sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Aviso aos (web) navegantes

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O link ---http://raggingbull.blogspot.com/--esta disponivel para as consultas de cada um(a) dos leitores habituais. Obrigado e continuem a comentar e seguir estas paginas--APS

Questão de justiça, por Janio de Freitas-Folha

Seria bom se magistrados ponderassem sobre os casos de improbidade que têm emergido do Judiciário/////Janio de Freitas, Folha de S. Paulo

Antes de qualquer consideração, seria indispensável uma pergunta relativa à afirmação da corregedora nacional de Justiça, de que "a magistratura está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos escondidos atrás da toga": a ministra Eliana Calmon fez assim uma acusação ou uma constatação?

As violentas considerações emitidas a respeito pelo ministro Cezar Peluso, presidente do Conselho Nacional de Justiça, e encampadas por mais 11 dos 15 conselheiros, indicam haverem dispensado a pergunta.

De imediato, a seu ver Eliana Calmon cometeu "acusações levianas" e lançou, "sem prova, dúvida sobre a honra de milhares de juízes". Como preliminar, os "milhares" são debitáveis à exaltação do ministro Peluso, inexistindo sugestão disso, e de outra estimativa, nas palavras da ministra Calmon ou de terceiros.

Sem referências quantitativas, sobram, porém, comprovações recentes, ou pós-criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de que o Judiciário não é, nem haveria como ser, imune à fraqueza humana nesta sociedade envenenada pelas ânsias de dinheiro e de posses.

Ficaria muito bem a magistrados que ponderassem sobre o significado dos casos de improbidade e outras delinquências que têm emergido do Judiciário, até mesmo de altos tribunais.

Desde a venda de sentenças e liminares como procedimento constante, a associações com o lobismo do pior gênero e a irregularidades processuais deturpadoras.

São provas provadas da infiltração deplorável, por menos que sua quantidade induza a ideia de degradação vasta.

Os casos conhecidos não são numerosos, mas são indicativos. E o provável é que não sejam apenas os já conhecidos, seja pelo que os precedentes poderiam sugerir, como pelo alargamento apenas recente das averiguações, trazido pelo CNJ.

Mas ainda ampliáveis, por exemplo, com o exame de evidências de incompatibilidade entre posses e vencimentos (este exame, por sinal, é o mais detestado nos Poderes e o mais escasso entre os tão necessários, diante de tamanhas evidências no serviço público e nos quadros políticos).

Não há dúvida de que o CNJ tem prestado serviços importantes na redução de falhas comuns e longevas no Judiciário, a par das medidas relativas a condutas pessoais.

A outra face dessa atividade positiva é que atesta, embora sem o querer, outra constatação exposta por Eliana Calmon: "A imagem do Judiciário é a pior possível junto ao jurisdicionado".

A rigor, o mau conceito não está só entre os que têm a lástima de precisar recorrer ao Judiciário. E por não estar só aí, mas soar em clamor generalizado no país, é que a alta magistratura afinal admitiu um acordo, com o Congresso, para a criação de uma entidade destinada a lançar olhos indagadores sobre o Judiciário.

É o conselho cuja existência, no entanto, está sob contestação de parte dos magistrados, desejosos de vê-lo sem os seus principais e mais necessários poderes.

Não é um modo de levar o Judiciário a proporcionar melhores constatações.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A crônica sem destino, por ROBERTO DAMATTA

De que nada se sabe///Jorge Luis Borges
A Lua ignora que é tranquila e clara/ E nem ao menos sabe que é a lua;/A areia, que é areia. Não há uma coisa que saiba que sua forma é rara./Tão alheias são as peças de marfim/ Ao abstrato xadrez como a mão/ Que as rege. Talvez o fado humano/De breves sortes e penas sem fim/ Seja instrumento de Outro./Nós o ignoramos;/Dar-lhe o nome de Deus não traz defesa/Vãos também são o temor, a incerteza/ E a truncada oração que iniciamos/ Que arco terá lançado esta seta que sou? Que cume pode ser a meta?
JLBorges-argentino, poeta e humano.
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A solidão tem muito com a vida e muito com a morte. Os mortos estão sós e são abandonados. Devem estar dormindo profundamente, como disse Manuel Bandeira. Por algum tempo eles detêm toda a nossa atenção, mas são em seguida abandonados. E esquecidos.
São entregues, sob o brilho das nossas lágrimas, a si mesmos e ao cosmos cuja totalidade não temos condições de abranger. Ao nos aproximarmos deles desmentimos radicalmente a boutade segundo a qual "de perto ninguém é normal", porque eles não são mais ninguém e são agora de todos. Viram memórias, tornam-se lembranças e saudade. Saudades cheias de luz. Uma luz fugidia e opaca. Todos os segundos e dias de suas vidas são especiais, como disse o Thornton Wilder de "Nossa cidade". Sua normalidade impressiona pelo silêncio e pela mais completa perfeição. O sono profundo é um pedaço do seu mistério.
Aliás, não há condenação mais ambígua do que a morte, exceto o exílio (ou a morte social), que, como revelou o magnífico historiador Fustel de Coulanges, era pior do que a morte entre os antigos romanos. E talvez seja assim entre nós, igualmente romanos quando damos mais importância às relações do que às pessoas, e não o contrário.
Entre os fatos maiores da morte e, para além dela, do morto amado que leva um pedaço do nosso coração senão toda a nossa alma ou uma de nossas pernas, jaz um mistério: para onde foi aquela vitalidade que tem como centro a necessidade de falar, trocar, cantar, escrever, construir e comunicar? De dizer como foi, como acontece nas grandes aventuras, experiências e viagens? Como é horrível para nós, vivos e predestinados a ser, um dia, esse morto, o mutismo inviolável dessa experiência que transforma a pessoa em mais uma estrela.
Espantoso como a morte — a mais importante experiência humana — seja, por isso mesmo, a única que jamais pode ser socialmente compartilhada. Dai a sua tremenda negação em toda as culturas e sociedades, em todas as crenças e ideologias.
"Força", dizem os amigos nos olhando de esguelha e já pedindo licença para sair de perto. "Foi desta para melhor", dizem outros consolando e negando veementemente o fato de que estamos todos condenados a algo pior do que o inferno, pois sofremos sem saber por que. Temos uma descabida consciência das ferramentas do sofrimento — rejeição, injustiça, ódio, descaso, inveja, esquecimento, para não falar das mais variadas formas de doença, agressão e acidentes em suas mais temíveis combinações —, mas não nos é dado conhecer os fins. As causas e os motivos que levaram de nossa humilde esfera de vida um ente querido que, afinal de contas, importava mais para nós do que para todos os outros. Essa pessoa que tinha mais valor do que todas as barras de ouro e era mais amada do que todos os poderosos somados juntos. Assaltados, como a bíblica caravana, por ladrões infames e jamais detidos como o mal de Parkinson, o de Alzheimer e outras enfermidades cujo nome grandioso é sinal de sofrimentos inenarráveis, nos deparamos com a inconsistência entre o poder da doença e a fragilidade do doente tão tímido, tão pequenino, tão sereno, tão celestial na sua banal, frágil e corajosa inocência humana e o pomposo e estranho nome do funesto atacante. Espantoso descobrir alguém que compartilha de nossa vida, tendo a sua vida afligida por essas doenças impronunciáveis.
A solidão tem um sintoma trivial. Você é testemunho do seu próprio choro e não deseja (porque não precisa) que ninguém lhe veja chorando. O choro do amor é para o outro — quem quer que seja esse outro. O choro da solidão é para dentro e para esse outro que vive em você. É a prova de que somos muitos e que o tão desdenhado corpo é quem tem o duro papel de juntar em si todos esses atores. Temos muitos demônios e anjos interiores, mas um só palco e um só cenário dentro do qual eles podem se manifestar. Na pior situação, o corpo deve surgir uniformizado. Com as emoções mais dispares devidamente orquestradas e reveladas (ou não) por um corpo que é instrumento, ator e palco de tudo que passamos. A alma em frangalhos, o corpo sereno. Ajoelhado, como manda o figurino cristão. Ou o corpo em frangalhos e a alma serena no seu perpetuo dialogo com todos os seus demônios.
Outro dado estranho da solidão é não se sentir sozinho. Parece paradoxal, mas não é. Um torcedor do Fluminense no meio da torcida do Flamengo é a pessoa mais solitária do universo. Se o diálogo que você tem com os seus outros for positivo; se você fala com todas essas estranhas criaturas que estão dentro de você, inclusive e sobretudo com os seus mortos e doentes, a solidão lhe trás uma estranha paz. A paz de Deus é a melhor metáfora para esse sentimento que chega com a vida na sua plenitude. Numa conversa franca com você mesmo como bandido, como covarde, como ignorante, como invejoso, como sovina, como boquirroto, e como renegado. Você apara suas arestas, acerta suas contas e entra em contato com aquela outra letra que segue o "A" (do amor) e o "B" (da bênção). Refiro-me ao "C" que escreve coração e compaixão. Porque sem compaixão, amigos, não há serenidade nem só nem acompanhado. Amém.

O Globo ROBERTO DaMATTA é antropólogo.




O Globo

A Secretaria de Políticas para as Mulheres, ligada ao governo federal, pediu na terça-feira a suspensão da propaganda da Hope, protagonizada pela modelo Gisele Bündchen . O órgão enviou dois ofícios, um ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) e outro ao diretor na Hope Lingerie, Sylvio Korytowski, manifestando repúdio à campanha e pedindo a retirada da peça publicitária do ar.

Numa primeira imagem do comercial da campanha "Hope ensina", a top model está com um vestido e fala: "amor, bati seu carro". Ao lado, aparece a palavra "errado". Em seguida, ela repete a frase, mas está vestida com uma lingerie. A expressão, então, muda para "certo". Ao final, o locutor diz "você é brasileira, use seu charme". O comercial tem outras versões, com Gisele "contando ao marido" que estourou o limite do cartão de crédito e que a mãe dela vai morar na casa dos dois.

Segundo a secretaria, desde que o comercial foi ao ar, no último dia 20, a ouvidoria do órgão tem registrado reclamações. Por isso, resolveu pedir a suspensão do comerncial.

"A propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grande avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas. Também apresenta conteúdo discriminatório contra a mulher, infringindo os arts. 1° e 5° da Constituição Federal", diz nota divulgada pela secretaria.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Mulher é condenada a dez chibatadas por dirigir na Arábia Saudita

Publicada em 27/09/2011 às 15h10m//O Globo
JEDÁ - Ativistas afirmam que a saudita Shaima Ghassaniya foi condenada a levar dez chibatadas por desafiar a regra que proíbe mulheres de dirigirem no país. O veredicto - o primeiro do gênero na Arábia Saudita - acontece dois dias após o rei Abdullah bin Abdulaziz al-Saud garantir às mulheres o direito de votar e de se candidatar nas eleições municipais de 2015. Outras mulheres já haviam sido detidas por alguns dias, mas nunca sentenciadas por um tribunal.
Shaima teria dirigido na cidade de Jeddah em julho. A ONG Women2Drive, que luta por direitos iguais ao volante, afirmou que a saudita já entrou com um recurso na corte.
Embora não exista uma lei que proíba as mulheres de dirigirem, as fatwas - pareceres emitidos por especialistas, às vezes com peso de lei - condenam a prática, seguindo uma interpretação radical do Alcorão. Além disso, a legislação saudita exige que os motoristas portem licenças, que não são emitidas para mulheres, tornando na prática ilegal a condução de veículos.
A Anista Internacional condenou a decisão, classificando-a como "castigo um cruel".
"É ótimo que tenham dado o direito de voto às mulheres, mas se elas ainda correm o risco de serem açoitadas por tentar exercer o direito à liberdade de locomoção, o rei está alardeando 'reformas' que, na verdade, equivalem a muito pouco", afirmou em comunicado um vice-diretor regional da Anistia, Philip Luther.
O grupo acredita que outras duas mulheres sauditas também enfrentem até o final do ano acusações na Justiça por dirigirem. A ativista Najalaa Harriri, cujo julgamento foi retomado na segunda-feira, afirmou que precisa dirigir para cuidar melhor de seus filhos.
A Arábia Saudita é o único país do mundo onde as mulheres não podem conduzir um veículo.
Women2Drive já interpôs recurso
Em maio, as mulheres sauditas organizaram a campanha Women2Drive nas redes sociais para protestar contra a proibição. Algumas postaram no Twitter que dirigiram livremente nas ruas de Jeddah, Riyadh e Khobar, enquanto outras disseram que foram paradas pela polícia e liberadas depois de assinar um compromisso de não dirigir novamente.
A ativista Manal Alsharif foi presa depois de postar um vídeo no YouTube em que aparece dirigindo seu carro em Khobar.

PIADA INTELIGENTE

A ONU resolveu fazer uma pesquisa em todo o mundo.
Enviou uma carta para o representante de cada país com a pergunta:-
"Por favor, diga honestamente qual é a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo".
A pesquisa foi um grande fracasso. Sabe por quê?
Todos os países europeus não entenderam o que era "escassez".
Os africanos não sabiam o que era "alimento".
Os cubanos estranharam e pediram maiores explicações sobre o que era "opinião".
Os argentinos mal sabem o significado de "por favor".
Os norte-americanos nem imaginam o que significa "resto do mundo".
O congresso brasileiro está até agora debatendo o que é "honestamente".

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Words?! What for!!!!

domingo, 25 de setembro de 2011

A Tragédia da Grécia , por THEÓFILO SILVA


Hélade era o verdadeiro nome das belíssimas ilhas do Mar Mediterrâneo que foram chamadas de Grécia pelos romanos. Os Helenos não chamavam a si mesmos de gregos. Mas foi Grécia o nome que se firmou, e acabou designando à nação que deu a humanidade os homens mais notáveis de toda sua história.
Sócrates, Platão, Aristóteles, Péricles, Aristófanes, Pitágoras e muitos outros formaram uma constelação que, num período de um pouco mais de um século, moldaram nossa forma de pensar e ver o mundo, que nunca foi igualada. Talvez apenas o Renascimento – que, na verdade, buscava resgatar essa época que tinha se perdido – tenha gerado homens tão extraordinários quanto os da chamada Era de Péricles, na Hélade antiga.
As cidades gregas, principalmente, Atenas e Esparta, deram em política, filosofia, matemática, teatro, literatura, música, escultura, arquitetura uma contribuição que fez o mundo ocidental ser o que ele é hoje. Quase tudo o que fazemos ou pensamos na modernidade tem a ver com o que essa civilização realizou.
Durante catorze anos, Alexandre, o Grande exportou, com suas guerras, a sabedoria gerada por esse povo magistral. A esse acontecimento deu-se o nome de Helenismo. Pouco tempo depois da morte de Alexandre, e o nascimento do império romano, e muitas guerras, a “Grécia” nunca mais realizou qualquer coisa digna de nota.
A herdeira do nome Grécia, cuja capital é Atenas, outrora a mais gloriosa e poderosa cidade, é apenas um nome. A Grécia antiga abarcava um pedaço da Europa atual, como: partes da Itália, França e norte da África. No entanto, tem-se, hoje, a noção de que o país que na atualidade leva o nome de Grécia é o único proprietário da gloriosa nação do passado. Infelizmente, é duro de dizer, mas, fora o Parthenon, não há nada na Grécia moderna que remonte aquele período. E a Grécia parou.
Pulando 21 séculos na história, em 1822, vamos encontrar os gregos lutando contra o Império Turco Otomano por sua independência. Foi uma guerra apaixonada que contou com voluntários do mundo todo, os filelenos, que se alistaram para lutar pela pátria de Aristóteles. O poeta inglês, Lord Byron, foi um desses heróis a morrer nessa guerra.
Com a derrocada dos turcos na Primeira Guerra Mundial, a Grécia pareceu querer ressuscitar seu período de glórias, mas nenhuma novidade surgiu. Foi violentada na Segunda Guerra Mundial, escapou do comunismo, mas em 1967 mergulhou na ditadura dos coronéis. Terminou viciada numa corrupção desenfreada que não parou até hoje, fazendo o país sangrar, até precisar de abundantes injeções de dinheiro.
No momento, uma nova guerra, pior do que a de Tróia assola esse pequeno país, que quer ser pai e mãe da civilização ocidental. Em crise brutal, a Grécia parou de pagar os aposentados e seus cidadãos estão se suicidando e abandonando o país. O governo pôs suas lindas e lendárias ilhas à venda. Podemos dizer que a Grécia está vivendo uma Tragédia Grega, desta vez, sem intervenção dos deuses.
A brutal crise da Grécia tem nome: chama-se corrupção, endêmica e sistêmica. Do vendedor de picolés, passando pelo servidor público, ao guia turístico, chegando ao primeiro-ministro e a todas as instituições gregas, a corrupção é uma regra. Nenhum país da Europa, nem mesmo a primitiva Albânia, após a queda do Muro de Berlim, enfrentou uma crise como a que a Grécia enfrenta, e que não tem data para acabar. A Grécia é hoje um ferimento aberto sangrando a União Europeia – a velha Europa que, cansada de guerras, resolveu juntar-se para dar fins aos conflitos milenares que a corroíam. Mas a Grécia está destruindo essa União.
A desgraça da Grécia é um exemplo para Portugal e Espanha, duas nações ricas e corruptas, outrora grandes impérios. É uma lição para um poderoso país da América do Sul, o Brasil, que toma porres homéricos e se embriaga na venenosa taça da corrupção.
Lembro-me de Julieta dizendo a Romeu: “Que há em um nome? Se uma rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume!”. Não é o caso da Grécia, faz dois mil e trezentos anos que ela não exala o adorável perfume que nos inebriou a todos. Mas também não precisava exalar o odor pútrido da corrupção.

Theófilo Silva é articulista

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Disponibilidade para Perdoar, por CARLOS DE ALMEIDA VIEIRA

Um certo dia alguém me falou: “ Fui ferida no âmago da minha alma. Jamais poderia ter ocorrido tal feito.Era alguém que eu amava muito, alguém para quem minha vida foi ofertada como “salvação”. Alguém que sempre confiei, com quem abri meu coração e que sempre amei. Nunca desculpei, nunca mais o vi, para mim esta pessoa está morta dentro de mim. Você não sabe o que é uma ferida aberta anos e anos! Tem gosto amargo, tem cheiro de fel, nunca fecha.Perdoar, jamais! Jamais posso entender, aceitar e tolerar uma coisa assim. A vingança é o meu futuro, nunca mais serei a mesma.”

Ferida, ferida narcísica, daquelas que a memória jamais pode dar lugar a outra coisa!
O narcisismo arrogante, a vaidade, o sentimento de ser invulnerável e a fantasia de imunidade a ser ofendido são aspectos da mente humana que nos impede de lidar com a dor, a dor mental. Uma mente ferida sofre uma dor psíquica profunda. Há o ferimento, a dor, a memória afetiva, rígida, que não apaga, o ressentimento e a fantasia de que a vingança daria um fim à experiência dolorosa.

Alguém que navega assim na vida e que reage dessa maneira, carrega consigo ódio, queixume e conseqüente depressão. Perdoar, capacidade para o perdão, são aspectos da mente humana por demais complexos. Perdoar exige esquecer, suportar, tolerar ”correr uma esponja sobre”. O perdão é possível, mas a ferida fica registrada, ainda que não exista mais ódio, e sim uma tristeza temporária de ter sido alvejado.

Penso que é necessário ser muito amoroso consigo mesmo para não manter dentro de si o ressentimento.Talvez no fundo, perdoar é perdoar a si mesmo e não ao outro. É não se identificar com o agressor, pois desse modo, se existir desconforto conseqüente, será naquele que feriu. A capacidade para perdoar está na pessoa que traz dentro de si muito amor e condições para tolerar que é alguém vulnerável. Com vulnerabilidade quero dizer a condição humana de “levar um tombo” na vida e não permitir ficar estragado.

Quando se é atacado pela violência do outro, pela traição, pela ingratidão, é importante que se tome isso não como algo contra si, mas como uma questão odiosa da pessoa que fere. A pessoa a que me referi no começo desse escrito, por desamor a ela, só restava o amor do outro. E quando esse desafeto vem, como sobreviver sem autoestima? É com o amor próprio que se reconstrói uma vida após um desastre amoroso. E aí, mesmo ferida, essa pessoa tem condições de retomar sua vida sem necessidade de ficar imerso na depressão, no rancor, no ressentimento e na expectativa da vingança.

Ódio gera ódio, e na experiência de nutrir o ódio se faz uma depressão, um estado melancólico sem fim. A condição para perdoar é uma condição de ser amoroso consigo e com aquele que feriu. Caso não existisse essa alternativa, o que seria dos pais diante da ingratidão dos filhos? Para suportar injúria, ingratidão é necessário ter muito amor no coração.

Em sua última peça, "A Tempestade", Shakespeare traz uma alternativa para superar o desejo de vingança: “Muito embora seus crimes me tivessem tocado tão de perto,/ em meu auxílio chamo a nobre razão para sofrearmos de todo minha cólera./ É mais nobre o perdão que a vingança./Estamos todos arrependidos,/ não se estende o impulso do meu intento/nem
sequer a um simples franzir do meu sobrecenho.”

O amor predomina sobre a capacidade de odiar, eis a questão do perdoar. Pensemos agora naquele que fere, sente culpa e logo quer o perdão.Sentir culpa, prefiro dizer, sentir responsabilidade pela ferida que causou é um grande passo. Só sente responsabilidade e culpa quem gosta da pessoa que magoou.Logo é ameaçado de perder o outro, de não ter o perdão, de fazer qualquer coisa para “zerar a dívida”.

Será que é possível zerar a ferida? Ela já foi feita: o que se pode fazer é melhorar a qualidade da relação afetiva para não ferir tanto. Outra coisa é esperar o perdão, caso a outra pessoa possa perdoar. Caso contrário, considerar a própria violência feita a quem gostamos já é uma reparação, e isso nos acalma e nos traz transformações na relação. Pois bem, fica hoje uma reflexão: tanto a capacidade para perdoar como a disponibilidade para lidar com a própria agressividade são expressões do impulso de vida que existem dentro de uma pessoa. Deixo o leitor com os versos de Emily Dickinson (1830-1886), poetisa americana nascida em Amherst, perto de Boston, Massachusetts:

“Se eu impedir que se parta um Coração/ Não terei vivido em vão./ Se eu amainar de
uma Vida o Sofrimento/ Ou abrandar uma Dor, um momento/ Ou ajudar um exausto
Passarinho/ A voltar de novo ao Ninho/ Não terei vivido em vão.”

Carlos A.Vieira, médico,psicanalista da Soc. de Psicanálise de Brasilia-Membro da FEBRAPSI-IPA-London

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Bilhetinho sem Maiores Conseqüências - Torquato Neto

Uma retificação, meu bom Vinícius:
Você falou em "bares repletos de homens vazios"
e no entanto se esqueceu
de que há bares
lares
teatros, oficinas
aviões, chiqueiros
e sentinas,
cheinhos(ao contrário)
de homens cheios
Homens cheios.
(e você bem sabe)
entulhados da primeira à última geração
da imoralidade desta vida
das cotidianas encruzilhadas e decepções
da patente inconsequência disso tudo.
Você se esqueceu
Vinícius, meu bom,
dos bares que estão repletos de homens cheios
da maldade das coisas e dos fatos,
dos bares que estão cheios de homens cheios
da maldade insaciável
dos que fazem as coisas
e organizam os fatos
E você
que os conhece tão de perto
Vinícius "Felicidade" de Moraes
não tinha o direito de esquecer
essa parcela imensa de homens tristes,
condenados candidatos naturais
a títulos de tão alta racionalidade
a deboches de tão falsa humanidade.

Com uma admiração "deste tamanho".



Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina, Piauí, 9 de novembro de 1944 - Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972). Poeta, letrista e crítico de música, foi figura essencial na efervescência cultural dos anos 60. Foi nome e porta-voz do Tropicalismo, da poesia Concreta e da música brasileira naquela época. Escrevia crítica de música para o Geléia Geral.

sábado, 10 de setembro de 2011

A faxina da Dilma

Já que a faxina da dona Dilma não vai mesmo para a frente, proponho-me hoje a olhar para baixo do tapete e procurar pelas origens evolutivas da corrupção. Como ocorre com nove entre dez problemas crônicos da humanidade, nossas dificuldades decorrem do descompasso entre nossos cérebros, projetados para operar no paleolítico, e o ambiente das sociedades modernas, com ritmos e exigências totalmente diferentes.

Uma boa analogia é com a obesidade. Devido às adversidades enfrentadas por nossos antepassados ao longo da maior parte de sua história, o organismo humano foi selecionado para perseguir compulsivamente alimentos calóricos (em especial doces e gorduras) e para armazenar toda energia sobressalente na forma de tecido adiposo.

As condições de vida mudaram, mas o organismo, não. Nós continuamos programados para adorar "cheesecake" e outras combinações perigosas de ácidos graxos com açúcares, porém num contexto em que adquirimos nossas calorias em supermercados, em vez de caçá-las na floresta. O resultado é a epidemia de obesidade.

A corrupção não é muito diferente. Como mostra o antropólogo Jerome Barkow, no clássico "The Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture", três traços psicológicos humanos básicos, a busca por status social, o nepotismo e a capacidade de formar alianças, estão na origem não apenas da estratificação social como também da política partidária e da corrupção.

Numa descrição sumária e quase caricatural do fenômeno, indivíduos buscam sempre as melhores condições de vida possíveis para si mesmos, seus filhos e parentes próximos. Nas sociedades de caçadores-coletores, era mais ou menos cada um por si. Por mais que os pais quisessem, não podiam garantir que seus rebentos gozariam das mesmas habilidades e, portanto, do mesmo prestígio que eles próprios. Nesse contexto, os grupamentos primitivos eram relativamente igualitários.

Mas foi só introduzir a noção de riqueza para alterar dramaticamente o quadro. Com o advento da agricultura, as sociedades passaram, pelo menos nos anos bons, a gerar excedentes de produção, cujos fluxos podiam ser em princípio controlados e, assim, transmitidos a familiares. É claro que não era muito fácil fazê-lo sem a ajuda de outros, que nem sempre eram parentes (depois que aprendemos a plantar, o tamanho dos assentamentos aumentou bastante).

E aqui eu peço licença para citar Barkow: "Se essa análise é correta, os pais se punham a estabelecer trocas sociais com outras pessoas, na verdade organizando uma conspiração política para garantir que seus filhos e os de seus parceiros também obtivessem de posições de poder".

É claro que o homem é mais do que seus instintos primordiais. Se os seguíssemos incondicionalmente, dificilmente teríamos conseguido formar comunidades com mais de uma dúzia de pessoas. E a cultura é justamente a força que faz com que nos adaptemos a novos ambientes em ritmos compatíveis com a vida humana, sem ter de esperar que uma nova programação genética brote por força de mutações aleatórias em nosso DNA.

Assim, à medida que nos organizamos em sociedades cada vez maiores e mais complexas, fomos também desenvolvendo uma cultura proto-republicana que, por razões óbvias, nos faz classificar como imoral e ilegal casos mais explícitos de nepotismo, desvio de verbas públicas, favorecimentos e outras modalidades de fisiologismo que chamamos genericamente de corrupção --a tal da conspiração das elites de que fala Barkow.

O problema com a cultura é que, embora seja poderosa, ela nem sempre consegue sobrepor-se a nossos pendores mais primitivos, como o atesta a sucessão de escândalos que afeta a administração pública em seus mais variados níveis.

Seria tentador parar por aqui e concluir que a questão poderia ser resolvida se reforçássemos as disposições da cultura proto-republicana com leis e regimes mais severos de fiscalização, se metêssemos os políticos corruptos no xadrez, para falar português claro. Evidentemente, incluo-me entre os que defendem a responsabilização dessa gente, mas receio que as coisas sejam mais complicadas.

O nepotismo, que está na origem desses males modernos, por exemplo, é uma questão muito mal resolvida pela cultura. Nepotismo, afinal, é o nome que biólogos (e promotores) dão a um fenômeno que também pode ser descrito como amor. Abominamos o político que contrata parentes, mas o direito à herança é reconhecido por praticamente todos os sistemas jurídicos do planeta. Discute-se o imposto a ser gravado sobre as sucessões, mas raramente o direito de transmitir bens a filhos.

Entramos aqui no que o psicólogo Steven Pinker chama de paradoxo fundamental da política: o amor (e proteção) que pais dedicam a seus filhos torna impossível que uma sociedade seja, ao mesmo tempo, justa, livre e igualitária.

Se ela é justa, as pessoas que se esforçarem mais acumularão mais bens. Se é livre, elas os transmitirão a seus parentes. Mas, neste caso, a sociedade deixa de ser igualitária e justa, pois alguns herdarão riquezas pelas quais não trabalharam.

Sob essa chave interpretativa, uma ideologia política nada mais é do que a escolha de qual dessas características deve preponderar. Sistemas mais à esquerda enfatizam o igualitarismo, enquanto a direita enaltece a liberdade. Cada um deles define seu próprio "blend" como a materialização da justiça. O paradoxo, porém, nunca chega a ser resolvido.

E Pinker, em "How the Mind Works", aponta outra interessante --e surpreendente-- consequência de nossas inclinações nepotistas: elas transformam a família numa organização subversiva. Aqui, numa tacada só, contrariamos a noção cara à direita de que o Estado e a igreja são os sustentáculos da família e a visão esquerdista de que essa instituição foi concebida para enfraquecer o papel da mulher e a solidariedade de classe e, assim, perpetuar o "statu quo".

Se formos às evidências, o que vamos descobrir é que praticamente todos os movimentos políticos e religiosos da história tentaram atropelar a família. Nazistas e comunistas, por exemplo, cobravam de seus membros uma solidariedade "maior" do que a dedicada a parentes. E o doce Jesus não foi uma exceção, a crer em Mateus 10:34-37: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim".

É compreensível. A família, afinal, constitui uma tremenda de uma "concorrência desleal" a qualquer outro tipo de organização, pois parentes têm o impulso inato de zelar uns pelos outros. Mais do que isso, perdoam com facilidade pequenas ofensas que, em outras esferas, dão lugar a disputas intermináveis. Chegam até a contrariar seus interesses mais imediatos para vingar-se de "ofensas cometidas contra o sangue". Dificilmente existe uma maneira mais radical de "vestir a camisa" da empresa.

Foi só depois que algumas dessas organizações constataram que não tinham como competir com a família que tentaram cooptá-las, declarando-se suas defensoras. Há aqui, contudo, uma usurpação e um erro de lógica, pois as famílias antecedem em pelo menos duas centenas de milênios as primeiras instituições religiosas e ideologias políticas. Ou seja, a família (extensa ou monoparental) sempre foi muito bem sem o Estado e sem a religião.

Mas, voltando à corrupção, se não podemos acabar com o nepotismo --ou amor, chame-o como preferir-- e outros pendores que facilitam favorecimentos, é perfeitamente possível discipliná-los, de modo a reduzir o fosso entre nossos impulsos pré-históricos e as necessidades éticas de um Estado moderno. Um dos principais focos de fisiologismo e de corrupção por aqui são as indicações para cargos políticos.

De acordo com um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os postos de livre nomeação no Brasil chegam a 22 mil, só na esfera federal, contra 7 mil nos EUA e apenas 780 na Holanda ou 837 no Chile.

Assim, reduzir de milhares para centenas (ou ainda menos) os cargos de livre provimento do presidente já representaria uma pequena revolução administrativa (em princípio, o funcionário concursado é mais competente que o apadrinhado) e política (partidos e governo teriam de encontrar outra forma de negociar maiorias parlamentares). Certamente não basta para acabar com o nepotismo e a corrupção, mas seria um bonito experimento sociológico, com o qual a sociedade não tem nada a perder, muito pelo contrário. Se a dona Dilma quer mesmo fazer uma faxina, este seria um bom lugar para começar.

Hélio Schwartsman, 44, é articulista da "Folha". Bacharel em Filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A TRANSFORMAÇÃO DO PT, por Carlos Chagas


Ninguém acerta sempre. Como ninguém erra todas as vezes. O país deve muito ao PT, na realidade a única coisa nova formada depois de 21 anos de ditadura, em termos partidários. Uma legenda nascida nos recônditos da indignação nacional e da determinação não apenas da resistência, como foi o extinto MDB, mas da confiança na criação de uma estrutura capaz de representar os anseios da nação que se reciclava. Ao contrário do que se estabeleceu depois, o PT não era menor do que fundadores, mas muito maior.

O tempo passou. Parte de seus artífices debandou, a maioria plena de razão. O partido perdeu-se de suas origens. Aburguesou-se. Ficou igual aos demais. Hoje, dá lições de como o poder consegue distorcer os propósitos mais puros.

Tome-se o seu Quarto Congresso, realizado no final da semana. Para quem assistiu o Primeiro, em 1981, verifica-se a inversão completa de valores e de intenções. Naqueles idos, a palavra de ordem era a socialização dos meios de produção e a entrega ao trabalhador dos frutos de seu trabalho. Agora, transformou-se na desenfreada corrida em busca de resultados, ou seja, nomeações à sombra do poder público, assim como na acomodação diante das migalhas concedidas pelos condutores do processo econômico que um dia os companheiros combateram. De partido de luta, virou partido de acomodação, só que para beneficiar seus dirigentes. Sequer resistiu à tentação de integrar-se às estruturas contra as quais insurgiu-se um dia.

É pena concluir assim, diante da transformação de um PT que um dia pode, mas não quis, e que agora, querendo, não pode mais.

Ausência de militares com Dilma na parada causa estranheza em Brasília


DILMA NO DESFILE MILITAR: CERCADA APENAS POR CIVIS, NO PALANQUE
A ausência dos comandantes das três Forças Armadas nos lugares próximos da presidenta Dilma Rousseff - na fileira de cadeiras logo atrás dela - causou rumores em Brasília, nesta quarta, na Parada da Independência, de que ela tenha evitado os militares nos lugares principais do palanque durante o desfile. Os lugares mais próximos da presidenta, mostram a maioria das fotos divulgadas, foram ocupados apenas por assessores e ministros civis. Tradicionalmente, nas paradas de Sete de Setembro, o presidente fica ao lado do ministro da Defesa e dos comandantes militares, mas estes foram mantidos distantes dela. Ex-presa política no regime ditatorial brasileiro, Dilma não esconde que guarda rancor da época em que ficou trancafiada em celas e foi torturada. A relação da presidenta com o general José Elito Carvalho, do Gabinete de Segurança Institucional, também não é das melhores, revelou hoje esta coluna (ao lado). Este ano, ao contrário de outros, o Cerimonial do Palácio do Planalto preferiu colocar os militares em lugares na primeira fileira, segundo consta, oficialmente, para dar mais destaque aos comandantes, do que atrás da chefe da nação. Porém, longe dela

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A crise põe em xeque a União Européia

O euro esfarela desde o início da crise, mas ontem ensaiou estrebuchar. A União Européia praticamente não faz mais jus ao nome. O laço monetário que a sustentava deixou de ser um trunfo para se consolidar em algoz.

A Grécia, submetida à terapia ortodoxa para manter a moeda única, naufraga numa recessão que deixará de pé apenas as ruínas antigas, no dizer dos oposicionistas. O PIB deve cair 5,5% este ano. O descrédito do país é tamanho que os credores exigiam, ontem, taxas de juros de 50% para rolar a dívida grega por mais dois anos.

Essa é a síntese do pacote de arrocho imposto pela Alemanha e o BCE que deveria escalpelar a sociedade para devolver a confiança aos investidores. A crise na Grécia já é abertamente política: governo, credores e sociedade não se entendem.

A exemplo do impasse em Atenas, a Itália patina nas mãos de credores que desacreditam da solvência de um país que deve 120% do PIB, é incapaz de arrecadar mais impostos da plutocracia, depende apenas de arrocho sobre os assalariados, tem um governante que se chama Berlusconi e está às voltas com uma greve geral que deve paralisar o sistema de transportes hoje.

Impasses semelhantes enfrentam a Espanha de Zapatero e Portugal de uma direita que se jacta de lubrificar a goela lusitana para injetar dois anos de recessão no metabolismo nacional. A crise aponta claramente as tarefas que se impõem.

A salvação da UE pressupõe uma socialização do resgate fiscal de Estados periféricos atingidos no contrapé pela crise mundial. São duas as providencias heterodoxos inadiáveis: a) arrecadar mais dos ricos e das grandes fortunas para desafogar o grau de endividamento de Estados capturados pelo rentismo no ciclo de alta liquidez neoliberal; b) lançar euro-bonus que diluam as fragilidades periféricas na força e da credibilidade das economia centrais, Alemanha e França , sobretudo.

Angela Merkel, porém, a dama-de-ferro conservadora, resiste em fazer da UE algo mais do que um quintal cativo das exportações germânicas. Nem o aço ortodoxo de que é feita, todavia, resiste mais à corrosão da maré vazante. Derrotada em sua própria base eleitoral nas eleições regionais de domingo último, Merkel deixou de ser referência (autoritária) de futuro para se transformar, ela própria, em fator de incerteza no presente.

Ontem, em meio à fúria dos mercados, ao contrário de emitir sensatez, sua voz conservadora disparou: " Se a Grécia sair do euro será um efeito dominó". No final do dias as bolsas de todos os países fecharam um dos pregões mais desastrosos da crise.

Em tempo: e ainda há na mídia demotucana quem, de posse plena de suas faculdades mentais, classifique como 'precipitada' a redução de meio ponto na taxa de juro brasileira. O que seria do país se essa lógica ainda fosse governo?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Congresso do PT, um evento autista

O congresso nacional do PT, pós-Lula, foi um repeteco pálido dos anteriores, com uma pauta anacrônica cujo ponto central foi a enfadonha cantilena de controle da mídia, sem a repercussão política pretendida.
Mais do que antes, os temas em debate referendaram o conceito que o próprio Lula já fizera, em seu governo, de que tais conferências não passam de uma “usina de factóides ideológicos” sem qualquer vínculo com o exercício real do poder.
Não é para se levar a sério, disse o presidente em entrevista ao Estadão à época. A própria tese de controle da mídia foi desautorizada pela presidente Dilma após o congresso, em que se permitiu fazer parte do jogo de cena sustentado pelo partido para politizar os delitos do mensalão.
O PT vai fechando o ciclo de um partido de perfil ideológico à esquerda e se consolidando como uma agremiação cada vez mais similar ao PMDB com quem disputa a hegemonia na composição do governo.
O partido hoje se consome numa disputa interna por território político, com suas diversas facções conduzindo os movimentos dentro de uma pauta de natureza eleitoral em que os conteúdos seguem as conveniências da estratégia de crescimento municipal.
De fato, o que está em jogo agora é ampliar o número de prefeituras na tentativa de avançar sobre a hegemonia da máquina pemedebista, reduzindo-a em 2012. É o que verdadeiramente importa agora ao partido.
O que se reflete no governo aonde disputa espaço com o PMDB por ministérios e estruturas de segundo escalão capazes de influir no pleito municipal.
A corrupção no governo, cada vez mais desnudada pela mídia, é obstáculo concreto às pretensões eleitorais. Na medida em que foge à responsabilidade de combatê-la, mais se distancia do objetivo. Melhor, então, combater ferozmente o mensageiro, ainda que ele noticie prisões feitas pela Polícia Federal.
Não emanou do congresso recente nenhuma bandeira capaz de sensibilizar o eleitor. O desagravo ao ex-ministro José Dirceu, atingido pela matéria da revista Veja em que figura como um dirigente com influência sobre ministros e autoridades do partido no governo Dilma, deu caráter ainda mais doméstico ao evento.
É nesse contexto que se retoma a idéia delirante de controlar a comunicação no País. Sim, porque é disso que se trata – e não de regulamentação da mídia, eufemismo utilizado para a verdadeira intenção de exercer censura sobre os meios de comunicação.
Velhos chavões, como o monopólio da mídia por famílias proprietárias (tese desmontável com um simples levantamento nacional), não significam absolutamente nada.
O único ponto real desse discurso todo é a necessidade de se rever critérios de concessões de rádio e televisão para deputados e senadores, abordagem, de resto, já feita pela própria mídia.
Mas que empaca no Congresso Nacional, por óbvio. O PT não enxerga que ao concentrar suas energias na mídia, vai se afastando daquilo que realmente interessa à sociedade, como o corporativismo que absolve a deputada Jacqueline Roriz, comemorado pelo líder do governo,, Cândido Vacarezza.
Ou o papel de guardião da lista de parlamentares infratores que mantém negócios de suas empresas com o governo, exercido pelo Conselho de Ética da Câmara.
Ou a defesa do combate seletivo à corrupção, ou seja, aquele que naturalmente poupar seus pares.
E tantas outras mazelas políticas que o partido historicamente condenava – e que, hoje se confirma, era apenas como plataforma para chegar ao Poder. De onde, agora, demoniza a mídia e o ministério público, instituições em que se apoiou para o alcançá-lo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Por que não me ufano de meu Pais, Danuza Leão, na Folha

A classe política nunca foi flor que se cheirasse (fora as exceções etc.), mas a cada nova eleição ela consegue ficar pior. Fico pensando nesses deputados que absolveram Jaqueline Roriz; o que é que eles dizem a seus filhos? Como se explicam?

É bem verdade que, sendo o voto secreto, eles podem sempre mentir e dizer que votaram pela cassação, mas será que cola?

Mas ainda tem pior: o vergonhoso secretário de Transportes do Rio, Julio Lopes, que depois da tragédia com o bondinho de Santa Teresa tentou botar a culpa no pobre do condutor que tinha morrido; é de uma falta de caráter revoltante.

Depois dessa tragédia, que deixou cinco mortos e mais de 50 feridos, qualquer secretário de Governo (sério) teria a obrigação de se demitir; se não o fizesse, o governador teria a obrigação de demiti-lo. Mas como o governador é Sergio Cabral, ele continua no cargo; quando questionado, três vezes, se iria demitir o "secretário", ele simplesmente não respondeu. Quanto tempo falta para acabar esse governo que o Rio não merece?

Se fosse na Argentina ou no Chile, o povo iria para a rua; no Brasil _no Rio_, o máximo que acontece é uma passeatinha muito frouxa, diante do mar _isso se estiver fazendo sol, para pegar uma praia depois.

Aqui, as coisas não acabam em pizza, mas em samba. O governo é o que é, e a oposição, ninguém sabe, ninguém viu. Enquanto isso, os escândalos se sucedem, e a presidente já deixou claro que não vai continuar a faxina _"faxina é para acabar com a pobreza", diz ela.

Sem corrupção, presidente, o país teria dinheiro para a saúde, a educação, as estradas etc., e isso me lembra do que dizia o saudoso ministro Mario Henrique Simonsen: "fica mais barato pagar a comissão e não fazer a obra".

Tremo em pensar na Copa do Mundo; no preço que vão custar as reformas, nas licitações que não vão haver, devido à urgência _tiveram todo o tempo do mundo e deixaram tudo para a última hora. Aliás, tanto faz. Alguém acredita que alguma licitação no Brasil é séria? Estamos cansados de saber que é tudo combinado antes, viva a criatividade brasileira.

Mas o ministro do Turismo, amiguinho de Sarney, continua firme e forte no seu posto. Aliás, é só olhar para saber que ele é o homem certo para o lugar certo.

Mais do que pelo dinheiro que vai ser afanado, tremo em pensar que um estádio pode cair, como caem as pontes pelo Brasil afora, por ter sido malfeito, por terem misturado areia com o cimento, para o lucro ser maior. Houve um tempo em que a corrupção era mais personalizada, para usar a palavra da moda; hoje, qualquer escândalo é seguido por "formação de quadrilha". Que se trate de Fernandinho Beira-Mar, ou dos mais importantes ministros do governo _desse governo e do outro, o último_, a corrupção agora é coisa de quadrilha.

E prefiro não fazer as contas de quanto tempo falta para as eleições majoritárias, para não pensar nas caras dos governantes rindo muito e voando, de Estado em Estado, nos jatinhos dos empresários, para ver os jogos do Brasil. E, a cada vez que nossa seleção ganhar, considerar e fazer cara de que a vitória é um pouco deles.

Cansei, mas vou continuar votando; é o que posso fazer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Run baby run.......


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Le film : deux siècles d'histoire de l'immigration en France | Cité nationale de l'histoire de l'immigration

Le film : deux siècles d'histoire de l'immigration en France | Cité nationale de l'histoire de l'immigration

Maioria insidiosa; Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

DF: secretária de Educação se demite por não suportar pressão de petistas

A secretária de Educação do governo do Distrito Federal, Regina Vinhaes, e seu adjunto, Erasto Fortes Mendonça, pediram demissão no início da noite desta quinta-feira, durante reunião com o governador Agnelo Queiroz. Ela é mais um auxiliar de primeiro escalão que não suportou as pressões e os ciúmes dos petistas que cobiçavam o cargo, sobetudo parlamentares e sindicalistas ligados ao sindicato dos professores. Outro que se demitiu nas mesmas circunstøancias foi o ex-secretário de Obras Luiz Pitiman, deputado federal pelo PMDB-DF. O atual secretário de Administração Pública, Denílson Bento da Costa, ocupará o cargo interinamente. Regina Vinhaes chefiou a pasta por quase nove meses. Foi uma escolha pessoal do governador, que deixou inconformados os petistas.
----------------------------------------------------------xxx-----------------------------------O mesmo delito que serviu para derrubar um governador não foi suficiente para a Câmara cassar o mandato de uma deputada. Assim como José Roberto Arruda, Jaqueline Roriz foi filmada enquanto recebia dinheiro do dublê de operador e delator de um esquema de arrecadação e pagamento de propinas a agentes públicos no Distrito Federal.

Até a quantia era a mesma: R$ 50 mil.

O fato não veio ao caso. O importante na concepção de 347 deputados - 265 votantes, 20 abstencionistas e 62 faltosos - não é o convívio com quem prevarica, mas criar um salvo-conduto para a prevaricação geral.

E não se diga que o ato buscou preservar vidas pregressas, o que em si já seria grave. No julgamento de "La Roriz" estava em jogo o preceito do crime cometido anteriormente ao mandato em curso, mas desde 2006 a Câmara não pune ninguém mesmo por delitos ocorridos no exercício da delegação popular.

Desde o mensalão, quando foram cassados os deputados José Dirceu, Roberto Jefferson e Pedro Corrêa, parece ter havido um pacto de não agressão no Parlamento pelo qual tudo é perdoado em nome do corporativismo malfeitor.

Quanto mais transgressores são absolvidos, mais transgressora se torna a instituição, que na noite desta terça-feira chegou à perfeição ao patrocinar uma absolvição a despeito da prova filmada em vídeo.

Depois disso, não há mais como estabelecer o que seja ou não quebra de decoro parlamentar. Tudo se tornou permitido e ao mesmo tempo dominado pelo princípio de que o crime é sempre compensador se for devidamente protegido da cobrança da opinião pública.

Trabalho de uma maioria silenciosa, que naquela sessão de julgamento se calou durante o processo, não defendeu sua posição - portanto, confessadamente indefensável -, abrigando-se na ausência e no voto secreto. Uma anomalia cujo fim a Câmara chegou a aprovar em primeiro turno depois de várias absolvições de mensaleiros, mas que houve por bem enfiar na gaveta onde se arquivam muitos males, entre os quais a prerrogativa de não decidir.

Os dois maiores partidos de sustentação do governo, PT e PMDB não deram uma palavra para dizer o que achavam a respeito do que se passava ali. Aderiram ao silêncio cínico de aprovação à tese de que crime tem prazo de validade.

Os petistas, tão senhores de si quando se trata de ironizar a má fama dos pemedebistas companheiros de aliança, não têm mais argumentos para tripudiar: com tantos nos bancos dos réus só lhes resta se unirem no deboche ao País, na esperança de que a impunidade de hoje não só os favoreça amanhã, mas lhes sirva como defesa.

Em seguida à exorbitância da absolvição não obstante a prova, a Câmara arrematou: como se nada demais tivesse acontecido, sacudiu de leve a poeira e prosseguiu a sessão para o "cumprimento de um acordo" para votação de três destaques em medida provisória cujo prazo expira só daqui a 20 dias.

Uma legítima celebração do descaramento incorporado ao cotidiano como rotina.

Já foi diferente. Hildebrando Pascoal, o assassino da serra elétrica até hoje na cadeia, foi cassado há quase 12 anos por crimes cometidos anteriormente ao mandato de deputado que cumpria pelo Acre.

Mas aqueles ainda não eram tempos estranhos em que as piores baixezas são praticadas com ares de grandeza.

Autoria da obra. Depois da passagem de Lula pela Presidência, emprestando o prestígio do cargo à defesa de malfeitores e ao ataque aos que os criticam ou tentam lhes impor freios, o ambiente ficou muito mais permissivo na República.

Cenografia. Amanhã o PT realiza um congresso em Brasília. Das decisões, entre petistas a mais importante é a foto de Dilma com Lula para simbolizar a união fraterna.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Os deputados federais e a ética do fisiologismo

A deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF) foi absolvida por seus colegas da acusação de quebra de decoro parlamentar. Nesta terça-feira, a filha do outrora todo poderoso chefe político do Distrito Federal foi perdoada por seus pares. Nunca é demais lembrar que a brasiliense fora filmada embolsando dinheiro vivo das mãos do ex-secretário de Relações Institucionais de seu pai e de José Roberto Arruda, Durval Barbosa; e a quantia fora por ela assumida como recurso de campanha para deputada distrital (2006), quando então concorrera pelo PSDB.

Tais imagens circularam em rede nacional e têm ligação com a Operação Caixa de Pandora, inicialmente apurando o episódio do Mensalão do DEM. Ou seja, não se trata de ilação criativa. É um flagrante, e foi perdoado.

O instrumento da votação secreta foi mais uma vez empregado para condecorar uma cumplicidade inconfessável. Esta também reflete os custos da tal da governabilidade.

Nos três últimos governos, o Planalto vem exercendo sua capacidade de construção de bloco de apoios negociando esta coalizão através de mecanismos vergonhosamente reconhecidos por toda a nação.

Não quero cair em dilema moralista, mas é impossível fugir do debate da ética. Certa feita, ao desenvolver este raciocínio em entrevista para uma rádio da capital paulista, quase me compliquei judicialmente. A âncora me perguntara se eu entendia como a missão principal da Mesa Diretora do Senado assegurar transparência e defender a ética.

Disse não, que era justamente o oposto.

Ora, se a composição do grupo político do udenista José Sarney existisse para assegurar alguma transparência na coisa pública, já o teria feito quando ainda pertencia a ala bossa nova da agremiação golpista de Carlos Lacerda.

Sua meta é ampliar o raio de poder, comportando-se conforme a ética prevalente entre os pares, que por sinal o elegem.

A história se repete. Jaqueline Roriz foi absolvida também porque seus pares veem nela um espelho da própria conduta. O instrumento do voto secreto poupa declarações inócuas e custos políticos extras.

No país onde a democracia depende de um Poder Legislativo cuja maioria de sustentação é negociada através de prebendas, espelha uma cultura política já muitas vezes aqui por mim “polidamente” retratada como paroquial, fisiológica, patrimonialista, de clientela e atravessada por nepotismo e corrupção.

Os 265 votos contrários à cassação de Jaqueline Roriz proclamam, em silêncio cúmplice, um manifesto a favor dessa odiosa forma de fazer política.

Bruno Lima Rocha é cientista político
(www.estrategiaeanalise.com.br /blimarocha@gmail.com)