quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Terra se move; Miriam Leitão, O Globo

Terça foi um dia devastador. Foi desmoralizante a derrota dos ambientalistas e de todos os que defendem uma modernização das práticas agrícolas no Brasil na votação do Código Florestal na Câmara dos Deputados.

Os ruralistas conseguiram tudo o que queriam. Dois defensores da floresta foram assassinados no Pará e, mesmo depois de mortos, vaiados no Congresso.

Foi também o dia da morte de um lutador contra o racismo. Era uma delícia conversar com Abdias Nascimento, ouvir suas histórias, e ver que, tendo nascido em 1914, em 2011 ele ainda combatia as lutas que atravessaram sua vida. Sua convicção era que o racismo brasileiro divide a sociedade de uma forma dolorosa para quem vive o preconceito; mas continua invisível e negada por uma parte do país.

Abdias foi um agitador cultural e produtor de ideias. Começou a defender teses de ação afirmativa antes que o conceito existisse, nos anos 1940. Nas várias trincheiras em que atuou — teatro, cinema, jornalismo, artes plásticas, política — era o mesmo Abdias: o que sustentava que sim o racismo existe entre nós, disfarçado às vezes, explícito outras, e que com todas as suas artimanhas ele apequena o Brasil.

As notícias dos acontecimentos no Congresso me lembraram os clubes da lavoura dos tempos do Império.

Naquela ordem escravagista, o abolicionismo era tratado como ideia que destruiria a capacidade produtiva do país. Montados como centrais de lobby para a defesa da escravidão, os clubes da lavoura sustentavam que o país se consumiria sem a escravidão.

De vez em quando o Brasil segue a ordem de evitar o progresso. Contudo, a Terra se move. Por seis anos os abolicionistas, monarquistas ou republicanos, lutaram, com o apoio do Imperador, até que conseguiram aprovar a Lei do Ventre Livre.

Fazendo apenas o cálculo econômico: foi uma insensatez a escolha que o Brasil começou a fazer na noite da terça-feira. O Brasil é grande e competitivo produtor de alimentos. Continuaria a ser, com mais segurança, se tivesse escolhido o caminho da conciliação com o meio ambiente.

Mas ele escolheu, até agora, aceitar o desmatamento, anular as multas a grileiros e desmatadores, deixar aos estados decisões sobre áreas de preservação, reduzir a proteção das florestas e remanescentes de matas que ainda temos em outros biomas.

Os cientistas alertaram que este caminho é perigoso. A Agência de Águas avisou dos riscos. Ex-ministros que serviram a partidos, governos e regimes diferentes se uniram. Mas o recado da Câmara foi eloquente: venceu o clube de lavoura.

Há produtores com visão moderna, mas para eles o silêncio foi conveniente. Apareceram para falar uns poucos, como o bravo Marcos Palmeira, que refaz seu pedaço de Mata Atlântica e supre supermercados do Rio com alimento orgânico enquanto espalha informações sobre novas práticas.

Mas os grandes produtores que entendem a necessidade do equilíbrio entre produção e proteção, preferiam soltar a tropa de choque do pior ruralismo. A oposição não se opôs; o partido do governo se partiu.

Símbolo de um dia em que o passado engoliu o futuro foi o momento em que os ruralistas, em plenário, e sua claque, nas galerias, vaiaram vítimas de um assassinato. José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo foram mortos em emboscada no Pará.

Um detalhe macrabro: os assassinos arrancaram a orelha de José Cláudio. Os dois eram líderes de projetos extrativistas. Lutavam, entre outras causas, para proteger a Castanheira, árvore que por lei não pode ser derrubada. Tinham 20 hectares em Nova Ipixuna com 80% da área preservada.

Juntos com outros 500 pequenos produtores extraíam óleos vegetais, cupuaçu e açaí. Estavam ameaçados e foram mortos por denunciar desmatamento para a produção de carvão e formação de pasto.

O carvão está na cadeia produtiva da siderurgia, entre outras. Os pastos estão na produção da proteína animal. No mundo inteiro a tendência da hora é limpar a cadeia produtiva. Grandes empresas sabem que perdem mercado e consumidores se não fiscalizarem a sua lista de fornecedores.

A hora da verdade chegou.

No mundo inteiro há consumidores se perguntando como são feitos os produtos que consomem e que tipo de prática eles legalizam nas suas compras. Foi a pressão de consumidores que levou à moratória da soja. Foi a coalizão entre supermercados, consumidores, Ministério Público e ONGs que levou ao pacto da carne legal; uma ideia ainda não realizada.

O maior produtor de carne do Brasil, o JBS-Friboi, me disse que não tem como controlar sua cadeia produtiva. O BNDES, gestor do Fundo Amazônia, é hoje o maior acionista do JBS. Tudo isso vai alimentar as barreiras contra o comércio externo brasileiro.

A derrubada de todas as barreiras, camufladas ou não, à ascensão dos negros tornará a economia mais forte. A inclusão da preocupação ambiental na produção agrícola vai aumentar a capacidade do Brasil de competir por mercados mundo afora, dará ao consumidor o conforto de um produto limpo, e protegerá a vocação agrícola do país das mudanças climáticas.

Os clubes da lavoura estavam errados no século XIX. Os ruralistas vitoriosos de terça-feira estão errados. Contudo, a Terra se move.

domingo, 22 de maio de 2011

País enfrenta ‘dores do crescimento’

Demanda por serviços supera a oferta, e a expansão da economia deixa nos brasileiros a impressão de que o País está caro e lotado-----Raquel Landim, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Os brasileiros já sentem no seu dia a dia as "dores" do crescimento do País. Atividades cotidianas - pegar um táxi, comer num restaurante, conseguir um quarto de hotel, viajar de avião - tornaram-se verdadeiros desafios, principalmente nos grandes centros. A sensação das pessoas é que o Brasil está "caro" e "lotado".

A situação é um reflexo do avanço da economia e do mais baixo nível de desemprego dos últimos 20 anos. Desde 2003, o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresce, em média, 4% ao ano. A demanda por serviços superou a oferta e a consequência foi a superlotação e a alta dos preços. "O ritmo atual de crescimento é insustentável", diz Fábio Ramos, economista da Quest Investimentos.

Nos últimos 12 meses, comer fora de casa ficou 12,7% mais caro, estacionar o carro subiu 10,9%, a mensalidade da escola das crianças aumentou 9,1%, o aluguel subiu 9,9% e a consulta do médico pesa 10,4% mais no orçamento, revela cálculo da Quest. Boa parte dos reajustes é o dobro da inflação do período medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que já subiu salgados 6,5%.

As pessoas que viajam com frequência percebem com mais intensidade os problemas. O "calvário" começa com as filas intermináveis nos aeroportos e os atrasos dos voos, mas está longe de terminar ao chegar ao destino. Dependendo do horário, conseguir um táxi e um quarto de hotel são proezas.

Na cidade de São Paulo, existem 35 mil táxis em circulação, a terceira maior frota municipal do mundo. No entanto, nenhuma nova licença foi concedida nos últimos seis anos, período de forte crescimento da demanda. Os preços da corrida estão entre os mais altos do Brasil e são o triplo de Buenos Aires.

O mercado está tão aquecido que permitiu um reajuste de 16% na tarifa de táxis da cidade em novembro, sem nenhum impacto na demanda. Os taxistas culpam o trânsito pela falta de veículos. "São Paulo tem muito táxi e não comporta mais. É o trânsito que segura os motoristas", diz Natalício Bezerra da Silva, presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo.

Casa do primo. Vencida a etapa do transporte, é preciso conseguir acomodação no hotel. Os executivos reclamam que está difícil encontrar quartos em São Paulo, mesmo quando não há eventos de grande porte na cidade. Cláudio Fontes, diretor-geral da Ajebras, empresa de refrigerantes de origem peruana com filial no Rio de Janeiro, já teve de dormir na casa de um primo.

Fontes viaja a São Paulo em esquema de "bate e volta", mas às vezes é obrigado a ficar na cidade, o que traz problemas. Seis meses atrás, pediu hospedagem ao primo. Recentemente, foi dormir em um hotel em Itupeva, a 80 quilômetros da capital. "O preço da diária era o mesmo dos Jardins (bairro nobre da capital). Gastei uma hora e meia para entrar em São Paulo no dia seguinte", conta.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), a taxa de ocupação em São Paulo está em pouco mais de 70%, um nível considerado "confortável" pelo setor. A avaliação da entidade é que os gargalos se concentram no Rio e em Recife, onde a ocupação superou 80%. "Nos últimos anos, 30 milhões de brasileiros entraram no mercado. Se dermos conta da demanda interna, estaremos prontos para a Copa e a Olimpíada", disse Enrico Fermi, presidente da Abih.

sábado, 21 de maio de 2011

O poder, quando corrompe, por Mino Carta


Há formas diversas de abuso. O ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de características tipicamente nativas, espanta ao sustentar: se outros pecaram, por que não eu?

Silvio Berlusconi já não vive dias tão felizes. As eleições administrativas realizadas na Itália entre os dias 15 e 16 não favoreceram o seu partido ousadamente chamado Povo da Liberdade.

Praças importantes ficam nas mãos de prefeitos de centro-esquerda e a maior surpresa vem de Milão, a cidade do premier, onde a sua candidata, Letizia Moratti, em busca de reeleição, sai para o segundo turno em desvantagem em relação ao seu adversário, Giuliano Pisapia, esquerdista convicto.

Para tão fervoroso apaixonado pelo poder como Berlusconi, intérprete da ditadura da maioria a enxergar na oposição parlamentar e na Justiça que cumpre seu papel democrático a derradeira manifestação do comunismo, votos são combustível indispensável. Desta vez a colheita encolheu bastante ao registrar derrotas que pareciam impossíveis, de sorte a justificar quem fala de novo na antecipação das eleições políticas.

Berlusconi empenhou-se a fundo na campanha, mas sua retórica, mesmo exposta por uma rede maciça de televisão, não teve o efeito habitual junto a quantos ao elegê-lo envergonharam a Itália não menos do que ele. É lógico supor que as últimas desastradas façanhas do casanova da política italiana pesaram na balança eleitoral.

Berlusconi é exemplar perfeito de quem se lambuza no poder. Porta-se como um sultão e se exibe suas fraquezas não é somente por obra de uma forma de jactância infantil, mas também, e sobretudo, porque certo de que tudo a ele é permitido.

Há nuances entre um abuso de poder e outro. O caso Strauss-Kahn, ao menos segundo meus reflexivos botões, é bem diferente.

Antes de mais nada, dizem eles, como figura proeminente da política e da economia, ao contrário de Berlusconi, Strauss-Kahn é competente, e muito, e cogita de interesses bem diversos daqueles buscados pelo premier italiano.

Que sempre se tratou de um sedutor era sabido, mas seus últimos lances donjuanescos chegam a revelar um traço doentio. Antes de explorar as benesses do poder, ele é vítima de si mesmo, e vai pagar caro por isso.

De outra natureza ainda é o caso do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de características tipicamente nativas, de uma sociedade do privilégio vocacionado para a predação.

O ex-ministro da Fazenda milita em uma categoria que no Brasil apresenta dimensões e tonelagem excepcionais. Os botões, insistentes, me levam a recordar personagens que influenciaram a política econômica brasileira nas últimas décadas, e ficaram ricos, melhor, riquíssimos, depois de deixarem seus cargos.

Estabelecidas sólidas cabeças de ponte dentro dos gabinetes governistas, venderam a peso de ouro conselhos abastecidos pela chamada inside information.

O próprio Palocci incumbe-se de desfiar um rosário de nomes ilustres que o precederam neste gênero de atividade. Sustenta, impávido, a seguinte tese: se eles pecaram, por que não eu?

A despeito de comportamento tão desarmado, não faltam elementos de surpresa, a começar pelo fato de que este desabrido pessoal fala de centenas de milhões como se fossem bagatela em um país tão desigual quanto o nosso.

Capaz, contudo, de incluir quatro ricaços na lista dos cem mais enquanto não há um sequer a representar vários países do chamado Primeiro Mundo. Mas Palocci é um ex-trotskista, militante de um partido que até hoje se pretende de esquerda. E não falta quem acredite…

O desfecho do presente enredo é até imprevisível, mesmo porque o instituto da impunidade continua em pleno vigor. Neste exato instante, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Cesar Peluso, se empenha em busca de um caminho para agilizar a Justiça brasileira.

É esforço louvável nesta nossa terra, onde os ricos não costumam correr o risco de ir para a cadeia e onde um criminoso comum como Cesare Battisti ainda espera pelo asilo político, concedido por um Estado disposto a assinar um Tratado de Extradição com a Itália sem confiar na Justiça deste país, e até a condená-la.

Aliás, o próprio Berlusconi a ataca sem quartel. Meus botões malignamente sugerem que talvez o premier italiano tenha alguma peculiar semelhança com variados esquerdistas brasileiros.

Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Partidos de Massas e de Quadros, por Marcos Coimbra

Todo mundo sabe que nunca houve, em nossa história, um partido como o PT. Isso quer dizer que nunca haverá outro igual?

É certo que, idêntico a ele, não teremos nenhum, pois as condições de seu surgimento e consolidação foram únicas e não se repetirão. Como ensinavam os clássicos, os fatos históricos, quando acontecem pela segunda vez, tornam-se farsa.

Daí não se deduz, no entanto, que partidos políticos com alguma semelhança com o PT sejam impossíveis no Brasil. Porque teriam que ser?

É tradicional, na ciência política, a distinção entre partidos “de quadros” e “de massas”, defendida, no início dos anos 1950, por Maurice Duverger. Embora longe de ser exaustiva, é uma classificação que ajuda a entender os tipos mais relevantes de partidos que existem nas democracias.

Para ele, os partidos de quadros apareceram antes. Formaram-se a partir da reunião de pessoas ilustres, que compartilhavam opiniões e se dispunham a atuar em conjunto na vida política. Enquanto as instituições democráticas modernas, como o sufrágio universal, ainda engatinhavam, eles articulavam individualidades, mas de forma tênue. Sua organização era incipiente, cobravam pouco em termos disciplinares e não eram homogêneos na ideologia.

Caracteristicamente, valorizavam a qualidade e não a quantidade de afiliados. O típico partido de quadros decidia “en petit comité”, em volta de uma mesa (de preferência tomando um bom vinho), deliberando com calma, sem a presença perturbadora das multidões. Neles, “militantes” são figuras retóricas.

Os partidos liberais e conservadores, mundo afora, costumam ser desse tipo. Sua burocracia é irrelevante e serve apenas para assessorar os notáveis. Não existe uma “máquina partidária” que faça exigências.

Partidos de massa, para Duverger, vieram mais tarde, especialmente a partir da expansão do sindicalismo, fenômeno característico do fim do século XIX. Eles nasceram quando grandes contingentes da população perceberam que só conseguiriam atingir metas comuns e alcançar reivindicações através da participação política estruturada. Cresceram com a força da militância.

Seu próprio tamanho fez com que tivessem que ser mais organizados, disciplinados e coesos. Pelas mesmas razões, precisavam de burocracias internas, para fazer funcionar a “máquina” e se dedicar às tarefas de proselitismo e recrutamento de filiados. O tamanho não era tudo, mas era essencial. Tomavam suas decisões em convenções, onde as maiorias tinham que ser (às vezes duramente) construídas.

Não é difícil reconhecer nossos partidos atuais nesses tipos. Na verdade, salvo exceções menores (de partidos que pretendiam ser de massas e que sequer chegaram a ser de quadros, como a quase totalidade dos “nanicos”), o que temos é uma ampla oferta de organizações partidárias de notáveis (ou pseudo-notáveis) e uma só de massas.

Curiosamente, os primeiros estão em dificuldades (salvo os poucos onde o sistema político enxerga haver lideranças emergentes significativas, como o PSB de Eduardo Campos) e o único partido de massas vai bem. Depois de fazer três presidentes, crescer no Legislativo e mostrar que tem cacife para ficar mais tempo no poder, o PT esbanja saúde aos 30 anos.

Ser um partido de massas, em sentido muito próximo do literal, pode não ser a única razão de seu sucesso. Mas o completo desenraizamento dos partidos da oposição, a começar pelo PSDB, é, com certeza, uma das causas de suas dificuldades.

O que fizeram tucanos e companheiros nos últimos 8 anos para mudar a situação? O que tinham feito nos 8 em que foram governo? O que estão fazendo agora? Muita coisa pode ter lhes faltado, mas não o tempo. Nos mesmos 20 anos, o PT virou um partido grande e, para muitas pessoas, um grande partido.

Hoje, na oposição, as discussões são travadas entre opiniões pessoais, na base do “eu acho isso” e “eu acho aquilo”. É assim que encontrarão o Brasil sem voz, que Fernando Henrique quer representar? É possível que o PSDB nunca venha a ser um legítimo partido de massas, mas está na hora de deixar de ser de um partido de quadros tão limitado.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tu já pensou? por Ateneia Feijó

Aprovado pelo MEC, o livro didático "Por uma vida melhor", da coleção "Viver, aprender", caiu na boca do povo. O motivo? A autora Heloisa Ramos considera correto se falar e escrever sem regras gramaticais. Imaginei que o tema seria um prato cheio em conversas apenas entre mestres e professores obedientes à norma culta.

Mas os exemplos lançados no livro, como o "nós pega o peixe", acabaram esquentando tanto a discussão que ela pipocou no meio leigo. A polêmica, contrários versus favoráveis à norma popular nas salas de aula, ficou ainda mais acalorada.

Foi nesse clima que ouvi uma babá e sua colega, que cuidavam de duas crianças numa pracinha, a falar do assunto e de seus próprios filhos estudantes em escola pública:

- Tu já pensou? Só criança de bacana vai ter direito de aprender certo.

- Brincadeira... Não botei minha filha na escola pra ela acabar igual eu!

Depois, ao parar na banca de jornal, fiquei na escuta numa roda de bate-papo. Um papeador insinuou que o livro em questão seria para justificar a falta de cultura do ex-presidente. A politização do tema não seguiu em frente porque um outro contrapôs, dizendo que Lula é "um comunicador popular".

Na verdade, estavam todos mais preocupados com a atitude da garotada daqui por diante. Alguém foi cruelmente taxativo: "Coitada da professora de português!"

A coisa é séria. Muitas vezes o aluno mais criativo e que desenvolve melhor uma redação não tem qualquer reconhecimento. Tira nota baixa e se sente desprezado. Por quê? Porque comete erros gramaticais. Se isso acontece por uma dificuldade originada na falta de instrução de sua família, então ele deveria merecer mais atenção do professor.

Há diferença entre escrever bem e escrever certo. Escrever bem é uma aptidão a ser valorizada e estimulada. Jamais desprezada. Já escrever certo depende de estudo e prática em gramática; a qual se aprende na escola e durante toda a vida. Até como uma forma de ascender socialmente. Falar certo, idem. Pessoas escolarizadas ou autodidatas são as que conseguem se expressar bem e certo.

E a linguagem popular? Caracteriza-se por ser livre, diversa: em regionalismos, dialetos, gírias, internet... Em prosa, verso, cordel, letra de músicas. Também faz parte da ciência linguística.

O livro "Por uma vida melhor" confunde as funções de um linguista com as de um professor de português. Numa sala de aula, um professor tem que ensinar o aluno a gostar de aprender. Ponto. (Sem preconceito.)

Ateneia Feijó é jornalista

Além de Palocci, outros 5 ministros possuem empresas de consultoria

Titulares da Indústria e Comércio, Justiça, Integração Nacional, Portos e Assuntos Estratégicos mantêm em atividade empresas de consultoria; chefe da Casa Civil justificou aumento significativo do patrimônio devido a rendimentos de sua empresa.

Leandro Colon, de O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Pelo menos cinco ministros do governo federal têm empresas de consultoria que continuam ativas em pleno exercício do cargo. Enquanto o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, mudou o ramo de atividade de sua antiga empresa de consultoria, a Projeto, atendendo à recomendação da Comissão de Ética da Presidência, os colegas de Esplanada não fizeram o mesmo. São eles: Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Comércio e Indústria), José Eduardo Martins Cardozo (Justiça), Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), Leônidas Cristino (Portos) e Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional).

Dados da Receita Federal mostram que as empresas em nome desses cinco ministros estão com o registro "ativo" para atividades de consultoria.

Em declaração à imprensa na segunda-feira, 16, o presidente da Comissão de Ética, Sepúlveda Pertence, afirmou que recomendou a Palocci que alterasse o objeto social de sua empresa do ramo de consultoria para o de administração imobiliária.

Na avaliação de Pertence, a descrição "consultoria" era ampla demais e abriria possibilidade de conflito de interesse com um cargo de ministro de Estado - no caso do ministro Palocci, especialmente pelo fato de ele ser chefe da Casa Civil, espécie de núcleo central por onde transitam todas as ações estratégicas do governo.

Nesta terça-feira, 17, procurado pelo Estado por intermédio de sua assessoria de imprensa, o presidente da Comissão de Ética Pública não quis se manifestar sobre os casos dos outros cinco ministros que mantêm empresas de consultoria.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Escritor britânico mostra 'lado obscuro' de João Paulo II: papa corrupto, leniente com a pedofilia e extremamente político

Manuela Andreoni


RIO - A beatificação de Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II, seis anos após sua morte, só não foi mais rápida que a da Madre Teresa de Calcutá, que ocorreu cinco anos depois do falecimento da religiosa, em 1997. Qual o motivo de tanta pressa? Quem responde é o crítico voraz da Igreja Católica, o britânico David Yallop, autor dos livros "Em nome de Deus", que trata da misteriosa morte do Papa João Paulo I, 33 dias após ser proclamado chefe da Igreja, e "Poder e Glória", sobre o lado obscuro do papado do recém-beatificado Karol Wojtyla.
Defensor da tese de que João Paulo I foi assassinado porque queria acabar com a lavagem de dinheiro feita por meio do Banco do Vaticano, que investigou em seu livro, Yallop acredita que Karol Wojtyla, o seu sucessor no comando da Santa Sé, era corrupto, leniente com a pedofilia e extremamente político. Católico, o autor britânico ainda persiste em sua fé e, mesmo discordando do conservadorismo do Vaticano, afirma que até frequenta igrejas, por mais que nunca vá a missa. "É estranho, mas eu acredito no poder da reza", conta.
O que o senhor achou da beatificação de Karol Wojtyla?
Pelos próprios parâmetros do Vaticano, está havendo muita pressa no julgamento disso. De fato, é a primeira vez desde que ele morreu que uma pessoa recebeu o benefício da remoção do que eles costumavam chamar de "advogado do diabo", ou seja, um clérigo sênior que era nomeado para tomar uma posição bem crítica em relação a todas as provas que fossem reunidas para que qualquer pessoa seja considerada para a beatificação. Mas (essa posição) foi abolida, ironicamente por João Paulo II. Então, ele se beneficiou de sua própria decisão. Aliás, este é o homem que criou mais santos no curso de seu papado, de 1978 até 2005, que todos os papas antes dele juntos.
Por que essa pressa?
Do momento em que ele se tornou papa, as mentiras e as desinformações começaram. É dito que ele se comportou de forma corajosa durante a Segunda Guerra Mundial e que salvou as vidas de muitos judeus. Isso não é verdade. E dito que ele sofreu muito durante a guerra, trabalhando em condições de escravo. Isso não é verdade, ele tinha um trabalho assalariado, pago pelo Reich... Eu acho que o Bento XVI foi obrigado a fazer isso pelas pessoas a seu redor. Você lembra quando o João Paulo II morreu, teve aquela grande erupção na Praça de São Pedro pedindo para beatificá-lo imediatamente. Então, com menos de dois meses depois de sua morte, eles já haviam começado o processos. Não se tem notícias sobre algo assim! Mas eu acho que o que eles temiam eram pessoas como eu e das coisas que nós descobrimos e tornamos públicas.
Em seu livro o senhor denuncia a corrupção no Vaticano. O que lhe faz pensar que João Paulo II fazia parte dela?
João Paulo I, Albino Luciani, deixou foi uma série de ações que ele ia começar a implementar, ele ia tirar pessoas do Banco do Vaticano, tirar alguns padres ecardeais corruptos. E ele disse ao seu secretário de Estado, um homem chamado Cardeal Jean Villot, o que ele pretendia fazer e o cardeal ficou muito chateado com isso e ele (João Paulo I) disse que era o papa e podia fazer o que quisesse, e foi para a cama e morreu. E, se ele tivesse vivido, aquelas coisas seriam postas em seus lugares na manhã seguinte. Quando Wojtyla tomou poder, mais ou menos um mês depois, foi falado a ele muito precisamente que mudanças eram essas que Luciani queria fazer, mas ele não queria saber de prosseguir aquele caminho. Então, isso te diz alguma coisa sobre sua reação à corrupção.
Por que ele não mexeu nisso?
Ele tinha uma visão de que a Igreja não lavaria o seu linho sujo em público. Ele dizia que tinha um quarto especial em cada casa, falando solidamente sobre a Igreja Católica, onde as pessoas deveriam ir para discutir esses assuntos e que eles não deveriam deixar aquele quarto, o quarto secreto, como ele chamava.
Mas João Paulo II é aclamado pela comunidade internacional...
Eu não estou dizendo que este homem não fez boas ações, mas ele também fez más ações. Ele encobriu escândalos de pedofilia na Igreja. Foi primeiro chamado à atenção dele em 1984 ou 1985 por três homens, dois deles padres e outro advogado, que estavam muito preocupados com a pedofilia nos Estados Unidos. Eles haviam criado um documento, de 100 páginas, do qual eu tenho cópia, que era o caminho que a Igreja deveria tomar em relação a isso. Este não era um documento que pregava tolerância zero sobre o abuso de crianças. Este era um documento para proteger a Igreja, dizendo "olha, se você não tomar essas providências para impedir os padres que abusam de crianças, você vai quebrar financeiramente". Eles previram que custaria à Igreja algo como US$ 2 bilhões. Falando em número hoje, custou ao Vaticano US$ 10 bilhões, para pagar às vítimas.
Por que a aclamação de seu papado, então?
No momento em que ele morreu, ele era um dos homens mais populares do planeta. O que me deixa muito chocado é que se você pedisse para as pessoas que o ouviram falar para citar qualquer coisa que ele tenha dito, ou como os afetou... Era como se ela tivessem ido a um show de pop. Elas gostavam do espetáculo e depois seguiam com a vida. Lembravam daquele momento porque ele era um homem muito carismático. Ele podia falar mais de 50 línguas - não muito bem, mas o suficiente para falar feliz natal -, mas não escutava em nenhuma. Era um homem muito dogmático.
E o que o senhor acha do papado de Bento XVI até agora?
Eu acho que ele prova que há vida após a morte, porque é como o Papa João Paulo II novamente. Um homem que é rígido, um homem que é tão hostil à homossexualidade, tão hostil aos contraceptivos, hostil a tantas coisas que o senso comum diz... Você tem que voltar ao início de tudo e dar outra olhada. Porque a maioria das coisas que eles apoiam e pregam não tem nada a ver com as origens da fé. Você não achará nada no Novo Testamento que dirá que você não pode ter um relacionamento homossexual.
E o senhor é católico ainda assim?
Eu me descreveria como um católico pensante, representante de uma minoria. A maioria deles não é pensante. Eles estão seguindo porque são treinados, condicionados quando crianças. Existem pedaços da fé, como um estilo de vida, e não estou falando da doutrina e dos dogmas, mas do que Cristo nos ensinou, que são maravilhosos. Mas estamos longe disso agora. Se Jesus Cristo fosse para uma reza agora nos portões de Sant'anna, em Roma, ele não conseguiria passar, seria preso.
E você acredita em milagres?
É estranho, mas eu acredito no poder da reza. Eu já vi funcionar. Mas o negócio dessa mulher que supostamente foi curada por João Paulo II... Eu acho que é uma fantasia. Talvez ela não tenha sido diagnosticada direito para começar.

E ele vai conseguir seu segundo milagre, necessário para a canonização?

Nada é mais certo.

domingo, 8 de maio de 2011

Belos exemplos, sempre seguidos pela maioria....

Promotores elevam vencimentos com 'bolsa-aluguel' e estouram teto salarial
Documentos revelam que em pelo menos 5 Estados o Ministério Público dá auxílio-moradia a todos membros da instituição; muitos recebem mais de R$ 26,7 mil, limite no funcionalismo

Felipe Recondo e Leandro Colon / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
Em Mato Grosso do Sul, os 191 promotores e procuradores recebem salários de R$ 18 mil a R$ 24 mil. Todos ganham mais 20%, entre R$ 3,6 mil a R$ 4,8 mil, como auxílio-moradia. O mesmo ocorre com os cerca de 200 integrantes do MP do Mato Grosso. Em Rondônia, os 120 promotores e procuradores, cujos salários vão de R$ 19 mil a R$ 24 mil, levam no contracheque a "bolsa-aluguel" de R$ 3,1 mil a R$ 4,8 mil.

A documentação revela que os oito promotores inativos no Amapá ganham, além da aposentadoria, o auxílio-moradia. Os demais 75 membros que estão na ativa também têm o benefício.

Transitório. A Constituição estabelece, desde texto aprovado há 13 anos, que promotores não podem receber nada além da parcela única do subsídio mensal. É um salário e mais nada. Uma resolução do Conselho Nacional do MP admite o auxílio-moradia apenas em caráter indenizatório, para ressarcir despesas no exercício da função quando o promotor é transferido de comarca. É, portanto, temporário.

Os documentos do CNMP revelam, no entanto, que a "bolsa-aluguel" virou um dinheiro fixo para os membros do Ministério Público. Até o corregedor do Conselho Nacional, Sandro Neis, recebe a ajuda. Promotor de Justiça em Florianópolis, ele admitiu ao Estado que ganha R$ 2 mil mensais (10% do salário de R$ 20 mil) para moradia na capital de Santa Catarina.


Essa é a realidade : nosso Judiciário é tão leviano, ladrão, aproveitador e cafageste como nosso Congresso. Diáriamente há notícias ruins sobre algum dos orgãos da justiça. Pobre Brasil. Nas mãos desses gangsters de cabelos pintados ( e mal pintados) vamos ter que dar duro, ainda. Nossos impostos? Metade para eles, metade para nós, o povo. Os cafonas precisam de dinheiro para a pintura dos cabelos, para os ternos de bom corte, para as horríveis gravatas e para as compras da madame. Esqueci o carrão e as férias dos filhos ou netos na Disney.

sábado, 7 de maio de 2011

Demora em definir cargos abre guerra na base

Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo
Lista dos insatisfeitos. A cúpula do PT apresentou ao governo 104 nomes para o segundo escalão, mas ainda não obteve sinal de que a fila vai andar.

Dilma prometeu a Eduardo Campos que ele apadrinharia o novo presidente da Chesf. Além dos socialistas, ela também tem driblado o PT e o PMDB, sob o argumento de que os melhores nomes serão acomodados "no momento adequado". Enfurecido, o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), foi reclamar com o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), e com o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. "Assim não dá para segurar", disse, referindo-se aos peemedebistas que, insatisfeitos, ameaçam dar o troco em votações no Congresso.

Também estão no radar dos aliados empresas como Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), Eletronorte e Eletrosul, além da Sudene e do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs).

O desempregado mais ilustre do PMDB é o ex-governador da Paraíba José Maranhão. No PT, a lista inclui a ex-governadora do Pará Ana Júlia Carepa, os ex-ministros Patrus Ananias e Altemir Gregolin e as ex-senadoras Fátima Cleide e Emília Fernandes. Desde que voltou da viagem à China, Dilma não reabriu a discussão sobre cargos. Pior: no Planalto, a ordem é fazer as nomeações a conta-gotas. A estratégia é chamada de "política do tensionamento", para obrigar os partidos a ceder nas exigências.
Comentario---deve ser intriga da oposicao....O PT foi fundado CONTRA as boquinhas.........ou estara a-fundado....

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Obama fez o gol que Carter tomou,Elio Gaspari, O Globo

Os dois homens mais procurados nos últimos 100 anos foram Osama bin Laden e Adolf Eichman. O gerente dos campos de extermínio nazistas foi achado na Argentina por um cego, e o chefe da al-Qaeda escondia-se no Paquistão numa fortaleza que só um cego não via.

Convertendo o cenário para o Brasil, Bin Laden vivia em Resende, na serra fluminense, a quinhentos metros da Academia Militar das Agulhas Negras. Sua casa era oito vezes maior que as propriedades da vizinhança e estava cercada por um muro de quatro metros de altura.

Afora essa excentricidade, um vizinho mais curioso poderia ter percebido que ela não produzia lixo. Se procurasse identificar o morador, saberia que a propriedade não tinha telefone nem cabo de internet.

É preciso muita boa vontade para se acreditar que Bin Laden não dispunha de algum tipo de proteção do poderoso aparelho de segurança paquistanês. Tanto para ele como para o governo americano teria sido muito melhor se tivesse morrido numa caverna de Tora Bora.

O terrorista preservaria a aura de ascetismo e os americanos ficariam livres da embaraçosa exposição dos militares paquistaneses como um aliado corrupto e traiçoeiro. Eles formam uma casta equipada com algumas dezenas de bombas atômicas.

Serão necessárias algumas semanas para que se saiba exatamente como os quatro helicópteros americanos chegaram a Abbottabad e o que sucedeu dentro da casa.

A cabeça do terrorista valia US$ 27 milhões em prêmios. Em menos de 48 horas derreteram-se as histórias segundo as quais Bin Laden estava armado e usou as mulheres como escudos.

Houve tiroteio com guarda-costas? O governo americano levou meses para reconhecer que Che Guevara foi executado por militares bolivianos com o beneplácito da CIA. De qualquer forma, jogando-se o corpo de Bin Laden no mar, queimou-se o arquivo.

Como 24% dos americanos acreditam que Obama é um muçulmano enrustido e 7% acham que Elvis Presley está vivo, será natural que milhões de pessoas vejam nessa história mais uma lorota do Grande Satan.

A operação que matou "Geronimo" entrará para a galeria da audácia militar. Vai-se saber como operava o agente que campanava a propriedade em Abbottabad e registrou a chegada do Suzuki branco do pombo-correio.

(No início dos anos 90 um agente da CIA vigiou um sujeito em Kartum, no Sudão. Ele só veio a saber que era o terrorista Carlos, o "Chacal", quando o capturaram.)

Obama presidiu com absoluto sucesso uma operação que, em ponto bem menor, assemelha-se ao desastre que marcou a humilhação do poderio americano.

Em 1979, a milícia iraniana ocupou a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e aprisionou seus 52 funcionários. Um ano depois, o presidente Jimmy Carter autorizou uma ambiciosa operação militar. Seis helicópteros deveriam baixar nos jardins da embaixada e um comando libertaria os reféns.

Deu tudo errado. Pegaram até tempestade de areia, um helicóptero explodiu e a tropa regressou, para glória do aiatolá Khomeini.

Meses depois, Carter perdeu a reeleição para Ronald Reagan e o partido democrata ralou doze anos de amargura. O que era errado para Carter deu certo para Obama.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O gerente do mensalão roubou muitos milhões, mas é uma caixa-preta barata

“Ele segurou tudo calado”, disse tudo em quatro palavras a senadora Marta Suplicy. Os Altos Companheiros ainda caçavam explicações menos cafajestes para a volta de Delúbio Soares ao PT e se enredavam nos palavrórios costurados para justificar a invenção da expulsão temporária quando Marta, com a sinceridade de primeira-dama das estrebarias e a arrogância de granfina quatrocentona, foi direto ao ponto. Já passara da hora de absolver e homenagear o companheiro que poderia, se quisesse, transformar-se na versão brasileira do mafioso italiano Tommaso Buscetta.

Preso no Brasil e devolvido à Itália em 1984, Buscetta ganhou a delação premiada para contar o que sabia sobre as ligações entre a máfia e políticos de alta patente. Extraditado para os Estados Unidos, fez outro acordo com a Justiça americana: em troca da inclusão no programa de proteção a testemunhas, enfileirou revelações que resultaram no desmonte da “Conexão Pizza”, codinome da rede de tráfico de drogas controlada pela máfia de Nova York, e na condenação de 22 chefões a longas temporadas na cadeia.

Só o depoimento na Itália demorou 45 dias. Se resolvesse abrir o bico, Delúbio Soares teria assunto para algumas semanas. A primeira das duas partes do interrogatório seria reservada ao esclarecimento das maracutaias colecionadas pelo depoente no Fundo de Amparo ao Trabalhador, onde agiu entre 1994 e 2000. Escolhido por Lula e José Dirceu para representar a CUT no FAT, foi ali que o companheiro recrutado no PT goiano aprendeu o ofício de gatuno. Nos seis anos seguintes, o medíocre professor de matemática especializou-se em multiplicar milhões mal explicados, dividir o produto do roubo, somar bandalheiras e reduzir as dívidas do partido com quantias de embasbacar banqueiro suiço.

A segunda parte do depoimento mostraria o meliante em ação entre o começo de 2000 e julho de 2005, período em que acumulou as funções de tesoureiro do PT e gerente do mensalão. Nesses cinco anos, entre uma reunião do partido, um animado reveillon na casa de praia de Marta Suplicy e uma visita ao Planalto para dois dedos de prosa com o amigo Lula, Delúbio fez coisas de que até Deus duvida ─ mas muitos petistas cinco estrelas testemunharam, endossaram, esconderam ou ajudaram a executar.

Em parceria com o vigarista Marcos Valério, “nosso Delúbio”, como Lula a ele se referia, mostrou do que é capaz um fora-da-lei vocacional. Esvaziou cofres públicos e privados, extorquiu empresários, financiou dezenas de candidaturas com dinheiro sujo, negociou empréstimos bancários ilegais, estuprou a legislação eleitoral, subornou meio mundo, montou um balcão de compra de votos nas catacumbas do Congresso, lavou pilhas de dólares em contas no Exterior, burlou a Receita Federal, cometeu perjúrio e reduziu o templo das vestais de araque a um cabaré devotado à exploração do lenocínio político.

Pilhado em flagrante no centro do pântano colossal, Delúbio só usou a voz pastosa de quem almoçou arroz com Lexotan para informar, em exasperantes performances na CPI, que nada diria. Expulso do partido, retirou-se para o interior de Goiás e renovou o voto de silêncio. Começou a preparar a volta quatro anos mais tarde, quando recordou aos companheiros, numa carta-aberta, que não agira por conta própria nem solitariamente. “Não fui um alegre, um néscio, um ingênuo”, escreveu. “Aceitei os riscos da luta. Mas não fui senão, em todos os instantes, sem exceção, fiel cumpridor das tarefas que me destinou o PT”. O recado foi claro: fez o que mandaram que fizesse, cumpriu ordens, atendeu a encomendas, e sempre com a ajuda de comparsas. Houve, portanto, cúmplices e mandantes.

Mandantes e cúmplices acharam prudente reintegrá-lo à seita o quanto antes. Se pudessem, esperariam o julgamento no Supremo Tribunal Federal do processo em que Delúbio, soterrado por um himalaia de provas, é acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha. Preferiram antecipar um dos atos mais repulsivos do interminável espetáculo do cinismo para livrar-se de espasmos de ressentimento. Além do mais, ele sempre pediu pouco para não cair em tentação. Como tem o DNA do PT, queria apenas recuperar o direito de conviver publicamente com a turma. Delúbio Soares faz questão de andar em má companhia.

O gerente do mensalão roubou muitos milhões. Mas cobra um preço baixo pela mudez. É uma caixa-preta barata.

O Brasil dos fatos e das versões, segundo a Sapataria Cavalcante

Sandra Cavalcanti - O Estado de S.Paulo
Tem sido assim desde o começo da nossa História. É incrível como nossa trajetória é contada! Quem se debruça sobre os fatos fica escandalizado com a diferença entre eles e as suas "consagradas versões".

Esse comportamento fraudulento faz com que, em nosso país, todo historiador seja levado a trabalhar como um arqueólogo, que tem de cavar, raspar poeiras, decifrar hieróglifos e tentar entender os obscuros textos dos pergaminhos. Sempre na busca da verdade dos fatos.

Para alegria nossa, o Brasil tem sido presenteado com obras estupendas, realizadas por excelentes pesquisadores. Eles têm conseguido divulgar um conhecimento cada vez mais correto dos fatos da nossa História. E essa tarefa saneadora de desmitificação das versões tem alcançado enorme sucesso de vendas para as editoras.

Está claro que obras desse padrão não constarão jamais da lista dos livros adotados pelos técnicos ideológicos do Ministério da Educação (MEC). Para eles, quanto mais os brasileiros forem enganados pelas versões oficiais, melhor para a turma que comanda o atraso de nossa formação cultural.

Mas não é apenas nos livros "oficiais" que a nossa História é deturpada. Fazem parte dessa lavagem cerebral os demais instrumentos de comunicação dependentes do governo. Rádios e TVs, oficiais ou agregados. Todos subvencionados generosamente, à custa dos nossos impostos. No nosso dia a dia somos bombardeados pelas versões que o Planalto divulga sem cessar. Informações erradas, dados falsificados, episódios distorcidos, explicações mentirosas, enfim, um povo tratado como se todos fossem idiotas e sem nenhum espírito crítico.

Veja-se agora o que está acontecendo com o famoso episódio do mensalão do PT. Já está quase esquecido! Foi, no entanto, o mais vergonhoso episódio ocorrido em nossa História recente. Um plano frio, cínico, típico de um grupo que só tinha um objetivo em suas supostas lutas pela ética e pela moralidade: chegar ao poder e se vingar. Vingar de quê? Os autores desse plano eram, e ainda são, indivíduos ressentidos, cheios de raiva contra as "elites" - letradas, bem alimentadas, patrões e chefes. Para eles, chegar ao poder era a suprema desforra.

Esse tem sido sempre o sentimento da esquerda sem estudos, valores e visão do mundo. Entre uma esquerda raivosa e uma direita sem escrúpulos, o entendimento sempre se dá muito bem.

A chegada de Lula ao poder mostrou que essa é a mentalidade deles. Para ganhar a eleição tinha de mudar o discurso? Era preciso mudar a rota? O PT não teve dúvidas: mudou.

Mudou, mas chegou ao Planalto com as mesmas disposições de antes. E mesmo usando as receitas do governo anterior, tratou de vender ao País a ideia de ter recebido uma "herança maldita". Sempre o mesmo processo de criar versões, apagar os fatos e vender uma "nova História" ao Brasil.

Quando foram apanhados roubando recursos públicos, espalharam que aquilo teria sido um simples "caixa 2". Não foi! A Justiça definiu-o como crime de formação de quadrilha. São 38 réus no processo. Nestes seis anos, a versão vai vencendo. A quadrilha do mensalão está de volta ao poder, inocentada pelos seus eleitores. A última cartada da versão já está na mesa: em agosto prescreve o crime. Se a denúncia criminal não for feita até lá, teremos uma nova derrota dos fatos.

A desenvoltura dos integrantes da quadrilha do mensalão e da quadrilha do dossiê contra José Serra já vem despertando muitas suspeitas. Os réus andam muito à vontade nos palácios. Muitas declarações, muitas aparições públicas, muitas articulações, enfim, muita recuperação de terreno. Tudo isso leva a crer que está em marcha uma grande manobra para tornar vitoriosa a versão criada pelo então presidente Lula: "O mensalão não existiu. Foi tudo armação da oposição"!

Colocar o mensaleiro João Paulo Cunha na presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados é mais do que um acinte, é uma ameaça para constranger o Supremo Tribunal Federal. A presença desenvolta de José Dirceu nos acontecimentos recentes e o seu evidente prestígio junto à ocupante da Presidência da República, tudo isso é uma sinalização mais do que evidente. Das tentativas feitas para apagar fatos e divulgar versões, essa de Lula é a mais ousada de quantas têm marcado o comportamento dos líderes petistas.

Há dias a Polícia Federal conseguiu terminar o seu relatório a esse respeito. Entregou o penoso e bem feito trabalho ao procurador-geral da República. Está, pois, nas mãos dele ajudar na luta entre os fatos e as versões.

Tenho medo. O mês de agosto não me traz boas recordações. A tentativa de assassinar Carlos Lacerda. A morte do major Rubens Vaz. O suicídio de Getúlio Vargas. Anos depois, também em agosto, a renúncia jamais explicada, e jamais entendida, de Jânio Quadros. Renúncia que abriu para Brizola e Jango a tentação de, por golpe e com o apoio de pequeno grupo militar, implantar aqui uma República sindicalista, com a ajuda de Cuba e da Rússia. Se não fosse o patriotismo da maior parte das nossas Forças Armadas, em 31 de março de 1964 o Brasil teria dado um dos passos mais tristes de sua História.

Mas a tradição de criar versões e negar os fatos não muda. A mídia tem passado os últimos tempos divulgando exatamente o contrário da realidade. Na maioria das reportagens, os fatos cederam às versões. Os golpistas Jango e Brizola são saudados como legalistas. Os legalistas, que seguiram Castelo Branco e impediram o golpe, são apontados como golpistas. As Forças Armadas nem podem mais comemorar o 31 de Março!

Que agosto não nos traga desgosto. Vamos ver o que acontece com os "heróis" do mensalão...

PROFESSORA, JORNALISTA, FOI DEPUTADA FEDERAL CONSTITUINTE, FUNDOU E PRESIDIU O BNH NO GOVERNO CASTELO BRANCO----E-MAIL: SANDRA_C@IG.COM.BR

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A fossa e o fosso, por Mary ZAIDAN

A nova rodada de resultados do Censo 2010 derrama baldes de água fria na disputa pela nova classe média. É fato que houve mobilidade social, mas a maior parte dos brasileiros continua pobre e sem acesso a condições dignas de vida. Isso, nua e cruamente, é o que revela o IBGE.

Com números oficiais que não comportam paixões partidárias ou ideológicas, o Brasil se assemelha mais a países do mundo subdesenvolvido do que ao planeta dourado que o ex-presidente Lula e sua sucessora tentaram e ainda insistem em vender.

Os dados do IBGE indicam que a renda domiciliar per capita de 56,3% do universo de 57,3 milhões de residências pesquisadas é de até um salário mínimo referenciado em R$ 510. Em 9% não passa de R$ 127, em 18,4% é de até meio salário. A faixa mais dilatada, de 21%, fica entre um e dois mínimos.

A partir daí decresce vertiginosamente. Cai para 7% entre dois e três mínimos e para 5,1 % acima de cinco salários.

No vetor domiciliar per capita, o IBGE considera a divisão do rendimento pelo número de moradores do local, incluindo empregados domésticos, informais e crianças. Mais de 130 mil desse último grupo chefes e arrimo de família. Algo nada alentador para um país que pretende colocação entre os 10 primeiros.

Os indicadores são alarmantes. A coleta de esgoto não chega a 45,5% das residências. E a expansão dos serviços só anda para trás: pela série histórica, o volume de novas ligações diminuiu quase 5 pontos percentuais na última década.

Nesse ritmo, a universalização só aconteceria daqui a 60 anos. Sem canos enterrados, coleta e tratamento de esgoto, não dá para pensar em programas eficazes de saúde pública.

No Nordeste, dos 14,9 milhões de domicílios pesquisados, quase 10 milhões estão fora da rede de saneamento básico. No Norte, a coleta chega a apenas 13,9% dos domicílios.

Pior: dos 3,9 milhões de moradias, 2,4 milhões despejam dejetos em buracos ou diretamente em córregos e rios. Não contam nem com fossas sépticas.

Mais absurdo ainda é constatar que 3,5 milhões de brasileiros não têm sequer um cômodo, interno ou externo, uma parede ou uma simples cortininha, algo que possam chamar de banheiro, com um vaso sanitário.

Na outra ponta, 3 milhões têm três banheiros, 1, 2 milhões quatro ou mais, escancarando o tamanho do fosso.

Governos, políticos e seus partidos deveriam mirar os números parciais do 12º Censo, e, antes de se digladiarem pelos votos dos novos médios, intensificar, e muito, a luta para que eles tenham um mínimo de dignidade.

Eliminar o fosso que condena a muitos a não ter nem mesmo uma fossa.


Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan