quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Maluf se oferece para duplicar número de postes em São Paulo


Lula anunciou que apoiará a candidatura de Rubens Barrichello para o governo de São Paulo

AVENIDA PAULISTA - Animado com a vitória de Haddad, Paulo Maluf se ofereceu para voltar a tocar obras de grande porte. "Me sinto transformado, jovem e corajoso. Nada como eleger um brimo mais novo", confidenciou, com seu sotaque característico. "O povo de São Paulo sabe que Maluf construiu o Minhocão, a Marginal Pinheiros e o Terminal Rodoviário do Tietê. Agora, que aderi ao comunismo do século 21, prometo construir postes por toda a cidade de São Paulo se o companheiro Haddad me convidar para compor o governo", completou, enquanto cantava "olê olê olê olá, Maluf lá, Maluf lá".


Animado com a derrota, José Serra disse que está revigorado, bonito e carismático. Em seu discurso, disse ainda que a campanha transcorreu em alto nível e que Papai Noel lhe agraciará com um belo presente este ano. "Me comportei muito bem", completou, com convicção.
Em seguida, prometeu estudar com afinco para conseguir uma vaga de escriturário do Banco do Brasil. "O edital está aberto", disse, excitado, esfregando as mãos.
Estupefata com a capacidade de Lula de eleger o segundo poste consecutivo, Fátima Bernardes pediu ajuda ao ex-presidente em exercício. "Será que ele consegue transferir popularidade para meu programa?", perguntou.
Lula pediu a Fátima um tempo para organizar sua agenda, pois já tem pedidos acumulados de Rafinha Bastos, Gugu Liberato e toda a diretoria da CNT.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Começa julgamento de ex-ministra de Cristina, Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires


Felisa Miceli é acusada de encobrir uma operação financeira ilícita e de destruir documentos oficiais

BUENOS AIRES - Felisa Miceli, ex-ministra da Economia, tornou-se nesta segunda-feira, 29, a primeira integrante do governo Kirchner a sentar no banco dos réus para julgamento no escândalo de corrupção denominado Caso do Banheiro. Miceli é acusada de encobrir uma operação financeira ilícita e de destruir documentos oficiais.

O caso veio à tona em 2007, quando a Brigada de Explosivos do Ministério da Economia encontrou no banheiro privado da ministra uma sacola com notas de peso e dólar de origem misteriosa. Entre 2005 e 2007, Felisa foi a primeira mulher na história da Argentina a ocupar a pasta da Economia.

Na época, ela deu uma série de confusas explicações sobre a origem do dinheiro - 100 mil pesos (na época cotados em US$ 35 mil) e outros US$ 31 mil. Felisa alegou que o dinheiro era seu e havia sido guardado no banheiro para realizar uma operação imobiliária para sua filha. No entanto, dias depois, afirmou que a quantia era de um de seus irmãos, Horácio. Mais tarde, mudou de ideia e disse que a bolada era do outro irmão, José Rubén.

Após o surgimento de pistas que indicavam que o dinheiro havia saído de forma irregular do Banco Central, a ministra renunciou ao cargo. A investigação jornalística do jornal Perfil, que trouxe à tona o escândalo, havia revelado que a quantia encontrada na sacola de papelão era de US$ 140 mil, 50 mil euros e 100 mil pesos argentinos.

Anos depois Felisa começou a trabalhar na Fundação das Mães da Praça de Maio, onde envolveu-se em um novo escândalo - dessa vez, em um fundo fiduciário irregular para a construção de casas populares.

A ex-ministra, que atualmente afirma ser inocente, que tudo não passou de uma "armadilha" contra ela e contra o governo Kirchner, também é acusada pela Justiça de ter roubado e destruído a ata policial que registrou a descoberta do dinheiro.

Se for considerada culpada pelo tribunal, Felisa poderia ser sentenciada a uma pena de até seis anos de prisão. O julgamento, que contará com o depoimento de cerca de 60 testemunhas, se prolongará até meados de dezembro.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ameaçada de despejo, aldeia guarani caiová promete resistir 'até a morte, Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo


Decisão judicial determinando que grupo de 170 índios deixe área de 2 hectares na divisa da Reserva Sassoró com a Fazenda Cambará, em Mato Grosso do Sul, gerou clima de tensão na região

TACURU (MS) - Eles são cerca de 170 índios guarani caiová, estão em uma área de 2 hectares de mata ilhada entre um charco e o leito do Rio Hovy, na divisa da Reserva Sassoró com a Fazenda Cambará, propriedade de 700 hectares no município de Iguatemi, no sul de Mato Grosso do Sul. A presença desse grupo de índios na área de mata ocupada por eles há um ano e chamada de Pyelito Kue/Mbarakay - que quer dizer terra dos ancestrais - foi decretada ilegal pela Justiça Federal há um mês e os indígenas condenados a deixar o local. Mas eles se negam a sair e prometem resistir à ordem judicial de despejo.


Jovens se banham em rio da aldeia: tribo decidiu resistir à ordem judicial
"Esta terra não é dos brancos. É nossa, de nossos ancestrais. Vamos ficar aqui até morrer", afirma Líder Lopes, um dos chefes do grupo. Na calorenta tarde de sábado, com o rosto pintado, ao lado de outros guerreiros da tribo, Lopes afirmou ao Estado que o grupo sofre perseguição de fazendeiros no local e que sabe que a decisão da Justiça manda que deixem o local. "Mas nós não vamos sair daqui. Se vierem nos tirar vão ter de nos matar."

Na aldeia escondida entre árvores de uma reserva ambiental da fazenda havia somente uma dezena de pessoas, entre adultos e crianças. Lopes alega que a luta dos caiovás é para garantir a posse da área que eles afirmam ser o local nos qual seus ancestrais viveram ainda antes de as fazendas se formarem nesta região do sul de MS, quase divisa com o Paraguai. A decisão judicial, beneficiando o fazendeiro Osmar Luís Bonamigo, representado pelo advogado Armando Albuquerque, no entanto, aponta em outra direção ao não reconhecer a posse das terras pelos caiovás.

Diante da tensão entre as partes, a Fundação Nacional do Índio (Funai), por meio do Ministério Público Federal, recorreu da decisão de primeira instância, em Naviraí. O MPF pede que os indígenas possam permanecer no local até que seja finalizado um estudo antropológico da Funai. O clima na região ficou ainda mais tenso com a chegada de técnicos da fundação, escoltados pela Polícia Federal. Um grupo de fazendeiros, liderados pelo Sindicato Rural de Tacuru, registrou Boletim de Ocorrência na delegacia da cidade reclamando da ação da Funai. Pelo menos cinco fazendas já foram visitadas pelos técnicos: Ipacaraí, Esperança, Pindorama, Estância Modelo e Alto Alegre.

Um integrante da operação da Funai disse que a situação entre índios e proprietários de terras pode se agravar pois os guaranis de toda a região estão decididos reivindicar áreas de ancestrais, como ocorre em Pyelito Kue. Segundo dados do governo federal, MS tem cerca de 40 mil índios da etnia guarani. A área ocupada por eles em reservas e terras indígenas é de 30 mil hectares.

Nos 2 hectares próximos a Cambará, os índios repetem o discurso da resistência na pequena área de mata na qual construíram suas casas cobertas com palha e lona preta. O acampamento indígena se assemelha às clareiras vistas em acampamentos dos sem-terra.

Lopes diz que seu povo está abandonado, sofrendo ameaças de pistoleiros, sem atendimento de saúde e sem cestas básicas da Funai. A notícia de uma iminente tragédia envolvendo os guarani caiová do Pyelito Kue varou as redes sociais na semana passada após a divulgação de uma carta do grupo na internet alertando autoridades sobre a intenção indígena de resistir até a morte. "Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui", diz o texto da carta. A versão difundida era que o grupo se preparava para cometer suicídio coletivo. A carta, no entanto, não afirma isso.

Mas como o suicídio de índios guarani na região tem chamado a atenção de estudiosos da causa dos índios, o alerta foi interpretado como uma vontade de morrer diante da contrária decisão da Justiça. Na verdade não era isso. "Houve um equívoco na leitura da carta", explica Flávio Vicente Machado, conselheiro do Cimi.

"O que eles estão dizendo é que estão sendo ameaçados e que não deixarão a área em caso de tentativa de despejo", explica o cacique Voninho Benites Pedro, de uma aldeia guarani do município de Douradina.

Os guarani caiová que habitam o sul de MS reclamam na verdade do que seria, segundo eles, uma histórica dívida do Estado brasileiro. Com o processo de colonização dos anos 1940 e 50, quando Mato Grosso do Sul foi escolhido para projeto de reforma agrária, implementada a partir dos anos 1950 por Getúlio Vargas, as fazendas cresceram na área e os índios foram alojados em reservas. Depois que os caiová voltaram a reivindicar a área, a região de Dourados e municípios vizinhos tornou-se um enorme caldeirão de disputas fundiárias e sob constante tensão étnica. O Estado não conseguiu no domingo, 28, contato com o Sindicato Rural de Tacuru para que a entidade falasse pelos fazendeiros.

Para chegar do local do acampamento indígena é preciso atravessar a reserva Sassoró, que margeia a BR-161. No fundo da reserva está a divisa da Cambará. Depois de uma caminhada de cerca de 500 metros é necessário atravessar o rio num vão de quase 100 metros com forte correnteza. A travessia tem de ser feita a nado ou com a ajuda de um fio de arame amarrado em estacas nas duas margens. As crianças, que estão no acampamento sem aulas há um ano, ignoram a tensão do mundo adulto e aproveitam as águas para se refrescar. Com o rosto pintado e um cocar de penas coloridas na cabeça, o pequeno Cleber, de 10 anos, reclama da falta de aulas. Ele cursou até o quarto ano do ensino fundamental. "Mas agora tem de lutar pela nossa terra."

domingo, 28 de outubro de 2012

A escuridão no fim do túnel, Coluna Carlos Brickmann

Julgamento do Mensalão? OK, é importante, tem consequências políticas, mas não mexe com nossa vida do dia a dia. Campanha do PT contra a imprensa, anunciada pelo irmão do José Genoíno, aquele cujo assessor andava com dólares na cueca? Previsível: há muito tempo se usa punir o portador de más notícias.

Já a sucessão de apagões mexe com a vida de todos nós. Um apagão é um problemaço. Três apagões em 34 dias são mais do que três problemaços: são uma indicação de que o sistema brasileiro de energia enfrenta problemas. Pior: o Governo sabe dos problemas, tanto que teme falta de luz quando acaba uma novela; e continua brincando de explicar. A última: "não é apagão, é apaguinho".

Seja qual for o nome que as autoridades queiram dar à incompetência administrativa do setor, na quinta foram atingidos onze Estados - os nove do Nordeste, mais dois do Norte, além de Brasília. No apagão de setembro, ficaram no escuro oito dos nove Estados nordestinos. O professor Ildo Sauer, da Universidade de São Paulo, petista até debaixo dágua, diz qual é o principal problema: falta de manutenção da rede. "Uma parte do sistema é cinquentão e deveria ter passado por um processo de manutenção e substituição. A indicação mais óbvia de que isso não ocorreu são os apagões". Claro (ou escuro): manutenção não dá voto, não tem inauguração, não tem discurso, não rende matéria na TV.

O ministro das Minas e Energia, Édison Lobão, está hospitalizado em São Paulo. Ele sabe o que faz: no Hospital Albert Einstein, há ótimos geradores.

Trabalhando duro

O ministro interino das Minas e Energia informou que há um problema e que alguém tem de fazer alguma coisa - não ele, claro. Mas convocou uma reunião.

sábado, 27 de outubro de 2012

Picles


Legião estrangeira

De abril de 2010 a abril deste ano, aumentou 50% o número de estrangeiros residentes no Brasil.
A legião é formada, na maioria, por jovens europeus que, acredite, estão vindo morar nas favelas pacificadas do Rio, atraídos por moradia barata. Os dados foram levantados pelo “The Christian Science Monitor”, renomado jornal com sede em Boston, EUA.

Segue...

Segundo o jornal, há uns 50 jovens europeus só no Vidigal, entre ingleses, franceses, alemães, portugueses...
O êxodo, diz o “Christian Science”, deve-se ao “contínuo crescimento da economia brasileira, ainda que lento”, e, claro, à crise na Europa. “Há alguns anos, essas favelas eram perigosas”, afirma o jornal, que enaltece as UPPs.

‘Que m...’

Evanise Santos, a mulher de Zé Dirceu, declara no Facebook que “tem tido noites insones”.
Veja só: “A revolta não tem me deixado dormir, que m...”.

Aliás...

A condenação de Zé Dirceu foi festejada pelo PSTU, partido trotskista, para o qual “o mensalão foi o desfecho da direitização do PT”.
Em seu jornal, o partido diz que a corrente foi expulsa do PT por defender o “Fora Collor”, em 1991, numa ação comandada por Dirceu, que, depois, apoiou o impeachment.

Morre Gutiérrez Menoyo, o 3º comandante estrangeiro da revolução cubana



Guerrilheiro que lutou contra Batista deixa testamento em que diz que 'a revolução naufragou'
 carta-testamento sobre os caminhos de Cuba

MADRI - Morreu o galego Menoyo. E morreu em Cuba, onde queria. Após o guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara e o americano William Morgan (fuzilado em 1961), Eloy Gutiérrez Menoyo foi o terceiro comandante da revolução cubana não nascido na ilha. Nasceu em Madri, em 1934, mas lutar contra a ditadura de Fulgêncio Batista e descer a montanha em 1959 com o cargo de comandante fizeram de Gutierrez Menoyo um cubano e um guerreiro revolucionário.
Filho de republicanos militantes do Partido Socialista Espanhol, teve um irmão mais velho, José Antonio, morto aos 16 anos na frente de Majadahonda durante a Guerra Civil. Seu irmão Carlos se exilou na França e lutou contra as tropas nazistas. Depois da Segunda Guerra Mundial, se instalou em Cuba com sua família e dirigiu a tomada ao palácio presidencial contra Fulgencio Batista em 1957, ação armada em que morreu.
Gutierrez Menoyo, então, fundou a Segunda Frente Nacional de Escambray, grupo guerrilheiro independente ao de Fidel em Serra Maestra. Após o triunfo da revolução, fez parte do comando por alguns meses, mas logo foi contra o rumo socialista tomado por Fidel. Fugiu para os Estados Unidos e de lá preparou uma ação armada em 1965, que fracassou. Foi condenado a 30 anos de prisão, dos quais cumrpiu 22. Saiu em 1986 graças a movimentações pessoais de Felipe González em sua viagem à ilha.
Estabelecido em Miami, Gutierrez Menoyo lutou sem ódio pela reconciliação entre os cubanos e promoveu o diálogo com o regime de Fidel Castro, atitude pela qual foi demonizado em Miami. Fundou o partido Mudança Cubana e durante os anos 90 viajou à ilha e conversou com Fidel. Em 2003, durante uma viagem a Havana, rasgou seu passaporte e decidiu ficar em Cuba para fazer oposição lá dentro. Não teve êxito, e durante a madrugada desta sexta-feira morreu em Cuba, onde queria. Sofreu um aneurisma.
De Porto Rico, sua filha conta que ele “morreu onde queria” e que deixou um testamento em que diz que “daquela revolução, comemorada pela ilha e pelo mundo, sobram hoje restos dolorosos de um naufrágio”. “Hoje, sem perder a fé no povo cubano, denuncio que aquele empreendimento, cheio de generosidade e lirismo, que situaria de novo Cuba na vanguarda do pensamento progressista, esgotou sua capacidade de concretizar-se em um projeto viável”, escreve Gutierrez Menoyo em certo ponto.
Ao mesmo tempo, se mostrava otimista quanto ao futuro da ilha: “A sorte chegará. Quando o último cubano errante regresse à ilha. Quando se curem as feridas e desapareça a dor. Não importa como, a sorte chegará: delgada, silenciosa como uma mariposa cheia de júbilo, como sinal de que este povo merece algo melhor.”

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Cartas de Berlim: Os injustiçados médicos alemães


Nas últimas semanas vários acontecimentos me levaram a ter contato com médicos. Primeiro, encontrei duas amigas em Dresden e Berlim que são médicas em início de carreira. Todas estão fazendo suas especializações em hospitais públicos e universitários. Como adoro séries de médicos, faço muitas perguntas bestas.
Segundo, por causa de uma enxaqueca não diagnosticada, fui parar num rodízio de médico geral-emergência neurológica-radiologia-neuro-médico geral ad infinitum. Tudo para descobrir a causa de uma dor de cabeça.
Enquanto esperava em média 2 horas para cada consulta, pude satisfazer minhas curiosidades mórbidas sobre o cotidiano da vida dos médicos observando o ir e vir destas criaturas.
Terceiro, os médicos alemães estão na pauta do dia: reclamam que ganham muito pouco para o tanto que trabalham, que os convênios médicos repassam muito pouco dinheiro por paciente, que as condições são sehr schlecht (muito ruins). Você já viu esse filme?


Tendo em vista que esperei no total umas 24 horas em salas de espera, conclui que há poucos médicos na Alemanha. Para marcar uma consulta com um especialista, há de se esperar no mínimo 2 meses. “Oi, preciso ver um neuro”. “Ok, a senhora pode ligar semana que vem? Ainda não recebemos a agenda 2013.”
Há duas semanas, consultórios fecharam suas portas por um dia e fizeram “greve” em protesto contra o (baixo) salário de em média 5500 Euros (netto) por mês. Ótimos hospitais, tecnologia de ponta, organização, sistema perfeito e médicos insatisfeitos por causa de uma incrível burocracia dos convênios médicos. Esse é o quadro.
Eu, por exemplo, tive que fazer duas tomografias em menos de duas semanas em um aparelho moderníssimo. Deve ter sido coisa de 2 mil Euros. Depois de toda história épica, me diz o radiólogo: “Ninguém faz tomografia por causa de enxaqueca!” É, meu amigo, mas antes ninguém sabia que era enxaqueca.
Segundo o que andei lendo, o meu convênio com toda a certeza vai implicar com toda a equipe de médicos que “levou-me” a dar todo esse prejuízo. Essa “implicância” acontece diariamente, na hora do repasse da grana, e é o maior desgosto da categoria.
Por essas e outras, um grande número de recém-formados optam pela emigração em busca de honorários mais “justos”. Países como Canadá e Suíça pagariam melhor e ofereceriam condições melhores de trabalho.
É, doutores, como dizem em alemão: “das Leben ist kein Ponyhof!” (a vida não é um mar de rosas).

Tamine Maklouf é jornalista e ilustradora nas horas vagas. Mora na Alemanha desde agosto de 2009, onde se encontra na “ponte terrestre” Dresden-Berlim. De lá, mantém o blog www.diekarambolage.wordpress.com

O sétimo elemento, por Miriam Leitão, O Globo


O controlador do Banco Cruzeiro do Sul, Luis Octavio Índio da Costa, foi preso porque deu prejuízos a terceiros. Está sendo acusado de ter inventado ativos que não existiam, produzido falso lucro, manipulado contabilidade. Com base nisso, vendeu títulos no exterior e captou junto a fundos de pensão. Enganou esses investidores, que agora amargarão perdas.

Ele e seus advogados podem provar o contrário, mas o Banco Central encaminhou a questão ao Ministério Público com documentação mostrando que o banco não adotou as boas práticas.

Foi a fiscalização do BC que viu primeiro os desequilíbrios patrimoniais e irregularidades no Cruzeiro do Sul, da mesma forma que encontrou os problemas em todos os outros seis bancos que quebraram nos últimos dois anos.
O BVA, na sexta-feira, foi o sétimo banco em que o BC encontrou desequilíbrio entre ativos e passivos e adoção de práticas estranhas para falsificar a situação do banco.

O grande problema nesses casos de quebra de bancos é que ainda não foi sanada a diferença de tratamento entre as instituições que quebraram primeiro e as que estão quebrando agora.

O PanAmericano também deu prejuízo a terceiros. Aliás, uma importante terceira: a Caixa Econômica Federal, que pagou R$ 739 milhões para ser sócia de um banco falido, no qual teve que fazer novos aportes de capital.

Os R$ 739 milhões foram queimados apenas pelo direito de ser sócia da encrenca. Para resolver o problema, foi mais caro. A Caixa subscreveu mais R$ 658 milhões em ações e R$ 1,8 bilhão foram gastos na compra de carteiras de crédito do banco.

Deu prejuízo também para um fundo coletivo criado para garantir os depósitos dos clientes: o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). No início desta crise, o FGC virou um hospital para o qual foram os bancos Matone, PanAmericano, Schahin.

Em todos esses, o FGC perdeu muito dinheiro. Vendeu sua parte no PanAmericano por um décimo do valor. E que bom que apareceu um comprador, o BTG Pactual, porque sem ele a situação da Caixa seria absurda.

Quanto maior for o rigor do BC, e mais bem fundamentada for a denúncia do Ministério Público em relação aos bancos quebrados, mais dissonante ficará o tratamento condescendente dado a outros, principalmente ao PanAmericano, onde foram encontradas fraudes, invenções de ativos, manipulação contábeis, crimes iguais aos que supostamente foram encontrados no Cruzeiro do Sul.

Luis Octavio Índio da Costa pediu liberação de seus bens, e o pedido foi recusado pelo STJ. Seus advogados argumentaram que ele deveria ao menos ter acesso aos rendimentos dos seus ativos porque o ex-banqueiro das exuberantes festas não tem como pagar suas contas de subsistência. A Justiça em primeira instância recusou.

Já os bens dos administradores e controladores do banco PanAmericano permanecem completamente livres e, no caso dos ex-controladores, estão neste momento sendo negociados.

Qual a diferença? O FGC colocou no banco o dinheiro que foi necessário — a bagatela de R$ 4,3 bilhões — para reequilibrá-lo e vendê-lo. Assim ficou parecendo uma operação normal de mercado; uma venda e não um resgate.

A Caixa depois foi chamada a depositar mais dinheiro para capitalizar o banco. A CEF acaba ela própria de ser capitalizada pelo Tesouro.

A história dos atuais eventos tem essa fratura: para o mesmo problema, duas soluções distintas. Na sexta-feira, o Banco Central anunciou o sétimo banco quebrado em dois anos. É demais para serem eventos separados. Por isso, o BC precisa continuar no caminho de intensificar a fiscalização.

Funcionários da embaixada do Brasil no Haiti estariam cobrando propina Juliana Dal Piva, O Globo


O antropólogo da Unicamp Omar Ribeiro Thomaz fez a denúncia durante evento em SP

ÁGUAS DE LINDOIA (SP) - O antropólogo da Unicamp Omar Ribeiro Thomaz denunciou no último dia do encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, que funcionários da Embaixada brasileira em Porto Príncipe, capital do Haiti, estariam cobrando propina dos imigrantes que tentam obter o visto de trabalho devido a causas humanitárias.— Temos notícias de parentes de haitianos estabelecidos no Brasil que, tendo dinheiro para passagem e a carta-convite não conseguem porque pedem propina. Isso precisa ser verificado — afirmou Thomaz.
Em janeiro deste ano, quando foi verificado aumento do número de haitianos tentando entrar no Brasil, o governo estabeleceu um limite de 1.200 vistos de trabalho devido a causas humanitárias por ano.
Com pesquisas no Haiti desde 1998, Thomaz critica o governo brasileiro, dizendo que não existe motivo para verificar um movimento imigratório do Haiti para o Brasil devido ao baixo número de imigrantes, cerca de cinco mil. De acordo com ele, os haitianos fora do país têm um papel fundamental que é o envio de remessas de dinheiro para os parentes que ficaram. Isso seria fundamental para a recuperação da economia do país e da própria sobrevivência dos cidadãos.
— A diáspora é a única solução. Limitá-la é a maior crueldade que poderia ser feita — afirmou o antropólogo, que reitera: — O dinheiro das cooperações internacionais não chega para a população afetada pelo terremoto.
O cientista social Elder Andrade de Paula, da Universidade Federal do Acre, acompanhou o drama dos haitianos que entraram pelo Brasil pela cidade de Brasiléia, também no Acre.
— Parte deles tinha o Brasil como um momento temporário no processo migratório deles até a Guiana Francesa. Por alguma razão, eles pensaram que ficariam melhor lá, do que aqui no Brasil — afirmou Paula.
Para ele, o momento da maior chegada de haitianos foi ainda pior devido à enorme quantidade de desabrigados das chuvas no estado naquela época. O pesquisador ainda citou o fato de empresários brasileiros estarem escolhendo haitianos para trabalhar em suas empresas e utilizando como critério de seleção a canela fina ou grossa. Os de canela fina “seriam mais trabalhadores”.
Procurado, o Ministério das Relações Exteriores negou por meio de nota que seja cobrada propina para obtenção de vistos, dizendo que a Ouvidoria da Embaixada de Porto Príncipe está à disposição e que nunca recebeu nenhuma denúncia do tipo, teria ocorrido apenas o caso de uma haitiana. “Em junho passado, chegou ao conhecimento da Embaixada que cidadã haitiana estava intermediando a solicitação de vistos para grupos e deles cobrando taxas indevidas a título de facilitar, junto ao Setor Consular, a obtenção de visto para o Brasil. O fato foi imediatamente notificado às autoridades do Haiti, que deram início a investigação policial, com a consequente detenção em flagrante da pessoa suspeita.”

Decisão de juiz mineiro coloca em xeque a reforma da Previdência, Aline Reskalla - Agência Estado


Viúva poderá receber o valor integral da pensão que o marido ganhava quando estava vivo
BELO HORIZONTE - O juiz mineiro Geraldo Claret de Arantes, 58 anos, tomou uma decisão polêmica com base no julgamento do Mensalão que coloca em xeque a constitucionalidade da reforma da Previdência e abre precedente para uma série de ações contra leis votadas pelos parlamentares condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Ele determinou, em primeira instância, que uma viúva do interior de Minas receba o valor integral da pensão que o marido recebia quando estava vivo, de R$ 4.801. O valor atualmente pago pelo Instituto de Previdência dos Servidores de Minas Gerais (Ipsemg) à mulher foi reduzido para R$ 2.575,71 com a entrada em vigor da Emenda 41, em 2003. O Ipsemg informou que vai recorrer.

Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, o juiz Claret disse que o próprio STF já havia afirmado que a Emenda 41 foi aprovada "sob influência da compra de votos", e que o relator Joaquim Barbosa faz "relação clara da votação com a entrega de dinheiro". "Esta reforma está maculada definitivamente pela compra de votos, não representou a vontade popular. Ela padece do vício do decoro parlamentar", reitera o juiz.

Ele se disse surpreso com a repercussão de sua decisão, que considera taxativamente de inconstitucional, a Reforma da Previdência. "Essa reforma foi a mais violenta de todas na expropriação de direitos. Ela viola a cláusula pétrea da Constituição do direito adquirido. A pensão não é uma benesse, é o ressarcimento do que o cidadão pagou a vida inteira. Não pode o governo chegar no meio do jogo e mudar a regra, dizendo que ele vai receber a metade", justifica o juiz Claret.

Ele cita Maquiavel para condenar o argumento oficial de que a Previdência está falida: "Esse é um argumento da Idade Média. Quer dizer que, quando o interesse do príncipe for maior que o interesse do povo, prevalece o interesse do príncipe? Então querem tomar R$ 2 mil da viúva lá do interior para salvar a sétima economia do mundo?". E recorre a Padre Vieira para dizer que está com a consciência tranquila de que tomou a decisão certa. "O pior dos pecados é a omissão".

Para o presidente da OAB-MG, Luis Cláudio Chaves, a tese do juiz Geraldo Claret de Arantes tem fundamento e pode abrir precedente para mais ações nesse sentido. "O fundamento dele é interessante, amparado numa compra de votos que influenciou a vontade parlamentar. Se ficar provado que o processo legislativo sofreu uma influência por conta da compra de voto de parlamentares, ele pode ser considerado nulo", disse Chaves.

O vice-presidente da Confederação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Coap), José Ribeiro, comemorou a vitória da pensionista mineira, mesmo sendo ainda de primeira instância. "É uma decisão importante. Os aposentados só tiveram perdas com as leis que foram aprovadas. Estamos só esperando o fim do julgamento do Mensalão para ver, com o nosso departamento jurídico, como exigir o ressarcimento de todo o dinheiro que nos foi tomado com a Reforma da Previdência".

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As três fatias do bolo eleitoral, por Elio Gaspari

Faltam poucos dias para o desfecho da eleição municipal e são fortes os sinais de que o PT terá o que comemorar. Qual a explicação para o desempenho dos companheiros se a economia vai devagar, quase parando, e a cúpula do partido de 2005 está a caminho do cárcere?

Aqui vai uma tentativa: desde 2002, quando Lula assinou a Carta aos Brasileiros e venceu a eleição incorporando pilares da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, o PT move-se livremente sobre o campo adversário (quem quiser, pode dizer que ele vai à direita, mas essa imagem é insuficiente).

Já a oposição, petrificada, não consegue sair do lugar. Em alguns momentos, radicaliza-se, incorporando clarinadas do conservadorismo europeu e americano. O tema do aborto, do kit-gay e a mobilização do cardeal de São Paulo ao estilo da Liga Eleitoral Católica dos anos 30 exemplificam essa tendência (registre-se aqui a falta que faz Ruth Cardoso. Com ela, não haveria hipótese de isso acontecer.)

Admita-se que o eleitorado divide-se em três fatias. Uma detesta o PT e tem horror a Lula. Outra, no meio, pode ir para qualquer lado. O terceiro bloco gosta de Nosso Guia e não se incomoda quando ele pede que vote em seus postes.
Se um bloco se move e o outro fica parado, sempre que houver eleição, o PT prevalecerá.

Some-se à paralisia da oposição uma ilusão retórica. Desde 2010 suas campanhas eleitorais estruturam-se como pregações aos convertidos. O sujeito tem horror a Lula, ouve os candidatos que o combatem e fica duas vezes com mais raiva. Tudo bem, mas continua tendo apenas um voto.

Já o PT segue uma estratégia oposta. Sabe que os votos de esquerda vêm por gravidade e vai buscar apoios alhures.

A crença de que o julgamento do mensalão seria uma bala de prata para a oposição revelou-se falsa. Já as crendices petistas segundo as quais o Supremo tornou-se um tribunal de exceção ou que o impacto de suas sentenças seria irrelevante são um sonho maligno.

As condenações podem ter sido eleitoralmente insuficientes para derrotar os companheiros, mas não foram irrelevantes. O PT deve prestar atenção à voz do Supremo, pois a Corte não é uma mesa-redonda de comentaristas esportivos. Ela é o cume de um poder da República.

Eleição não absolve réu, assim como o Supremo não elege prefeito. Se Lula e o PT acreditarem que o eleitorado respondeu ao Supremo, estarão repetindo o erro dos generais que viam nos resultados dos pleitos da década de 70 uma legitimação indireta do que se fazia, com seu pleno conhecimento, nos DOI-Codi.

O comissariado deveria ter a honestidade de admitir que acreditou na impunidade dos mensaleiros. Resta-lhe agora o vexame de reformar o estatuto do partido, que determina a expulsão dos companheiros condenados em última instância.

A oposição tem dois anos para articular uma agenda que lhe permita avançar sobre a plataforma petista. Ela não precisa se preocupar com a turma que detesta Lula, essa virá por gravidade, assim como os adoradores de Nosso Guia continuarão seguindo-o.

Fazendo cara feia para os programas sociais do governo, para as políticas de ação afirmativa nas universidades e para a expansão do crédito popular, ela organizará magníficos seminários. Eleição? É coisa de pobre.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Jaguar: Conselhos para quem viaja


Serei breve: não viaje. Viagens são como os filhos de que falava Vinicius, o incrível garoto de quase 100 anos: “Melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-lo?” Invejo antigos viajantes. Marco Polo não tinha que passar pelo crivo da Alfândega. Em aeroportos são praticadas torturas dignas da Inquisição. Para a polícia, todos os viajantes são considerados traficantes até prova em contrário. Temos que apresentar todo tipo de documentação, atestados e comprovantes até chegar ao almejado nada-consta. Antes somos submetidos a constrangedores strip teases: tirar sapatos, cintos, ficando literalmente de calças na mão.

Portadores de bonés (meu caso) são extremamente suspeitos porque, como todos sabem, podem ocultar armas letais nessa perigosa peça do vestuário. Em posição de crucificado, somos apalpados e, pior, sempre por entediados policiais do mesmo sexo. Bagagens são vasculhadas no raio-X até a almejada liberação, depois de todo tipo de humilhações. Sem falar na apreensão de objetos que podem ser usados para sequestros aéreos, perigosas tesourinhas de unha e canivetes suíços de estimação. Ultrapassadas essas barreiras, toca a andar: são quilômetros a serem percorridos até o portão, digamos, 28, empurrando malas e sacolas. De olho no painel com os horários de partidas e chegadas e ouvido para os avisos ininteligíveis sussurrados pelos alto-falantes.

A maioria dos passageiros é de velhos como eu, com problemas de locomoção, ouvido e visão. Quando você consegue, com os bofes pra fora, chegar ao portão, digamos, 28, é informado (se conseguir ouvir) que o embarque foi transferido para o portão, digamos, 2. Há a opção de escolher ir de carrinho para deficientes físicos, sendo olhado com raiva e inveja pelos colegas etários atropelando japoneses. Como observou Millôr, não existe um japonês, eles estão sempre em grupos. Tenho uma tese: todos os japoneses não cabem naquela ilha; eles revezam, metade viaja e metade fica lá. E olha que nem ainda não embarcamos!

***

Dilma não tem culpa. Mas nem na Conchinchina o Chefe do Governo desmarcaria uma reunião por causa de uma novela de TV.

Cartas de Toronto: Memórias de uma vida acadêmica


Quando ainda pensava em ser atriz, eu me apaixonei pela PUC-Rio. Nas viagens de Campo Grande para o Planetário da Gávea, eu fingia me distrair e deixava o 410 contornar a universidade antes de ir para a aula de teatro. Em 1988, fazer parte de um dos cursos de jornalismo mais respeitados do Brasil era um sonho muito distante para esta suburbana que vos escreve.
Como a vida dá voltas, a PUC-Rio acabou sendo minha universidade em 2001. A mensalidade foi resolvida com uma das generosas bolsas de assistência social que a universidade oferece todos os anos. Março de 2001 marcou o início dos quatro melhores anos da minha vida, das melhores amizades e da concretização de todos os meus sonhos.
Onze anos se passaram e, no mesmo mês em que o Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio comemora 60 anos, aceito o título de mestre em produção de mídia na Ryerson University aqui em Toronto. De formas distintas, ambas universidades moldam minhas ambições e meu caminho profissional.


Na PUC-Rio, aprendi a editar, escrever e ensinar. Lembro como se fosse hoje do início do Núcleo de Comunicação Comunitária e das aulas inspiradas de Álvaro Lins e Arthur Dapieve. Nunca vou esquecer a conversa que tive com Fernando Ferreira depois do anúncio nervoso de partida do Projeto Comunicar. “Prove que eu tomei a decisão certa ao te contratar,” disse o mestre.
A passagem pelo Projeto durou exatos 15 dias e dois artigos – um perfil e a cobertura de um evento na universidade. Em 2003, eu deixava para trás uma série de estágios na universidade por outro em TV.
Na Ryerson, redescobri o meu amor pela arte de fazer televisão. Dentro da universidade, revisitei teorias perdidas em anos no mercado de trabalho, passei a acreditar que a próxima geração de telespectadores já existe e quer participar na produção de conteúdo, e estive muitas vezes no lugar certo, na hora certa. Aqui no norte gelado, numa das universidades mais jovens do país, fui desafiada por grandes exemplos.
A cerimônia de quinta-feira em nada se assemelhou à festa de 2005. Por aqui, a formatura (ou convocation) é organizada pela própria universidade e os alunos são chamados de acordo com o grau alcançado. Durante a cerimônia, o ator Colm Wilkinson (The Tudors,Les Misérables) recebeu o título Doutor Honoris Causa em Direito. Em seu discurso, Wilkinson aconselhou seguir a profissão com amor, trabalhar duro e lembrar de se autopromover.
Mas hoje escrevo com orgulho sobre aqueles que mudaram meu destino e das memórias que passarei para meus filhos...
(Parabéns a todos os coleguinhas filhos da PUC!)

Veronica Heringer é bacharel em Jornalismo pela PUC-Rio, mestre em Media Production pela Ryerson University e estrategista em marketing digital. Bloga noMadame Heringer.com

Momento de decisão, por DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo


O ministro Celso de Mello não se abala com ataques aos procedimentos do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão nem se deixa impressionar pelos elogios. "Isso tudo é passageiro", ameniza.

Permanente mesmo - o mais importante na opinião dele - é o "alto poder pedagógico" do processo, cuja essência não está na distinção entre técnica e política, mas em seu caráter moral. "A peça fundamental em exame é a ética de governos."

Obviamente o ministro repudia a versão de que o STF estaria atuando como um "tribunal de exceção", distanciando-se do rigor legal para enveredar pelo terreno da perseguição a um partido: "Os conceitos emitidos não estão distanciados da realidade constitucional. Ao contrário. A fidelidade à Constituição é que nos permite demonstrar a transgressão".

O juízo definitivo, considera, será dado pela percepção do País a respeito do que vem sendo dito há quase três meses pelo Supremo. "Há um esforço do tribunal para que a coletividade saiba perfeitamente por que os réus são condenados ou absolvidos."

Daí a utilidade e a necessidade de os ministros sustentarem seus votos em argumentos doutrinários e também em princípios como o defendido por ele no dia 1.º de outubro na condenação de deputados por corrupção passiva: "Quem tem nas mãos o poder do Estado não pode exercer o poder em proveito próprio".

Celso de Mello acompanha todas as críticas, lê os sites mais desaforados, cita autores, reproduz trechos de memória. Descontado o desconforto com as que "beiram a irracionalidade" e as que "resvalam para a ofensa pessoal", celebra o "pluralismo de ideias" e aponta que aí reside a beleza da democracia.

"Ruim era o tempo em que injúrias a ministros do Supremo eram consideradas crimes de lesa-pátria", diz, exibindo como prova o artigo da Lei de Segurança Nacional ainda em vigor, mas neste aspecto letra morta. "Ainda bem", comemora.

O decano, desde 1989 na Corte, prepara-se para dar por encerrada sua missão - "este é meu último outubro aqui" - antecipando uma aposentadoria que por idade ocorreria só em 2015, a conselho do médico por causa das sucessivas crises de hipertensão.

Não provocadas, mas agravadas pelo excesso de trabalho do processo em curso, "uma exaustiva maratona". O esgotamento físico, contudo, é, na visão do ministro, largamente compensado pela oportunidade de estabelecer novos paradigmas no trato de crimes cometidos a partir do controle do aparelho de Estado.

"Não estamos julgando simples delitos de corrupção, estamos diante de uma ação corruptora destrutiva do fundamento essencial da República, que é a separação dos Poderes e o equilíbrio entre eles."

A tentativa de subjugar o Legislativo às vontades do Executivo e ainda mediante a compra dessa submissão, na concepção de Celso de Mello, afronta a integridade do Estado de direito e põe em risco a garantia das liberdades.

Como? O decano explica: "Se um dos Poderes concentra toda a força e, mais grave, constrói essa hegemonia por meio de iniciativa criminosa, o que se tem é uma aguda distorção institucional decorrente da ilicitude e do modo imperial de governar".

A expectativa do ministro é que esse julgamento funcione também como um estímulo à restauração dos preceitos republicanos.

Torce para que a sociedade compreenda o panorama que emerge de todo esse debate e se esforce para defender seu direito de contar com "administradores íntegros, parlamentares probos e juízes incorruptíveis".

Para Celso de Mello a mensagem do STF está dada: "A absoluta intolerância do Poder Judiciário em face de atos de corrupção".

Sobre o maior ou menor alcance que isso terá daqui em diante o melhor juiz é "o povo brasileiro" que, na opinião do ministro, vive "um momento de decisão".

Sicofantas e tagarelas, por ROBERTO ROMANO - n' O Estado de S.Paulo


FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP); É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE 'O CALDEIRÃO DE MEDEIA' (PERSPECTIVA) -
A palavra é o maior valor ético na ordem pública. Graves atentados ao decoro político são cometidos por gestos e incontinências verbais. Segundo Spinoza, o respeito exige que os governantes sejam prudentes quando movem a língua e o corpo. Ele adverte: "O Estado, para garantir o próprio domínio, se obriga a manter as causas do temor e do respeito (...). Aos que assumem o poder público é proibido se exibir em plena embriaguez ou sem roupas na companhia de prostitutas, imitar os palhaços, violar ou desprezar abertamente as leis editadas por eles mesmos" (Tratado Político). Gestos ou palavras devem ser medidos na política.

Quem não controla a fala por ela é dominado. A prudência requer disciplina e caráter. É árduo, diz Plutarco, "fazer dos dentes uma barreira sólida contra o dilúvio da língua". Usando termos da medicina, o teórico batiza a moléstia que acomete o falador como asingesia, a impossibilidade de manter silêncio. Ao piorar a doença, chega-se à diarréousi, a diarreia da boca (Sobre o Palavrório). As frases devem ser pesadas (a origem de "pensar" e "pesar" é comum). Caso oposto, elas aniquilam a sociedade. A ninguém é lícito ignorar a polidez, marca do convívio civil. Sem respeito pelas normas do pacto social, os líderes transformam os cidadãos em alcateia facínora cuja boca é usada para estraçalhar, nunca para exercer o diálogo.

Vejamos a semântica do termo "delator", aplicado pela mídia ao sr. Roberto Jefferson. A origem do termo é grega, como quase todos os vocábulos relevantes de nossa política e medicina. Hoje atravessamos uma crise inédita do Estado. O soberano não consegue exercer na plenitude os monopólios da ordem jurídica, dos impostos, da violência física. Preocupa a incerteza quanto aos limites dos Poderes. Há bom tempo se discute nos meios políticos, ideológicos, religiosos e financeiros a "judicialização" da vida pública, a hipertrofia do Judiciário (C. Neal Tate, The Global Expansion of Judicial Power, 1995).

Em Atenas não existia Ministério Público e nenhuma autoridade legal poderia entrar na Justiça em defesa dos interesses estatais. Cabia "a quem desejasse" (fórmula democrática instaurada por Sólon) o direito de falar em nome do Estado. Quem assim fazia se tornava parte do processo judicial em favor da "polis". Aqueles indivíduos agiam por amor à justiça? Já nos primórdios da vida democrática grega os magistrados desconfiaram dos interesses que movem os acusadores. Logo transformada em profissão, a atividade do sicofanta esmera-se na chantagem pecuniária (para responder em nome alheio a acusação ou renunciar a um processo perigoso para o acusado).

O mister de sicofanta, segundo C. R. Kennedy (citado por John Oscar Lofberg em Sycophancy in Athens, 1976), é "uma feliz mistura de chicaneiro, denunciador, processualista, apalpador, salafrário, mentiroso e caluniador. Ela supõe a calúnia, a conspiração, a acusação mentirosa, a litigância de má-fé, a ameaça de processos judiciais para extorquir dinheiro e, de modo geral, todos os recursos abusivos nos procedimentos legais com fins desonestos".

A inflação dos sicofantas ameaçava a democracia ateniense, pois dividia os cidadãos, enfraquecendo a solidariedade coletiva. Aristófanes dá o nome de "vespas" aos delatores, porque suas picadas molestam a paz coletiva. Embora sua existência se universalize, o delator é odiado. Como no inferno descrito por Sartre, sicofanta é sempre o outro (Catherine Darbo-Peschanski, Por um punhado de figos, judicialização moderna e sicofantismo antigo - in Pauline Schmitt Pantel: Athènes et le Politique).

No Direito Romano, quem denuncia pode funcionar como acusador. Caius permite que escravos delatem seus mestres, mas Claudius proíbe a prática e Galba a pune. Constantino veta a oitiva dos delatores e os condena à morte. No Digesto, a delação é tida como odiosa. Na ordem moderna, o delator aponta o crime, mas o acusador é o interessado em repará-lo buscando a justiça dos tribunais.

No século 18, era das Luzes, o problema apaixona pensadores e políticos. A Enciclopédia coordenada por Denis Diderot disseca o tema. Em verbete é dito que "denunciar, acusar, delatar são termos relativos ao mesmo ato por diferentes motivos. O estrito apego à lei parece motivar quem denuncia, um sentimento honrado ou gesto razoável de vingança, ou uma outra paixão, são marcas de quem acusa. No caso do delator a devoção baixa, mercenária ou servil, o prazer malicioso de fazer o mal aos outros, tudo pode ocorrer sem que ele receba benefícios em troca. Acreditamos que o delator atraiçoa; que o acusador é uma pessoa irritada; que o denunciante é alguém indignado. Embora as três figuras sejam odiosas para a opinião pública, o filósofo às vezes deve elogiar o denunciante e aprovar o acusador. O delator é sempre desprezível".

Temos aí o saber dos séculos contra Roberto Jefferson.

E a "tese" sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) como tribunal de exceção? A língua assim usada contra os juízes é imprudente. O delator indicou ações cometidas por ele e comparsas e foi sancionado negativamente. Os juízes do caso não agiram segundo os moldes do soberano "que decide sobre o estado de exceção". Defensores da Carta Magna, eles não se colocaram acima dela. Tal realidade represa a torrente de palavras e de insultos dirigidos contra os magistrados.

Exigir que todos sejam punidos de modo semelhante, sem discriminação partidária ou ideológica, é um avanço democrático. Nivelar instituições e malfeitores sinaliza o pior atraso político. Hoje é o mensalão petista. Amanhã, o tucano e quejandos. Mas todos os partidos dependem da justiça. Se um deles a recusa alegando "golpismo burguês", a quem apelar no futuro? Às Forças Armadas, às milícias, à guerrilha?

Prudência, senhores, recordem a lição de Fujimori.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cabral anuncia pacificação de Adriano


The i-piauí Herald

PARIS - Em coletiva de imprensa realizada no restaurante La Serviette, o governador Sérgio Cabral anunciou a operação mais arriscada de sua gestão: a instalação de uma UPP no Clube de Regatas do Flamengo.
"Metade da população carioca, enfim, poderá dormir tranquila, livre da ameaça de rebaixamento. Vamos ocupar o Flamengo com dirigentes do BOPE. Até o final do ano, Adriano estará pacificado", anunciou, emocionado.

 

Adriano fez testes para enxergar o Fluminense na tabela
Cabral detalhou a logística da operação: uma ação especial transformará os bailes funks da Chatuba em concertos de violino. Em paralelo, o Fantástico regulará o consumo alcoólico no craque no quadro Bebida Certa. Cada vez que faltar a um treinamento, Adriano será obrigado a cancelar quinze linhas de telefone celular.
"A punição é cruel, mas precisamos evitar recaídas", explicou o secretário de segurança José Mariano Beltrame.
Animado com a repercussão positiva da medida, Cabral antecipou as pacificações de Dado Dolabella, Protógenes Queiroz e Massaranduba.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Meu amigo Zé, por Flavio TAVARES


Entre cenas do exílio e capítulos decisivos no País, ex-companheiro de Dirceu o vê como bode expiatório de uma dregradação maior   FLÁVIO TAVARES É JORNALISTA, ESCRITOR E FOI UM DOS 15 PRESOS POLÍTICOS TROCADOS PELO EMBAIXADOR DOS EUA EM 1969 - O Estado de S.Paulo

Tempos atrás, na prisão da ditadura, o carcereiro o chamava de "Cabeleira" e, hoje, outra vez ele está de cabelos longos, como se voltasse ao passado. Conheço José Dirceu há 43 anos e, nele, admiro e valorizo a coragem pessoal. A amizade começou naquele 6 de setembro de 1969 em que, sob a mira de metralhadoras, nos algemaram na Base Aérea do Galeão. Saíamos da prisão (ele em São Paulo, eu no Rio) e nos levaram à pista para uma foto que percorreu o mundo: os presos políticos trocados pelo embaixador dos Estados Unidos junto ao avião, rumo ao exílio no México. Era proibido falar, mas nos segundos em que mandaram que eu me agachasse, sussurrei: "Vamos mostrar as algemas!"
'Cabeleira'. Ibiúna, 1968: seu passado não está em julgamento nem serve de escudo ao presente - AE
AE
'Cabeleira'. Ibiúna, 1968: seu passado não está em julgamento nem serve de escudo ao presente
E ali está ele na foto, altivo, mãos ao peito, com as algemas que a maioria escondia, mostrando que preso político não é um criminoso envergonhado do que fez, mas um dissidente que desafia quem oprime. Foi a primeira e única vez na vida que Zé Dirceu me obedeceu...
A intimidade do exílio nos aproximou. Um canal de TV convidou-me a dublar telenovelas mexicanas em português e levei junto Zé Dirceu. Eu dublava e coordenava o grupo e o designei "primeiro ator". Dias depois, porém, ele e os demais viajaram para Cuba. Só eu permaneci no México e, assim, nem sequer nossas vozes retornaram ao Brasil, para onde não podíamos voltar.
Ele, porém, desafiou a proibição. A morte era a pena imposta ao retorno dos desterrados, mas Zé voltou, clandestino, em 1972, na euforia e terror do general Medici. Treinado em guerrilha, queria aliar-se aos que combatiam a ditadura, mas na chegada a São Paulo viu que a repressão dizimava seu grupo e ele seria a próxima vítima. Homiziou-se no oeste do Paraná e mudou de nome. Passou a ser Carlos Henrique, pacato comerciante de secos e molhados num recôndito município. Lá, casou-se e foi pai sem revelar quem era nem sequer à mulher e ao filho. A verdade significaria a morte e ele passou a ser outro.
Já não era quem era. Sacrificava a identidade para não ser sacrificado. No exílio, dizia-se que morrera como outros do "grupo Primavera", nome do lugar de treinamento em Cuba. Com a anistia do final de 1979, voltou a ser o Zé. Laborioso e hábil, presidiu o PT e o tirou do atoleiro de seita fechada ou partido sindical. Mas, ao se abrir à sociedade, o PT assimilou os velhos vícios políticos, como vírus pelas veias.
Quando Lula presidente, eram de Zé Dirceu os planos e atos de governo. Lula presidia, Zé governava. Irmãos siameses, um era a extensão do outro. A simpatia ficava com Lula, as antipatias com Zé. Pródigo em metáforas esportivas, o presidente o chamava de "capitão do time". Mas Zé era dos poucos que não jogava bola com Lula em fins de semana na Granja do Torto. Trabalhava noutras jogadas com outras bolas. Assim, o governo obteve maioria no Congresso e, hoje, se sabe a que preço e como - subornando o PMDB, o PTB, o PP de Maluf e o PL, que hoje é PR.
Em 2005, no topo do escândalo, sabe-se que Lula pensou em renunciar para "não ser um novo Collor". Outra vez a coragem de Zé Dirceu brotou como água no deserto e ele é que renunciou. Com o gesto, assumiu as responsabilidades e blindou Lula em pleno tiroteio. "Eu não sabia de nada, fui traído", dizia Lula, admitindo o suborno quando ainda se desconheciam os detalhes. Preferia passar por tolo do que por chefe do governo.
Agora, as 40 mil folhas do processo no Supremo Tribunal mostram o "mensalão" como um elaborado esquema de corrupção e suborno montado a partir "da alta cúpula do governo". Mas, o mais alto da "alta cúpula" não é réu. A não ser que o presidente fosse alienado absoluto ou pateta total, como explicar que um simples diretor de marketing do Banco do Brasil desviasse R$ 28 milhões do fundo Visanet sem autorização superior? A diretoria do banco nada percebeu? E a inspeção do Banco Central?
Não há suborno sem subornáveis e a degradação dos partidos gerou tudo. A "partidocracia" se sobrepôs à democracia. Roberto Jefferson fez a denúncia por sentir-se "lesado" ao receber só uma das cinco parcelas de R$ 4 milhões prometidas ao PTB... Com partidos transformados em balcões de negócios, o astucioso "mensalão" quebrou a oposição criando uma "base alugada" como base aliada.
A degradação chegou ao próprio PT. Numa das vezes em que estive com Zé Dirceu, após a cassação, ele me mostrou como a Polícia Federal invadira seu escritório em busca de documentos. Tarso Genro era ministro da Justiça e na disputa interna todos queriam comprometer Dirceu para tornar-se "o favorito do rei".
E as provas da fraude? Na engrenagem clandestina, oculta-se tudo. Ou alguém pensa que os corrompidos assinam recibo? Ou que João Paulo Cunha e os demais de São Paulo emitiram "nota paulista" pelo que abocanharam?
Nos delitos de alto nível, os indícios constroem a prova. Os Bancos do Brasil, Rural e BMG geraram as milionárias movimentações do esquema e daí surge tudo. Não foi sequer como no tempo de Fernando Henrique, quando a tão comentada compra de votos que permitiu a reeleição de presidente, governador e prefeito, surgiu numa manobra rápida, até hoje sem autor plenamente identificado.
Na tragédia, o terrível é que a determinação de Zé Dirceu o tenha levado ao topo de tudo, como bode expiatório da degradação maior. Mas nem seu passado de coragem pode livrá-lo da parcela de culpa. O passado não está em julgamento nem serve de escudo ao presente.

A grande lição, por Míriam Leitão , O Globo


Dois erros opostos estão sendo cometidos na reação ao julgamento do mensalão.

Aproveitar-se politicamente do momento doloroso para um grupo político, dizendo que ele é a condenação de um único partido; acusar o Supremo Tribunal Federal de ser um tribunal de exceção.

Setores da oposição cometem o primeiro; o PT é responsável pelo segundo, e pior, dos erros.

O segundo é mais perigoso porque enfraquece a confiança na democracia. Alguns dos que fazem a acusação ao STF já enfrentaram tribunais de exceção e sabem exatamente a diferença de ser julgado pela Justiça Militar, sem direito de defesa e com leis criadas pela ditadura.

Agora, todos têm amplo direito de defesa, as leis que recaem sobre eles são legítimas, o devido processo legal tem sido seguido, todo o debate é aberto e transparente, a sentença é colegiada.

O primeiro é um equívoco de quem não entende, ou não quer entender, o sentido da travessia que o país está fazendo. A lei da ficha limpa e o julgamento do mensalão são etapas do processo de aperfeiçoamento da democracia representativa.

O país quer representantes nos quais confiar, quer critérios de exercício de poder que separem o público do privado, quer transparência e prestação de contas no uso do dinheiro coletivo.

Há vários sinais de que a nova etapa da busca de maior qualidade da democracia é uma exigência do país como um todo. Os condenados têm feito acusações de que há uma suposta conspiração da “mídia conservadora” e que o Supremo se comporta como uma corte das ditaduras.

O mais correto é que vissem o que cometeram de errado, para aprender com os erros. A acusação é lesiva, perigosa, injusta e falsa.

Provavelmente a imprensa cometeu erros na cobertura e tem que humildemente ver onde estão os equívocos e eventuais excessos para corrigi-los. Mas a acusação de conspiração é um delírio.

A imprensa está acostumada com as críticas, algumas fundamentadas, outras resultado da natural tendência de culpar-se o mensageiro. Imprensa não é um conceito monolítico, há vários meios, opiniões diferentes e escolhas editoriais divergentes.

O mais perigoso para a democracia é que os réus e seus apoiadores acusem o órgão máximo do Poder Judiciário. As acusações são mentirosas e minam a confiança num pilar da democracia.

A cúpula do PT quando faz isso, reproduz a mesma atitude torta do início de sua vida como partido, quando costumava não reconhecer as derrotas e levantar aleivosias de fraude.

Até a imprensa internacional já entendeu a impossibilidade de ser tudo um golpe contra o governo. Primeiro, porque ele já concluiu seu mandato. Segundo, porque o Supremo tem a maioria de integrantes nomeados nos mandatos de Lula e Dilma e os procuradores-gerais foram escolhidos pelo ex-presidente e a atual mandatária.

A tese não tem a mínima plausibilidade e é um atentado à confiança no Estado de Direito.

É um momento doloroso para o Partido dos Trabalhadores. Dois dos seus ex-presidentes e dirigentes estão sob a ameaça concreta de irem para a prisão. Alguns já estiveram presos por motivos que engrandecem suas biografias.

Mas, como bem explicou a ministra Cármen Lúcia, não se está julgando biografias. E alguns dos réus têm muito do que se orgulhar em suas trajetórias de vida. Os acertos antigos não lhes deram imunidade. Os erros atuais não tiram o mérito dos velhos atos de bravura.

O que está sendo condenado é o uso do aparato de Estado como propriedade partidária para um projeto de perpetuação no poder. Isso é inaceitável em qualquer partido. Essa é a grande lição.

Cartas de Toronto: Bullying não é novidade, mas cyber bullying é


Sim, assim como qualquer adolescente no mundo, eu fui perseguida na escola. Fui bullied por ser magra demais, mas também impliquei com a aparência dos outros e passei tardes no telefone falando mal da fulana de tal. Vi meninos populares empurrando os nerds, vi meninos tidos como CDFs escondendo a raiva enquanto um menino marrento fazia chacota dele perto das meninas.
Bullying não é novidade, mas eu nunca compararia a realidade analógica da minha adolescência ao mundo híper-conectado de 2012. No meu tempo, professores interferiram mais e se a perseguição chegasse ao extremo, mudar de escola e se reinventar era uma possibilidade real.
A adolescente de 16 anos, Amanda Todd, passou por várias escolas antes de publicar o seu vídeo no YouTube. Hoje, visto por mais de 1.6 milhão de pessoas, o vídeo narra a trajetória de uma menina que por quatro anos conviveu com atentados via internet e na escola. Após anos de autoflagelação, tentativas de suicídio e tratamento com antidepressivos, Amanda se enforcou em sua casa em Port Coquitlam, na província de British Columbia.


A história de Amanda começou numa sala de bate-papo com vídeo. Como descreveu em seu vídeo, ela e alguns amigos costumavam usar a webcam para “fazer novos amigos.” Durante uma conversa com um grupo de desconhecidos, depois de receber inúmeros elogios de estranhos, a jovem Amanda de 12 anos mostrou os seios para a câmera pensando que a conversa terminaria naquela sala de bate-papo.
Dias depois, Amanda recebeu um email via Facebook no qual uma pessoa não-identificada ameaçava divulgar fotos dela semi-nua na internet caso ela não topasse fazer um show privativo. Amanda ignorou a mensagem, mas seu perseguidor cumpriu a promessa.
E durante as férias de Natal sua família foi acordada às quatro da manhã pela polícia que investigava o vazamento das fotos de Amanda na internet. Segundo Amanda, obully sabia todos os detalhes de sua vida, do nome dos pais a onde ela morava.
A canadense Amanda Todd não é a primeira vítima do cyber bullying e, infelizmente, não será a última. No entanto, a sua morte reabriu uma discussão necessária sobre o quanto o assédio moral promovido por anônimos e conhecidos na internet deve ser tratado por pais, educadores e pelo sistema criminal canadense.
A polícia canadense investiga o caso e, dada a repercussão pública, também monitora as mídias sociais em busca de pistas.
Enquanto isso, todos tentam entender como a vida de Amanda poderia ser poupada...
E no Brasil, como educadores e responsáveis monitoram a atividade online e protegem seus filhos do cyber bullying?

Veronica Heringer é bacharel em Jornalismo pela PUC-Rio, mestre em Media Production pela Ryerson University e estrategista em marketing digital. Bloga noMadame Heringer.com 

domingo, 14 de outubro de 2012

Os marginais do poder


MARCO ANTONIO VILLA - HISTORIADOR. É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS - n' O Estado de S.Paulo

Vivemos um tempo curioso, estranho. A refundação da República está ocorrendo e poucos se estão dando conta deste momento histórico. Momento histórico, sim. O Supremo Tribunal Federal (STF), simplesmente observando e cumprindo os dispositivos legais, está recolocando a República de pé. Mariana - símbolo da República Francesa e de tantas outras, e que orna nossos edifícios públicos, assim como nossas moedas - havia sido esquecida, desprezada. No célebre quadro de Eugène Delacroix, é ela que guia o povo rumo à conquista da liberdade. No Brasil, Mariana acabou se perdendo nos meandros da corrupção. Viu, desiludida, que estava até perdendo espaço na simbologia republicana, sendo substituída pela mala - a mala recheada de dinheiro furtado do erário.

Na condenação dos mensaleiros e da liderança petista, os votos dos ministros do STF têm a importância dos escritos dos propagandistas da República. Fica a impressão de que Silva Jardim, Saldanha Marinho, Júlio Ribeiro, Euclides da Cunha, Quintino Bocayuva, entre tantos outros, estão de volta. Como se o Manifesto Republicano de dezembro de 1870 estivesse sendo reescrito, ampliado e devidamente atualizado. Mas tudo de forma tranquila, sem exaltação ou grandes reuniões.

O ministro Celso de Mello, decano do STF, foi muito feliz quando considerou os mensaleiros marginais do poder. São marginais do poder, sim. Como disse o mesmo ministro, "estamos tratando de macrodelinquência governamental, da utilização abusiva, criminosa, do aparato governamental ou do aparato partidário por seus próprios dirigentes". E foi completado pelo presidente Carlos Ayres Brito, que definiu a ação do PT como "um projeto de poder quadrienalmente quadruplicado. Projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto". Foram palavras duras, mas precisas. Apontaram com crueza o significado destrutivo da estratégia de um partido que desejava tomar para si o aparelho de Estado de forma golpista, não pelas armas, mas usando o Tesouro como instrumento de convencimento, trocando as balas assassinas pelo dinheiro sujo.

A condenação por corrupção ativa da liderança petista - e por nove vezes - representaria, em qualquer país democrático, uma espécie de dobre de finados. Não há no Ocidente, na História recente, nenhum partido que tenha sido atingido tão duramente como foi o PT. O núcleo do partido foi considerado golpista, líder de "uma grande organização criminosa que se posiciona à sombra do poder", nas palavras do decano. E foi severamente condenado pelos ministros.

Mas, como se nada tivesse acontecido, como se o PT tivesse sido absolvido de todas as imputações, a presidente Dilma Rousseff, na quarta-feira, deslocou-se de Brasília a São Paulo, no horário do expediente, para, durante quatro horas, se reunir com Luiz Inácio Lula da Silva, simples cidadão e sem nenhum cargo partidário, tratando das eleições municipais. O leitor não leu mal. É isso mesmo: durante o horário de trabalho, com toda a estrutura da Presidência da República, ela veio a São Paulo ouvir piedosamente o oráculo de São Bernardo do Campo. É inacreditável, além de uma cruel ironia, diante das condenações pelo STF do núcleo duro do partido da presidente. Foi uma gigantesca demonstração de desprezo pela decisão da Suprema Corte. E ainda dizem que Dilma é mais "institucional" que Lula...

Com o tempo vão ficando mais nítidas as razões do ex-presidente para pressionar o STF a fim de que não corresse o julgamento. Afinal, ele sabia de todas as tratativas, conhecia detalhadamente o processo de mais de 50 mil páginas sem ter lido uma sequer. Conhecia porque foi o principal beneficiário de todas aquelas ações. E isso é rotineiramente esquecido. Afinal, o projeto continuísta de poder era para quem permanecer à frente do governo? A "sofisticada organização criminosa", nas palavras de Roberto Gurgel, o procurador-geral da República, foi criada para beneficiar qual presidente? Na reunião realizada em Brasília, em 2002, que levou à "compra" do Partido Liberal por R$ 10 milhões, Lula não estava presente? Estava. E quando disse - especialmente quando saiu da Presidência - que não existiu o mensalão, que tudo era uma farsa? E agora, com as decisões e condenações do STF, quem está mentindo? Lula considera o STF farsante? Quem é o farsante, ele ou os ministros da Suprema Corte?

Como bem apontou o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, o desprezo pelos valores republicanos chegou a tal ponto que ocorreram reuniões clandestinas no Palácio do Planalto. Isso mesmo, reuniões clandestinas. Desde que foi proclamada a República, passando pelas sedes do Executivo nacional no Rio de Janeiro (o Palácio do Itamaraty até 1897 e, depois, o Palácio do Catete até 1960), nunca na História deste país, como gosta de dizer o ex-presidente Lula, foram realizadas na sede do governo reuniões desse jaez, por aqueles que entendiam (e entendem) a política motivados "por práticas criminosas perpetradas à sombra do poder", nas felizes, oportunas e tristemente corretas palavras de Celso de Mello.

A presidente da República deveria dar alguma declaração sobre as condenações. Não dá para fingir que nada aconteceu. Afinal, são líderes do seu partido. José Dirceu, o "chefe da quadrilha", segundo Roberto Gurgel, quando transferiu a chefia da Casa Civil para ela, em 2005, chamou-a de "companheira de armas". Mas o silêncio ensurdecedor de Dilma é até compreensível. Faz parte da "ética" petista.

Triste é a omissão da oposição. Teme usar o mensalão na campanha eleitoral. Não consegue associar corrupção ao agravamento das condições de miséria da população mais pobre, como fez o ministro Luiz Fux num de seus votos. É oposição?

Nas mansões do Supremo e do Divino, EPOCA, RUTH DE AQUINO


Era uma manhã de sol na praia deserta de Geribá, em Búzios, bem cedo. Ano 2005. José Dirceu fazia exercícios na areia. Em forma, bronzeado. Acabara de cair da chefia da Casa Civil do governo Lula, acusado de mandante do mensalão. Perguntei, como uma banhista qualquer: “Como vai a vida, ministro?”. “Vai bem”, respondeu ele com um sorriso, “enquanto a imprensa não me descobrir aqui”.

Mesmo destituído do poder oficial, não temia cair em desgraça. Jamais suporia, em seu pior pesadelo, que sete anos depois teria de encarar a execração pública, condenado como um criminoso na mansão do Supremo. Dirceu virou Zé, um vilão do folhetim político brasileiro, o “mandante de um golpe contra a democracia”. Mas se considera uma vítima.

Na mansão do Divino, a vilã Carminha foi condenada e chamada de vagabunda. O capítulo em que a personagem de Adriana Esteves foi desmascarada coincidiu com um imenso salto de consumo de energia elétrica. Se o ápice do julgamento na mansão do Supremo era o destino de José Dirceu, na fictícia Avenida Brasil o clímax chegou antes do fim. O que acontecerá agora na novela é secundário, diante da catarse nos sofás brasileiros com a execração de Carminha, a vilã que manipulava todos, filhos, amantes, marido, parentes, empregadas, amigos e inimigos. Manipulava com propina e lábia. Comprava apoio, conspirava, iludia e dava a volta por cima. Foi quase linchada. Mas se considera uma vítima.

Tanto Dirceu quanto Carminha caíram sem abaixar a cabeça, atirando “contra a covardia moral e a hipocrisia”. O autor de Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro, já disse que gosta de humanizar vilões, mostrar que ninguém nasce mau. Carminha repetiu mil vezes na trama: “Não sou vilã, sou vítima, vocês vão ver”. Quando percebeu que seu discurso de heroína não convencia mais, apontou o dedo para os malfeitos de toda a família. Dirceu, por enquanto, só apontou o dedo para a imprensa. Divulgou em seu blog uma carta “ao povo brasileiro”, numa clara alusão a Lula, que também escreveu, em junho de 2002, uma “carta ao povo brasileiro” como candidato do PT à Presidência da República.

No documento, Dirceu afirma que, desde 2005, “em ação orquestrada e dirigida pelos que se opõem ao PT e seu governo”, foi transformado pela mídia em “inimigo público número 1”. Na visão de Dirceu, o Supremo o condenou como corruptor e chefe de quadrilha “sob forte pressão da imprensa”. Não foi mais longe que isso. Mais uma vez, os interesses do PT e de Lula – nas eleições, e especialmente em São Paulo – se sobrepõem a seu drama pessoal, sua reputação. Internamente, no PT, não existe o vilão Dirceu. Ele é um herói das cores do Partido com letra maiúscula. Não é dedo-duro. Foi ovacionado pelos companheiros.

Oficialmente, Dirceu foi chefe da Casa Civil, mas essa era sua face palaciana e festiva. Na vida real, era muito mais – e continua sendo. O confidente-mor de Lula, seu companheiro mais querido, mais fogoso e poderoso. O guerrilheiro que mudou o rosto para não mudar as convicções. O que mentiu até para a família para continuar, clandestino, em seu país. Coisa de novela. No governo Lula, Dirceu era o braço direito do presidente, o homem forte, a eminência parda que falava grosso, o ideólogo do PT.

Agora, Dirceu foi condenado pelo Supremo como “o mandante de crimes cometidos na intimidade das organizações do governo”. Como o artífice de um projeto de poder que visava sufocar críticas e se perpetuar no Brasil. Um projeto totalitário, um golpe contra a democracia apoiado por políticos de outros partidos, “propinados e corrompidos”. É forte.
Em 2005, convencido de que suas relações e costas quentes o livrariam de um processo exemplar e épico como o de agora, José Dirceu disse textualmente sobre Lula: “Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele”.

Alguém duvida? Carlos Lessa, economista e ex-presidente do BNDES no governo Lula, afirmou ao jornal O Globo: “Lamento por Dirceu, o mais preparado e brilhante do PT. Foi onipotente, ignorou a ética na construção de apoio. O mensalão fere a democracia. Mas sou contra crucificá-lo. E Lula, claro, sabia de tudo”. Para Lula, é bom lembrar, tudo que está sendo julgado no Supremo não passa de “uma farsa”.

Na ficção de verdade, com atores pagos, os últimos capítulos deverão mostrar que a vilã Carminha teve um mestre, um modelo e um mentor: seu pai, Santiago, que posava de bonzinho na trama. A verdadeira face de Santiago é outra. Um ladrão de joias, um receptador. Bandidos entregam os objetos roubados dentro das bonecas que Santiago diz consertar.

A História dirá se Dirceu pensou e agiu sozinho ou se deve sua glória e tragédia a alguém acima dele.

Cartas de Buenos Aires: 'INDEC, la garantia soy yo'


No último mês, argentinos assistiram a presidente Cristina Kirchner ser sabatinada por estudantes das universidades americanas Harvard e Georgetown.
Ao ser indagada sobre os índices de inflação, Cristina negou-se a admitir os dígitos estimados por consultoras independentes reforçando os números do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC), que já virou motivo de piada nacional.
“Se a inflação argentina rondasse ao redor dos 25%, o país já teria explodido”, Cristina sentenciou.
Segundo o PriceStat, criado por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, a inflação ronda os 26,9% anuais, número que se assemelha a outras estimativas privadas. Ou seja, o país voou pelos ares.
Para o INDEC, a inflação está entre os 9% e 11% anuais e apenas cerca de 6% da população estão abaixo da linha de pobreza. Para se ter uma ideia, de acordo com estes índices, a Argentina teria mais ou menos a mesma quantidade de pobres que a Suíça, cujas estimativas rondam 6.7%.
As afirmações da presidente reacenderam a polêmica em relação aos números oficiais. Na mesma semana, o FMI deu um deadline para que a Argentina divulgue números, digamos assim, mais honestos. A resposta de Cristina ao FMI não foi literal, mas foi a la Maradona.
O INDEC já foi uma instituição respeitada e pioneira na America Latina. Com o passar do tempo, o Instituto foi perdendo credibilidade e hoje é chacota para parte da imprensa nacional e internacional.
Reza a lenda que o governo tem muitos motivos para mascarar os índices nacionais, tanto que, em 2007, mudou seus métodos de análise. Agora, diz a imprensa opositora, se dedica a fornecer números que caibam nos sonhos governistas.
Filiações políticas à parte, é visível o aumento de preços, pelo menos na capital. Portenhos sentem na pele a carga inflacionária, enquanto turistas brasileiros se queixam que a festa do consumo em Buenos Aires já é coisa do passado.
No último mês, a divulgação dos preços oficiais para a cesta básica argentina causou reboliço na imprensa e nas redes sociais.
Segundo o INDEC, a cesta básica para uma família de quatro pessoas rondaria 688 pesos, cerca de 300 reais. Com esta informação, os jornais de oposição tiveram um dia de festa. Seis pesos por pessoa diários para quatro refeições, menos de três reais por dia. Uma cifra que não paga nem um cafezinho na capital.



Nada salva o INDEC de sua própria fama. Não ajuda também o eterno discurso de negação do governo de óbvios ululantes, como as restrições a compra de dólares.
O governo jura que não, mas está cada vez mais caro viver na Argentina e, na verdade, quem está chupando o caroço dessa manga são os argentinos, não o FMI.

Gabriela G. Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha, antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald, mantém o blog Conexão Buenos Aires e não consegue imaginar seu ultimo dia na capital argentina.