domingo, 31 de março de 2013

O que os homens esperam das mulheres, por RUTH DE AQUINO


RUTH DE AQUINO  é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
"Talvez os homens sejam realmente mais básicos ou tenham expectativas mais reais. De minha parte, espero sobretudo que minha mulher me ame, seja companheira, leal, que me motive a andar para a frente, e que sejamos felizes juntos.”

Reproduzo acima o que ouvi de um amigo após a edição da revista ÉPOCA com um especial dedicado a 50 anos de feminismo. O título era “O que as mulheres esperam dos homens”. Em 1963, a mulher tentava escapar da armadilha de mãe doméstica, submissa e dependente, sem direito a divórcio. Era a pré-história da pílula anticoncepcional.

Hoje, meio século depois, me incomoda a maneira como meninas e meninos são educados pelas mães e pelos pais. A menina, desde que nasce, é “a princesinha”. Veste rosa, pinta as unhas e faz festa de castelo encantado. De tanto ouvir que é princesa, desejará um príncipe mais tarde. O menino é tratado como um super-herói, um durão. Seu nome raramente é falado no diminutivo em casa. Mimamos a “Flavinha” e estimulamos o “Paulão”. Por que a família e a escola perpetuam esses papéis e o desencontro na vida adulta?

Como o homem costuma falar menos e ocupa as posições de poder, a mídia relega os machos a um segundo plano. Isso até os favorece, porque não são tratados como um bloco homogêneo. Segundo estudos, a mulher fala 20 mil palavras por dia, e o homem 7 mil. O triplo, será? Para alguns especialistas em linguagem, isso não passa de mito. Se levarmos a generalização ao extremo, os assuntos favoritos costumam ser diferentes.
“Homem fala de futebol e mulher. Mulher fala, fala, fala...De empregada, filhos, sapatos, bolsas, cabelos, homens.” Esse é o comentário de um amigo poeta e provocador. Perguntei o que ele espera de uma mulher. “Que seja inteligente, sedutora, não fale muito e seja boa de cama.” Machista ou básico? Também prefiro homens que não sejam tagarelas e apreciem a cama não só para dormir. Mulheres que se queixam de falta de preliminares devem perguntar-se: eu me debruço sobre o corpo de meu parceiro ou fico deitada aguardando carinhos? Mãos à obra, moças.

Amigos, amigos, sucessão à parte

          Vitor Hugo Soares


O Nordeste, nestes dias iniciais do outono brasileiro, seguirá ainda como ponto de referência nacional nos agitados movimentos da campanha antecipada para a sucessão presidencial em 2014. Pelo menos até o dia 5 do próximo mês, quando a presidente Dilma Rousseff desembarca em nova visita à Bahia.

Desta vez para participar, em Salvador, da festa política e administrativa de entrega das obras concluídas da Arena Fonte Nova – um dos palcos monu-mentais construídos no País para a Copa das Confederações, este ano, e a Copa do Mundo, no ano das eleições. A inauguração oficial da “arena” será com um Bahia e Vitoria, o tradicional BA x VI, dois dias depois (7/4) da visita presidencial.Ontem, Sexta-Feira Santa, os ingressos começaram a ser disputados a pau na portaria da “arena”, com a polícia no meio.
O ato público de entrega da moderna “arena” está sendo preparado pelo governo petista de Jaques Wagner e seus aliados, com cuidados trabalhados no capricho (incluindo maciços gastos de marketing), para se transformar em acontecimento de porte no plano da administração, mas, principalmente, um ato político de repercussão nacional e ecos lá fora.
O cenário não poderia ser mais perfeito: as margens do Dique do Tororó, um dos mais belos parques urbanos e cartões postais da capital baiana, inspirador de poesias e canções.
A Arena Fonte Nova, construção multimilionária e multiuso (incluindo o político), agora ocupa o espaço do histórico Estádio Octávio Mangabeira, “de muitas glórias e tradições”, (tudo indica – a conferir -, que a denominação em honra a um dos mais sábios e venerados governadores do estado “vai dançar” ), ficou pronto em menos de três anos.
A “arena”, portanto, está sendo entregue com a devida pompa e circunstância em prazo incrivelmente rápido dentro dos padrões regionais, e mesmo nacionais, de grandes obras nas quais mega-empreiteiras e poder público estão envolvidos.
Principalmente se comparada, por exemplo, ao metrô da capital baiana: quase 13 anos para construir meros seis quilômetros da primeira etapa (prevista para 12km), consumir quase R$ 1 bilhão, sem transportar até hoje um único passageiro.
A caminho da festa na Fonte Nova, dia 5, a presidente Dilma (ao lado do aliado governador Wagner, e, quem sabe, do adversário prefeito da capital, ACM Neto, do DEM, seguramente avistará, mais uma vez, pedaços do metrô em obras intermináveis.                       
“O único metrô aéreo do mundo”, como definiu com perfeição o jornalista João Carlos Teixeira Gomes, em artigo sobre o trambolho e suas estruturas elevadas de concreto armado, caras e monstruosas, que cortam e enfeiam trechos da linda cidade da Bahia. Um monumental e “moderno” elefante branco, antes mesmo de ser inaugurado ou transportar ao menos um passageiro.
Voltemos aos fatos iniciais motivadores destas linhas: a visita de Dilma à Bahia, para os festejos oficiais de entrega do campo (como se dizia no tempo de Octávio Mangabeira). Festa adiada quatro vezes por necessidade de ajustes exigidos pela FIFA na obra. Ou mudanças de última hora na agenda da presidente da República.
A mais recente, em razão da viagem de Dilma e sua numerosa comitiva à Roma, para as cerimônias de início do pontificado do Papa Francisco.
Em Serra Talhada (PE), no começo desta semana, durante o movimentado comício-inauguração de obras contra a seca, no qual a presidente Dilma dividiu “amigavelmente” o palanque com o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos (a sombra maior até aqui no caminho da pretendida reeleição da atual ocupante do Palácio do Planalto), foi o que se viu.
Em resumo, no caso Dilma-Campos ficou patente em Pernambuco: amigos, amigos, aliados, aliado, sucessão em 2014 à parte.
O que se verá em Salvador, dia 5 de abril, no comício de entrega da Arena Fonte Nova, ainda é difícil antecipar.Tudo, por enquanto, sugere um ambiente mais ameno, em face do entendimento petista e pessoal, de quase lua-de-mel política e administrativa entre a presidente e o governador.
O problema é saber se o prefeito de Salvador, ACM Neto, do DEM, adversário indigesto e duro de roer, como ficou demonstrado na mais recente campanha municipal, estará presente, também, na festa com a presidente na Fonte Nova, e como ele se comportará no evento.
Amigos, amigos, sucessão à parte. Aí está uma incógnita que empresta atrativo especial de mexer com os nervos no próximo dia 05 de abril em Salvador. A conferir. 
Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do blog Bahia em Pauta, em Salvador.E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Do primeiro impulso à bolsa de valores, a história de quatro startups brasileiras


Conheça a trajetória de empresas de inovação em diferentes estágios de desenvolvimento

Renata Honorato
Thinkstock
(Thinkstock)
Impulsionar uma empresa de inovação nascente não é fácil no Brasil. Depois de um curto período de otimismo e recursos fartos, as startups — e os investidores que apostam nelas —descobriram o custo Brasil. E não estão contentes com isso. Mas isso não significa que o mercado de internet no Brasil tenha se tornado um ambiente completamente inóspito. O site de VEJA reuniu histórias de quatro empresas de inovação que, em estágios diferentes de desenvolvimento, enfrentam os desafios do segmento e caminham para a maturidade.

Desculpa que envelheceu, por Míriam Leitão


Atualmente uma grande empresa é responsável pela sua cadeia produtiva. Assim evoluiu o pensamento corporativo e a atitude do consumidor. A pior desculpa que um setor pode dar, diante de flagrantes de crimes de seus fornecedores, é que não tem poder de polícia. Ninguém pede que uma empresa seja polícia, mas que se negue a comprar de criminoso.

Recebi correspondência da Associação Brasileira de Frigoríficos, assinada pelo presidente Péricles Pessoa Salazar, que diz o oposto do que um setor moderno deve dizer: “Os frigoríficos são empresas do setor privado que não têm poder de polícia para realizar o trabalho que deveria ser atribuído ao setor público. Exigir dos produtores pecuaristas o cumprimento de normas emanadas pelos órgãos ambientais, tais como o de não ter desmatado, não ter trabalho escravo ou ter como origem dos animais a terra indígena, não é função e atribuição das empresas, mas sim das instituições que possuem comando legal para monitorar, controlar e punir aqueles que descumprem a lei”.

Resposta errada do senhor Salazar. O que toda empresa está obrigada é procurar saber de quem está comprando o seu produto. Essa desculpa já deveria ter sido abandonada.

É fácil saber a procedência do boi. Há pecuaristas que estão na lista do trabalho escravo do Ministério do Trabalho. Eles ficam com seus nomes lá por dois anos; se não houver novos flagrantes, saem dela.

O frigorífico tem que consultar essa lista. Há outras do Ministério Público, do Ibama, que informam que empresas foram denunciadas por prática de crime como produção em área de conservação e terra indígena. Em 2011, o maior frigorífico, JBS, depois de ter assinado um compromisso com o MP, ONGs e supermercados de não comprar de quem desmatava, foi flagrado fazendo o oposto. Comprou de fazendas em terra dos Marãiwatsede. Foram 3.476 cabeças de gado que, pelo Guia de Transporte Animal, tinham vindo de 34 fazendas embargadas pelo Ibama e em uma delas houve trabalho escravo.

À época, o presidente da empresa, Joesley Batista, me disse o seguinte: “Se eu não comprar o bicho, alguém compra”. Deve ter evoluído desde então. Bicho criado em terra que foi grilada de unidade de conservação, área indígena ou em que houve trabalho análogo à escravidão não pode ser comprado por um frigorífico decente. O JBS assinou um Termo de Ajustamento de Conduta, que entrou em vigor apenas em setembro do ano passado, em que se comprometia a não comprar mais desses pecuaristas.

Segundo Salazar, os frigoríficos já respondem a “múltiplas exigências” que são feitas pelos órgãos ambientais em decorrência de suas atividades, em termos de “lagoas, poluição do ar, poluição sonora e controle de odores”. A Abifrigo queria o quê? Que os frigoríficos não respondessem por seus impactos?

“Cabe ao produtor rural e não aos frigoríficos o ônus do malfeito”, diz o texto. Sim, o pecuarista deve pagar pelo seu crime. Mas o frigorífico não ser o receptador.

Hoje existem à disposição das empresas tecnologias de rastreabilidade que mostram todo o histórico e as andanças do boi. Tem desde o mais comum, que é um brinco na orelha com um chip, até novas tecnologias de implante de chips no bezerro que são lidos por computadores. A Embrapa desenvolveu um sistema. Existe o Rfid — Radio Frequency Identification — no qual se consegue saber tudo do boi.

Sinceramente, está na hora de os frigoríficos entenderem que a desculpa de que “não tenho poder de polícia” envelheceu. Hoje, a tecnologia dá as ferramentas para que o frigorífico não seja conivente com crimes.

Picles Politicos


Ex-motorista de Brizola, Maneca chegou ao poder
Quando fazia visitas a Brasília, o engenheiro Leonel Brizola, fundador do PDT, utilizava os favores do motorista Maneca, também militante do partido. O caudilho sempre tratou Maneca com afabilidade, mas não lhe permitia intimidades, fazendo-o aguardar no carro o término de suas demoradas reuniões. Os anos passaram e Maneca virou ministro do Trabalho do governo Dilma Rousseff. Seu nome é Manoel Dias.
   
Dono do cartório
O jornaleiro Carlos Lupi tinha Brizola como cliente, no Rio. Fez-se vice-presidente e desde a morte do caudilho controla o PDT cartorialmente.  

Aproximação
Sucessor de Brizola Neto no Ministério do Trabalho, Manoel Dias marcou para esta semana café da manhã com a bancada do PDT.

Comentário meu---Maneca e/ou Manoelzinho, (hein Baiano?!) alem do Lupi (ou Lobinho?) são apenas dois dos expoentes atuais na politica nacional brasileira, noutros 'partidos' ha muitos mais. Inclusive os filhos dos generais, reciclados e politicamente corrigidos. 
"Descobriram" uma profissão muitíssimo mais interessante, tanto financeira quanto social, em contato com lideranças e araque, que lhes antecederam. O PODER não e somente afrodisíaco.
Cartorialmente, estas lideranças pós-ditadura, ELIMINAVAM sempre, tudo ou todos, os que lhe fizessem sombra. Ate, como se vê  sombrar o barco na mais pura e decadente DEMAGOGIA, onde todos e tudo, tem preço.
E la nave va.....afundando as legitimas  expectativas (e ilegitimas!) da maioria dependente de POLITICAS PROGRESSISTAS.
Pagando esta, em cada eleição  por PROMESSAS que jamais se realizam. A esperteza dos atuais 'lideres' substitui a inteligencia e a politiquice procedural a Politica Plural, esta sim, esteio basilar da DEMOCRACIA.

Mudança de guarda (eis a 'politica' no presente!)
Os novos líderes do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), e na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), querem colocar os seus no governo Dilma. Um dos alvos de cobiça é a INFRAERO.

sábado, 30 de março de 2013

Cartas de Buenos Aires: Argentina, papel, pincel, caneta e história


Gabriela Antunes
A Argentina é um país de gente que pinta e desenha. É a pátria mãe de Roberto Fontanarrosa, Quino (mão por detrás da pequena intelectual que conquistou o mundo, Mafalda), Maitena, Liniers e tantos outros. Um país cujo imaginário coletivo se encontra ilustrado em tirinhas, desenhos e comics. Celeiro de ilustradores, o país vem derramando em tinta sua história.
Nesta semana, no entanto, perdeu um de seus grandes nomes: Manuel García Ferré. Uma espécie de “Mauricio de Souza” para os argentinos, Ferré foi criador de personagens que acompanharam muitos hermanos durante décadas, como Hijitus, Larguirucho, Anteojito e Petete.
Refugiado de guerra, radicado na Argentina, Ferré acreditava em personagens edificantes. “Creio que, por ter sofrido a Guerra Civil Espanhola, tenha tido a ideia de personagens que sejam símbolos da compreensão e da paz”, dizia. O desenhista pode ter escapado da guerra, mas não da política.
O vínculo do desenho com a política no país vem de longa data. Já no seculo XIX, a revistaCara y Caretas trazia sátiras políticas e as primeiras caricaturas que o país viu. De lá pra cá, política e desenho não se separaram mais.
Nos dias que se seguiram à morte do Presidente Néstor Kirchner, por exemplo, a cidade foi invadida por grafites de Kirchner vestido como o emblemático personagem dos quadrinhos dos anos setenta “Eternauta”. No comic, Buenos Aires vive um momento apocalíptico em uma luta contra uma invasão alienígena.

Kirchner como eternauta (Imagem: Grafittimundo) 
Os quadrinhos são vistos até hoje como uma metáfora de um país “invadido” por um golpe militar. A comparação entre Kirchner e o eternauta vem depois, graças ao trabalho do Presidente por julgar os opressores da ditadura.
Já em dias melhores, a Argentina continua berço de cartunistas de primeira linha, como Ricardo Liniers. Ex-publicitário, começou sua carreira no jornal Pg 12. Em 2002, a cartunista Maitena o apresentou aos editores do jornal La Nación, aonde vem publicando suas tirinhas desde então. “Meus quadrinhos têm uma alma meio do tango, uma coisa argentina de alimentar frustrações”, define sua obra.
Esta semana, a Argentina provou mais uma vez ser digna do título de celeiro do desenho, quando a ilustradora Isol ganhou uma espécie de Nobel da literatura infantil, Astrid Lindgren Memorial Reward. Nascida em Buenos Aires, Isol escreveu e ilustrou sozinha seus dez livros. “Eu rio de certas misérias que temos, mas com amor e carinho. Se você não pode rir, não pode pensar e nem dormir”, explica Isol.
“Não é incrível tudo que pode caber dentro de um lápis?”, dizia o criador de Mafalda, Quino.

Gabriela Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e mantém o blog Conexão Buenos Aires.

JORNALISTA DEMITIDA POR ESTE VIDEO ...mulher de coragem !!!


O bicho inflação, Míriam Leitão, O Globo


A inflação está alta, o governo passa mensagens ambíguas sobre que prioridade tem o combate à inflação na política econômica; há dúvidas sobre a autonomia do Banco Central, e parte da alta de preços tem sido camuflada ou adiada. Mesmo assim, a taxa vai estourar o teto da meta no trimestre que começa semana que vem. E é esta a maior ameaça ao crescimento.

A presidente pode ficar brava com a maneira como a sua frase foi noticiada, mas o que ela disse foi exatamente isso: “eu não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico”. Essa era o final de uma declaração que ela havia começado dizendo que era o ministro da Fazenda quem falava sobre a inflação e que terminou criticando “o remédio que mata o paciente”.

Três erros. Primeiro: o Banco Central é o responsável pelo cumprimento das metas de inflação, e o ministro da Fazenda deve cuidar da política fiscal, suporte indispensável de qualquer estabilidade. Segundo: é exato o oposto do que a presidente disse. O que deveria causar a ela incredulidade é a possibilidade de manter o crescimento num ambiente de alta de inflação. E terceiro, em inflação não usar remédio é que ameaça o paciente.

Por sua natureza, a inflação, quando sobe, consome renda e capacidade de consumo, desorganiza a economia, aumenta a incerteza e isso leva à retração dos investimentos. Uma inflação baixa e previsível é o melhor ambiente para a construção de um projeto de crescimento.

Mas isso o governo sabe. Tanto que o relatório de inflação de ontem diz exatamente isso. “O Copom ressalta que a evidência internacional, no que é ratificada pela experiência brasileira, indica que taxas de inflação elevadas geram distorções que levam a aumentos de riscos e deprimem os investimentos.” Diz também que “taxas de inflação elevadas subtraem o poder de compra dos salários”.

Não adianta escrever isso e entrar no terceiro ano repetindo que não é realista levar a inflação de volta a 4,5% como fez ontem de novo, reproduzindo o mesmo raciocínio da primeira ata do Copom do governo Dilma. O fato é que nos anos Dilma a inflação ficou mais alta, e o Banco Central aceita que ela se acomode em ponto perto do teto da meta.

Os economistas que defendem o governo gostam de lembrar que está havendo choques de preços — a seca dos Estados Unidos do ano passado, por exemplo. Sim, tem havido choques de preços. É por isso que tem que se voltar com a meta para o centro, para que o espaço de flutuação cumpra o seu papel de absorver esses impactos. Se ficar sempre no teto, ou acima, o choque levará para cada vez mais alto o índice de preços.

De um relatório a outro, a previsão da inflação do ano pelo Banco Central — cenário de referência — aumentou quase um ponto percentual. Ele registra isso e repete que é devido aos “choques”.

Parafraseando João do Vale em Carcará, a inflação é “um bicho que avoa que nem avião”. Por isso, é preciso ser contida e quanto mais cedo melhor, porque ela é um predador, como sabemos. Não está fora de controle, mas está alta demais em que qualquer descuido a fará fugir ao controle e subir.

Não adianta muito garantir que a estabilidade é um valor em si para o governo, se nos seus atos — e várias palavras — ele demonstra o oposto. A inflação tem estado constantemente acima do centro da meta, e isso apesar das medidas tomadas de postergação de correções de preços que servem apenas para mascarar o problema.

A pedido da coluna, a analista Adriana Molinari calculou quanto seria a inflação sem alguns dos truques do governo. Em fevereiro, por exemplo, teria sido de 1%, o que elevaria a taxa anual para 7,08%. Um desses truques é postergação de aumentos, como o de ônibus, o outro é o da redução da energia, que todos sabem que será neutralizado em grande parte pelo uso das térmicas.

O economista Elson Teles, do Itaú Unibanco, acha que alimento em casa deve estar em 15%, em doze meses, neste mês de março. O país está atravessando um período em que naturalmente alimento pesa muito pela alta dos preços de legumes, verduras e frutas.

Independentemente das explicações localizadas, das altas sazonais, o fato é que a inflação está perigosamente andando no teto da meta e, na prática, poderia já ter estourado. O risco é alto. E quando o governo tem que passar um dia inteiro explicando uma declaração é que ela foi infeliz.

Bendita seja, a BOA VONTADE dos homens....













Um descanso para a loura gelada, por Jorge Antonio Barros*




 A criatividade do carioca realmente não tem limite. O Bar Santa Rita de Cássia, na Rua Major Ávila, na Tijuca, Zona Norte da cidade, driblou a proibição de botar mesas na calçada usando os fradinhos que impedem que os automóveis estacionem no local.
O pessoal do bar criou uma mesinha portátil que é encaixada no topo do fradinho, permitindo que se aprecie com alguma moderação a cerveja gelada do fim de semana prolongado. Com o suporte, o pessoal pode beber sossegado, até mesmo em pé, deixando livre a passagem dos pedestres.

As mulheres conquistam também a América, por Rafael Lisbôa*, de Nova York,


 Quando cheguei a Nova York há menos de um mês, comemorava-se o Dia Internacional da Mulher. Coincidência ou não, nestas minhas três semanas por aqui, elas não saem das primeiras páginas de jornais. Mulheres que já fizeram história ou estão em vias de marcar época.

Logo nos meus primeiros dias em solo americano, um único rosto estampava capas de revista, sites e programas de televisão: a toda-poderosa Sheryl Sandberg, COO (ou Diretora de Operações) do Facebook. Eleita pela "Forbes" a 10ª mulher mais poderosa do planeta e disposta a inspirar outras mulheres a trilhar o mesmo caminho do sucesso, ela lançou no início do mês o livro “Lean In: Women, Work and the Will to Lead” (que no Brasil sairá com o título “Faça Acontecer - Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar”). Nas mais de 200 páginas e também na sua organização sem fins lucrativos de mesmo nome do livro, Sheryl convoca as mulheres a “lean in” (inclinar-se), isto é, tomarem para a si as rédeas de suas carreiras e serem heroínas da sua própria história.
A nº 2 do Facebook destaca que, apesar dos avanços com a revolução feminista, a igualdade de gênero no mercado de trabalho ainda está muito longe da realidade e cabe às mulheres não se conformarem com o preconceito de muitas empresas, deixarem de lado o papel de vítimas, vencerem as inseguranças e conquistarem seu espaço. Segundo Sheryl, algumas dessas barreiras internas que acompanham as mulheres ao longo da vida são reforçadas na infância. Por isso, ela aproveitou uma entrevista dada ao programa “60 minutes”, da CBS, para mandar um recado às futuras gerações: “Eu quero que toda garotinha que costuma ser chamada de mandona passe a ouvir, em vez disso, que ela possui desde cedo capacidade de liderança”.

Certamente capacidade de liderança é o que não falta a Christine Quinn, a presidente da Câmara de Vereadores de Nova York que se lançou há 15 dias como candidata à prefeitura da cidade mais importante do mundo. Pesquisas mostram que, com 37%, ela é a favorita entre os Democratas para concorrer pelo partido à cadeira ocupada há três mandatos por Michael Bloomberg. Se o favoritismo de Christine se cofirmar nas urnas em novembro, os novaiorquinos terão pela primeira vez uma prefeita mulher – e gay, diga-se de passagem.

Se ainda é preciso esperar alguns meses para testemunhar o resultado das eleições na Big Apple, outra americana já foi responsável por um feito inédito esta semana. Julia Pierson acaba de ser empossada como a primeira mulher a chefiar o Serviço Secreto dos EUA – um espaço dominado 90% por homens. A agente de 53 anos, nascida na Flórida, foi escolhida por Barack Obama para comandar a agência que é responsável por sua proteção pessoal, a do vice-presidente e de suas famílias.
E mesmo o cargo mais poderoso do planeta pode ser ocupado em breve por uma mulher. Em 2016, os Estados Unidos podem eleger pela primeira vez uma presidente. Mesmo sem confirmar ainda se vai realmente entrar na disputa, Hillary Clinton – ex-secretária de Estado, ex-senadora e ex-primeira-dama – surge como favoritíssima nas pesquisas para chefiar a nação.
Caso a Sheryl Sandberg lesse este meu texto (quanta pretensão a minha!), ela poderia argumentar que ainda falta muito: apenas 22 dos 197 chefes de Estado são mulheres e apenas 21 das 500 maiores empresas mundiais têm liderança feminina. Mas não há como negar que mudanças importantes estão acontecendo e desenhando uma nova configuração nos Estados Unidos, em outras partes do mundo e até aqui em casa. Eu sempre soube que a amiga com quem divido o apartamento em Manhattan era uma profissional de comunicação extremamente bem-sucedida e uma chef talentosa. Mas o que tenho descoberto é que, além de tudo, a minha 'roommate' ainda é muito melhor do que eu até na hora de montar a cama, pendurar a TV na parede e fazer outros reparos domésticos. Talvez seja a minha hora também de “lean in” e vencer algumas barreiras.
*Rafael Lisbôa é jornalista e está estudando na Columbia University, em Nova York

REVERENCIAR O MESTRE, REJEITAR AS FANTASIAS, por Carlos Chagas


                                                        É preciso respeitar a data em que se lembra  a morte de Jesus Cristo, uma das maiores figuras da Humanidade. Tanto faz se católicos, evangélicos, muçulmanos, judeus, budistas,  ateus e agnósticos. Todos concordarão em que depois dos seus  ensinamentos,  o mundo não foi mais o mesmo. Agora, quantas barbaridades se  praticaram e ainda se praticam   em nome dele.  Ainda hoje,   mesmo abolidas as fogueiras, as guerras ditas santas  e as fantasias.
                                                         Com todo o cuidado para não agredir a fé de bilhões de seres humanos, é preciso verificar que   nenhum dos quatro evangelistas, além de  muitos outros censurados através dos séculos, escreveu ter Jesus dito que era Deus. Sequer que era o único  filho de Deus. Pregou que todos  éramos filhos do Criador, que iríamos ao  encontro Dele,  depois da morte, caso tivéssemos praticado o amor ao  semelhante e evitado uma série de  barbaridades sem que nos tivéssemos arrependido. Foi depois, com a difusão da  dita doutrina cristã,  que se criou a versão de sua divindade. Uns por ingenuidade, outros por malandragem, estabeleceram versões a respeito da ressurreição, quando a explicação mais racional  seria, no máximo,  de que Jesus teria escapado do flagelo da crucificação. As lendas, porém, suplantaram a natureza das coisas.
                                                        Devemos enfrentar a realidade: se existe o Pai, como Jesus e toda a tradição  judaica sustentavam, como imaginar que Ele tivesse tido um filho?  Houve uma esposa? Mais fantasiosas ficaram as ilusões quando se inventou a existência do Espírito Santo, uma pombinha que até hoje freqüenta os concílios do Vaticano, mas que  de fato representa apenas   o bom-senso, a racionalidade e a sempre presente natureza das coisas.
                                                        Não dá para entender como se apregoa o chamado “mistério de um Deus em  três Pessoas”, que ouvimos placidamente durante toda a vida. Ou existe ou não existe o Criador, mas dividi-Lo só mesmo por força de muita imaginação.
                                                        Foi graças a Saulo de Tarso que o cristianismo estendeu-se para toda a Humanidade, quando a pregação  de Jesus limitava-se à  nação   judaica,  que ele pretendia purificar.    Pior para os anazes e caifazes  da época, que condenaram Jesus à morte  por medo de perder o poder sobre a comunidade,  tamanho  o     obscurantismo que impunham para exercer seu domínio. Enganaram até Roma, sugerindo que Jesus pretendia-se o rei dos judeus,  libertador da opressão romana.
                                                        Ao prometer que os dois ladrões crucificados com ele estariam em breve no paraíso, jamais Jesus imaginou-se  superior aos homens, muito menos seu julgador, apesar de as versões posteriores exaltarem essa condição.
                                                        Numa palavra, Jesus talvez tenha sido o maior dos mestres nascidos até hoje entre nós, mas se pudesse prever o que fariam  em seu nome e  o que construiriam em torno de sua pessoa, talvez tivesse pedido ao Pai para  livrá-lo de carga tão pesada. Assim, devemos reverenciá-lo, nunca utiliza-lo para tanta ignomínia verificada há  dois mil anos.  Em vez de desfilarem com chapéus dignos de faraós e vestimentas apropriadas para as  escolas de samba,  cheios de empáfia e arrogância, os que se dizem seus representantes no planeta   deveriam ater-se apenas aos seus  ensinamentos,   não às fantasias erigidas através dos tempos.                      

sexta-feira, 29 de março de 2013

Quem controla o controle?, por Sandro Vaia


Quanto riso, quanta alegria no partido de reguladores da mídia: exultam ao citar como exemplo as medidas que a Inglaterra tomou para domar seus tablóides amalucados. E, com o cinismo que os caracteriza, querem usar isso como exemplo de que países democráticos, sim, regulam a mídia e que quem resiste a medidas semelhantes no Brasil é um renitente reacionário.

Esquecem de algumas pequenas diferenças: na Inglaterra, os tablóides (notadamente os de Rupert Murdoch, como o News of The World, que acabou sendo fechado ) usaram métodos criminosos para adulterar ou forjar informações.

O que provocou as reações da sociedade e as medidas anunciadas não foram informações desabonadoras ao governo mas o uso de práticas criminosas.

Noticiar o mensalão, denunciar casos de corrupção e criticar medidas do governo não tem nada a ver com uso de chantagem, espionagem através de grampos ilegais ou extorsão que os tablóides, e mais especificamente o News of The World , foram acusados de praticar.

Delitos são delitos e não consta que a imprensa brasileira esteja sendo acusada de praticar ações criminosas que motivem medidas voluntárias de “regulação” como as que estão sendo adotadas na Grã Bretanha.

O órgão regulador criado na Grã Bretanha é independente, de adesão voluntária, prevê a criação de um código de normas, pedidos de desculpas por eventuais erros publicados e direito de resposta às pessoas que eventualmente sejam envolvidas de forma equivocada no noticiário. Uma solução britanicamente civilizada que não tem nada a ver com vingança rancorosa por diferenças políticas.

Agora leia e compare as medidas britânicas com esse item da proposta encaminhada pela CUT e pela FNDC (Forum Nacional de Democratização da Comunicação) e endossada pelo diretório nacional do PT:

“O FNDC reivindica que este Marco Regulatório leve efetivamente à regulação da mídia, e contenha, também, mecanismos de controle, pela sociedade, do seu conteúdo e da extrapolação de audiência que facilita a existência dos oligopólios da comunicação que desrespeitam a pluralidade e diversidade cultural.

Há alguma dúvida a respeito do que possa significar o pedido de “mecanismos de controle, pela sociedade, do seu conteúdo (...) ? É isso mesmo que está escrito: mecanismos de controle de conteúdo. Por quem ? Por que motivo? Que espécie de controle? Quem decide ou define o que é a sociedade, o que é e como ela pretende controlar conteúdos ? E quais são os conteúdos bons e os maus para ela?

É aí que mora a diferença entre o caso britânico e o caso brasileiro, que os petistas, com ar de inocência, preferem fingir que ignoram.

Como se nós - e Paulo Bernardo,o ministro deles,que sabe muito bem quais são as intenções - fossemos idiotas.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br

Anna, por Luis Fernando Veríssimo


Emma Bovary e Anna Karenina são as adúlteras mais famosas da literatura, e as duas tiveram o mesmo fim. Foram vítimas da sua época, da hipocrisia das sociedades em que viviam — mas também do moralismo disfarçado dos seus autores, que as criaram para se destruírem.
Flaubert e Tolstoi condenaram a hipocrisia, mas não deixaram de castigar as suas duas transgressoras, ou de permitir que elas se castigassem. Enfim, foram homens, com sua misoginia à mostra, antes de serem artistas defendendo a transgressão.
Ainda não fizeram, que eu saiba, um bom filme de “Madame Bovary” (o último que tentou sem sucesso foi o falecido Claude Chabrol), mas o filme definitivo de “Anna Karenina” está nas telas, deslumbrando todo o mundo.
A explicação talvez seja que Flaubert nunca encontrou um colaborador à sua altura para fazer o roteiro, enquanto Tolstoi encontrou o Tom Stoppard. E os dois contaram com um diretor aventureiro como Joe Wright, que conseguiu fazer um filme altamente estilizado, na sua redução dos cenários — até o de uma corrida de cavalos — a um teatro e seus bastidores, sem que isto parecesse preciosismo vazio ou atrapalhasse o drama.
O filme é teatro sem ser teatral, como escreveu o Xexeo. E se tivesse sido filmado de forma convencional não teria a metade do impacto visual que tem. Com pouquíssimas tomadas externas, sem sair dos confins de um teatro, o filme mostra a Rússia imperial em todo o seu esplendor e miséria. O vasto exterior só aparece como contraponto para o claustrofóbico pequeno mundo da corte. 
Keira Knightley interpreta Anna Karenina 
Joe Wright, para quem não se lembra, é o diretor, entre outros, do filme “Atonement” (“Desejo e reparação”, se não me engano), baseado num romance de Ian McEwan. O filme contém o que é provavelmente o mais longo travelling ininterrupto da história do cinema, toda a confusão na praia de Dunquerque, onde tropas inglesas fugindo dos alemães no começo da guerra esperavam para serem retiradas, captada numa única e interminável tomada de tirar o fôlego. Podia ser exibicionismo técnico gratuito, mas mostrava a audácia de um diretor, que agora se confirma com este entusiasmante “Anna Karenina”. Olho nele.
Mesmo para quem acha que nunca haverá outra Anna como a Greta Garbo, ou faz restrições a um ou outro incisivo da Keira Knightley, o filme é uma experiência imperdível. Ganhou só um Oscar, o que também o recomenda.

O bigode de Angela Merkel, por Demétrio Magnoli, O Globo


“Saia de nosso país”, lia-se no cartaz, sob uma foto do rosto de Angela Merkel, ao qual acrescentara-se um bigode “a la Hitler”. Diante do parlamento cipriota, em Nicósia, a manifestante — uma pacata senhora de meia idade — repetia um gesto banalizado nas praças de Atenas, Lisboa, Madri e até Roma.

Entre os manifestantes, a chefe de governo da Alemanha personifica a “Europa”, essa entidade geopolítica ainda mais abstrata que um Estado-Nação. A identificação esclarece as raízes da crise da União Europeia.

Chipre é um caso singular, mas também uma lição eloquente sobre o que está em jogo. Seu setor financeiro, que faliu em decorrência da quebra grega, possuía ativos oito vezes maiores que o PIB e operava como lavanderia do dinheiro sujo das máfias russas. Por isso, a União Europeia desviou-se dos modelos aplicados nos demais países endividados, exigindo como contrapartida do pacote de resgate um confisco parcial dos depósitos bancários no país.

A solução original, contudo, implicava a violação da promessa solene, anunciada no início da crise do euro, de preservar os direitos dos depositantes, em valores inferiores a cem mil euros. O precedente conta: se euros podem ser confiscados na ilhota do Mediterrâneo oriental, o que impede que sejam confiscados em Portugal ou na Espanha?

“Este é um ato indisfarçável de expropriação — em outras palavras, algo do arsenal da luta de classes dos bocheviques, não da política econômica civilizada”, reagiu o “Moskovskiy Komsomolets”. O jornal, um porta-voz quase explícito do Kremlin numa Rússia que realizou o sonho petista do “controle social da mídia”, defendia cinicamente os interesses das máfias russas, mas tocava no nervo sensível da confiança.

Confiança é o outro nome do dinheiro: o verdadeiro lastro de todas as moedas do mundo. Em Chipre, o cristal da confiança no euro foi trincado pela segunda vez. A primeira, na Grécia, derivou da “expropriação” das instituições financeiras detentoras de títulos da dívida pública.

No país insular, o plano original, rejeitado pelos parlamentares, era mais grave: atingia cidadãos comuns, junto com mafiosos estrangeiros. Já o plano definitivo, que expropria massivamente os grandes depositantes russos e nem mesmo foi submetido a voto no parlamento, equivale à destruição do motor da economia cipriota. Nenhum investidor voltará a colocar dinheiro naquela ilha em futuro previsível — e muitos pensarão duas vezes antes de comprar ativos financeiros denominados em euros.

Merkel maneja, de fato, o timão da “Europa” abalada pela crise do euro. Sua estratégia deflacionária de austeridade provoca implosões sucessivas nos pilares que sustentam o edifício europeu. Contudo, o bigode de Hitler não lhe cai bem: a “ditadura” exercida pela “troika” (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI) sobre os governos nacionais eleitos não deriva da vontade da Alemanha, mas precisamente da frustração da vontade alemã na hora do tratado da união econômica e monetária.

O ano era 1990, meses depois da queda do Muro de Berlim e apenas semanas antes da reunificação alemã. Do presidente François Miterrand, emergira a proposta da união monetária, um preço que a Alemanha deveria pagar pela restauração da unidade nacional.

Cedendo à posição francesa, o primeiro-ministro Helmut Kohl contrariou o Bundesbank, banco central de seu país, que não escondia o temor provocado pela lendária irresponsabilidade fiscal dos países do Mediterrâneo. A moeda comum serviria para soldar os destinos alemães aos da “Europa”, um objetivo geopolítico que valia a dolorosa renúncia ao marco.

Kohl conhecia os riscos e tinha uma solução. “A união política é a contrapartida essencial da união econômica e monetária”, explicou numa sessão do Bundestag, o parlamento alemão, em novembro de 1991, durante as negociações do Tratado de Maastricht. “A história recente, e não apenas da Alemanha, ensina-nos que é absurdo imaginar que se possa manter a união econômica e monetária, a longo prazo, sem uma união política”.

“União política” era sua senha para a criação de um organismo europeu de fiscalização e controle dos orçamentos dos governos nacionais. A ideia, contudo, quebrou-se de encontro ao rochedo da oposição de Miterrand. A França almejava partilhar o controle sobre a moeda alemã, mas não contemplava a hipótese de ceder à Alemanha o controle sobre o orçamento francês.

Do impasse, nasceu o euro, uma “criança enferma”, na expressão de Timothy Garton Ash, embalada no berço dos “critérios de convergência” de Maastricht, o nome pomposo de uma promessa vazia de responsabilidade fiscal.

O poder de emitir dinheiro é inseparável do poder de emitir dívida. O Tratado de Maastricht, porém, separou um do outro, entregando o primeiro ao Banco Central Europeu e conservando o segundo nas mãos dos governos nacionais. A cisão, que Kohl qualificava como “absurda”, reflete a tensão entre o projeto supranacional da “Europa” e a persistência dos Estados nacionais europeus.

A crise do euro, derivada daquela cisão, pode ser descrita como uma dupla recusa: a rejeição alemã a uma “união da dívida” e a rejeição dos demais países à cessão do poder soberano de emitir dívida.

A União Europeia foi concebida em 1952, quando a Alemanha aceitou compartilhar a soberania sobre seus recursos siderúrgicos, e assumiu a forma atual em 1992, quando a Alemanha aceitou compartilhar a soberania sobre a sua moeda. Os dois passos, separados por quatro décadas, obedeceram ao imperativo político de construir uma “Alemanha europeia”, conjurando para sempre o espectro de uma “Europa alemã”. Ironicamente, porém, o fruto final deles foi o surgimento de uma “Alemanha europeia” no timão de uma “Europa alemã”.

Desenhar um bigode em Merkel pode não ser justo, mas expressa emblematicamente a frustração provocada por esse fruto inesperado do projeto supranacional europeu.

Demétrio Magnoli é sociólogo

Meios e mensagem, por Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Convencionou-se que o que falta à oposição ou a qualquer pessoa que venha a disputar o poder central com o governo do PT é "discurso".

Nesta concepção, a carência seria de mensagem. Não se leva em conta a força dos meios, como se não fossem estes que assegurassem o sucesso daquela junto ao público votante.

O governo tem tudo, sempre. De um para outro varia apenas o grau de pudor ou despudor em se utilizar do espaço em jornais, revistas, rádio, internet; dinheiro a rodo, diário oficial, cadeia nacional à disposição do freguês, poder de distribuir, ferramentas para fazer e desfazer "o diabo".

Sejamos francos: não foi falta de discurso, mas erro de estratégia o que levou o PSDB a não emplacar seu terceiro período na Presidência da República.

Da mesma forma não se pode dizer que a estabilidade da moeda tenha sido um "discurso" que elegeu Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real foi fruto de uma decisão de governo que tinha o poder real e legal para executá-lo.

Na época, 1994, o PT tinha o "discurso" da denúncia de que o plano era meramente eleitoreiro, uma repetição do Cruzado. Mas, quem tinha os instrumentos que acabaram por desmentir os argumentos era o governo. No caso, Itamar Franco, de quem FH era sustentáculo político e ministro da Economia.

Sejamos claros: o "discurso" de Fernando Collor não teria ido a lugar algum não fosse o fracasso fragoroso do Plano Cruzado, a inflação nos píncaros, a popularidade do então presidente nas profundezas e, consequentemente, a desistência de José Sarney de tentar eleger sucessor de sua preferência.

Acabou sendo eleito aquele que o chamava de "batedor da carteira da História" e depois viria a se tornar um disciplinado bajulador de Sarney na presidência do Senado.

Palavrório, todo mundo tem. A questão é saber quem desperta a esperança no melhor "fazetório", quem representa expectativa de mais bem-estar. Em contrapartida depende também de o governo em curso ser ou não alvo de desesperança e desconforto.

Discurso, em verdade, é o de menos. O senador Aécio Neves relata o processo de destruição das relações entre União, Estados e municípios, o chamado pacto federativo; bate na tecla do desmonte da Petrobrás; aponta o descalabro na infraestrutura; denuncia o aparelhamento da administração pública.

Eduardo Campos, em outro tom, fala de tudo isso, ressalta os feitos dos governos petistas e diz que pode fazer "mais e melhor". Até slogan já tem.

Mensagem não falta e com ela se pode até conquistar prefeitos e governadores, mas seduzir o eleitorado é outra história. Depende muito mais do crédito no dia de amanhã a ser garantido por quem está no poder do que na aposta do certo pelo duvidoso baseada apenas no discurso.

Serve para encontros com empresários e políticos, mas não necessariamente vale para despertar subjetividades suficientes para eleger um presidente.

Não sobra um. Doação eleitoral crime inafiançável? Foi o que propôs o ex-presidente Lula em debate no jornal Valor Econômico, ao defender o financiamento público de campanha.

O sistema carcerário não suportaria a demanda. Não fosse apenas uma tolice, a proposta poderia soar como um exagero proposital de quem tem culpa registrada nesse cartório - o mercado do caixa 2.

Este sim, é que mereceria mais rigor de legisladores, magistrados, governantes e partidos. O financiamento público, além de já existir na forma de recursos ao fundo partidário e renúncia fiscal às emissoras pela transmissão do horário eleitoral, não reduz a busca por mais recursos nem elimina a disposição dos doadores de agradar a futuras autoridades com poder de defender seus interesses.

O feirão da Petrobras


Documentos da estatal revelam os bastidores da venda de patrimônio no exterior – como a sociedade secreta na Argentina com um amigo da presidente Cristina Kirchner//////DIEGO ESCOSTEGUY, COM MURILO RAMOS, LEANDRO LOYOLA, MARCELO ROCHA E FLÁVIA TAVARES

Na quarta-feira, dia 27 de março, o executivo Carlos Fabián, do grupo argentino Indalo, esteve no 22o andar da sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, para fechar o negócio de sua vida. É lá que funciona a Gerência de Novos Negócios da Petrobras, a unidade que promove o maior feirão da história da estatal – e talvez do país. Sem dinheiro em caixa, a Petrobras resolveu vender grande parte de seu patrimônio no exterior, que inclui de tudo: refinarias, poços de petróleo, equipamentos, participações em empresas, postos de combustível. Com o feirão, chamado no jargão da empresa de “plano de desinvestimentos”, a Petrobras espera arrecadar cerca de US$ 10 bilhões. De tão estratégica, a Gerência de Novos Negócios reporta-se diretamente à presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster. Ela acompanha detidamente cada oferta do feirão. Nenhuma causou tanta polêmica dentro da Petrobras quanto a que o executivo Fabián viria a fechar em sua visita sigilosa ao Rio: a venda de metade do que a estatal tem na Petrobras Argentina, a Pesa. ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, ao acordo confidencial fechado entre as duas partes, há um mês. Nele, prevê-se que a Indalo pagará US$ 900 milhões por 50% das ações que a Petrobras detém na Pesa. Apesar do nome, a Petrobras não é a única dona da Pesa: 33% das ações dela são públicas, negociadas nas Bolsas de Buenos Aires e de Nova York. A Indalo se tornará dona de 33% da Pesa, será sócia da Petrobras no negócio e, segundo o acordo, ainda comprará, por US$ 238 milhões, todas as refinarias, distribuidoras e unidades de petroquímica operadas pela estatal brasileira – em resumo, tudo o que a Petrobras tem de mais valioso na Argentina.

ONU critica Brasil por 'uso excessivo de privação de liberdade'


João Fellet//Da BBC Brasil, em Brasília

Um grupo de trabalho da ONU criticou nesta quinta-feira o "uso excessivo da privação de liberdade" como punição a crimes no Brasil e deficiências na assistência jurídica a presos pobres no país.
As críticas constam de texto divulgado ao fim de uma visita de dez dias do grupo pelo país, a convite do governo brasileiro. No documento, a equipe se disse “seriamente preocupada” com o uso da privação de liberdade no Brasil.

O governo brasileiro não se pronunciou sobre as críticas.
"O Brasil tem uma das maiores populações de prisioneiros do mundo, com mais de 550 mil pessoas na prisão. O que é mais preocupante é que cerca de 217 mil detidos aguardam julgamento em prisão preventiva."
Segundo os peritos, prender acusados ou condenados por crimes é a punição mais usada no país, embora o Brasil seja signatário de acordos internacionais que fornecem proteção contra a privação arbitrária de liberdade.
O grupo elogiou as alterações no Código de Processo Penal em 2011, que tratam a prisão preventiva como o último recurso aos que cometeram crimes com pena de prisão inferior a quatro anos.
Os especialistas consideraram positivas, ainda, mudanças na Lei de Execução Penal que reduzem sentenças de prisioneiros que busquem educação.
No entanto, a equipe observou uma "tendência preocupante" de que a privação de liberdade está sendo usada como primeiro recurso, em vez de último. O grupo alertou ainda para o aumento de 33% na proporção de indígenas presos em relação à população carcerária geral nos últimos anos.
“O grupo de trabalho também foi informado que as pessoas indígenas foram muitas vezes discriminadas tanto em relação a medidas preventivas aplicadas quanto em relação à punição imposta, o que muitas vezes envolveu uma prisão dura.”
A equipe, que visitou centros de detenção em Brasília, Campo Grande, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo, diz ter encontrado pessoas presas em razão de infrações leves, que deveriam ter sido punidas com medidas alternativas.
Os especialistas condenaram ainda as dificuldades para que brasileiros pobres tenham assistência jurídica. Segundo o grupo, boa parte da população carcerária no país não tem condições de pagar advogados, dependendo de defensores públicos.
No entanto, o documento diz que o número de defensores no país é inadequado. Há inclusive Estados – como Santa Catarina, Paraná e Goiás – onde não há nenhum defensor público.
“A sobrecarga de trabalho dos defensores públicos também é um problema crítico”, afirma o grupo, que cita casos em que profissionais lidam com até 800 casos ao mesmo tempo.
“Mesmo em Estados onde há um sistema de defensoria pública, muitas vezes as áreas rurais ou do interior não têm defensores públicos atendendo as pessoas em detenção.”
O longo período que antecede o julgamento de acusados no Brasil foi outro problema apontado pelos especialistas, que citam casos de presos que esperam por julgamento há anos.
A equipe da ONU expressou ainda preocupações com prisões de dependentes de drogas. “O grupo de trabalho está seriamente preocupado com a informação de que estas medidas também são fortemente aplicadas devido a futuros grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 que o Brasil sediará”.
Na visita, a delegação se reuniu com as autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário nas esferas federal e estadual e com organizações da sociedade civil.
O grupo, integrado pelo chileno Roberto Garretón e pelo ucraniano Vladimir Tochilovsky, foi acompanhado por equipe do Escritório da ONU do Alto Comissariado para os Direitos Humanos em Genebra.
A visita gerará um relatório, a ser apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2014.
Contatado pela BBC Brasil, o Ministério da Justiça não comentou as críticas da delegação da ONU.

Breves palacianas e não só........



Adorável embaixador


Logo depois da audiência em que o complicado Itamar Franco lhe pediu o cargo de embaixador em Buenos Aires, o então presidente Lula ouviu a ponderação de um assessor:
- Ele merece uma embaixada de maior importância, como a da China...
- China? – surpreendeu-se o presidente.
- Seria uma maravilha: por causa do fuso horário, enquanto a gente trabalhasse, ele estaria dormindo! E quando ele telefonasse, o senhor é quem estaria dormindo!
Lula gargalhou por dez minutos.


Solidão
Os tempos de poder do ex-ministro Geddel Vieira Lima ficaram para trás. Agora, ele pode ser visto almoçando sozinho no célebre Piantella, de Brasília, sem cumprimentar ninguém. Nem ser cumprimentado.


Novo presidente do Instituto de Museus


A ministra da Cultura, Marta Suplicy, já escolheu quem vai ser o novo presidente do  Instituto Brasileiro de Museus, o Ibram, na foto: Ângelo Oswaldo, ex-prefeito de Ouro Preto (MG), ligado ao PMDB de Minas.
Ele ocupa a cadeira deixada pelo petista José Nascimento Junior.
Comentario meu--queres um EMPREGO?; não um TRABALHO, isso cansa!! Sem OBRIGAÇÕES quaisquer? Adere ao PARTIDO no PODER ou perto deste!!! Sucesso garantido e preguiça assegurada. Falastrões preferidos.....CV, experiencia, competênciasDISPENSÁVEIS. Basta Q.I.--..pra quem não sabe--quem indicou (qi).

Isadora Faber: problema maior da educação é a corrupção


Vencedora do Prêmio Faz Diferença do GLOBO, a estudante Isadora Faber -- que se tornou celebridade da internet depois da criar "Diário de Classe", uma página no Facebook com críticas à educação -- afirmou ao nosso blog que o grande problema da educação no Brasil é a corrupção:
-- Alguns desvios de verba, quando o dinheiro chega nas mãos dos diretores e das secretarias de educação. Com isso, as escolas vão se destruindo -- disse Isadora, após receber o prêmio.
A jovem lembrou que sua página foi inspirada no blog Never Seconds, feito pela escocesa Martha Payne, uma menina de 9 anos. Martha fazia críticas específicas à merenda nas escolas do Reino Unido. Criada em julho do ano passado, a página de Isadora já tem mais de 600.000 curtir.
Isadora acredita que terá chances de promover mais mudanças quando puder votar, aos 16 anos, mas admite que não tem nenhuma ideia de como a sociedade pode enfrentar a corrupção, que segundo ela está na origem dos problemas da educação. E você, tem alguma sugestão? 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Centro da dúvida, por Míriam Leitão


Comentário meu--- (perdão Miriam) segue e soma, a INCOMPETÊNCIA dos pseudo-políticos. Na realidade ratazanas e sanguessugas corporativas, ignorantes dos reais desejos e cruciais necessidades das populações mundiais.

Conforte-mo-nos-- e global e planetário, todos ou quase, países, sofrem desta incompetência/malfeito politiqueiros.

Depois de 'empurrarem com a barriga" durante décadas  via refinanciamentos vários--depois do empréstimo a antecipação de receita seguindo-se  emissão de letras, ADR's e Commercial Paper's.... (nisto amparados pelos meliantes oportunistas que hoje dirigem o Sistema Bancário Mundial) as dividas e duvidas do eleitor, agora, impossibilitados pela "rolagem" habitual, não sabem como RESOLVER a CRISE GERAL. Esperam um milagre e, entretanto, vão fazendo malabarismos vários  todos inócuos e burocráticos.
O Importante, para estes desclassificados e não perder as eleições seguintes.... A cada Cúpula  Meeting ou simples Reunião de Emergencia, via Imprensa e Propagandas varias, vão "girando a roda" colocando o "chapéu" num 'bobo", depois noutro, pra ver se "pega".
A "bola da vez" e a Merkel na Alemanha e os chineses, na Industria....
E assim vamos de encontro a outros e piores problemas futuros, a Água, os Alimentos, etc... 
Se com a barriga cheia não têm ideias nem soluções, imaginem com fome......Uma REVOLUÇÃO gesta, para a geração seguinte, talvez. Os Povos, acomodados, ainda tem paciência e a comida sacia, parcialmente a Humanidade. Nessa área a especulação só esta começando e as terras agraveis mudando de mãos, ganancia a vista!
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O resgate ao Chipre tem sabor de derrota para a zona do euro. O Chipre impôs controle à entrada e saída de capitais, o que numa zona de moeda comum é uma contradição. Logo, a ilha está dentro e fora da união monetária. A confiança nos bancos foi quebrada com o confisco sobre depósitos acima de € 100 mil. As lideranças europeias foram incompetentes e falaram o que não devia.
Ontem, tentava-se ainda consertar a declaração do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. O ministro holandês provocou a queda das ações de bancos espanhóis, italianos e até franceses ao dizer que o caso de Chipre seria o modelo. Deu medo nos aplicadores, e com razão. Depois, garantiram que é um caso à parte, mas a Eslovênia começou a afundar da mesma maneira.
Os depósitos até € 100 mil são protegidos por lei europeia. A cifra garante os que têm menos, mas atinge a classe média. Sendo feito dentro de uma reestruturação bancária, o confisco não precisa de aprovação dos parlamentos e isso quer dizer que a qualquer momento outros países podem baixar a medida. Para efeito de comparação, se esse confisco fosse aplicado no Brasil, quem tivesse R$ 260 mil em conta perderia entre 30% e 40% disso da noite para o dia. Poderia ficar até R$ 104 mil mais pobre. Não é difícil imaginar a dúvida que paira sobre a cabeça de gregos, portugueses, espanhóis, irlandeses e italianos. Eles olharão de forma diferente para os seus extratos bancários. A quebra de confiança e ameaça de saques colocam novamente em risco a solvência do cambaleante sistema financeiro europeu.
— Se eu fosse europeu, e tivesse dinheiro em conta acima desse corte, estaria cogitando sacar as economias para deixar apenas € 99,99 mil. Se as pessoas fizerem isso, os bancos terão problemas — disse a economista Monica de Bolle, da consultoria Galanto.
O termo técnico é taxação sobre depósitos, mas, na prática, o que houve foi confisco. Dentro de um processo de reestruturação bancária, estabeleceu-se um valor que não pode ser resgatado nas contas acima de € 100 mil. Se fosse imposto, como pensou-se inicialmente, tinha que passar pelo parlamento. Para Monica de Bolle, o controle de capitais sobre o Chipre significa que o país está dentro de uma união monetária, mas seu dinheiro tem menos liberdade que o de outros países. Virou um caso à parte na zona do euro:
— O capital que está dentro do Chipre, agora, é diferente do que está na Alemanha, Grécia, Portugal. São euros diferentes. O euro do Chipre é uma moeda que não é conversível porque sofre controle de capitais. Isso coloca o país com um pé dentro da zona do euro e outro fora.
O segundo maior banco do país, o Laiki, foi fechado, com a separação dos ativos podres dos bons. Os ativos bons serão incorporados ao Banco do Chipre, o maior do país, e os ruins, liquidados. E o primeiro, cujo presidente está se demitindo, o Banco do Chipre, só não foi fechado para não desorganizar mais a economia. Os bancos ainda não passaram pelo teste de fogo que será reabrir após ficarem mais de uma semana fechados.
A pergunta mais difícil de responder é: por que a Europa resolveu quebrar o pilar de sustentação dos bancos — a confiança — em troca de um resgate de € 10 bi, menos de 10% do que foi gasto com a Grécia? O que mais se diz é que a chanceler Angela Merkel tem eleições em setembro e não quer desagradar seu eleitor com mais um resgate. Principalmente ao Chipre, uma pequena ilha, paraíso fiscal, com fortes relações com a Rússia. Mas a explicação parece insuficiente.
De qualquer maneira, a crise no Chipre está destinada a ficar na história econômica como um dos momentos de maior imperícia das autoridades.
A crise da Grécia atormentou o mundo e foi controlada com dificuldade. Agora, é o Chipre que está no centro da dúvida sobre o futuro da moeda comum. Tudo o que havia sido superado começa a ser rediscutido. Nunca tantos erraram tanto em tão pouco tempo.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A tragédia da incompetência, por RUTH DE AQUINO


RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA ---raquino@edglobo.com.br  
Não importa mais o total de mortos na “tragédia” da serra do Rio de Janeiro. Não é insensibilidade. Numa semana de histórias lacrimejantes, de perdas e heróis, não basta lamentar o destino de milhares de famílias à beira de abismos. Não posso comemorar que milhões ou bilhões serão gastos para recuperar encostas e reassentar desabrigados. Engrossar correntes de solidariedade não resolve. Porque não acredito mais. A sociedade não acredita mais.

No bolso de quem vão parar as verbas liberadas após enchentes, diante do rosto compungido das autoridades? O prefeito de Teresópolis foi cassado por desvio. Quantos outros não roubaram dos que nada têm, dos que perderam tudo? Eu queria ver o governador do Rio de Janeiro e os prefeitos do Rio, de Petrópolis, Teresópolis e Friburgo submetidos a multa e julgamento. Por omissão e negligência criminosas. Não há prestação de contas detalhada, não há transparência no gasto das verbas de emergência. Não há pressa. Uma hora a casa cai.

O que aconteceu na serra fluminense é um escândalo muito maior que o da boate Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, embora o número de mortos seja inferior. Na hora do aguaceiro, não há portas de saída para quem vive em barraco em área de risco, não há bombeiro que dê jeito. Há sorte ou azar. Os sinalizadores da natureza matam crianças, velhos, fortes, fracos. O fogo da boate Kiss provocou maior repercussão pelo inusitado e por suas centenas de vítimas jovens de classe média e alta. As enchentes do verão são tão previsíveis que provocaram calos em nossa consciência.

Somos obrigados a ouvir a presidente Dilma Rousseff dizer, em Roma, que não houve falha no sistema de prevenção instalado em 2011 em Petrópolis? Isso é pecado, presidente. Somos obrigados a ouvir Dilma se indignar e pedir “medidas drásticas” para remoções em locais de risco? Quem é a responsável máxima pela política de habitação no Brasil? Quem tenta mudar, na planilha, nosso índice de desenvolvimento humano?
O que aconteceu na serra fluminense é um escândalo muito maior que o da boate
Kiss, em Santa Maria
Se os governos disserem que essa é uma herança maldita, terão razão. Só que o governo do Rio de Janeiro está em seu segundo mandato. O governador Sérgio Cabral já enlameou os sapatos em tragédias suficientes para saber que não fez tudo o que deveria ter feito. Que chame os prefeitos à responsabilidade, que os critique quando desviarem dinheiro e estragarem doações, que lute por uma mudança em nossas leis ambientais surrealistas.

Na raiz dos desabamentos em áreas de risco, há dados que contribuem para o 85º lugar do Brasil no IDH mundial. Um é o deficit habitacional de mais de 5 milhões de casas. Outro é a pobreza. O terceiro é a ignorância, a falta de educação. É só juntar os três com a incompetência do Estado e chegamos à fórmula da “tragédia recorrente”.

A desintegração nacional 
Famílias constroem em áreas de risco, não querem sair de áreas de risco e voltam a morar em áreas de risco. Ou porque não têm para onde ir ou porque o prédio construído para elas, no projeto Minha Casa Minha Vida, está com rachaduras, ameaçado de cair (é o cúmulo...). Ou porque são ignorantes e vivem em vulnerabilidade permanente. Para essas famílias, a vida em si já é um risco – ou uma bênção temporária. Se não morrer de enchente, morrerá na fila do transplante, atropelado na estrada ou de tiro, tuberculose ou diabetes.
A omissão que mata
A legislação ambiental não é rigorosa com os pobres. Por isso, é uma legislação assassina. Mas é kafkiana para a classe média que não paga propina e age de acordo com a lei. Um amigo arquiteto queria construir uma casa de 58 metros quadrados num lotea­mento edificado em Teresópolis, depois de pagar por 20 anos impostos para a prefeitura. Como o terreno estava a 10 quilômetros da fronteira do Parque Nacional, começou o imbróglio. A prefeitura jogou o caso para a Secretaria de Meio Ambiente, a secretaria jogou o caso para o Inea, do Estado, que mandou chamar uma engenheira florestal para catalogar com fichinhas as árvores. O mato rasteiro foi cortado à frente para a engenheira poder entrar. O arquiteto e professor foi processado por crime ambiental pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio). No formulário que preencheu, uma pergunta esclarecedora: precisará do terreno para sua subsistência?

Hoje é assim no Brasil, pela lei. Se a família é sem-terra, não tem onde morar, ergue um barraco onde quiser, embaixo de pedra, na beira do precipício, em cima do rio. Desmata, põe em perigo a si mesma e aos vizinhos. É só construir um cômodo durante a noite e botar uma criança ali dentro. Na manhã seguinte, o Estado não poderá mais tirá-la dali. No próximo verão, pai, mãe e filhos podem morrer nas chuvas anunciadas pelo sistema de prevenção elogiado por Dilma. E o teatro recomeça.

San Diego avalia instalação de máquinas para vender maconha


Prefeito da cidade da Califórnia foi quem levou o assunto para votação na Câmara local
                                Foto da máquina que poderá vender maconha em San Diego, nos EUA Bruce Chambers, / AP
RIO - As máquinas geralmente usadas para vender refrigerantes, chocolates e salgadinhos podem ganhar uma nova versão em San Diego, na Califórnia: a cidade analisa usar o mesmo equipamento para vender maconha medicinal, algo que já é realidade em outros lugares do estado americano. Em Los Angeles, por exemplo, há máquinas usadas para este fim desde 2008.
A previsão era de que a Câmara de San Diego se debruçasse sobre o tema ainda esta semana. Até esta terça-feira, não foram divulgados resultados de uma eventual votação sobre o assunto. A proposta de instalação foi levada ao Legislativo pelo prefeito de San Diego, o democrata Bob Filner.
Ao contrário das máquinas normais, as que vendem maconha medicinal contam com vários recursos para garantir que só pacientes legalmente autorizados a fumar a erva possam usar o equipamento. Para comprar a maconha, o paciente precisa inserir um cartão pré-pago. Depois, a máquina - que custa cerca de US$ 50 mil - lê sua impressão digital. Só depois disso a droga é liberada.
- Acho que será crucial para que os pacientes consigam o medicamento de forma segura - disse Eugene Davidovich, defensor do direito ao acesso à maconha, à ABC San Diego.
Curiosamente, Bruce Bedrick, executivo-chefe da Medbox - empresa que vende as máquinas - se mostrou contra a instalação do equipamento com maconha em locais públicos.
“Talvez um dia a maconha seja socialmente aceitável a ponto de podermos vendê-la apenas pelas máquinas, mas ainda estamos longe disso. Não é isso que nossas máquinas fazem, nem como as vendemos”, disse Bedrick em comunicado divulgado pela companhia na semana passada.