quarta-feira, 29 de maio de 2013

As mentiras, os fatos e o tornado Joaquim, por RUTH DE AQUINO ---ÉPOCA

O Brasil também tem seu tornado – e ele se chama Joaquim Barbosa. Por muitas vezes ainda, o presidente do Supremo Tribunal Federal exercitará seu temperamento explosivo. Essa impulsividade cobra um preço alto em sua coluna lombar. E joga destroços no lombo de muita gente no Planalto. Acho sensacional quando o redemoinho da verdade atinge nossos políticos.

O tornado Joaquim só espalha o que todo mundo diz. Que os partidos são “de mentirinha”. Que “o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos”. Que “os partidos e seus líderes não têm interesse em ter consistência” e “querem o poder pelo poder”. E que o Congresso prima pela ineficiência e submissão ao Executivo.

Joaquim falou como professor, em palestra no Instituto de Educação Superior de Brasília. Não é desculpa. Ele pode ser tudo, menos ingênuo. Sabe que qualquer coisa que fale, ainda mais espinafrando, tem hoje o peso da toga e da posição no STF. O juiz supremo recebeu bordoada de todo lado. O presidente da Câmara, Henrique Alves, disse que “uma declaração desrespeitosa como essa não contribui para a harmonia constitucional”. O presidente do Senado, Renan Calheiros, disse que a declaração não ajuda “o fortalecimento das instituições”.

Joaquim – é pelo primeiro nome que o povo o conhece e o aplaude nas ruas – não negou nem voltou atrás, apenas afirmou ter falado como acadêmico em recinto fechado. Ora, ministro, paredes não resistem a tornados. Joaquim acha mesmo tudo o que disse. Na concepção de Alves e Renan, temos então no STF um golpista, um revolucionário, um juiz que joga contra a democracia e quer ver o circo pegar fogo. Menos, menos.

O roteiro da costura de alianças para 2014 é pior que na última novela da Globo, Salve Jorge. Estamos assistindo a “Salve-se quem puder”. É constrangedor acompanhar as cambalhotas de PT, PMDB, PSDB e PSB em busca de votos e palanques. Todas as declarações para a imprensa têm um quê de ameaça, chantagem, destempero, falsos beijos e tapinhas nas costas. Os slogans são pífios, os discursos são gritados. Como seria bom mandar todos os candidatos para a Capadócia, dar um tempo no noticiário político. Há uma imensa carência de ideias e programas. Capítulo após capítulo, vemos uma guerrinha de personalidades, saias justas, jantares conspiratórios.

Acompanhamos boquiabertos a manipulação de estatísticas jogadas para baixo – como os índices de inflação e o total de miseráveis. No fundo, a realidade dos políticos é rasa. A governadora Roseana Sarney só pressiona por mais uma ajudinha de R$ 1,5 bilhão para o Maranhão, o Estado que desmoraliza o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Pensando bem, o pedido de Roseana não é nada para um governo federal que gasta com 39 ministérios, em 17 prédios, a fortuna anual de R$ 58 bilhões, mais que o dobro do Bolsa Família. Falar contra esse escândalo do toma lá dá cá também atenta contra a democracia? Essa gastança é imposta a todos nós, que já sentimos a inflação pesar a cada visita ao supermercado. Não dá para enganar todos o tempo inteiro.

Será que o comportamento errático do Congresso e de nossos partidos colabora para “o fortalecimento das instituições”? Esqueçam Joaquim e olhem para seu próprio umbigo. Ah, a Justiça também tem sua parcela de culpa. Várias decisões do STF nos últimos anos contribuíram para tornar os partidos pouco representativos. As falhas do Judiciário não desmerecem, porém, o discurso de Joaquim por um Legislativo mais eficaz. Com objetivos mais nobres, que honrem o espírito público. É só ter mais coerência e princípios. Mentir menos. Tudo isso ajudaria, sim, na democracia. Ajudaria a votar com gosto e convicção.

As críticas de Joaquim aos partidos encontram um eco poderoso no mais novo indicado ao STF: o advogado Luís Roberto Barroso. Ele sempre defendeu uma reforma política abrangente, “que desça à raiz do problema” e combata “a corrupção e o fisiologismo”. Barroso critica Fernando Henrique Cardoso e Lula: “Nem FHC nem Lula tentaram mudar o modo como se faz política no Brasil. (...) Eles aderiram a esse modelo de presidencialismo sem base ideológica, com eleições em que se vota em candidatos, e não em partidos”. Traduzindo para o português corrente: nossos partidos são de mentirinha.

O tornado é um intenso redemoinho de vento que ocorre quando uma nuvem em movimento alcança a terra. No Brasil, esse fenômeno costuma ocorrer quando se dá o microfone a Joaquim.

Soy loco por ti América....


Dilma, a mãe dos cleptocratas;Elio Gaspari, O Globo

Com a prodigalidade de uma imperatriz, a doutora Dilma anunciou em Adis Abeba que perdoou as dívidas de doze países africanos com o Brasil. Coisa de US$ 900 milhões. O Congo-Brazzaville ficará livre de um espeto de US$ 352 milhões.

Quem lê a palavra “perdão” associada a um país africano pode pensar num gesto altruísta, em proveito de crianças como Denis, que nasceu na pobre província de Oyo, num país assolado por conflitos durante os quais quatro presidentes foram depostos e um assassinado, cuja taxa de matrículas de crianças declinou de 79% em 1991 para 44% em 2005. No Congo Brazzaville 70% da população vivem com menos de US$ 1 por dia.
Lenda. Denis Sassou Nguesso nasceu na pobre província de Oyo, mas se deu bem na vida. Foi militar, socialista e estatizante. Esteve no poder de 1979 a 1992, voltou em 1997 e lá permanece, como um autocrata bilionário privatista. Tem 16 imóveis em Paris, filhos riquíssimos e seu país está entre os mais corruptos do mundo.
Em tese, o perdão da doutora destina-se a alavancar interesses empresariais brasileiros. Todas as dívidas caloteadas envolveram créditos de bancos oficiais concedidos exatamente com esse argumento. As relações promíscuas do Planalto com a banca pública, exportadores e empreiteiras têm uma história de fracassos.
O namoro com Saddam Hussein custou as pernas à Mendes Junior e o campo de Majnoon à Petrobras. Em 2010 o soba da Guiné Equatorial, visitado por Lula durante seu mandarinato, negociava a compra de um tríplex de dois mil metros quadrados na Avenida Vieira Souto. Coisa de US$ 10 milhões.
Do tamanho de Alagoas, essa Guiné tem a maior renda per capita da África e um dos piores índices de desenvolvimento do mundo.
O repórter José Casado chamou a atenção para uma coincidência: em 2007, quando a doutora Dilma era chefe da Casa Civil, o governo anunciou o perdão de uma dívida de US$ 932 milhões.
Se o anúncio de Adis Abeba foi verdadeiro, em seis anos a Viúva morreu em US$ 1,8 bilhão. Se foi marquetagem, bobo é quem acredita nele.
O Brasil tornou-se um grande fornecedor de bens e serviços para países africanos e a Petrobras tem bons negócios na região.
As empreiteiras nacionais têm obras em Angola e na Líbia. Lá, tiveram uma dor de cabeça quando uma revolta derrubou e matou Muamar Kadafi, um “amigo, irmão e líder”, segundo Lula. Acolitado por empresários, seu filho expôs em São Paulo uma dezena de quadros medonhos.
Em Luanda os negócios vão bem, obrigado, e a filha do presidente José Eduardo Santos é hoje a mulher mais rica da África, com um cofrinho de US$ 2 bilhões. Ela tem 39 anos e ele está no poder há 33.
Se o Brasil não fizer negócios com os sobas, os chineses farão, assim como os americanos e europeus os fizeram.
A caixinha de Kadafi para universidades inglesas e americanas, assim como para a campanha do presidente francês Nicolas Sarkozy, está aí para provar isso. Contudo, aos poucos a comunidade internacional (noves fora a China) procura estabelecer um padrão de moralidade nos negócios com regimes ditatoriais corruptos.
A doutora diz que “o engajamento com a África tem um sentido estratégico”. Antes tivesse. O que há é oportunismo, do mesmo tipo que ligava o Brasil ao colonialismo português ou aos delírios de Saddam Hussein e do “irmão” líbio.
 Elio Gaspari é jornalista

A Aliança do Pacífico e o mito do livre-comércio, por Bruno Lima Rocha

Li por obrigação profissional a matéria da edição de Veja (25/05/13) cujo título “O Quarteto Fantástico” rasga elogios para a união comercial chamada de Aliança do Pacífico.
Composta por Chile, Colômbia, Peru e México, formam um bloco comercial cujos países membros são todos assinantes de Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos.
Colegas da área classificam a Aliança como uma extensão da extinta Área de Livre Comércio das Américas, a famigerada ALCA, estratégia do Império para uma integração forçada, subordinando os parceiros, tal como fizera com seus vizinhos no acordo do NAFTA.
O Brasil entraria de parceiro privilegiado neste desenho, e graças à ação da agressiva política externa venezuelana, timidamente o governo de Lula ajudou a enterrar a ALCA na IV Cumbre das Américas, realizada em novembro de 2005, em Mar Del Plata, Argentina.
Passados oito anos e deparamo-nos com duas constatações. É certo que o MERCOSUL não consegue avançar em acordos múltiplos, brecando por tabela a projeção do Brasil para o Continente. 
 E, para desgraça do desenvolvimento, setores inteiros da sociedade brasileira continuam pensando em termos de relações carnais com a economia do Império, ou contentando-se em transformar a América Latina em uma enorme plantação de algumas monoculturas legais.
Ressalto este aspecto porque nas monoculturas ilegais, como folha de coca e pés de maconha, Colômbia e México estão bastante irrigados por extrema liquidez com fundos desta origem.
A Aliança do Pacífico passa a funcionar dia 30 de junho e 90% dos produtos circularão entre os países membros com isenção de tarifas. Portanto, as portas estão escancaradas para a burla. Empresas “maquiladoras”, usinas de montagem localizadas na fronteira entre os EUA e o México poderão circular “livremente” como produto mexicano.
A entrada de manufaturas também se dá através dos TLCs bi-laterais. 82% dos produtos industriais estadunidenses entrarão na Colômbia com tarifa zero. O conflito na economia colombiana será o mesmo dos dramas na OMC.
Os países industriais querem proteger seu setor primário e vender “livremente” produtos com valor agregado, sem transferir tecnologia. Quem julga isso progresso, está totalmente equivocado.
Voltando para a matéria, esta afirma que: “Não há maneira mais eficiente para reduzir a pobreza e distribuir a riqueza de um país do que o livre-comércio.”
Tamanho absurdo histórico vai de encontro a qualquer estudo sério de economia do desenvolvimento dos países industrializados.
 Bruno Lima Rocha é cientista político e professor de relações internacionais.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Palavras.....o vento......


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Argentina: país sem referência de preços; por JANAÍNA FIGUEIREDO* n'O GLOBO

Governo controla índice de inflação, o que dificulta contratos, e proíbe anúncios de ofertas nos jornais
 BUENOS AIRES — Em fevereiro de 2007, os argentinos perderam o que economistas no mundo inteiro consideram um bem público: estatísticas oficiais confiáveis elaboradas pelo Estado. Referência importante para a sociedade, é com base nesses números, por exemplo, que são negociados contratos, aluguéis, preços e salários. Na época, o então presidente, Néstor Kirchner (2003-2007), ordenou a intervenção no Indec (o IBGE local) e deixou o comando do organismo em mãos do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, que se tornou uma espécie de superministro.
Nos últimos cinco anos, Moreno fez uma profunda reestruturação no Indec, afastando técnicos com mais de uma década de experiência e impondo uma equipe composta, em grande medida, por militantes. Além disso, mais recentemente, Moreno também comandou a cruzada contra o grupo Clarín; processou empresas de consultoria que passaram a divulgar na mídia seus próprios indicadores de inflação; controlou preços em supermercados; proibiu a publicação de ofertas de supermercados e lojas de eletrodomésticos em meios de comunicação impressos (para asfixiar os principais jornais do país com perda de receita publicitária). Além disso, limitou a atuação de tradicionais associações de defesa dos direitos dos consumidores, que desde 2007 questionam os métodos do secretário para conter a inflação.
Para mostrar como as restrições à liberdade de expressão e a intervenção do governo argentino em vários setores do país afetam a sociedade como um todo, O GLOBO iniciou ontem uma série de reportagens intitulada “Liberdade Amordaçada”. Os textos estão sendo compartilhados com mais dez jornais da América Latina que, como O GLOBO, integram o Grupo de Diarios América (GDA).
No primeiro ano de gestão de Moreno, o Indec estimou que o Índice de Preços ao consumidor (IPC) atingiu 8,5%. Já com as primeiras suspeitas de manipulação pairando sobre o organismo, empresas de consultoria privadas decidiram realizar suas próprias medições, estimando, em média, uma inflação de 16,7%. Os economistas argentinos, explica Marina Dal Poggetto, da consultoria Miguel Bein, “ficaram sem uma ferramenta essencial de trabalho. Foi como deixar um médico sem bisturi”. Já a sociedade, enfatizou a economista, “perdeu um termômetro necessário na hora de discutir qualquer tipo de contrato”.
— Hoje a realidade é que ninguém sabe qual é a inflação real e isso afeta os 40 milhões de argentinos — diz Marina.
Pressão por reajustes salariais
A estratégia adotada por Moreno foi simples: sua secretaria denunciou na Justiça pelo menos 11 empresas de consultoria que passaram a ser consultadas por jornalistas locais, dadas as suspeitas de manipulação no Indec. Moreno as acusou de ter violado a Lei de Lealdade Comercial (que proíbe a divulgação de preços falsos) e exigiu pagamento de multa de 500 mil pesos (US$ 95 mil). Há dez dias, a Justiça suspendeu a medida no caso de sete empresas, inclusive a de Miguel Bein e a Ecolatina (fundada pelo ex-ministro da Economia Roberto Lavagna). Mas, sem exceção, as consultorias decidiram continuar fora da mídia por temor de novas retaliações.
A saída encontrada por jornais não alinhados com as políticas da Casa Rosada foi informar o chamado Índice de Preços do Congresso, que passou a ser divulgado todos os meses por deputados opositores, em base a estimativas privadas. No entanto, o IPC do Congresso (cuja fonte não é conhecida e, portanto, tampouco confiável) não supriu o que foi perdido pelos argentinos. O dano causado pela intervenção do Indec afetou toda a economia do país: consumidores, donos de imóveis, pequenos, médios e grandes empresários e comerciantes. Todos foram obrigados a aprender a viver sem saber qual é a inflação real.
Em 2012, o comerciante Fernando Céspedes, dono de uma ótica no bairro de Palermo, reajustou, em média, em 35% seus produtos. Ele explicou que foi obrigado a aumentar de forma expressiva alguns preços porque seus fornecedores fizeram a mesma coisa:
— As grandes empresas podem absorver a alta de custos de produção, mas os pequenos, mais desprotegidos, são os que mais elevam os preços.
Os sindicatos que estão em negociação salarial exigem reajustes acima de 25% e obtêm o aval da Casa Rosada, apesar da contradição com os números do Indec, que em 2012 calculou um IPC de 10,8%, abaixo dos 25% estimados por analistas.
Desconfiança generalizada
O mesmo problema enfrenta a corretora Julia Mel, da imobiliária Raúl Mel. Após a intervenção no Indec, os contratos passaram a incluir cláusulas sobre reajustes de preço no segundo ano de aluguel. Primeiro eram aumentos de 10%, depois 15% e nos últimos dois anos o percentual subiu para 25%.
— Muitos donos de imóveis pedem taxas mais altas, mas o limite é a capacidade de pagamento dos inquilinos — diz Julia.
Os proprietários mais assustados com a escalada da inflação preferem aumentos semestrais, mas estes, diz a corretora, são os apartamentos mais difíceis de alugar.
Segundo a Universidade Di Tella, a expectativa de inflação dos argentinos para este ano é de 30%. Com o Indec mergulhado numa crise de legitimidade, economistas sob ameaça de perseguição judicial e governos provinciais cada vez mais atemorizados (das 15 províncias que mediam a inflação, hoje apenas três continuam divulgado seus indicadores), os argentinos não só duvidam de tudo, como também acham que a inflação é ainda maior do que calculam consultorias privadas.
Em meio a esta conjuntura e diante de eleições legislativas em outubro (que definirão o futuro do kirchnnerismo), a Casa Rosada decidiu congelar o preço de dez mil produtos (por pressão dos supermercados, cujas vendas foram prejudicadas, a partir de junho serão apenas 500). O plano de Moreno entrou em vigor em fevereiro passado e, no mesmo mês, o secretário comunicou aos donos de supermercados e redes de eletrodomésticos a decisão de vedar a publicação de anúncios com ofertas nos grandes jornais do país (“Clarín”, “La Nación” e “Perfil”). A medida representou um duro golpe para os jornais, mas também para os consumidores argentinos: segundo pesquisa da CCR, 78% da população argentina segue as ofertas na hora de decidir uma compra. A União de Consumidores Argentinas (UCA), lançou a campanha “Precisamos estar informados”:
— O congelamento foi um fiasco e, ainda por cima, acabaram com uma ferramenta essencial que permite aos consumidores comparar preços e ser informados sobre ofertas. O direito à informação do consumidor está protegido pela Lei 24.240 — diz Fernando Blanco Muiño, presidente da UCA.
Ele, como o ex-deputado socialista Héctor Polino, à frente da Consumidores Livres; e Sandra González, da Associação de Defesa de Consumidores e Usuários, são excluídos dos encontros realizados por Moreno com ONGs de defesa dos consumidores. No caso de Polino, no ano passado, o secretário suspendeu preventivamente sua ONG do Registro Nacional de Associações de Consumidores, por divulgar aumentos no valor da cesta básica.
— Foi uma medida arbitrária, sem precedentes em nosso país — diz Polino.
*Correspondente

Jaguar: Quase memórias de Búzios;O DIA

A Rua das Pedras perdeu o charme
Rio - Conheci Búzios em 1954, dez anos antes de Brigitte Bardot e argentinos descobrirem o lugar, quando passei uma longa temporada em Arraial do Cabo, a poucos quilômetros de lá. A estradinha de terra toda esburacada que ligava as duas aldeias de pescadores acabou com a Variant que herdei de meu pai. Voltei algumas vezes, a Rua das Pedras transbordava de glamour.

Contavam-se nos dedos lojas e restaurantes com nomes brasileiros, todas as grifes do mundo estavam em oferta. Uma multidão de turistas argentinos, italianos, alemães, japoneses, escandinavos, hippies e bichos-grilos, mas principalmente uma moçada bonita e bronzeada, lotava a rua, o desfile varava a noite. Iates espantosos ancorados nas enseadas. Cannes no Brasil. Tinha até um ‘Pasquim’ local, o ‘Perú (com acento) Molhado’ — o maior jornal de Búzios —, fundado e editado desde 1981 por um argentino (é claro), o esfuziante Marcelo Lartigue. A pedido dele, fiz algumas capas; meu nome foi incluído no Conselho Editorial. Consta que uma grande editora comprou (o tabloide, não o Marcelo). Fui cortado do conselho do mesmo jeito que entrei: sem ser consultado.
Na semana passada estive em Búzios, depois de muito tempo entre o Rio e Itaipava. A moçada bonita debandou (deve estar em Trancoso), a Rua das Pedras foi invadida pela emergente classe média. Sei que não é politicamente correto dizer, mas perdeu o charme.

No hotel descobri, entre best-sellers americanos e livros com fotos de cachorros, um exemplar de ‘Quase Memória’, de Cony, que — falha minha — ainda não tinha lido. Ed. Companhia das Letras, 14ª edição (já está na 27ª), só que agora pela Alfaguara e sem o luxuoso auxílio de orelha de Jânio de Freitas e contra-capa de Ruy Castro. “É seu Amacord particular”, escreveu Ruy.

O fato é que só consegui largar o livro depois que acabei de ler — durante oito horas só com pausas para ir ao banheiro — as 213 páginas. E fiquei sem saber o que continha o embrulho deixado pelo pai e que descreve, num bolero de Ravel de palavras, dezenas de vezes. O livro acaba sem Cony desatar o maldito barbante. O grande mistério é que o embrulho que a secretária lhe entregou era recente. “Até mesmo o cheiro — pois o envelope tinha um cheiro — era o cheiro dele, de fumo e água de alfazema que gostava de usar, metade por vaidade, metade por acreditar que a alfazema cortava o mau-olhado, do qual tinha hereditário horror.” E, conta Cony, “apenas uma coisa não fazia sentido. Estávamos — como já disse — em novembro de 1995. E o pai morrera, aos 91 anos, no dia 14 de janeiro de 1985.”
Jaguar; Cartoonist e Jornalista, escreve n'O DIA aos sabados.

Frei Betto: Os partidos e a democracia interna, O Dia

O que Robert Michels denunciou há 102 anos infelizmente é praxe ainda nos tempos de hoje.
Rio - Autor do livro ‘Sociologia dos partidos políticos’, escrito em 1911 e editado pela Editora Universidade de Brasília, em 1982, o sociólogo alemão Robert Michels, de convicções socialistas, deu aulas em universidades da Alemanha, da França e da Itália. Na de Turim, ensinou Economia, Ciências Políticas e Sociologia. Decepcionado com a falta de democracia nos partidos progressistas, faleceu em 1936, acusado de conivência com o fascismo.

O que Robert Michels denunciou há 102 anos infelizmente é praxe ainda nos tempos de hoje. A direção do partido é progressivamente ocupada por seleto grupo profissionalizado que, a cada eleição, distribui entre si as diferentes funções. Os caciques são sempre os mesmos, sem que as bases tenham condições de influir e renovar os quadros de direção.

À medida que o partido ganha espaço de poder, menos se interessa em promover o trabalho de base. A mobilização é trocada pela profissionalização (incluídos aqueles que ocupam cargos eletivos), a democracia cede lugar à autocracia, a ampliação e preservação dos espaços de poder tornam-se mais importantes que os princípios programáticos e ideológicos.

A Igreja Católica, por exemplo, é uma típica instituição que absorveu a estrutura imperial e vertical do Império Romano e ainda hoje dela não se livrou. E tenta justificá-la sob o pretexto de que essa estrutura decorre da vontade divina...

Enquanto tateamos em busca da democracia real, na qual a vontade do povo não significa mais do que uma retórica demagógica, temos o consolo de uma invencível aliada dos que criticam a perpetuação de políticos no poder: a morte. Ela, sim, faz a fila andar, promove a dança das cadeiras, abre espaço aos novos talentos.
Escritor, autor de ‘A mosca azul: reflexão sobre o poder’

sábado, 25 de maio de 2013

Charge de Néo Correia


A um estalar dos dedos, por Maria Helena RR de Sousa

Dona Dilma é uma figura curiosa. A impressão que dá é que ela em seus momentos de profunda meditação sobre os problemas do país que gerencia, tem uma ideia, elabora sobre o que pensou, estala os dedos e, pimba!, dá tudo como resolvido.
Os próximos passos são comunicar o que bolou aos seus assessores e depois, ao distinto público.
Os assessores, que querem tudo menos perder os cargos, ou ficam mudos ou, interpelados, acham a ideia magnífica.
O distinto público ouve estarrecido e se divide em crentes e não crentes.
Durante sua campanha para presidente da República, dona Dilma se apercebeu que um dos nossos maiores problemas era a falta de creches onde estacionar as crianças enquanto as mães trabalham. Como mãe, solidarizou-se com o problema e após sopesar os prós e os contras, prometeu a construção de seis (6) mil creches.
Estalou os dedos, aguardou a posse e seguiu a rotina acima mencionada. Pronto, para ela esse problema deixou de existir.
Quando da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro, sensível ao horror que via por toda a parte, estalou os dedos, etc. etc., e prometeu seis mil (6) casas. Mais um problema resolvido.
Pelo visto, dona Dilma gosta muito desse número...
Não sei quantas outras seis mil coisas ela prometeu, mas, agora, acompanho, com muita atenção, a promessa dos seis (6) mil médicos que vai contratar para resolver o angustiante problema dos municípios sem médicos. 
Albert Schweitzer, em Lambaréné, Gabão 
Não há, da minha parte pelo menos, nenhuma apreensão quanto à contratação de médicos cubanos. (Só peço que não enviem nenhum dos que trataram o indigitado Chávez. Mas o geriatra do Fidel seria até muito bem vindo!).
Podem vir médicos portugueses, franceses, búlgaros, poloneses, a nacionalidade é o que menos importa.
O que importa é que tipo de infraestrutura os médicos encontrarão para exercer seu trabalho.
Encontrarão saneamento básico? Água encanada? Energia farta? Acesso à Internet, hoje fundamental para qualquer médico? Laboratórios? Equipe de enfermagem preparada para auxiliá-los? Material hospitalar de fácil reposição? Enfermarias bem montadas? E salas de cirurgia? Transporte para os casos de pacientes que tenham que ser enviados para grandes centros?
Tenho para mim que dona Dilma andou lendo ‘Entre a água e a selva’, de Albert Schweitzer (1875/1965), o grande médico de Lambaréné, no Gabão. Ao fechar o livro estalou os dedos e imediatamente resolveu: importo seis (6) mil médicos e nosso problema está resolvido.
Ah! Se fosse possível clonar Schweitzers, médico, filósofo, teólogo, músico, humanista, um homem em um bilhão!
Com isso, o Brasil ficaria pequeno para o número de doentes do mundo inteiro que viria para nossas Lambarénés.
Sonhar ainda é possível.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, também tem um blog – Maria Helena RR de Sousa

O estigma da tortura, Cid Benjamin, O Globo

O tenente médico Amílcar Lobo examinava os presos no DOI-Codi durante as sessões de tortura. Além disso, aplicava pentotal, o chamado soro da verdade, na veia dos interrogados mais recalcitrantes. Era uma peça daquela engrenagem sinistra. Como tal, deveria ter sido julgado e condenado.

O futuro da tortura está ligado ao futuro dos torturadores. A necessidade de punição de torturadores e mandantes não é principalmente um ajuste de contas com o passado. É uma exigência para que, no futuro, a praga da tortura seja extirpada.
Por isso, foi lamentável a decisão do STF, em abril de 2010, de estender a anistia a torturadores, estupradores e assassinos de presos, por considerar que eles praticaram “crimes conexos” aos delitos políticos.
Isto posto, quero dizer que compreendo a dor de Maria Helena Gomes de Souza, viúva de Lobo, que recentemente publicou um artigo neste espaço. Por isso, relevo absurdos que ela diz como, por exemplo, considerar que seu marido foi acusado “de forma vil”. Não foi.
Vou mais longe: acompanhei a situação do próprio Lobo, depois ele que deixou o Exército. Lobo, efetivamente, teve problemas de consciência pelo papel que cumpriu. E, ao contrário do outro tenente médico do DOI-Codi, Ricardo Agnese Fayad, hoje general, deu demonstrações de arrependimento.
Conheci Lobo no dia 21 de abril de 1970, quando fui preso ferido por dezenas de coronhadas de fuzil na cabeça, numa briga com agentes do DOI-Codi, e ele foi chamado para me dar pontos. Foram, ao todo, 17 pontos. Dados a frio, naturalmente. Nessa mesma noite, fui amarrado a uma cadeira ao lado do pau de arara e Lobo me aplicou pentotal.
Voltei a encontrá-lo nos dias seguintes, em novas sessões de tortura, quando ele me examinou e assegurou aos algozes que eu não estava a ponto de morrer e que as sevícias poderiam continuar.
Anos mais tarde, já depois da anistia, fui levado ao seu consultório, em Copacabana, pelo saudoso psicanalista Hélio Pellegrino e o advogado Modesto da Silveira, juntamente com outros ex-presos políticos. A visita rendeu uma reportagem na revista “Veja” (11/2/1981).
Lobo voltou à baila quando, na edição de 3/9/1986 da mesma “Veja”, fez denúncias sobre o que vira no DOI-Codi. Entre elas, uma importantíssima: tinha atendido o ex-deputado Rubens Paiva, um dos “desaparecidos”. Falou, também, pela primeira vez, na existência da Casa da Morte de Petrópolis, local clandestino usado para torturar e assassinar presos.
Nesse momento, já estava fora do Exército. Saíra em 1974.
Por sua participação no DOI-Codi, Lobo perdeu o registro profissional. Contribuí para isso quando, no dia 10 de agosto de 1987, prestei depoimento no Conselho Regional de Medicina (Cremerj), no processo em que ele era acusado de ter faltado com a ética médica.
Perseguido pelos militares, Lobo era alvo também da hostilidade de militantes da esquerda, que não perdoavam seu passado e o acusavam, com razão, de não ter contado tudo o que sabia.
Considero que o comportamento desses militantes — dentre os quais me incluo — foi pouco humano. Houve nele algo de vendetta. Lobo já era um farrapo e, ainda assim, foi acossado.
Embora ele tendo sido, sim, um torturador, teria sido preferível se tivéssemos compreendido sua angústia e, a seu lado, tratássemos de recuperar tudo o que ele sabia a respeito dos porões da repressão. 
Cid Benjamin é jornalista.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

INGLESES E SUA ESTRANHA JUSTIÇA, por Helo Porter


Em 2003, um deputado inglês chamado Chris Huhne foi pego por um radar dirigindo em alta velocidade. Para não perder a carteira, pois na Inglaterra é feio uma autoridade infringir a Lei, a mulher dele, Vicky Price, assumiu a culpa.
O tempo passa, o deputado vira Ministro da Energia, o casamento acaba, a Vicky decide se vingar e conta a história para imprensa.
Como é na Inglaterra, o tal do Chris Huhne é obrigado a se demitir primeiro do ministério e depois do Parlamento. ACABOU A HISTORIA?
NÃO.
Na Inglaterra é crime mentir para a Justiça e ontem a Justiça sentenciou o casal envolvido na fraude do radar em 8 meses de cadeia pra cada um. E vão ter de pagar multa de 120 mil libras, uns 350 mil reais.
Segredo de Justiça? Nem pensar, julgamento aberto ao público e à imprensa.
Segurança nacional? Nem pensar, infrator é infrator.
Privilégio porque é político? Nadica de nada!
E o que disse o Primeiro Ministro David Cameron quando soube da condenação do seu ex-ministro: 'É uma conspiração da mídia conservadora para denegrir a imagem do meu governo.' Certo? Errado.
O que disse o Primeiro Ministro David Cameron acerca do seu ex-ministro foi o seguinte: 'É pra todo mundo ficar sabendo que ninguém, por mais alto e poderoso que seja, está fora do braço da Lei.'
Estes ingleses são um bando de botocudos.
Só mesmo nesses paizinhos capitalistas europeus um ministro perde o cargo por mentir para um guarda de trânsito.
 Porque aqui sim,  neste maravilhoso paraíso chamado Brasil, a primeira Lei que um guarda de trânsito aprende é saber com quem está falando.

Protecionismo barra evolução da indústria (Editorial O Globo)


Vencido o prazo de validade da justificativa-padrão oficial para os problemas econômicos, em especial a indústria, o debate subiu de nível. Como está evidente que o cenário internacional não pode ser responsabilizado pelos “pibinhos” nacionais, é preciso definir a melhor terapia para o país voltar a crescer mais que 3% ao ano, e de forma sustentada.

Uma economia com uma taxa de investimentos pouco acima de preocupantes 18% do PIB não pode aspirar a voos mais elevados. E este índice tem ligação direta, entre outros fatores, com um padrão de gasto público desregrado, em que se privilegiam despesas de custeio sempre em elevação e incomprimíveis — a não ser pela inflação —, por se concentrarem em folhas salariais, da previdência e assistência social.
Com razão, a indústria tem requerido atenções especiais. Há queda de produtividade na economia em geral, e o setor, claro, não escapa do problema. Numa conjuntura de salários em alta, baixo desemprego e fraco crescimento é inexorável a competitividade ser afetada.
E o câmbio não é remédio para este mal — até porque, se desvalorizado de forma voluntariosa, agrava outro, a inflação. Lembremo-nos de 2012. Outra causa das turbulências no campo da produtividade são os conhecidos gargalos na infraestrutura (portos, rodovias, ferrovias, aeroportos), cuja desobstrução leva tempo. Pelo menos, há iniciativas em curso: MP dos Portos, licitação de aeroportos, mas lentidão excessiva no resto.
Na indústria, existe, além de tudo, um diagnóstico equivocado feito em Brasília. Numa reação típica de quem ainda está no mundo do pós-guerra, o governo partiu para o protecionismo. Tem feito desonerações tributárias — iniciativa na direção correta, mas que precisa ser horizontalizada —, porém caiu no cacoete da “substituição de importações”, prática superada pelo avanço da globalização.
O mesmo conceito das décadas de 50, 60 do século passado, destilado na Cepal (Comissão Econômica para a América Latina, da ONU) e seguido, sem sucesso, pelo governo Geisel, reaparece travestido de outros termos, como “adensamento da cadeia produtiva”.
A aplicação mais conhecida da política está na indústria automobilística. As montadoras são forçadas a aumentar o conteúdo nacional nos veículos e, com isso, perdem competitividade no exterior. Deixam de contribuir nas exportações, e num momento em que as contas externas se deterioram.
O economista Edmar Bacha, um dos responsáveis pelo Plano Real, tem apontado miopias como esta na política econômica. O bom exemplo na indústria brasileira é a Embraer. A empresa não teria acabado de fechar mais um contrato bilionário se não estivesse integrada a cadeias globais de suprimento. Tampouco absorveria tecnologia de ponta, treinaria mão de obra ultraespecializada nem teria índice de produtividade bastante competitivo. Mas é uma exceção.

Cartas de Paris: A maneira francesa de viajar, por Ana Carolina Peliz


Eu tenho o péssimo hábito de ficar escutando as conversas de outras pessoas nos transportes públicos. Hoje, por exemplo, tinha um rapaz ao meu lado que contava por telefone que passaria suas férias de verão no Sri Lanka. Ele explicava que o país, conhecido pelas praias paradisíacas, também tinha atrativos culturais. A conversa me fez pensar na maneira especial que têm os franceses de viajar.

Pouco importa para onde viajem, pode ser para o interior da França ou para lugares distantes e exóticos, o programa quase sempre inclui visitas culturais. Quando viajo, mesmo em lugares perdidos, sempre encontro franceses nos museus. Eles são capazes de encontrar alternativas culturais nos lugares mais inusitados.
O primeiro passo para organizar a viagem sempre é comprar um guia e fazer um estudo geral do que pode ser visto no país. Algumas vezes este estudo inclui até mesmo aprender uma nova língua, principalmente para os turistas mais jovens.
Os franceses também gostam de sair fora dos caminhos já trilhados, como eles mesmo dizem. Por isso raramente viajam em excursões. Sempre buscam lugares originais, querem o mais autêntico, tentam se misturar com a massa. Eles acham que se misturam.
Normalmente são viajantes intrépidos, capazes de se aventurar com quatro filhos no Vietnã, e gostam principalmente de locais com algum tipo de artesanato ou uma igreja de mais de um século. Mas também se interessam pelo contemporâneo. Para eles, pouco importa a idade do lugar, contanto que seja carregado de história. 
 Uma vez uma parisiense que visitou o Brasil me disse que achava Brasília única, uma cidade cheia de simbologia. Quando ela começou a interpretar as linhas da capital federal, eu me emocionei.
Poucas vezes ouvi alguém definir com tanta sensibilidade esta cidade que representa tão bem nosso ímpeto de modernidade, misturado com a força da natureza e com as questões sociais que assombram.
Os franceses raramente viajam para fazer compras. Eles simplesmente não acreditam quando conto que alguns brasileiros vão a Miami apenas com este objetivo. Eles também nunca pedem para os amigos trazerem uma encomenda, às vezes dizem “traga um pouco de sol”, mas eles sempre enviam cartões-postais para os que ficam. Eu gosto muito deste hábito, que rapidamente adotei. Receber um cartão-postal ajuda a aquecer o coração no chuvoso verão parisiense. 
Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV.

A política, segundo Afif, por Demétrio Magnoli, O Globo


“Ela não criou esse ministério para o PSD. O convite aconteceu e foi aceito por afinidade temática. Esse tema é a minha vida e é prioridade do governo.” Guilherme Afif Domingos é um brincalhão, mas tenho a leve impressão de que, enquanto ele goza da cara dos eleitores, a presidente e o presidente emérito gozam da cara dele.

No dia em que o ministro número 39 oferecia essa cândida explicação, o ministro número um, Gilberto Carvalho, imagem holográfica de Lula da Silva, preferia falar a verdade — ou, ao menos, parte dela: “O partido que ele representa, vindo apoiar nosso governo, ampliando nossa base, é importante.”
Todos sabem que a “causa da microempresa” é só um pretexto para a transação que conduziu Afif à Esplanada dos Ministérios. Contudo, nem mesmo o sincero Carvalho disse que a motivação principal do convite não se encontra nos minutos de televisão do “partido que ele representa”. Afif está lá, antes de tudo, para provar uma tese sobre a política e a representação.
“O senhor já fez muitas críticas ao PT. Chegou a dizer que Dilma não tinha biografia para o cargo...” Um conceito de política emergiu na resposta do novo ministro: “As críticas foram feitas na conjuntura de campanha política. Não teve nada de crítica pessoal, foi tudo na retórica de campanha.”
Desde o século XVI, os governantes europeus aprenderam que, em nome de seus interesses vitais, a direção das esferas das finanças, do direito e da guerra deve ser entregue a servidores especializados. O 39º ministério de Dilma, que não se inscreve em nenhuma dessas três esferas estratégicas, é uma ferramenta a serviço de interesses menores.
A missão de Afif, concluída antes de seu primeiro dia no gabinete, era produzir uma definição de política. Política, segundo Afif, é a arte de iludir os eleitores. O governo de Dilma queria dizer isso, mas por uma voz terceirizada.
À primeira vista, Afif não inova quando declara que, na “política”, as palavras carecem de sentido. Afinal, Lula da Silva, seu mestre adventício, não qualificou como “bravatas de oposição” o discurso petista anterior à Carta aos Brasileiros? O paralelo, embora sedutor, não é pertinente.
Max Weber esclareceu a distinção entre a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade”. A primeira se subordina ao imperativo categórico da lei moral e regula-se por valores que o político almeja colocar em prática.
A segunda parte de uma análise sobre o bem comum e regula-se pelo cálculo realista sobre as consequências comparativas de diversas alternativas de ação.
Os petistas têm o direito de justificar a Carta aos Brasileiros à luz da “ética da responsabilidade”, mas é impossível associar a aventura ministerial afifiana a qualquer tipo de ética.
Sua “responsabilidade” não tem por referência os interesses públicos, mas as conveniências partidárias, e sua única “convicção” é que convicções políticas não passam de estorvos descartáveis.
Afif não é, nem de longe, um pioneiro do adesismo ou da abjuração. Roberto Mangabeira Unger, um predecessor recente, classificou o governo Lula como “o mais corrupto” da história do Brasil menos de dois anos antes de aceitar o convite do presidente para ocupar uma cadeira ministerial também inventada “por afinidade temática”.
Unger beijou a mão de Lula da Silva num sentido figurado; Afif beijou, literalmente, a mão de Dilma. A diferença, porém, está no lugar ocupado por cada um deles no palco da democracia representativa.
“Você quer que eu renuncie a um cargo para o qual fui eleito? Estão querendo me cassar? Eu não fui nomeado, fui eleito.” A indignada resposta afifiana escancara a diferença.
O intelectual de Harvard que sonhou converter-se em Rasputin de um salvador da Pátria só representava a si mesmo; o vice-governador paulista que corre para ocupar um puxadinho na Esplanada dos Ministérios representa milhões de eleitores.
No momento em que abjura, ele não trai apenas suas duvidosas convicções, mas o princípio da representação democrática. De fato, é o seu gesto que cassa os direitos de seus eleitores.
O ministro do puxadinho, que sempre se exibiu como um liberal, serve-nos agora uma oportuna tese política — e o faz assimilando a palavrinha “elite”, cara à linguagem de Lula da Silva. “Esse negócio de ideologia está na imprensa e em setores da elite. Hoje a sociedade é pragmática. Essa questão de direita e esquerda é de um momento do século passado.”
A descoberta filosófica afifiana, um fruto dos efeitos iluminadores do convite presidencial, tem oportunas implicações práticas: “Hoje o proletário sonha em ser burguês. Isso é algo que me une ao Lula.” O “sonho do proletário” — eis o impulso que empurra o PSD rumo ao Planalto!
A abjuração afifiana tem escassa importância. Ela serve, porém, como pista para desvendar a paisagem degradada do sistema político brasileiro. Aécio Neves criticou a presidente por praticar um “governismo de cooptação”. A expressão diz algo correto, mas periférico, sobre a iniciativa presidencial.
De fato, a cooptação do PSD almeja mais que arruinar as oposições: com a finalidade de se perpetuar no poder, o lulopetismo semeia a descrença nas virtudes da pluralidade política e da divergência democrática. Seu êxito nesse campo não se deve, contudo, aos poderes encantatórios de Lula da Silva ou Dilma Rousseff, mas à falência política do PSDB.
O candidato Aécio Neves não estendeu suas críticas ao próprio Afif, a Gilberto Kassab e ao PSD, o primeiro partido brasileiro criado com o propósito explícito de se oferecer à cooptação.
O governador Geraldo Alckmin preferiu o curioso caminho de parabenizar a presidente pela escolha de seu vice como novo ministro.
No horizonte dos dois tucanos, nada existe além das fronteiras dos palácios governamentais, casas legislativas e aparelhos da administração pública. Eles perderam o contato com as pessoas comuns. 
Demétrio Magnoli é sociólogo.

Imprensa, privacidade, princesas e topless, por Luií Roberto Barroso

A liberdade de expressão foi uma conquista histórica da sociedade brasileira, cujo processo de consolidação encontra-se ainda em curso. O direito de privacidade – espécie do gênero direitos da personalidade, que inclui também o direito à honra e à imagem – teve desenvolvimento histórico mais recente, mas é compreendido hoje em dia como uma emanação do princípio da dignidade humana.
A Constituição protege tanto a liberdade de expressão como o direito de privacidade. Não obstante isso, em uma sociedade democrática e de massas, a colisão entre esses dois direitos é freqüente e inevitável.
Alguns exemplos recentes desse conflito, no Brasil e no mundo. A princesa Caroline de Mônaco propôs uma ação na Alemanha procurando impedir que uma determinada revista de variedades divulgasse fotos e fatos da sua vida pessoal, mesmo quando se encontrasse em lugares públicos, como na praia ou no restaurante.
Um cidadão brasileiro outrora conhecido como Doca Street ingressou na justiça do Rio de Janeiro tentando vedar a exibição, por uma emissora de televisão, de programa que retrataria um crime pelo qual fora julgado e condenado, mas cuja pena já havia cumprido. Uma jovem que fez topless em uma praia de Santa Catarina requereu uma indenização contra o jornal que divulgou uma foto da cena, sob o fundamento de uso indevido de sua imagem.
Como deve a ordem jurídica lidar com tais situações? Sempre que dois direitos fundamentais entram em confronto, a técnica usual de equacionamento do problema é a ponderação de valores ou de interesses. É preciso verificar, à luz dos elementos do caso concreto, qual é a solução que mais adequadamente realiza a “vontade” da Constituição.
Tanto quanto possível, deve o Poder Judiciário procurar uma solução de equilíbrio, mediante concessões recíprocas entre os dois direitos, de modo a preservar a essência de cada um deles. Em certas situações, no entanto, a ponderação envolverá a escolha de um dos direitos, em detrimento do outro. A seguir, uma proposta de seis elementos a serem considerados na realização dessa ponderação, quando esteja em jogo o conflito entre liberdade de expressão e direito de privacidade.
O primeiro elemento a ser levado em conta é a veracidade do fato. Como princípio, o Judiciário não deverá impedir a divulgação de um fato que efetivamente ocorreu, sobretudo quando tenha ocorrido no espaço público. O segundo ponto a considerar é a licitude do meio pelo qual foi obtida a informação.
Se o conhecimento do fato resultou, por exemplo, de uma interceptação telefônica clandestina, de uma invasão de domicílio ou da violação de um segredo de justiça, deverá, como regra, prevalecer o direito de privacidade: o crime não deve compensar. Mas se não houve violação da lei na produção da notícia, inverte-se a regra: deve prevalecer a liberdade de expressão. 
Um outro aspecto relevante é o fato de a notícia referir-se a uma personalidade pública ou não. Em uma sociedade democrática, pessoas que ocupam cargos públicos têm menor grau de privacidade do que as demais, em razão da transparência e do controle social relativo a sua atuação.
O mesmo vale para artistas e atletas, por exemplo, que exercem atividade sujeita a exposição pública e alimentada pelo interesse e pela curiosidade popular. A esses elementos deve-se adicionar o local do fato que é objeto do interesse jornalístico.
Um episódio ocorrido em uma boate – suponha-se, por exemplo, uma agressão de um cônjuge ao outro – tem uma situação diversa do evento ocorrido dentro dos muros de uma casa e captado com teleobjetiva. A natureza do fato também deve fazer diferença. Por exemplo: um crime ou um acidente automobilístico não são fatos da vida privada.
Chega-se, por fim, ao elemento chave: a existência ou não de interesse público na divulgação da notícia. É nesse ponto que a liberdade de expressão assume o seu caráter de uma liberdade preferencial.
Em uma sociedade democrática, o direito à informação e a liberdade de imprensa são pressupostos para o exercício esclarecido e pleno dos demais direitos fundamentais. Por essa razão, o interesse público na divulgação de fato e opiniões se presume sempre presente.
A relevância ou não da informação não pode ser estabelecida por ninguém: ela será definida em um mercado livre de idéias, cuja circulação, só por exceção rara, deverá ser impedida. 
A liberdade de expressão envolve custos sociais e pode produzir vítimas inocentes. Pessoas podem sofrer injustamente com a divulgação de certos fatos, algumas vezes ocorrem erros e em outras há malícia mesmo.
O uso abusivo do poder por jornalistas ou meios de comunicação pode ser reparado por mecanismos diversos, que incluem a retificação, a retratação, o direito de resposta, a reparação civil, a responsabilidade penal e a interdição da divulgação.
A responsabilização penal, como regra geral, é totalmente imprópria nesse domínio. A interdição da divulgação deve ser limitada a hipóteses excepcionais. A reparação moral deve ser dada com moderação. Com todas as suas circunstâncias, a imprensa livre ainda é o melhor antídoto contra o autoritarismo, a improbidade e a mediocridade em geral. 
Luís Roberto Barroso, indicado por Dilma para ministro do Supremo Tribunal Federal, foi publicado em 08/06/2006.

"O soldado do passo certo, por Ilimar Franco


COLUNA PANORAMA POLÍTICO DE 11 DE JANEIRO DE 2006
A imprensa nunca foi tão criticada, pelo governo e pela oposição, como durante o mandato do presidente Lula. Dependendo da vontade do freguês, a imprensa ora é tachada de governista ora é tratada como militante da oposição. Nunca houve no país tantos analistas de mídia como agora.

A esta atividade se entregou o assessor especial do presidente Lula Bernardo Kucinski, em entrevista para a Agência Repórter Social. Kucinski não costuma ser notícia de jornal, mas escreve diariamente um documento de duas páginas, o “Carta Crítica”, onde elogia e espinafra a imprensa e o governo. O presidente Lula e um grupo restrito de sete pessoas, ministros e assessores, recebem e lêem seus textos todas as manhãs.

Na entrevista, cuja íntegra está na página www.reportersocial.com.br, Kucinski não deixa pedra sobre pedra na área de comunicação do governo. Acadêmico, ele é professor da USP, não poupa ninguém de suas críticas, nem o PT nem o governo, e quando fala da imprensa, de colunistas e de repórteres, é ácido.

1. O erro do presidente Lula: “O presidente tem por obrigação receber a imprensa. É uma obrigação institucional. O presidente tem que falar com a imprensa e, através dela, falar com a nação. Eu acho que faltou ao Lula e ao governo a percepção dessa obrigação”.

2. Sobre a assessoria de imprensa do presidente: “Ele (Lula) passou a se comunicar diretamente (com a sociedade)... O governo até poderia ter feito isso se, ao mesmo tempo, estabelecesse um rito de (entrevista) coletiva, como todos os governos de países importantes fazem”.

3. O ex-secretário de Comunicação Luiz Gushiken: “Ele não era do ramo”.

4. O publicitário Duda Mendonça: “... a presença do Duda Mendonça foi perturbadora. Ele não podia ao mesmo tempo ser palpiteiro do governo e quem ia fazer ações... O Duda ficava dos dois lados do balcão”.

5. Sobre o PT: “Ele tem propostas de políticas públicas para várias áreas... mas para comunicação não tem... transferiu-se da vida política do PT um padrão de comunicação que é típico do político, que é a comunicação privilegiada”.

6. Sobre o que falta para os repórteres: “Está faltando tudo. Falta conhecer história e falta a preocupação em conhecer. Falta operosidade. Eles não trabalham a sério as questões, não vão a fundo”.

7. Sobre os colunistas da imprensa: “Todos eles defendem a política econômica do Palocci, do Banco Central, defendem corte do gasto público, o Estado mínimo. Por isso, eles são premiados com espaços nobres... Estão em todos os espaços ao mesmo tempo, porque eles estão falando aquilo que o poder quer que eles falem”.

8. Sobre a relação da imprensa com o governo Lula: “Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa... Os jornalistas não têm respeito com a pessoa do Lula... Há sempre um pressuposto de que ele vai falar besteira, vai errar, de que ele não conhece as coisas... A palavra de ordem é acusar e linchar. Acho que o governo Lula tem muita coisa boa... A mídia não está cuidando disso, porque está obcecada pela denúncia”.

9. Sobre a cobertura da crise política pelos jornalistas: “Eles se sentem cruzados de uma cruzada moral... Eles acreditam que estão fazendo o bem. Eles estão percebendo a superfície das coisas e não os fundamentos. Eles não percebem que todos os que estão acusando o PT sempre foram corruptos. Eles estão discriminando. Acusam o PT e não os outros”.

10. Sobre o governo do presidente Lula: “... o nosso governo não foi capaz de mudar o país como ele prometeu... Nós fomos... absolutamente conservadores, retrógrados e eu diria até burros na política econômica... Nós enterramos o nosso próprio discurso de mudança”.

Mas ele também elogia.
11. Bernardo Kucinski por Bernardo Kucinski: “Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã. Eu não estou lá para puxar o saco, elogiar. Eu também não estou lá para infernizar”. "

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ternura, por Dr CARLOS VIEIRA


Afetuosidade, blandícia, brandura, delicadeza, doçura, mimosura. Ainda refere-se a terno, afetuoso, doce, meigo e meiguiceiro. Os românticos sabiam exatamente cantar em prosa e verso esse sentimento, talvez tão raro nesse mundo atual. Será que há acolhimento para essa palavra, para esse estado de alma nos dias de hoje? 

Somos metralhados por sequestros, assaltos, crimes hediondos, sexuais, incestuosos, uma justiça injusta e governos que só visam sua permanência no poder, longe da ternura para com seus “filhos eleitores”. Estou sendo romântico ou pessimista? Estou desacreditado do Amor? Não, estou tentando compor uma canção atual – talvez o medo de ser terno, o medo de amar. Talvez com o fracasso da unidade familiar, crianças criadas com ausência de afetuosidade e da ética (incapacidade da função de interdição) na sociedade atual, não caiba espaço para se ouvir a delicadeza do piano de Alexander N. Scriabin, compositor e pianista russo que compôs uma pequena obra – “Deux poêmes, Opus32 para piano. Sua melodia e seus acordes levam a alma para um estado de candura e doçura. O piano, em ritmo de valsa, escorrega notas e faz com que os dedos do pianista se elevem ao sublime, ao belo, à esperança. É uma experiência inefável, encantadora, que as palavras sofrem nos dedos do poeta para serem expressas. Talvez aquilo que Clarice Lispector em seu monólogo – “Água Viva”- chamou de algo “antes do pensamento”. 
Ternura e encantamento são assim. É a beleza de sentimentos e emoções que Dostoievski descreve, ainda jovem escritor, nas primeiras páginas do romance “Noites Brancas” (1848) onde expressa um canto de amor de uma mentalidade de um sonhador. 
Ternura não existe num adulto jovem, cognominado de mauricinho, que certa ocasião me disse: “Eu estava chapado, doidão, na night. Vi a gata, enchi a cara dela de vodka, fomos curtir um rolé e uma noitada de prazer, e depois a deixei na beira do lago. Que barato! Essas patricinhas precisam é de macho, de sexo e nada mais!” Será esse fato uma metáfora das “relações atuais e futuras”? 
Freud, em 1912 escreveu um dos seus textos, claro, para mim, mais profundo e intrigante sobre o amor e a dificuldade de unir ternura com sensualidade. O texto é: “Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa” e faz parte das suas “Contribuições à Psicologia do Amor II”. 
Escutemos alguns fragmentos do texto: “A corrente terna é a mais antiga das duas (a outra é a sensual). Ela vem dos primeiros anos da infância, formou-se com base nos interesses do instinto de autoconservação e se dirige às pessoas da família e aos que cuidam da criança. Desde o início recebeu contribuições dos instintos sexuais, componentes de interesse erótico... Ela corresponde à escolha de objeto infantil primária.” Primeiro a ternura e logo a sensualidade. Continua Freud: “Tais fixações ternas nas crianças continuam através da infância e sempre incorporam o erotismo, que é assim desviado de suas metas sexuais.”... “Esses novos objetos ainda serão escolhidos segundo o modelo (a imago) daqueles infantis, mas com o tempo atrairão para si a ternura que ligava aos primeiros. O homem deixará pai e mãe – conforme o desejo bíblico – e se apegará à mulher; ternura e sensualidade ficarão unidas.” Digo de outro modo: a amorosidade convive sem conflito com a sexualidade. 
Confuso, querido leitor? Não tanto. Estou querendo mostrar como alguém pode juntar afetividade com sexualidade por uma mulher ou por um homem. Mas nem sempre acontece assim. É frequente encontrar relações onde ternura e sexualidade estão desvinculadas. É sabido de homens que apresentam impotência e ausência de gozo, assim como mulheres que carregam a frigidez; uma incapacidade de unir o sexo e a delicadeza afetiva no objeto de amor. Volto a Freud: “Produziu-se, portanto, uma limitação na escolha do objeto. A corrente sensual que permaneceu ativa busca apenas objetos que não lembrem as pessoas incestuosas proibidas (pai e mãe); quando uma pessoa faz uma impressão que pode conduzir a uma elevada apreciação psíquica, isto não resulta em excitação da sensualidade, mas em ternura ineficaz eroticamente.” 
A literatura está repleta em seu período parnasiano e romântico na questão da Santa e da Prostituta. Os romances familiares como chamava Freud, estão repletos de narrativas de casais onde a ternura fica em casa com a esposa, e a sensualidade e sexualidade recai na amante ou nas relações prostituídas. Repito: a ternura torna-se ineficaz eroticamente. 
Essa dissociação entre amor e prazer físico, agora num âmbito social, mostra na pós-modernidade quanto o homem perdeu a ternura e orientou a procura da felicidade (?) nos prazeres materiais, no consumo de bens, no poder pelo poder, e perdeu a ternura. Juntar a afetuosidade com prazer físico exige uma renúncia profunda da avidez, da voracidade, do desejo de ter tudo. A fantasia, nos homens (terem todas as mulheres do mundo); e nas mulheres (terem todos os homens do mundo). Um universo sem escolha e sem renúncia. 
O antigo ditado chinês que diz: “Quem não reflete, repete” aponta para a necessidade de pensar que o Mito de Édipo e o de Electra necessitam serem repensados e refletidos! Freud é enfático: “O homem deixará pai e mãe... e se apegará à mulher: ternura e sensualidade ficarão unidas. O grau máximo de paixão sensual acarretará o máximo de valoração psíquica”. 
Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

Partidos de mentirinha e a política do cinismo, por Bruno Lima Rocha


Na segunda-feira, 20 de maio, o ministro e atual presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, afirmou em evento realizado numa universidade particular de Brasília, que os “partidos políticos são de mentirinha”. Como venho dizendo aqui nesta publicação, estamos em um momento quando apenas falar o óbvio é transformador.

A política partidária em geral, e o Congresso em particular, são as Genis da democracia contemporânea. Barbosa apenas reflete a percepção coletiva da falta de coerência programática, princípios doutrinários e fidelidade ideológica. Falta problematizar as consequências para a tal da governabilidade caso houvesse tal coerência.
Qualquer sistema político-partidário longevo vê na fidelização das organizações políticas uma forma perigosa de polarizarem-se as posições. Caso os partidos tenham uma real unidade programática e certa regularidade tática, viveríamos momentos semelhantes aos “turbulentos” anos 80.
À época, o atual partido de governo recusava-se a tecer algum tipo de aliança com as forças que participaram da transição através da Abertura lenta, gradual e restrita. De fora para dentro, o reformismo forçava os portões do Estado e criava uma elevada tensão de classe no país.
Boa parte das forças sociais aglutinara-se em torno do PT, da CUT e da Teologia da Libertação. O tom da campanha de Lula em 1989 refletia essa acumulação. Na primeira década do século XXI, os ex-reformistas chegam ao poder Executivo, e o preço foi tornar-se idêntico aos antigos adversários.
Uma década se passa e, em 2013, os partidos de “mentirinha” pelas palavras do mais popular ministro do STF, garantem em seu “toma lá dá cá” diário a “paz social” necessária para manter a tal da governabilidade.
Não estou dizendo com isso que uma democracia representativa estável tenha como alicerce apenas o cinismo e o sentido de sobrevivência. Mas, sem abrir mão de programa, finalidade e ideologia, a política torna-se essencialmente conflito.
Ainda neste mês de maio, materializaram-se os conceitos emitidos por Barbosa na palestra. No plenário do Congresso, durante a votação da MP dos Portos – rebatizada de MP dos “porcos” pelo controverso deputado Garotinho (PR-RJ) – observamos como a representação parlamentar se digladiava por interesses não declarados.
Capitais estabelecidos confrontavam novos entrantes através da fala de deputados e senadores. Particularmente, prefiro uma democracia baseada na organização popular e nas forças sociais mobilizadas do que tamanho espetáculo de cinismo. 
Bruno Lima Rocha é cientista político.

O inimigo interno à espreita, por José Aníbal


Seja durante a inauguração de obras, seja em atos políticos ou mesmo na TV, tem sido recorrente na esfera do governo o recurso retórico ao inimigo interno -- aqueles que trabalham contra o Brasil e que tramam nas sombras para desunir e destruir o que quer que seja.

Para mim é uma lástima ver colegas de geração fazendo uso da mesma fantasmagoria que instilou, entre outras obscenidades da nossa história política, a doutrina de segurança nacional -- o “alvará” da perseguição durante a ditadura.
Se o alarde viesse do ex-presidente Lula, vá lá. Lula construiu sua identidade política ao longo dos anos a partir de sucessivas negações. Dos “pelegos” dos tempos sindicais aos “reacionários” da Constituinte, passando por “oligarquias” e “neoliberais” até chegar às “elites”, Lula sempre estigmatizou adversários para mostrar-se munido de propósitos superiores.
Se Lula conservou a política dos neoliberais, se foi sustentado no governo pelas oligarquias ou se recorreu à malfadada privatização para destravar os investimentos, para ele nada disso importa. Lula era ‘bom’ quando tudo isso era ‘mau’.
Mas para o atual governo, 25 anos depois da Constituinte nos restituir a democracia, as eleições diretas, a alternância de poder e transições civilizadas, o retorno desta retórica do inimigo interno é melancólico (para dizer o mínimo).
Após 10 anos no poder, com sindicatos e boa parte dos movimentos sociais domesticados, uma base aliada formada por quase 25 partidos e 450 deputados e senadores, não consigo vislumbrar quem são, onde estão e qual o poder de fogo destes que tanto ameaçam o governo federal.
Fora a megalomania salvacionista, autoritária e um tanto paranoica, este discurso não passa de uma cortina de fumaça recauchutada. Principalmente em tempos de Comissão da Verdade, que desmascara dia após dia a mentira do inimigo interno criado pela ditadura.
Não é de hoje que o PT confunde o destino do governo com os destinos do país. O curioso é que o recurso ao inimigo interno, à esquerda e à direita, sempre serviu a regimes que conviviam mal com a pluralidade, a divergência e a tolerância.
No fundo, é um artifício reativo e conservador daqueles que, incapazes de transformarem a realidade com o poder que detêm, se empenham para que tudo, ao menos, permaneça como está. A incompetência do governo não é culpa dos outros. 
José Aníbal é economista, deputado federal licenciado (PSDB-SP) e secretário de Energia de São Paulo.