quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Cartas de Paris: Para se dar bem em Paris compre uma agenda


Ana Carolina Peliz
Uma amiga de Barcelona me disse que eu tinha que conhecer uma amiga dela que morava em Paris. Ela nos colocou em contato e logo no primeiro email percebi que a amiga da minha amiga era muito simpática. Então perguntei quando poderíamos tomar um café e ela disse, “pode ser amanhã?”
Tenho que confessar que a resposta me pegou desprevenida. Em Paris ninguém nunca está disponível para um encontro no dia seguinte. Se você quer tomar um café com alguém tem que chamar a pessoa com no mínimo uma semana de antecedência, se quer convidar para um aniversário, com um mês, e para casamentos e batizados, com pelo menos um ano. Isso mesmo, antes de encontrar o noivo/a ou do bebê ser concebido é melhor já ir convidando. Caso contrário, pode ouvir “que pena, mas já estou ocupado/a.”
Aliás os franceses estão sempre ocupados. No começo eu ficava bastante impressionada com isso. Quando eu sugeria uma data, minhas amigas tiravam uma agenda da bolsa e diziam, “tenho um buraco na sexta, acho que posso te encaixar. Pode ser?” Me sentia extremamente humilhada. Não por ser tratada como uma extração do siso, mas porque eu era uma sem-agenda!
Via as pessoas folheando aquelas páginas, se deliciando com tantos compromissos, a vida delas parecia ter sentido. Então tomei a decisão definitiva, adquiri uma agenda. Uma Moleskine, afinal, estava buscando tradição e segurança. Nada de tecnologias que pudessem perder meus compromissos e com eles toda a vida social que tanto lutei para conseguir.
De repente um mundo novo se abriu diante de mim. Comecei a anotar tudo! Até os compromissos mais banais como ir à esteticista ou ligar para uma amiga pareciam importantes e essenciais. Comecei a entender o prazer que sentiam os franceses quando todos em uma mesa abriam suas agendas para saber quando íamos nos encontrar para a próxima reunião ou o próximo jantar. Passei a fazer parte do grupo e claro, a ficar cada vez menos disponível.
Quando a empolgação inicial com o elástico da agenda passou, comecei a sentir falta do improviso, dos amigos que ligavam e perguntavam o que eu estava fazendo e se podiam passar. Comecei a achar que a agenda nem me ajudava tanto a me organizar e estar sempre ocupada não parecia mais divertido.
Voltando ao email da minha nova amiga, depois de pensar um pouco sobre o que responder, joguei a agenda para o lado e escrevi, “claro que posso!”
Adaptar-se à vida parisiense é bom, mas uma amiga espontânea, isso não tem preço.

Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV.

Eleitos pelo Movimento 5 Estrelas têm em comum a inexperiência política



O comediante Beppe Grillo vota em sua seção eleitoral, em Gênova
Foto: GIORGIO PEROTTINO / Reuters
O comediante Beppe Grillo vota em sua seção eleitoral, em GênovaO PEROTTINO / REUTERS

Os 109 deputados e 54 senadores eleitos já ganharam a alcunha de Grilinhos, em homenagem a Beppe Grilo

ROMA — Um exército de amadores, com idade média de 35 anos, e dois pontos em comum: o repúdio à classe política italiana e a inexperiência no Parlamento. Esse é o perfil dos 109 deputados e 54 senadores eleitos pelo Movimento 5 Estrelas, que já ganharam a alcunha de Grilinhos, em homenagem ao líder da legenda, o comediante Beppe Grillo. Num partido criado inteiramente na internet, os candidatos foram selecionados por meio de uma “disputa” de vídeos no YouTube. As únicas exigências eram que os interessados fossem maiores de idade e não tivessem antecedentes criminais. A candidatura exigia ainda o envio de um currículo, de suas propostas e de um vídeo de apresentação.

Nesse grupo que tem o descontentamento com as velhas práticas da política como base, a telefonista de serviços de emergência Ivana Simeoni, de 62 anos, se destaca como uma das integrantes mais velhas do movimento. Ela conquistou uma vaga no Senado, e seu filho Cristian, um eletricista de 39 anos, foi eleito para a Câmara. Mas muitos novatos ainda não conseguiram mostrar os motivos de serem uma opção melhor para os eleitores. Em suas primeiras entrevistas, diversos integrantes do Movimento 5 Estrelas responderam com lacônicos “hum...” ou “não sei” quando questionados sobre o que fariam ou como se organizariam no Parlamento.O resultado desta estratégia é um perfil bastante heterogêneo, que deu espaço na Câmara a novos rostos que se gabam de ser “gente como a gente”, entre professores, médicos, donas de casa, servidores públicos, estudantes e até mesmo sete desempregados. A forma como Grillo administrará o grupo ainda é um mistério. O próprio comediante não pode disputar uma vaga no Parlamento devido a uma condenação por homicídio culposo após um acidente de carro.
Outros dão mostras de otimismo com as novas funções:
- Não vejo a hora de integrar a Comissão de Orçamento e usar minha experiência para acabar com o desperdício - disse ao “La Republica” Laura Castelli, uma consultora tributária de 28 anos, eleita para o Senado.
Resta saber agora se o grupo tentará levar adiante algumas propostas de sua fundação, como o corte de 80% dos salários dos parlamentares - no país com os maiores salários da Europa, onde os rendimentos podem superar os € 18 mil por mês -, e a garantia de que todas as contas de órgãos do governo estejam acessíveis ao público.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O filho e a mãe-coragem; Zuenir Ventura, O Glob


O estudante Stuart Angel, que esta semana deu nome a uma escola pública no bairro de Senador Camará, foi submetido em 1971 a um ritual atroz. Preso na Base Aérea do Galeão por atividade subversiva, não resistiu ao suplício: amarrado a um jipe, com a boca presa ao cano de descarga, passou a ser arrastado até que, com o corpo esfolado, morreu envenenado pelos gases tóxicos do carro. O também militante Alex Polari foi quem, tendo presenciado a tortura da janela de sua cela, relatou-a em carta à mãe de Stuart.

A partir de então, Zuzu Angel, uma figurinista famosa aqui e lá fora, se dedicou à busca incessante do corpo do filho. Usando sua notoriedade internacional e o fato de que Stuart, filho de um pastor americano, tinha dupla nacionalidade, atraiu para sua luta clientes como Joan Crawford, Liza Minnelli e Kim Novak, além de conseguir que o então senador Edward Kennedy levasse o caso ao Congresso americano.
Obstinada e corajosa, Zuzu fez coisas arriscadas para a época, como driblar a segurança do então secretário de Estado Henry Kissinger, em viagem ao Rio, para entregar-lhe o dossiê que preparara. Também sem perder o humor fez da moda um instrumento de protesto, realizando um desfile-denúncia em pleno consulado do Brasil em NY, com roupas estampadas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos. O anjo ferido e amordaçado da coleção tornou-se o símbolo do seu filho.
A 14 de abril de 1976, Zuzu morreu num acidente de carro suspeito. Meses antes, entregara um bilhete aos amigos Chico Buarque, Paulo Pontes e eu, anunciando: “Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho.” A lápis, acrescentou: “Esteja certo que não estou vendo fantasmas.” No dia seguinte à morte, resolvemos reproduzir à máquina cópias do texto para enviar pelo correio a parlamentares e colunistas. Cada um ficou com um certo número de envelopes que foram postados em lugares diferentes para despistar. Naqueles tempos, todo cuidado era pouco.
Um dos envelopes mandei do Méier. Paulinho, usando o carro e o motorista de sua mulher Bibi Ferreira, foi a alguns subúrbios. Chico, se não me engano, fez remessas de Itaipava. Mas a denúncia não foi publicada, com uma exceção: na sua coluna na “Folha de S.Paulo”, Alberto Dines referiu-se ao bilhete e cobrou uma investigação policial séria.
Finalmente, em 1996, o compositor fez chegar o bilhete à recém-instalada Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos, anexando ao processo uma dedicatória: “Minha homenagem a uma mulher como nunca vi igual, ferida de morte e rindo.”
Nenhum caso mais emblemático para inaugurar a Comissão da Verdade do Rio.

Stephane est mort.......HOJE


Stéphane Frédéric Hessel, nado en Berlín o 20 de outubro de 1917 e finado o 26 de febreiro de 2013, foi un diplomático e embaixador, alemán nacionalizado francés en 1937
Combatente da Resistencia francesa durante a Segunda Guerra Mundial e un dos redactores da Declaración Universal dos Dereitos Humanos de 1948, volveu adquirir sona recentemente con motivo da publicación do ensaio Indignez-vous!, publicado en galego co título de Indignádevos! pola editorial Factoría K de libros[1].

[editar]Nacionalizado francés antes de cumprir os 20 anos, foi mobilizado polo exército deste país ao inicio da Segunda Guerra Mundial, para logo unirse á Resistencia, ata que en 1941 foi capturado pola Gestapo e deportado ao campo de concentración de Buchenwald, do cal logrou escapar, e ao de Mittelbau-Dora, tras ser capturado novamente. Condenado a morrer na forca, e tras fracasados intentos de fuxida, logra escapar novamente durante o traslado ao campo de concentración de Bergen-Belsen.

Traxectoria

Tras o remate da contenda mundial, participa na elaboración da Declaración Universal dos Dereitos Humanos, adoptada en París en 1948 pola Asemblea Xeral das Nacións Unidas, en calidade de xefe de gabinete de Henri Laugier, secretario da Comisión de Dereitos Humanos da ONU.
En 1962 funda a AFTAM (Asociación para a Formación dos Traballadores de África e Madagascar), da cal foi presidente. Máis tarde, en 1982, foi nomeado membro da Alta Autoridade Francesa da Comunicación Audiovisual, por un periodo de 3 anos, onde foi responsable das radios locais privadas.

[editar]Activismo

Membro da Coalición Francesa para a Cultura, a Paz e a Non Violencia, ten denunciado publicamente ao Goberno francés polo que considera o seu fracaso no cumprimento do artigo 25 da Declaración Universal dos Dereitos Humanos, o dereito á participación política, e reclamoulle a achega de fondos para prover de vivenda aos sen teito. Especialmente crítico coas intervencións armadas de Israel no Líbano e en Palestina, temas considerado como crimes de guerra, ou mesmo crimes contra a humanidade[2].
En outubro de 2010 publicou o seu ensaio Indignez-Vous!, o cal xa vendera 600.000 copias cara a fins do ano. Hessel opina que a sociedade francesa ten que reaxir e crear unha nova Resistencia ao xeito da da Segunda Guerra Mundial. Mais desta volta a causa non residiría na invasión dun exército estranxeiro, senón nas cada vez maiores diferenzas sociais entre ricos e pobres, no abuso do capital, o trato aos inmigrantes, a degradación medioambiental, a causa palestina, a perda da liberdade de prensa e o deterioro do Estado do benestar. O autor pide unha insurrección pacífica e non violenta.
Comentário meu--resumindo-Indignem-se, SEMPRE que necessário  Incansavelmente. Não submeter-se a ninguém,  salvo a própria CONSCIÊNCIA (pra quem tem, claro!).

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Nem de esquerda, nem de direita, muito pelo contrário; Eugênio Bucci, ÉPOCA


Nem direita, nem esquerda", afirmou a ex-Ministra Marina Silva no lançamento da Rede Sustentabilidade, em Brasília, no sábado 16 de fevereiro. Ela pretende transformar sua rede num novo partido político, que não será nem de situação, nem de oposição. "Se Dilma estiver fazendo algo bom, vamos apoiar. Se não, não. Parece ingênuo, mas não tem nada ingênuo."

Aí, você para e pergunta: como assim? Se essa tal rede não tem um lado, que posições ela tomará? Como pode um partido que não seja nem oposição, nem situação?
Será um muro em cima do qual todos os ecologistas vão se aboletar? Ou será simplesmente uma ameba apartidária? Marina diz que não é nada disso. "Estamos à frente", diz. "Estamos indo para o mundo do paradoxo."
Se você não entendeu nada, espere um pouquinho mais. O mais espantoso na fala de Marina Silva é que ela pode ser, mais do que sincera, verdadeira.
Um partido que não se deixe aprisionar por dogmas da esquerda ou da direita é possível. Mais ainda: um partido que não seja necessariamente de situação ou de oposição sistemática, e que saiba promover causa coletiva (o bem comum) acima de seus interesses imediatos, é necessário (ainda que pareça inacreditável).
Não que a Rede Sustentabilidade seja um milagre, uma epifania verde. Está longe disso. Só afirmo que a intenção de estar à frente e acima dessa polarização pode conter uma novidade real, embora, de início, ela pareça apenas mais um eco da dissimulação ideológica tão característica dos palanques brasileiros.
Bem sabemos que a política pátria é feita por gente que vive dizendo não ser o que é. A começar pelos líderes de direita, que nunca se declaram de direita.
Em 2011, o então prefeito paulistano, Gilberto Kassab, lançou sua nova legenda, o PSD, com um fraseado inesquecível. "O Partido Social Democrático não será de direita, não será de esquerda, nem de centro." 
Atenção para o detalhe: nem mesmo de centro. Em vez disso, seria "um programa a favor do Brasil".
A favor do que mesmo?
Em 2012, o PSD ensaiou apoiar a candidatura de Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo. Depois acabou apoiando José Serra. Em 2013, desenvolto e solto, se dá bem com o governo Dilma Rousseff e com o governador Geraldo Alckmin. O PSD está mesmo a favor do Brasil - e também das autoridades brasileiras e de tudo o mais. Eis aí um partido a favor de tudo.
Para Kassab, cujas origens estão no malufismo e cuja trajetória é bastante heterodoxa, os conceitos de esquerda, direita e centro acabam não fazendo grande diferença. Rigorosamente, ele não distingue uma categoria da outra. Por isso, tem legitimidade para dizer que não pertence a nenhuma das três.
Kassab, sejamos justos, não está sozinho no esporte de pular fora das ideologias. O PMDB está por cima e está cada dia mais prosa.
Cazuza cantava que queria uma ideologia para viver. Com o PMDB, é o contrário: se lhe arranjarem uma ideologia, ele morre.
O PMDB é a prova monumental de que esse negócio de se enclausurar na esquerda ou na direita não dá camisa a ninguém. O próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre fez piada com o assunto. Desde muito cedo, quando lhe perguntavam se ela era socialista, dizia: "Não sou socialista, sou torneiro mecânico".
O bordão se desdobrou em variações: "Não sou de esquerda, sou torneiro mecânico". Ou essa: "Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema".
Em resumo, Kassab não toma conhecimento da bifurcação histórica que separou a esquerda da direita. O PMDB milita para sepultar para sempre essa bifurcação. E Lula, ao caçoar dos esquerdistas, avisa que não reza pela cartilha de ninguém, que fará o que bem entende. Os fundamentalistas que se acomodem. Ou que se mudem.
Marina, voltemos a ela, achou melhor mudar. Deixou o PT, deixou o governo, disputou a Presidência da República em 2010 pelo Partido Verde e, agora, vem aí com a Rede Sustentabilidade, que ainda é uma incógnita.
Quando ela diz que está além da esquerda e da direita, pode ser confundida com alguns dos discursos mais antigos da política brasileira. Num ponto, porém, pode ter razão: a poluição não é de esquerda, nem de direita; existe tanto na China como nos Estados Unidos. O princípio da tolerância não é de esquerda, nem de direita, e exige uma democracia em que ateus convivam com crentes e, também, em que gente de esquerda dialogue com gente de direita, sem que um precise eliminar o outro.
Se estiver falando disso, Marina estará dizendo a verdade e poderá, quem sabe, nos desafiar a pensar além dos velhos formatos. 
Eugênio Bucci é jornalista

O que não falta e batoteiro, jogar com cartas marcadas e facilimo....

Em causa própria
Luciano Coutinho, presidente do BNDES, vai receber dia 16 de maio o título Homem do Ano da Câmara de Comércio Brasil-EUA.
Segundo o convite, entre os patrocinadores da festa, no Waldorf Astoria, em Nova York, está o próprio banco estatal.


PEC da impunidade

Veja quem tem interesse na aprovação da PEC 37/11, que limita o poder de investigação do Ministério Público. O deputado alagoano Arthur Lira pediu formalmente que o projeto seja colocado em votação.

O MP de lá o acusa de envolvimento num esquema de desvio de verbas da Assembleia do estado.
Segue...
É suspeito ainda de crimes contra a administração da Justiça, improbidade administrativa, coação no curso do processo e crimes contra a liberdade pessoal.

Fator Odebrecht
Domingo, na cerimônia de posse do parlamento cubano, diante de cerca de 1,7 mil pessoas, foi exibido um documentário sobre Porto Mariel, que está sendo construído pela Odebrecht.
Na tela, imagens de Lula e Dilma.
Na coluna do Ancelmo n'o GLOBO.

Quanto custa o Congresso Nacional?


Comentário meu--o que DÓI mais e a indigente relação custo-benefício...

A democracia não tem preço, mas o Legislativo brasileiro tem custo elevado. No ano passado, as despesas da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e do Tribunal de Contas da União (TCU) atingiram R$ 9 bilhões, montante equivalente aos dispêndios integrais de seis ministérios: Cultura, Pesca, Esporte, Turismo, Meio Ambiente e Relações Exteriores.
Neste ano, somente os gastos das duas Casas Legislativas, excluindo o TCU, deverão alcançar 8,5 bilhões. Assim sendo, chova ou faça sol, trabalhem ou não suas Excelências, cada dia do parlamento brasileiro custará R$ 23 milhões, ou seja, quase um milhão por hora!
Estudo realizado no ano passado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a União Interparlamentar revelou que o congressista brasileiro é um dos mais caros do mundo. No campeonato de 110 países, o Brasil ganhou a medalha de prata no ranking dos custos por parlamentar, atrás apenas dos Estados Unidos. Na classificação dos custos por habitante, ocupamos a 21ª posição.
Dentre as Casas, a vilã do momento é a Câmara que custou aos contribuintes R$ 4,3 bilhões em 2012, montante superior em R$ 400 milhões à média de R$ 3,8 bilhões dos últimos dez anos. Já no Senado, em função dos escândalos de 2009, as despesas vêm caindo e, no ano passado, foram as menores desde 2010, totalizando R$ 3,4 bilhões.
Considerando os 15.647 servidores da Câmara e os 6.345 do Senado, o Congresso é uma "cidade" com quase 22.000 funcionários efetivos e comissionados. A título de comparação, dentre os 5.570 municípios do País, apenas 27 % possuem mais habitantes. Em 2012, o custo de "pessoal e encargos sociais" no Congresso Nacional foi de R$ 6,4 bilhões, o que correspondeu a 84% da despesa global. A conta inclui salários, gratificações, adicionais, férias, 13º salário e outras vantagens. Só pelo trabalho noturno, Câmara e Senado pagaram R$ 4,5 milhões em 2012.
Comparativamente, o Legislativo é o campeão de salários médios entre os Poderes. Em dezembro de 2012, segundo o Ministério do Planejamento, a média salarial do Legislativo foi de R$ 16,3 mil, mais do que o dobro dos R$ 6,7 mil que ganham os servidores do Executivo. No Judiciário, a média é de R$ 13,5 mil.
Por vezes, as despesas do Parlamento são extravagantes e curiosas. No ano passado, somente com horas extras foram pagos R$ 52 milhões. A Câmara dos Deputados foi responsável por R$ 44,4 milhões desse montante. O Senado comemorou a economia de R$ 35 milhões que obteve após implementar o "banco de horas". A ideia poderia ser adotada pelos vizinhos. Outro absurdo é a existência de 132 apartamentos funcionais vazios, aguardando uma reforma que não tem data para começar, enquanto são gastos R$ 8,3 milhões/ano com os pagamentos de auxílio-moradia a parlamentares.
Na semana passada, pressionado por manifesto popular com 1,6 milhão de assinaturas, o presidente do Senado anunciou corte de R$ 262 milhões nas despesas da Casa, a começar por 500 funções de chefia e assessoramento. Já era tempo. A gastança é tal que no último ano as gratificações por exercício de cargos e funções totalizaram R$ 683,1 milhões, quase três vezes o montante dos salários que alcançou R$ 249,2 milhões. Ao que parece, o Senado além de muitos índios tem centenas de caciques.
Além disso, o novo presidente afirmou que reduzirá gastos com serviços médicos e terceirizados. Apesar das boas intenções, até o momento a contenção de despesas limitou-se à demissão de duas estagiárias. A intenção de Renan Calheiros é, por meio da transparência, reaproximar o Senado da sociedade brasileira. É bom que comece pelo próprio gabinete, informando, por exemplo, quais os serviços que lhe presta escritório de advocacia em Alagoas que recebe há mais de um ano R$ 8 mil mensais da chamada "verba indenizatória".
Enfim, há muito o que melhorar no Congresso Nacional. A redução das despesas é necessária, mas não é o mais importante. Urgente é que os princípios constitucionais de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência sejam aplicados tanto pelas Casas quanto pelos deputados e senadores. O Judiciário pode auxiliar julgando os quase 200 parlamentares que respondem a inquéritos ou ações penais no Supremo Tribunal Federal. Na pauta, crimes contra a administração pública, homicídio, sequestro e tráfico. O saneamento do Legislativo é essencial para conter o desgaste progressivo de sua imagem. Afinal, a democracia não tem preço. Pior do que o atual Congresso Nacional só a sua ausência.

Gil Castello Branco é economista e fundador da ONG Associação Contas Abertas

Movimentos anticorrupção pedem socorro a Joaquim, por Jorge Antonio Barros


Movimentos anticorrupção voltam a se manifestar no Rio. Dessa vez estão pedindo ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que agilize o julgamento das denúncias apresentadas pela Procuradoria Geral da República contra o presidente do Senado, Renan, o Calheiros, por desvios de recursos públicos, falsidade ideológica e o uso de documentos falsos. Uma faixa com o apelo “Socorro Joaquim!” foi estendida hoje no Corcovado.
A manifestação de hoje é uma iniciativa da organização Rio de Paz, com o apoio do Movimento 31 de Julho Contra a Corrupção e a Impunidade. Petições de protesto contra a presença de Renan Calheiros na presidência do Senado, uma com 1,6 milhão de assinaturas e outra com cerca de 500 mil, foram entregues na semana passada no STF, com uma carta alertando que a demora no julgamento permitirá que Renan prossiga em um dos postos mais elevados da República, sem que estas graves denúncias sejam esclarecidas.
Nas redes sociais a campanha também lançou as hashtags #socorroJoaquim e #STFjulgueRenan.

Como ser Carioca--Youtube dixit


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A dança da chuva, por Téta Barbosa


Ofegante depois de subir os 14 andares do meu prédio tenho duas coisas em mente: voltar a praticar exercício físico e lamentar a falta de preparação do Recife para a chuva.
Os respingos começaram ontem à noite, de leve. Nenhum temporal, nem tempestade, nada de trovões, nem sequer alagamento. Mas o chuvisco noturno foi suficiente para deixar o trânsito parado, os bairros sem luz (justificando aqui, minha falta de fôlego e os 14 andares de escada), os sinais desligados, a vida lenta e minhas duas reuniões canceladas.
Imagina na Copa, é a única frase-clichê-cara-de-pau que consigo pensar enquanto vigio a bateria do notebook que ameaça acabar. E, se houvesse um prêmio Nobel para os períodos históricos, gostaria de oferecê-lo aos homens e mulheres que viveram, num passado nem tão remoto, sem energia elétrica. Pensando melhor, daria o prêmio aos síndicos que colocam geradores em seus prédios.
O fato é que choveu e Recife, ou melhor, Raincife parou! 
Ainda não posso culpar o recém-eleito Prefeito (ainda), cujo nome mal decorei, sendo ele novato na vida pública. Sabemos apenas que ele é amigo do rei, leia-se do Governador, e que ainda nem esquentou a cadeira pública tempo suficiente para ver o estrago deixado pelo último representante do povo.
Culpemos quem, então? São Pedro não me parece um bom candidato à cadeira dos réus. Mandou uma chuvinha, de nada, só para ajudar a lavar a bagunça do Carnaval e preparar as ruas para o São João.
Entre os suspeitos improváveis, encontramo-la, cabisbaixa e meio sem jeito: a cidade. Ela, a própria, Recife, em carne, osso e mangue. E os culpados somos nós, por construir uma cidade em cima do mangue, abaixo do nível do mar, onde se respira água. Onde qualquer pingo ou chuvisco alaga, inunda, e aí falta luz e a cidade para.
O Nordeste precisa de água, fato, mas a gente treme com o primeiro dia nublado do ano como uma criança no primeiro dia de aula. Ficamos esperando o caos anunciado: lama, bueiros entupidos, ruas transbordando, carros boiando, casas desabando, pessoas morrendo. Um caos premeditado como se fossemos videntes sociais.
Um caos que daqui a pouco começa e, aí sim, vou começar a falar do nosso novo Prefeito*.
(*ou torcer para que ele leia esse texto e tome providências antes da temporada das chuvas).

Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa ali e fora dali.  Ela também tem um blog - Batida Salve Todos: http://www.batidasalvetodos.com.br/

Os Fundadores e as Finanças, de Thomas K. McCraw


Quem usa dólar em suas viagens talvez nunca tenha percebido que na cédula de US$ 10 há uma foto de Alexander Hamilton. Se tiver curiosidade em conhecer a notável história desse homem não vejo melhor caminho do que ler sua biografia, “Os Fundadores e as Finanças”, escrita por Thomas K. McCrow.

O livro permite entender como os EUA nasceram e se transformaram, a partir de um conjunto de colônias da Inglaterra, em um único país com uma economia unificada e independente e em uma potência alguns séculos depois.
Diferente de outros Fundadores, Hamilton defendia uma nação unificada, industrializada e considerava a escravidão como algo abominável moralmente e ineficiente economicamente. Para um economista de hoje, interessado em política econômica, o livro é muito instrutivo e também delicioso de ler.
Porém, o mais fascinante é a vida de Hamilton. 
 Nascido no Caribe, em uma pequena ilha, filho ilegítimo, órfão muito cedo de uma mãe com vida duvidosa do ponto de vista moral, aos quinze anos, sozinho, sem nada, salvo alguma leitura, emigra para uma das colônias inglesas que existiam no norte da América.
Logo depois, se envolve na guerra da independência e vai auxiliar George Washington. Apesar de ser auxiliar direto do comandante, exigiu participar de batalhas, e foi um dos heróis.
Vencida a independência, foi o mais importante polemista entre todos os Fundadores. Escreveu centenas de artigos e ensaios sobre como imaginava o futuro da nova nação, como ela deveria se organizar e como deveria ser sua economia.
Foi escolhido secretário do Tesouro e nos anos que esteve no cargo forjou de maneira definitiva o que viria a ser a economia norte-americana. Para isso usou não apenas sua grande competência, como também sua formidável capacidade de articulação política.
Apesar de pobre, imigrante, casou-se com a herdeira de uma das famílias mais tradicionais e ricas do novo país, com quem teve diversos filhos. Como se não bastasse esta vida ativa ainda encontrou tempo para um rumoroso caso amoroso que, ao se tornar público, o obrigou a reconhecer o fato para defender sua honestidade de homem público. “Adultério sim, corrupto não”, disse ele para eliminar dúvidas sobre se teria usado sua influência para beneficiar a namorada e o marido dela.
Como se sua biografia não fosse suficientemente agitada, sua vida ainda terminou antes dos 50 anos, em um duelo contra ninguém menos que o então vice-presidente dos EUA, Aaron Burr. Duelo motivado por suas posições polêmicas em artigos na imprensa.

Cristovam Buarque é Professor da UnB e Senador.

O Português (e não é piada), por Elton Simões


Viajar de Vancouver ao Rio é uma jornada. Desta vez demorou 21 horas. Precisa realmente de muita vontade. Desta vez, incluindo conexões e tempo de aeroporto, check-in e bagagem, foram 23 horas. Difícil encarar a verdade de que as horas investidas em uma viagem tão longas não voltam mais. Por isso, quando a gente chega, fica sedento de experimentar as coisas boas da terrinha.
Infelizmente, parece que os administradores de aeroportos conspiram para roubar o prazer da viagem. A bagagem atrasa, o ar condicionado não funciona, os funcionários se estressam e os passageiros, como se antecipando, prevendo ou refletindo as imperfeições, transpiram ansiedade.
Apesar dos esforços das entidades responsáveis pela infraestrutura turística em transformar prazer em provação, visitar a terrinha é sempre um prazer. Parece que gente, como os salmões, tem a necessidade de voltar ao local de origem.
A vontade vem do prazer de rever os amigos, andar por lugares familiares e falar (e principalmente ser entendido) na própria língua. O Português tem som único, bonito, expressivo, delicado.
É da manipulação destes sons e da combinação do alfabeto que se formam palavras que transmitem beleza, sentimento e pensamento em língua tão bela. Por isso, como diz a minha editora, todos nós temos a obrigação e a missão de respeitar e honrar a língua portuguesa. Ou morrer tentando. E em honra à beleza do Português, ela faz questão de corrigir e aperfeiçoar meu texto, incluindo os acentos que meu teclado (ou talvez eu mesmo) teima em engolir. 
 
A língua portuguesa é um dos sons mais belos que a garganta pode produzir. É pena que se dê tão pouca atenção à sua utilização, leitura e compreensão. Parece que não existe a compreensão de que, antes de qualquer coisa, o uso correto da língua é o principal ativo para a construção de um povo desenvolvido.
Português corretamente falado e escrito garante beleza e clareza. Mais que isto, garante oportunidade. Já está claro que a maior dificuldade de empregadores é encontrar funcionários que saibam traduzir seus pensamentos em palavras com elegância, precisão e beleza.
Por isso, o ensino do idioma deveria ser prioridade número um. Quem não consegue transmitir pensamentos, não consegue impactar positivamente o mundo. Pensamentos não transmitidos não geram transformação, arte, ação ou oportunidade.
Afinal de contas, como diria o grande filósofo contemporâneo Abelardo Barbosa, quem não se comunica se trumbica.
PS: Dedicado à minha querida editora (e atual amiga) que, todas as semanas, salva meus escritos com seus olhos atentos e correções certeiras.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca.

Voto de protesto leva Itália a impasse político


BARRY MOODY E JAMES MACKENZIE - Reuters---ver abaixo
O protesto eleitoral de muitos italianos enfurecidos com as dificuldades econômicas e com a corrupção na política empurra na segunda-feira o país a um impasse pós-eleitoral, já que as projeções indicam que nenhuma coalizão terá força suficiente para formar um novo governo.
Com mais de dois terços dos votos apurados, a centro-esquerda parece ter uma ligeira vantagem na disputa pela Câmara, mas aparentemente nenhum grupo conseguirá formar maioria no Senado. Esse seria o oposto do resultado estável do qual a Itália precisa desesperadamente para combater a recessão, o desemprego e a dívida pública.
Os mercados da Itália - terceira maior economia da zona do euro - pareceram assustados com o andamento da apuração, depois de inicialmente subirem com a esperança de que um governo sólido de centro-esquerda se formasse, provavelmente com o apoio do atual premiê, o tecnocrata Mario Monti.
Monti disse que todos os partidos têm a responsabilidade de garantir que um novo governo seja formado após as eleições inconclusivas.
O grande nome da eleição de domingo e segunda-feira na Itália acabou sendo o comediante genovês Beppe Grillo, líder do populista Movimento 5 Estrelas, que estreou numa campanha eleitoral nacional fazendo discursos cheios de xingamentos à desacreditada classe política tradicional.
Com promessas eleitorais vagas e candidatos quase desconhecidos, o ator canalizou a irritação popular contra o sistema político, visto por muitos como inútil e esclerosado.
O resultado das urnas, se confirmado, será também um tapa na cara do anódino líder centro-esquerdista Pier Luigi Bersani, que parece ter desperdiçado uma vantagem de dez pontos percentuais sobre a centro-direita que as pesquisas lhe atribuíam há menos de dois meses.
O ex-premiê Silvio Berluconi, de 76 anos, que conseguiu uma extraordinária recuperação desde dezembro, apesar dos escândalos sexuais e de corrupção associados ao seu nome, parece liderar a disputa pelo Senado, mas as projeções dizem que o Movimento 5 Estrelas privará o político conservador de formar maioria entre os senadores.
Na Câmara, as projeções dão uma vantagem inferior a um ponto percentual para a aliança centro-esquerdista de Bersani. Isso, porém, seria suficiente para ele dominar a Casa, pois uma lei garante maioria de 54 por cento ao partido mais votado.
No Senado, o quadro é diferente. A mais recente projeção do canal público RAI mostrava o bloco de Berlusconi com 112 cadeiras, a centro-esquerda com 105, Grillo com 64 e Monti com apenas 20, após uma fracassada campanha que nunca chegou propriamente a decolar. Para formar maioria no Senado, são necessários 158 parlamentares.
INVESTIDORES
A acirrada campanha eleitoral italiana, travada principalmente em torno de temas econômicos, deixou alguns investidores temerosos com um reinício da crise da dívida que em 2011 deixou toda a zona do euro à beira de um desastre, e que levou à substituição de Berlusconi por Monti.
Os resultados preliminares indicam que mais de metade dos italianos votou nas plataformas antieuro de Berlusconi e Grillo.
Dirigente de centro e esquerda alertaram que o iminente impasse pode tornar a Itália ingovernável, exigindo a realização de novas eleições.
No entanto, o vice-líder do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, rejeitou discussões sobre novas eleições e disse que sua coalizão deve conquistar maioria na Câmara e que terá a responsabilidade de tentar formar um governo, apesar do impasse no Senado.
"Quem quer seja, terá a responsabilidade de fazer as primeiras propostas para o chefe de Estado", disse ele. Depois da contagem final dos votos, o presidente italiano, Giorgio Napolitano, terá a tarefa de nomear alguém para tentar formar um governo.
Letta descartou uma nova eleição, dizendo que "voltar à votação imediatamente não parece hoje ser a melhor opção a seguir".
Um governo da centro-esquerda, sozinha ou em aliança com Monti, era visto pelos investidores como a melhor garantia de medidas que combatam a corrupção e a estagnação econômica.
Os primeiros resultados causaram pessimismo entre os investidores. O ágio entre os títulos italianos com vencimento em dez anos e os papéis alemães que balizam o mercado subiram de menos de 260 pontos-base para mais de 300, e o índice das Bolsas italianas recuou de modo a anular os ganhos dos últimos dias.
"Essas projeções sugerem que estamos nos encaminhando para uma situação ingovernável", disse Mario Secchi, candidato do movimento centrista de Monti.
(Reportagem (ESTADÃO) de Stefano Bernabei, Steve Scherer, Gavin Jones, Naomi O'Leary e Giuseppe Fonte em Roma e Lisa Jucca em Milão)

Combate ao crime invisível, por Evandro Éboli, n'O GLOBO


BRASÍLIA Um crime difícil de ser constatado, de ser levado à Justiça e de ter seus responsáveis punidos. O tráfico de pessoas é um crime considerado invisível. O primeiro relatório com as informações sobre ele, do governo federal, revela que, entre 2005 e 2011, foram instaurados no Brasil 157 inquéritos por tráfico internacional de pessoas para fins de exploração sexual. Apenas 91 resultaram em processos. Nesse período, 381 pessoas foram indiciadas, mas 158, menos da metade, foram presas. O levantamento é da Secretaria Nacional de Justiça, vinculada ao Ministério da Justiça.


Para tentar combater esse tipo de crime, o governo prepara um pacote ambicioso, com 115 metas, e vai publicar uma portaria na próxima segunda-feira detalhando essas ações. As medidas integram o II Plano de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Hoje, a legislação pune apenas o tráfico de pessoas para fins de exploração sexual. Não prevê punição para tráfico para fins de trabalho escravo, servidão, trabalho doméstico, remoção de órgãos, e de crianças para fins de mendicância. Pela proposta, essas modalidades passarão a ser tipificadas, a partir de projetos de lei enviados ao Congresso Nacional.

A portaria dos três ministérios envolvidos com essa questão — Justiça, Direitos Humanos e Secretaria das Mulheres —, com aprovação da Casa Civil, prevê as seguintes medidas: a perda de bens dos envolvidos em tráfico de pessoa, revertendo-os para atendimento às vítimas; sanções administrativas a empresas financiadas com recursos públicos, inclusive as que executam grandes obras governamentais no Brasil, que tenham sido condenadas nesse tipo de processos; a internacionalização do Disque 100 e do Disque 180 (de denúncia contra esse tipo de exploração); a regulamentação do funcionamento de agências de casamento e de recrutamento de pessoas; a instalação de casas-abrigo no exterior para atendimento dessas vítimas; e o monitoramento nas grandes obras do governo de infraestrutura, mineração e energia.

— O estudo mostra que o sistema de Justiça criminal funciona como um funil. Deveria ser um processo distribuído para cada inquérito. Funciona na razão de dois para um. Por isso, vamos intensificar as ações e, além da prevenção, fechar o cerco a quem explora essas pessoas vulneráveis — disse Paulo Abrão, secretário Nacional de Justiça.

O tráfico de pessoas é subnotificado. Para o governo, é um crime autônomo, e a abordagem da vítima é suficiente para caracterizá-lo. Não precisa que seja consumada a exploração sexual ou o trabalho escravo, por exemplo. O consentimento da vítima é considerado irrelevante, já que foi obtido através da fraude, do engano e da falsa promessa. "Não importa se ela sabia ou não que iria se prostituir, se casou com um estrangeiro por livre e espontânea vontade, se concordou em ser transportado para trabalhar e, quando chegou, passou a ser vítima da exploração. O consentimento foi obtido a partir de uma situação de vulnerabilidade", diz o Relatório sobre Tráfico de Pessoas no Brasil, uma parceria do Ministério da Justiça com o Escritório das Nações Unidas Sobre Drogas e Crimes (Unodc).

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse acreditar que as medidas a serem anunciadas pelo governo vão estimular os brasileiros a denunciar o tráfico de pessoas. Segundo ele, ainda prevalece o medo e o receio das testemunhas.

— Para um crime ser investigado, é preciso que se tenha notícia de sua existência. Alguns não denunciam por medo, outros, por vergonha. Por isso fazemos um apelo. Aqueles que sabem de situações dessa natureza, que sabem que pessoas podem estar no exterior, sendo levadas para lá enganadas, devem utilizar o telefone 180, devem noticiar a existência, a suspeita dessas práticas criminosas. É para que possamos enfrentar essas organizações, que, infelizmente, fazem do tráfico um dos grandes crimes a serem combatidos — disse Cardozo.

— Nós não podemos ser ingênuos, quando as pessoas aparecem oferecendo emprego fácil, muito dinheiro, situações que claramente envolvem algum tipo de sedução, não condizente com a realidade. Tem que estar alerta e denunciar, para que a polícia possa investigar — completou o ministro.

O número de ligações para os números do disque-denúncia do governo ainda é tímido. Em 2011, foram registradas 35 ligações para cada um desses serviços, o Disque 180, da Secretaria de Políticas Para Mulheres, e o Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos.

— Esses dados revelam que, geralmente, a polícia é o órgão mais procurado nos casos que a vítima tenha sofrido ameaça contra seus familiares ou agressão. E os casos de tráfico que envolvem exploração sexual podem estar sendo registrados como outros crimes sexuais, como estupro, o que é um erro de interpretação — disse Alline Birol, consultora do levantamento.
— Ainda temos um cenário de muitos dados ocultos — afirmou Fernanda dos Anjos, diretora do Departamento de Justiça, do Ministério da Justiça.
Vítima tem baixa escolaridade
O relatório Tráfico de Pessoas traçou o perfil da vítima: é oriunda de classes populares; tem baixa escolaridade; habita espaços urbanos periféricos, com carência de saneamento e transporte; mora com algum familiar; tem filhos; e exerce atividades laborais de baixa exigência, como cabeleireira, manicure, auxiliar de enfermagem, professora de ensino fundamental, vendedora, secretária e doméstica.

Outra linha de ação do governo é ampliar o serviço de auxílio ao brasileiro vítima do tráfico no exterior. Além de instalar casas-abrigo, o plano prevê presença de agentes da Polícia Federal nos países que mais recebem vítimas brasileiras de tráfico, atuando como ponto de contato na cooperação bilateral e auxiliando na repressão.

O Itamaraty informou que há três tipos diferentes de comportamento dessas vítimas brasileiras, quando procuram serviço consular: a que busca informações mas que não é identificada como vítima e não registrada assim; a vítima de tráfico que é identificada como vítima, mas não pede auxílio, somente informação ou documentos; e a que precisa de repatriação ou abrigo temporário e, por isso, tem seu caso registrado e encaminhado.

"No mundo inteiro, diversas pessoas têm caído na rede do tráfico. Melhores condições de vida, um melhor emprego, um marido estrangeiro, o sonho de morar em países desenvolvidos e ter acesso a bens de consumo têm sido as principais razões para que pessoas se arrisquem e saiam de seus territórios para outras cidades e países em busca de oportunidades", afirma o relatório de enfrentamento ao tráfico de pessoas.

Coordenadora da Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude, Dalila Figueiredo diz que, aos poucos, o tráfico de pessoas começa a ser conhecido, inclusive sendo o tema central de uma novela, "Salve Jorge", da TV Globo.

— Hoje tem mais pessoas pensando nesse enfrentamento e deixando de considerar que traficar ser humano é lenda — disse Dalila Figueiredo.

Fadiga eleitoral, por Paulo Guedes


À "esquerda", Lula, o Pai do Povo. À "direita", Fernando Henrique, o Pai da Estabilidade Econômica. Lula lança a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição. FHC acusa Lula de se tornar o "presidente adjunto". "Nós não herdamos nada, nós construímos (tudo no decênio glorioso sob a Presidência do PT)", alardeou a presidente Dilma. "Os petistas não podem mais falar de ética, porque têm o mensalão na testa", retruca FHC, que patrocina o lançamento da candidatura de Aécio Neves. 


Mais uma vez, a tentativa de polarização da disputa entre tucanos e petistas. Caso funcione, completam seis mandatos, quase um quarto de século no poder. Gramsci estaria orgulhoso. Não há mais oposição, apenas uma velha "esquerda" hegemônica. "Não há mais disputa ideológica, basta saber quem comanda a vanguarda do atraso", confessou com extraordinária propriedade o ex-presidente FHC. 

Poderia estar se referindo aos conservadores que lhe garantiram a emenda constitucional da reeleição. Agora não há mesmo oposição. Só a disputa pela gigantesca engrenagem estatal de comando centralizado que controla 40% do Produto Interno Bruto. Por isso a ferocidade das disputas. Por isso também o extemporâneo lançamento de candidaturas presidenciais. Por isso as degeneradas práticas políticas. Por isso a interrupção da agenda de reformas.
E, como o primeiro a trocar o aprofundamento das reformas por um prolongamento do mandato, espero que se orgulhe FHC de ser também o pai dessa obsessão reeleitoral de presidentes passados e futuros. 
NB_ o sublinhado e nosso, pela importância afirmativa, por muitos esquecida. (perdao Paulo)
A permanente batalha de PSDB e PT acabou cristalizando práticas políticas disfuncionais, alianças espúrias entre facções social-democratas e conservadores do Antigo Regime que lhes dão sustentação parlamentar. A Rede de Marina Silva pode ser uma novidade na política brasileira. Já o PSB de Eduardo Campos, situacionista que pode se tornar uma alternativa oposicionista, não se comportou bem em seus primeiros ensaios de questões nacionais, como a distribuição dos royalties do petróleo. E a imagem do partido só piora quando o governador cearense Cid Gomes, sempre às voltas com sua alegada preferência por jatinhos, atropela a Constituição na tentativa de desviar recursos dos royalties para financiar show de inauguração de hospital cuja fachada desabou.
Como alternativa à polarização entre tucanos e petistas na disputa presidencial, a Rede de Marina Silva pode ser uma novidade, na politica brasileira.
Publicado no Globo de hoje.