sexta-feira, 30 de março de 2012

O mundo ficou menor, mas a OBRA permanecera! Tchao Millôr!

Millôr Fernandes




Em conversa com repórter do 'Estado', em 2010, escritor falou sobre o passado e o presente do País e até sobre Twitter--Marcos de Paula/AEO--
Entrevistei Millôr Fernandes em 1 de dezembro de 2010. Quer dizer, quase. Ao chegar na sua cobertura em Ipanema para uma conversa marcada há semanas para a TV Estadão, ele desconversou. Rindo e brincando como se me conhecesse há anos, disse que tinha mudado de ideia, que não daria mais entrevista,

muito menos em frente de câmera. "Você pode ficar aqui e me perguntar o que quiser. Mas sem gravar nem anotar nada". Foi o que fiz. Transcrevi as seguintes linhas, até agora inéditas, logo após deixar o prédio. "Agora volte lá para o seu jornal e escreva sobre o dia em que quase entrevistou o Millôr", despediu-se, gargalhando.Pronto, aí está.

O Brasil está melhorando?

Melhorou sim. Melhorou muito. Tanto que o Lula sempre vem dizer que a classe média aumentou 20%, que a economia cresceu não sei quanto. O problema é que sempre se avalia isso com base numa coisa que ninguém questiona, que é a sociedade de consumo.

Isso é ruim?

Não quero dizer que isso é ruim ou bom, mas foi uma coisa que aconteceu. Aumentar o consumo não é prejudicial quando se fala de comida, de uma pessoa que hoje pode comprar mais carne, mais presunto no supermercado. Mas o problema é quando um menino de 3 anos de idade pede aumento de mesada para comprar um tênis, para comprar um celular.

Quais foram as piores coisas da história brasileira recente?

A primeira foi o Sarney. Esse cara é um idiota. Até agora não entende como ele e a família conseguem dominar o Maranhão há cinco décadas como eles fazem. E ele como escritor é ridículo. A segunda pior coisa foi Brasília. Se o JK não tivesse feito Brasília, com certeza a revolução não teria demorado o que durou, duraria só uns 4, 5 anos. Imagina, a primeira vez que alguém visse o general correndo de manhã em Ipanema o cara iria gritar: "E aí general, tá virando reaça, hein?", e o general iria se tocar (risos).

Brasília também ajudou a aumentar a corrupção?

É claro. Lá fica tudo escondido, longe de todo mundo. E você não acha o JK, as empreiteiras que construíram aquilo ali não ganharam muito por fora com a obra? É claro que ganharam. Naquela época, ninguém era santo. Se hoje, com a tecnologia, o Twitter e tudo que há, já se sabe de tanta corrupção, imagina como era naquela época em que ninguém ficava sabendo de nada.

Tem como acabar com a corrupção no Brasil?

Não. Isso não tem jeito, porque a corrupção é inerente ao homem. O homem sempre foi corrupto, e vai continuar sendo.

Mas pode-se melhorar as instituições?

Ah, melhora uma ou outra, mas em geral tudo é corrupto. Pega aí por exemplo essa ação da polícia aí, no Complexo do Alemão. Estão dizendo que tão acabando com o crime organizado. Olha, para mim, o crime organizado tem nome: Judiciário, Legislativo e Executivo. O próprio judiciário quer aumentar os próprios salários em 40%, mesmo com todas as mordomias que eles já têm. Esses caras têm carro pago, gasolina paga, tem até uma cozinheira para cada gabinete, e ainda querem ganhar mais. É assim que é o homem.

Mas você disse que o País melhorou. Como um país pode melhorar se a corrupção não tem jeito?

É que a corrupção não impede que as coisas aconteçam. Ao contrário, ela até ajuda. Um governador pode construir uma ponte que custa R$ 1 bilhão, mas ela vai custar oficialmente R$ 2 bilhões. Ou seja, ele constrói a ponte e acaba ganhando por fora. Se não ganhasse, porque ele iria fazer?

Você não acredita no altruísmo?

O altruísmo existe, mas ele dura pouco tempo. Pega um exemplo: o ataque às torres em Nova York. No começo, todo mundo é bonzinho, todo mundo quer ajudar, faz doação e tudo. Mas 24 horas depois, já entra o pessoal para saquear o prédio e poder levar tudo que consegue. É igual essa ação aí na favela também, onde os policiais tão fazendo o que querem.

Você acha que a tecnologia pode ajudar o País?

Acho. Uma coisa muito interessante é o Twitter. Hoje, não tem como o cara escutar uma crítica e deixar de responder. Antigamente, ele podia dizer que não viu, que não ficou sabendo e ficar quieto, e as coisas ficavam elas por elas. Agora todo mundo fala sobre tudo no Twitter, o assunto fica lá sendo comentado. Tanto que qualquer personalidade hoje já tem Twitter, pra poder responder a essas coisas.

O que mudou no comportamento do brasileiro nas últimas décadas?

Acho que hoje o brasileiro tem orgulho de falar que é brasileiro. Isso é inédito, nunca tinha acontecido.

Você acha que a juventude hoje é menos combativa?
Ué, a juventude combate quando tem algo fácil para combater. Na ditadura, tinha a ditadura. Se você der uma ditadura para os jovens hoje, eles vão combater do mesmo jeito. E iriam ainda aproveitar a chance pra transar com as menininhas revolucionárias (risos).

O que mais mudou o brasileiro?

Acho que foi o celular. Um exemplo são as empregadas. Antes, elas chegavam tímidas, com vergonha, pra pedir se podiam usar seu telefone, falavam rapidinho e pronto. Agora todas tem celular, andam pra cá e pra lá falando, combinando de dar pro cara do barzinho ali do lado (risos). O celular mudou muita coisa.

Você acha que o Brasil engatou em um ciclo de crescimento?

O Brasil tem melhorado, mas isso não significa que seja um ciclo que se siga eternamente. Toda sociedade tem seu auge, que dura algumas décadas ou séculos, e depois cai. É o exemplo que se tira da história.

domingo, 25 de março de 2012

Encruzilhada da Identidade Nacional, na França

Deborah Berlinck, O Globo
Sete vítimas enterradas, um assassino morto e uma pergunta-chave: nesta França em crise de identidade, estagnada economicamente e palco da radicalização tanto de muçulmanos quanto de cristãos de direita, quem vai comandar o país nos próximos cinco anos e em que direção?
A quatro semanas da eleição presidencial, a tragédia de Toulouse meteu o dedo na ferida que muitos queriam ocultar: o crescente fosso na sociedade francesa. E deixou o país na mesma encruzilhada que a Noruega, depois que um cristão fanático e nacionalista, Anders Behring Breivik, matou, sozinho, 77 compatriotas em Oslo, em julho, em protesto contra uma imaginária "islamização" da sociedade local.
Agora, seis meses depois, a versão muçulmana de Behring — Mohammed Merah, um francês de 23 anos, filho de imigrantes argelinos — partiu na sua guerra santa contra os "infiéis" e um Ocidente cristão que ele julgou hostil, matando sete pessoas, entre elas três crianças judias.
Como no caso do norueguês, seu extremismo brotou no seu próprio país — a democrática França. Ele era um produto nacional.
Resta agora saber que visão vai prevalecer depois de Toulouse, quando um novo presidente — ou o atual, Nicolas Sarkozy, em caso de reeleição — assumir o país, em maio: a da repressão ou de uma revisão do modelo francês, para a melhor integração de imigrantes que, no caso da França, são em sua maioria árabes e muçulmanos?
Hasni Abidi, cientista político das universidades de Paris I Panthéon-Sorbonne e de Genebra, onde dirige o Centro de Estudos do Mundo Árabe e Mediterrâneo, não tem ilusão.

Infelizmente, a classe política francesa se recusa a encarar as coisas de frente: não se trata apenas de um problema de terrorismo, de violência ou de radicalismo. Mas, sim, do fracasso do modelo francês de integrar seus próprios filhos — afirma.

Pois é........


" Na Corruptolândia, capital Corruptília, não haverá honestidade, logo não haverá pobres, pois pobre é que tem mania de ser honesto, assim como honesto tem a desgraça de ser pobre. E eu quero que pobre se exploda! ”

Deputado Justo Veríssimo, um dos 209 personagens de Chico Anysio, que faleceu ontem

segunda-feira, 19 de março de 2012

Manifesto de militares critica colegas que atacaram ministras, por Marcelo Godoy -'O Estado de S.Paulo


Entre os signatários do documento, que presta solidariedade às vítimas de tortura na ditadura, está um herói da Segunda Guerra Mundial.
Um grupo de militares da reserva lançou um manifesto contra o documento feito pelos colegas que criticaram as ministras Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Eleonora Menicucci (Mulheres), favoráveis à revogação da Lei da Anistia, e contra o ministro Celso Amorim (Defesa), que tentou enquadrar os Clubes Militares pelas censuras feitas à presidente Dilma Rousseff.

Articulado pelos capitães de mar e guerra Luiz Carlos de Souza e Fernando Santa Rosa, o documento obteve apoio de militares como o brigadeiro Rui Moreira Lima, que, aos 93 anos, tem uma história incomum. Herói da Segunda Guerra, é um dos dois únicos pilotos sobreviventes que participaram do 1.º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira (FAB). Na teatro de operações da Itália, cumpriu 94 missões de combate e recebeu a Cruz de Combate (Brasil), a Croix de Guerre avec Palmes (França) e a Distinguished Flying Cross (EUA) por heroísmo.

Lima evita críticas ao presidente de seu clube - o da Aeronáutica -, o brigadeiro Carlos Almeida Batista. "Ele é um companheiro nobre e só deve ter assinado em solidariedade aos demais". Mas diz apoiar a Comissão da Verdade. "Ela é necessária não para punir, mas para dar satisfação ao mundo e aos brasileiros sobre atos de pessoas que, pela prática da tortura, descumpriram normas e os mais altos valores militares", diz Lima.

Intervenção. Lima e outros militares não concordam com a intervenção do governo nos Clubes Militares. Dizem que a reserva tem direito de se manifestar, mas nenhum deles se sente à vontade em assinar um manifesto na companhia de torturadores. "Eles citam o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra", diz o professor da Unesp Paulo Cunha, pesquisador da caserna.

Segundo o professor, muitos oficiais da reserva - e, entre eles, generais - consideram que o governo foi inábil para resolver o caso dos manifestos dos Clubes Militares. "Esse novo manifesto mostra que o Clube Militar não é uma entidade monolítica, que há vozes discordantes."

No manifesto, os capitães dizem que seus colegas da reserva não falam pelos da ativa e por muitos dos que estão na reserva. Santa Rosa é duro com os colegas do "outro manifesto". Para ele, a força por trás do documento são "os fascistas, os saudosos da ditadura". Ele critica o que considera "comportamento desrespeitoso, inaceitável na vida militar", que configuraria "uma insubordinação, uma quebra de hierarquia".

O documento dos capitães diz que "o verdadeiro regime democrático é o que estamos vivendo e não aquele dos governos militares". "Torturadores (militares e civis), que não responderam a nenhum processo, encontram-se anistiados, permaneceram em suas carreiras sem nunca precisarem requerer, administrativa ou judicialmente, o reconhecimento dessa condição, diferentemente daqueles, suas vítimas, que até hoje estão demandando nos tribunais para terem os seus direitos reconhecidos", escrevem.

O documento lembra aos colegas de caserna o que "se acha inscrito nos estatutos militares: exercer com autoridade, eficiência e probidade as funções que lhes couberem em decorrência do cargo; respeitar a dignidade da pessoa humana; ser justo e imparcial no julgamento dos atos e na apreciação do mérito dos subordinados". Por fim, citam frase do antropólogo Darcy Ribeiro: "Só há duas opções nessa vida: se resignar ou se indignar". E completam. "Eu não vou me resignar nunca".

domingo, 18 de março de 2012

A TV Cultura não é pública. Ela é tucana, por Mino Carta


Escolha certa. A Folha celebra a traição de uma função democrática

Uma tevê pública é uma tevê pública, é uma tevê pública e é uma tevê pública, diria a senhora Stein. Pública. Um bem de todos, sustentado pelo dinheiro dos contribuintes. Uma instituição permanente, acima das contingências políticas, dos interesses de grupos, facções, partidos. A Cultura de São Paulo já cumpriu honrosamente a tarefa. Nas atuais mãos tucanas descumpre-a com rara desfaçatez.

A perfeita afinação entre a mídia nativa e o tucanato está à vista, escancarada, a ponto de sugerir uma conexão ideológica entre nossos peculiares social-democratas e os barões midiáticos e seus sabujos. A sugestão justifica-se, mas, a seu modo, é generosa demais. Indicaria a existência de ideias e ideais curtidos em uníssono, ao sabor de escolhas de vida orientadas no sentido do bem-comum. De fato, estamos é assistindo ao natural conluio entre herdeiros da casa-grande. -Nada de muito elaborado, entenda-se. Trata-se apenas de agir com a soberana prepotência do dono da terra e da senzala.

E no domingo 11 sou informado a respeito do nascimento de uma TV Folha. Triunfa nas páginas 2 e 3 da Folha de S.Paulo a certidão do evento, a prometer uma nova opção para as noites de domingo na tevê, com a jactanciosa certeza de que no momento não há opções. E qual seria o canal do novo programa? Ora, ora, o da Cultura. Ocorre que a tevê pública paulista acaba de oferecer espaço não somente à Folha, mas também a Estadão, Valor e Veja. Por enquanto, que eu saiba, só o jornal da família Frias aproveitou a oportunidade, com pífios resultados, aliás, em termos de audiência na noite de estreia.

Até o mundo mineral está em condições de perceber o alcance da jogada. Trata-se de agradar aos mais conspícuos barões da mídia, lance valioso às vésperas das eleições municipais no estado e no País. E com senhorial arrogância, decide-se enterrar de vez o sentido da missão de uma tevê pública. Tucanagens similares já foram cometidas em diversas oportunidades nos últimos anos, uma delas em 2010, o ano eleitoral que viu José Serra candidato à Presidência da República. Ainda governador, antes da desincompatibilização, Serra fechou ricos contratos de assinatura dos jornalões destinados a iluminar o professorado paulista.
Do volumoso pacote não constava obviamente CartaCapital, assim como somos excluídos do recente convite da Cultura. O que nos honra sobremaneira. Diga-se que, caso convidados (permito-me a hipótese absurda), recusaríamos para não participar de uma ação antidemocrática ao comprometer o perfil de uma tevê pública, amparada na indispensável contribuição de todos os cidadãos, independentemente dos seus credos políticos ou da ausência deles.

Volta e meia, CartaCapital é apontada como revista chapa-branca, simplesmente porque apoiou a candidatura de Lula e Dilma Rousseff à Presidência da República. Em democracias bem melhor definidas do que a nossa, este de apoiar candidatos é direito da mídia e valioso serviço para o público. Aqui, engole-se, sem o mais pálido arrepio de indignação, a hipocrisia de quem se pretende isento enquanto exprime as vontades da casa-grande. Há quem se abale até a contar os anúncios governistas nas páginas de CartaCapital, e esqueça de computar aqueles saídos nas demais publicações, para provar que estamos aos préstimos do poder petista.

Fomos boicotados durante os dois mandatos de Fernando Henrique e nem sempre contamos com o trato isonômico dos adversários que tomaram seu lugar. Fizemos honestas e nítidas escolhas na hora eleitoral e nem por isso arrefecemos no alerta perene do espírito crítico. Vimos em Lula o primeiro presidente pós-ditadura empenhado no combate ao desequilíbrio social, embora opinássemos que ficou amiúde aquém das chances à sua disposição. E fomos críticos em inúmeras situações.

Exemplos: juros altos, transgênicos, excesso de poder de Palocci e Zé Dirceu, Caso Battisti, dúbio comportamento diante de prepotências fardadas. E nem se fale do comportamento do executivo diante da Operação Satiagraha. Etc. etc. Quanto ao Partido dos Trabalhadores, jamais fugimos da constatação de que no poder portou-se como os demais.

Hoje confiamos em Dilma Rousseff, de quem prevemos um desempenho digno e eficaz. O risco que ela corre, volto a repetir na esteira de agudas observações de Marcos Coimbra, está no fruto herdado de uma decisão apressada e populista, a da Copa de 2014. Se o Brasil não se mostrar preparado para a empreitada, Dilma sofrerá as consequências do descrédito global.

No mais, desta vez dirijo minha pergunta aos leitores em lugar dos meus botões: qual é a mídia chapa-branca?

Número de cargos do PMDB ultrapassa população do Chile


A convenção do PMDB reuniu 10% dos parlamentares que compõem a legenda

The i-piauí Herald-Humor (e bota humor nisso!)
CAPITANIAS HEREDITARIAS - O Partido pela Multiplicação de Diretorias Bananeiras (PMDB) organizou uma convenção no Maracanãzinho para festejar seu crescimento e exaltar sua contribuição ao desenvolvimento nacional.

No balanço de fevereiro, entre ministros, parlamentares e assessores comissionados, o partido atingiu a marca de 20 milhões de pessoas empregadas na máquina estatal, ultrapassando a população do Chile. Estudos do IBGE mostraram que as taxas de crescimento do PMDB superam o PIB chinês em 25%. Estima-se que em três décadas a sigla aglomerará mais pessoas do que a Estação da Sé.

"Não há mais espaço para o capitalismo ou o comunismo. O único modelo que deu certo foi o patrimonialismo-fisiológico-hereditário", discursou o Grande Líder, José Sarney, que prosseguiu: "No século XX, os Estados Unidos provocaram guerras para expandir o capitalismo. Do outro lado, a União Soviética sacrificou milhões de vidas pelo comunismo. É a vez do fisiologismo moreno!", explicou enquanto exibia um projeto de planejamento familiar para garantir cargos comissionados a oito gerações de maranhenses com bigode.
Em seguida, Sarney declarou guerra à Bolívia, ao Peru e ao Suriname. "Fizemos um mapeamento dos países vizinhos que mais têm cargos e diretorias em estatais", explicou o matemático Oswald Calheiros. Em momento cívico, José Sarney ergueu o braço direito e bradou: "Diretorias ou morte!".

sábado, 17 de março de 2012

Chicote atrás da porta, por DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo

A boa notícia para o governo é que a turbulência com os partidos aliados logo passa. A má é que em breve estará de volta.
Tomemos o exemplo do PR: foi para a oposição no ano passado depois da queda de seu correligionário Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes, voltou a ser governista e há 48 horas é de novo oposicionista.
Por tempo indeterminado. Até que, segundo o senador Blairo Maggi, o Planalto entenda "que o PR é importante para a governabilidade". Ou seja, devolva a pasta dos Transportes ao partido. Providência de resto inevitável mais dia menos dia.
De idas e vindas tem sido marcada a trajetória de Dilma com sua base de apoio, cuja primeira crise de nervos explodiu antes mesmo da eleição: em agosto de 2010, a candidata oficial subindo firme nas pesquisas, o PMDB já reivindicava a divisão "meio a meio" do poder com o PT.
Acalmou-se e voltou à carga logo depois da posse. Mais precisamente na primeira semana de janeiro de 2011. Cobrava participação igualitária nas decisões de governo invocando a condição de "sócio da vitória".

Logo adiante, em maio, desabou de novo o temporal. Resultado de uma conjunção malsã de planetas: derrota na votação do Código Florestal na Câmara, reação às cartilhas anti-homofóbicas do Ministério da Educação, o escândalo que acabou com a saída do ministro Antonio Palocci da Casa Civil e consequente troca de comando no esquema de articulação política. Reclamação geral.

Dada a dimensão da trombada, o ex-presidente Lula baixou em Brasília para organizar a tropa, mas o fez de maneira tão explícita que evidenciou as falhas da presidente no setor.

Em seguida começaram a surgir denúncias sobre a conduta de ministros e a presidente foi obrigada a providenciar uma dita faxina que não resultou em mudança de paradigma no tocante ao loteamento, mas deixou muito clara a diferença entre os critérios aplicados às demissões de uns e preservação de outros.

À falta de arte, aprofundaram-se as contrariedades ao ponto de hoje incluírem boa parte do PT, que já começa a sinalizar disposição de, quando 2014 se aproximar, buscar alternativa a mais quatro anos de convivência com o sobressalto do chicote atrás da porta.

Capatazia. As insatisfações com as maneiras da presidente Dilma Rousseff não se limitam aos partidos.

Estendem-se ao empresariado. Principalmente aos empresários integrantes da comitiva em viagens presidenciais. Reclamam que Dilma não conversa. Não troca impressões: simplesmente impõe suas posições não raro com acentuado desdém pelas razões de outrem.

Em família. No momento parece mais fácil o grupo do PMDB preterido por Dilma no Senado atrair o senador Eduardo Braga que o novo líder do governo na Casa conquistar adesões entre os independentes para o "lado" do Planalto.

A liderança é temporária. Como mesmo informou a presidente, agora em sistema de "rodízio" e, portanto, perecível, dependente de humores.

Já a convivência interna no partido é duradoura. Essencial para o exercício do mandato presente e a sobrevivência no futuro.

'Savoir-faire'. Sociólogo, Fernando Henrique Cardoso chegou ao poder já compreendendo o funcionamento do ambiente social.

Na Presidência aprendeu a entender a mecânica do mundo político e certa vez resumiu assim uma das lições: "Se você tenta quebrar-lhes o pescoço, eles lhe quebram antes as pernas".

Falava a propósito das relações com o Congresso, dos conflitos permanentes, das dificuldades em mudar meios e modos, das reformas. Referia-se em particular ao embate para profissionalizar a Petrobrás.
Queria dizer que não é impossível alterar procedimentos, mas que é preciso ir devagar com a louça para conseguir avançar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Reinventando a democracia no Brasil; por Murillo de Aragão


O título é inspirado em artigo de Archon Fung sobre a América Latina. Fung acredita que a região pode estar passando por profundas transformações que significariam a reinvenção da democracia.

Seu texto é uma análise de quatro livros que tratam da democracia na região. Na verdade, apenas um trata da América Latina. Os outros três tratam do Brasil. O mais importante em seu livro é considerar que o Brasil estaria no epicentro da revitalização democrática e da criatividade institucional!

Tal afirmativa é forte – e, para muitos, despropositada –, em se tratando de um país que ainda assiste a tantos escândalos e ainda apresenta traços arcaicos no modo de conduzir a política. No entanto, por mais otimista que possa ser, a afirmação de Fung não é desprovida de fundamento.

Muitos estão ocupados em encontrar defeitos no sistema político nacional. Eu mesmo já escrevi milhares de linhas sobre isso. É fácil. Difícil é encontrar bons exemplos que representem avanços concretos na direção do fortalecimento da democracia.

Um dos aspectos saudados como inovador por Fung é o Orçamento Participativo (OP), criação do PT gaúcho que institucionalizou o debate sobre as prioridades orçamentárias dos municípios. O OP foi implementado em 1989 pelo ex-prefeito Olívio Dutra (PT), foi mantido pelo PT durante os 16 anos em que o partido governou Porto Alegre e foi seguido pelas gestões de José Fogaça (PMDB) e José Fortunatti (PDT). Devido à sua longevidade, essa iniciativa de participação popular ganhou projeção nacional e internacional.

Mesmo com todo esse prestígio, o Orçamento Participativo foi muito questionado em Porto Alegre durante os governos do PT na cidade. Como os prefeitos petistas não tinham maioria na Câmara de Vereadores, o OP também foi utilizado como uma forma de conquistar apoio popular, sobretudo nos bairros mais carentes.
Por conta disso, a oposição classificava o OP como uma medida que buscava enfraquecer a democracia representativa. Outra crítica era que as comunidades beneficiadas pelo OP eram aquelas cujos líderes comunitários tinham ligação com o PT. Independentemente dessas avaliações, o fato é que o OP foi uma medida exitosa de democracia direta.

Outra iniciativa que deve ser saudada como parte do arsenal de medidas não eleitoreiras e que fortalecem a democracia é a criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (CDES). Composto por 90 cidadãos representativos de vários setores, o CDES funciona como uma espécie de conselho consultivo para a Presidência acerca dos mais variados assuntos que impactam a sociedade.
Em pouco menos de dez anos de existência, o CDES foi capaz de propor soluções e ações que se materializaram tanto como políticas de governo quanto como leis aprovadas no Congresso. Revelou-se interessante, ainda, para o Distrito Federal e para os estados.

Considerando nossas fragilidades institucionais, estamos longe de representar um modelo para a reinvenção da democracia. Os avanços são lentos e muitas vezes tolhidos de seus aspectos mais inovadores. Porém, algumas das novas iniciativas – como as duas mencionadas – se revelam bastante interessantes para institucionalizar uma participação mais efetiva da sociedade civil na governança do país.

Murillo de Aragão é cientista político

quinta-feira, 15 de março de 2012

Brasil mapeia novas áreas de terras-raras, por Aguinaldo Novo


Governo quer criar marco regulatório para a exploração do setor. Mapeamento tem um orçamento de R$ 18,5 milhões
HONG KONG, SÃO PAULO e BRASÍLIA. No mesmo dia em que a China afirmou que a queixa conjunta de Estados Unidos, União Europeia e Japão sobre a política de exportação de terras-raras do país é injusta e vai se defender na Organização Mundial do Comércio (OMC), o governo brasileiro informou que espera concluir até 2014 um mapa com as novas áreas para exploração desses 17 elementos químicos empregados na indústria de alta tecnologia.
Iniciado em janeiro, o projeto brasileiro conta com um orçamento de R$ 18,5 milhões e é liderado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia.

O governo brasileiro também quer criar logo um marco regulatório para a exploração de terras-raras, antes que ocorra uma corrida pela exploração no país. A ideia é antecipar a discussão que ocorre hoje, por exemplo, com os royalties do pré-sal. Enquanto poucas empresas começam a pesquisar o setor, seria mais fácil conciliar interesses, na avaliação de um grupo de estudos formado para avaliar o tema, capitaneado pelo Ministério de Minas e Energia.

— Faremos uma seleção de alvos que, potencialmente, podem oferecer as melhores condições de exploração. Neste ano, vamos centrar os esforços em duas delas, na Amazônia e em Roraima — afirmou o presidente do CPRM, Manoel Barretto.

A China responde hoje por cerca de 97% da produção mundial de elementos como neodímio, lantânio ou cério, um mercado avaliado em até US$ 11 bilhões anuais. O Brasil tem figurado com destaque em rankings internacionais sobre os detentores das maiores reservas de terras-raras, mas por enquanto apenas a brasileira Vale e a canadense MbAC anunciaram publicamente projetos de exploração, em áreas de Minas Gerais e Goiás.

Segundo especialistas, esse aparente desinteresse do setor privado está ligado, de um lado, à forte oscilação de preços dos elementos químicos nos últimos anos. O neodímio, por exemplo, começou 2011 cotado a US$ 50 o quilo, valor que saltou para US$ 300 no meio do ano. No fechamento de dezembro, os negócios já estavam sendo feitos entre US$ 80 e US$ 100. Essa oscilação dificulta o planejamento estratégico das empresas.
Outra questão tem a ver com o desafio tecnológico de separar o mineral que contém as terras-raras dos minerais restantes. Por especificidades da lavra no país, os elementos estratégicos aparecem em partículas muito pequenas, o que encarece o processo industrial de remoção e concentração. Outro obstáculo é a questão ambiental. Na produção de terras-raras, se produz também elementos radioativos, que exigem armazenamento especial.
— O Brasil tem potencial e tecnologia. A questão é saber se teremos empreendedores dispostos a correr os riscos desse negócio — disse o diretor de Inovação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Fernando Landgraf.
O GLOBO teve acesso a um estudo elaborado pela consultoria técnica da Câmara, que vai discutir um marco regulatório para o setor ao longo deste ano com o amparo do Palácio do Planalto. Segundo o estudo, começam a surgir interessados nessa exploração no Brasil. Em 2010, foram apresentados 65 requerimentos para pesquisa de mineral terras-raras no país, enquanto nos cinco anos anteriores os pedidos foram praticamente inexistentes.

O potencial brasileiro é enorme, segundo o estudo elaborado por Paulo César Ribeiro Lima, consultor legislativo da Câmara:

— Além das areias monazíticas ao longo da costa, principalmente no litoral Sul da Bahia, Espírito Santo e Rio, o Brasil dispõe de grande potencial de terras-raras em aluviões fluviais, no vale do Sapucaí do Sul de Minas Gerais, na mina de Pitinga (AM), e nos complexos alcalinos de Araxá (MG), Catalão (GO), Tapira (MG), Poços de Caldas(MG) e Seis Lagos (AM).

Segundo o estudo, a elevação nos preços e eventual redução no fornecimento global de terras-raras pode gerar problemas em algumas cadeias produtivas no Brasil, até na exploração do pré-sal, cujos catalisadores depende desses minerais. O mercado mundial de terras raras subiu de U$ 1 bilhão em 2009 para US$ 11 bilhões em 2011, segundo a consultoria McKinsey.

A relatora do tema na Comissão de Altos Estudos, deputada Tereza Surita (PMDB-RR), espera concluir um projeto de lei sobre o tema até o fim deste ano.

Na China, um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, disse que “as políticas do país (em relação às exportações de terras-raras) estão em linha com a OMC”. Já as ações ligadas a terras-raras avançaram nas Bolsas de Xangai e Hong Kong, no rastro da queixa tríplice na OMC. A China Rare Earth Holdings saltou 13%; a Inner Mongolia Baotou Rare-Earth Co., 3,2%. Outros papéis, como os de siderúrgicas, também se beneficiaram.

Um analista disse à Bloomberg News que a queixa na OMC pode ser um tiro pela culatra para os americanos. Segundo Jack Lifton, se a OMC forçar a China — que detém 97% da produção global de terras-raras — a aumentar suas exportações, surgirá “um concorrente monstro” para a Molycorp, a única produtora americana de terras-raras. (* Com agências internacionais)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Peixe globalizado


Pechincha do dia nos supermercados discounters da Alemanha: filé de pangasius a 2,50 Euros.

Hit dos últimos anos, o pangasius ou peixe-gato é vendido a preços bem baixos em todos os estabelecimentos. Lembra daquela história da roupa barata demais para ser verdade? Pois é, agora estamos falando de peixe muito barato.

Peguei por acaso na televisão semana passada: uma bióloga da WWF visitou os criadouros do peixe importado da Coréia do Sul e do Vietnã.

Com a boa aceitação e consequente popularização do pangasius, veio a expansão do cultivo em ritmo frenético, coisa que só os países desenvolvidos podem dar conta. Bingo!

Criados em aquacultura de condições extremas, os peixes são cultivados em viveiros proporcionalmente pequenos e alimentados com ração de baixa qualidade. Para sobreviver neste triste ambiente, são tratados com antibióticos e química fortes, o que os fazem crescer 4 vezes mais rápido do que o normal.

Os remédios, segundo a bióloga do WWF, são cancelados 3 semanas antes dos peixes serem embalados e importados para o mundo afora.

O cultivo do pangasius para exportação é um negócio tão rentável nesses países que se tornou principal forma de economia para algumas cidades. Satisfeitos não estão, porém e para variar, os peixeiros sulcoreanos que ganham o equivalente a 30 reais por mês.

Enquanto isso, na Alemanha....em um tempo onde tudo o que é produto precisa de um certificado ecológico para cair no gosto do freguês, o pangasius figura na lista negra do Greenpeace, junto com quase todos os peixes de aquacultura que achamos nos supermercados.
Segundo a organização, os únicos peixes cujo cultivo em cativeiro está de acordo com as regulações ambientais na Alemanha são a carpa e a truta.

Mas para o consumidor não é nada fácil identificar na embalagem qual a certificação ecológica mais garantida. Muitas vezes ambíguas, trazem termos e conceitos não muito claros para o entendimento do sujeito não inteirado em assuntos aquáticos.

E aí que fui finalmente comprar peixe para fazer a primeira papinha carnívora do meu filho, no que me peguei analisando friamente e durante longos minutos todas as caixinhas de pangasius do supermercado, em busca de informações legítimas sobre a origem do produto.

Não encontrei.

E você aí reclamando do preço do peixe fresco na sua cidade! Amigo, aproveite enquanto a globalização ainda não chegou no rio da sua cidade.

Tamine Maklouf é jornalista e ilustradora nas horas vagas. Mora na Alemanha desde agosto de 2009, onde se encontra na “ponte terrestre” Dresden-Berlim.

terça-feira, 13 de março de 2012

Os cronópios saem em viagem!


“Y sueñan toda la noche que en la ciudad hay grandes fiestas y que ellos están invitados”
Hoje, quando vocês lerem esta coluna, já estarei longe, na terra de Fernando Pessoa. Mas sigo com o espanhol na mala. Pretendo reler "Historias de Cronópios e de Famas", um dos meus livros preferidos do autor argentino Julio Cortazar (1914-1984) e uma obra que completa 50 anos desde sua primeira publicação.
O texto foi escrito em Roma e Paris, entre 1952 e 1959, e editado somente em 1962. Oferece uma espécie de reinvenção do mundo através de seus personagens: os “cronópios”, os “famas” e as “esperanças”, que alcançam sensibilidade e fascínio na medida em que traduzem a psicologia humana. É super cortaziano.
Os cronópios, segundo Cortázar, são um pouco como os poetas. Eles cantam como as cigarras, indiferentes ao cotidiano, esquecem tudo, são atropelados, choram, perdem o que trazem nos bolsos e, quando saem em viagem, perdem o trem, chove a cântaros, levam coisas que não lhes servem. Mas não desanimam.
“Los cronopios no se desaniman porque creen firmemente que estas cosas les ocurren a todos, y a la hora de dormir se dicen unos a otros: La hermosa ciudad, la hermosísima ciudad. Y sueñan toda la noche que en la ciudad hay grandes fiestas y que ellos están invitados. Al otro día se levantan contentísimos, y así es como viajan los cronopios”.
Os famas, pelo contrário, são organizados e práticos, prudentes, fazem cálculos e embalsamam suas lembranças; quando fazem uma viagem, mandam alguém na frente para verificar os preços e a cor dos lençóis.
As esperanças, um meio termo entre os dois, “são sedentárias e deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso ir vê-las, porque elas não vêm até nós”.
Quem quiser escutar o próprio Cortazar lendo o texto em que os cronópios saem em viagem, é só entrar na página Audiovideoteca da Cidade de Buenos Aires. Um espaço virtual que é um tesouro, uma mescla de centro de produção audiovisual com arquivo, dedicado à preservação e difusão da cultura argentina contemporânea.
Na audioteca é possível escutar, por exemplo, a Rodolfo Walsh lendo o Capítulo 23 de Operação Massacre, ou a Juan Jose Saer recitando A Arte de Narrar. Entre os escritores contemporâneos, há entrevistas em vídeo com Fabián Casas ou Leopoldo Brizuela, para citar alguns. Coisa para manter a gente entretida por horas.
Um bom cronópio, como diz Cortazar, sempre esquece o essencial e mesmo assim tem que sentar em cima da mala para fechá-la! Mas nunca deixa em casa o caleidoscópio, que serve, entre outras coisas, para descobrir “os seus”. Uma espécie de “prova-cronopios”, que será, obviamente, testado entre os lisboetas.
Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo, com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha 

sábado, 10 de março de 2012

O império das circunstâncias; por Ruy Fabiano


A candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo impôs-se à revelia de todos, inclusive do próprio candidato, que, como se sabe, sonhava com coisa maior.

Não a desejavam nem o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, nem o ex-presidente Fernando Henrique, nem o senador Aécio Neves. Acima de todos, porém, pairava uma realidade inapelável: o PSDB é a única força capaz de continuar barrando a pretensão do PT de conquistar São Paulo, um país dentro do país.

O que os uniu foi a certeza de que, conquistando São Paulo, o PT chegaria ao poder total, o que lhe garantiria por antecipação a sucessão de 2014.

Os tucanos decidiram então esquecer suas diferenças com Serra, que não são poucas – e que ficaram expressas na sequência de sabotagens que lhe impuseram após a derrota de 2010 -, e lhe expuseram objetivamente a situação.

Serra, por sua vez, viu-se diante de oportunidade imperdível de retornar ao primeiro plano da vida nacional e ao comando do PSDB.

Antes, os tucanos se acertaram com Alckmin, mostrando que os seus candidatos, que disputariam a candidatura em prévias, não teriam a menor chance diante da máquina federal petista, já mobilizada em favor do ex-ministro Fernando Haddad.

Alckmin, que teria que enfrentar não apenas a máquina federal petista, mas a municipal, do prefeito Gilberto Kassab (PSD), que não o tolera, capitulou.

O próprio Kassab, que desempenhou o papel mais bizarro nesse processo, recorrendo a Lula para derrotar Alckmin, deu uma guinada brusca e alinhou-se a Serra.

Ninguém entendeu, nem o seu partido, que reclamou, pela voz da senadora Kátia Abreu, desse ziguezague desmoralizante. Mas Serra é seu padrinho e é melhor tê-lo como sucessor que como adversário, que venha a atormentá-lo posteriormente com denúncias e investigações sobre sua administração.

Em política, vive-se o império das circunstâncias. Quem poderia imaginar, por exemplo, que Getúlio Vargas, deposto em 1945 e enxotado da Constituinte de 1946, voltaria nos braços do povo em 1950, atendendo aos apelos de gente que ajudou a apeá-lo da Presidência poder? A luta pelo poder opera prodígios.

Poucas semanas antes, Fernando Henrique, em entrevista, havia decretado o ostracismo definitivo de Serra, declarando-o fora da disputa presidencial de 2014. Muitos acham que, ao concorrer à prefeitura, é isso mesmo que o aguarda.

Política, porém, não é lugar de profetas. Se vencer em São Paulo, Serra, ainda que não concorra, torna-se peça-chave para 2014. A sucessão presidencial passará por ele, o que torna a candidatura Aécio Neves, tida como inevitável, uma incógnita.

Aécio sabe que terá (para dizer o mínimo) dificuldades em obter o apoio de Serra, assim como este não obteve o seu. Pode, por isso mesmo, optar por uma volta ao governo de Minas, antes de tentar o Planalto. Até aqui, sua atuação no Senado não o tornou uma figura nacional. Continua restrito a Minas, que perdeu para São Paulo a condição de celeiro dos políticos de maior renome nacional.

Para Dilma Roussef, que certamente postulará a reeleição, não é ruim a presença de Serra na prefeitura de São Paulo. Primeiro porque dificulta (embora não impeça) uma eventual candidatura dele à sucessão presidencial.

Segundo porque debilita as chances de Aécio Neves, pelas dificuldades de unir o partido em São Paulo em torno de seu nome.
E há mais (ainda que Dilma não tenha pensado nisso): Fernando Haddad integra a ala mais radical do PT, que não a vê como petista da gema. Engoliu-a por imposição de Lula e tem encontrado nela resistência à implementação de sua agenda comportamental.

Foi Dilma que impediu, por exemplo, que Haddad consumasse a distribuição do kit gay nas escolas de primeiro grau. Não quis pagar o preço político que tal adesão lhe traria perante os setores mais conservadores (a maioria) da sociedade.
A escolha de Serra abre a disputa presidencial de 2014 no principal cenário da política brasileira, embolando ainda mais um quadro que jamais primou pela nitidez.

Ruy Fabiano é jornalista

sexta-feira, 9 de março de 2012

Picasso, esquerda, direita....por MA Rubinato de Sousa


Foi durante a Fase Rosa que Picasso aderiu aos intelectuais radicais de Paris, influenciados por Max Sterner (1806-1856), cujas teorias sobre realização individual desaguariam no “egoísmo voluntário” que acabou servindo, indiretamente, à causa nazista.
A corrente artística da época, influenciada por essa teoria, levava à idealização da classe média. Picasso, que se entusiasmou no início, pouco a pouco foi se afastando dessa escola de pensamento justamente por sua crescente lealdade aos destituídos, com aqueles que se encontravam à margem da sociedade e isso acabou sendo um movimento que o encaminhou conscientemente para a esquerda.

Foi durante a Fase Rosa, no entanto, que Picasso começou a ter sucesso comercial, sucesso que uma vez instalado nunca mais o abandonou. Dali em diante, na maior parte das vezes, ele adotaria uma posição anti-intelectual, interrompida de quando em quando por breves namoros com a esquerda, o que no meio artístico não era nada de excepcional.
                                      
Mas permaneceu sempre um ferrenho inimigo da extrema direita, como é notório em sua revolta contra a crueldade inútil e feroz da Guerra Civil espanhola e a resultante vitória de Franco. Guernica (imagem à esquerda), obra maior do pintor, é a prova viva de seu sentimento.

Há quem atribua a Fase Rosa ao seu relacionamento com Fernande Olivier, que ele conheceu em 1904, o que é muito possível. Apaixonado, realizado como homem, encantado e feliz com Fernande pelo menos enquanto durou a fase rosa, nas telas e desenhos dessa época vemos um Picasso feliz.

Há muito ainda a ser dito sobre o pintor, um gênio da Pintura e uma figura marcante do século 20. Aos poucos iremos desbravando esse labirinto interessantíssimo que foi Pablo Picasso.

A imagem de hoje é seu autorretrato feito em 1906, para ser comparado, se quiserem, com o autorretrato de 1901 que foi publicado aqui na última segunda-feira, 5 de março. Comparando as duas telas podemos ver a transformação porque passou o artista, o que desaguaria numa marcante revolução nas Artes Plásticas.
Guernica - óleo sobre tela: 350x782 cm - Acervo Museo Reina Sofia, Madrid

segunda-feira, 5 de março de 2012

Gente Honesta


Nos sábados chuvosos e frios, gosto de ficar em casa durante o dia. Gosto da sensação do “dolce far niente” que vem da combinação do descanso com a ausência de compromissos.

A TV é a companheira inseparável da ociosidade moderna. Em um desses sábados, assisti uma reportagem sobre uma pessoa que achou um envelope cheio de dinheiro em um trem e o devolveu ao dono.

Talvez porque falte noticias nos fins de semana, matérias como estas ganhem destaque nestes dias. De uma maneira ou de outra, sempre achei interessante que estas narrativas sejam construídas a partir da premissa de que devolver o dinheiro não seria a regra, mas sim, a exceção.
Em outras palavras, a gente assume que, se ninguém estiver olhando, as pessoas, em sua maioria, agirão erradamente.
Parece existir pouca evidencia de que as pessoas, em regra, sejam desonestas. Todos os dias, a esmagadora maioria da população, na esmagadora maioria dos casos cumpre com seus deveres.

Faz-se o certo sem se considerar a possibilidade de recompensa, punição, ou mesmo maneiras de burlar a ética. Para o cidadão comum, fazer o certo é a regra. Em regra, as pessoas são éticas. Enfim, em regra, as pessoas fazem o certo.
Individualmente, agir eticamente parece ter a ver com a educação que cada um de nos recebe dos pais e das instituições que nos cercam. O sentimento de vergonha, aqui, pesa muito. Pessoas que foram educadas para sentir vergonha quando desviam da ética, terão mais dificuldades em dela desviar.
Coletivamente, parece existir uma relação entre a coesão social e a ética. Sociedades em que os cidadãos reconhecem que seus atos impactam aos outros e vice-versa, tendem a ter comportamentos mais éticos. É a noção de que cada cidadão é parte de um todo e, consequentemente, precisa fazer a sua parte.
Alternativamente, quanto mais individualistas os cidadãos são, menos compromisso com a ética eles tem. Esta é e principal conclusão de estudos recentes realizados pelas Universidades de Toronto e Berkeley (“Higher social class predicts increased unethical behavior”, publicados na revista PANS de Fevereiro, 2012).
O Comportamento ético vem do reconhecimento individual de que garantir relações fortes e duradouras melhora a vida de cada cidadão. Portanto, agir eticamente requer acreditar que o bom nome e a credibilidade tem valor. Como disse William Shakespeare: “aquele que rouba minha carteira rouba lixo. Aquele que rouba meu bom nome rouba o que não lhe faz mais rico, mas me torna mais pobre”.

Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).

A dura vida do presidente da OAB, por Elio Gaspari, n'O Globo


É dura a vida do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante. No último ano, ele condenou o tamanho da fila dos precatórios de São Paulo, a farra dos passaportes diplomáticos, as fraudes nos exames da Ordem, a atuação de advogados estrangeiros em Pindorama, o enriquecimento de Antonio Palocci, e a blindagem dos “fichas-sujas”. Defendeu a autonomia salarial do Judiciário e os poderes do Conselho Nacional de Justiça.
Como se sabe, Ophir Cavalcante é sócio de um escritório de advocacia em Belém e procurador do governo do Pará, licenciado desde 1998, quando se tornou vice-presidente da seccional da Ordem. Até aí, tudo bem, pois Raymundo Faoro era procurador do Estado do Rio, apesar de não lhe passar pela cabeça ficar 13 anos com um pé na folha da Viúva e outro na nobiliarquia da Ordem.

Em agosto do ano passado, quando o Tribunal Regional Federal permitiu que o Senado pagasse salários acima do teto constitucional de R$ 26.723, Cavalcante disse o seguinte: “O correto para o gestor público é que efetue o corte pelo teto, e que as pessoas que se sentirem prejudicadas procurem o Judiciário, e não o contrário”.

Em tese, os vencimentos dos procuradores do Pará deveriam ficar abaixo de um teto de R$ 24.117. Seu “comprovante de pagamento” de janeiro passado informa que teve um salário bruto de R$ 29.800,59.

O documento retrata as fantasias salariais onde a Viúva finge que paga pouco, e os doutores fingem que recebem menos do que merecem. Isso não ocorre só com ele, nem é exclusividade do Ministério Público do Pará.
O salário base do doutor é de R$ 8.230,57. Para os cavalgados, é isso, e acabou-se. No caso de Cavalcante, somam-se sete penduricalhos. Há duas gratificações, uma de R$ 6.584 por escolaridade; outra de R$ 7.095 por “tempo de serviço”; (na repartição, ficou três anos, mas isso não importa); R$ 4.115 por “auxílio pelo exercício em unidade diferenciada” (a procuradoria fica em Belém, mas ele está lotado na unidade setorial de Brasília).
Esse contracheque levou uma mordida de R$ 5.196 do Imposto de Renda. Se o doutor trabalhasse numa empresa privada, com salário bruto de 29.800,59, tivesse dois dependentes e pagasse, como ele, R$ 2.141 na previdência privada, tomaria uma mordida de R$ R$ 6.760.

Finalmente, há R$ 314 de auxílio alimentação, o que dá R$ 15,70 por almoço. A OAB precisa protestar: o Ministério Público paraense passa fome.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Oito é perpetuo, oitenta então....




Quando o lixo é lixo


‘’’…esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo”.

Esse é um trecho da definição que George Orwell deu à expressão “duplipensar”, que ele mesmo inventou e usou em seu clássico “1984”. onde descreve uma hipotética sociedade dominada pelo totalitarismo.

O duplipensar é uma moda recorrente e bastante ativa no universo da militância política que hoje preenche as redes sociais, e alterna a sadia vontade de participar, opinar e debater com a mais vulgar e corrosiva plantação de grosserias que se tem notícia na história do embate político brasileiro dos tempos recentes.

A empreitada do jornalista e ciberativista australiano Julian Assange, que criou um site chamado Wikileaks destinado a vazar documentos diplomáticos secretos, despertou, num primeiro momento, uma corrente mundial de simpatia e foi endossado por uma rede de organizações noticiosas de tradição e respeito.

Jornais de primeira linha começaram a publicar documentos com revelações mais ou menos bombásticas, até que a novidade se exaurisse em si mesma e a repetição de revelações inócuas ou duvidosas começassem a cansar os jornais e seus leitores.

No Brasil, onde cautela e caldo de galinha são menos apreciados do que deveriam, Assange, apesar de todo seu currículo de aventureiro e de uma folha corrida no mínimo duvidosa, foi logo endossado por uma certa esquerda que adora cultivar teorias conspiratórias e ganhou status de grão mestre do jornalismo mundial.

Wikileaks se tornou quase categoria de pensamento. Seu prestígio foi crescendo à medida em que os documentos divulgados,na maioria das vezes a seco, sem a devida contextualização ou a necessária edição, favoreciam as teses que povoavam, desde tempos imemoriais, a algibeira e o imaginário político de certas esquerdas e ajudavam a fermentar o anti-americanismo mais primário.

A tal ponto que Wikileaks e Assange ganharam um elogio inaudito,de viva voz, e ad hominem, dele mesmo, Lula, o Rei Sol, quando no exercício do cargo de presidente. Para ele, Assange representava a própria liberdade de expressão.

Os telegramas do Wikileaks eram replicados com entusiasmo e com barulho de fanfarra nas redes sociais. Eles revelavam, entre outras enormidades, que o jornalista William Waack era espião da CIA e que o candidato à presidência José Serra tinha prometido que, vencendo a eleição, “entregaria” o Pré Sal à multinacional Chevron.

Esta semana, depois de um recesso mais ou menos prolongado, o Wikileaks volta aos jornais, revelando a conversa entre um consultor da empresa de inteligência e análise estratégica Stratford e um funcionário do governo norte-americano no Brasil, que diz: "A compra de submarinos é tão sem sentido que só pode ter a ver com propina. Lula provavelmente está cuidando do seu plano de aposentadoria. E veja só: a compra acontece 'curiosamente' no fim de seu mandato”.

O duplipensar, que produzia tanto barulho com idiotices semelhantes, desta vez se calou. Silêncio eloquente.

O lixo do Wikileaks continua sendo lixo. A diferença entre a banda de música e o silêncio é o lado onde cai o lixo.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”.

Quem pagará o enterro e as flores?


A HORA ÍNTIMA-----Vinicius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

quinta-feira, 1 de março de 2012

As time goes by........



Ária do Luar - Alphonsus de Guimaraens

O luar, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
Azul, azul em fora rola…
Cauda de virgem lacrimosa,
Sobre a montanha negras pousa,
Da luz na quietação radiosa.
Como lençóis claros de neve,
Que o sol filtrando em luz esteve,
É transparente, é branco, é leve.
Eurritmia celestial das cores,
Parece feito dos menores
E mais transcendentes odores.
Por essas noites, brancas telas,
Cheias de esperanças de estrelas,
O luar é o sonho das donzelas.
Tem cabalísticos poderes
Como os olhares das mulheres:
Melancolia e enerva os seres.
Afunda na água o alvo cabelo,
E brilha logo, algente e belo,
Em cada lago um sete-estrelo.
Cantos de amor, salmos de prece,
Gemidos, tudo anda por esse
Olhar que Deus à terra desce.
Pela sua asa, no ar revolta,
Ao coração do amante volta
A Alma da amada aos beijos solta.
Rola, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
O luar, azul em fora, rola…

Afonso Henriques da Costa Guimaraens ou Alphonsus de Guimaraens, nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, no dia 24 de julho de 1870 e faleceu em Mariana, Minas Gerais, no dia 15 de julho de 1921. Foi um dos maiores poetas simbolistas brasileiros. Era conhecido como "o solitário de Mariana". Colaborou com alguns jornais e se tornou Juiz Municipal de Mariana. Místico, católico, Alphonsus escreveu verdadeiras obras-primas na poesia brasileira.