terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O Melhor Spa Do Mundo, por Maria Helena RR de Sousa

Mais um ano sem poder comemorar uma geração completamente alfabetizada. Para isso são necessários seis anos completos: creche, escola maternal, jardim de infância e Classe de Alfabetização.
Façam as contas e calculem quantos brasileirinhos estariam totalmente alfabetizados, já matriculados em séries do fundamental, se o governo petista não tivesse se dedicado a passar uma pomada anestésica nos complexos do Lula e não se dedicasse a criar mais faculdades do que creches, num país analfabeto!
Não sei quantos de vocês já foram a uma livraria com crianças pequenas. Há algo na seção de livros infantis que as atrai de tal modo que lá vão elas, umas já com passinho firme, outras ainda trôpegas, e ali se instalam, animadíssimas.
Já assisti cenas deliciosas, como esta: uma menininha, tão analfabeta quanto sua coleguinha de livraria, lendo para a outra o que aquele boneco parecido com um ovo, sentado em um muro, dizia para a linda menina de longos cabelos louros. E leu diálogos inacreditáveis!
                                                  
 Noutra tarde vi um garotinho se atracar com o amigo por um livro com um trem vermelho que fazia piuíííí quando lhe apertavam a chaminé. Ao tentar convencê-lo que havia muitos livros com trens, ouvi: “Eu já vi. Mas só esse grita quando aperto a fumaça”.
Mas como criança – ainda... – não vota, aqui se resolveu começar pelo fim. Fundar universidades para dizer, nas inaugurações, que filho de pobre no país do PT pode ser doutor!
Acabo de ler uma entrevista do Dr. Carlos Franklin Paixão de Araújo, ex-marido da presidente Dilma. Ao explicar que não conversa com sua ex-mulher sobre política porque quando ela vai a Porto Alegre é para estar em família e descansar, ele diz:
“Não é nada fácil ser presidente, em qualquer país do mundo. É um rolo em cima do outro. Uma confusão em cima de outra. A pessoa fica exaurida. Pega a cara do Lula quando entrou no poder e quando saiu. Pega uma foto do Obama cinco anos atrás e você vai dizer “mas o que é isso, o homem tá com a cabeça branca”!”.
Desculpe, Dr. Araújo, em qualquer país menos aqui. O Lula entrou caído e saiu rejuvenescido. Dona Dilma entrou com 60 e hoje está com 50, se tanto! Saem mais moços e com o que eu chamo Terceira Dentição Planaltina: todos com o mesmo sorriso, da mais pura porcelana. E o brilho e fartura dos cabelos? O Planalto é um Spa completo e de luxo!
Melhor, grátis para o usuário, já que a conta quem paga somos nós.
O leitor nem precisa se dar ao trabalho de dizer que estou com inveja. Claro que estou. Sabe lá quanto custa essa paginação?
E se Obama nos lesse, teria inveja também. A cabeça branca não é nada. Conheço muitos homens que ficaram grisalhos bem jovens e nem por isso menos charmosos. Barack Obama está é com ar cansado e olhar envelhecido. A Casa Branca não é, definitivamente, o Spa dos meus sonhos.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, também tem uma fanpage e um blog – Maria Helena RR de Sousa.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Que venha o voto facultativo, por Gaudêncio Torquato

As portas de 2013 se fecham sob a promessa do presidente da Câmara, Henrique Alves, de abrir, mais uma vez, as sublinhadas e desgastadas páginas do livro da reforma política.Depois de recorrentes tentativas, ao longo das últimas décadas, para se por um fim ao conservadorismo ortodoxo que inspira a vida pública e que explica a razão pela qual a política deixou de ser missão para ser profissão, acreditar que as práticas nessa frente poderão mudar é a confissão de fé de que Deus, ufa, decidiu tirar férias por aqui e ajudar o país a pavimentar o terreno da razão.
Deixando de lado os insondáveis desígnios do Senhor, é possível apostar uma quantia, mesmo mínima, na megasena política de 2014, tendo como base as derrotas em série que marcam a atividade política em matéria de reforma de costumes. A lei das probabilidades acolhe a hipótese de que ganhos são possíveis após sucessivas derrotas.
Ademais, temas que, outrora, seriam inimagináveis passar pelo crivo de quadros fundamentalmente preocupados com a preservação de seu poder, começam a ser palatáveis, como é o caso do voto facultativo. O surgimento de novos pólos de poder na sociedade, a partir da multiplicação de entidades de intermediação social, reforça a necessidade de acabar com a obrigatoriedade de votar.
O voto facultativo tende a ser a chave-mestra para abrir as portas da mudança política. Vamos às razões. Primeiro, a constatação de que a sociedade, há bom tempo, demonstra querer participar de forma ativa do processo político.
A degradação geral dos serviços públicos; as crescentes pressões urbanas; o distanciamento entre a esfera política e as bases eleitorais; a pequena margem de manobra do corpo parlamentar para atender demandas das comunidades, enfim, as promessas tão repetidas e nunca plenamente realizadas pela representação política – compõem a argamassa da insatisfação social.
Grupos, setores e categorias se organizam em torno de suas entidades, formando um gigantesco rolo compressor a fazer pressão contra a representação centrífuga do poder. Estabelece-se, assim, o nexo entre cidadania ativa (mobilização social) e voto.
Insatisfeitos com mandatários que foram sufragados nas urnas, contingentes tendem a buscar uma representação compromissada com suas demandas e próxima aos interesses locais/regionais. O poder econômico, claro, continuará a realizar manobras táticas (e escusas ) para cooptar bolsões, mas essa prática será cada vez mais atenuada pelo adensamento das correntes racionais.
Nesse ponto, é oportuno lembrar os motivos que inspiram as escolhas. Para as classes que habitam os fundões e as margens sociais, o apelo é o do bolso, na esteira da equação: BO+BA+CO+CA= bolso cheio, barriga satisfeita (geladeira cheia), coração agradecido, cabeça decidindo retribuir a recompensa. Ora, mesmo nesses amplos espaços, a inquietação e o clamor por melhoria dos serviços públicos ( saúde, educação, segurança) dão sinais de exacerbação.
Imagine-se tal onda de tensão em um ano esportivo e eleitoral como será 2014. O segundo apelo é o da proximidade. Os eleitores são induzidos a escolher representantes próximos aos seus ambientes físico e social, identificando perfis mais confiáveis, aptos a cuidar de seus interesses e mais controláveis. Esse fator aponta para um voto consciente. O voto facultativo, sob esse prisma, não arrefecerá o ânimo das bases. Ao contrário.
Ainda na planilha de fatores que cercam o processo decisório, contabiliza-se a indicação feita por grupos de referência do eleitor – familiares, vizinhos, companheiros de trabalho, lideranças do bairro etc. A onda de críticas, exigências e participação terá, nesse núcleo, mais um reforço. E, por último, o próprio perfil do candidato estará sob a mira eleitoral, deixando escancarar a hipótese de que fica cada vez mais difícil no país vender gato por lebre.
Essa radiografia completa-se, ainda, com um pano de fundo que exibirá a linguagem da assepsia: políticos ficha limpa; história de um passado limpo e vida decente; respeito, dignidade, ética e moral; combate à corrupção; Ministério Público e Juízes de Tribunais Eleitorais com lupas potentes; sentimento de que a Justiça está chegando para todos, fracos e poderosos; maior transparência.
O voto facultativo torna-se adereço importante nessa fotografia. A soma de todo esse aparato indica expansão da racionalidade, conceito que ampara o voto qualificado e livre. O eleitor irá às urnas sob o sentimento de que votar ou deixar de votar constituem um ato de consciência cívica.
Há 20, 30 anos, a modelagem do voto obrigatório se fazia necessária pelo argumento de que a melhoria da representação implicava aprendizagem (votar sempre), sendo os eventos eleitorais de dois em dois anos com voto compulsório o mecanismo ideal para a democracia. A experiência até valeu. Mas os costumes políticos não acompanharam a dinâmica social. Daí a necessidade de alterar o calibre eleitoral. Hoje, já se pode garantir que o eleitor brasileiro desenvolveu um sentido agudo e sutil e quer exercitar seu direito, votando ou mesmo deixando de votar. Sem amarras e injunções.
E se as urnas exibirem um grande vazio, com uma enxurrada de votos nulos e em branco? Ora, a conta negativa também pode ser debitada no crédito da racionalidade política. Protestar contra o status quo, fincar pé no terreno da contrariedade, deixar as urnas vazias, constituem atos consonantes com nosso estágio civilizatório. O voto facultativo deverá ser testado.
Haverá oportunistas? Sim. Figuras e figurões poderão usar a arma do bolso para convencer eleitores do fundão do país. E, dessa forma, plasmar um voto “falcatruativo”. Não terão a comodidade d’outrora. A interpretação lamurienta do memorável coronel pernambucano Chico Heráclito sobre a cabeça do votante se alastra pelo país: “ o eleitor do Recife é muito a favor do contra”. Esse eleitor contrário se espalha pela Nação.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

domingo, 29 de dezembro de 2013

A privataria petista mora nos detalhes, por Elio Gaspari


Durante o tucanato, converteram-se papéis podres de dívidas da União em moeda corrente, juntaram-se financiamentos do BNDES, dinheiro dos fundos de pensão estatais, e torrou-se a patrimônio da Viúva na festa da privataria. O comissariado petista diz que não faz isso, pois não vende o que é da Boa Senhora. Tomando-se o caso dos leilões dos aeroportos, resulta que fazem diferente, e pior.
Em novembro a Odebrecht, associada a uma operadora de aeroporto de Cingapura, arrematou a concessão do Galeão por R$ 19 bilhões. Quem ouve uma coisa dessas acredita que o futuro chegou. As vítimas da Infraero pensam que se livrarão do dinossauro e que o novo dono investirá seu dinheiro no aeroporto para torná-lo uma vitrine da cidade.
Não é bem assim. A Infraero continua com 49% do negócio, e o velho e bom BNDES e mais um fundo de investimentos estatal botaram R$ 1,4 bilhão na operadora de transportes da Odebrecht. Somando-se essa participação à da Infraero, a Viúva fica com mais de 50% do Galeão.

             
                                  Foto: Gustavo Miranda / Globo

Pode-se argumentar que a gestão ganhará a eficácia da iniciativa privada, mas ganha uma passagem de ida a Davos quem sabe onde terminam os braços das empreiteiras e onde começa o Estado dos comissários. Ganha a passagem de volta quem sabe onde termina a máquina de administração de serviços do Estado e onde começa a das empreiteiras.
Até aí, ainda haveria lógica, mas, conforme o repórter Daniel Rittner revelou, as empreiteiras que arremataram as concessões dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Viracopos querem fazer uma pequena mudança nos contratos assinados em 2012.
Pelo que se acertou, as concessionárias podem construir hotéis, centros de convenções e torres de escritórios nas áreas arrendadas, explorando-os por períodos de 20 a 30 anos. Agora, uma associação de concessionários cabala a prorrogação da posse dessas melhorias.
Nesse caso, o negócio não é administrar aeroporto, mas explorar empreendimentos imobiliários. Parece a piada do chinês de Nova York: “Meu negócio é a tinturaria, venda de cocaína é disfarce”.
A privataria tucana patrocinava grandes tacadas iniciais, a petista move-se suavemente nas mudanças dos contratos. Cada mudança, um negócio. Para quem quer desmoralizar o país como destino de investimentos estrangeiros, nada melhor.
Nem a criatividade dos advogados da bancada da Papuda seria suficiente para explicar a uma empresa que entrou no leilão de um aeroporto e teve seu lance superado que devia ter previsto a possibilidade da extensão do período de exploração dos empreendimentos imobiliários.
A doutora Dilma deve botar sobre sua mesa um talonário do jogo do bicho carioca: “Casa Lotérica São Jorge, vale o que está escrito”.
Elio Gaspari é jornalista

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os white blocs, por Chico Alencar, O Globo


Eles estão infiltrados no Estado brasileiro desde os seus primórdios: vieram com a Corte Absolutista de Dom João, em 1808. Não em naus menores, atrás das principais da esquadra que fugia da invasão napoleônica, mas bem ao lado da Família Real. Aqui compuseram a alta burocracia, renovaram os privilégios, aprofundaram a distância entre administração inchada e população desvalida. Propagaram a cultura da corrupção.
Eles não usam máscaras, pois suas caras de pau prescindem disso. Bem vestidos — os ternos de corte fino substituindo as perucas do século XIX —, têm incrível capacidade de renovação. Seus espaços no poder são mantidos como capitanias hereditárias. Arcaicos em suas práticas do tráfico de influência e enriquecimento ilícito, vestem a roupagem da “modernidade” das “tribos” da livre concorrência e do capitalismo sem riscos.
Eles não atacam bancos: esmeram-se em neles fazer operações sigilosas, aqui ou em paraísos fiscais, que passam ao largo dos órgãos de controle financeiro. Têm força junto aos grandes partidos e abortam qualquer investigação sobre suas movimentações milionárias, como nas CPIs do Banestado, Cachoeira/Delta e quantas outras surgirem tentando jogar luz em tenebrosas transações.
Crescidos na estufa dos negócios particulares, estão, anônimos, nas esferas dos três poderes da República. Nos Judiciários tentam comprar sentenças, envolver magistrados, fazer chicanas e absolver os poderosos. Regozijam-se quando a Justiça tarda e falha. Quanto mais ela pender sua balança para os ricos, melhor.
Nos Executivos, armam licitações dirigidas, beneficiam grandes empresas e estabelecem consórcios de propinas. Montam uma rede de “amigos” especializada em quebrar todas as barreiras republicanas que distinguem o público do privado, o interesse social do negócio mercantil.
Nos Legislativos, alavancam esquemas vitoriosos de financiamento empresarial de campanha e de publicidade despolitizadora. Assim elegem, além dos governos, sua “base de sustentação”, alimentada pela distribuição de cargos para nomeação de apaniguados. Direcionam as emendas orçamentárias para aqueles que possam se beneficiar de sua execução, cobrando retribuição.
Eles não gostam da claridade das ruas. Agem nos bastidores, justificando-se, no seu fatalismo interessado, com o “sempre foi assim”. Vandalizam o bem comum, frequentam as altas-rodas e têm certeza da impunidade.
Para enquadrá-los, é preciso desmontar a estruturas do poder oligárquico. Uma consigna, efetivamente praticada, também combateria essa chaga: LIMPE. De Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, princípios fundamentais da administração pública, inscritos no artigo 37 da Constituição Cidadã que nos rege, há 25 anos.
Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ).

Civilidade? pelo Dr CARLOS VIEIRA


Civilidade, segundo o Aurélio, “é um conjunto de formalidades observadas pelo cidadãos entre si em sinal de respeito mútuo e consideração”.

Respeito mútuo e consideração, duas virtude complicadas e difíceis de serem exercidas. De saída, podemos entender “respeito mútuo” com um comportamento que exige da pessoa um quantum de renúncia do seu narcisismo, do seu egoísmo para que o outro seja reconhecido, “considerado” além da sua própria pessoa.

Quando se nasce, segundo o velho e eterno Freud, toda a criança é revestida de “energia narcísica”, ou seja, o mundo é a projeção das suas necessidades e desejos. O bebê não está ainda interessado e nem reconhece sua mãe como o “outro”, como uma pessoa separada dele; vai sempre em busca de ser atendido, e a outra pessoa só tem sentido se puder satisfazer seus anseios. Em outras palavras, o narcisismo, o amor por si, o interesse por sua própria pessoa dominam a cena. Quando frustada, a criança revela já um comportamento de ódio, raiva e agressividade em direção aquele que a desapontou.

Todo esse comportamento é natural, é esperado, pois a criança, ou seja, nós, nascemos carentes, necessitados, sem condições de sobrevivermos senão com a ajuda do outro. O outro, no caso os pais, ou melhor dizendo, a mãe, é alguém mais importante, mas note bem caro leitor, não a mãe, ela mesma enquanto pessoa separada, mas a mãe como uma extensão, como um espelho, que tem a finalidade de ser aquilo que se espera. Esperar aí, talvez não seria a palavra adequada, seria melhor falar de exigência. “Eu exijo que você tenha tudo o que eu preciso”. Logo, voltando às virtudes descritas acima, é impossível respeito mútuo e consideração.

Acontece, dando um salto no tempo, que alguns adultos, ou mesmo alguma cultura, sobrevalorizem o egocentrismo, o egoísmo patológico, a egolatria, como finalidades últimas das suas exigências existenciais. Vivemos, nesse mundo pós-moderno, a despeito do desenvolvimento tecnológico evidente, uma regressão para as relações de uso, de voracidade, de modelos vampirescos onde os outros são, como os bebês, extensões das minhas vontades.

Consequência inevitável: a cultura do humanismo perde espaço para a cultura do barbarismo.

Somos hoje, sem sombra de dúvida, o animal que mais mata seu semelhante, e o animal que perde seu par implícito, o humano. Sempre me refiro à expressão “animal humano” para enfatizar e não esquecer nosso lado primitivo, animalesco, que só com a cultura pode crescer e se desenvolver para “relações de troca, de parceria, de consideração mútua”, fato que a cada dia estão mais ausentes.

Exemplos aparentemente bobos mostram-nos a prevalência do “narcisismo” sobre o “socialismo”, como escreve W.R.Bion em seus escritos psicanalíticos.

Outro dia, passeando pelas ruas e pelos os shoppings da vida, notei alguns comportamentos típicos: faixa de pedestre é evidência da existência do outro, é um efeito civilizador que o motorista precisa ter. Sustos, acidentes, acidentes traumáticos, são acontecimentos que a toda hora vemos. Os motoristas predominantemente narcísicos não acham, acreditam, que a rua é toda sua; que seu automóvel não é um meio de locomoção e facilidade para as distancias, é um objeto que eles exercem um poder absoluto tal qual “sua majestade, o Bebê”. Fila para idosos, é um fenômeno engraçado: havia um homem, idoso, portando uma dezenas de boletos a serem pagos, para os outros, não pagamentos dele mesmo! Surpresa: esse homem ganha dinheiro para fazer pagamentos de outras pessoas, usufruindo de sua condição de ser da terceira idade. Uma mulher bem vestida, mais parecia com uma “dondoca”, estaciona seu carro em fila dupla para pegar um objeto numa joalheria; outra jovem, linda e esbelta estaciona na vaga reservada para cadeira de roda, ou situações de urgência qualquer. O “mauricinho”, filhinho de algum poderoso, estaciona na diagonal, ocupando duas vagas como se pagasse dois IPVAs!
Passeando dentro de um Shopping, três jovens sequer olham para frente; batem na gente e exclamam uma frase moderna de desrespeito: “foi mal tio”.

O leitor deve concordar comigo, e acho que deve ter mil exemplos da falta de civilidade do mundo atual. Somos massacrados a toda hora por esse “narcisismo perverso” onde não há espaço para respeito e consideração. O outro, a Alteridade não tem espaço no pós-modernismo; vivemos numa época na qual o individualismo, o uso das pessoas como se fossem drogas de consumo, fossem o verdadeiro sentido de vida. Penso que todos esses comportamentos estão bloqueados por conta de: uma família que cultiva “o sem limite” para seus filhos; uma educação precária, onde o foco é o crescimento intelectual, tecnocrata, e não a ética; uma justiça cada dia mais injusta, onde os direitos básicos são desconsiderados e os perversos são livres de quaisquer penalidades; um governo que não olha para o povo, para as necessidades elementares, e cada dia mostra sua insensibilidade aos direitos humanos! O que se ensina nos dias de hoje? Falcatruas, corrupção, descrença na arte da política, atitudes de verdadeiro desrespeito e consideração pelos eleitores, sedentos por serem atendidos nas “promessas de campanha”. Existem poucas pessoas hoje, que podem servir de modelo para uma identificação sana dos mais jovens, e a consequência disso é a conduta bárbara e perversa nas relações humanas.

Lembro agora, lamentavelmente, dos versos de Bandeira em seu poema –
“Desencanto”:

“Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como que morre”.

Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasília e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A - London.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Em 2014, ‘vem pra rua você também’, por Elio Gaspari, O Globo


A repórter Andréia Sadi revelou que o presidente do Senado, doutor Renan Calheiros, preocupado com sua cabeça, requisitou um jato da FAB para voar de Brasília a Recife, onde fez um implante de dez mil fios de cabelo.
Quem nestas Festas viajou com seu dinheiro deve perceber que esse tipo de coisa só acabará pela associação dos direitos de voto e de manifestação em torno de políticas públicas. Só com o voto isso não muda. Pelo voto, Renan começou sua carreira política em 1978, elegendo-se deputado estadual pelo MDB de Alagoas.
Renan Calheiros é um grão-mestre da costura política. Foi líder do governo de Fernando Collor de Mello e ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Desde 2003 é um pilar da coligação petista no Congresso. Pertence a uma categoria imune à vontade popular. Ela pode ir para onde quiser, mas ele continuará no poder, à sua maneira.

             

Como ministro da Justiça do tucanato, tendo seu nome exposto na Pasta Rosa dos amigos do falecido Banco Econômico, defendeu o uso do Exército para reprimir saques de famintos durante a seca de 1998. Político da Zona da Mata alagoana, estava careca de saber que tropa não é remédio para esse tipo de situação.
Nessa época, dois de seus irmãos foram acusados de terem mandado chicotear um lavrador acusado de roubar um aparelho de TV numa fazenda. Um desses irmãos elegeu-se deputado federal. Entre 1998 e 2006 teve uma variação patrimonial de 4.260%, amealhando R$ 4 milhões.
Renan teve uma filha fora do matrimônio quando ganhava R$ 12.720. A mãe da criança era ajudada por uma empreiteira amiga que lhe dava uma mesada de R$ 16.500. Por causa desse escândalo, por pouco não foi cassado, mas renunciou à presidência do Senado. Reelegeu-se e voltou à cadeira que já foi de Rui Barbosa prometendo uma agenda ética, de “transparência absoluta”.
Contudo, como diz o senador Edson Lobão Filho, filho e suplente do senador Edson Lobão, ministro de Minas e Energia, “a ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata”. Nesse mundo de abstrações, Renan, vendo a despensa de sua casa concretamente desabastecida, mandou abrir um pregão de R$ 98 mil para a compra de salmão, queijos, filé mignon, bacalhau e frutas. Apanhado, cancelou a compra.
Renan não é um ponto fora da curva. Ele é a própria curva. Em 2005, como presidente da Casa, deu sete cargos de R$ 10 mil a cada colega. Seu mordomo ganha R$ 18 mil. Em julho, quando ainda havia povo na rua, usou um jatinho da FAB para ir a um casamento em Trancoso. Apanhado, devolveu o dinheiro. Passados cinco meses fez o voo do implante.
Estabeleceu-se uma saudável relação de causa e efeito entre esse tipo de comensal da Viúva e a opinião pública. Eles não se corrigem, mas, uma vez denunciados, recuam. São muitos os maganos que não toleram saguão de aeroporto, despensa vazia e parente desempregado. Nessas práticas, é fácil colocá-los debaixo da luz do sol. Quando se trata da convênios, contratos de empreiteiras e grandes negócios, a conversa é outra.
Em 2014 a turma que paga as contas irá as urnas. Elas poderão ser um bom corretivo, mas a experiência deste ano que está acabando mostra que surgiu outra forma de expressão, mais direta: “Vem pra rua você também”.
Elio Gaspari é jornalista.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Um pingo de História

   

Quem chamou atenção foi o historiador José Murilo de Carvalho. 

Um folheto de 1821, chamado “Correspondência turca”, faz um elogio às brasileiras. E olha que Fernanda Lima (foto) ainda não existia. 

Veja só: “A Grega se acomoda, a Hebraica negocia, a Persana pactua, a Armeniana presta-se, a Georgiana rivaliza, a Parsis dorme, a Indiana baila, a Espanhola desfaz-se em seu serviço, a Francesa discorre, a Italiana calcula, a Inglesa contemporiza, a Polonesa está ali, a Holandesa nem ali, a Russa serve ao lado de um amante: 

a Brasileira é a única, que se dá toda inteira — nada deixa para si; a única que chora, e faz chorar de ternura, quando diz, que nos ama, e nos quer bem. Nos braços do Amor, ou da Amizade, ninguém ama como ela.”

Ordem na casa, por Maria Helena RR de Sousa

O fim do ano é boa ocasião para reordenar nossa casa, repor o que está puído ou trincado, dar uma geral nos armários, doar o que está sobrando, ver as roupas que ainda servem e decidir o que fazer com as que não servem, cuidar melhor das prateleiras de livros e discos e depois montar o presépio para que ele abrigue o presente de Natal dos nossos queridos.
Ainda mexida com o espírito do Natal e com o fim deste 2013 que em muito boa hora se vai, sonhei: E se fosse possível fazer o mesmo com o Brasil?
Quanta coisa para jogar fora, ou consertar e guardar. Ou substituir por estarem em mau estado. Uma trabalheira dos diabos e só seria possível se todos os brasileiros se dedicassem à tarefa de deixar o Brasil bem limpo, com a ordem que nossa bandeira recomenda, para que o progresso possa vir e frutificar.
A primeira coisa a restaurar seria nosso ordenamento político.
Tenho lido muito, muito mais sobre o Brasil de hoje do que a literatura que sempre tanto me atraiu. Vem desse amor aos livros a admiração pela capacidade intelectual do autor do artigo que cito hoje. Ao ver num jornal paulista o nome Jorio Dauster, parei para ler “Você está bem representado?” (Folha de S. Paulo, 16/12, pág. A5).
Dauster comenta uma sugestão do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, que nas próximas eleições presidenciais os candidatos deveriam, três meses antes, “tornar pública” sua proposta de reforma política. Dessa forma, quem escolhesse o candidato estaria escolhendo o modelo.
Uma ideia das mais sensatas. Porque é nosso direito, ao votar num candidato com quem simpatizamos, conhecer de que modo ele pretende governar o país e, tão importante quanto, quem seriam seus principais auxiliares, quem faria parte de sua equipe.
O eleitor votaria no candidato, na orientação que ele pretende dar ao governo e na equipe que trabalharia com ele.
Nunca mais o longo intervalo entre a eleição e a posse daria ensejo a que os resultados nas eleições estaduais permitissem as negociações que transformam nosso Brasil num mercado onde o auxiliar daqui depende do resultado de lá.
Dauster vai mais longe ao sugerir que antes do primeiro turno os candidatos revelassem os nomes dos “quatro ministros-chave: Justiça, Fazenda, Relações Exteriores e Casa Civil”. Em sua opinião, como essas ideias seriam rejeitadas pela classe política, só as redes sociais seriam capazes de transformá-las em exigências.

                                  

Concordo e replico suas palavras para ajudar na difusão.
Mas eu ainda queria mais. Que os ministros do novo governo se comprometessem por escrito e sob pena de pagarem multas altíssimas, se descumprissem o acordo, a permanecer à frente dos ministérios até o fim do governo, a não ser por comprovado motivo de força maior.
Chega de ver o Governo Federal servir de escada para quem não ama o país, ama o Poder.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa. Ela tem uma fanpage e um blog – Maria Helena RR de Sousa

Saúde, Dilma!, por Ruth de Aquino, ÉPOCA


É disso que o país precisa – como revela a carta de um leitor médico que tem medo de represália.
São nossos votos para 2014, presidente. A senhora venceu uma doença e uma eleição. Ao que tudo indica vencerá a próxima. A senhora precisa de saúde como mulher, mãe e avó. O Brasil precisa de Saúde, com maiúscula.
A coluna anterior “O corredor da morte nos hospitais” atingiu o nervo da revolta entre os leitores. Reproduzo abaixo parte da carta de um médico, que pede para não ser identificado, com medo de represálias:
Prezada Ruth. O que aconteceu com seu pai, infelizmente, é normal. Acontece com TODOS os planos de saúde em TODOS os hospitais do Brasil, quando se trata de atendimento de emergência. A autorização de procedimentos é sempre por telefone e, se você já tentou, sabe que isso significa horas de lenga-lenga e musiquinhas irritantes.
Até que se contate um médico auditor responsável, pelo menos uma hora já é perdida na espera. Por isso, os melhores atendimentos de emergência ainda estão nos hospitais públicos. Quando é preciso uma cirurgia de urgência, o cenário muda: vou dar o exemplo de um caso comum em nosso dia a dia.

                 

O paciente chega politraumatizado – com uma fratura exposta de perna e um traumatismo craniano leve. A pancada na cabeça torna necessária a realização de exames, como uma tomografia, e a colocação do paciente em observação. A fratura exposta deve ser operada logo.
Quanto mais tempo demora, maior o risco de o paciente contrair uma infecção que, se confirmada, será de difícil tratamento – ossos não respondem bem a infecções, o que obrigaria a cirurgias posteriores. Uma urgência, portanto.
Como o paciente está lúcido, ele diz à equipe que tem plano e quer operar em hospital particular. O chefe de equipe faz o contato e, em até duas horas, a transferência é autorizada. Falta a ambulância chegar, o que só costuma acontecer cerca de três horas depois.
É isso mesmo: em média, entre a chegada do paciente ao hospital público e a saída do paciente para o particular, o tempo de espera varia entre 5 e 8 horas. Diz-se que o período de ouro para essas cirurgias é de menos de 6 horas, para diminuir o risco de infecção. Normalmente, convencemos o paciente de que é melhor operar no hospital público e, depois, fazer o acompanhamento pós-operatório num hospital particular.
E é com isso que os planos de saúde contam. Que, com a demora, o SUS acabe arcando com as despesas maiores. Exames, medicamentos, material anestésico, material cirúrgico. E que, depois, não haja ressarcimento ao hospital por todos os serviços. Sem contar que um paciente que teria condições de arcar financeiramente por um serviço melhor acaba ocupando ou disputando espaço com pacientes menos favorecidos.

Talvez, no Hospital Lourenço Jorge, seu pai tivesse sido atendido mais rápido. Só teria de esperar pelos procedimentos numa maca muito menos confortável, em contato próximo com outros pacientes. Talvez visse alguns pacientes aguardando cirurgia espalhados nos corredores, por falta de vaga nas enfermarias. Quer dizer, talvez não. O Lourenço não tem neurocirurgião para ver a tomografia cerebral de seu pai. Sobraram só o Miguel Couto e o Souza Aguiar no Rio. Faltam neurocirurgiões que aceitem trabalhar por pouco.

Atualmente, meu salário pela prefeitura do Rio é de R$ 1.686. Passei num concurso entre os primeiros lugares para ter direito a esse salário. Somente aceitei por respeito à instituição onde fiz internato, residência e pós-graduação. Não aceitaria se não fosse por motivos idealistas. Sou obrigado a dar plantões com colegas que não fizeram concurso nenhum. Apenas conhecem as pessoas certas. E, por isso, recebem até R$ 7.500. Para realizar o mesmo serviço.

Também trabalho em hospitais particulares. E tento fazer o certo por lá também. Mas os mesmos planos de saúde que se negavam a pagar a tomografia de seu pai também se negam a pagar decentemente por nossos procedimentos. Recebo cerca de R$ 150 – para a equipe toda, cirurgião, auxiliar e instrumentadora – por uma fratura de calcâneo, cirurgia complexa, com alto risco de complicações. Para a placa e os parafusos utilizados para a fixação, que custam R$ 1.500, os planos pagam tranquilamente R$ 5.000.

Meus antigos professores me dizem que o foco precisa ser a saúde pública. No dia em que a saúde pública remunerar adequadamente a classe médica, os hospitais particulares e os planos de saúde serão obrigados a aumentar as remunerações se quiserem atendimento de qualidade.

Meus mestres são de um tempo em que um médico fazia carreira no mesmo hospital durante toda a vida. O que é cada vez menos possível, mesmo em hospitais particulares. O médico hoje tenta sobreviver até conseguir o suficiente para montar um consultório. Aí, é fugir tanto do serviço público quanto dos planos.  Ou largar a especialização, ir para o interior e entrar para o Mais Médicos.

Atendi índios na Amazônia e sou apaixonado pelo serviço público. Mas é cada vez mais difícil fazer carreira de Estado nos dias de hoje”.


Saúde, Dilma!

Natal, por Elton Simões

Anoitece cedo nesta época do ano. Da janela, da para ver a água do mar demarcada pela escuridão. Os prédios aparecem como pontos cintilantes de luz. Construções com suas silhuetas caprichosamente decoradas pelas luzes da decoração de Natal.
Hoje neva lá fora. Coisa rara em Vancouver. A neve que cai lentamente vai pintando tudo de branco, e adicionando, lenta e delicadamente, peso nos galhos dos pinheiros que crescem por todo lado. O branco que cai do céu e a tudo cobre reflete a luz dos prédios e ilumina a sombra das ruas, casas e prédios. É quase Natal.
Imagino que neste momento, milhares de crianças estão a trabalhar nas suas listas de pedidos. Atrasadas como estão, a pressa para estas crianças deve ser palpável. Papai Noel precisa receber os pedidos a tempo para poder entrega-los.
Já aos adultos, cuja vida tratou de ensinar que Papai Noel e almoço de graça não existem, também não resistem à tentação de imaginar o que desejariam para o Natal. Talvez sem a magia que cerca o mundo infantil, mas presente, como todos sabem, é sempre bom de ganhar.

               

Imagino que cada pessoa queira algo diferente. Ou talvez o mesmo. Não sei. Na maioria das vezes, nos dias de hoje, parece que a gente sempre esta a desejar aparelhos e coisas que, em alguns meses ou anos, perderam a utilidade, a função ou o sentido.
A gente está sempre tentando modificar, melhorar, aumentar tudo. Mais, melhor, e maior parece ser o sinônimo de bom. A maioria das coisas, de fato, pode melhorar. E a curiosidade humana está aí para perseguir, sem descanso, esta melhoria.
Mas nem tudo precisa de reparo ou conserto. Existem coisas que já nascem perfeitas. Que não carecem de intervenção ou melhoria.
Música de Mozart. Quadros de Van Gogh. Poesia de João Cabral de Mello Neto. Sorriso de mulher feliz. Felicidade de criança abrindo presentes no Natal. Nada disso precisa reparo. Tudo isso é perfeito. Tudo isso é belo. Como está. Como é.
Feliz Natal!

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca

Morre Kalashnikov, inventor da arma que marcou o século 20--- BBC Brasil


O inventor do fuzil Kalashnikov (também conhecido como AK-47), o russo Mikhail Kalashnikov (foto abaixo), morreu nesta segunda-feira na Rússia aos 94 anos sem nunca ter aceitado responsabilidade pelas milhares de mortes causadas pela sua invenção.
Nascido em 1919, quando a Rússia ainda era palco da Guerra Civil que se seguiu à revolução bolchevique de 1917, Mikhail Timofeyevich Kalashnikov foi convocado em 1938 para integrar o Exército Vermelho. Logo ele passaria a usar seu talento de projetista para melhorar a eficiência de armas e equipamentos usados por regimentos de tanque soviéticos.


O trabalho na criação que lhe daria fama internacional começou depois que um soldado reclamou com ele, questionando como os soviéticos não tinham uma arma com a mesma eficiência das usadas pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.
Ele concluiu o desenvolvimento do Kalashnikov em 1947, e, dois anos depois, o fuzil passou a ser usado pelo exército soviético.

Design característico

Com seu característico pente curvado, a Kalashnikov logo se tornou um ícone revolucionário nas mãos de militantes e insurgentes ao redor do mundo.
Kalashnikov continuou trabalhando até depois dos 80 anos como projetista-chefe da empresa Izhevsk, que foi a primeira a fabricar o AK-47.
Ele recebeu muitas homenagens e comendas, incluindo a Ordem de Lênin e a de Herói do Trabalho Socialista.
Mas o orgulho por sua invenção vinha misturado pela tristeza pelo seu uso por criminosos e crianças-soldado.
“É doloroso para mim ver elementos criminosos de todo tipo usando minha arma”, disse Kalashnikov em 2008.
Porém, o russo alegava não ter ganhado muito dinheiro com a arma.
Certa vez, ele disse que teria ficado mais rico se tivesse enventado um cortador de grama.

Marcada na história

De acordo com o analista de Defesa da BBC Jonathan Markus, o projeto de Kalashnikov teve versões produzidas em vários outros países além da União Soviética e da Rússia, como a China.
Markus relembra um encontro que teve com Kalashnikov em Paris. “Ele orgulhosamente mostrava a medalha de Herói do Trabalho Socialista em sua jaqueta. Ele parecia perplexo com as mudanças extraordinárias que tomaram seu país.”
“Ele mostrava sentir as críticas de que sua arma tinha causado um número incontável de mortes ao redor do mundo. Ele me falou que simplesmente projetou o fuzil para defender a União Soviética. Segundo ele, o uso que foi feito da arma em outros lugares não tinha nada a ver com ele.”
“A Kalashnikov – que ainda é amplamente usada hoje – ficará marcada na história. Se o nome de Samuel Colt e seu revólver são associados ao século 19, então a arma do século 20 sem dúvida é a Kalashnikov”, concluiu Markus.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Apagão verbal, mental e moral, por Dorrit Harazim, O Globo

A entrevista durou cerca de uma hora e meia e foi concedida na manhã da sexta-feira 22 de novembro.

Além de Wilson Damázio, secretário de Defesa Social de Pernambuco, estavam presentes na sala o corregedor adjunto Paulo Fernando Barbosa, o ouvidor Thomas Edison Xavier Leite de Oliveira e a gerente do Centro Integrado de Comunicação, Ana Paula Alvares Cysneiros.
O tema investigado pela repórter Fabiana Moraes, do “Jornal do Commercio”, eram as abordagens sexuais de policiais militares contra mulheres jovens, pobres e negras de Recife.
Mais especificamente, as denúncias de práticas abusivas por integrantes do Grupo de Ações Táticas Itinerantes (Gati), das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) e da Patrulha do Bairro, uma das principais vitrines da gestão do governador Eduardo Campos, provável candidato à Presidência em 2014. 
Wilson Damázio, ex-secretário de Defesa Social de Pernambuco 
A entrevista com Damázio encerrava a robusta série de artigos da repórter sobre o tema e foi publicada na edição desta quinta-feira. Vale repetir aqui, na íntegra, os trechos que desembocaram na demissão do secretário.
Não por representarem a parte dominante da entrevista. Em duração, são parte desprezível (pouco mais de um minuto, do total de 57 minutos de gravação). Em conteúdo, porém, ofuscam todo o resto e por isso mesmo merecem exposição nacional — até para não serem varridos para baixo da árvore de Natal.
Indagado sobre a ausência de registros de denúncias de policiais que pedem para ver os seios de meninas ao fazer uma abordagem ou praticam outros abusos, o secretário conjecturou:
“Desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? Lógico que a homossexualidade não quer dizer bandidagem, mas foge ao padrão de comportamento da família brasileira tradicional. Então, em todo lugar tem alguma coisa errada, e a polícia... né? A linha em que a polícia anda, ela é muito tênue, não é?”
De acordo com números do Centro de Vulnerabilidade Social LGBT, da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, o levantamento parcial para o ano de 2013 lista 22 casos de homossexuais assassinados em Pernambuco.
Em 2012 os homicídios de gays computados pela entidade foram 35, embora o secretário Damázio contestasse o número afirmando que metade desses crimes possa ter tido motivação passional, interesse financeiro, drogas, bebida ou similares.
Entidades atuantes como o Grupo Gay da Bahia, contudo, há anos listam Pernambuco no topo dos estados brasileiros em número de crimes de homofobia proporcionais à população.
No início deste mês de dezembro o governo de Eduardo Campos tomou a alvissareira medida de transformar em crime casos de violência e discriminações contra a comunidade LGBT.
Voltando à entrevista. Já quase no final, a repórter mencionou um escândalo ocorrido em Fortaleza três anos atrás quando câmeras instaladas em carros de polícia filmaram agentes fazendo sexo oral em mulheres no interior dos próprios veículos.
Comentário do então ainda secretário de Defesa Social, na presença do corregedor adjunto, do ouvidor e da gerente de Comunicação:
“Tem muitos problemas com a polícia, mulheres, principalmente... O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil... Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda. Todo policial militar, civil eu não sei, dos mais antigos tem duas famílias, tem uma amante, duas. É um negócio. Eu sou policial federal, feio pra caramba... A gente ia pra Floresta (Sertão), pra esses lugares. Quando a gente chegava lá, colocava aquele colete, as meninas ficavam tudo (sic) saçaricadas e… Às vezes [tinham] namorado, às vezes [eram] mulheres casadas. A moral delas é diferente da gente. Pra elas, é o máximo tá dando pra um policial... Dentro da viatura, então, o fetiche dela vai lá em cima, é coisa de doido”.
A tóxica entrevista disseminou indignação de intensidade black bloc para todos os lados. Às três da tarde da própria quinta-feira, representantes de 26 entidades de direitos civis do estado já decidiam uma primeira tomada de posição.
Nas redes sociais o assunto fervia e a exoneração do secretário antes de o dia acabar não surpreendeu ninguém. Para usar as próprias palavras de Damázio, “em todo lugar tem alguma coisa errada, e a polícia...”
Depois de 30 anos de carreira policial, primeiro como agente da Civil, depois como agente, delegado e superintendente da Federal, além das duas gestões consecutivas na secretaria, Damázio não soube evitar os cacoetes epistolares comuns a demissionários lotados de culpa.
Referiu-se a “declarações a mim atribuídas”, apesar de ele poder ouvir a gravação da própria voz na internet, se desejar. Sustentou que seus pensamentos não constituem seus pensamentos e declinou com estridência o verbo repelir. Também pediu desculpas a quem “porventura” tenha se ofendido com as declarações. Porventura?
“Não pensei duas vezes”, arrostou Eduardo Campos tonitruante ao justificar que aceitara a renúncia para não permitir que o episódio interferisse na sua política pública de segurança.
Tivesse pensado duas vezes talvez lhe ocorresse não lamentar a saída de Wilson Damázio. Nem se referir aos “bons serviços prestados” pelo secretário na nota protocolar de exoneração — há vezes em que mesmo frases obrigatórias soam melhor quando omitidas.
Damázio deveria ter sido demitido não por ter feito declarações que “motivaram críticas e cobranças”. Sequer deveria ter ocupado o cargo por pensar o que diz.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Utopias e distopias, por Luis Fernando Veríssimo

Todas as utopias imaginadas até hoje acabaram em distopias, ou tinham na sua origem um defeito que as condenava.

A primeira, que deu nome às várias fantasias de um mundo perfeito que viriam depois, foi inventada por sir Thomas Morus em 1516. Dizem que ele se inspirou nas descobertas recentes do Novo Mundo, e mais especificamente do Brasil, para descrever sua sociedade ideal, que significaria um renascimento para a humanidade, livre dos vícios do mundo antigo.
Na Utopia de Morus o direito à educação e à saúde seria universal, a diversidade religiosa seria tolerada e a propriedade privada, proibida. O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse alguma tendência para a tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam a existência de advogados.
Mas para que tudo isto funcionasse Morus prescrevia dois escravos para cada família, recrutados entre criminosos e prisioneiros de guerra. Além disso, o príncipe deveria sempre ser homem e as mulheres teriam menos direitos do que os homens. 
sir Thomas Morus 
Morus tirou o nome da sua sociedade perfeita da palavra grega para “lugar nenhum”, o que de saída já significava que ela só poderia existir mesmo na sua imaginação.
Platão imaginou uma república idílica em que os governantes seriam filósofos, ou os filósofos governantes. Nem ele nem os outros filósofos gregos da sua época se importavam muito com o fato de viverem numa sociedade escravocrata.
Em “Candide”, Voltaire colocou sua sociedade ideal, onde haveria muitas escolas mas nenhuma prisão, em El Dorado, mas “Candide” é menos uma visão de um mundo perfeito do que uma sátira da ingenuidade humana.
Marx e Engels e outros pensadores previram um futuro redentor em que a emancipação da classe trabalhadora traria igualdade e justiça para todos. O sonho acabou no totalitarismo soviético e na sua demolição.
Até John Lennon, na canção “Imagine”, propôs sua utopia, na qual não haveria, entre outros atrasos, violência e religião. Ele mesmo foi vítima da violência, enquanto no mundo todo e cada vez mais as pessoas se entregam a religiões e se matam por elas.
Quando surgiu e se popularizou o automóvel anunciou-se uma utopia possível. No futuro previsto os carros ofereceriam transporte rápido e lazer inédito em estradas magnetizadas para guiá-los mesmo sem motorista. Isso se os carros não voassem, ou se não houvesse um helicóptero em cada garagem.
Nada disso aconteceu. Foi outra utopia que pifou. Hoje vivemos em meio à sua negação, em engarrafamentos intermináveis, em chacinas nas estradas e num caos que só aumenta, sem solução à vista. Mais uma vez, deu distopia. 
Luis Fernando Veríssimo é escritor

Chame o ladrão, chame o ladrão......(Chico Buarque)

Secretários da Seap têm salários que chegam a R$ 37 mil por mês--JOÃO ANTONIO BARROS

Rio - Eles são os responsáveis por manter atrás das grades os 30 mil chamados foras da lei do Rio. Traficantes, ladrões e estelionatários cortam um dobrado com a cúpula da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). São quatro coronéis da PM, todos partidários da disciplina linha dura, mas que perdem o rigor na hora de sentir a lei na própria pele. Na lista dos beneficiados com supersalários, os militares recebem todos os meses dois contracheques, que, somados os valores, ultrapassam o teto salarial estabelecido pelo Congresso Nacional.
César Rubens recebe R$ 37 mil, somados os salários de coronel PM e secretário
E longe de serem quantias modestas. No principal posto na hierarquia da Seap, o secretário César Rubens Monteiro de Carvalho recebe R$ 37,4 mil mensalmente. Mas na verdade só deveria chegar na sua conta a quantia de R$ 20,6 mil — o teto estabelecido pelo salário do governador. Os R$ 16,8 mil restantes deveriam ser retidos a cada pagamento.
César Rubens traz ainda outro agravante no histórico: nomeado para o cargo de secretário em janeiro de 2007, o militar passou quase quatro anos despachando normalmente na Seap quando ainda integrava o quadro de oficial da ativa da PM — só foi reformado em agosto de 2010. Resumindo: recebeu os salários integrais no período, mas de fato só dava expediente na secretaria.
Fiel escudeiro de César Rubens e subsecretário-geral da Seap, o coronel Antônio Camilo Branco de Faria é o segundo no quesito ‘acima do teto’. Somados o salário ganho da secretaria com o da PM, o vencimento chega aos R$ 33 mil — a ‘bagatela’ de R$ 12,4 mil pagos a mais.

Grupo dos Barbonos 
O coronel Antônio Camilo traz no seu currículo a marca, justamente, da luta por melhores salários. Chefe de gabinete do ex-comandante da PM, Ubiratan Ângelo, o oficial integrou o Grupo dos Barbonos — como ficou conhecido o movimento dos oficiais que se rebelou contra o governo, em 2007, e exigia o aumento dos soldos pagos aos policiais. Todos foram exonerados.
Nomeado para a Seap em janeiro deste ano, o coronel Rodolpho Lyrio também fez parte do Grupo dos Barbonos
A cúpula da Seap tem outros dois oficiais da PM que ganham praticamente o mesmo valor acima do teto: R$ 10 mil. O coronel Sérgio do Monte Patrizzi (subsecretário de Infraestrutura) está na secretaria desde 2011 e, antes, ainda pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Civil de Duque de Caxias. Somados os seus salários, mensalmente o oficial coloca a mão em R$ 30 mil.
O valor do vencimento de Sérgio Patrizzi é quase igual ao que recebe o subsecretário de Gestão Estratégica da Seap, Rodolpho Oscar Lyrio Filho. Outro ativista dos Barbonos — à época comandava a Academia da PM, onde são treinados novos praças —, o coronel também recebe R$ 10 mil acima do teto.

Secretaria não vê ilegalidade
Encarregada de administrar salários de servidores, a Secretaria de Planejamento não vê ilegalidade nos rendimentos acima do teto. Alega que se baseia em parecer da Procuradoria-Geral do Estado, onde há a eliminação da soma para efeito do teto.
A justificativa é de que, do contrário, o “servidor teria de trabalhar sem nada receber ou receber abaixo do equivalente ao seu cargo — no caso, de secretário”. Sobre os coronéis, assegura que o teto incide separadamente em cada vínculo, e não sobre o somatório.
A Emenda à Constituição que estabeleceu o teto diz que qualquer vencimento não pode ultrapassar o recebido pelo presidente da República, governador, prefeito ou ministros do Supremo Tribunal Federal. O Conselho Nacional de Justiça determina ser legal acumular cargos, mas não salário, “ficando a soma submetida ao teto”.

Desembargador aposentado Guiseppe Vitagliano ganha R$ 12 mil a mais-- Agência O Dia
Questionamento na Justiça
A Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), em nota oficial, destacou que os supersalários do secretário e dos três subsecretários são alvos de um questionamento na Justiça. O órgão aguarda a decisão para adotar as novas recomendações.
Alega, na nota, que os quatro coronéis que compõem a atual cúpula da secretaria apenas mantiveram uma prática salarial adotada em governos anteriores — e sem qualquer conotação de prática irregular ou identificada como indevida. Paralelamente, foi aberta uma investigação para levantar se há alguma irregularidade no pagamento dos servidores.

Cúpula ganha mais que o teto
A cúpula da Corregedoria Geral Unificada assiste ao pinga-pinga na conta bancária. O principal é o corregedor Guiseppe Vitagliano, desembargador aposentado. Seus vencimentos ultrapassam R$40 mil e excedem em R$ 12 mil o teto. Está vinculado ao salário do Tribunal de Justiça: R$ 28 mil.
O delegado José Luiz Coutinho de Carvalho, chefe de gabinete da CGU, até tem o seu salário de policial civil cortado pelo teto. Dos R$ 24,4 mil que recebe mensalmente, são descontados R$ 3,7 mil. Mas nada de somar com quase R$ 13 mil que o estado deposita pelo cargo comissionado.
O salário na Polícia Civil do superintendente da CGU, delegado Jorge Jesus Abreu, está dentro do estabelecido. Igual ao colega José Carvalho, o “extra” pago pela corregedoria não entra na conta: R$ 13 mil além do fixado em lei.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Fala Frei Betto!!!

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(Cleidi Pereira/Agência RBS)

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Durante a ditadura, o senhor foi


preso duas vezes (15 dias em 1964


e quatro anos entre 1969 e 1973),


passou por oito presídios, ficou um


mês em uma solitária, foi 


torturado. Que estigmas e que 


lições trouxe dessa época?



A prisão foi um grande retiro espiritual e literário para mim. Estudei, li, rezei, meditei. Sou uma pessoa antes e outra depois da prisão. Ela me deu uma enorme liberdade, por mais paradoxal que essa afirmação pareça. Deixei de dar importância para coisas que não têm importância, aprendi a ver a vida como quem chupa manga deixando o caldo escorrer pelos braços. E me fez perder o medo. Eu tinha tanta certeza que não sairia com vida que me surpreendi de ter passado quatro anos, o que me fez continuar no Brasil. Houve muita pressão da Igreja, da família e do governo militar para que eu fosse embora do país. Poderia ter escolhido qualquer cidade importante, com comunidade dominicana, seria acolhido depois de sofrer tanto. Mas não. Fui morar numa favela em Vitória, onde fiquei cinco anos. Depois voltei para São Paulo. Aprendi também a não odiar, não por virtude, mas por comodismo. O ódio destrói primeiro quem odeia, não quem é odiado. Não adianta nada ter raiva de torturadores e generais. Vai corroer o meu coração e não incomodá-los. Daí a clareza de que a minha luta é contra um sistema e não contra essa ou aquela pessoa.

Sou de uma geração que tinha 20 anos nos anos 60 e os nossos ídolos eram pessoas altruístas: Jesus, Francisco de Assis, Che, Gandhi, Luther King. 
E quem são hoje os ídolos da garotada? Sebastian Vettel, Lady Gaga...

São os valores do capitalismo neoliberal. E aí? Você vai querer que o adolescente se levante no ônibus para mulher idosa? Ele fica com o fone no ouvido e faz de conta que ela é invisível, ele nem a enxerga. Enquanto escola, Igreja e família querem formar cidadãos, a grande mídia e a publicidade querem formar consumistas. O sistema quer formar consumistas. Daí porque muitos jovens hoje estão fixados em quatro "valores": poder, dinheiro, beleza e fama. Quanto maior a ambição, maior o buraco no coração. E quanto maior o buraco no coração, maior o número de farmácias em cada esquina, para tentar cobrir a frustração. Estamos indo para a barbárie, se continuar predominando como paradigma dessa pós-modernidade incipiente que estamos entrando, o mercado, a mercantilização de todas as dimensões da vida.


(Ver Descrição/Ver Descrição)

Sobre a eleição de Lula em 2002, o senhor começa o livro "A mosca azul" com a frase: "Ainda bem, meu pai partiu antes", e diz que ele não suportaria "ver tantos sonhos esgarçados". O governo Lula lhe decepcionou?

Os governos Lula e Dilma são os melhores da nossa história republicana, mas eu esperava muito mais.
Lula teria condições, no primeiro ano de governo, com todo o apoio popular que recebeu, de ter feito uma reforma agrária. É uma demanda histórica, até hoje não cumprida. Estamos com 10 anos de governos do PT, com todos os avanços que teve, com a inclusão econômica de milhões de brasileiros miseráveis e pobres, mas não tivemos nenhuma reforma de estrutura. Então, como meu pai esperava também muito mais, daí essa frase. Penso que o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Permanecer no poder passou a ser mais importante do que criar uma alternativa civilizatória para a nação Brasil.

Recentemente, ao ser questionada sobre uma possível volta de Lula à Presidência, Dilma afirmou que ele não iria voltar porque nunca saiu. Lula foi picado pela mosca azul?

Não acho que Lula foi picado. Muita gente no governo foi, o PT, como partido foi - embora há muitas pessoas não picadas lá dentro, e o Lula é uma delas.

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Uma perigosa trama política, por José Casado n` O Globo

Que tal viver nos próximos anos submetido ao poder hegemônico de um grupo? E ainda, a cada eleição, estar obrigado a votar exclusivamente numa lista de candidatos feita pelos caciques desses partidos?

Lembre-se: quase todos os parlamentares que hoje exercem mandatos ocuparão o topo das listas de candidatos, para facilitar-lhes a reeleição.
Agora, tente imaginar o impacto político, econômico e social dessas escolhas na vida pessoal, dos filhos, dos netos e, talvez, dos bisnetos. Essa é a dimensão da manobra em curso no Congresso, cujo patrocinador mais visível atualmente é o PT, com estímulo da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e de algumas seções da Ordem dos Advogados do Brasil, mas que conta com a simpatia das cúpulas de todos os grandes partidos.
A instituição do voto em lista partidária fechada — definida pelos chefes da burocracia partidária — será apresentada à sociedade como “consequência natural” de um novo modelo de financiamento de campanhas eleitorais, caso o Supremo Tribunal Federal decida tornar partidos e candidatos mais dependentes de dinheiro público. 
 E, no STF, quatro dos onze ministros já decidiram proibir doações de empresas e de pessoas físicas às campanhas eleitorais e ao caixa de partidos políticos. Com mais dois votos iguais, fica estabelecida a maioria. O julgamento deve ser concluído no início do próximo ano.
No Congresso prepara-se reação imediata, uma vez confirmada a tendência dos juízes. Justifica-se que não seria possível cumprir a ordem da Justiça, para fazer campanha sem doações privadas, se não houver substancial aumento do financiamento público a partidos e candidatos.
Nas duas últimas eleições foram registradas 420 mil candidaturas a vereador em 5.500 municípios. Pelas contas mais conservadoras, isso custaria ao menos R$ 4 bilhões ao Tesouro Nacional — ou seja, despesa equivalente a dois meses de Bolsa Família apenas com o preenchimento de 56.810 vagas nas Câmaras Municipais.
A questão seguinte, nesse caso, é como dividir a bolada de dinheiro público entre 420 mil candidatos. Seria impossível a partilha, argumenta-se, sem a adoção do voto em lista fechada, definida pelas cúpulas dos partidos políticos.
Planeja-se apresentar o fim do financiamento privado aos partidos e candidatos, complementado pelo voto em lista fechada, como alavanca para “moralizar” a política, em resposta ao ronco das manifestações de rua contra a corrupção.
Puro engodo. A conexão política das empresas no Brasil ocorre no uso partidário dos fundos de pensão das empresas estatais, que têm patrimônio milionário e participam do controle acionário das 100 maiores empresas; pela reserva de um terço das vagas em conselhos de administração das companhias privadas para pessoas politicamente conectadas; e pelo acesso privilegiado ao caixa do sistema financeiro estatal —principalmente o BNDES —, que tem sido decisivo para a expansão e diversificação dos grupos empresariais dentro e fora das fronteiras nacionais.
Por trás da manobra, há coisa pior: a ideia de que a democracia é a mãe de todas as corrupções. Uma formulação rudimentar, acoplada ao oportunismo para manipulação política com objetivos pouco democráticos, numa era em que o poder é cada vez mais fácil de obter, mais difícil de utilizar e mais fácil de perder.

Cartas de Londres: Um lugar para chamar de seu, por Beatriz Portugal

De tempos em tempos encontra-se um lugar que fala ao coração. Às vezes um cantinho basta, como aquela poltrona que já viu dias melhores mas que se encaixa perfeitamente a todos ângulos e curvas do seu corpo. Outras vezes é preciso uma conjunção de fatores e características para transformar um espaço em algo mais.

Em Londres, a tranquilidade de Hampstead, no noroeste da cidade, me conquistou. Bairro pouco conhecido de turistas, ali entende-se porque Londres é uma cidade de fronteiras invisíveis, onde de bairro em bairro muda-se de ambiente.
Em séculos passados, Hampstead era um lugar que atraía as pessoas que buscavam refúgio. Muitos escolheram a então aldeia para fugir da peste negra e do Grande Incêndio de Londres, que em 1666 destruiu a maioria da cidade. Outros se mudaram depois que descobriu-se – ou decidiu-se – que, aliado ao ar salubre, a água local tinha propriedades benéficas e a vila floresceu como um spa.
Anexado à capital em 1888, o bairro preservou sua atmosfera de vilarejo mesmo um século depois de ter sido engolido por Londres. Esse caráter entre o bucólico e o urbano é seu principal apelo. 
Hampstead Heath Park, Londres 
É um bairro de árvores, lindos casarões, um lugar sereno, verde e bonito, onde o melhor é andar sem propósito e se perder pelo labirinto de ruas e ruelas, becos e pátios de paralelepípedos. As folhas que cobrem as calçadas nessa época do ano dão um charme a mais, apesar do vento cortante.
Sua história é contada por placas que adornam suas casas antigas, que serviram de morada para nomes como Anna Pavlova, Sigmund Freud, Charles de Gaulle a Agatha Christie, Oscar Wilde e John Keats.
O centro comercial de Hampstead é repleto de lojas, cafés, pâtisseries e casas de chá, mas o mais charmoso são estabelecimentos como a banca de flores que parece tirada de um cenário de filme e o quiosque de crepes, que há 32 anos ocupa o canto de uma esquina movimentada. Faça chuva ou faça sol (mais chuva do que sol, estamos em Londres) o lugar está sempre apinhado de sua clientela fiel, que pacientemente espera na fila que muitas vezes dá a volta no pub vizinho.
Dono de um dos metros quadrados imobiliário mais caros da capital, Hampstead permanece acessível por conta das muitas atrações gratuitas. A principal sendo o Hampstead Heath, um dos maiores espaços verdes de Londres e o melhor parque da cidade no meu ranking particular.
O Heath, como é conhecido localmente, é mais para um bosque do que um parque. Fica em um dos pontos mais altos da cidade e a vista de seus morros é protegida por lei. Há também várias lagoas e três delas, antigos reservatórios de água potável, são piscinas públicas. Até no inverno existem corajosos ou loucos que se arriscam nas águas congelantes.
Entre as rajadas do vento, fica a sensação curiosa de que enquanto Londres acelera, Hampstead respira. 
Beatriz Portugal é jornalista. Depois de viver em Brasília, São Paulo e Washington, fez um mestrado em literatura na Universidade de Londres e resolveu ficar.

Ano de palha, por Elton Simões

Imagino que seja o mesmo no mundo todo. Não importa se perto do Polo Norte, do equador, ou nos trópicos. Falta de assunto, talvez. Possivelmente necessidade. O fim de ano vai chegando e a tentação de olhar para trás parece irresistível. As retrospectivas inevitáveis.
Agora que a neve chega ao norte do planeta e a temperatura esquenta nos trópicos, mesmo que por alguns segundos, a gente se pega a pensar como foi o período entre o ponto aleatório escolhido como começo de cada ano e a chegada do Natal.
Todo ano tem suas características, símbolos, eventos, e fatos que deixam sua marca. Todo ano começa com explicações, análises e lembranças dos anos anteriores; acompanhado pelas esperanças, promessas e expectativas para os próximos 12 meses. Assim, pelo menos, parece. 
 Existem anos marcantes. Que dividem a história ou inauguram eras. E existem anos que simplesmente passam. Onde o esperado acontece, embora as esperanças não se cumpram. São anos que parecem feitos de palha. Anos estranhos onde as esperanças vão se degenerando em decepções.
Nestes anos, a palha que os compõe pega fogo frequentemente. Fogo alto e quente que se alastra rapidamente. Contagia. Dá até a impressão de que traz mudanças fundamentais e definitivas.
Mas, como todo fogo de palha, estas chamas acabam rapidamente. Suas cinzas são rapidamente espalhadas até que nada ou pouco reste. Parecem representar mentira ou ser mesmo somente fenômeno momentâneo e aleatório.
Anos de palha começam com os sonhos de dias melhores e terminam com a mesquinhez da discussão de irrelevâncias. Este, parece, foi um ano de palha.
E, como todo ano de palha, não termina com o barulho estridente da comemoração pelas vitórias alcançadas ou com o reconhecimento pelos bons combates que travamos. É ano que termina quase em silêncio. Não acaba com fogos, mas sim com suspiros.

Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca