extinguiu faz tempo.
O mar de gente que inunda a rua não esta interessado em trocar cidadania por centavos. Devolver R$ 0,20 não traz cidadania. Não devolve a dignidade. Não resolve a desilusão. Não traz a esperança.
Não é a situação ruim que embala o protesto. É a constatação que o sofrimento não levará a dias melhores que motiva a ação. É a falta de esperança. É a certeza de que o futuro não será melhor se tudo continuar como está. É a falta de fé nos representantes ou em sua capacidade de estar à altura dos desafios. É a descrença nos representantes pelos representados. Tudo isso leva a população às ruas. E isso não é pouco. 
 Só a volta da esperança traz a paz. Somente aqueles que são ouvidos podem ter ao luxo de parar de gritar. A crise é de esperança. A crise é de representação. Sem que o eleitor se sinta representado pelo eleito, não existe democracia. E, sem democracia, o protesto é o que resta para ser ouvido.
As ruas somente ecoam a necessidade de que o principio básico de que, na democracia, cada um dos eleitos representem os eleitos seja obedecido. As ruas não deveriam gritar para que os cidadãos sejam ouvidos. Sussurros deveriam bastar. Governos não podem ser surdos. Nem cegos. Nem insensíveis.
As ruas somente dizem que o sistema que está ai não funciona mais. Que as regras que governam a politica atual não levam ao aperfeiçoamento da democracia. Que a representatividade não mais existe. Que a politica e o modo de fazê-la precisa de reforma. Urgente.
Com R$ 0,20, se compra um café. Mas, em algumas ocasiões, R$0.20 compram um boa briga. 
Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca 

Hora de votar, por Alessandro Molon

Pronto para ser votado no Plenário, o Marco Civil da Internet ainda enfrenta resistências na Câmara dos Deputados.

Projeto de lei que tem sido extremamente bem avaliado em diversos países do mundo quando se debate legislação sobre internet, o Marco Civil representará um passo decisivo na oferta de uma rede mais segura, mais aberta e mais democrática para os brasileiros. No entanto, a oposição dos provedores de conexão tem conseguido, lamentavelmente, impedir sua aprovação no Congresso.
O Marco Civil destaca-se, principalmente, por três grandes virtudes: impede que se limite a escolha do internauta sobre o que se quer ver ou baixar na internet, garante a sua liberdade de expressão na rede e protege a privacidade do usuário.
Fica vedado, portanto, um esquema de vigilantismo como o dos Estados Unidos, que acompanha trocas de e-mail e conversas via Skype.
Por essas razões, a chamada “Constituição da Internet” já recebeu o apoio de intelectuais brasileiros e estrangeiros, ativistas, órgãos públicos, empresas e associações, como a Academia Brasileira de Letras (ABL), a Associação dos Produtores Teatrais Independentes (APTI), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Brasileira de Internet (Abranet), entre outros. No dia 16 de maio, recebeu o apoio público do “pai” da internet, o americano Tim Berners-Lee.
Na prática, o Marco Civil vai impedir que o provedor que nos fornece conexão barre, dificulte ou cobre valores extras para que acessemos determinados tipos de conteúdo na internet.
O que estes provedores de conexão pretendem implantar no Brasil — e que o Marco Civil acertadamente veda — é cobrar preços mais altos para quem queira fazer na internet algo além do que receber e enviar e-mails.
Ou seja, se alguém quiser assistir a um vídeo no Youtube, terá que pagar um preço extra. Se quiser usar o Skype, então, um preço muito maior. Ao proibir esta fragmentação abusiva, o Marco Civil protege a sua liberdade de escolha.
Outra prática inaceitável que já vem ocorrendo no Brasil também será proibida pelo Marco Civil: a violação sistemática da privacidade dos usuários brasileiros pelos provedores de conexão.
Atualmente, alguns provedores de conexão guardam toda a navegação de cada internauta, sem seu conhecimento, para então vender as informações para marketing direcionado. Um absurdo.
Vale lembrar que o processo de construção do texto já se tornou uma referência na forma como devem ser elaboradas as leis, tamanha a participação da sociedade.
Exposto em plataformas virtuais, o projeto recebeu milhares de contribuições, várias das quais foram aproveitadas, como uma que chegou pelo Twitter.
Também foram realizadas audiências públicas pelo país — mais de 60 especialistas de diversos setores foram ouvidos — e reuniões com as lideranças de vários partidos.
Por todas essas razões, o Congresso precisa aprovar o Marco Civil da Internet. O internauta brasileiro tem direito a uma internet segura, na qual seus direitos sejam respeitados. Depois de tantos debates, chegou a hora de a Câmara votar o projeto. Não podemos aceitar que um único setor, em nome de seus lucros, prejudique mais de 80 milhões de usuários da rede. A Câmara dos Deputados não pode mais adiar votação tão importante. 
Alessandro Molon é deputado federal (PT-RJ) e relator do Marco Civil da Internet.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

É a volta do cipó de aroeira, por Carlos Brickmann

Tudo começou como um movimento de extrema esquerda: na primeira passeata em São Paulo, militantes do MPL, PSTU, PSOL e PCO, com bandeiras, estavam à frente, bloqueando a Avenida Paulista.

O MPL, Movimento Passe Livre, foi criado pelo Fórum Social Mundial, organização assumidamente de esquerda, na reunião de 2005.
O domínio de Internet usado pelo MPL pertence a uma ONG próxima ao PT, Alquimídia, que recebe recursos da Petrobras e do Ministério da Cultura e até o início das passeatas trazia no site os símbolos governamentais.
Mas o movimento caiu no gosto do público e atraiu gente que não tinha nada de esquerdista: queria protestar contra a corrupção, o desperdício do dinheiro público, o custo da Copa, os gastos de parlamentares, o mensalão, os problemas da saúde, problemas sempre associados ao Governo.
O que era para ser um movimento contra a alta das tarifas virou ponto de encontro de descontentes com o governo e o PT – a ponto de manifestantes se reunirem em frente à residência de Lula, em São Bernardo (SP), gritando insultos, e de manifestantes se concentrarem diante da residência do prefeito petista Fernando Haddad, em São Paulo.
O radicalismo antipetista chegou a acusar a Globo de estar a serviço do PT.
É sensível a queda de prestígio do governo. Ruim: este é o governo que temos, gostemos ou não, e que até o fim de 2014 tem a tarefa de gerir o país.
O bumerangue foi e voltou, atingindo quem se sentiu esperto ao ter a brilhante ideia de lançá-lo.
Como diz o provérbio ídiche, o homem planeja e Deus ri.
Comentario meu--...ha uma "variante brasileira" do proverbio acima---Pimenta no c...dos outros é refresco....----- Mas até pra isso é INDISPENSAVEL ter-se COMPETÊNCIA!

Um exercício de fantasia futurológica, por Elio GASPARI

Numa tarde em Brasília, o Supremo Tribunal Federal reúne-se para julgar os recursos dos mensaleiros, revoga as condenações por formação de quadrilha e livra-os do cárcere. Joaquim Barbosa, o presidente da Corte que relatara o processo, joga a toga sobre a bancada, faz um breve discurso, renuncia ao cargo, sai do prédio e chama um táxi. Dias depois, seu nome é lançado como candidato à Presidência da República. Há fantasia nesse cenário, mas o gesto da renúncia é uma possibilidade real. Se Joaquim Barbosa será candidato, trata-se de pura futurologia.

Quem duvida dessa possibilidade apresenta o que seria um obstáculo intransponível: a falta de base política. Alguém conhece pessoa que votará no candidato que for indicado pelo PMDB? Ter base partidária é mais uma carga do que um impulso, mesmo no caso do PT. Para a campanha da doutora Dilma, será bom negócio esquecer a estrelinha vermelha, fechando o foco na personalização de seu governo. O PT decidiu confundir-se com os mensaleiros. Problema dele.
Dos cinco presidentes eleitos nos últimos 60 anos, três prevaleceram sem que devessem qualquer coisa às bases partidárias. Fernando Henrique Cardoso foi eleito pelo Plano Real. Se dependesse da força do PSDB, seria candidato a deputado federal. Ele foi eleito porque o real ficou de pé. Depois do fracasso do Plano Cruzado, houve sete ministros da Fazenda e só ele teve futuro político.
Fernando Collor passou por três grandes partidos, mas elegeu-se pelo microscópico PRN, que não existe mais. Recuando-se aos anos 60, Jânio Quadros elegeu-se governador de São Paulo pelo irrelevante PTN e em 1958 foi engolido pela União Democrática Nacional num lance puramente oportunista.
Partido quem teve foi Lula. Todos brincam de cubos, formando alianças fisiológicas lubrificadas pelos métodos que desembocam em mensalões.
Olhando-se para a rua cheia de gente contra-isso-que-está-aí, vê-se um quebra-cabeça onde falta uma peça. Aécio Neves tem nas costas o doutor Eduardo Azeredo, com seu mensalão mineiro. Eduardo Campos não entendeu nada, disse que baixou as tarifas de transportes num ato "unilateral", como se fosse um coronel do semiárido falando aos peões de sua fazenda.
Joaquim Barbosa pode vir a ser a peça que fecha o quebra-cabeça. Se isso acontecerá, não se sabe. Também não se sabe que resultados trará. Os dois exemplos de avulsos que chegaram a presidente, Jânio e Collor, terminaram em catástrofes. No caso de Jânio, numa catástrofe que levou as instituições democráticas para a beira do precipício no qual elas cairiam três anos depois, em 1964. Barbosa defende grandes causas, mas é chegado a pitis e construções inquietantes, como a sua denúncia das "taras antropológicas" que a sociedade brasileira carrega. Descontrola-se e justifica-se atribuindo sua conduta a dores de coluna. Se todas as pessoas que têm esse tipo de padecimento perdessem o controle quando viajam em trens lotados na hora do rush, as tardes brasileiras teriam pancadarias diárias. Há nele uma misteriosa predisposição imperial.
Talvez esse exercício de futurologia tenha o valor de uma leitura de cartas. Sobretudo se o PT perceber que a ida dos mensaleiros para a prisão, ainda este ano, deixará de ser um peso nas suas costas. Afinal, depois que Fernando Haddad e Geraldo Alckmin acordaram o monstro, é difícil saber como levar a rua para casa, mas é certo que o monstro sairá de casa se os mensaleiros forem poupados.
Às 19h de quinta-feira, os manifestantes que estavam na Avenida Paulista em frente ao prédio da "Gazeta" mandaram que as bandeiras vermelhas fossem abaixadas: "O povo unido não precisa de partido". Minutos depois, queimaram algumas. Há 12 anos, elas estavam lá, gloriosas, festejando a eleição de Lula.

Novos tempos, por PAULO GUEDES

As ondas de "destruição criativa" das novas tecnologias e das mídias sociais inundaram o território da política. As mesmas inovações que derrubaram fronteiras industriais estabelecidas abalam agora as instituições políticas pouco flexíveis com uma enxurrada de anseios há muito represados. A presidente entendeu o recado de uma classe média emergente: "Essa mensagem direta das ruas é de repúdio à corrupção e ao uso indevido de recursos públicos." A voz das ruas foi um clamor de indignação com os políticos e de insatisfação com os serviços públicos. Aos gritos de "sem violência" e "sem partidos". 

Há muito tenho dito que o Congresso nos deve uma reforma política, uma forma decente de conduzir a coisa pública. As evasivas ante as condenações do mensalão e a Proposta de Emenda Constitucional 37, um verdadeiro monumento à impunidade, demonstram ainda, mais do que a falta de sintonia do Congresso com a opinião pública, uma assustadora perda de legitimidade. 

Tenho insistido também na descentralização de recursos do governo federal para estados e municípios, tornando os gastos públicos mais sensíveis aos anseios da população. "Transporte público, saúde e educação": o dinheiro tem de ir aonde o povo está. Quem gosta muito de estádios novos são as empreiteiras e o governo federal, enquanto prefeitos e governadores devem estar preocupados com hospitais, escolas, ônibus, trens e metrôs. 

A segurança pública é também tema incontornável ante a violência de algumas centenas de assaltantes, baderneiros e integrantes de brigadas embandeiradas, entre as centenas de milhares de manifestantes pacíficos e ordeiros, numa festa democrática espontânea, sem cabos eleitorais, sem máquinas partidárias, sem carros de som, sem palanques, "como nunca antes na História deste país". 

Na moderna sociedade do conhecimento, em plena era da informação instantânea, os próprios políticos desacreditaram a política. Soubemos durante o julgamento do mensalão que, nas relações entre o Executivo e o Congresso, bem como nas alianças partidárias, compra-se, vende-se, aluga-se. A explosão de civismo nas ruas, em que tremulavam bandeiras do Brasil ao som do Hino Nacional, é uma exigência de mudança radical no comportamento de nossa classe política. Decência, ainda que tardia.

Palavras....o ve(n)to leva!


O grande evento, por Dorrit Harazim

Terça-feira, 30 de outubro de 2007. Na sede da Fifa em Zurique, o Brasil fazia a última de suas cinco apresentações para sediar a Copa do Mundo de 2014. Nem era preciso tanto esforço. Diante da desistência da Colômbia, cinco meses antes, e da dissolução da candidatura conjunta Argentina-Chile, sobrava o Brasil como candidato único no sistema de rodízio por continentes, hoje sepultado.

Ainda assim, a delegação que fora apoiar a nossa candidatura era de peso. Tinha à frente o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, além do presidente da CBF Ricardo Teixeira, 12 governadores estaduais, o ministro do Esporte Orlando Silva, o senador Marconi Perillo, representando o Congresso Nacional, e Dunga, o técnico da seleção canarinho. 
Ricardo Texeira, Lula, Joseph Blatter em 2007 
Cada qual com sua respectiva comitiva, é claro. Além de dois “embaixadores” pinçados a dedo pelo entusiasmo à causa: o escritor Paulo Coelho e o atacante Romário.
A apresentação de Paulo Coelho, que saudara o presidente da Fifa Joseph Blatter com um cher ami, foi a mais aplaudida por fazer uma irreverente comparação entre a paixão brasileira por futebol e por sexo.
Ao final, por voto unânime dos 20 membros do Comitê Executivo, o Brasil foi confirmado. “O mundo terá a oportunidade de ver o que o povo brasileiro é capaz de fazer”, festejou Lula para uma nação inebriada.
(Seis anos depois o povo mostraria a Lula e ao mundo o que é capaz de fazer.)
Na ocasião, Blatter assegurara que o Brasil era um candidato de qualificação garantida e, mesmo não havendo outros países no páreo, teria sido vetado se não tivesse se comprometido a cumprir as exigências estipuladas pela Fifa. Em tese, até meados de 2012 ainda poderia ter sido trocado por algum país-sede alternativo, caso o andamento das medidas acordadas não seguisse o curso necessário.
Mas, de arena em arena e com transparência zero nas contas, a coisa andou. Mudaram os protagonistas, mas os investimentos canalizados para este Brasil emergente nunca faltaram.
Ainda duas semanas atrás, faltando 48 horas para a abertura da Copa das Confederações em Brasília, a presidente Dilma Rousseff inaugurou um moderníssimo centro de comando e monitoramento nacional de segurança.
O equipamento tem nome comprido, Sistema Integrado de Comando e Controle para Segurança de Grandes Eventos, e custo alto — R$ 1,1 bilhão. Apresentado como capaz de integrar todas as forças de segurança nas seis cidades-sede da Copa das Confederações, foi ativado simultaneamente em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.
“Agora podemos dizer que a segurança durante a Copa das Confederações está garantida”, afirmou a presidente durante a cerimônia.
“Teremos condições tecnológicas para, no espaço de quilômetros, saber a pessoa que está cometendo delitos, e ter tudo filmado”, complementou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, elencando a versatilidade do novo sistema.
No Rio de Janeiro, o telegênico Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) fora estreado semanas antes pelo governador Sérgio Cabral, a um custo de R$ 104,5 milhões. Tecnologia, ali, também não falta, a começar pelo já famoso telão de cinco metros de altura, 17 de comprimento e seus 98 monitores de LED.
“Esse centro é um exemplo para o mundo, e a segurança pública ganha em qualidade. Terá papel central na articulação das seis cidades-sede na Copa das Confederações”, assegurou o ministro Cardozo.
Só que parafernália tecnológica, sozinha, não articula, e se houve algo que as cidades brasileiras não ganharam ao longo da última semana foi segurança pública. Ademais, nem o mais moderno dos sistemas é programável para também alertar governantes a prestar atenção a movimentos como o Passe Livre.
Nem a emitir boletins sobre o estado de calamidade dos serviços públicos da nação. Por terem falhado numa obrigação que é deles, os governantes agora estão perplexos.
Quanto aos milhões de brasileiros que permaneceram calados enquanto se construiu uma Copa sem prestação de contas transparentes, sem audiências públicas com apresentação de projetos, discussão de impasses ou debates de soluções, a hora de opinar começou. Na rua. Sem data para aquietar-se.
Até porque o próprio calendário dos Grandes Eventos lhes servirá de pauta — no mínimo até os Jogos Olímpicos do verão de 2016, no Rio.
Por ora, o movimento já conseguiu enxotar Joseph Blatter pelo menos por alguns dias. O presidente da Fifa, que estava no Brasil para a Copa das Confederações e só se desloca num séquito de automóveis de proporções pouco republicanas, viajou na noite de quarta-feira para participar da abertura do Mundial Sub-20 na Turquia.
Paradoxalmente, porém, a hipótese, mesmo remotíssima, de a Fifa ter de suspender a continuação do evento no Brasil por “força maior” (leia-se, falta de segurança) deixaria uma marca de choque múltiplo no país.
Com tudo isso em mente, cabe aqui uma homenagem a Belisario Betancur, 53º presidente da Colômbia. Em 1972 o país fora escolhido sede da Copa do Mundo de 1986. Com doze anos de antecedência, portanto.
Em 1982, ao ser empossado, Betancur não precisou de mais de dois meses no poder para concluir o óbvio: a Colômbia não tinha condições de sediar uma Copa. Comunicou sua decisão em pronunciamento brevíssimo à nação: “Como preservamos o bem público, como sabemos que o desperdício é imperdoável, anuncio a meus compatriotas que o Mundial de Futebol não se realizará na Colômbia, após consulta democrática sobre quais são as necessidades reais do país: não se cumpriu a regra de ouro segundo a qual a Copa deveria servir à Colômbia e não a Colômbia à multinacional da Copa.
Aqui temos outras coisas para fazer e não teríamos sequer tempo para atender às extravagâncias da Fifa e de seus sócios. García Márquez nos compensa totalmente pelo que perderemos como vitrine sem o mundial de futebol.”
Quatro dias antes, Gabriel García Márquez havia sido anunciado vencedor do Nobel de Literatura. O presidente da Fifa à época era o brasileiro João Havelange. A Copa de 1986 acabou sendo realizada no México.
 Dorrit Harazim é jornalista.

O mundo voltou a ver Mandela numa aparição rara. E consentida? por ANA DIAS CORDEIRO

Difusão das imagens do ex-Presidente ausente e frágil causou indignação na África do Sul. O ANC, partido no poder, é acusado de explorar a imagem do antigo líder e herói da luta anti-apartheid em benefício próprio.


 Nelson Mandela não era visto em público desde a final do Mundial de futebol na África do Sul em Julho de 2010. Um ano depois, foram mostradas imagens do herói anti-apartheid e ex-Presidente sul-africano quando a primeira-dama dos Estados Unidos Michelle Obama o visitou e também em 2012 durante uma visita da então secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton a Mandela na sua aldeia natal Qunu. Eram imagens festivas. Nelas, Mandela sorria. Com o mesmo sorriso digno com que caminhou livre em 1990, depois de 27 anos preso, frente às câmaras de televisão de todo o mundo.

Nesta semana, voltou a ser filmado e visto. Mas com ar ausente e sério – quase irreconhecível. Frágil, com um ar doente e incomodado pelo flash de uma câmara fotográfica, quando é bem conhecida, na África do Sul, a fragilidade da sua vista desde os tempos em que trabalhou na pedreira na prisão de Robben Island. Quando foi Presidente, entre 1994 e 1999, só eram permitidas fotografias sem flash.

Muitos sul-africanos lamentaram a difusão das imagens pela televisão estatal South African Broadcast Corporation (SABC) da visita que uma alta delegação do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) fez à sua casa de Houghton, em Joanesburgo, na segunda-feira. O Presidente Jacob Zuma e o seu vice-Presidente Cyril Ramaphosa estavam presentes.

Uma visita que noutras circunstâncias seria de celebração transformou-se, para muitos sul-africanos, num momento confrangedor e mesmo “vergonhoso”, “triste” e “infame”, disse John Robbie, DJ de rádio.

Nas imagens depois mostradas pelas televisões de muitos países, a aparência debilitada e triste, apática e distante de Mandela contrasta com a imagem que muitos sul-africanos gostariam de guardar do herói.

No seu rosto, uma expressão de desconforto ou mesmo desagrado. Mandela surge como alguém que não quer estar ali. Terá ele consentido? Quem o consentiu? “Nenhum de nós tem forma de saber o que é que o ex-Presidente Nelson Mandela estava a pensar ou a sentir quando as câmaras o filmavam na segunda-feira, porque ele não disse nada”, escreve o colunista Khaya Dlanga no jornal Mail & Guardian.

Porquê então mostrá-lo? A pergunta é feita por comentadores nalguns jornais e junta-se à indignação de muitas pessoas nas redes sociais. Uma resposta possível vem de Khalya Dlanga: “Talvez o ANC tenha sentido a necessidade de provar ao mundo que Mandela é um membro do ANC. Todos os sul-africanos sabem isso. Não há necessidade de o provar.” No artigo em que recupera para o título o slogan “Free Mandela” (“Libertem Mandela”) e em que lhe acrescenta “do ANC”, sentencia: “O homem que lutou para libertar todos os sul-africanos é agora um prisioneiro do próprio movimento de libertação que em tempos liderou.”

Gesto de política
Outra reacção surgiu da conhecida analista Palesa Morudu do Mail & Guardian, citada pela AFP: “Uma iniciativa deste tipo só pode ser tomada por um político porque nenhum ser humano normal faria algo assim a um homem idoso.”

O ANC, que foi quem fez o convite à estação de televisão, defende-se, dizendo que a companhia de Mandela não deve ser escondida mas partilhada, que só a equipa da SABC foi autorizada a entrar na casa de Mandela para que não fosse muito importunado e que, por serem no interesse público, as imagens foram depois disponibilizadas a outras televisões.

Nesta iniciativa do partido no poder, a primeira de duas contradições: a exposição de Mandela segue-se ao black-out informativo imposto pelo próprio ANC nas várias ocasiões em que o ex-Presidente foi hospitalizado, a última da quais no final de Março deste ano. Regressou à sua casa de Joanesburgo a 6 de Abril, onde desde esse dia recupera de uma infecção pulmonar.

Nestas imagens, em que está sentado com uma manta sobre os joelhos e a cabeça hirta repousa sobre uma almofada, a segunda contradição: Mandela parece não saber por que está ali. E apesar disso, o ANC do Presidente Zuma diz que o encontrou em “boa forma” e “bem-disposto”.